sábado, 10 de janeiro de 2015

FILOSOFIA XV - 4



EUROPA (1900 a 2014).

Áustria e Sérvia mobilizaram suas tropas e entraram em guerra (1914). Ao lado da Áustria e Hungria se posicionaram: Alemanha, Turquia e Bulgária. Ao lado da Sérvia se posicionaram: Rússia, França, Inglaterra e Itália. As demais nações européias foram engolfadas no conflito. As alianças indicavam que a guerra seria longa. Transcorridos três anos, com os olhos postos nos seus interesses econômicos ultramarinos, os EUA entram na guerra, solidários com a Inglaterra e contrários à Alemanha (1917). Bastou notícia da aliança secreta entre a Alemanha e o México e da campanha de submarinos alemães contra navios mercantes, para o governo dos EUA decidir participar ativamente da guerra. Embora o exército americano fosse menos preparado do que o inimigo, a desvantagem era compensada pela economia americana superior à economia alemã. O Brasil alinhou-se com os adversários da Alemanha e lhes deu apoio logístico sem enviar tropas.

No último ano da guerra, a concentração de esforços na indústria de material bélico em detrimento da produção agrícola gerou enorme escassez de alimentos na Alemanha. Coragem e heroísmo individuais, houve dos dois lados, alternados com pausas de desânimo ante a carência de recursos. A superioridade da produção industrial e da força econômica foi decisiva a partir do ingresso dos EUA no conflito. Enquanto a Inglaterra e seus aliados gastaram 57 bilhões de dólares e mobilizaram 40 milhões de soldados, a Alemanha e seus aliados gastaram 24 bilhões de dólares e mobilizaram 25 milhões de soldados. Somando as perdas humanas dos dois lados, chega-se a 10 milhões de mortos em combate, 7 milhões de  incapacitados e 15 milhões de feridos. Morreram 5 milhões de civis não combatentes, sem contabilizar os cadáveres russos. As perdas materiais foram enormes: centenas de milhares de casas destruídas, fazendas e florestas incendiadas, rebanhos dizimados, terras inutilizadas para agricultura por minas e obuses não detonados, fábricas, rodovias, ferrovias e linhas telegráficas explodidas. A essas perdas acrescentaram-se as de navios, submarinos, tanques e demais equipamentos e armamentos de guerra. O prejuízo das nações européias representou lucro para outras nações distantes do cenário da guerra, como África do Sul, Austrália, Brasil, Canadá, EUA, Índia, fornecedores de matéria prima e bens de consumo. Terminada a guerra, acelerou-se o desenvolvimento econômico e tecnológico da Europa na década seguinte.    

Os delegados do governo alemão assinaram o armistício em 11.11.1918. A Alemanha assina o Tratado de Versalhes em 28.07.1919; aceita os termos da paz ditados pelas três potências: EUA (presidente Woodrow Wilson), Inglaterra (primeiro-ministro David Lloyd George) e França (primeiro-ministro George Clemenceau). A Alemanha se comprometia a entregar: (1) à França: a Alsácia + Lorena, as minas de carvão da Bacia do Sarre; (2) à Bélgica: Eupen e Malmedy; (3) à Dinamarca: o norte de Schleswig; (4) à Polônia: grande parte de Posen e da Prússia Ocidental; (5) à Inglaterra, França e Bélgica: armas, submarinos, navios mercantes, gado, carvão, máquinas e material de construção. Além disto, a Alemanha devia pagar vultosa indenização por perdas e danos, reduzir seu efetivo militar e não produzir nem utilizar naves de guerra. Os aliados da Alemanha também assinaram tratados de paz em separado (Áustria, Hungria, Bulgária e Turquia). Em todos os tratados mencionava-se o respeito às decisões da Liga das Nações fundada pelos vencedores na Conferência de Paris. Dissolveram-se os impérios dos Habsburgo, dos Hohenzollern e dos Romanov. Surgiram novos Estados com soberania territorial e nacional: Finlândia, Estônia, Letônia, Lituânia, Polônia, Iugoslávia e Tchecoslováquia. O horror da guerra chegara ao fim, porém, começa uma epidemia de gripe que dizimou parte da população.

A conflagração de 1914 foi produto do chauvinismo, conseqüência das ambições de prestígio nacional, da competição por mercados e oportunidades de aplicação do excedente financeiro, dos rancores antigos entre as nações, dos temores que impulsionam a corrida armamentista. Esse conjunto de fatores pressiona mentes e inflama corações de governantes e governados predispondo-os a soluções drásticas. As nações, em estado de natureza, seguiam a política exterior que mais conviesse aos seus interesses. Inexistia autoridade superior para resolver suas contendas ou refreá-las. A situação era de anarquia internacional. Ao sentir-se forte, o Estado se achava no direito de invadir qualquer porção do planeta, se isto lhe conviesse, sem dar satisfação a ninguém. Os governos da Inglaterra e da França afirmam cinicamente que a guerra é um esforço para salvaguardar os direitos dos fracos e manter a supremacia do direito e da moral. Comportavam-se hipocritamente como se estivessem numa cruzada contra as forças do mal para assegurar a democracia, a liberdade e a justiça no mundo. Legisladores passaram a incluir matéria social e econômica no ordenamento constitucional dos seus Estados. Nisto, o México foi pioneiro (1917), seguido da Rússia (1918) e da Alemanha (1919). Ao regular a tríplice ordem – política, econômica e social – o documento escrito expressava a Constituição do Estado e da Sociedade. Daí a disputa interna entre os grupos mais influentes, em cada país, pelo poder constituinte, posto que tal poder lhes rende o ensejo de ditar as normas fundamentais do Estado e da Sociedade em sintonia com as suas ideologias e os seus interesses privados.

Rosa Luxemburgo (1871 a 1919), polonesa, escritora, participou da fundação do Partido Social Democrata Polonês (1893). Ingressou no Partido Social Democrata Alemão e se opôs aos moderados (1898). Entrou para o movimento contrário ao domínio da Polônia pela Rússia (1905). Fugiu para a Suíça em decorrência dessa militância. Ao regressar à Polônia em plena revolução é presa (1906). Libertada no mesmo ano, homizia-se em Kulala (Finlândia). A seguir, viaja para a Alemanha e participa do Congresso do Partido Social Democrata. Em Londres, na Conferência do Partido Social Democrata Russo, Rosa, oradora vibrante, apóia a facção bolchevique (1907). Na II Internacional Socialista, realizada em Stuttgart, ela apresenta, em parceria com Lênin, proposta contrária à guerra, parcialmente aprovada pelo congresso (1907). Contestando Lênin, Rosa sustentava que o instrumento mais importante da revolução proletária eram as greves da massa e não a vanguarda organizada. No curso da primeira guerra mundial ela é presa em razão das suas idéias e militância política. Com o propósito de derrubar o governo imperial alemão e instaurar uma república comunista, Rosa e Karl Liebknecht fundaram a Liga Espartaquista e um partido comunista (1915 e1918). Na revolta espartaquista ela é capturada, interrogada, assassinada e seu corpo lançado no canal Landwehr (Berlim, 1918 a 1919). Na prisão, ela escreve “A Revolução Russa”, discorda dos rumos da burocracia totalitária, como se percebe do seguinte excerto: “A liberdade é sempre a liberdade de quem pensa de maneira diferente. A ditadura do proletariado deve ser obra da classe e não de uma pequena minoria dirigente em nome da classe. Sem eleições gerais, sem liberdade irrestrita de imprensa, reunião e discussão, algumas dezenas de dirigentes do partido comandam e governam. Entre eles, na verdade, a direção está nas mãos de uma dúzia de homens; uma elite escolhida na classe operária é de tempos em tempos convocada para aplaudir os discursos dos chefes e votar por unanimidade as resoluções que lhe são apresentadas”. Antes disto, ela escrevera “O Socialismo e as Igrejas – o Comunismo dos Primeiros Cristãos”, libelo contra o clero cristão e a cumplicidade da Igreja com o Estado em desfavor da classe trabalhadora (1905). Como prova da opção do clero católico e do clero protestante pelos poderosos, ela cita a postura política dos padres contrária aos interesses dos trabalhadores e o episódio de Lutero contra os camponeses. Rosa censurava os padres que exortam os trabalhadores a se conformarem com a pobreza e a suportarem a opressão com humildade e paciência. O clero usa o púlpito para propaganda política e se afasta da doutrina de Jesus Cristo que pregava a comunhão de bens, a partilha da riqueza, o princípio ético igualitário. No sentir de Rosa, inimigo mortal dos trabalhadores é todo aquele que – esteja de batina ou de farda – favorece o regime de miséria da classe trabalhadora. Os trabalhadores devem se organizar e se defender do governo czarista que os mata e do aparelho repressivo do capital que os empobrece. A social democracia advoga ampla liberdade de consciência e tolerância a quaisquer fé e opinião, afirmava essa valente e admirável mulher.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

FILOSOFIA XV - 3



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

O sistema de alianças múltiplas implantado por Bismarck com fins econômicos e pacíficos acabou por ampliar uma guerra local (Áustria x Sérvia) para um conflito mundial (1914 a 1918). Este conflito foi o caldo de cultura da segunda guerra mundial: imperialismo, nacionalismo, corrida industrial e armamentista, concorrência comercial selvagem, protecionismo econômico. Inglaterra e França ficaram apreensivas com o estupendo desenvolvimento industrial da Alemanha: produção de ferro, de substâncias químicas, anilinas e instrumentos científicos que inundaram o mercado internacional, além das maiores empresas de navegação do mundo. Rússia e Áustria pretendiam monopolizar o comércio com a Sérvia, Romênia, Bulgária e Grécia. Os alemães convidaram os ingleses e franceses para se associarem na construção da estrada de ferro que ligaria Berlim a Bagdá. Os empresários ingleses e franceses aceitaram o convite, mas os respectivos governos impediram o negócio. A Rússia pressionou o governo francês porque não lhe interessava ver o território turco atravessado por aquela ferrovia. Os magnatas da navegação pressionaram o governo inglês porque a ferrovia ameaçava os seus lucros. Sozinha, a Alemanha construiu a estrada, para descontentamento daquelas potências e admiração das outras nações.

A Sérvia pretendia unir os povos da mesma raça que compartilhavam a mesma cultura (eslavos); alguns viviam na Bósnia e na Herzogovina que, na época, eram províncias turcas; outros eram croatas e eslovacos habitantes das províncias meridionais do império austríaco. A Áustria anexou a Bósnia e a Herzogovina ao seu império (1908). A Sérvia assesta baterias contra esse império com o objetivo de atrair a simpatia dos eslavos e anexar os respectivos territórios. As intrigas e conspirações culminaram com o assassinato do herdeiro do trono austríaco (08/06/1914). Os adeptos do pan-eslavismo, política oficial do governo russo, auxiliaram os nacionalistas sérvios. Segundo a doutrina do pan-eslavismo, todos os eslavos da Europa oriental constituíam uma só e grande família. Por ser o mais poderoso Estado eslavo, a Rússia se comprometia a proteger as suas irmãs dos Bálcãs. Sérvios, búlgaros e montenegrinos contavam com esse apoio na luta contra a Áustria e a Turquia.

Bismarck se desentendeu com o kaiser Guilherme II e foi afastado da chancelaria (1890); o seu sistema desintegrou-se (1890 a 1907). Ao entendimento entre dois países, sem caracterizar aliança, convencionou-se chamar de entente cordiale. Rússia e França celebraram acordo secreto de ajuda militar mútua (1894). França e Inglaterra combinaram a repartição de territórios africanos (1904). Inglaterra e Rússia combinaram a repartição do território da Pérsia (1907). Esses acordos bilaterais contrapunham-se à Tríplice Aliança: Alemanha + Áustria + Itália (1882). O pan-eslavismo provocou o rompimento das relações entre a Rússia e a Áustria. A diplomacia alemã apoiou a Áustria. Os negócios financeiros entre a Rússia e a França abriram caminho para um acordo político. A Itália se desinteressa da Tríplice Aliança quando percebe que o republicanismo francês afastara a ameaça de uma intervenção da monarquia francesa em favor do papa. Além disto, os italianos esperavam o apoio da França para conquistar Trípoli. A Alemanha sentiu-se isolada, cercada de inimigos. Considerando a Alemanha comum inimiga, os civis e militares franceses colocaram de lado sua rivalidade interna (da qual o caso Dreyfus foi o mais notório exemplo). Os empresários franceses desenvolveram instituições financeiras, a indústria do aço, de aviões e automóveis (Peugeot, Renault, Michelin); construíram novas fábricas e ferrovias e investiram bilhões de dólares no exterior (Turquia, Bálcãs, China, 1914). Entretanto, a concorrência alemã era fortíssima. O potencial industrial alemão era superior ao francês. A produção alemã de carvão, aço, ferro, superava a francesa. O potencial militar alemão era superior ao francês. Todavia, na ótica francesa, o mais importante era o número de divisões de tanques e soldados disponíveis de imediato e não o tamanho da indústria alemã e tampouco os milhões de recrutas de que a Alemanha pudesse dispor.

Com seu vasto império em todos os continentes, a Inglaterra construiu um poderio econômico e militar que desequilibrou as forças mundiais no período que antecedeu a guerra de 1914. A Alemanha e os EUA cresciam rapidamente e ultrapassaram a Inglaterra em termos de força industrial ainda na primeira década do século XX. Desde então, a força econômica, política e militar da Inglaterra tem sido menor em relação a essas duas e a outras nações, como a China e Rússia nos dias atuais. O efetivo militar russo no início da primeira guerra mundial era superior ao dos outros países. A rede ferroviária e a produção petrolífera e industrial da Rússia (bélica, têxtil, química, elétrica, metalúrgica, mineira, madeireira) cresciam em ritmo acelerado, embora aquém da Alemanha, da Grã-Bretanha e dos EUA. A sociedade russa ainda era basicamente camponesa. O impulso de modernização na Rússia era dado pelo Estado. O objetivo era se firmar como grande potência européia. Os gastos com educação e saúde eram bem menores do que a verba destinada às forças armadas. De 1912 a 1914, cresceu em ritmo alarmante a incidência de greves, protestos coletivos, prisões e assassinatos naquele país, prenúncio da revolução que iria modificar o paralelogramo de forças no planeta e gerar um mundo bipolar.  

Ante o passado e a distância que dele nos encontramos, podemos deduzir que as potências européias estavam ansiosas por confronto bélico. “Queremos glorificar a guerra – a única higiene do mundo” (proclamação de Paris contida no Manifesto Futurista de 1909). Subjacente à movimentação diplomática, estava o anseio por guerra, por demonstração de força, por extroversão de recalques. Os acordos secretos denotavam a intenção de formar coalizões fortes. Inglaterra, França e Rússia celebraram acordos de cooperação no caso de guerra contra a Alemanha. [No seu grego e excelso linguajar, Platão, o filósofo divino, já ensinava: invejapolis bostapoulos est]. A divergência ideológica entre a burguesia francesa e o regime czarista não impediu o acordo entre a França e a Rússia. Horizonte escuro anunciava a borrasca. A disputa pelo monopólio do comércio no Marrocos deixou ressentimentos entre a França e a Alemanha. Os franceses se diziam vítimas de chantagem que os obrigara a entregar aos alemães o valioso território do Congo. Os alemães diziam que a cessão do Congo era insuficiente para compensar a perda das riquezas do Marrocos (produtos agrícolas, ferro, manganês e vantagens comerciais). Uma nesga de terra marroquina fronteiriça a Gibraltar ficou para a Espanha e o resto ficou para a França. Marrocos se tornou província francesa.

Em represália às atrocidades praticadas contra os eslavos, a Sérvia, Bulgária, Montenegro e Grécia formaram a Liga Balcânica e atacaram a Macedônia sob domínio turco (1912). A Liga saiu vitoriosa. Na conferência de paz, a Áustria interveio em favor da independência da Albânia, cujo território fora prometido à Sérvia antes do conflito. Isto azedou mais ainda as relações entre Áustria e Sérvia. O imperador da Áustria, Francisco José, estava octogenário. Esperava-se a sucessão no trono para breve. O arquiduque Francisco Fernando, futuro sucessor, planejava unir os eslavos aos húngaros e austríacos sob monarquia tríplice. Os sérvios nacionalistas, que almejavam a união dos povos eslavos, eram contrários ao referido plano e decidiram eliminar Francisco Fernando antes que ele se tornasse imperador. Quando esse príncipe visitava Saravejo, capital da Bósnia, a sentença de morte ditada pelos conspiradores foi executada por um estudante. O rastilho foi aceso.

A Áustria assina o prazo de 48,00 horas para a Sérvia responder a um ultimato que exigia: (1) a suspensão dos jornais contrários à Áustria; (2) a extinção das sociedades secretas; (3) a exclusão, do governo e do exército, das pessoas culpadas de propaganda contrárias à Áustria; (4) a aceitação da colaboração das autoridades austríacas para eliminar o movimento subversivo contra o império austríaco. No prazo assinado, a Sérvia respondeu a essas e a mais sete questões restantes. A Áustria declarou insatisfatória a resposta. O barril de pólvora explodiu.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

FILOSOFIA XV - 2



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

No século XX, houve duas guerras mundiais, ambas iniciadas na Europa, além de guerras regionais (Argélia, Coréia, Espanha, Indochina, Oriente Médio, Vietnã), revoluções (russa, chinesa, cubana, africana, iraniana, latino-americana) e genocídios (Auschwitz, Bálcãs, Camboja, Hiroshima, Líbano, Nagasaki, Palestina, Ruanda). A natureza e o destino da sociedade européia foram temas gerados pela dupla revolução (francesa e industrial) que espelhou as virtudes e os vícios dos seus defensores. Em seu jornal, Marat dizia: a maioria dos legisladores é de velhacos manhosos, charlatães indignos, de homens corruptos, astutos e pérfidos; a Assembléia Nacional é composta, quase em sua totalidade, de antigos nobres, prelados, togados, cortesãos, oficiais, juristas, homens sem alma, sem bons costumes, sem honra, sem pudor, que por condição e princípio eram inimigos da revolução.

O nacionalismo foi poderosa energia constituinte do Estado moderno. Caracteriza-se por forte apelo ao sentimento e ao espírito de sacrifício em prol de uma causa sagrada: a nação. Superou a religião em alguns países. Significando, inicialmente, lealdade emotiva a um grupo cultural e lingüístico, a ação nacionalista expressava o anseio por livrar-se da opressão estrangeira. Posteriormente, verificou-se um movimento agressivo em prol da grandeza do grupo e da independência nacional. Esse movimento culminou em uma forma extremada de adoração ao poder político, à honra nacional e à superioridade racial. A doutrina nacionalista amparou-se no enlace da idéia de fraternidade com as idéias de igualdade e liberdade.

Intimamente relacionada ao movimento nacionalista, a hostilidade ao poder clerical tinha os seguintes objetivos: destronar a fé, refrear a influência da igreja católica na política, reduzir seus privilégios econômicos e quebrar sua supremacia no terreno educacional. Entre os fatores do movimento incluem-se: (1) A revolução industrial, que estimulou os interesses econômicos. A burguesia via na igreja entrave a esses interesses. (2) A primazia das idéias liberais e céticas, que se opunham às idéias conservadoras. (3) O conhecimento científico, que progredia e removia crenças apesar da resistência do clero. Em França, monarquistas e clero católico eram aliados. Os republicanos repudiavam tal aliança. Nenhuma ordem religiosa podia atuar sem autorização do Estado, segundo lei aprovada pelo governo francês (1901). O ensino público e particular foi vedado às ordens religiosas (1904). A união entre Estado e Igreja foi dissolvida (1905). Na Itália, o papa resistiu à unificação dos reinos italianos. Ao Vaticano interessava manter o status quo (reinos separados e autônomos no interior da península italiana). Isto atraiu a hostilidade do movimento unificador contra o clero católico. Após a unificação dos reinos em um só Estado, o parlamento italiano votou lei disciplinando a atividade do papa como soberano reinante sobre o Vaticano e Latrão, com direito de enviar e receber embaixadores, utilizar livremente os serviços de correio, telégrafo e transporte ferroviário e de receber vultosa indenização. Pio IX não reconheceu validade e legitimidade a essa legislação. Sustentou a necessidade de um tratado internacional. O impasse foi resolvido mediante acordo entre o governo fascista e o Vaticano (1929).

Nos séculos XX e XXI, os europeus se dividiram ideologicamente em dois blocos: o liberal (capitalismo) e o igualitário (socialismo). Tabus foram quebrados e tradições aniquiladas. A complexidade da sociedade contemporânea e a velocidade do desenvolvimento social e econômico trouxeram aos europeus maior conforto, bem-estar, densidade cultural, mas também, graves problemas. O choque entre a liberdade e a autoridade, a luta entre ideais opostos, a disputa entre diferentes sistemas educacionais, as reações nas artes (racionalismo x romantismo x realismo), todas estas tensões criaram um clima de insegurança e perplexidade.

Na Inglaterra, foi organizado o Partido Trabalhista (1901). Desde o século XIX, as relações entre empregador e empregado indicavam que a organização política dos trabalhadores fatalmente aconteceria. No seu livro “A Era das Revoluções”, Eric J. Hobsbawm reproduz o seguinte discurso de um empregador aos seus empregados: O Deus da Natureza estabeleceu uma lei justa e imparcial que o homem não tem o direito de contestar; quando se arrisca a fazê-lo é sempre certo que, mais cedo ou mais tarde, encontra o castigo merecido (...). Assim, quando os patrões audaciosamente combinam que por uma união de poder eles podem oprimir seus empregados de modo mais eficaz, insultam dessa forma a Majestade Divina e trazem para si a maldição de Deus, enquanto que, por outro lado, quando os empregados se unem para extorquir de seus empregadores aquela parte do lucro que por direito pertence ao patrão, eles igualmente violam a lei da equidade. Hobsbawm cita James Mill sobre a formação da classe dos trabalhadores e a inicial subordinação desta ao pensamento dos patrões: As opiniões daquela classe de pessoas que estão abaixo do escalão médio são formadas e seus espíritos comandados pelo virtuoso e inteligente escalão que se acha mais imediatamente em contato com elas. Abriam-se três possibilidades ao pobre que se encontrava à margem da sociedade burguesa cuja selvageria tinha por lema “cada um por si e deus por todos”: (1) lutar para se tornar burguês; (2) submeter-se à opressão; (3) rebelar-se.

Movimento trabalhista e socialista cujo núcleo era o proletariado industrial, havia provocado a revolução de 1848. O confronto não era do pobre contra o rico e sim da classe dos trabalhadores contra a classe dos patrões; aquela, a ansiar por uma sociedade cooperativa; esta, por manter a sociedade competitiva. Ao tempo daquela revolução já se notava uma consciência de classe, pelo menos na Inglaterra e na França: a proletária e a empresarial. A tensão entre a ideologia religiosa (cristianismo) e a ideologia secular (liberalismo) acontecia tanto no interior de cada classe como no confronto entre elas. A elite intelectual de cada classe tendia para a ideologia secular enquanto a massa se apegava à ideologia religiosa. Do ponto de vista objetivo, entretanto, a ideologia secular produziu mais resultados sociais, econômicos e políticos do que a ideologia religiosa. Greve, sindicato, instituto de assistência mútua, eram os instrumentos de defesa da classe proletária penetrados do espírito de solidariedade. Além dos operários de fábrica, havia sindicatos dos impressores, alfaiates, chapeleiros, marceneiros e outros que integravam a mais ampla classe dos trabalhadores.     

O partido trabalhista inglês surgiu como reação à decisão da Câmara dos Lordes de responsabilizar os sindicatos por danos causados durante as greves. Para acalmar o partido trabalhista, o governo promulgou lei regulamentando as ações trabalhistas e isentando os sindicatos daquela responsabilidade. A Câmara dos Lordes é a última instância recursal, porém, as suas decisões podem ser revogadas por ato do parlamento. Durante a gestão do ministro David Lloyd George foram criados alguns tributos de cunho socialista, acolhidos pelo governo liberal a partir de 1910: imposto sobre a valorização injustificada da terra; imposto sobre terras sem cultivo; imposto extra sobre a renda dos ricos. Lei de representação popular (1918) aboliu o voto censitário, exigiu cidadania britânica para ser eleitor, concedeu direito de voto à mulher com mais de 30 anos, proprietária ou esposa de proprietário. O sistema democrático do governo inglês compreende: (1) a realeza hereditária, que personifica o Estado e está vinculada às leis fundamentais do reino; (2) o gabinete, que exerce a função executiva; (3) o parlamento (Câmara dos Lordes, com poderes jurisdicionais + Câmara dos Comuns, com função legislativa). O gabinete é uma comissão parlamentar que se firmou como poder político quando a supremacia do rei foi suplantada pela supremacia do parlamento. A Câmara dos Comuns tornou-se o ramo mais poderoso do parlamento.

sábado, 3 de janeiro de 2015

FILOSOFIA XV



EUROPA (1900 a 2014).

Houve mudanças significativas na vida privada durante o século XX. O enlace entre autoridade, liberdade e igualdade deixou tênue a fronteira entre o público e o privado. O Estado regula e fiscaliza: (1) as relações de família (casamento, regime de bens, poderes paterno e materno, adoção, sucessão, divórcio); (2) as obrigações civis e os contratos; (3) as relações de trabalho e profissão; (4) a aquisição, o uso e a disposição dos bens móveis, imóveis e semoventes; (5) a expressão do pensamento e a locomoção; (6) a educação, a saúde, o esporte, a cultura; (7) a reclusão em instituições sociais como asilos, hospícios e internatos. O padre, o médico e o notário não são mais os depositários exclusivos dos segredos da família. As instituições públicas e privadas com seus bancos de dados, exigências de cadastramento, indiscrições e espionagem, abriram brechas no muro da privacidade e do sigilo. Os dados pessoais e a impressão digital ficam registrados no departamento de polícia e na carteira de identidade. Para dirigir veículo, o indivíduo tem que se habilitar perante órgão público. Para construir casa, o indivíduo tem que obter licenciamento e seguir as diretrizes da administração municipal. Na guerra e na paz, a casa tem sua privacidade invadida por agentes do governo e por emissoras de rádio e televisão. Há bairros proletários e cortiços onde o espaço para a privacidade é exíguo e a promiscuidade inevitável. Na zona rural, cada vez mais mecanizada, eletrificada e informatizada, a casa ainda é a unidade econômica básica, apesar das cooperativas agrícolas. Família e terra se conjugam. Pais e filhos operam na economia familiar rural com divisão de tarefas entre homens e mulheres. Filhos saem para a cidade e estudam; alguns regressam ao campo com conhecimento técnico para melhorar a produção. Depois da segunda guerra mundial, a choupana do campônio cedeu lugar a uma casa de maior tamanho, melhor construída, cômodos separados, mais segura e salubre. A economia pesqueira se torna cooperativada, industrializada e exportadora. A agricultura, a pecuária e a pesca recebem incentivos e orientação técnica do governo, mormente diante das entressafras, estiagens e épocas de reprodução.         

A inserção da mulher na vida pública intensificou-se. Os negócios públicos e privados deixaram de ser assunto exclusivamente masculino. A mulher concorre com o homem na fábrica, na loja, no escritório, no serviço público civil e militar, na atividade científica e tecnológica, na magistratura, no ensino em todos os graus, nas profissões liberais. Conquistou o direito de ingressar em sindicato e em partido político, de votar, de se candidatar a cargos públicos eletivos e de exercê-los se eleita. A prostituição, o salão de beleza e a moda deixaram de ser exclusividade feminina. Tolerada no passado, a violência contra a mulher, dentro e fora do ambiente doméstico (agressão física, estupro, assédio), é combatida com vigor crescente a partir da segunda metade do século XX. Inconformada com a sina de ser apenas esposa, mãe e dona de casa, a mulher se despojou do vestuário castrador. Usa roupa colante, transparente, calça comprida, short, minissaia, biquíni, monoquíni; exibe decote, coxas, calcinha rendada; pinta-se, tatua-se, veste-se, conforme seu gosto e disposição. Com os crescentes asseio e preocupação estética, a cultura física feminina entra em voga e as academias se multiplicam. A mulher faz ginástica, dança, pratica esporte e arte marcial; freqüenta lugares públicos sem companhia masculina; bebe, fuma e paga as suas despesas em dinheiro, cheque ou cartão de crédito; pilota motocicleta, automóvel, barco e avião. A mulher sequiosa superou a mulher domesticada. O pudor perdeu a realeza. O diário perdeu a confidente. O piano perdeu a função de promover socialmente a jovem burguesa. Amor, beleza, charme, patrimônio, endogamia (mesma posição social, afinidade de gosto, de crença, de pensamento) influem na escolha de parceiro. Coração e razão disputam preferência nupcial. Nas metrópoles, os casamentos tardam e as dissoluções ocorrem cedo. A igreja perdeu o monopólio da celebração do matrimônio. Vigora o casamento civil. A desvalorização da virgindade ensombreceu a lua-de-mel. A relação sexual entre solteiros e a coabitação antes do casamento se incorporaram aos costumes. Para esses casais, a viagem de núpcias tem sabor recreativo de morna sensualidade. A coabitação e o leito compartilhado conhecem exceções. Por conveniência, conforto ou higiene, alguns cônjuges moram em casas separadas ou ocupam cômodos separados na mesma casa, sem dissolver o vínculo conjugal. Os empregados domésticos conquistam direitos iguais aos dos operários. Animais mantidos dentro de casa recebem os cuidados de crianças e adultos.

Depois da segunda guerra mundial, o padrão de vida quadruplicou; a desigualdade social permaneceu; a taxa de natalidade regrediu. Na região urbana, a maioria dos partos é assistida em maternidade pública ou particular e não mais em casa da parturiente. Salvo situações especiais (gravidez indesejada ou rebento deformado), os filhos são exibidos com orgulho pelos pais e levados ao batismo em igrejas, sinagogas e templos. Com o recuo da idade de 13 para 7 anos, a primeira comunhão na igreja católica deixa de ser um rito de passagem da infância à adolescência. Menos numerosos nas famílias ricas e remediadas, os filhos recebem mais atenção dos pais. Há filhos criados por um só genitor. Os espancamentos retrocedem, apesar da conspiração do silêncio ocultá-los. [Na Suécia, os filhos podem apresentar queixa judicial contra os pais por maus-tratos]. Métodos educativos mais suaves são empregados pelos pais. Por quatorze anos, aproximadamente, as escolas públicas e particulares encarregam-se da formação intelectual e moral dos jovens, desde o maternal até o umbral da universidade. O regime de estudo varia: período parcial ou integral e internato. Pais e filhos adotam modelos de conduta e consomem bens sugeridos na publicidade veiculada por jornal, rádio, cinema, televisão, revista, prospecto, outdoor, rede de computadores. As roupas e calçados são comprados em lojas. A freguesia do alfaiate, da costureira e do sapateiro ficou menor. Comida enlatada, congelada, encomendada, pão e bolo de padaria e confeitaria, substituem eventualmente a arte culinária caseira. Os filhos de gente rica e remediada gozam de privacidade nos seus respectivos quartos guarnecidos de cama, armário, prateleira, bancada para estudar e aparelhos sonoros e audiovisuais. Ali recebem amigos e amigas, conversam, distraem-se com jogos, drogam-se e transam sexualmente. Entre os irmãos há rivalidade decorrente: (1) das preferências afetivas do pai e da mãe; (2) das diferenças de temperamento, talento e inteligência. A expectativa de duração da vida aumentou. Morrer no campo de batalha, no hospital, no asilo, no hospício, na rua, no interior de veículos terrestres, aéreos, fluviais e marítimos, tem sido mais comum do que morrer em casa. O período de luto foi reduzido, roupas pretas usadas por breve tempo, freqüência dos enlutados a lugares festivos liberada mais cedo. A partilha dos bens deixados pelos pais é fator de disputa e inimizade entre irmãos.

Os bairros refletem o status dos moradores. Nas cidades maiores, nos dias úteis da semana – e não apenas aos domingos – as pessoas se banham, usam desodorante, roupas limpas, calçados (sapato, tênis, sandália). A languidez no banho convida a jovem a masturbar-se. A liberdade sexual adentrou os costumes. No coito heterossexual, a mulher também fica encima, escolhe posição e preliminares. O adultério deixa de ser crime, mas justifica o divórcio. Afrouxaram as amarras sociais sobre a interrupção da gravidez, o controle da natalidade e a inseminação artificial. Lesbianismo e pederastia ganham permissão na sociedade e proteção legal. “Os homossexuais tomam a si mesmos como objeto sexual; eles partem do narcisismo e procuram jovens parecidos com eles que podem amar como foram amados por suas mães” (Freud). O casamento entre homossexuais e a adoção de crianças por esse tipo de casal foram permitidos na Inglaterra. O dândi, homem preocupado em se vestir bem e se perfumar, amante do disfarce, do acessório e da postura aristocrática, desprendido em relação ao dinheiro, mas cioso da sua fonte de renda, cultor da ociosidade, gozador dos prazeres da mesa e da cama, refratário ao casamento e à procriação, tem horror à igualdade social e oscila entre o heterossexual e o homossexual. O dandismo é a ética do celibatário.

A família não é mais o principal cenário da vida privada. Fios da antiga unidade, como dinheiro, sentimentos e segredos, converteram-se em muros de separação. Os laços sanguíneos e a história da família perderam a força vinculativa e unificadora. O centro comercial, o jardim público, o bar, a danceteria, a arena dos espetáculos musicais, a casa do amigo ou da amiga, são pontos de encontro dos jovens. Os parentes com doença mental são depositados no hospício; os velhos são abandonados no asilo. Diminuiu o uso da carta e dos cartões natalinos, parcialmente substituídos por mensagens através da rede de computadores e de telefones convencionais e celulares. O sigilo das comunicações privadas é violado por intromissões autorizadas e não autorizadas. As visitas sociais de amizade e parentesco saíram de moda nas grandes cidades, efeito do ritmo alucinante da vida contemporânea. As férias anuais se tornaram uma questão de saúde, uma necessidade visceral. O almoço domingueiro se faz mais em restaurante do que em casa, exceto na camada pobre da população. As esporádicas reuniões por motivo religioso ou para comemorações civis às vezes culminam em brigas. A casa não é só refúgio para descanso e lazer, mas também arena de gladiadores, escritório e balcão de negócios. A “célula da sociedade” no mundo ocidental ficou cancerosa. Tal qual o átomo da matéria, a família nuclear, “átomo da sociedade civil”, também é divisível e explosiva. O “princípio do Estado” agora é a senzala.


quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

FILOSOFIA XIV - 28



EUROPA (1800 a 1900). Final.  

Thomas Henry Huxley (1825 a 1895), biólogo inglês, filósofo, segue a linha evolucionista. Aceitava com bom humor o cognome “buldogue de Darwin”, que lhe deram por causa do seu queixo quadrado e da sua filiação intelectual à teoria darwiniana. O seu livro “O Lugar do Homem na Natureza” teve larga repercussão. Como Herbert Spencer, ele também aplica o conceito de evolução a todos os problemas humanos. Thomas encara as instituições sociais e as idéias morais como produto da herança biológica e não da ordenação divina. “As ações que dizemos pecaminosas são partes e parcela da luta pela existência”. Não há prova da existência de um ser como o deus dos teólogos. O cristianismo compõe-se de alguns dos melhores e dos piores elementos do paganismo e do judaísmo. Thomas inventou o vocábulo agnosticismo para exprimir seu desprezo pelo gnosticismo (certeza dogmática derivada das crenças dos antigos gnósticos). Agnosticismo é o nome da doutrina que afirma a impossibilidade: (1) de compreender a existência e a natureza de deus; (2) de saber se o universo tem alguma finalidade ou se é somente uma máquina cega, puro mecanismo.

Ernst Heinrich Haeckel (1834 a 1919), médico alemão, filósofo, professor de Zoologia, filiado à teoria de Darwin, escreveu um livro que se tornou clássico: “O Enigma do Universo”. Ateísmo, materialismo e mecanicismo são idéias centrais da sua filosofia. O mundo espiritual não existe. O universo compõe-se exclusivamente de matéria em constante mudança de formas. Este processo natural é automático, tal qual o fluxo e o refluxo das marés. A matéria viva é apenas mais complexa do que a matéria bruta; entre ambas não há diferença essencial. Na combinação espontânea dos elementos essenciais do protoplasma está a origem da vida. Mediante o processo de seleção natural desenvolveram-se todas as espécies complexas a partir das primitivas formas de protoplasma. Tal qual o corpo, a mente do homem também é um produto da evolução. A mente do animal racional e a mente do animal irracional diferem apenas em grau. Memória, imaginação, percepção e pensamento são funções da matéria. A Psicologia deve ser considerada ramo da Fisiologia.

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 a 1900), poeta alemão, professor, filósofo, filho e neto de pastores luteranos, natural da aldeia de Röcken (próxima a Leipzig). Formou-se em letras clássicas (grego e latim). Estudou teologia e filosofia. Lecionou Filologia na Universidade da Basiléia. Afastou-se do cristianismo seduzido pelo ateísmo de Schopenhauer e atribuiu significado metafísico à música. Apaixonou-se por Cosima, esposa do seu amigo e compositor Richard Wagner, cuja casa de campo freqüentava com assiduidade. A sua reflexão filosófica está contida principalmente em três livros: “Assim Falava Zaratustra”, “Genealogia da Moral” e “Para Além do Bem e do Mal,” e de modo difuso, em outras obras como “Gaia Ciência”, “Ecce Homo”, “O Anticristo”, “Vontade de Potência”. Deixou-se influenciar pela história de Esparta. Friedrich morou na Itália e na Suíça. Ele não gozava de boa saúde, quiçá em decorrência de infecção venérea ocorrida no tempo de estudante; reclamava de dores constantes e sofreu ataques de loucura nos dois últimos anos de vida.

Na opinião de Friedrich, a seleção natural atua livremente no caso dos seres humanos tanto quanto no caso dos animais e plantas. Criação e destruição, alegria e sofrimento, bem e mal, alternam-se durante a existência em um eterno retorno, não do mesmo e para o mesmo e sim para nova seleção. Na luta pela sobrevivência devem morrer os moralmente fracos, os improdutivos e os covardes. Se os casamentos segregassem os incapazes, surgiria uma raça de super-homens, não de gigantes físicos, mas homens de coragem moral e força de caráter. A aspiração humana há de focar um tipo mais elevado de homem. Deus não deve ser o objetivo, porque deus está morto. A loucura esconde um saber fatal demasiado certo. Onde existe loucura há um grão de gênio e de sabedoria, alguma coisa de divino. A loucura rompe os costumes e as superstições e torna mais plano o caminho para as idéias novas. O mundo não é o vale de lágrimas descrito pelo cristianismo. Para eficácia da seleção natural é necessário destruir a supremacia moral do cristianismo e do judaísmo, cultos orientais que glorificam a virtude dos escravos e dos indivíduos inferiores. Existe a moral dos senhores (independência, generosidade, confiança em si mesmo e todas as virtudes do homem nobre) e a moral dos escravos (subserviência, mesquinharia, timidez e todos os vícios do homem desprezível).

Senhores e escravos se desprezam reciprocamente. Humildade, resignação, mortificação da carne, simpatia pelo fraco e pelo incapaz, são vícios e não virtudes. A glorificação desses vícios conduz sangue degenerado pelas veias da raça. Judaísmo e cristianismo, esteios da moral escrava, devem ser removidos no processo evolutivo da humanidade. Bom é tudo o que suscita no homem o sentimento e a vontade de poder. Ruim é tudo o que vem da fraqueza. As doutrinas igualitárias que nivelam os fortes e os fracos são imorais. A democracia é a forma histórica da decadência do Estado. Colocar o Estado como o mais alto fim do homem é um regresso à estupidez. A violência e a conquista geraram o Estado. A força gerou o direito e não há direito que no fundo não seja arrogância, usurpação, violência.

Ao Estado interessa cidadãos obedientes, submissos. Merecem admiração e louvor as virtudes germânicas: bravura, força, lealdade, honra e destreza. Os aspectos apolíneo e dionisíaco da natureza humana, complementares entre si, foram separados na cultura grega. Apolo: deus da clareza, da harmonia e da ordem. Dionísio: deus da exuberância, da música e da desordem. A tendência apolínea da alma humana com sua visão serena contrabalança o lado desagradável da vida. A tendência dionisíaca da alma humana com sua paixão e obscuridade conduz à realidade trágica da existência. Inspirado na tragédia grega e numa postura otimista, Friedrich extrai o conceito de herói trágico. O homem cria os valores e depois neles vê algo de eterno, verdadeiro e transcendente, esquecendo-se que foi ele mesmo quem os criou. Ao estabelecer a distinção entre o essencial e o acidental, o inteligível e o sensível, o verdadeiro e o falso, Sócrates inventou a metafísica; separou dois mundos e passou a julgar a vida, medindo-a por valores pretensamente superiores como o divino, o justo, o verdadeiro, o bom, o belo. A partir daí, a filosofia se propõe a tarefa de julgar a vida ao invés de buscar a unidade entre a vida e o pensamento. Para Sócrates, uma obra só é bela se obedecer à razão; para Friedrich, as idéias devem ser vistas apenas como sinais e não como verdades ou falsidades.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

FILOSOFIA XIV - 27



EUROPA (1800 a 1900). Continuação.

Na opinião de Aléxis de Tocqueville, o gênero humano não é inteiramente independente e nem inteiramente escravo. Em torno de cada homem há um círculo do qual não pode sair, porém, dentro desses limites ele é poderoso e livre. Com os povos acontece o mesmo. A ordem do coração e a ordem da razão convivem no homem e na sociedade. [Aléxis não esconde a sua filiação ao pensamento de Pascal]. Da polaridade entre opostos advém a história humana: o princípio democrático opõe-se ao aristocrático, mas ambos consideram a liberdade e a igualdade em determinada estrutura. [A bipolaridade masculino x feminino respondia pela distinção do papel social do homem e da mulher, ele provedor do lar e ela dona de casa]. A liberdade é dom que se adquire e que se perde; pode ser usado para o bem e para o mal. A igualdade é paixão, afeto comum e natural do ser humano. O excesso de liberdade destrói a igualdade; o excesso de igualdade destrói a liberdade. O ideal está no ponto extremo em que a liberdade e a igualdade se tocam e se confundem: os homens são livres porque são iguais e são iguais porque são livres. Segundo as tendências das nações, a igualdade pode conduzi-las à servidão ou à liberdade, à luz ou à barbárie, à prosperidade ou à miséria, sem subordinação alguma com os ritmos da natureza.

A igualdade abre dois caminhos aos homens: um que conduz a novas idéias, outro que conduz à apatia. Os homens são iguais na medida em que são livres. A igualdade que torna os homens reciprocamente independentes cria neles o hábito e o gosto de seguir sua própria vontade nas ações particulares. Essa independência os predispõe contra toda autoridade e lhes desperta a idéia e o amor à liberdade política. A uniformidade das leis é exigência do princípio da igualdade e a condição primeira de um bom governo cuja imagem é a de um poder único, simples, providencial e criador. O amor à tranqüilidade pública leva os cidadãos a conceder continuamente novos direitos ao poder central. Os privilégios, por menores que sejam, repugnam à consciência democrática. O homem é o artífice do seu próprio destino. Conforme a época e o momento histórico, os homens preferem a igualdade à liberdade. [Segundo Napoleão, os franceses apreciavam mais a igualdade do que a liberdade].

O interesse e o bem-estar são os dois princípios estruturais da sociedade democrática; a liberdade e a igualdade são os seus princípios constitutivos. O egoísmo é amor apaixonado e exagerado de si mesmo. Individualismo é sentimento reflexivo e pacífico que predispõe a pessoa a separar-se da massa de seus semelhantes, a retirar-se a um lado com sua família e seus amigos. A sociedade democrática enseja associações particulares. As relações humanas são movidas mais por interesses do que por idéias. As opiniões formam uma espécie de poeira intelectual que se agita por todos os lados sem poder fixar-se nem reunir-se. Há uma disposição geral para premiar os movimentos rápidos e as concepções superficiais da inteligência e para depreciar a meditação, o trabalho lento e profundo do intelecto. O interesse prático sobrepuja a contemplação teórica. Sociedade alguma subsiste sem um núcleo de idéias comuns e principais aceitas como dogmas (sem discussão). Sem idéias comuns não há ações comuns. Sobre o dogma coletivo, o indivíduo ergue o edifício das suas próprias idéias.

O sistema econômico moderno com o seu aspecto racionalista constitui o efeito da democracia e não a causa. A democracia é um princípio de ordem moral e política. Nela, são mais fáceis o abuso do governante e o mau emprego dos recursos públicos. A centralização administrativa é o principal mecanismo da tirania travestida de democracia. Esse tipo de centralização se estriba na racionalização que também se coaduna com o espírito democrático, o que propicia o engodo. A finalidade do Estado é garantir a segurança, a proteção jurídica, realizar obras públicas, fomentar as relações com os demais Estados. Quanto mais industrializada a nação, mais a necessidade de estradas, canais, portos e serviços a cargo do Estado, o que exige grande quantidade de engenheiros, arquitetos, mecânicos e artesãos. À medida que se incrementa o poder do Estado e aumentam as suas necessidades, maior é o consumo de produtos industrializados. O instinto de centralização se constituiu único ponto imóvel em meio da singular mobilidade da existência e do pensamento dos homens. Há um poder imenso e tutelar sobre os cidadãos, detalhista, regular, previdente e suave, que torna menos útil e mais raro o livre arbítrio e reduz o espaço para a ação voluntária. Despotismo e tirania são palavras inadequadas para expressar o novo tipo de opressão sobre povos democráticos.

John Stuart Mill (1806 a 1873) poeta, filósofo, resume no seu pensamento as tendências da filosofia inglesa: sensualismo, ceticismo, pragmatismo e liberalismo. Seguiu os passos do pai (James Mill), da sua talentosa esposa Harriet Taylor e de Jeremy Bentham, sem desmerecer a influência que sofrera de Tocqueville, Carlyle, Ricardo e Comte. Na opinião dele, a origem de todo conhecimento está na experiência. No ensaio “Da Liberdade”, John trata da liberdade de pensamento e de palavra, da individualidade, dos limites da autoridade e se opõe à assertiva da igreja de ser o cristianismo a fonte de toda bondade (1859). Participou da reforma parlamentar na Inglaterra e defendeu o sufrágio universal. Escreveu um tratado sobre economia política. O seu livro “Sistema de Lógica” teve larga repercussão na Europa. Ali, esta lição: a base da argumentação indutiva está na comprovada constância da natureza que, em si mesma, constitui a suprema indução. [A fraca confiabilidade do processo indutivo tem sido um problema para aqueles que se dedicam à ciência. Inarredável, entretanto, a constatação de que se trata de operação mental tão útil quanto o processo dedutivo]. A busca do prazer e a fuga da dor não são os únicos determinantes da conduta humana. Os hábitos e o desejo de união com os semelhantes também são determinantes. Os prazeres diferem em qualidade; uns são mais elevados do que os outros. [Tese de Epicuro, o primeiro hedonista utilitarista]. O socialismo destrói a liberdade individual. A intervenção do Estado é necessária ao bem dos menos afortunados. A sociedade não deve se dividir entre o ocioso e o industrioso. A lei que nega comida a quem não trabalha deve valer para todos e não só para os pobres. [“Comerás o teu pão com o suor do teu rosto” (Bíblia, Gênesis, 3:19)]. John apoiava o controle artificial da natalidade. 

Herbert Spencer (1820 a 1903) nasceu em modesta família de metodistas e quacres. Autodidata, filósofo evolucionista, engenheiro civil da companhia de estrada de ferro que liga Londres a Birmingham, produziu trabalhos nas áreas tecnológica, econômica e política. Os seus livros principais foram: “Estática Social” e “Filosofia Sintética”. O fulcro da sua filosofia é a idéia da evolução como lei universal, inspirada na teoria de Darwin. Cunhou a frase “sobrevivência do mais apto” quando se referiu à seleção natural. Sustentava que tudo evolui: espécies animais e vegetais, planetas, sistemas planetários, instituições, idéias religiosas e éticas. O processo evolutivo compreende quatro etapas: (1) concentração: massas indiferenciadas semelhantes à nebulosa geratriz de estrelas e planetas; (2) diferenciação: entes individuais separam-se da massa; (3) determinação: indivíduos se desenvolvem do simples ao complexo; (4) dissolução: os entes se desintegram. Tudo no universo tende a cumprir o ciclo completo: origem, ascensão, declínio e extinção. A força sobrenatural desse processo não se submete à análise científica. O homem só pode conhecer o que lhe permite a experiência sensorial. Coletivismo é resquício da sociedade primitiva, estágio inicial da evolução social, quando o indivíduo ainda não se diferenciara da massa.

domingo, 28 de dezembro de 2014

FILOSOFIA XIV - 26



EUROPA (1800 a 1900). Continuação.

Aléxis de Tocqueville (1805 a 1859), francês nascido em berço nobre, católico, filósofo, jurista, foi juiz de direito e era deputado ordinário quando previu a revolução: “Creio que dormimos sobre um vulcão”. Foi eleito deputado à Assembléia Constituinte em 1848. Viajou para os EUA, Inglaterra, Suíça e Argélia, sempre com os olhos voltados paras as instituições políticas e jurídicas. Essa experiência serviu à sua formação filosófica.  Após o golpe de estado de 02/12/1851, desferido pelo sobrinho de Napoleão, Aléxis retira-se definitivamente da vida pública. Morreu em Cannes, vítima de doença pulmonar contraída nos EUA.

Aléxis escreveu A Democracia na América, seu livro mais conhecido onde, com o cuidado, a objetividade e a percuciência de um cientista, ele compara a democracia americana com os regimes políticos europeus. O primeiro volume composto de duas partes foi publicado em 1837. O segundo volume composto de quatro partes foi publicado em 1840. Em tom de profecia Aléxis: (1) afirmou o advento irresistível da democracia no mundo; (2) previu a ascensão dos russos e dos americanos que “por um secreto desígnio da Providência”, teriam em suas mãos os destinos do mundo; (3) prognosticou a guerra civil americana; (4) identificou o latente conflito interno da nação americana suscitado pelas diferenças raciais.

Aléxis procede a uma análise sociológica do país norte-americano. Segundo ele, os ingleses chegaram civilizados à América habitada por selvagens. A ausência de precedente histórico no continente americano facilitou a organização de uma nova sociedade política com base nos seguintes princípios: ordem, ponderação dos poderes, liberdade autêntica, respeito sincero e profundo ao direito. Aléxis considera esses princípios essenciais a qualquer república e adverte: a religião cristã, apesar das inúmeras seitas, está na base e na origem da sociedade americana e se mantém como uma das suas colunas ao lado da ordem política com a qual não se confunde. Ali, a religião impera menos como doutrina revelada e mais como opinião comum. Depois de ouvir os norte-americanos, diz o filósofo, difícil saber se para eles o principal objetivo da religião é a busca da eterna felicidade no outro mundo ou se a busca do bem-estar neste mundo. Para honrar o dogma da imortalidade da alma, os governos devem agir como se nele acreditassem. Um dos principais aspectos políticos da religião é o de conduzir os homens em função do porvir.

A paixão tenaz, exclusiva, universal, do bem-estar material, embora contida, é essencialmente da classe média americana. Os seus efeitos são diferentes dos produzidos nos povos aristocráticos. Pode conduzir a uma espécie de materialismo que não corrompa as almas. A nação democrática pode ser escrava do bem-estar material e da ordem que o garante. Ao examinar o objeto do seu estudo sob o ângulo histórico, Aléxis chega a dois tipos essenciais de regime político: o democrático e o aristocrático. Ele encara a política como um capítulo da Ética e quer saber como se equacionam a liberdade e a dignidade humana na democracia americana. Constata ser a democracia um modo de vida e não apenas e simplesmente uma forma de governo. [Pontes de Miranda, notável jurista brasileiro do século XX, também via a democracia como um modo de vida, mais do que um simples regime político].

Na democracia, o produtor, para enriquecer, vende barato o seu produto a todo mundo. Na aristocracia, o produtor, para enriquecer, vende o seu produto por alto preço a uma parcela menor de consumidores. Na democracia, o produtor dirige suas faculdades intelectuais a dois pontos: (1) encontrar meios melhores, mais rápidos e mais inteligentes para produzir sua mercadoria; (2) fabricar maior quantidade de coisas semelhantes, mas de menor valor. A maioria do povo americano se ocupa mais com os negócios do que com os estudos; cuida mais de interesses políticos e comerciais do que de especulações filosóficas ou belas letras. [Esta opinião desagradou a muitos estadunidenses].  

Quando a massa de cidadãos se ocupa exclusivamente dos negócios privados, os negócios públicos caem nas mãos débeis e indignas de uns poucos. O princípio aristocrático se destrói lentamente no fundo das almas antes de ser atacado pelas leis. [Essa dinâmica é comum a qualquer regime político; não é exclusividade do aristocrático]. Nas sociedades democráticas, os salários se elevam gradual e lentamente como se fora uma lei geral {não escrita}. À medida que as condições chegam a ser mais iguais, os salários se elevam; à medida que os salários são mais altos, as condições chegam a ser mais iguais.

A Democracia na América desponta como um estudo de psicologia social, fundado na natureza humana. Segundo Aléxis, o decisivo na compreensão do fenômeno político não são as causas físicas, nem as leis, mas sim os costumes e as crenças que alicerçam os hábitos e as pautas da conduta humana. A mudança social só converte-se em mudança histórica quando os novos princípios determinam os costumes e as crenças. Enquanto isto não acontece, o período será apenas revolucionário. Neste período transitório encontram-se as nações européias onde a mudança (em direção à democracia) é lenta e mais aparente do que real. [Aléxis se referia à Europa do seu tempo]. Por isto mesmo, verifica-se que a revolução francesa não ocasionou uma ruptura histórica, posto que os costumes, crenças, hábitos, instituições e centralização administrativa do regime aristocrático se mantiveram na vida social subseqüente.

No que tange aos historiadores, Aléxis distingue o enfoque dos aristocratas, que valorizam a ação particular, a personalidade e as qualidades de certos homens, do enfoque dos democratas, que valorizam o comportamento da multidão que traça o seu próprio destino. Cada nação está ligada por sua posição, origem, antecedentes e natureza, a certo destino que todos os esforços não podem mudar. Aos historiadores não basta mostrar como se produziram os fatos; comprazem-se ainda em mostrar que não podia suceder de outra maneira. [Cientistas do século XXI dizem a mesma coisa sobre os acontecimentos cósmicos e consideram sem sentido especular que poderia ser diferente].      

Poder é capacidade para dirigir a vontade dos outros e ocorre entre homens, por homens e sobre homens. O poder político deve se adequar às necessidades da sociedade. [Às vezes, o titular desse poder cria necessidades para camuflar interesses particulares; dever ser e ser, nem sempre se ajustam]. O desajuste entre os mecanismos do poder e as necessidades sociais acaba por gerar revolução. A democracia se sustenta na racionalização do poder. O que deprava os homens não é o uso do poder ou o hábito da obediência e sim o uso de um poder considerado ilegítimo ou a obediência a um poder considerado como usurpado e opressor. [O homem depravado faz uso ilegítimo do poder político]. O que dá realidade ao poder é o fato de ser obedecido. Sem obediência não há poder, mas somente força. Desde que exercida em nome do povo, a tirania pode ser legítima. Num Estado populoso e extenso, o poder despótico pode vingar como se fora fato natural quando encoberto por uma retórica demagógica que mantém inerte a opinião pública. O poder absoluto é coisa má e perigosa cujo exercício sobrepõe-se às forças do homem. Somente Deus, na sua sabedoria e justiça, é todo poderoso sem perigo algum para a humanidade.