A separação entre igreja e estado, entre poder espiritual e poder secular, resultou da Revolução Francesa de 1789. A corporação maçônica surge nessa quadra da história europeia ao lado dos revolucionários. Liberal, republicana e democrática, a maçonaria navegava no barco do capitalismo. No Brasil, a maçonaria posicionou-se: (i) contra a intentona comunista na década de 1920 (ii) a favor da extrema direita no movimento de 1964 e nas eleições de 2018, 2022 e 2026. Heroína no passado, vilã no presente.
Estado e igreja católica se entrelaçaram durante a monarquia, sob a égide da Carta Constitucional de 1824. O catolicismo era a religião oficial. Depois do golpe republicano de 1889, o Brasil ficou sem religião oficial, porém, com liberdade religiosa, nos termos da Constituição de 1891. As constituições subsequentes, inclusive a última, de 1988, mantiveram a laicidade do estado. A nação brasileira continuou religiosa. Pluralismo religioso como efeito da liberdade. Diversas religiões ativas: cristã (católica + protestante + espírita); hebraica, muçulmana, xintoísta, budista, hinduísta. Há, também, fraternidades ativas, como a Ordem Rosacruz (Deus = Cósmico) e a Ordem Maçônica (Deus = Supremo Arquiteto do Universo). O ateísmo, com a sua descrença na existência de deus, foi implicitamente rejeitado, eis que, a Assembleia Nacional Constituinte, ao promulgar a Constituição da República de 1988, invocou a proteção de deus.
A reforma da igreja cristã em 1517, na Europa, dividiu a cristandade e livrou governos de estados europeus da tutela e da arbitragem do Papa. A partir daí, chefes de estado não admitem vontade superior à vontade deles e nem lei acima das suas leis. Luiz XIV, o católico rei da França (1643-1715), identificou-se de tal maneira com o estado, que lhe atribuíram a autoria da frase que ele não disse: “O estado sou eu”. Napoleão Bonaparte, na cerimônia da sua coroação como imperador da França, em 1804, na Catedral de Nossa Senhora de Paris, colocou a coroa na sua cabeça com as suas próprias mãos, na presença do Papa Pio VII. A soberania e a razão de estado elevam-se como princípios políticos fundamentais.
O protestantismo nasceu da contestação às indulgências e outras práticas do clero católico, feita por Martinho Lutero, sacerdote católico alemão, professor de Teologia, que formulou 95 teses publicadas em 1517. Parcela dos europeus aderiu à contestação, afastou-se do catolicismo e posicionou-se contra: (i) a liturgia católica e a doutrina do perdão (ii) o culto a Maria (iii) a virgindade de Maria por ser a mãe – não só de Jesus – mas, também, dos irmãos de Jesus (iv) a santidade de homens e mulheres como “São” Pedro e “Santa” Maria (v) a adoração de imagens religiosas (pinturas, esculturas, vitrais). Após essa divisão da cristandade, a Europa foi palco de sangrentas batalhas entre católicos e protestantes. As hostilidades ainda hoje prosseguem, apesar da tentativa ecumênica realizada na segunda metade do século XX.
As igrejas católica e protestante estão longe dos ensinamentos de Jesus, tais como: igualdade dos homens sob o poder do Pai Celestial, humildade, caridade, paz e amor. O traço contestatório está na raiz do protestantismo. Na atividade dos evangélicos (facção protestante) nota-se: I – fanatismo, pedantismo e convencimento de que são os escolhidos de deus; II – combate, inclusive por meios violentos, a tudo o que é católico (igreja, doutrina, fiéis, símbolos, imagens); III – propósito de conquistar o poder secular, alojando-se em partidos políticos.
A hipocrisia, comum a católicos e protestantes, resulta da natureza dual do ser humano: demoníaca e angelical. Os ensinamentos, cuja autoria os apóstolos atribuíram a Jesus, que nada deixou por escrito, supõem tal dualidade. Os bons viverão no reino de deus; os maus padecerão fora desse reino. Bem-aventurados os pobres, os que passam fome, os que choram, os odiados, os expulsos, os ultrajados, pois, grande é o galardão deles no céu. Indignado com a sombria realidade social da Palestina, Jesus advertia: ai de vós, ricos; ai de vós, que estais fartos; ai de vós, que agora rides; ai de vós, quando vos louvarem os homens.
Na Galileia (Norte da Palestina) terra dos hebreus israelitas, Jesus assim falava aos seus conterrâneos e também às pessoas vindas de outras regiões para ouvi-lo, inclusive da Judeia (Sul da Palestina), terra dos hebreus judeus. A vida santa pregada por Jesus não se enquadrava naquela realidade, dentro da qual, nem ele conseguiu viver santamente. Ao ser chamado de bom mestre, retrucou: “Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão só deus”. Ao ser informado da chegada da sua mãe e dos seus irmãos, ao invés de lhes permitir a entrada, diz, de modo petulante e demagógico, apontando para a plateia: "minha mãe e meus irmãos são estes, que ouvem a palavra de deus e a observam". O profeta se achava mensageiro de deus. Injetou no seu público, a fé cristã. Investiu no polo angelical da natureza humana. Nivelou senhores e escravos, judeus, gregos e bárbaros. Felicidade, só no céu. Na terra, pobreza de muitos, riqueza de poucos, hipocrisia, inveja, ganância, conflito, ódio, crime, guerra. Se não existissem pobres, não existiria cristianismo. Historicamente, o cristianismo católico está na gênese da civilização ocidental. “O credo metafísico é uma consequência equivocada da emoção, embora essa emoção, informando e colorindo todos os outros pensamentos e sentimentos, seja inspiradora do que há de melhor no Homem” (Bertrand Russell).
Bíblia. Novo Testamento. Lucas: 6: 21-26; 8: 19-21; 13: 22-30; 18: 18-19.
Dicionário Prático. Anexo da Bíblia Sagrada. RJ. Barsa. 1958.
Breve Historia de las Religiones. Francisco Diez de Velasco. Madrid. Alianza. 2008.
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História da Civilização Ocidental. Edward McNall Burns. RJ/SP/RS. Globo. I. 3ª ed. 1955.
Misticismo e Lógica. Bertrand Russell. RJ. Zahar. 1947.