quinta-feira, 17 de março de 2011

RELIGIÃO

ANTIGO TESTAMENTO - III.

Juízes.

Este livro narra os conflitos entre os hebreus e seus vizinhos em Canaã. Quando subjugados, os hebreus suplicavam por um libertador à divindade. Eles adoravam Baal e Astarte (nome geral que davam a deuses e deusas dos povos vizinhos). Os governantes recebiam o título de juiz, cuja missão era reatar a aliança com Javé, obter o perdão da divindade, recuperar o território perdido, tratar dos assuntos religiosos e das querelas internas. Cada tribo tinha seu chefe e gozava de autonomia. Otoniel, Aod e Samgar foram os primeiros juízes. Depois deles veio Débora, juíza e profetiza que ordenou o ataque ao rei de Canaã. O general por ela indicado, Barac, venceu a batalha. Passado algum tempo, os hebreus caíram sob domínio estrangeiro. A missão libertadora coube a Gedeão, que organiza pequeno exército, vence os inimigos, mas recusa a realeza que o povo lhe ofereceu, dizendo que só Deus era rei.

Abimelec matou os 70 filhos de Gedeão, se fez rei dos hebreus e reinou por três anos. Foi morto quando tentava destruir a cidade de Tebes, cujos habitantes haviam se rebelado. Três juízes se sucederam no governo: Tola, Jair e Jefté. Durante a excursão contra o rei de Amon (Leste do Rio Jordão, tríplice fronteira com os territórios das tribos de Rubem, Gad e Manasses) o juiz Jefté prometeu ao deus Javé que, se vencesse os amonitas, aquele que primeiro saísse ao seu encontro quando regressasse à sua casa seria oferecido em holocausto. Jefté venceu a batalha. Ao regressar, a primeira pessoa que saiu ao seu encontro foi a sua jovem, virgem e única filha. Jefté concedeu-lhe dois meses de liberdade para, nas colinas, chorar a virgindade com as amigas. Decorrido o prazo, ele a sacrificou no altar de Javé.

Mais três juízes se sucederam no governo em 25 anos: Ibsã, Elon e Abdon. O mais famoso dos juízes foi Sansão, cujos pais o consagraram pelo milagre de ter nascido de mulher estéril. Sansão foi juiz de Israel por 20 anos. Era dotado de força física descomunal. Matou um leão sem arma alguma, só com as mãos. Incendiou o trigo, as vinhas e os olivais dos filisteus porque, na sua ausência, a sua esposa, que pertencia a esse povo, foi dada em casamento a outro jovem. Alguns filisteus se vingaram queimando a esposa e o sogro de Sansão. Em represália, ele matou os assassinos. O povo filisteu reagiu e subjugou a tribo de Judá. Os judeus procuraram Sansão, prenderam-no e o entregaram aos filisteus. Enquanto estes se alegravam, Sansão rompe as amarras e com uma queixada de jumento mata mais de mil deles. Depois, enamora-se de Dalila, mulher estranha ao povo hebreu. Os filisteus a procuram e oferecem dinheiro para que ela descubra a fonte da força de Sansão. Frustradas três tentativas, porque Sansão lhe passou informações falsas, Dalila finalmente consegue a informação correta: os longos cabelos do nazareno era a fonte da força. Dalila aproveita-se do sono de Sansão e lhe raspa a cabeça. Os filisteus o prendem, cegam-no e dele se servem para girar a mó (pedra redonda e chata que tritura grãos no moinho). Durante festa religiosa, os filisteus colocam Sansão entre duas colunas do templo para diverti-los. O condutor atendeu ao pedido de Sansão (já de cabelos crescidos) para tocar e abraçar as colunas. Sansão sacudiu as colunas com força e todo o edifício veio abaixo. Além dele próprio, morreram cerca de três mil pessoas (o templo devia ser muito grande).

Na parte final desse livro, contam-se dois episódios. O primeiro refere-se ao furto, pelos membros da tribo de Dã, de um ídolo e acessórios ritualísticos do homem chamado Micas e do seqüestro do jovem levita que ali servia de sacerdote. Depois, atacaram a cidade de Lais, queimaram-na, mataram os habitantes, reedificaram-na com o nome de Dã e mantiveram o ídolo em santuário.

O segundo episódio relaciona-se à tribo de Benjamin. Um levita regressava com a concubina e o servo à sua casa em Efraim. Vinha de Belém e se recusou a parar em Jerusalém, habitada pelos jebuseus. Preferiu seguir até Gabaa, cidade que ficava em território da tribo de Benjamin. Ali estaria entre hebreus. Ao chegar, todos lhe negaram hospedagem. Um homem idoso se condoeu e ofereceu a sua casa. Os habitantes da cidade cercaram a casa e ameaçavam matar o levita. Para evitar a tragédia, o ancião ofereceu-lhes a sua filha virgem e a concubina do hóspede. Sem êxito. Então, o levita, em pessoa, apareceu à turba e entregou a concubina. Eles aceitaram a oferta e dela se serviram. Quando o levita abriu a porta na manhã seguinte, lá estava a concubina estendida e morta. Ele a levou para sua casa, cortou-a em 12 pedaços e enviou cada pedaço a diferentes pontos do território de Israel. As lideranças das tribos se reuniram em assembléia e exigiram que a tribo de Benjamin lhes entregasse os habitantes de Gabaa responsáveis pelo crime. A exigência não foi atendida. Javé escolheu a tribo de Judá para atacar a tribo de Benjamin. Os judeus foram derrotados. A assembléia resolveu atacar com as tribos restantes. Nesta segunda investida, a derrota foi da tribo de Benjamin. Os vencedores queimaram as cidades e mataram os habitantes e animais. A assembléia resolveu reabilitar a tribo de Benjamin, para que o número de tribos (12) não ficasse alterado. Providenciaram mulheres para os poucos sobreviventes (o que indica que haviam matado quase todas as mulheres daquela tribo) e permitiram a reconstrução das cidades.

Rute.

Este livro conta episódio da vida de um casal de judeus (Elimelec e Noemi) que partiu de Belém (Judá) para os campos de Moab, com seus dois filhos (Maalon e Quelion), porque havia fome na Palestina ao tempo em que os juízes a governavam. Os dois filhos casaram com mulheres moabitas (Orfa e Rute). O marido e os filhos de Noemi faleceram. O período de fome na Palestina chega ao fim. Ela manda as noras se juntarem às respectivas famílias em Moab, porém, Rute se nega a ir, acompanha a sogra a Judá e se converte ao judaísmo. Noemi coloca à venda a parte do campo que pertencia ao marido. O parente mais próximo tinha preferência na aquisição da propriedade (lei mosaica). A compra incluía a nora viúva (Rute). O parente preferencial recusou-se a comprar e negociou o direito de resgate com o parente imediato na linha de sucessão: Booz, dono do campo onde Rute trabalhava. Ele comprou a propriedade e tomou Rute por esposa. Desse casamento nasceu o avô do rei Davi.

terça-feira, 15 de março de 2011

RELIGIÃO

ANTIGO TESTAMENTO - II.

Levítico.

O nome deste livro procede da tribo de Levi, à qual foi confiado o culto de Javé. Dessa tribo saíam os sacerdotes e os servidores do templo. Nesse livro foram registrados os usos e costumes do povo hebreu. Contém o preceito do talião: fratura por fratura, olho por olho e dente por dente. Dele se extraem os sacrifícios exigidos pela religião: (1) holocausto (queima de animal no fogo do altar); (2) oblação (oferta de produtos da agricultura e da pecuária que acompanhavam o holocausto); (3) sacrifício pacífico (ação de graça); (4) sacrifício expiatório (oferecido como pagamento das faltas cometidas). O Levítico relata a consagração dos sacerdotes, as prescrições sobre a pureza dos animais e da mulher, sobre a lepra e as expiações. Além disso, o livro contém normas sobre sacrifício, casamento, conduta geral, santidade sacerdotal, ritual das festas, sagração do sábado, páscoa, pentecostes, festa dos tabernáculos, resgate das propriedades, empréstimo, libertação e leis penais.

Números.

O nome deste livro se deve à quantidade de números e nomes nele contida sobre recenseamento dos hebreus, distribuição geográfica das 12 tribos, bens ofertados pelos chefes das tribos, disposição das coisas nos locais de culto. Centra-se no período em que os hebreus estavam no deserto e mostravam descontentamento com o deus Javé e com o líder Moisés. Conta que uma nuvem cobria o tabernáculo construído por Moisés. Quando essa nuvem levantava, os hebreus se punham em marcha pelo deserto e acampavam onde ela parava. A falta de alimento era a principal reclamação. Passaram a se alimentar do maná que vinha com o orvalho noturno. O maná era moído em pilão, cozido e com ele o povo fazia bolos. As leis mencionadas nesse livro referem-se à expulsão dos leprosos, à responsabilidade civil e penal por danos, infidelidade e furto, aos votos de nazareno, à celebração da páscoa, aos sacrifícios e oferendas, à função sacerdotal e sua remuneração, à herança e sua transmissão. Nessa época, os laços entre as tribos eram frágeis, o vínculo que os unia era a identidade de crença, a fidelidade à aliança com Javé e a obediência a um decálogo supostamente obtido por Moisés no Monte Sinai. Isto se refletia nas instituições. Não havia rei (depois de Moisés, o governo foi exercido por juízes e profetas). Ante o desanimador relato feito pelos espiões enviados a Canaã, os hebreus temem a derrota perante povos mais fortes. A assembléia do povo hebreu, revoltada contra Moisés, queria escolher um novo chefe que guiasse as tribos de volta ao Egito. Próximo a Canaã, Moisés passa a chefia da assembléia a Josué.

Observações. Tabernáculo era um templo portátil construído por Moisés em cujo interior ficava a Arca da Aliança e outros objetos do ritual religioso. Maná era uma substância semelhante ao grão de coentro. Nazareno: palavra derivada do hebraico nazar, que significa separar ou consagrar; nazareno era o homem consagrado ao serviço de Deus. O protesto das tribos para voltar ao Egito indica que, ao contrário do que se contém no livro Êxodo e em outros escritos, a vida naquele país não era ruim para os hebreus. O protesto sintoniza com a ciência dos historiadores de que não há prova alguma: (i) da escravização dos hebreus pelos egípcios; (ii) dos prodígios de Moisés e Aarão para vencer a alegada resistência do faraó; (iii) do episódio do Mar Vermelho (separação das águas e afogamento do exército egípcio). A rebeldia do povo hebreu indica ainda: (i) a certeza de ser bem recebido no Egito; (ii) de que não houve hostilidade dos egípcios por ocasião do êxodo.

Deuteronômio.

Deuteronômio significa segunda lei. Este livro que trata de normas religiosas, morais e jurídicas estava perdido. De acordo com o relato bíblico, esse livro foi descoberto pelo sacerdote Helcias (por volta de 622 a.C.) durante a reconstrução do templo de Jerusalém. O sacerdote enviou o rolo ao rei Josias, que o submeteu à apreciação da profetiza Holda. Esta recomendou a pronta obediência ao livro por ser a vontade de Javé. Este livro contém a essência da religião hebraica e seria o testamento espiritual de Moisés, conexo à legislação anterior e aos discursos a ele atribuídos sobre: (i) fatos passados (ii) critérios de julgamento que deviam ser utilizados pelos juízes (iii) exortações à obediência e à fidelidade à aliança com a divindade (iv) os 10 mandamentos; (v) adoração, amor e caridade. Há leis sobre o culto, administração pública e vida social. Contém, ainda, o discurso de despedida de Moisés e o relato da sua morte (o que indica que o livro não foi escrito por ele). Este livro é o último do Pentateuco. Essa coleção de cinco livros também é denominada Livro da Lei.

Josué.

Este livro narra ações do sucessor de Moisés na conquista da terra de Canaã. Assim como acontecia com Moisés, o deus Javé fala diretamente com Josué. Dessa divindade, o novo líder do povo hebreu recebe instruções para atravessar o Rio Jordão, lutar e vencer os habitantes das diversas cidades e aldeias da Palestina (o que indica que Javé era divindade particular, deus exclusivo de um povo e não de todos os povos). Josué envia espiões à cidade murada de Jericó. Uma prostituta (Raab) abriga os espiões em casa (para alegria deles) e os protege da patrulha do rei da cidade (para segurança deles). Os espiões levam boas notícias a Josué, que levanta acampamento e atravessa o Rio Jordão. A travessia é semelhante à do Mar Vermelho: quando os sacerdotes entram no rio com a Arca da Aliança nos ombros, as águas se separam e o leito fica seco. As águas se fecham depois que o povo passa. Josué dispõe de um exército de 40 mil homens. Seguindo instruções de Javé, os sacerdotes carregando a arca da aliança e o exército, trombetas tocando, davam uma volta em torno da cidade, a cada dia. No 7º dia, deram 7 voltas seguidas e quando o som das trombetas ficou bem forte, todo o povo hebreu gritou num só ímpeto. As muralhas não suportaram o volume daquele som e ruíram. Os hebreus invadiram e queimaram a cidade, mataram todos os seus habitantes, adultos e crianças, mataram todos os animais e ficaram com todos os objetos de ouro, prata, bronze e ferro (tesouro recolhido à Casa do Senhor). A prostituta Raab e seus familiares foram poupados. Depois de conquistar, também, a cidade de Hai, onde repetiu a destruição, a matança e o saque, Josué constrói um altar e renova a aliança com o deus Javé. O rei da cidade de Gabaon sela a paz com Josué. Em represália, os reis amorreus de Jerusalém e de mais quatro cidades sitiaram Gabaon. Josué prestou socorro e derrotou os exércitos sitiantes com a ajuda de Javé. Nesse dia, por ordem de Josué, o Sol e a Lua pararam a sua trajetória no céu até que os hebreus se vingassem dos inimigos. Supõe-se que tal prodígio esteja narrado no Livro do Justo, perdida coleção de cânticos patrióticos. Houve divisão, por sorteio, do território de Canaã entre 8 tribos. A outras tribos (Rubem, Gad e Manasses) já haviam recebido a sua parte na região da Transjordânia, por decisão de Moisés. A tribo de Levi recebeu algumas cidades avulsas. Assim, completa-se o número das 12 tribos. Para refúgio dos homicidas que matassem sem ódio e sem intenção, foram escolhidas 6 cidades onde eles ficavam protegidos dos vingadores. Os refugiados só voltavam à cidade de origem depois de julgados pela assembléia e haver morrido o sumo sacerdote que estivesse em exercício ao tempo dos fatos. Pacificada a “terra prometida”, Josué, com idade avançada, convoca as tribos (anciãos, chefes, juízes, oficiais) e se despede de todos. Em seu discurso, Josué repassa a história dos hebreus como se fosse palavra do deus Javé e menciona o dever do povo de gratidão, obediência e fidelidade. Ele morre aos 110 anos de idade.

Observações. Neste livro, como em outros, vasto é o campo da ficção. Parar trajetória dos astros, separar águas do rio, é de lascar! Haja fé cega para crer nestas e nas demais inverosimilhanças do AT. As voltas em torno de Jericó parecem improváveis tendo em vista o tamanho do exército. Talvez nem todas as tribos somassem aquele número. Certamente, trata-se de um número simbólico (40 = muito, quantidade grande, tempo longo). O livro relata crueldade, mortandade e saques que pareciam satisfazer o paladar do deus Javé.

domingo, 13 de março de 2011

RELIGIÃO

RESUMO DOS LIVROS BÍBLICOS

Considerando a senda religiosa, mística e filosófica aberta com os artigos publicados neste blog; considerando que a compreensão desses artigos pode ser aumentada com a leitura dos textos religiosos e místicos; considerando a eventual dificuldade de acesso aos referidos textos por alguns leitores; considerando a dinâmica social moderna adversa à leitura; considerando o período propício à reflexão sobre assuntos espirituais (quaresma posterior ao carnaval e anterior à páscoa dos católicos); resolvi apresentar este resumo da Bíblia acompanhado de esporádicos e breves comentários.

A Bíblia se divide em duas grandes partes: (I) Antigo Testamento, sobre a história do povo hebreu (idéias, crenças, nomadismo, organização social) que influiu no cristianismo; (II) Novo Testamento, sobre a vida e doutrina de Jesus e a catequese de judeus e pagãos.

Do ponto de vista gramatical e semântico, a Bíblia publicada pela editora Ave Maria, São Paulo/SP, 58ª edição, 1987, apresenta grau de excelência. Foi com base nessa edição que procedi ao resumo. Ali, os organizadores seguiram a ordem lógica por assunto. Aqui, seguirei a ordem cronológica dos livros históricos, sapienciais e proféticos.

ANTIGO TESTAMENTO - I.

Essa parte da Bíblia se compõe de vários livros que o clero católico organizou em quatro grupos: - cinco primeiros livros conhecidos como Pentateuco ou como o Livro da Lei: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio; - 16 livros históricos: Josué, Juízes, Rute, Samuel (I e II), Reis (I e II), Crônicas (I e II), Esdras (I e II-Neemias), Tobias, Judite, Ester, Macabeus (I e II); - 7 livros sapienciais: Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cânticos, Sabedoria, Eclesiástico; - 18 livros proféticos: Isaías, Jeremias, Lamentações, Baruc, Ezequiel, Daniel, Oséias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias.

Todos ou pelo menos alguns dos livros do Pentateuco foram escritos depois da morte de Moisés, conforme a arguta observação de Thomas Hobbes (Leviatã, terceira parte, capítulo 33). Esses livros contêm leis cuja autoria é atribuída a Moisés.

Números esotéricos (3, 7, 12, 40) se destacam na Bíblia. Exemplo: 12 são as tribos de Israel; 12 são os signos do Zodíaco; 12 são os apóstolos do círculo interno da comunidade de Jesus.

Gênesis.

Este livro trata: (i) da criação (gênese) do mundo, do primeiro homem (Adão) e da primeira mulher (Eva); (ii) da expulsão desse primeiro casal do paraíso porque desobedeceram à ordem da divindade ao comerem o fruto da árvore da ciência do bem e do mal plantada no meio do Jardim do Éden; (iii) do descaminho da humanidade e da punição pelo dilúvio; (iv) da geração da nova raça humana a partir de Noé e seus familiares e da aliança da divindade com Noé; (v) da conversão do caldeu Abrão, depois Abraão, ao culto do deus único e sem nome, formação do povo hebreu na linhagem de Abraão, sua aliança com esse deus, que terá como sinal a circuncisão (o deus promete prosperidade ao povo e o povo promete fidelidade ao deus). O primogênito de Abraão foi Ismael, nascido de Agar, escrava egípcia de Sara, estéril esposa do patriarca. O segundo filho de Abraão, Isaac, nasceu de Sara, cuja esterilidade foi curada aos 90 anos de idade por benção divina. Ismael e Agar foram afastados da tribo e abandonados no deserto por ordem divina (Ismael sobreviveu e gerou a nação árabe). Abraão teve mais filhos com a concubina Cetura. Abraão presenteou esses filhos e os despachou para o Oriente Médio. Abraão nomeou Isaac seu sucessor. Jacó, filho e sucessor de Isaac, celebra nova aliança com o deus de Abraão. Esse deus promete especial segurança a Jacó e à sua descendência e o batiza com o nome de Israel. Jacó (Israel) teve 12 filhos (6 com Lia, 2 com Raquel, 2 com Bala, escrava de Raquel, e 2 com Zelfa, escrava de Lia). A cada filho de Jacó corresponde uma tribo (12 tribos de Israel). José, filho de Raquel, foi vendido por seus irmãos, pelo preço de 20 moedas de prata, a uma caravana de ismaelitas que passava no lugar onde eles apascentavam o rebanho. No Egito, José foi revendido a um eunuco da corte do faraó. Por interpretar sonhos, José caiu nas graças do faraó e se tornou ministro. Jacó (Israel) e seu pequeno clã, que passavam agruras na Palestina (Canaã) se mudaram para o Egito, sob a proteção de José e lá permaneceram por 450 anos.

Observações. A versão hebraica da criação do mundo e do dilúvio deve-se a outras culturas da Antiguidade. A ciência contemporânea desmente a versão bíblica, quer no que tange à cronologia, quer no que tange ao processo criativo. Israel, novo nome de Jacó, resulta da combinação dos nomes das divindades egípcias: Isis = lua + Ra = sol + El = sagrado. A autoria deste livro é atribuída a um príncipe e sacerdote egípcio (Moisés). Ismaelitas eram os descendentes de Ismael, que constituíram a nação árabe.

Êxodo

Este livro narra, no estilo épico, a saída do povo hebreu do Egito. Depois da morte de José, os hebreus perdem as regalias e a especial atenção dos faraós. Moisés, príncipe egípcio, sacerdote de RA, assume a tarefa de libertar o povo hebreu por determinação de um deus. Afirma estar exilado em Madiã (região situada no lado asiático do Mar Vermelho) quando esse deus se manifestou em uma sarça ardente que não se consumia com o fogo. A divindade se identificou como sendo o deus de Abraão, Isaac e Jacó e explicou que ocultara o seu nome a esses patriarcas, mas que agora o revelava: Javé. Com esse nome, a divindade se proclama deus do povo hebreu; promete aos hebreus uma terra fértil da qual mana leite e mel, espaçosa, habitada pelos cananeus, hiteus, amorreus, ferezeus, heveus e jabuzeus. Moisés já se afastava quando a divindade o chama e lhe dá a missão libertadora, assegurando que o faraó seria convencido à força. Na disputa de prodígios com os magos do faraó, Moisés e seu irmão Aarão saíram vitoriosos. Fizeram prodígios com suas varas mágicas transformando-as em serpentes, tingindo de sangue as águas, provocando pragas de rãs, mosquitos, moscas, gafanhotos, chuva de granizos, escuridão no céu, tumores e úlceras, mortandade de animais e de primogênitos egípcios, até o faraó permitir o êxodo. Autorizados pela divindade, os hebreus, ao partirem, despojaram egípcios do ouro, prata e vestidos. Moisés conduz os hebreus para fora do Egito, separa as águas do Mar Vermelho e atravessa o leito seco. Quando os egípcios tentam fazer o mesmo, morrem afogados. No deserto, Moisés sobe o Monte Sinai, celebra aliança com Javé e recebe os 10 mandamentos que constituem o direito fundamental do povo hebreu. Moisés dita normas sobre escravatura, propriedade, homicídio, lesões corporais, além de outras normas sobre moral e religião (costumes, rituais, festas). Enquanto Moisés, na montanha, se entrevistava com Javé por 40 dias e 40 noites, os hebreus, na planície, retornaram ao paganismo, fizeram um bezerro de ouro e passaram a adorá-lo. Moisés fica furioso, quebra as tábuas da lei, mata mais de 3 mil hebreus a golpe de espada, retorna ao Monte Sinai, pede perdão a Javé, grava novamente os 10 mandamentos e restabelece o monoteísmo. Manda construir uma arca onde as tábuas da lei são guardadas, que se denominou Arca da Aliança, símbolo da presença da divindade no seio do povo.

Observações. Se perseguição houve, certamente foi porque os hebreus estavam levando o ouro e a prata dos egípcios da vizinhança onde moravam. O condicional “se” é necessário porque há muita fantasia nessa história. Faltam dados históricos confiáveis e razoabilidade. A intimidade de Moisés com o deus Javé beira ao ridículo. Os dois conversam, o egípcio se afasta, o deus o chama de volta: “Moisés, Moisés, vem cá meu filho, preciso terminar a conversa”; o deus exibe a sua parte traseira a Moisés (o que dispensa o escritor de descrever o rosto de Javé). Se a saída do Egito era desejada pelos hebreus, então não havia motivo para Javé criar dificuldade e endurecer o coração do faraó. O contrário seria de esperar, ou seja, que esse deus amolecesse o coração do faraó. Para cessar as supostas desgraças provocadas pela magia de Moisés e Aarão, bastava ao faraó prender os dois e executa-los, pois dispunha de inteligência, força e poder para esta singela solução bem adequada aos costumes da época. Tampouco havia fortes razões para o faraó exigir a permanência dos hebreus em solo egípcio. Não há prova alguma da escravização dos hebreus pelos egípcios. Há notícia de uma tribo que não acompanhou Abrão e seguiu direto da Caldéia para o Egito sem que fosse escravizada. Do ponto de vista político, aquela gente citada no livro era egípcia, porque nascida no Egito, onde vivia há quatro séculos e meio (450 anos). No mundo atual, por exemplo, há judeus de nacionalidade brasileira, argentina, inglesa. Se esses judeus quiserem migrar para Israel, certamente não haverá estorvo algum da parte dos governos do Brasil, da Argentina e da Inglaterra (salvo se houver contas a prestar à Justiça). Ainda que conservasse costumes hebreus, aquela gente mencionada no livro estava sob as leis do Egito. O deus identificado como Javé, confessa que a sua intenção era a de mostrar o seu poder ao faraó. Muito estranha, para um deus, essa necessidade de exibir poder perante uma autoridade humana. Se o poder da mente divina foi suficiente para criar o mundo, muito mais o seria para, sem qualquer esforço físico, dissuadir o faraó ou qualquer ser humano. Por aí se vê que o poder desse deus era limitado e seu caráter censurável. O escritor hebreu pretende colocar vestes de herói em Moisés e elevar o povo hebreu ao nível de impérios majestosos como o egípcio, babilônio, assírio, caldeu, persa, quando, na verdade, os hebreus situavam-se em nível bem modesto, como o dos cretenses e sumerianos. Os egípcios eram da raça negróide, diferentes dos artistas caucasianos dos filmes de Hollywood sobre aquela admirável civilização. Sendo egípcio, Moisés pertencia à raça negróide. O escritor hebreu comete ato falho ao relatar o episódio da fuga para Madiã: “Um egípcio nos protegeu contra alguns pastores e, além disso, tirou água ele mesmo e deu de beber aos animais.” (Êxodo 2: 18/19). As filhas do sacerdote não identificam Moisés como hebreu, caldeu, árabe, e sim como egípcio. A raça não era discriminada em sua própria terra e arredores. O povo hebreu nunca assimilou inteiramente o monoteísmo. O povo resiste ao que é imposto à força. Moisés trouxe o monoteísmo da escola de mistérios formada pela nobreza egípcia e o enfiou na goela dos hebreus. Segundo versão complementar, Javé era divindade dos kenitas, povo do deserto que vivia próximo ao Monte Sinai. Moisés lhes tomou a divindade por empréstimo. Volta e meia, os hebreus recaíam no animismo e no politeísmo consoante tradição sua e dos povos daquela época. Essas recaídas acabaram por dividir o povo hebreu (930 a.C.): os monoteístas ortodoxos, de um lado (reino de Judá = duas tribos); os flexíveis e adoradores de deuses estrangeiros, de outro (reino de Israel = dez tribos). O decálogo do Êxodo é de época posterior a de Moisés, certamente introduzido por Esdras no século IV a.C. (400/301). Não há certeza histórica se houve um decálogo anterior, recebido por Moisés no Monte Sinai.

sexta-feira, 11 de março de 2011

RELIGIÃO

MINHAS CONCLUSÕES

Na rede de computadores, lista do Grupo Reconstrução, exclusiva dos juízes do Estado do Rio de Janeiro, travou-se debate, no segundo semestre de 2009, sobre “Davi e sua vocação” e “Nem Jeová nem Javé”, comigo de um lado e três desembargadores de outro, todos mais novos do que eu na carreira. (Nota para quem não é da área: “desembargador” é o título que se dá ao juiz de direito que exerce a judicatura no tribunal de justiça). Dois desembargadores, um da ativa e outro aposentado, eram pastores protestantes e o terceiro, católico apostólico romano. Rememorar o episódio se me afigura interessante porque alguns leitores da série “Cura pela razão e pela fé”, publicada neste blog (fevereiro/2011) poderão fazer a mesma indagação com a qual fui interpelado. A certa altura daquele debate, o pastor desembargador aposentado interpelou-me: “de onde você tira as tuas conclusões?” De imediato, lembrei-me da interpelação feita a Jesus pelo grupo de sacerdotes, escribas e anciãos, no templo de Jerusalém: “Com que direito fazes isso? Quem te deu essa autoridade?” Os interpelantes menosprezavam ciência alheia. Colocavam-se como donos exclusivos da verdade e intérpretes fiéis das escrituras. Jesus contra-atacou formulando outra pergunta: “O batismo de João era do céu ou dos homens?” Aquelas autoridades responderam que não sabiam. Jesus replicou: “Nem eu vos direi com que direito faço estas coisas”. (Lucas 20: 2/8; Marcos 11: 28/33).
A hebraica, a cristã e a islâmica não são as únicas religiões do mundo, embora cada qual se considere a melhor. Além de religiões, há filosofias de vida como as de Lao Tse, Kong-fu-Tse e Sidarta, que orientam a conduta de povos. No seio da mesma comunidade, há povos com peculiaridades culturais. Exemplos: (i) com a implosão da União Soviética realçaram-se características culturais dos países que a compunham; (ii) a revolução na Tunísia produziu efeito dominó e colocou à mostra semelhanças e diferenças entre os povos do Oriente Médio e do Norte da África; concepções de mundo variam tanto em nível individual como em nível coletivo; (iii) cada região do Brasil apresenta aspectos culturais próprios. Concordei com o colega católico quando afirmou que as escrituras rotuladas de sagradas resultam do obrar humano e que os obreiros se dizem inspirados pela divindade. O deus do meu coração, justo e bondoso, não me nega inspiração, como o deus de Moisés não a negou aos obreiros judeus e o deus de Jesus não a negou aos apóstolos. Além da Bíblia e do Corão, outras escrituras qualificadas de sagradas existem no mundo. O ser humano é quem qualifica de sagrada às escrituras, segundo o seu pensamento, as suas crenças e os seus propósitos.
Respondi aos meus colegas que, além da fonte divina, eu tiro minhas conclusões das fontes naturais e humanas externas, no exercício da minha faculdade racional. Abasteço a minha mente com dados extraídos: (I) do estudo da Bíblia e de outros textos religiosos e místicos; (II) do estudo de História, Sociologia, Economia, Direito, Ciências Naturais, Filosofia, inclusive com título universitário; (III) da experiência institucional (família, escola, igreja, judiciário) e da experiência comum das ruas; (IV) da TV (entrevistas, reportagens, filmes documentários); (V) do patrimônio existencial acumulado ao longo da vida, mediante os processos de seleção, assimilação e maturação (reflexão e meditação).
Das pesquisas para o romance “O Evangelho da Irmandade”, para o referido debate e para os artigos publicados neste blog, constam, entre outras, as seguintes obras: (1) Bíblia (Centro Bíblico Católico, São Paulo. Editora Ave Maria, 1987); (2) La Vida Mística de Jesús (Lewis, H. Spencer. Califórnia. Amorc, 1967); (3) O Cristo Cósmico e os Essênios (Rohden, Huberto. São Paulo. Martin Claret, 1991); (4) A Doutrina Mística (Blavatski, Helena P. São Paulo. Hemus, 1981); (5) O Livro dos Espíritos (Kardec, Allan. São Paulo, Editora Pensamento, 1994); (6) Tao Te King (Lao Tse. São Paulo, Martin Claret, 12ª edição, s/d); (7) O Fenômeno Humano (Chardin, Pierre Teilhard. Porto. Tavares Martins, 1970); (8) O Homem Eterno (Pauwels, Jacques Bergier e Louis. São Paulo. Divisão Européia do Livro, 1971); (9) Leviatán (Hobbes, Thomas. Madri. Nacional, 1979); (10) Para compreender os manuscritos do Mar Morto (Shanks, Hershel. Organizador. Rio. Imago, 1993); (11) O Santo Graal e a Linhagem Sagrada (Baigent, Michael e/os. Rio. Nova Fronteira, 1993); (12) O Código Da Vinci (Brown, Dan. Rio, Sextante, 2004); (13) Quebrando o Código Da Vinci (Bock, Darrell L. Osasco. Novo Século, 2004); (14) Decodificando Da Vinci (Welborn, Amy. São Paulo. Cultrix, 2004); (15) Maria Madalena (George, Margaret. São Paulo, Geração Editorial, 2002); (16) Operação Cavalo de Troia (Benítez, J. J. São Paulo. Mercuryo, 1987); (17) Admirável Mundo Novo (Huxley, Aldous. São Paulo. Victor Civita, 1980); (18) Nem Marx nem Jesus (Revel, Jean-François. Rio, Artenova, 1973); (19) Tratado Sobre a Tolerância (Voltaire, François-Marie Arouet. São Paulo, Martins Fontes, 2000); (20) Pequena História da Maçonaria (C.W. Leadbeater. São Paulo. Pensamento, 1968); (21) Manual Rosacruz (Grande Loja do Brasil. Curitiba, 1964); (22) História da Civilização Ocidental (Burns, Edward Mcnall. Rio/SP/Porto Alegre. Globo, 1955).
Na busca do conhecimento mediante fontes naturais e humanas, coloco a fé no cabide e me sirvo da razão, plagiando Lavoisier. Enquanto os meus opositores lêem a Bíblia com as lentes da fé religiosa, eu a leio com as lentes da razão. Entendemos de modo diferente o mesmo texto. Ilustro o que digo, com a mensagem contida na lista do Grupo Reconstrução, em que o evangélico, o católico e um terceiro desembargador (meu colega de concurso) qualificam de lindo o salmo 51, afinados na mesma interpretação. Pois bem. Naquele texto eu não vejo beleza alguma. Vejo maldade. Passo à análise. Fundo histórico: o rei Saul acusa Davi de traidor. Davi e família fogem e descansam em diferentes lugares. Na cidade sacerdotal de Nobe, Davi é recebido pelo sacerdote Aquimelec, que lhe fornece provisões e entrega a espada que pertenceu a Golias. O edomita Doeg leva esse fato ao conhecimento de Saul que mata Aquimelec, 85 sacerdotes e respectivas famílias e toda a população da cidade: homens, mulheres, meninos, meninas, crianças de peito e animais. Carnificina (Samuel I, 22: 9/20).
O salmo 51 refere-se a esse episódio. O texto verte ódio; não há beleza ou nobreza. Ao atribuir ao rei, língua pérfida, afiada como navalha, o salmista exibe fraqueza ante a retórica régia. As palavras do salmista, inferiorizado ante a verve do destinatário, vêm calcadas em sentimento de vingança e no ânimo violento. Daí, o expresso desejo do salmista de que o seu adversário seja destruído, expulso da tenda e extirpado da terra dos vivos. Deseja, ainda, no distorcido conceito de justiça, que os justos zombem do adversário. Os justos cultivam a ironia com elegância e respeitam os mortos; não zombam nem tripudiam de cadáveres. O salmista, impotente para a criminosa tarefa, sente-se feliz em transferi-la à divindade. O salmo supõe o caráter satânico do deus Javé, em sintonia com a cultura hebréia; reflete os atributos do povo hebreu na Antiguidade, iguais aos daquele deus: genocida, homicida, materialista, vingativo, violento. Identificar esse deus com o Deus de Jesus, como faz a igreja de Paulo (católica e protestante) chega às raias do sacrilégio. Justificar os atributos satânicos de Javé com a hobbesiana tese de todos contra todos, equivale a esconder o sol com a peneira. Deus é invariável na sua natureza, sempre o mesmo, desde a criação do mundo, para todos os povos, indistintamente. Esse Deus que Jesus tanto amava é o Deus da luz (razão, inteligência, sabedoria), Deus da vida (física, moral, espiritual) e Deus do amor (incondicional, ilimitado, infinito). O Pai Celestial de Jesus não mandaria matar homens, mulheres, meninos, meninas, crianças do peito e exterminar todo um povo, na Antiguidade ou em qualquer outra época, como ordenou o deus de Moisés (Samuel I, 15: 1-4).
Pelo exposto, ao contrário dos meus opositores que acham lindo o salmo 51, eu o qualifico de horrível. Questão de ponto de vista. Cultura fiduciária versus cultura racional.

segunda-feira, 7 de março de 2011

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VIAGEM A CAMPINAS – Final.

Lothar, de bom humor, referiu-se algumas vezes ao seguinte episódio: em uma festa da TM (= Turma de Merda) em Curitiba, quando éramos jovens e solteiros, com algumas cervejas no caco, eu dissera que ele podia casar com a namorada (hoje, sua esposa), pois eu acabara de lhe dar uma baita cantada e ela resistira. A primeira parte da narrativa provavelmente ocorreu. Creio que ao inventar a cantada, eu testava a reação do Lothar. A segunda parte da narrativa me parece improvável por motivos óbvios: (i) eu jamais cantei mulher alguma, pois eu era avesso a esse tipo de conduta; (ii) cantar ou namorar irmãs ou namoradas dos meus amigos nunca fez parte dos meus costumes; (iii) eu era tímido.
Em pleno carnaval (1958) na sede do Coritiba FC, eu brinquei com uma garota que há muito tempo admirava. Ela morava no bairro vizinho ao meu. Sentamos na escadaria. Seria o nosso primeiro diálogo. Eu não acreditava que ela estivesse ali, ao meu lado. Ela quieta e eu sem saber o que falar. Abordei o assunto mais inadequado para a ocasião: esoterismo. Perdi a chance. Eu devia ficar calado. O silêncio é de ouro. A timidez me derrotou.
Certa vez (1964) em reunião com outra turma de amigos, todos conversavam ao mesmo tempo, quando Marisa levantou-se da poltrona, arregalou os olhos, abriu os braços e exclamou em voz alta: “o Antoninho é tímido; pessoal, o Antoninho é tíiiimido!” Aquilo me constrangeu. Ela descobrira – não sei como, talvez por eu enrubescer – um traço do meu caráter que a alegria, a boemia e as serestas escondiam. Apesar de aparentar o contrário, eu era tímido, especialmente com mulheres. Nunca mandei flores, presentes, nem fiz gesto ou tomei atitude alguma com o propósito de conquistar mulher, inclusive a minha esposa (e eu já estava com 31 anos de idade quando a namorei). O relacionamento acontecia naturalmente: vencida a timidez inicial, ambos os lados se entendiam.
Em São Paulo, quando eu cursava filosofia do direito (pós-graduação) recorri às artes marciais para vencer a timidez no campo profissional. Tentei não sucumbir diante dos desafios daquela metrópole (1968/1970). Tímido, pobre, moreno e modesto, eu seria engolido pelo desvario daquela cidade se não adquirisse agressividade. Praticando caratê fiquei agressivo e confiante.
Esse perfil me leva a duvidar da existência real daquela cantada a que o Lothar se refere. Não me lembro do ato, nem do relato. Provavelmente, o relato existiu, pois o Lothar nele insiste com firmeza, mas, certamente, o conteúdo do relato terá saído da minha imaginação a título de troça jovial.
Lothar referiu-se a mim como rei do cavaquinho. Contudo, poucas vezes toquei cavaquinho, assim mesmo, por simples divertimento. O meu instrumento sempre foi o violão. Isto lembra um dos maiores vultos da música popular brasileira: tocou cavaquinho, mas seu instrumento principal e preferencial era o violão. No entanto, ficou o apelido: “Nelson do Cavaquinho”. O rei do cavaquinho era Waldir Azevedo; o rei do bandolim era Jacó. Atualmente, existem exímios tocadores de violão, cavaquinho e bandolim.
Fim de noite. Despedidas, promessa de nos reunirmos em Guaratuba. Lina e Janete nos levaram ao hotel. Entreguei a Lina três exemplares do livro “O Evangelho da Irmandade” da minha autoria, para presentear pessoas que gostem do tema. Eu já presenteara Lina e Lothar com um exemplar no dia do aniversário, além do presente trazido pela Jussara.
Sábado. 19/02/2011. 09,00 horas. Lanchamos no hotel. O moço da portaria nos explicou o itinerário até a rodovia Pedro I. Abastecemos o carro no posto da Avenida Moreira Sales e seguimos reto, passamos pelo parque ecológico até a placa indicativa da rodovia. Com a nossa chegada, os cachorros (Pretinho, Bóris, Brigitte e Laika) ficaram alegres e fizeram festa. Voltamos à rotina.

domingo, 6 de março de 2011

VIAGEM2

VIAGEM A CAMPINAS – II.

Na festa realizada na sociedade hípica, conhecemos as filhas, genros, netos e amigos do Lothar. Conversamos mais tempo com uns do que com outros. O Lothar referiu-se a mim como juiz federal. Na verdade, eu sempre fui juiz de direito estadual: primeiro, do Estado do Paraná (1970/1973); depois, do Estado da Guanabara (1973/1975) e por fim, do novo Estado do Rio de Janeiro (1975/1990). Tanto na magistratura do Paraná como na da Guanabara ingressei por aprovação em concurso público. Inscrevi-me no concurso para juiz federal, porém, o concurso da Guanabara saiu antes e eu lhe dei preferência. A confusão do Lothar deve-se a essa minha mobilidade em diferentes Estados da federação.
Aliás, colegas do Paraná afirmavam que eu havia passado em 1° lugar no concurso da Guanabara, sem que eu jamais falasse a respeito. Eles imaginavam e torciam por essa colocação, mas, na verdade, eu passei em 40º lugar. Eu ficaria feliz até com o último lugar, pois centenas de juízes, procuradores, promotores de justiça, defensores públicos e advogados vieram de vários Estados do Brasil, como RS, SP, RJ (antigo), MG, ES, AM, AC, disputar vagas no Estado da Guanabara. Foram aprovados 45. A maioria ficou nas provas escritas. Outros foram eliminados nas provas orais. A magistratura da Guanabara era bem conceituada no país. O Estado era rico e pagava muito bem os juízes. Entrei como juiz substituto ganhando três vezes mais do que ganhava como juiz substituto no Paraná. A banca examinadora era rigorosa e composta de juristas de escol (Ebert Chamoun, Hélio Tornaghi, Oscar Tenório).
A reunião estava animada. Uísque, cerveja, refrigerante, água mineral, à beça. Misturei tudo. Gosto de bebida gelada. A garganta que já não estava boa começou a dar sinais de agravamento. O alimento descia apertado. Jantar muito bom. Exposição de fotografias pelo laptop e projeção em tela, com fundo musical. Foi emocionante. Eu guardo boa lembrança do Lothar, da sua irmã, dos seus pais e da casa deles em Curitiba (apareceram nas fotos). Eles moravam perto da casa da minha irmã Adília. Paralelo às fotos na tela, o filme da minha juventude rodou na superfície da minha mente, projetado do fundo da memória. Imagens de pessoas queridas, vivas e mortas, recordação de episódios, alguns alegres, outros dolorosos, horas difíceis e horas felizes. Um sentimento misto de saudade e tristeza acompanhou a lembrança. Chorei. Jussara me socorreu, gentil e maternamente, preocupada com a minha saúde. Depois, Lothar e eu em pé, lado a lado, ambos com os olhos lacrimejados, ele segurando o copo de uísque, pousa o outro braço no meu ombro. Naquele instante, veio-me a sensação de que éramos dois sobreviventes no oceano da vida.
Impulsivamente, fiz um breve discurso em homenagem ao aniversariante. Era a despedida sem anúncio prévio. Saí da festa à francesa, como disse Larissa, simpática e educada filha do Lothar, no almoço do dia seguinte.
Sexta feira, 18/02/2011. 10,00 horas. Jussara e eu saímos a passear / hora e meia, calmos a folgar / fotografia dela tirei / na praça do coreto e chafariz / atrás o hotel Ibis em que fiquei / à frente o largo da eclesiástica matriz. Versejar também é preciso, meu caro Pessoa. Conhecemos a catedral, abóbada altíssima, altares emoldurados com madeira de lei escura e desenhos entalhados, que produz uma atmosfera pesada no interior da igreja. Lá se encontravam pessoas descansando e orando, idosos a maioria. Tiramos fotografia do exterior. Reserva-se o entorno aos pedestres. Intenso movimento. Entramos no mercado municipal. Transitamos por algum tempo. Retornamos ao hotel, pegamos o violão, alugamos um taxi e fomos para a casa do Lothar. Almoçamos costela bovina, alcatra, salada, sobremesa, vinho, cerveja, refrigerante, água mineral. Conversamos e cantamos (Waldir, Marília, Janete, Jussara, Lina, Lothar). Apesar da garganta adoentada e do rescaldo emocional do dia anterior, consegui cantar músicas da época de solteiro (1955/1970). Depois, assistimos, em DVD, ao excelente espetáculo do violinista holandês André(s) Rieu. Na janta, o mesmo cardápio do almoço (“queima de ossos”) sob a zombaria do Waldir, cujo repertório de piadas é imenso. Foram momentos de descontração, riso e alegria.

sábado, 5 de março de 2011

VIAGEM

VIAGEM A CAMPINAS – I.

Quinta feira. 17/02/2011. 08,10 horas. Manhã ensolarada. Convidados para o aniversário do Lothar (70 anos) Jussara e eu saímos com destino a Campinas. Chegamos por volta das 12,30 horas. Regressamos no dia 19/02/2011, sábado de sol e brancas nuvens. Saímos de Campinas às 10,00 horas e chegamos a Penedo às 14,20 horas. Na ida viajamos pela rodovia Dutra até Jacareí, onde entramos na rodovia Pedro I. Voltamos por essa mesma rodovia, entramos na Carvalho Pinto e fomos até aonde bifurca: à esquerda, Campos do Jordão; à direita, Taubaté, por onde ingressamos na Dutra e prosseguimos até Itatiaia/RJ.
Em Campinas, demoramos um pouco para chegar ao centro da cidade. Aos olhos do adventício, o trânsito é confuso, cheio de entroncamentos e curvas o que torna difícil a orientação, ainda mais quando há campineiro que não sabe informar onde fica o centro da cidade! Hotel bom, com ar condicionado geral, suíte pequena, ducha muito boa com água quente e fria, frigobar abastecido pelo próprio hóspede, serviços gerais satisfatórios, café da manhã padrão (frutas, cereais, queijos, manteiga, geléias, bolos, pães, sucos, café, leite, chocolate). A moça da portaria do hotel nos deu dois cartões eletrônicos para abrirmos a porta do apartamento. Duas diárias de casal, café da manhã, consumo do bar, estacionamento, somaram R$372,00. Não desembolsamos dinheiro. Bastou apresentar um cartão de plástico. Como é bom viver na era tecnológica!
Mal entramos no apartamento, toca o telefone. Era o Lothar. “Dentro de 15 minutos estarei aí para levá-los à minha casa”. Caramba! Ducha rápida. Descemos ao andar térreo no momento em que Lothar passava pela porta do hotel. A porta é mágica. Tão logo a gente se aproxima, ela se abre. Nem precisa dizer “abre-te Sésamo”. Abraçamo-nos, trocamos algumas palavras, entramos no carro dele e partimos. Ao chegarmos, um cachorro pastor alemão, bonito e brabo, veio nos receber. O Lothar o manteve a distância e os latidos cessaram. O cachorro é amestrado e obediente. Gostei dele. Lembrei do Bóris. À porta da sala, a esposa do Lothar nos recebeu com um largo e simpático sorriso. Sentimos que éramos bem-vindos ao lar dos nossos amigos. Lá estavam Larissa (filha do casal) Waldir (amigo de juventude do Lothar), a esposa Marília e a comadre Janete. Almoçamos bacalhau e salada e tomamos vinho, cerveja, refrigerante e água mineral. Sobremesa: torta de morango. Tudo delicioso! Ao entardecer, Jussara e eu voltamos para o hotel. Lothar nos levou. Passamos em frente ao hotel e o perdemos de vista. Mágica do Lothar. Ele colocou disco para ouvirmos música enquanto entrava e saía de ruas e avenidas, subia e descia ladeiras. Quase chegamos a Atibaia. Depois de 600 horas de vôo, ele conseguiu aterrissar em frente ao hotel. Comemoração dos 70 anos!
19,30 horas. A moça da portaria do hotel chamou taxi. Rumamos para a sociedade hípica (a Jussara e eu; a moça ficou no hotel). Começou a chover forte, uma tempestade de vento, raio e trovoada que nos reteve dentro do taxi. Passados alguns minutos, saímos correndo. A chuva não parava e se intensificou novamente. A senhora do restaurante nos emprestou uma barraca de mesa externa a guisa de guarda-chuva para chegarmos ao local da festa, onde ficamos até as 23,00 horas quando, chamado por Jussara, o taxi nos foi buscar.