sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

código da vinci IX

O SANTO GRAAL

A reportagem levada ao ar pela emissora de TV GNT, canal a cabo, no dia 12/12/2004, à noite, com o título Jesus, Maria e Da Vinci, teve como tema central, as teorias contidas no livro “O Código da Vinci”, de Dan Brown. Foram entrevistadas várias personalidades, entre as quais o referido autor, os escritores Daryl Bock (“Quebrando o Código Da Vinci”), Henry Lincoln (“O Santo Graal e a Linhagem Sagrada”), Umberto Eco (“O Pêndulo de Foucault”), um sacerdote católico, um especialista em arte, dois integrantes da família Saint-Clair (presumíveis descendentes de Jesus e Maria Madalena) e algumas senhoras acadêmicas. Entre as cenas exibidas na reportagem estão: (i) a Biblioteca Nacional da França; (ii) os documentos secretos lá depositados, que provariam a linhagem merovíngia a partir de Jesus e Maria Madalena; (iii) a cópia dos evangelhos apócrifos que narram as intimidades entre Jesus e Madalena; (iv) o imenso quadro de Leonardo da Vinci denominado “Última Ceia”, pintado na parede do refeitório de um mosteiro em Milão.

Amy Welborn (“Decodificando Da Vinci”) demonstrou a origem espúria dos “documentos secretos” plantados na Biblioteca Nacional da França por um espertalhão. O Priorado do Sião, referido nos documentos, também traduzido Monastério do Sinai, pode ter existido historicamente, porém, os vínculos pretendidos pelo estelionatário francês são forjados. Quanto à autenticidade dos evangelhos apócrifos não há dúvida alguma. A sua publicidade lançou uma nova luz sobre os primórdios do cristianismo. Deles se depreende que, das relações entre Jesus e os apóstolos, Maria Madalena se sobressai, reconhecida como apóstola dos apóstolos e não a prostituta dolosamente pintada pelos celibatários da igreja católica medieval. Margaret George, em seu bem pesquisado romance “Maria Madalena - A Mulher que amou Jesus” diz que Maria foi expulsa da família e chamada de prostituta por seu próprio pai, por ter seguido Jesus, Pedro e André, antes de retornar à casa do seu marido, de onde saíra para se curar de doença mental. Jesus a teria exorcizado com êxito, depois do insucesso do tratamento na sinagoga. Maria já era casada com Joel e tinha uma filha (Eliseba) quando conheceu Jesus. Essa teoria vale tanto quanto as diferentes teorias de Brown e de Lincoln.

O guia da repórter da emissora de TV, no mosteiro de Milão, diante da pintura de Leonardo (Ultima Ceia) nega que o primeiro apóstolo à direita de Jesus seja mulher. “Não há seios”, diz ele, apontando para a figura, afirmando tratar-se do apóstolo João. “Há outros de cabelos compridos, inclusive Jesus”, insiste o guia, apontando para cada figura. Aliás, o rosto de Jesus está parecido com o de Leonardo. Um especialista em arte, entrevistado pela repórter, afirma que aquela imagem é de mulher. Cabe lembrar, todavia, que os traços femininos são comuns em jovens de 14 a 16 anos, idade aproximada do apóstolo João no episódio da santa ceia. Quando voltou a moda dos cabelos compridos para homens, na segunda metade do século XX, notava-se, pelas feições, que rapazes imberbes se pareciam com moças. Considerando, ainda, a homossexualidade de Leonardo, mais se entende a aparência feminina do adolescente pintado no seu quadro. Os que vêem mulher naquela figura, pretendem atribuir a Leonardo, mensagem oculta sobre o feminino sagrado. Aquela figura feminina substituiria o cálice em que beberam Jesus e os apóstolos. Esta seria a explicação plausível para Leonardo ter excluído do quadro (Última Ceia) o referido cálice. Isto indicaria que o cálice sagrado, o santo graal, era aquela mulher (Maria Madalena) cujo útero recebera o sangue divino (sêmen) de Jesus, seu esposo. Daí a linhagem sagrada dos reis merovíngios gestada, no Sul da França, por Sara, filha de Jesus e Maria Madalena. O nome santo graal, portanto, seria uma corruptela de sangue real.

Nenhum entrevistado foi categórico sobre o casamento de Jesus e a sua descendência. Brown, Bock e Lincoln mantiveram as suas respectivas teorias. Quanto a Umberto Eco, afirmou que o santo graal é uma lenda, como o Chapeuzinho Vermelho e o Pinóquio, um conto da carochinha, sem qualquer substrato histórico. Do ponto de vista exotérico, a razão parece estar com Umberto Eco. Do ponto de vista esotérico, entretanto, há uma tradição oral sobre aquela relíquia (cálice da santa ceia). José de Arimatéia teria levado o cálice para a Grã-Bretanha. Posteriormente, foi atribuído um significado político ao santo graal: indicaria a nobreza da família de Jesus (a partir do rei Davi), o seu casamento com Maria Madalena, a sua filha Sara e a expansão da linhagem sagrada na Europa, com os reis merovíngios. Materialmente, o santo graal incluiria o cálice, os ossos de Maria Madalena e os documentos guardados pelos Cavaleiros Templários.

Henry Lincoln e seus colegas Michael Baigent e Richard Leigh, dizem que as bodas de Caná mencionadas no Novo Testamento são as bodas de Jesus e Maria Madalena. Somente o apóstolo João menciona essas bodas (João 2). Contudo, Jesus, sua mãe, irmãos e discípulos eram convidados, conforme a narrativa de João. A mãe de Jesus já se encontrava no local quando Jesus e seus discípulos ali chegaram. De acordo com os costumes, Maria ali se achava para ajudar as famílias dos noivos no andamento da festa. Em dado momento, ela diz: “eles já não têm vinho”. Se fosse ela a anfitriã e Jesus, o noivo, teria dito: “nós já não temos vinho” ou, “o vinho acabou”. Jesus respondeu que aquele assunto não lhes competia (porque eram convidados e não anfitriões). O problema era do dono da festa. Maria, mãe de Jesus, o convenceu e solicitou vasilhame aos serventes. Isto não quer dizer que Maria fosse a patroa dos serventes e sim amiga da família que ali estava para ajudar. O chefe dos serventes não presenciara os fatos. Ignorava, pois, a origem daquele vinho. Por isso, atribuiu ao esposo, dono da festa, e não a Maria e a Jesus, a providência de mais vinho. Depois da festa, Jesus desceu para Cafarnaum com sua mãe, irmãos e discípulos. Se Jesus fosse o noivo, teria ficado com a noiva, ou a teria levado consigo. Conclusão que se impõe: as bodas de Caná não eram de Jesus e Madalena. Ao invés de metáfora sobre tal casamento, o objetivo do evangelista foi o de revelar o primeiro milagre externo de Jesus: a transformação da água em vinho.

código da vinci VIII

FEMININO SAGRADO

Há outras interpretações possíveis do quadro de Leonardo da Vinci, “Última Ceia”, além daquela dada pelo autor do livro “O Código Da Vinci”. O escritor e os seus contestadores deixaram de extrair algumas conseqüências dos seguintes fatos: (i) o quadro ter sido pintado na parede do refeitório de um mosteiro em Milão; (ii) a homossexualidade de Leonardo, da qual Amy prefere duvidar, insinuando que houve um único episódio de sodomia.

A pintura é uma criação artística de Leonardo e não o retrato da ceia de Jesus com os apóstolos. Leonardo não esteve presente à santa ceia. Jesus e os apóstolos não posaram para o pintor. Os tipos pintados naquele quadro saíram da criatividade e da sensibilidade do artista. Ninguém sabe como eram os traços fisionômicos e demais características físicas de Jesus e dos apóstolos. Caminhando e pregando sob sol e intempéries durante 3 anos, na cidade, no campo, na montanha, no deserto, Jesus, provavelmente, não teria a pele alva. Seus olhos podiam ser verdes, azuis ou castanhos. O seu cabelo podia ser claro ou escuro, liso ou ondulado. Sabe-se que era comprido por causa do voto nazareno. Estatura alta ou baixa. Compleição física franzina ou robusta, mas vigorosa para agüentar as caminhadas, as reuniões, o magistério, os confrontos nas ruas e no templo e o suplício da crucifixão. O seu aspecto parecia não ferir o senso estético das mulheres e das crianças.

Leonardo passou o viés andrógino à sua pintura. O primeiro apóstolo à direita de Jesus, na pintura da santa ceia, não é o único com feição e gestos efeminados. Esse apóstolo seria João, o “discípulo amado” de Jesus. O curioso é que essa expressão encontra-se, apenas, no evangelho de João, que outorgou esse título a si próprio. Os demais apóstolos também eram amados. Na época da última ceia, João era um jovem imberbe e genioso. O terceiro apóstolo à esquerda de Jesus parece-se com mulher tanto quanto João. Os traços finos e os longos cabelos dourados dão-lhe acentuado toque feminino. Quanto aos seios de João (Madalena, segundo o escritor), ficam por conta da imaginação do intérprete do quadro. O segundo apóstolo à esquerda de Jesus também está com o lado esquerdo do corpo virado para a mesa e parece mostrar mais volume de seios do que João. Na realidade, são dobras da túnica.

A letra V, símbolo da feminilidade (cálice), realmente, pode ser imaginada no espaço entre Jesus e João (Madalena). Invertida, essa letra passa a ser o símbolo da masculinidade (espada). O cálice: Maria Madalena. A espada: Jesus. Contudo, outras letras podem ser encontradas no quadro, se pintadas com a imaginação do intérprete. O fato de os artistas, por vezes, colocarem mensagens ocultas em suas obras, pode levar os críticos e intérpretes a versões fantasiosas. A figura de Maria Madalena fascina algumas pessoas, todavia, enxergá-la no quadro de Leonardo parece exagero. Os 12 apóstolos eram homens: Simão (Pedro), Tiago (filho de Zebedeu), João, André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago (filho de Alfeu), Tadeu (Judas), Simão (o Zelador) e Judas Iscariotes. Com a morte de Judas Iscariotes, um homem (Matias), não uma mulher, foi eleito pela assembléia dos discípulos para sucede-lo (Atos 1: 15,26). Isto reflete a cultura patriarcal da época. Leonardo foi fiel ao número de apóstolos. Tudo o mais naquele quadro é fruto da sua criação artística. A pista sobre o feminino sagrado e o santo graal foi pavimentada pela imaginação e a licença artística do autor de “O Código Da Vinci”.

Os evangelistas não descrevem o local da ceia, o tipo de mesa e a posição que nela ocupou cada apóstolo. Informam, apenas, que foi no andar superior de uma casa, em uma sala mobiliada. A mesa principal poderia ser redonda, retangular ou em forma de ferradura. Pela descrição contida nos evangelhos, a ceia pascal era a costumeira: vegetal, carneiro, pão, vinho e canto dos salmos. Todavia, Jesus introduz um novo simbolismo naquela ceia. Em dado momento, divide um único pão entre os comensais, circula um único cálice de vinho em que todos beberam e lava os pés dos apóstolos. Comunhão, serviço, humildade, fraternidade. João foi prolixo no capítulo da última ceia e o único evangelista a se referir à lavagem dos pés.

Ao narrarem a última ceia, os evangelistas omitiram as mulheres, quiçá em virtude da disputa entre Pedro e Maria Madalena pela liderança do grupo. Segundo os costumes da época, as mulheres exerciam papel subalterno; eram coadjuvantes. A liderança feminina podia acontecer de fato, mas não de direito. A presença de mulheres naquela ceia pascal é de alta probabilidade, inclusive no preparo dos alimentos e na arrumação da sala. Elas acompanhavam Jesus em todos os lugares, desde a saída da Galiléia; faziam parte da comunidade formada pelo mestre, apóstolos, discípulos e simpatizantes. Considerando que a assembléia da comunidade jesuítica naquele período contava, pelo menos, com 120 membros (Atos 1:15), participaram da cerimônia, certamente: (i) o mestre e os 12 apóstolos, integrantes do círculo interno, na mesa principal; (ii) discípulos de ambos os sexos, integrantes do círculo externo, em mesa(s) suplementar(es). O patriarcado, na Palestina, era instituição muito forte. Basta ver o modo autoritário como Jesus se dirige à sua mãe, quando procurado por ela e seus irmãos. Na cruz, essa atitude não mudou (João 19:26). Jesus colocou a mãe sob os cuidados de João, um jovem adolescente. Jesus fala do Pai Celestial. Jamais mencionou a Mãe Celestial. Na tradição esotérica, a Terra simboliza a Deusa-Mãe, e o Sol, o Deus-Pai.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

código da vinci VII

CASAMENTO DE JESUS

Entre os motivos da preservação das invencionices contidas nos livros sagrados estão os interesses econômicos das organizações religiosas. A batalha pela verdade sobre Jesus inclui a batalha pela riqueza dessas organizações. A controvérsia gerada pelo livro “O Código Da Vinci”, em torno do evangelho, reflete essa batalha. Segundo esse romance, Jesus era de sangue real. Descendia do rei Davi. Teve esposa, filha e manteve a linhagem nobre.

Há pouca chance de casamento para Jesus. A sua missão e os seus votos de nazareno impediam casamento e família própria. Só após cumpri-los Jesus estaria livre para casar. Destarte, em face do normal período de gestação, a ida de uma esposa e filha para a Gália só poderia ocorrer cerca de um ano após a crucifixão e não imediatamente, como consta do romance. Jesus teria retribuído o amor de Maria Madalena. Antes mesmo da crucifixão, na presença dos discípulos, Jesus e Maria Madalena beijavam-se na boca, narra Brown. Contestando, em “Quebrando o Código Da Vinci”, Bock diz que o evangelho de Felipe está rasurado nessa parte: “Jesus beijava Maria Madalena na...” Portanto, os beijos podiam ter sido na bochecha ou na testa. Certo. Conforme as letras cabíveis no espaço da rasura, os beijos podiam ter sido, também, na mão, na perna ou na coxa. Se a troca de beijos era costume entre os membros da confraria, como símbolo da oral transmissão da sabedoria, não havia razão para Felipe mencionar apenas os beijos entre Jesus e Maria Madalena, nem motivo para Pedro ficar enciumado. Episódio intrigante: no segundo dia após a crucifixão, Maria Madalena não reconheceu Jesus, o seu amado. Explicação plausível: Jesus estava com visual novo, rosto liso, cabelos curtos ou raspados, roupas comuns, aparência mais jovem.

A fuga para a Gália, de Maria Madalena e filha, é de fraca probabilidade. Os judeus, que tudo fizeram para crucificar Jesus, não iriam hospedá-las nas suas casas, ainda mais no calor dos acontecimentos, salvo se fossem aqueles poucos judeus como José de Arimatéia, seguidores de Jesus ou simpáticos à sua causa. A comunidade referida por Brown poderia, na verdade, não ser judaica e sim israelita, remanescente do Reino de Israel. Os judeus, remanescentes do Reino de Judá, residiam na Judéia, Sul da Palestina. Não admitiam Jesus como o Messias. Estavam certos. Jesus apenas desempenhou o papel de Messias. A impostura tinha uma finalidade nobre: acabar com o mito hebraico e mostrar ao mundo que não havia povo eleito. Todos eram filhos de Deus, sem distinção. Após cumprir a sua missão e os seus votos, Jesus retirou-se da vida pública. Tanto pode ter se casado, como permanecido solteiro e recluso no Monte Carmelo, no seio da comunidade nazarena da Galiléia, até o fim dos seus dias. A vida monástica de Jesus explicaria melhor a reprodução, 60 anos após a crucifixão, das suas palavras em textos religiosos, numa época em que não havia gravador nem filmadora. Jesus teria escrito ou ditado essas palavras aos escribas da fraternidade. Por outro lado, dos 4 evangelistas, apenas Mateus e João pertenciam ao colégio dos apóstolos. Ambos eram letrados. Podem ter anotado palavras, atitudes e acontecimentos.

O autor de “O Código Da Vinci” aproveitou a aura de mistério em torno das sociedades secretas para incluir na trama o Priorado de Sião e os Cavaleiros Templários. Ao contestar, em “Decodificando Da Vinci”, Amy Welborn admite a existência dessa sociedade secreta no final do século XIX, em França. Conta que um espertalhão chamado Plantard, registrou naquele País, em 1956, outra sociedade com esse mesmo nome, para defender a sua descendência dos reis merovíngios e o seu direito ao trono da França, cuja linha sucessória tem sua origem em Jesus e Maria Madalena. Em “Quebrando o Código Da Vinci”, Bock sustenta a pouca probabilidade da existência do Priorado. Admite a existência, na Idade Média, da Ordem de Sião, sediada em uma abadia. A data da fundação de uma sociedade secreta sempre é imprecisa. Os seus membros sustentam sua antiguidade, tradição e a existência de um círculo interno de superior hierarquia. Arrolam ilustres personagens históricos como sócios. Nessa linha, a teoria de Brown pode estar certa. O Priorado de Sião, ou Monastério do Sinai, segundo Michael Baigent em “O Santo Graal e a Linhagem Sagrada” seria, realmente, o círculo interno da ordem monástica dos Cavaleiros Templários. Os exercícios físicos e espirituais mencionados no livro de Brown eram comuns nas ordens monásticas.

Provavelmente, neste III Milênio, as baboseiras contidas nas escrituras sagradas de muçulmanos, cristãos, judeus, budistas e hinduistas, perderão fôlego. O avanço científico, a diversidade dos meios de comunicação, a liberdade de informação e de consciência, permitirão uma interação cada vez maior nesse terreno. Elevando-se o nível geral de compreensão, as fantasias cairão no descrédito. A humanidade está caminhando para uma era de iluminação espiritual em escala planetária, do que a expansão da consciência ecológica já é um indicador. A beligerância de alguns povos não impedirá a evolução espiritual cosmopolita. Os maçons e os rosacruzes ficaram na clandestinidade por alguns séculos, em virtude da perseguição religiosa. Entre os motivos da perseguição estava a liberdade de crença, de pensamento e de consciência pela qual lutavam tais sociedades secretas. Estas deixam de ser secretas na medida em que a intolerância e a ignorância cedem o passo à liberdade e à razão. Hoje, no Ocidente, essas sociedades funcionam à luz do dia. A intolerância retardou, mas não conseguiu impedir o avanço do conhecimento racional e o recuo da servidão humana.

código da vinci VI

RESSURREIÇÃO ENGANOSA

No seu livro “Quebrando o Código Da Vinci”, o professor Bock diz que a ressurreição é o choque entre a vida e a morte, do qual a vida sai vencedora. Esta é uma visão marcial do fato religioso e ético: a guerra da vida contra a morte, do bem contra o mal. Outra será a visão se o conceito morte distinguir-se do conceito fim despida de juízo de valor. Desde que a morte seja vista como passagem de uma forma de vida a outra, a colocação marcial perde o sentido. Entre a vida e a morte não há choque; não há vencedores e vencidos. Trata-se da lei da mutação universal no mundo físico, enunciada por Heráclito e Lavoisier. Muito se fala no “caminho para a vida”, como se os seres humanos estivessem mortos. Essa metáfora é ridícula. A vida é palpitação, vibração, como se verifica em todos os seres vivos. A natureza é vida e a sua fonte está em Deus. Há diferentes modos de o ser humano perceber a fonte da vida, posto estar nela mergulhado. O ciclo vital do ser humano provoca o sonho da eternidade. A ressurreição acontece em poucos casos médicos. Quanto a Jesus, há indícios veementes de que não morreu na cruz por ter sido socorrido a tempo. Em não havendo morte, não há ressurreição.

A resistência de Pilatos em aplicar a pena capital quase frustrou os planos da seita de Jesus. A morte e a ressurreição tinham papel fundamental. Pilatos não prolatou sentença. Se o tetrarca da Galiléia, Herodes Antipas, autoridade competente para decidir o caso, não condenou Jesus, não seria ele, o romano Pilatos, quem condenaria. Lavou as mãos depois de pesar sobre ele a insinuação feita pelos sacerdotes judeus, de que estaria protegendo um subversivo, o que poderia desagradar o imperador romano. Deixou a decisão aos fariseus, que insistiam na aplicação do direito romano quanto à pena e sua execução (crucifixão) já que não podiam aplicar a pena do direito judaico (apedrejamento) não só por causa da Páscoa, como também por determinação legal de Roma. Convicto da inocência, Pilatos não queria a morte de Jesus. Assim, não titubeou em autorizar José de Arimatéia a retirar o corpo da cruz sem que fossem quebradas as pernas de Jesus. Os outros dois crucificados tiveram as pernas quebradas. O apóstolo Marcos refere-se ao testemunho do centurião interpelado por Pilatos, de que Jesus estava morto (Marcos 15: 44,45). Breve nos costumes: o centurião recebera propina para testemunhar (Mateus 28:12). Pilatos fingiu acreditar. Jesus foi levado à propriedade de Arimatéia, próxima ao Gólgota, depois de receber os primeiros socorros no sepulcro (que também pertencia a Arimatéia). Mudou o visual para não ser reconhecido pelos fariseus. Dois dias após a crucifixão, nem Maria Madalena reconheceu Jesus (João 20: 11,15). Os demais discípulos também não o reconheceram. Só ficaram convencidos após verem as feridas deixadas nas mãos e no corpo de Jesus e assistirem à sua refeição (Mateus 28: 17; Marcos 16: 14; Lucas 24: 16, 36, 43; João 21:4).

Cumpridos os votos e a missão, os nazarenos podiam cortar os cabelos, a barba, o bigode e usar trajes comuns. Entre os votos dos nazarenos incluíam-se o de castidade e o de celibato. O voto de castidade implicava abstinência sexual, prática adotada pelos místicos para alcançarem a iluminação espiritual. A energia sexual é canalizada para a concentração, meditação e demais exercícios físicos e mentais. A relação sexual desviaria essa energia e enfraqueceria a vontade do adepto para lograr o fim espiritual colimado. A masturbação seria um desperdício dessa energia e frustraria aquele objetivo. O voto de celibato consistia em viver no estado de solteiro por um determinado tempo. Durante esse período o adepto podia transar sexualmente se não houvesse prestado, também, o voto de castidade, porém não podia casar e nem constituir família. Os deveres do casamento interferiam na atividade religiosa do adepto. O estudo, a prática e a difusão da doutrina exigiam dedicação intensa e exclusiva. Os deveres de cônjuge, de pai ou de mãe comprometiam essa dedicação. Durante 3 anos, os apóstolos e discípulos conviveram com um homem de cabelos longos, barba comprida, bigode, vestindo túnica branca, como um nazareno ou um essênio. De repente, defrontam-se com um homem de aparência jovem, rosto liso, cabelo raspado e roupas comuns apresentando-se como o rabi crucificado. Natural a reação de estranheza e descrédito da parte dos apóstolos.

Interessava a Jesus e à sua fraternidade convencer o povo da sua morte e ressurreição, conforme profetizado. Assim, a mensagem e a catequese teriam força para, com êxito, repercutir no presente e no futuro. Cumprida a sua missão, Jesus retira-se da vida pública, encenando a simbólica ascensão diante de alguns discípulos (Marcos 16:19; Lucas 24: 50,51; Atos 1: 9,11). O interessante é que os apóstolos da primeira hora, Mateus e João, silenciam a respeito da ascensão, a indicar que o modo como Jesus se retirou não foi bem aquele descrito pelos apóstolos da segunda hora (que não conheceram nem conviveram com Jesus). O ponto-chave, segundo Bock, é que Jesus revela o que Deus fez e faz para a humanidade. Ora, para tanto, não há necessidade de taumaturgo ou profeta. Bastam os dons espirituais com os quais Deus dotou os seres humanos. A humanidade tem sofrido horrores com as forças telúricas (maremotos, terremotos, furacões, dilúvios, colisões de corpos celestes com a superfície do planeta) que ceifam a vida de milhares de pessoas e destroem patrimônios públicos e privados. As forças telúricas são forças da natureza, cegas aos valores humanos. A natureza é criação divina. Isto indica que: (i) as leis de Deus são inflexíveis, incidindo sobre culpados e inocentes, racionais e irracionais; (ii) inexiste uma preocupação divina especial com qualquer ser da natureza, inclusive, os racionais (estes é que pretendem ser especiais perante Deus). O ponto-chave é que Jesus despertou em uma parte da humanidade, além do círculo interno da sua fraternidade, a consciência da universalidade de Deus. Mostrou o modo como os seres humanos podem se aproximar de Deus. “Jesus ensinou que o reino de Deus vinha com ele e por meio dele” (Bock). Certo, mas não com ele e por meio dele exclusivamente. Jesus também disse que o reino de Deus não virá de um modo ostensivo, nem se dirá ei-lo aqui ou ei-lo ali, pois o reino de Deus já está no meio de vós. Cabe aos seres humanos procurá-lo. Se merecerem, encontrá-lo-ão. Aí, como disse Jesus, bastará bater à porta, que ela se abrirá. A casa do Pai Celestial tem muitas moradas. Há mais de um modo de se escalar a montanha.

código da vinci V

JESUS GALILEU

O autor de “O Código Da Vinci” e os professores que o contestaram referem-se a Jesus como judeu quando, na verdade, Jesus e o seu grupo eram oriundos da Galiléia e não da Judéia; portanto, eram galileus e não judeus. Cumpre lembrar que ao tempo do nascimento de Jesus, a Galiléia era habitada há 7 séculos por povos vindos do oriente, depois da expulsão das 10 tribos de Israel. O fato de alguém ser galileu não significava que fosse hebreu, ou israelita, muito menos judeu. Israelita era o hebreu do Reino de Israel (Norte da Palestina). Judeu era o hebreu do Reino de Judá (Sul da Palestina). Jerusalém localizava-se em terras da tribo Benjamin que junto à tribo de Judá formava o Reino de Judá. O apóstolo Pedro refere-se aos habitantes de Jerusalém como um povo diferente do seu povo. “Tornou-se este fato conhecido aos habitantes de Jerusalém, de modo que aquele campo foi chamado, na língua deles, Hacéldama, isto é, Campo de Sangue” (Atos 1: 19); ou seja, na língua dos judeus e não na língua dos galileus. Por seu linguajar diferente, Pedro foi acusado de pertencer ao grupo de Jesus, quando Jesus estava detido e sendo inquirido no Sinédrio. Em outra ocasião, Pedro interroga Jesus sobre a restauração do Reino de Israel e não do Reino de Judá (Atos 1: 6). Ao tempo de Jesus, o Reino de Israel estava extinto há mais de 700 anos e as suas 10 tribos espalhadas pelo mundo. O Reino de Judá estava extinto há cerca de 600 anos, desde a remoção compulsória das suas duas tribos para a Babilônia. O exílio dos judeus na Babilônia terminou por volta de 538 AC, quando alguns judeus regressaram a Jerusalém. Foram subjugados, sucessivamente, pelos gregos a partir de 323 AC, pelos assírios a partir de 175 AC, e pelos romanos a partir de 63 AC.

Somente os apóstolos Mateus e Lucas falam do nascimento acidental de Jesus em Belém, cidade natal do rei Davi, na Judéia. Explicam o deslocamento da Galiléia para a Judéia com a realização de um censo do qual não há registro na história. Houve um esforço dos evangelistas para colocar Jesus na realeza judaica, porque o Antigo Testamento refere-se a um messias da linhagem de Davi (embora se refira, também, a um renovo da Galiléia). Acontece que não havia laço sangüíneo entre José e Jesus. Ainda que José descendesse de Davi, Jesus não descenderia. Para amenizar, tentam colocar Maria (mãe de Jesus) também na linhagem de Davi. No entanto, a sucessão judaica se dava pela linha paterna; a sociedade era patriarcal e não matriarcal. Ademais, toda genealogia que começa em Adão é falsa, tendo em vista que Adão e Eva nunca existiram. A genealogia de Jesus começa em Adão (Lucas 3:38); logo, é falsa. Para compensar o culto pagão à Deusa-Mãe (bem romanceado por Marion Z. Bradley em “As Brumas de Avalon”) a igreja católica introduziu um vigoroso culto à Maria, como “Mãe de Deus” e “Virgem Maria”. Duas impossibilidades: (i) Deus ter genitores; (ii) ser virgem a mãe de 7 filhos. Maria pode ter sido deflorada em ritual de fertilidade. Ficou grávida e pariu Jesus. Depois, teve mais 6 filhos com José, que a recebeu por esposa: Tiago, José, Judas, Simão, Ruth e Lia. O mito da concepção virginal foi tomado de empréstimo a outras culturas mais antigas. O culto à Maria reforçou a crença na divindade de Jesus. Serviu para impressionar os crentes e aumentar o rebanho com a inclusão da realeza européia, o que favoreceu o domínio da Igreja nas esferas temporal e espiritual. Conseqüentemente: (i) a mãe de Jesus passou a ser a mãe de Deus; (ii) o colégio apostólico passou a ser herdeiro de Deus; (iii) o vigário de Cristo passou a ser vigário de Deus. A versão do apóstolo Mateus sobre o morticínio de crianças é fantasiosa. Ao tempo do nascimento de Jesus, a Palestina estava dividida em 4 províncias, cada qual governada por um tetrarca subordinado ao imperador romano. Um tetrarca não podia invadir a jurisdição do outro. Ao tetrarca da Galiléia faltavam poderes para mandar matar crianças na Judéia ou nas outras tetrarquias. A Judéia estava sob a jurisdição direta de uma autoridade romana, a qual Herodes não ousaria afrontar. A jurisdição era levada a sério pelos romanos. Tanto assim, que ao verificar que Jesus era galileu, o general romano (Pilatos) declinou da competência e o enviou ao juiz natural: o tetrarca da Galiléia (Herodes Antipas). Lucas, menos fantasioso, não menciona matança de crianças, nem fuga para o Egito.

Havia mulheres “livradas de espíritos malignos e curadas de enfermidades” (livres da sensualidade?) que acompanhavam Jesus e lhe prestavam assistência: Maria Madalena, Joana, Susana e outras (Lucas 8: 1-3). Por 3 anos, aproximadamente, acompanharam Jesus nas suas andanças pela Galiléia, Samária e Judéia. (Marcos 15: 40). Por serem galileus, Jesus e o seu grupo de homens e mulheres eram tratados pelos judeus como gentios (estrangeiros). Os judeus odiavam os samaritanos e os galileus. Entre os objetivos de Jesus e da sua fraternidade estavam o de acabar com o mito do messias e o de introduzir um Deus universal no lugar de Javé (ou Jeová), o deus nacional dos judeus. Javé e Satanás são nomes diferentes para a mesma divindade: aquela que celebrou, com sucesso, um pacto com Abraão e que tentou celebra-lo, também, com Jesus no deserto, sem êxito. Jesus assumiu o papel de messias. Cumpriu, passo a passo, as profecias do Antigo Testamento, como se fora o roteiro de um filme. A monolatria dos judeus recomendava que a ação redentora começasse por esse povo. Depois, estender-se-ia aos demais povos. O plano desconsiderou o que estava escrito: “Tu mesmo sabes o quanto esse povo é inclinado ao mal” (Êxodo 32: 22); “somos um povo cabeça dura” (Êxodo 34: 9). O deus Javé dissera a Saul: “Vai, pois, fere Amalec e vota ao interdito tudo o que lhe pertence, sem nada poupar: matarás homens e mulheres, crianças e meninos de peito, bois e ovelhas, camelos e jumentos” (I Samuel 15: 3). Tal índole não favorecia a ação redentora de Jesus. Ao contrário do que Jesus e sua fraternidade imaginavam, o cristianismo fracassou entre os judeus e floresceu entre os outros povos.

código da vinci IV

PECADO NO MUNDO

“O pecado está vigorosamente vivo em nosso mundo e não temos força para brigar com ele”, diz o autor de “Quebrando o Código Da Vinci”. Na definição de Bock, pecar é causar danos a si próprio e aos outros e estar distante de Deus é enveredar no pecado. Eis aí a fonte da angústia e do sofrimento de cristãos e judeus. O pecado neste mundo e o castigo, aqui ou no outro mundo, foram invenções do cérebro humano com duplo objetivo: (i) disciplinar os instintos humanos; (ii) submeter o povo à vontade de uma esperta minoria. A dar crédito às palavras do professor Bock, Deus seria o maior pecador do universo. Basta lembrar os estragos causados ao planeta e à humanidade pelas forças cósmicas (terremotos, tempestades, inundações, irrupções vulcânicas, colisões de corpos celestes).

O sistema penal espiritual assemelha-se ao sistema penal secular. A inteligência humana estabelece os mandamentos espirituais e os seculares. Violar essas leis constitui pecado e crime, respectivamente. Pecado é o ilícito espiritual. Crime é o ilícito secular. Ambos são puníveis. O pecado é um conceito. Paira no intelecto. Não está vivo nem morto no mundo. “Brigar com ele” é força de expressão. Pecado significa má conduta, maus pensamentos e maus sentimentos. Quem estabelece os parâmetros da boa ou da má conduta são os legisladores da religião, da moral e do direito. Há pecado quando o indivíduo pensa, sente ou age violando o código religioso. Há crime quando o indivíduo age ou se omite violando o código secular. Causar danos a si próprio e aos outros, em estado de necessidade, em legítima defesa ou no exercício regular de um dever, não configura pecado ou crime, porque tal comportamento harmoniza-se com as leis naturais e humanas. O juiz das questões religiosas e morais pode ser Deus, o sacerdote, a consciência, ou um mecanismo de compensação automática (carma). A misericórdia e o perdão podem livrar o pecador da punição, desde que haja sincero arrependimento e penitência. Na hipótese de condenação, o pecador passará por sofrimentos no purgatório ou no inferno (cristianismo). No mecanismo automático não há misericórdia, nem perdão. Há uma contabilidade dos pensamentos, dos sentimentos e das ações/omissões do pecador. O saldo definirá as reencarnações pelas quais o pecador terá de passar até alcançar o nirvana, estado de celestial bem-aventurança (budismo) ou até se identificar com Deus (hinduismo). A vida terrena é vista como um campo de testes.

Há espaço entre Deus, o mundo e o indivíduo? Se houver, qual o metro que medirá as distâncias? Quais os critérios válidos para julgar a conduta interior de cada pessoa? “Não julgueis para não serdes julgados”, sentenciou Jesus. Formular idéias, juízos e raciocínios é operação natural da inteligência. A advertência de Jesus é para com os juízos morais, os julgamentos sem conhecimento de causa, as opiniões levianas, as sentenças ditadas pela fé cega, pelo fanatismo, pela malícia, pela parcialidade. “Arrependei-vos e crede no evangelho” seria a mensagem de Jesus, segundo Bock. Arrepender-se de que? Obviamente, das violações às leis (pecados e crimes). Eis a esperteza do intelecto humano: elaborar um código de leis e atribuir a autoria a Deus para, assim, obter a submissão do povo. Culpa-se o indivíduo até por um pecado original que nunca existiu. Segundo o mito criado por Moisés, Adão e Eva comeram o fruto da árvore da ciência do bem e do mal, contrariando ordem divina. Apesar de onisciente, Deus só inteirou-se do assunto depois de interrogar o casal. Há controvérsia filológica: o interrogatório foi em adâmico, aramaico ou português com sotaque carioca? Para que não comesse, também, o fruto da árvore da vida e vivesse eternamente, o casal foi expulso do Jardim do Éden (ou do Jardim de Alá?). Há controvérsia topológica: o paraíso ficava na Ásia, na África ou no Leblon? Pela desobediência, Deus aplicou os seguintes castigos: (i) à mulher, dores do parto e submissão ao homem (daí a vulgar equiparação do pecado original à transa sexual); (ii) ao homem, maldição da terra e trabalhos penosos (“comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado, porque tu és pó, e em pó te hás de tornar”).

“Crede no evangelho”. A exortação refere-se à mensagem que Jesus transmitia oralmente. Sem esse esclarecimento, parecerá que Jesus mandou o povo acreditar no evangelho escrito que consta da Bíblia, o que seria um anacronismo, pois, o primeiro texto somente surgiu 30 anos após a crucifixão. Ademais, apesar das semelhanças, há diferenças entre os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, sem contar os demais evangelistas cujos textos não foram incluídos na bíblia (Felipe, Tomé, Maria Madalena). As discrepâncias e idiossincrasias do evangelho escrito comprometem-no. A mensagem e a história de Jesus estão incompletas. Algo ficou perdido por esquecimento ou por seleção voluntária dos autores dos textos ou da corporação clerical. O processo seletivo da mensagem e dos acontecimentos reflete a objetividade e a subjetividade de cada autor, bem como, os propósitos das corporações religiosas. A recomendação de Jesus para que os discípulos amassem uns aos outros foi esquecida. A unidade inicial da doutrina, seguindo a lei biológica da divisão celular, acabou em várias correntes cujos seguidores tornaram-se até inimigos figadais.

código da vinci III

CONSPIRAÇÃO RELIGIOSA

O livro “O Código Da Vinci” foi criticado como sendo mais uma teoria da conspiração. Conspirar significa arquitetar sigilosamente uma ação contrária ao interesse de indivíduos, da sociedade ou do Estado. Conspiração significa conluio secreto para lograr um fim almejado. Teoria da conspiração significa o conjunto de argumentos para explicar um fato como produto de conluio secreto. Essa expressão pode ser usada pejorativamente para ridicularizar e desvalorizar explicações contrárias às versões convencionais. Por trás dessa intenção de ridicularizar e desvalorizar está o receio de que as versões oficiais sejam colocadas a pique por um novo conhecimento. Esse receio é ainda maior quando as versões oficiais sustentam um poder secular e espiritual cujo patrimônio é obtido e mantido mediante a exploração da credulidade e da ignorância do povo.

Sempre houve conspirações no mundo. Algumas visavam a morte do governante, como nos exemplos históricos de César, Lincoln e Allende. Outras visavam a mudança de regime, de que são exemplos, no Brasil, a queda do império e a instauração da república, o golpe no governo constitucional de João Goulart e a ditadura militar. Conspira-se para matar o Papa, impedir a posse de quem venceu as eleições, arruinar um concorrente, boicotar uma atividade cívica, e assim por diante. A conspiração da classe sacerdotal para manter o seu domínio sobre os fiéis está presente em todas as religiões. Estas se multiplicam constantemente através do tempo, graças às conspirações e às divergências internas. O cristianismo resultou de uma conspiração da fraternidade da qual Jesus era membro, cujo propósito era o de modificar os costumes e desacreditar os fariseus e os saduceus. Congregava essênios e nazarenos. Defendia uma filosofia perene, cujas fontes remotas estavam no Egito, na Caldéia e na Grécia. Coube ao essênio João Batista, a partir da Judéia (Sul da Palestina) e ao nazareno Jesus, a partir da Galiléia (Norte da Palestina), a batalha campal pela mudança. Desde a Antiguidade até a Idade Média, inclusive, política e religião misturavam-se. Embora Jesus afirmasse que o seu reino não era deste mundo, a sua pregação implicava mudanças na vida política, social e econômica dos povos. Os hábitos da sua fraternidade incluíam a comunhão de todos os bens, o trabalho e a produção econômica em benefício da comunidade, a responsabilidade de todos os adultos pela criação e educação das crianças, refeições coletivas, higiene pessoal e ascese. Alguns membros da fraternidade faziam votos de celibato e/ou de castidade durante certo tempo e/ou até cumprirem determinada missão.

Quando fatos de interesse geral são ocultados do povo, a hipótese de conspiração pode ser aventada com muita propriedade, porque fundada na experiência e na natureza humana. As lideranças podem se valer de mensagens pelos meios de comunicação social, expedidas pelas instituições públicas ou privadas, para desacreditar a hipótese de conspiração. Desse modo, afastam obstáculos à execução dos seus desígnios. Ao contestarem, em seus respectivos livros, a afirmativa contida em “O Código Da Vinci”, de que havia mais de 80 evangelhos, os professores Amy e Bock reconheceram a existência de 87 textos. Ressalvam que desses textos, apenas 5 são evangelhos: Tomás, Felipe, Maria, Verdade, Egípcios. Os professores deram crédito ao discurso de Teabing, personagem do romance de Brown. Foram rigorosos na censura. O personagem incluiu na categoria de evangelho, os textos que os professores não qualificam como tal. O fato é que os números coincidem. Brown faz seu personagem afirmar que havia mais de 80 “evangelhos”. Os professores dizem que havia 87 “textos”. Questão de semântica. Os cristãos católicos, de um modo geral, não são leitores da bíblia; são ouvidores. Os 4 evangelhos foram selecionados pelos sacerdotes católicos no Concílio de Nicéia, sob pressão de Constantino. Os demais textos foram rejeitados e quem deles tomasse conhecimento ou neles acreditasse, entrava para o rol dos hereges. A Igreja arvorou-se em juiz do que os indivíduos deviam saber e não saber, como se os católicos fossem uns mentecaptos. A condenação dos textos gnósticos veda, aos fiéis, o acesso à verdade. A proibição entra na conduta obscurantista das instituições religiosas. Do Antigo Testamento, também, foram excluídos alguns livros que, na opinião dos doutores da lei, não combinavam com a religião autêntica. Esses livros chegam ao conhecimento de poucos e não são divulgados porque isso não interessa à religião oficial. Com os manuscritos do Mar Morto aconteceu a mesma coisa. Encontrados em 1947, ficaram sob os cuidados de religiosos católicos, que os mantiveram longe dos olhos do povo. Os judeus e a comunidade acadêmica internacional protestaram. Admitidos ao restrito grupo de zeladores, os judeus deixaram de defender a tese de que a comunidade científica devia participar. Esses manuscritos são patrimônio da humanidade, porque se referem a costumes, doutrinas e crenças que estão na base da civilização ocidental. No entanto, permanecem guardados por cristãos e judeus, indisponíveis ao conhecimento científico e vulgar, embora o tempo decorrido já tenha sido suficiente para sua tradução e divulgação. Membros desse grupo seleto escrevem sobre os manuscritos, mas não divulgam o texto, salvo uma pequena parte publicada. Certamente, não há interesse desse grupo em colocar todo o material à disposição da comunidade acadêmica e do público leigo. Esse comportamento revela o medo das conseqüências que a verdade poderá trazer às organizações religiosas.