quinta-feira, 16 de novembro de 2023

FELIZ ANIVERSÁRIO

No apartamento de Júlia estavam reunidas as suas amigas da mesma faixa etária, todas saudáveis e elegantes, além de  Inês, sua única filha e de Bruna e Patrícia, suas duas netas. Comemoravam o septuagésimo aniversário de Júlia no mesmo dia em que a república brasileira celebrava o centésimo trigésimo quarto ano de nascimento. A coincidência das datas veio à baila. Júlia respondeu às amigas: A república nasceu num ambiente pérfido, parida à sorrelfa no convescote de militares de alta patente, sem participação do povo. Derrubaram a monarquia constitucional e desterraram o monarca e família. Quanto a mim, nasci 64 anos depois desse golpe de estado. A minha vinda era esperada, fruto de um ato de amor da minha mãe e do meu pai. Eu fui recebida com carinho no seio de uma família honesta, culta e religiosa.     
O clima no amplo apartamento era de animada conversação. Algumas fumavam e se ajudavam ao acender os cigarros. Dora, uma das amigas, dedicada ao comércio de joias, exibia sofisticados isqueiro e piteira. Música instrumental em som baixo. As netas ansiosas para escapulir. Os namorados aguardavam na pracinha próxima ao prédio da avó das garotas situado num bairro de classe média da cidade. Empadão, salgadinhos, docinhos, sucos, refrigerantes, água mineral. Cadê o bolo? Inês havia esquecido. Na véspera, ela o encomendara à confeitaria do bairro. Desculpou-se e saiu às pressas a fim de buscá-lo. As filhas aproveitaram o ensejo e saíram à francesa. 
Júlia era viúva, dona do apartamento em que morava, tinha como fontes de renda os proventos da sua aposentadoria como funcionária pública e a pensão gerada por morte do seu marido, contribuinte autônomo da previdência social. No mercado de capitais, investiu o valor da apólice do seguro de vida do marido. A sua poupança permitia cobrir os gastos extras como estes do seu aniversário, os de eventuais viagens e as pequenas quantias que esporadicamente dava às netas. 
Ao retornar com o bolo, Inês notou a ausência das filhas. Conformou-se. Acostumara-se a tais escapadas. As amigas da aniversariante discutiam várias coisas, inclusive política e religião. A falta de homens na casa foi intencional. Júlia assim pensou: Além de não ajudar, eles ainda atrapalham. Ficou a matutar: O marido de Inês viajara a negócios. Ele começou a viajar “a negócios” depois de vinte anos de casado e de ter conquistado bom padrão de vida. Inês nada questiona; prefere manter a estabilidade da família, o seu papel na sociedade e costuma dizer que felicidade é coisa ilusória. Cita os versos do poeta: “O amor é eterno enquanto dura”. Falava mais para convencer a si própria do que aos outros. Dizia que durável é o amor sereno da maturidade. Felicidade? Momentâneo estado da alma que acontece de vez em quando. Convicta e realista, afirmava: Neste mundo, eterna é a luta pela vida, por subsistência, bem-estar, liberdade e justiça.  
Jornalista vivaz e experiente, Eugênia pergunta em tom provocador: Júlia, o que você acha dessa tragédia? Quando, por alguns segundos, Júlia mergulhara naqueles pensamentos, perdera parte da conversa. Saiu pela tangente: Queridas amigas, sempre houve tragédias. De qual delas vocês querem a minha opinião? 
Letícia, assistente social ativa e brincalhona, exclama: Acorda amiga! Nós estávamos falando do genocídio em Gaza. Júlia se desculpou pelo apagão. Claro que concordo com vocês (ela presumiu que havia unanimidade). A nossa geração está testemunhando atrocidades praticadas por gente genocida e selvagem. Essa gente criminosa e racista ainda tem o desplante de qualificar os palestinos de animais sub-humanos! Devemos organizar uma passeata de mulheres a partir do nosso grupo, protestando contra esse crime cometido por aquele estado terrorista. Devemos exigir do governo posicionamento claro e firme. Os homens que atualmente governam o nosso país não têm colhões roxos. No mundo violento em que vivemos, essa tibieza é anacrônica e inoportuna, ainda que disfarçada de diplomacia. Nós, mulheres, devemos tomar a iniciativa de sacudir esses homens para que tomem vergonha na cara.
Letícia, com olhar malicioso e sorriso maroto, simulando ignorância, pergunta: Colhões roxos? Sim, confirma Júlia. Ouvi isto do Collor, na televisão, não lembro se em campanha eleitoral ou se ele já era presidente. Na ocasião, eu entendi que ele se referia a homem destemido. Eugênia dá a sua pitada: O que ele queria era evitar a imagem de emasculado. Dora também dá a sua: Pois é. Vejam só como são as coisas. Machão porém corrupto, igual ao capetão que não foi reeleito presidente. 
Maria de Fátima, engenheira civil, universaliza a sua crítica: No mundo contemporâneo, a violência espalhou-se como pandemia. A democracia fragilizou-se. O fator emocional prepondera. O romantismo fascista seduz considerável parte da humanidade. O ódio suplanta o amor e verga a razão. O pensamento racional e crítico é visto como grave ameaça ao domínio exercido pelo sistema financeiro em níveis nacional e internacional. Além da violência do estado, há a violência da sociedade civil nos lares e bares, nas ruas, escolas, lojas e fábricas. Há violência contra as mulheres dentro e fora de casa. Elas apanham dos maridos e dos companheiros machistas. Isto quando não são assassinadas por esses covardes. Júlia atalha: Tem havido reação. Algumas mulheres insurgem-se e denunciam os seus agressores às autoridades públicas. Enfrentam, às vezes, a má vontade e as interpretações capciosas de policiais, delegados e juízes que beneficiam os machos, principalmente, os machos ricos e poderosos como, por exemplo, empresários, ministros, presidentes de casas legislativas, magistrados.  
Homens também são vítimas da violência, ponderou Iracema, procuradora estadual aposentada. Agora mesmo, alguns brasileiros estão sendo perseguidos em solo brasileiro e privados da sua liberdade a pedido de um governo estrangeiro nazista. As prisões ocorrem por simples suspeita, sem prova, sem que esses cidadãos estejam cometendo crime. Motivo dessa prisão cautelar: denúncia do primeiro-ministro e do serviço de inteligência de Israel, sem carta rogatória. Cidadãos brasileiros são acusados de terroristas contratados pelo Hezbollah, instituição libanesa inimiga de Israel. No campo da futurologia, em frontal colisão com os direitos fundamentais dos cidadãos brasileiros, a polícia brasileira colocou-se a serviço de um paranoico governo estrangeiro.
Selma, advogada e professora universitária, lamenta: Realmente é surreal, sem trocadilho. Aduz: De acordo com a nossa Constituição, ninguém será privado da sua liberdade sem o devido processo legal; ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória; ninguém será preso senão em flagrante delito; ninguém será levado à prisão ou nela mantido quando a lei admitir a liberdade provisória. Fala-se de ordem de prisão expedida por autoridade judiciária brasileira. Se isto for verdade, a justiça brasileira, mais uma vez, terá se precipitado, violado a Constituição, ferido a dignidade humana de cidadãos brasileiros, sem a evidência de fatos que estivessem provados no devido processo jurídico. O nosso sistema de segurança submeteu-se, de modo servil e vergonhoso, ao capricho de um governo estrangeiro nazista. A vida e a liberdade são os bens mais preciosos das pessoas civilizadas, mas, o estado israelense age como se tais preciosidades fossem patrimônio exclusivo dos judeus. Trata os palestinos como seres inferiores sem direito a esses bens. 
Maria Augusta, médica que presta serviço hospitalar e ainda atende pacientes em seu consultório, manifesta a sua opinião: Os políticos são craques no jogo das palavras. Escondem a verdade com filigranas. O discurso dos ministros para justificar a submissão do governo brasileiro aos interesses e orientações do governo estrangeiro não me convenceu. O argumento cronológico de que a polícia brasileira já se debruçava sobre o caso antes dos acontecimentos em Gaza mostra-se falacioso, pois, a operação sanduíche foi iniciada agora, depois de tais acontecimentos. O que foi, Isabel?
Artista plástica de reconhecido valor, Isabel segurava o seu queixo com a mão direita, o cigarro entre os dedos da mão esquerda e rindo divertida, respondeu: Maria, meu anjo, o nome da operação policial é “trapiche” e não “sanduíche”. Você olhava para a mesa do lanche quando falou. Calma! Lá estaremos tão logo a Inês chamar. No diapasão em que tocamos o assunto (Isabel mantinha o tom divertido enquanto falava) “trapiche” significa o armazém próximo do “caos” onde as mentiras são depositadas antes de serem embarcadas com destino à massa ignara. 
A feminina audiência riu às gargalhadas da “definição” posta por Isabel. Cessado o ruído, ela continuou a jocosa dissertação: Eu sei e vocês sabem que todos que nascem e vivem em cidade são cidadãos. Lembro que a palavra “cidade” vem do grego “polis”. Portanto, como moramos e vivemos na “polis”, todas nós somos “políticas”. Em sentido estrito, apelidamos de “políticos” os homens e mulheres filiados a partidos que se dedicam à causa pública e exercem, ou aspiram a exercer, o poder do estado. Aqui no Brasil, as cidadãs e os cidadãos devem ter a idade mínima de 16 anos para escolher governantes; de 18 anos, para servir às forças armadas; de 21 anos, para adquirir a capacidade civil plena. No entanto, desde o nascimento, todos são titulares dos direitos à vida, à liberdade, à igualdade e à segurança, sustentáculos da dignidade humana. 
Inês faz soar o pequeno gongo e, como arauto, conclama: Meninas, eu sei que vocês querem esticar a conversa, porém, antes, venham aqui para a sala, sentem-se em torno da mesa e compartilhem do lanche que preparei para vocês, auxiliada pela Rosa, nossa fiel escudeira. Júlia agradeceu. Às convivas, em tom de gracejo, ela diz: O bolo da velhinha está sem velinhas. Por gentileza, não cantem “parabéns a você”!
 

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

SEMITISMO

A imprensa nacional e internacional, de modo tendencioso e com imagens selecionadas, informa e comenta o conflito bélico entre o estado de Israel e a comunidade árabe da Palestina. Há notícias de recentes ataques aos judeus, às suas casas, lojas e sinagogas, ocorridos em diversos países americanos e europeus. Trata-se de reação popular aos crimes praticados por Israel contra a comunidade árabe, principalmente, o genocídio em Gaza. Milhões de judeus vivem nos Estados Unidos da América (EUA), na Inglaterra, França, Itália, Alemanha, Rússia, Argentina, Brasil e outros países. As comunidades judias desses países reclamam das agressões contra elas e alegam antissemitismo. Servem-se dos meios de comunicação social para, às vezes com arrogância, afirmar inocência do que acontece em Israel e Gaza. 
Desde o holocausto de ciganos, de homossexuais, de comunistas e de pessoas de “raça inferior”, ocorrido na segunda guerra mundial, os judeus colocam-se como eternas vítimas, fazem chantagem emocional e usam argumentos falaciosos a fim de obter vantagens políticas e econômicas. Assim, desse modo: I. Eles conseguiram um estado próprio, depois da choradeira na ONU, em 1948. II. Obtiveram apoio e proteção dos EUA para: (i) violar fronteiras e invadir o território do povo palestino (ii) oprimir a comunidade árabe da Palestina (iii) atacar e exterminar a população de Gaza (iv) destruir casas, prédios, escolas, hospitais, vias públicas (v) impedir a saída de civis de ambos os sexos e de todas as idades, daquela faixa conflagrada.  
Nesse conflito não há paridade de forças. O poderio bélico de Israel é superior. O exercício do direito de defesa de Israel no episódio Sete de Outubro foi desproporcional e abusivo. Os nazistas judeus aproveitaram a ocasião para executar o projeto de extermínio dos árabes. Portanto, afigura-se legítima a reação popular nos diversos países contra a ação criminosa de Israel. A justa reação popular brota do senso humanitário das pessoas naturais civilizadas, o que não se confunde com antissemitismo. Cuida-se de (i) ação contrária ao nazismo judeu (ii) protesto contra o sofrimento imposto aos palestinos. Os judeus residentes em outros países também são responsáveis pelos atos praticados pelo governo da sua pátria comum: Israel. O governo nazista desse estado foi eleito pelo povo judeu. Destarte, se as comunidades judias no estrangeiro pretendem livrar-se da culpa, deverão se manifestar publicamente, de modo oficial, organizado e inequívoco. Mediante declarações coletivas autênticas, exigirão do governo israelense: I. Que cesse imediatamente as hostilidades contra Gaza e liberte os reféns. II. Que devolva aos palestinos as terras invadidas desde a segunda metade do século passado. III. Que cumpra sem subterfúgios as recomendações da ONU e as decisões do Tribunal Internacional. IV. Que respeite o direito internacional. V. Que indenize Gaza por perdas e danos. 
Sem essa concreta manifestação coletiva, objetiva e válida, os judeus de qualquer país serão vistos como cúmplices das atrocidades praticadas por Israel e ficarão sujeitos às represálias como aquelas noticiadas. A omissão ensejará contra eles a radical opinião de um policial brasileiro: “bandido bom é bandido morto”, ou, parafraseando, “judeu bom é judeu morto”. 
Há judeus liberais – e não são poucos – todavia, são os judeus ortodoxos os que governam Israel em nome do povo. Logo, ao povo judeu cabe se levantar contra essa política assassina praticada pelos atuais governantes.  
O apelo à semântica ajuda a esclarecer o assunto. Entende-se por semitismo a cultura dos povos semitas, o respeito a essa cultura, a experiência histórica, o estudo e a expansão dessa cultura. Segundo a lenda bíblica do dilúvio e da arca, esses povos descendem do filho de Noé chamado Sem. De acordo com a História, os povos semitas eram assim chamados em virtude da sua língua comum. Falavam-na árabes, arameus, assírios, babilônios, cananeus, etíopes, fenícios, hebreus, sírios. Originários da Arábia, os semitas migraram para a Mesopotâmia e outras regiões da Ásia morena (+ ou – 3000 a.C.).
Antissemitismo ou semitofobia significa: (i) aversão à cultura semita (ii) antipatia, inimizade ou ódio aos povos semitas. No sentido estrito, significa antipatia, inimizade ou ódio aos árabes e aos judeus, dois povos semitas da atualidade, cultores de duas grandes religiões: o islamismo e o judaísmo. 
Tal como no Irã, em Israel não há separação entre política e religião. Nesse tipo de estado, a lei religiosa ("divina") é suprema, bússola da validade da lei votada no parlamento. No Irã, prevalecem os preceitos ditados por Maomé. Em Israel, prevalecem os preceitos ditados por Moisés. Destarte, o combate à política de Israel pode ser visto pelos judeus ortodoxos como ataque à sua religião. Entretanto, esse modo de ver desvia o foco da questão central. Vista sem malícia, a reação popular tem por alvo a política israelense e não a religião judaica. O noticiado movimento popular em outros países é contra o terrorismo de estado praticado por Israel. A violenta e mortal ação dos judeus ortodoxos estriba-se no Pentateuco (Torá). O citado movimento popular não se deixou impressionar com a propaganda enganosa que qualifica o Hamas e o Hezbollah de “terroristas” quando, na verdade, são duas instituições políticas responsáveis pela liberdade, segurança, desenvolvimento e bem-estar dos seus povos. A resistência à opressão hebraica é uma das formas de exercer essa resposabilidade. 
Bauman, Zygmunt – Retrotopia. Rio. Zahar. 2017. 
Burns, Edward McNall – História da Civilização Ocidental. P.Alegre. Globo. 1955.
Finkelstein, Norman G. – A Indústria do Holocausto. Rio. Record. 2001.
Velasco, Francisco Diez. Breve Historia de las Religiones. Madrid. Alianza. 2008.
Bíblia Sagrada.  Centro Bíblico Católico. SP. Ave Maria. 1987.
Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa. Caldas Aulete/Santos Valente. Rio. Delta. 1958. 

domingo, 29 de outubro de 2023

TITICA JUDIA & ÁRABE

Oriunda do deserto da Arábia, a pequena e insignificante tribo, chefiada por um aventureiro semita chamado Abrão, chega e se instala em Ur, cidade da Caldeia, na Mesopotâmia, por volta do ano 1400 ou 1300 antes da era cristã (a.C.). Depois de alguns anos, a tribo se desloca para oeste, entra e se assenta em Canaã, área situada no litoral do Mar Mediterrâneo. Entre tapas e beijos com os nativos cananeus, os membros da tribo de Abrão recebem o nome de “hebreus” com o duplo significado de “nômades” e “bandidos”. Vindos da Ásia Menor e das ilhas do Mar Egeu, os filisteus aportam em Canaã, assentam-se e dominam os cananeus e os hebreus. De filisteu derivou o nome Palestina (filistina) como se tornou conhecido o país, em substituição ao nome Canaã. Organizado em monarquia por volta do ano 1000 ou 900 (a.C.), o povo hebreu, sob liderança de Davi, seu segundo rei, finalmente derrotou o povo filisteu. O território do reino filisteu ficou reduzido a uma pequena e estreita faixa na fronteira com o Egito, sul da Palestina (Gaza). O território restante ficou sob o poder soberano do rei hebreu. 
Com a morte do vaidoso, perdulário e medíocre rei Salomão, sucessor do rei Davi, a nação hebraica dividiu-se em dois reinos: (i) o do norte, denominado Israel, capital Samaria, composto de dez tribos (ii) o do sul, denominado Judá, capital Jerusalém, composto de duas tribos. Os dois reinos foram destruídos. Primeiro, o do norte, em 722 (a.C.), pelos assírios. Por último, o do sul, em 586 (a.C.), pelos caldeus. Sem pátria, israelitas e judeus espalharam-se por diversos países. 
Ciro, rei da Pérsia (Irã), ao vencer os caldeus, faz da Palestina um estado vassalo (539 a 332 a.C.). O rei persa permite, então, que os judeus retornem a Jerusalém (muitos preferiram ficar onde estavam). Depois disto e sucessivamente, a Palestina: [1] Em 332 (a.C.), cai sob o domínio da Macedônia [2] Em 63 (a.C.), torna-se protetorado de Roma. Na era cristã, a revolta armada dos judeus contra o domínio romano fracassou. Os judeus foram expulsos, Jerusalém foi destruída e a Palestina virou província de Roma no ano 70 (d.C.). A partir daí, a diáspora durou séculos com os judeus apátridas dispersos por diferentes países. 
Na Idade Moderna, gerações de israelitas e judeus emigraram, paulatinamente, dos seus países para a Palestina. Após a segunda guerra mundial, a Organização das Nações Unidas reconheceu a existência política e jurídica dos israelitas e judeus como estado soberano com o nome de Israel e território delimitado no interior da Palestina (1948). 
Vista em sua extensão territorial, a Palestina é uma titica de galinha na qual se remexem, exalando fedor, os povos de Israel, da  Cisjordânia e de Gaza. Os seus conflitos desbordam para países fronteiriços, como Egito, Líbano, Síria, Jordânia e para países próximos, como Turquia, Iraque, Arábia Saudita e Irã. Comparados com o espaço territorial desses e de outros países da África, da América, da Ásia e da Europa, os minúsculos territórios de Israel, Cisjordânia e Gaza são titicas. Neles vivem 14 milhões e 510 mil habitantes. Os hebreus (israelitas + judeus) compõem 70% dessa população.
[Dados geográfico e demográfico para comparação: 1. Numa pequena e estreita faixa do litorial brasileiro ocupada pelo Estado do Rio de Janeiro concentram-se mais de 16 milhões de habitantes. 2. A Palestina (Israel + Cisjordânia + Gaza) é 12 vezes menor do que o Estado do Rio Grande do Sul. 3. A sua área é igual à área do Estado de Alagoas]. 
Essas titicas têm diferentes forças protetoras. A favor de Israel colocam-se: Estados Unidos da América (EUA), Reino Unido e países satélites americanos e europeus. A favor de Gaza (talvez, a mais antiga cidade do planeta) e da Cisjordânia, colocam-se: China, Cuba, Rússia e países satélites asiáticos e africanos. Milhares de seres humanos de ambos os sexos e de todas as idades, vítimas da crueldade da guerra, estão sendo mortos, feridos, torturados, perdendo a liberdade e os seus bens. 
A propaganda favorável a Israel tem sido intensa, mentirosa e maliciosa, tanto a direta como a subliminar. Os hipócritas partidários do genocídio mostram-se numerosos no mundo, a começar pelo presidente dos EUA. Eles declaram (a) horror ao racismo, ao genocídio e à tirania (b) amor à vida, à democracia, à liberdade e à igualdade. Contudo, no plano dos fatos, por ação e omissão, eles (inclusive brasileiros) deficientes morais, comportam-se em sentido contrário. Entrevados espiritualmente, eles tentam encobrir: [1] o genocídio e a limpeza étnica promovidos pelos hebreus [2] o ilegal e criminoso propósito de expansão territorial do estado israelense.   
Os defensores dos crimes praticados pelo governo de Israel fazem corte cirúrgico num dos polos do conflito. Isolam o Hamas e o Hezbollah como se os ataques israelenses fossem apenas contra os militantes desses dois grupos e não contra a comunidade árabe. Hamas exerce o direito de resistência à opressão hebraica. A retaliação israelense foi desproporcional ao ataque sofrido em 7 de Outubro. Por evidente e censurável oportunismo, Israel aproveita-se da ocasião, não só para se vingar como, também, para executar o seu antigo projeto de exterminar a comunidade árabe.
Ao qualificarem os árabes de “raça de animais sub-humanos”, os nazistas judeus colocam-se numa posição de superioridade racial. O excesso de poder e de violência por eles praticado tipifica abuso do direito de defesa. Na guerra, infelizmente, amor, compaixão, sensatez, moralidade e juridicidade nada valem. Imperam ódio, estupidez e sordidez, a impactante expressão do elemento diabólico constituinte da natureza humana.

domingo, 22 de outubro de 2023

FUTEBOL

Nos jogos eliminatórios das seleções masculinas de futebol da América do  Sul, visando a classificação para a copa mundial de 2026, a brasileira venceu de modo folgado a da Bolívia e de modo apertado a do Peru, empatou com a da Venezuela e perdeu para a do Uruguai. Este sucessivo decréscimo nos resultados não significa decréscimo da capacidade dos jogadores e treinador e sim aumento da força adversária. Isto indica diminuta probabilidade de vitória nos próximos jogos contra as seleções da Colômbia e da Argentina (16-21/11/2023). 
A robotização do futebol iniciada com a seleção holandesa de 1974, aprimorou o jogo coletivo, mas, diminuiu o espaço do improviso e da criatividade pessoal. Hoje, nota-se em todos os continentes: (i) a prática do futebol europeu padronizado (ii) o individual trato artístico da bola por jogadores brasileiros imitado por estrangeiros. A importância do treinador ultrapassou a do jogador. Interiorizada na mente, a robotização faz a equipe se apresentar da mesma forma quando vence, empata ou perde. Os jogadores obedecem ao planejamento tático do treinador. Assim, firma-se a disciplina coletiva. 
A mercantilização influi no futebol de maneira mais incisiva nos países subdesenvolvidos. O fator moeda supera o fator chuteira. A prioridade passou a ser o dinheiro para os cofres das entidades esportivas e para os cofres particulares dos dirigentes, treinadores, jogadores e corretores. A mercantilização influi na escolha dos atletas para a seleção nacional. O patrimônio material obscurece o patrimônio moral e conforma o setor social. A função de competir fica em posição subalterna no cenário esportivo. 
Destarte, a história do futebol pode ser dividida em dois períodos: antes e depois da robotização e da mercantilização, tomando-se como divisor o ano 1970. 
1. Período romântico: 1930 a 1970. Prevalecem o amor à camisa e o amor  à arte de jogar futebol. O brasileiro Arthur Friedenreich, genial jogador da primeira metade do século XX, contestou a profissionalização. Ele temia os efeitos negativos disto no esporte. No período romântico, as seleções brasileiras foram: (a) três vezes campeãs mundiais ao vencerem as copas de 1958 na Suécia, a de 1962 no Chile e a de 1970 no México (b) duas vezes vice-campeãs mundiais ao disputarem as partidas finais nas copas de 1950 no Brasil e de 1966 na Inglaterra. Desse período, entre os brasileiros que encantaram o mundo esportivo podem ser citados, em ordem cronológica: Friedenreich, Leônidas, Zizinho, Didi, Garrincha, Pelé. Ainda podem ser destacados, entre outros, em ordem alfabética: Ademir Menezes, Amarildo, Carlos Alberto, Djalma Santos, Domingos da Guia, Fausto, Gérson, Heleno, Jair, Jairzinho, Nílton Santos, Rivelino, Tostão, Vavá, Zagalo. 
2. Período robótico/mercantil: 1974 a 2022. Nesse período, a tecnologia e o mercantilismo envolvem o profissionalizado esporte. Os atletas passaram a jogar mais pela harmonia do conjunto em campo e pelo dinheiro. As seleções brasileiras foram: (a) duas vezes campeãs mundiais ao vencerem as copas de 1994 nos Estados Unidos da América e a de 2002 na Ásia amarela (b) duas vezes vice-campeãs ao disputarem as partidas finais nas copas de 1998 na França e de 2014 no Brasil. Desse período, entre os brasileiros que encantaram o mundo esportivo podem ser citados, em ordem cronológica: Zico, Romário, Ronaldo Nazário e Ronaldinho Gaúcho. Ainda podem ser destacados, entre outros, em ordem alfabética: Ademir da Guia, Adriano, Alex, Cafu, Djalminha, Falcão, Geovani, Hulk, Juninho Pernambucano, Júnior, KK, Leandro, Lucas Moura, Luís Pereira, Marcelo, Pato, Rivaldo, Roberto Carlos, Sócrates, Thiago Silva, Zé Roberto, Zinho. 
Nenhum país tem a quantidade de excelentes jogadores como o Brasil. Por isto, fica difícil selecioná-los. Nas listas acima, por exemplo, cabem centenas, tais como: (1) goleiros: Ado, Barbosa, Castilho, Dida, Gilmar, Leão, Marcos, Poy, Rogério Ceni, Taffarel, Velloso (2) defensores e armadores: Branco, Clodoaldo, Juan, Lúcio, Marcos Assunção, Mauro Silva, Pinheiro (3) atacantes: Bebeto, Careca, Coutinho, Dener, Dirceu Lopes, Edmundo, Miller, Nelinho, Neto, Palhinha, Reinaldo, Roberto Dinamite, Zito.
Atualmente, há bons goleiros, defensores, armadores e atacantes, alguns deles convocados para a seleção brasileira. Há jogadores e treinadores bons em seus clubes, porém, sofríveis na seleção nacional. O treinador italiano cogitado pela imprensa brasileira nunca treinou seleção alguma. Portanto, não há certeza de que ele terá êxito na empreitada, caso aceite dirigir a seleção brasileira. Até o momento, sempre que provocado, Ancelotti nega entendimento com a Confederação Brasileira de Futebol e afirma sua intenção de permanecer à frente do Real Madrid.

domingo, 15 de outubro de 2023

ISRAEL versus PALESTINA

Nas relações humanas, a busca da verdade e da justiça é incessante porque o falso e o injusto são de uso constante. A mentira está presente na diplomacia e na propaganda. As opiniões veiculadas pelos jornais, pelas emissoras de rádio e televisão e pela rede de computadores, têm que ser filtradas, pois, via de regra, carregam mentiras camufladas. A propaganda universalizou e coloriu a mentira, tornando-a palatável e apta a enganar. O sítio Brasil 247 da rede de computadores publicou, no dia 17/08/2023, o substancioso artigo “Robert F. Kennedy Jr. O Idiota Útil do Lobby de Israel”, sobre a propaganda do governo de Israel e o encobrimento dos horrores e crimes praticados pelos judeus. Chris Hedges, autor do artigo, jornalista estadunidense, trabalhou durante 7 anos em Israel como correspondente do New York Times. Segundo a sua opinião, o governo judeu nivelou-se ao governo da Alemanha nazista. “Israel de Fantasia”, foi o apelido dado à falsa imagem construída pela máquina de propaganda do governo israelense. O jornalista mencionou o holocausto na Cisjordânia e na Faixa de Gaza e o apartheid impostos aos palestinos, criticou a manobra jurídica que ampara antigo projeto judeu de limpeza étnica na Palestina, relatou a subnutrição e o elevado índice de desemprego dos palestinos, a morte de milhares de palestinos de ambos os sexos e de todas as idades, a dificuldade ou impossibilidade de acesso a água, alimentos, remédios e energia elétrica, as torturas, o bombardeio de casas, hospitais, escolas, ataques indiscriminados e nada “cirúrgicos”, referiu-se às mentiras dos judeus para justificar o genocídio, ao racismo, ao nacionalismo e ao fascismo dos judeus, à proibição de casamentos entre judeus e palestinos, e ao arremedo de democracia.
[Excertos do artigo “Verdades & Mentiras” publicado neste blog em 20/08/2023].
Alguns veículos progressistas da média brasileira questionaram o qualificativo “terrorista” dado ao Hamas pelos governos dos Estados Unidos da América (EUA) e de Israel e pela indecorosa média corporativa satélite. Lembraram que a Organização das Nações Unidas (ONU) não atribui tal qualificativo ao Hamas. Os grupos defensores da liberdade e dos direitos dos seus povos oprimidos são qualificados de “terroristas” por seus opressores. Em conclave internacional, os países mais potentes elaboram o conceito “terrorista” com notas que os excluem. Esse conceito funciona como “definição oficial”, na qual se enquadra como criminoso subversivo quem  luta pela liberdade e pelos direitos do seu povo. 
Terrorista é todo indivíduo, grupo, ou estado, que provoca e/ou espalha terror mediante ações aterrorizantes. Nessa definição entram os EUA, Israel e demais estados opressores. O terrorismo estatal configura sistema opressor de persuasão social e domínio político. O terrorismo social configura método utilizado pelo oprimido para obter o reconhecimento da sua dignidade e dos seus direitos. Os dois tipos de terrorismo utilizam meios violentos e cruéis para atingir os seus objetivos. Atropelam o direito internacional e a ética humanitária. Assumem posição refratária a quaisquer conceitos, sentimentos, regras e interesses que não sejam os deles próprios. 
EUA e Israel são exemplos de estados terroristas, criminosos, genocidas, que violam as regras jurídicas internacionais, afrontam decisões dos tribunais, menosprezam os princípios humanitários. Desde a segunda metade do século XX, com ajuda e beneplácito dos EUA, Israel vem invadindo e se apossando das terras da nação palestina, destruindo casas, edifícios e a infraestrutura hidráulica e elétrica, cerceando a locomoção, prendendo, torturando e assassinando adultos e crianças. O Hamas constitui um movimento paramilitar, social e político de resistência à tirania dos judeus militares, civis e religiosos. Leva o selo do temperamento, dos costumes e da milenar cultura dos povos árabes. 
Os acordos de paz nestes últimos 40 anos ficaram no esboço, não se concretizaram. O episódio de 11 de Setembro na América e agora o episódio de 07 de Outubro no Oriente Médio, foram respostas desesperadas e advertências singelas dadas pelos oprimidos aos opressores. Só haverá paz depois de lançada bomba atômica em cada uma das seguintes cidades: Washington, Nova Iorque, Tel Aviv, Jerusalém, Londres e Berlim. Desse modo, cortar-se-á o mal pela raiz. Sem esse bombardeio exitoso, a paz continuará a ser vã esperança, objeto de discursos demagógicos e de fingidos esforços, perda de tempo e de dinheiro. O oprimido de ontem (holocausto judeu) é o opressor de hoje (holocausto palestino). Ontem, rebelião heroica e suicida dos judeus contra os nazistas alemães. Hoje, rebelião heroica e suicida dos palestinos contra os nazistas judeus. Assim caminha a humanidade.  

domingo, 8 de outubro de 2023

TROVAS

 

Muito ajuda quem não atrapalha

Inútil ou imprestável vira tralha

Palavra acelerada virtude pouca

Confusão na meta decisão louca


Quem neste mundo muito arma

Mais do mal que do bem se vale

No seu destino faz que se instale

Merecido castigo da lei do carma

domingo, 1 de outubro de 2023

NUVENS

Ele agradece a deus pela concessão de mais um dia. Preenche a primeira hora de cada manhã com exercícios físicos no quintal da sua casa. Contempla as montanhas. Observa o movimento das nuvens. Como se fossem chumaços de algodão, elas se aproximam umas das outras, unem-se, formam um bloco. A nuvem assim encorpada cobre as montanhas, sobe e continua a se mover sem pressa alguma. Depois, começa a se desfazer e a desenhar figuras no céu.
Quando criança, Ariosto – esse era o seu nome – pensava que as nuvens se formavam no céu e pairavam sobre cidades e montanhas. Às vezes, elas ficavam muito escuras, ameaçadoras, revoltosas, trovoavam, lançavam chuvas e raios. A sua avó materna, italiana católica fervorosa, dizia que a fúria da natureza era sinal da zanga de deus provocada pelos pecados dos adultos e das crianças rebeldes e desobedientes. Segundo vociferava o padre da paróquia, “os homens são pecadores e devem fazer penitência para obter a misericórdia divina e salvar suas almas das labaredas do inferno”. Aos domingos, Ariosto ouvia essa ladainha durante a missa enquanto o sacristão sacudia o saco das esmolas diante do peito de cada fiel, insistentemente, percorrendo, um após outro, os bancos da igreja. O saco ficava pendurado na extremidade de uma vara que o sacristão segurava pela ponta oposta. Na sua ingenuidade infantil, Ariosto ficava intrigado. Só os homens? E as mulheres, não são pecadoras? Será que elas são protegidas por Nossa Senhora?  
Ainda garoto, Ariosto se admirava com a cerração matinal. Quando moço, associou a cerração à nuvem. Passeava pela neblina como se estivesse andando nas nuvens. Afinal, como dizia a sua mãe, ele sempre andava “com a cabeça nas nuvens”. A neblina era uma nuvem ao alcance dos pés. Pilotando automóvel, ele reduzia a velocidade, mas, às vezes, preferia parar e aguardar no acostamento até a neblina enfraquecer e melhorar a visibilidade. “Cautela e caldo de galinha mal não fazem”, ditado que ouvia na família. 
Ariosto lembrava dos ensinamentos de ciências naturais do curso ginasial da sua adolescência. Com o calor do sol, as águas do mar, do rio, da lagoa, evaporam. O vapor quente sobe e atinge o ar frio nas alturas. Desse encontro, formam-se os ventos e as nuvens. No entanto, ele viu nuvens que não desciam sobre as montanhas e sim que subiam das suas bases. Oriundas das águas dos vales e sopés, as nuvens se elevavam até cobrir a montanha. Então, deduziu, assim como lá em cima é aqui embaixo, e fez um muxoxo ao concluir o seu raciocínio.
Certa ocasião, ele percebeu detalhe que o incomodou. As nuvens nem sempre cobriam as montanhas. Na verdade, elas cobriam a visão que ele tinha das montanhas. Sentiu-se vítima da ilusão de ótica. Caso ele se postasse na montanha, notaria a distância entre ela e as nuvens. A beleza seria a mesma, porém, a informação seria diferente. Veria que as nuvens situadas à frente da montanha levantavam-se de baixo para cima, saíam da terra e não do céu. 
Ariosto já havia testemunhado esse fato na sua adolescência, mas, a memória apenas registrou o que os olhos viram sem especular. Jovem aspirante a alpinista, ele escalara algumas vezes a cadeia de montanhas do seu estado natal. Em uma dessas ocasiões, resolveu dormir no ponto mais alto da cordilheira. Mirou as estrelas e as desafiou a se esconderem. Não havia nuvens. As estrelas não tinham como se esconder e ficaram mais brilhantes. Ele não lhes deu importância. Recusou-se a lhes servir de plateia e foi dormir no leito de pedra. Sem a atenção dele, as estrelas ficaram a brilhar umas para as outras. Amanheceu. Ele sentiu o frescor da névoa matutina. As nuvens ocultavam o sol e o azul do firmamento. 
Na segurança do seu lar, na quietude do seu quarto, Ariosto meditava sobre as nuvens que cobrem os seus pensamentos e os seus sentimentos. Afastando as nuvens do seu cérebro, ele buscava o que elas ocultavam: o sol espiritual do sublime conhecimento. Ele ficara encasquetado com a nuvem do mundo tecnológico. Tal como a nuvem cerebrina, a nuvem tecnológica não era gás, nem outra coisa real. Ela ocultava dados contidos em partículas eletromagnéticas. Tratava-se de ambiente virtual de armazenamento de dados acessíveis por meio de aparelhos sincronizados, ferramenta invisível para armazenar virtualmente arquivos sem ocupar espaço na memória do aparelho celular. Sonhador, Ariosto imaginou essa nuvem como um setor do cinturão eletrostático que envolve o planeta. Demorou a conciliar o sono.