sexta-feira, 8 de junho de 2018

FUTEBOL NÚMEROS ET CETERA

O Centro Internacional de Estudos do Esporte, sediado em Neuchätel, cidade suíça, fundado em 1995 pela FIFA em parceria com o governo e a universidade, publicou lista dos 100 jogadores de futebol mais caros do mundo. Entre os 10 jogadores mais caros, 5 são de clubes ingleses: Tottenham, Liverpool, Manchester City e Manchester United. O primeiro lugar coube a Harry Kane, do Tottenham, valendo 201,2 milhões de euros e o décimo lugar a Ramelu Lukaku, do Manchester United (163,4 milhões). Neymar, do PSG, ocupa o segundo lugar (195,7 milhões); Messi, do Barcelona, o quarto (184,2 milhões) e Salah, do Liverpool, o quinto (171,3 milhões).
Esses valores estratosféricos demonstram como o interesse econômico transformou o esporte em indústria e os jogadores em mercadoria. Essa mudança começou na Europa Ocidental, anos 70, século XX, estendeu-se para a América e foi encampada pela FIFA. Os jogadores são utilizados como garotos-propaganda. Daí, a importância da presença deles em campo, ainda que estejam sem condições físicas e técnicas. Os estádios de futebol permitem ampla visibilidade das marcas comerciais estampadas nos uniformes dos jogadores. Certa vez, Ronaldo Nazário foi além do uniforme: saiu andando do campo e pendurou no pescoço as chuteiras de determinada marca a fim de torna-la bem visível ao público do estádio e ao telespectador. As emissoras de TV também driblam a lei e recheiam a transmissão dos jogos com propaganda fora dos intervalos. Domínio do dinheiro e da esperteza onde a moral e a decência não entram.     
A copa do mundo de futebol masculino Rússia/2018 será disputada por 32 seleções nacionais, sendo 14 europeias (7 da Europa Ocidental, 4 da Europa Oriental e 3 da Escandinávia), 8 americanas (5 da América do Sul, 2 da América Central e 1 da América do Norte) 5 africanas (3 da África morena e 2 da África negra) 4 asiáticas (2 da Ásia amarela e 2 da Ásia morena) 1 australiana (Oceania).     
Para compor a seleção brasileira, o treinador convocou 23 jogadores, sendo 3 goleiros, 8 defensores, 7 armadores e 5 atacantes, nem todos em boas condições físicas e técnicas. O Centro Internacional acima citado, servindo-se de metodologia que leva em conta o desempenho dos jogadores e a frequência de jogos de que eles participam em determinado período, concluiu que em 2018: (i) a seleção espanhola será campeã (ii) a brasileira vice-campeã (iii) a francesa ficará em terceiro lugar e a alemã em quarto. Cuida-se de cálculo probabilístico.
Por se basearem em números reais, os calculadores aspiram a se aproximar da certeza. Em que pese o seu valor, a matemática nem sempre se dá bem com o esporte. Ainda que os dados da experiência sejam valiosos ao exame racional, a intuição mental e sensorial às vezes é mais eficiente.
O resultado das competições esportivas surpreende em função do imponderável, de fatores individuais (físicos, temperamentais, psicológicos) coletivos (táticos) sociais e políticos, que escapam ao cálculo. Em jogo duríssimo, quando há paridade de forças entre as equipes, um único lance de um jogador habilidoso pode ser decisivo. Na seleção brasileira esse jogador pode ser Coutinho, Firmino, Gabriel, Marcelo, Neymar. Esta é a vantagem numérica da brasileira sobre as demais seleções que têm apenas um Cavani, um Salah, um Ronaldo, um Messi.
A perda de um jogador taticamente importante no esquema do treinador influi no resultado da partida. Contusões graves tiram-no de campo, às vezes, provocadas intencionalmente pelo adversário. Fingindo inocência, há jogadores, como Sérgio Ramos do Real Madri, que batem pra valer. Outros, como alguns jogadores europeus, africanos e asiáticos, batem - não por maldade - e sim porque lhes falta habilidade e refinamento. Entrevistado há algum tempo, Pelé contou, em tom confidencial (como se fosse possível confidência em canal de televisão!) que seus companheiros combinaram, durante jogo da seleção, um deles acertar no adversário que estava batendo pra valer. O brasileiro escolhido não precisou cumprir a missão porque o próprio Pelé acertou o gringo quando surgiu a ocasião. Às vezes, quando o árbitro é omisso ou conivente, há necessidade de a vítima aplicar com jeitinho um “chega pra lá” a fim de o agressor desistir de dar pancadas.     
O futebol do século passado empolgava mais o povo brasileiro do que o futebol do presente século. Sem grande envolvimento do público, a equipe nacional fica pouco estimulada. Paira uma atmosfera de desilusão ou indiferença criada pela segunda derrota na própria casa. A primeira (1950) deprimiu o brasileiro por quase 50 anos. A frustração e a angústia geradas pela segunda (2014) talvez não durem tanto. A estas duas, acrescente-se a derrota para a seleção italiana na copa da Espanha (1982). Portanto, três grandes decepções que marcaram a alma nacional. O mercantilismo que cercou o esporte levou o torcedor ao descrédito. Além disto, mudou a mentalidade de parcela da população cuja autoestima tornou-se menos dependente do sucesso da seleção de futebol masculino.
O retrocesso econômico e social, a instabilidade política e a insegurança jurídica, reinantes no país, geram acabrunhamento, infelicidade, desespero, revolta, o que repercute no comportamento do povo em relação ao futebol e ao esporte em geral. A Constituição da República Federativa do Brasil tem sido usada no banheiro como papel higiênico pelo presidente da república, por parlamentares, ministros, juízes, membros do ministério público, pela elite econômica (banqueiros, industriais, comerciantes, fazendeiros, donos de empresas jornalísticas) e por uma fatia da camada remediada da população. Por enquanto, a Constituição tem sido respeitada pelos militares, por sacerdotes católicos, literatos, cientistas, filósofos, professores e parcela das camadas remediada e pobre da nação.

domingo, 3 de junho de 2018

FUTEBOL

Kiev, capital da Ucrânia. 26/05/2018. Decisão da Champions League. Real Madri x Liverpool. Abertura espetacular, como se fosse a dos jogos olímpicos. Sensacional criação artística. Beleza da voz e do físico da cantora, bailarinas em cadência harmoniosa exibindo belos corpos e vestes colantes, cenografia de bom gosto, dinâmica alegre e festiva de todos os participantes. Aplausos merecidos.
O Real Madri sagrou-se campeão pelo placar de 3 x 1. Geralmente, jogos de decisão são insossos e tensos. Entretanto, este jogo, sem retranca e bem movimentado, agradou a quem gosta do esporte. Os gols do Real foram marcados por Benzemá e Bale. A estrela do goleiro do Liverpool estava apagada. Mais preocupado em exibir o seu belo porte às câmeras de televisão, ele falhou de modo bizarro no primeiro gol e engoliu um frango no terceiro. O segundo gol resultou de meia-bicicleta de Bale. Bonito lance. Depois do jogo, o vaidoso goleiro (alemão) do clube inglês mostrou-se desolado e foi consolado por jogadores do seu time e do time espanhol. Sérgio Ramos, defensor do Real, numa disputa de bola, aplicou uma chave-de-braço e lesou a musculatura do ombro de Salah, artilheiro do Liverpool, tirando-o da partida ainda no primeiro tempo. Apesar disto, o time inglês conseguiu marcar um gol pelos pés do bom e esforçado Mané. A equipe espanhola levantou a taça no centro do estádio.          

Seleção brasileira. Maio/2018. Oba-oba. Na Granja Comary, apareceram os antigos técnicos da seleção, Zagallo, com seus 86 anos de idade e Parreira, com seus 75 anos. Imprensa e televisão zoando. Propaganda comercial. Oportunidade para ganhar dinheiro. Leitura dos sinais: como a seleção de 2014, a seleção atual vai dançar nessa copa mundial de futebol masculino Rússia/2018.
Atletas fora de forma física e técnica, um deles até convalescendo de cirurgia, foram convocados na esperança de que estejam em forma até o início dos jogos. Risco que podia ser evitado tendo em vista a existência de atletas em boas condições físicas e técnicas que podiam ser convocados (talvez já constem da lista suplementar do treinador). O dedo dos patrocinadores aponta para quem deve aparecer na seleção esteja ou não esteja em plena forma. Negócio é negócio, esporte é esporte, mas os dois se entrelaçam. E lá se vai para a cesta a sexta copa. O governo federal não poderá fazer uso político do sucesso da seleção brasileira e as emissoras de televisão não lucrarão com propagandas ufanistas e sensacionalistas.     
A presença em campo de Beckenbauer, com o braço na tipoia e de Zidane, sem condições físicas, não trouxe benefício para as respectivas seleções (alemã e francesa). Assim também colocar em campo Neymar, Renato Augusto, ou qualquer outro jogador, em precárias condições físicas e/ou técnicas, pode não trazer benefício à seleção. Considere-se, ainda, que Neymar, apesar de bom jogador e artilheiro, está abaixo do nível de Garrincha, Pelé, Romário, Ronaldinho Gaúcho e de outros craques do futebol mundial. A isto, soma-se o descontrole emocional.  
Dir-se-á: a seleção de 1970 saiu do Brasil desacreditada e ganhou a copa. Certo. A de 1958, cujo treinador às vezes cochilava no banco durante o jogo, também não empolgava o público brasileiro. Havia pouca fé nos treinadores, muito ardor e desconfiança no meio dos milhões de torcedores e “técnicos” que discordavam da convocação de alguns jogadores e das táticas utilizadas. João Saldanha assumiu a direção técnica da seleção de 1970. A ditadura militar estava no auge da repressão. O ditador de plantão, general Garrastazu Médici, apreciador do esporte e torcedor do Grêmio de Porto Alegre, exigiu a escalação do goleador Dadá Maravilha. Saldanha, que era comunista, respondeu: “O general manda no governo; na seleção mando eu”. Os dirigentes da CBF demitiram-no e chamaram Zagallo, mais dócil à ditadura.
Diferente daquelas seleções, o treinador e os jogadores da seleção atual saíram acreditados e prestigiados pelos torcedores e pela imprensa esportiva (Maio/2018). A espada não ameaça o pescoço dos civis. Nos jogos classificatórios, a seleção brasileira teve excelente desempenho, resgatando a beleza e a eficiência da idade de ouro do futebol brasileiro. Todavia, nos jogos da copa do mundo prestes a iniciar, as outras seleções exibirão o seu melhor futebol, com os jogadores dando o máximo das suas energias, esforçando-se para superar a si mesmos e aos adversários. Portanto, não será fácil o trabalho dos jogadores e do treinador da seleção brasileira.
As seleções da Suíça, Costa Rica e Sérvia (herdeira da Iugoslávia) são as primeiras que a brasileira enfrentará. Tolice falar em favoritismo. A seleção brasileira poderá empacar nas quartas-de-final, dependendo da eficiência e do nível técnico das seleções que disputarão a Copa/2018, sobre o quê, até o momento, há só especulação, pois certeza ter-se-á só depois de as diversas equipes se defrontarem na primeira fase do torneio. Aí, então, quem assistir aos jogos terá elementos suficientes para comparar e avaliar. Poderá haver surpresas.  

Seleção do Brasil x Seleção da Croácia. Liverpool. Inglaterra. 03/06/2018. Jogo amistoso de preparação das equipes para o torneio mundial. Primeiro tempo da partida terminou com o empate sem gols e o segundo tempo com a vitória da seleção brasileira (2 x 0). As duas equipes exibiram tática semelhante e satisfatório entrosamento. Mais velozes e vigorosos, os croatas deram muito trabalho aos defensores brasileiros. Disputas de bolas ríspidas e perigosas. Poucas finalizações tendo em vista o eficiente sistema defensivo das duas seleções. Na brasileira, destacaram-se Coutinho e William no ataque, Tiago e Fernandinho na defesa e o lateral esquerdo Marcelo na armação. Neste setor, não há especialista. Todos os jogadores estiveram bem em campo, mas por motivos táticos ou físicos, nem todos tiveram o mesmo rendimento. Os treinadores fizeram mudanças experimentais na escalação das respectivas seleções, o que alterou um pouco o panorama da partida. De um modo geral, o ritmo da seleção croata foi mais rápido e intenso enquanto o da brasileira foi mais cadenciado e brando, o que lhe permitiu ficar mais tempo com a bola. Funcionou a veia de artilheiro de Neymar e de Firmino, autores dos gols, apesar do discreto desempenho de ambos.  

quarta-feira, 30 de maio de 2018

SUPREMO TRIBUNAL

Ante a politização partidária do Supremo Tribunal Federal (STF) e as suas frequentes violações das normas constitucionais e legais, convém o Congresso Nacional, como órgão de representação popular, instituir juízes substitutos para integrarem-no. Modificar-se-á mediante emenda à Constituição, o artigo 101, com acréscimo de parágrafos, que poderá vigorar com a seguinte redação:

Art.101. O Supremo Tribunal Federal compõe-se de onze juízes titulares e dez juízes substitutos, escolhidos dentre cidadãos com mais de trinta e cinco e menos de sessenta e cinco anos de idade, de notável saber jurídico e reputação ilibada.
§ 1º. Os juízes titulares e substitutos serão nomeados pelo Presidente da República depois de aprovada a escolha pela maioria absoluta do Conselho Nacional de Justiça. 
§ 2º. Os juízes substitutos têm os mesmos poderes, as mesmas atribuições, prerrogativas, remuneração e garantias dos juízes titulares e serão escolhidos entre os magistrados federais e estaduais que ingressaram na carreira mediante concurso público de provas e títulos e estejam no efetivo exercício da função judicante nos tribunais.
§ 3º. Os processos em andamento serão redistribuídos cabendo ao juiz titular os de número par e ao juiz substituto os de número ímpar, valendo para esse fim, na hipótese de dois ou mais processos anexados, o de número mais antigo enquanto as ações e recursos novos serão distribuídos igualmente entre todos os juízes.
§ 4º. As decisões das turmas são irrecorríveis e havendo divergência entre elas prevalecerá o entendimento da primeira turma.
§ 5º. Quando na sessão de julgamento na turma, ou no tribunal pleno, houver número igual de membros, somados os titulares e os substitutos, excluir-se-á, para fim de desempate, o voto do juiz mais novo.
§ 6º. Nos processos em trâmites na turma, ou no tribunal pleno, serão sempre colegiadas as decisões, tanto as liminares como as finais, vedadas decisões monocráticas. 
§ 7º. Nos processos em trâmites pela turma, somente a esta, em decisão exclusivamente colegiada, compete conceder ou negar liminarmente qualquer medida judicial, ainda que de urgência, vedada a transferência da decisão para o tribunal pleno.
§ 8º. As presidências do tribunal e de cada turma cabem ao juiz mais antigo, vedados os rodízios.

Ao comportamento dos ministros do supremo tribunal brasileiro ajusta-se a crítica à suprema corte estadunidense feita por Franklin D. Roosevelt, presidente dos EUA, em 1937: “O judiciário está assumindo uma função adicional e está cada vez mais se transformando em uma terceira casa legislativa nacional” (câmara dos representantes + senado + tribunal).
Ao contrário da norte-americana, a Constituição brasileira é analítica e prolixa, deixa pouco espaço à criação jurisprudencial. Em razão disto, o abuso na interpretação judicial fica mais transparente. Os ministros do STF, sem que tenham atribuição constitucional, atuam como legisladores e até como consultores-gerais da república. Noticia-se, por exemplo, que da pauta do tribunal para o próximo mês consta uma consulta sobre se a mudança do modelo presidencialista para o parlamentarista fere ou não, princípios e regras constitucionais. Do ponto de vista da competência jurisdicional, não cabe ao tribunal responder a essa consulta ou a qualquer outra. Consultoria jurídica é tarefa legal privativa da advocacia.
Aliás, o povo já decidiu, por duas vezes, que prefere o tipo presidencialista de governo escolhido pelo legislador constituinte originário. Portanto, a referida consulta afigura-se como tentativa de envolver o STF num malicioso expediente para desprezar a decisão do povo e modificar a Constituição na forma pretendida pela minoria vencida nos plebiscitos.
Convém afastar de vez o ranço monárquico e atribuir aos membros do supremo tribunal o título exclusivo de juiz, mais compatível com o traço republicano da Constituição do Brasil. O título de ministro (auxiliar do chefe de governo) não é fiel ao atributo de independência contido no princípio da separação dos poderes.
A nomeação de magistrados de carreira para atuarem como juízes substitutos ao lado e no mesmo nível dos juízes titulares poderá contribuir para: (i) evitar a invasão do Judiciário na competência do Legislativo (ii) a eficácia das garantias do devido processo legal, da razoável duração do processo e da celeridade processual (iii) colocar o STF nos trilhos da legitimidade, retomando – não só no plano abstrato mas também no plano concreto – o seu papel de guardião da Constituição.
O Conselho Nacional de Justiça está composto de magistrados, de membros do Ministério Público, de advogados indicados pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil e de juristas indicados pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal. Trata-se, pois, de instituição idônea e adequada para a escolha dos juízes do mais alto tribunal do país. 
Todas as decisões dos tribunais devem ser coletivas, quer nas ações cautelares, quer nas principais, tanto as liminares como as finais. Ao jurisdicionado interessa saber a posição do tribunal como órgão colegiado. Decisão monocrática, o jurisdicionado obtém na instância inicial. O segundo grau de jurisdição (ordinário), o terceiro grau (especial) e o quarto (extraordinário), como instâncias recursais, significam que o postulante terá a sua demanda e as suas petições examinadas – não por um único juiz – e sim por uma pluralidade de juízes em conjunto numa câmara, ou numa turma, ou na sessão plenária de um tribunal, o que aumenta a probabilidade de uma solução mais adequada ao caso concreto e que inspira maior confiança aos jurisdicionados.
Razões administrativas, como o grande volume de processos, não justificam subtrair dos jurisdicionados o direito a uma decisão colegiada inerente ao duplo grau de jurisdição. Ademais, no supremo tribunal, o problema do volume de ações será atenuado com a presença dos juízes substitutos. Certamente, esses juízes trarão para o tribunal a sua experiência e maior desenvoltura no trato com processos judiciais, o que atenderá às exigências constitucionais e aos interesses da nação.
Em prol da estabilidade institucional, da eficiência administrativa e da unidade funcional, que levam certeza e segurança aos jurisdicionados, convém abolir os rodízios nas presidências do tribunal e das turmas e atribuí-las exclusivamente aos juízes mais antigos. Outrossim, as turmas são compostas de magistrados do mais alto tribunal do país e tratam de questões já discutidas e analisadas em outras instâncias. Não há motivo plausível para prolongar ainda mais a duração do processo com recursos das decisões tomadas pelas turmas. No caso de divergência entre as turmas, ao invés de mais recursos, preferível que prevaleça o entendimento da primeira delas independente da sua composição.

sábado, 26 de maio de 2018

GREVE

Os donos de caminhões, pessoas naturais e pessoas jurídicas (empresas transportadoras), decidiram interromper a prestação de serviço de transporte de carga até que o governo federal atenda às suas reivindicações, a saber: (i) cessar imediatamente a sequência quase diária dos aumentos do preço do combustível (ii) reduzir esse preço e a respectiva carga fiscal (iii) gratuidade no pedágio para caminhão sem carga. 
Improcede acusar o movimento de greve ilegal, eis que de greve não se trata. Greve no sentido histórico e jurídico, supõe a existência de vínculo empregatício. Trata-se de um direito assegurado aos trabalhadores para defesa dos seus interesses exercido contra os empregadores. Consiste na recusa dos empregados de cumprir a sua parte no contrato de trabalho enquanto as suas reivindicações não forem atendidas pelos empregadores. O movimento dos caminhoneiros não tem base contratual e nem é contra empregador e sim contra a administração direta e indireta do estado, especialmente contra a política de preços e a tributação.
Extensivamente e em sentido figurado, o vocábulo pode ser utilizado em outro contexto, como a greve de fome em sinal de protesto por motivo político ou religioso, ou a greve de sexo das esposas contra os maridos para deles obter mudança no comportamento, exigir determinada ação ou omissão.  
O governo celebrou acordo com as empresas transportadoras, mas não com os individuais e autônomos proprietários de caminhões. Em consequência, a paralisação prossegue e já entrou no sexto dia. Talvez dure mais tempo até o governo atender às justas reclamações dos proprietários individuais. Por enquanto, o governo optou pelo uso da força na defesa da lei e da ordem, alegando a necessidade de garantir o abastecimento à população. O governo preferiu utilizar os métodos nazifascistas de resolver as questões sociais. Poupou os sócios das empresas transportadoras que tudo assistem no conforto das suas mansões. As multas serão aplicadas aos autônomos. Somente os motoristas empregados das empresas e os motoristas donos dos caminhões é que sofrerão os castigos aplicados pelos agentes da polícia e pelos soldados do exército. Esse modo violento de tratar os social e economicamente mais fracos é típico dos governos de direita.    
O movimento dos proprietários de caminhões contraria os interesses do estado e das empresas petroleiras. Com os sucessivos aumentos dos preços cresce a arrecadação tributária sem que o percentual do tributo seja alterado. O aumento na arrecadação ajuda a cobrir despesas com as próximas eleições (fundo partidário inclusive) e também socorre os pilantras desta república de bananas. O aumento dos preços significa maiores lucros para as empresas petroleiras nacional e estrangeiras. 
Os aumentos abusivos pesam no bolso dos proprietários de veículos automotores em geral e não apenas no bolso dos donos de caminhões. A paralisação dos serviços de transporte de carga acarreta transtorno nas estradas e nas ruas, falta de combustível nos postos e desabastecimento geral no mercado. A falta de combustível prejudica a circulação de automóveis oficiais e particulares, de aeronaves, de barcos, de veículos que servem ao transporte coletivo de trabalhadores e estudantes.
As carências interferem na administração pública, atingem toda a população e causam descontentamento geral, por mais justas que sejam as reivindicações. Entretanto, a situação não justifica o emprego da força pelo estado. Antes, devem se esgotar a mediação e os meios pacíficos de solução das controvérsias, como exigem o direito e os bons e civilizados usos e costumes. Os donos e motoristas dos caminhões parados não são delinquentes e nem terroristas. A maioria é de brasileiros chefes de família. De modo pacífico, pleiteiam o que lhes parece correto, em sintonia com os princípios da justiça social e da justiça tributária enunciados na Constituição da República.
Ressalte-se que EUA, Canadá, no continente americano, Alemanha, França e outros países no continente europeu, Japão, Índia e outros países no continente asiático, mantiveram e ampliaram as ferrovias e aperfeiçoaram os seus trens paralelamente ao desenvolvimento da indústria automobilística, enquanto o Brasil acabou com as malhas ferroviárias, como aconteceu com a Rede de Viação Paraná-Santa Catarina, e sucateou os trens, tudo em prol da indústria automobilística. Além da pressão dos fabricantes estrangeiros, influiu na decisão dos governantes brasileiros o preconceito que se percebia no seio da população: trem é coisa de “peteba”. Em consequência, o abastecimento ficou inteiramente dependente do transporte rodoviário.  

terça-feira, 22 de maio de 2018

INSEGURANÇA JURÍDICA

Arte do bom e do equitativo, conjunto de normas derivadas da experiência social e da razão consagradas pelo costume ou postas pela autoridade pública segundo valores prevalecentes na civilização, o direito tem por escopo: [1] regular a conduta humana segundo a ideia e o sentimento de justiça, visando a paz social e a realização do bem comum [2] garantir formalmente as condições necessárias à manifestação das potencialidades humanas e ao desenvolvimento da nação [3] proporcionar segurança às relações de natureza política, econômica e social [4] dar estabilidade às instituições e vigor aos preceitos éticos essenciais à convivência e à coexistência [5] organizar a sociedade e o estado sob forma autocrática ou democrática segundo a primazia da autoridade em face da liberdade ou a primazia da liberdade em face da autoridade [6] conciliar: (i) capital e trabalho (ii) domínio e servidão (iii) elite e massa (iv) interesse privado e interesse público.   
Para assegurar a eficácia das normas jurídicas, constituiu-se o aparelho de segurança do estado composto de policiais, fiscais e juízes, além da burocracia e do exército. A organização jurídica (substancial e instrumental) só por si não acaba com as divergências tanto nas relações internacionais como nas domésticas, porém abre caminhos para a solução pacífica. Normalmente, as divergências são resolvidas sem apelo às instâncias judiciárias. No âmbito doméstico, inconteste a superior importância da função pacificadora e conservadora dos juízes e tribunais. Por isto mesmo, a disfunção judicial é altamente nociva. Acarreta insegurança jurídica. O povo perde a confiança na instituição judiciária. A nação fica desorientada em consequência da volubilidade dos juízes e tribunais. No meio social brotam as contestações, a desobediência, a desordem, a barbárie, a justiça individual realizada pelas mãos e razões dos contendores, as doutrinas e práticas nazifascistas.
Atualmente, esse fenômeno social ocorre no Brasil (2001/2018). Juízes e tribunais, por motivo político partidário, bem como para satisfazer interesses de setores privados da economia e das comunicações, fazem tabula rasa de cláusulas pétreas e distorcem o real sentido das normas constitucionais e legais, inclusive na esfera dos direitos e garantias individuais. Mesmo sem competência legislativa, juízes e tribunais inovam no ordenamento jurídico, inclusive importando modus operandi estranho ao direito brasileiro. Desprovidos de escrúpulo, invadem a competência do Congresso Nacional, violando a regra constitucional da separação dos poderes.
A operação lava-jato exemplifica bem esse fenômeno. O Judiciário parece acatar a ordem do presidente da república Michel Temer: “Tem que manter isso, viu?” A sujeira feita pelo inquisidor curitibano, endossada e ampliada pelos inquisidores gaúchos, “tem que ser mantida (viu?)” pelos tribunais superiores. Trata-se de corporativismo na sua mais nefanda e indecorosa expressão (apoio às ilicitudes praticadas pelos membros da corporação). No Supremo Tribunal Federal há exemplos desse comportamento retrógrado, imoral e antijurídico.
Sessão do dia 16.05.2018. Recurso Extraordinário (RE) 193924. Embargos Infringentes. Relator: ministro Edson Fachin. Em determinado trecho da exposição oral do seu voto, o relator menciona a diferença entre conhecimento e provimento. Menção aparentemente anedótica. Acontece que em sessão anterior, no julgamento do habeas corpus impetrado pelo ex-presidente da república Luiz Inácio Lula da Silva, esse ministro, por ignorância ou má-fé, confundiu conhecimento da causa com provimento da pretensão deduzida em juízo, ao votar pelo “não conhecimento” da garantia constitucional, apesar de presentes os pressupostos processuais e as condições da ação. Erro crasso do qual agora, no retro citado RE, procura se redimir.
No caso do habeas corpus, o correto era o conhecimento da ação judicial seguido do deferimento ou do indeferimento do pedido. O relator (Fachin) não percebeu que: [1] o formalismo jurídico não é óbice ao conhecimento dessa garantia constitucional da liberdade do cidadão [2] a ordem de habeas corpus pode ser requerida até oralmente perante o juiz, ou o tribunal, que depois de observadas as cautelas de estilo (lavratura do termo, requisição de informações), poderá concede-la ou não.
No vocabulário bíblico, conhecer significa relacionamento sexual. Aos 90 anos de idade, Sara referia-se à sua inapetência sexual e duvidava da sua fertilidade. “Velha como sou, conhecerei ainda o amor? Será verdade que eu teria um filho, velha como sou”? (Bíblia, Antigo Testamento, Gênesis 18: 12/13). José & Maria, sobre o nascimento virginal: “E sem que ele a tivesse conhecido, ela deu à luz o seu filho, que recebeu o nome de Jesus”. (Bíblia, Novo Testamento, Mateus 1: 25). Diferente do bíblico, no vocabulário jurídico conhecer significa admitir o exame da causa, não o relacionamento íntimo do juiz com o postulante e tampouco o deferimento do pedido.
Naquela anterior sessão, Fachin não esqueceu que a ordem de habeas corpus pode ser dada mesmo não sendo pedida, ou seja, na ausência de requerimento formal. Quando, no curso de algum processo que esteja examinando, o juiz, ou o tribunal, verificar que alguém sofre coação ilegal, ou está na iminência de sofrê-la, poderá – de ofício (fundado exclusivamente na autoridade do cargo) – expedir ordem de habeas corpus. Entretanto, Fachin decidiu que nem de ofício a ordem devia ser concedida. Antes, não conheceu do pedido porque formulado pelo paciente. Depois, de ofício, examinou a matéria para negar liberdade ao réu. Marco Aurélio comentou e riu da lambança.
O preceito legal não autoriza o juiz, ou o tribunal, a negar de ofício e sim a conceder de ofício a ordem de habeas corpus (CPP 654, 2º). Do ponto de vista lógico e cronológico, no campo do direito, primeiro é necessário que alguém tenha feito algum pedido para depois o juiz negar provimento. Nemo iudex sine actore = sem autor (postulante) não há juiz. Esta é a regra geral. Entretanto, a lei processual penal abre exceção a essa regra para garantir a liberdade de quem está sofrendo, ou na iminência de sofrer, coação ilegal, ainda que o paciente não tenha pedido a ordem expressamente. Ne procedat iudex ex officio = juiz não procede (não deve proceder) de ofício. Esta é a regra geral. A tutela jurisdicional deve ser prestada só depois de invocada pela parte (postulante). Todavia, como garantia da liberdade do cidadão, a lei abre exceção a essa regra geral e permite que o juiz, ou o tribunal, expeça de ofício ordem de habeas corpus. A exceção é para o magistrado conceder e não para negar a ordem.         
Moral da história. Os brasileiros estão ferrados se a liberdade de cada um depender da imparcialidade, do senso de justiça e da fidelidade dos ministros do Supremo Tribunal Federal à Constituição, às normas e aos princípios gerais de direito. Summum iudicium saepe summa malitia est = juízo supremo às vezes é malícia suprema.
Sessão do dia 17/05/2018. ADI 2332. Relator: ministro Roberto Barroso. Discutiu-se a incidência dos juros compensatórios nas desapropriações feitas pelo estado, criados pela jurisprudência e depois formalizados em lei. Destinam-se a compensar o dono do imóvel exclusivamente pela renda perdida durante o período compreendido entre a imissão do estado na posse do imóvel e o pagamento final ao proprietário. A lei exige que essa perda seja comprovada. O estado paga (com o dinheiro do contribuinte) o valor do imóvel apurado na perícia e fixado na sentença, acrescido dos juros de mora e correção monetária. Os juros compensatórios são um plus que supõe a existência de uma relação econômica, qual seja: a de o imóvel desapropriado gerar renda ao tempo da desapropriação (aluguel, produção pecuária, agronegócio). Sem essa prova, os juros compensatórios não devem ser pagos. Esse tipo de juro sangra o erário de modo abusivo como bem demonstrado pela Advocacia Geral da União na referida sessão. Contudo, alguns ministros sensibilizam-se mais com os interesses dos proprietários e advogados que ganham quase o dobro do valor atualizado do imóvel.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

SEMELHANÇAS & DIFERENÇAS

O jurista Ruy Barbosa importou dos EUA para o constitucionalismo republicano brasileiro o formato da suprema corte de justiça (1891). Desde então, supõe-se que o supremo tribunal brasileiro tem a mesma tradição e a mesma autoridade moral e jurídica da matriz estadunidense. No entanto, outra é a realidade.
Semelhança na estrutura não significa igualdade no funcionamento. A autoridade política do tribunal não compreende necessariamente autoridade moral dos seus membros. Autoridade legal implica – mas não significa – autoridade moral do agente público. A instituição judiciária é nobre conquista da civilização, mas no plano dos fatos, os seus agentes podem carecer da nobreza ética e cultural.  O comportamento dos juízes nem sempre está à altura da importância do tribunal para uma nação civilizada. Da história dos tribunais supremos dos EUA e do Brasil, numa abordagem genérica e sob o prisma coletivo, podemos ensaiar os seguintes paralelos:
Juízes da Suprema Corte dos EUA: políticos, conservadores, guardiães, autênticos, independentes, serenos, valorosos, corajosos, austeros, objetivos, concisos, metropolitanos e nacionalistas.
Ministros do Supremo Tribunal do Brasil: politiqueiros, reformadores, violadores, plagiadores, subalternos, exaltados, medíocres, covardes, exibicionistas, vaidosos, prolixos, provincianos e colonizados.
Os membros da suprema corte estadunidense são juízes enquanto os membros do supremo tribunal brasileiro são ministros. As virtudes do juiz nem sempre estão presentes no ministro. Tanto no estado autocrático como no estado democrático, ministro é órgão auxiliar do chefe de governo. No período imperial e no período republicano da história do Brasil, os membros do supremo tribunal sempre atuaram como ministros, ou seja, como auxiliares do imperador e do presidente da república.
No constitucionalismo republicano brasileiro, harmonia entre os poderes executivo e judiciário funciona historicamente como cumplicidade; o executivo, no comando das forças armadas, prepondera sobre o judiciário. Domínio de fato versus equilíbrio de direito. Nas fases autocráticas da república brasileira, ministro que não reza pela cartilha dos ditadores é aposentado compulsoriamente. Nos golpes de estado exitosos, os ministros posicionam-se ao lado dos golpistas. Nas fases democráticas, os ministros são duros com os deslizes da esquerda e frouxos com os da direita.
Fiat iustitia!        

domingo, 13 de maio de 2018

TRUMP & TEMER


Dia das mães.
Reunidos social e festivamente os dois presidentes e suas respectivas genitoras. Comentavam sobre a mesma letra inicial dos seus nomes.
Certo embaixador, convidado para o ágape, procurou novas coincidências entre os dois políticos, fazendo perguntas às mães. Falou assim à mãe de Trump: “O seu filho é homem alto e robusto, tipo nórdico, forte, arrojado, pele clara avermelhada, bastos e vistosos cabelos louros. Qual era a dieta do seu filho na infância”? A idosa senhora respondeu: “Essencialmente, pasta de amendoim e leite de búfalo”. 
A seguir, o embaixador dirigiu-se à mãe de Temer: “O seu filho é homem de estatura mediana, saliente abdome, de pele morena, tipo árabe, ralos cabelos castanhos embranquecidos, dedos das mãos nervosamente esticados. Qual era a dieta do seu filho na infância”? A idosa senhora respondeu: “Essencialmente, pasta de milho e leite de magnésia”.