domingo, 5 de março de 2017

DROGAS



Apesar de proibidas a produção e circulação das drogas ilícitas, o fato é que elas são vendidas e consumidas em todos os continentes. A proibição estimula a transgressão e desafia a rebeldia dos jovens. O fruto proibido é provocador. Eva que o diga. Sem a busca clandestina das drogas reduzir-se-iam os conflitos no interior das famílias dos consumidores.

Bilhões de dólares circulam nesse mercado ilegal de milhões de consumidores. Verba imensa é gasta pelo Estado no combate às drogas ilícitas. Esse dinheiro seria melhor aplicado nos campos da saúde, da educação, da cultura, principalmente nos países em desenvolvimento ou em período de crise econômica e social.

A solução prática e inteligente para esse problema é liberar a produção e o comercio de todas as drogas, indistintamente (remédios, maconha, cocaína, heroína). O Congresso Nacional elaboraria lei: [1] obrigando produtores e comerciantes: (i) a se registrarem nos órgãos estatais competentes; (ii) a manterem contabilidade regular; (iii) a pagarem tributo; [2] estabelecendo tributação em percentual igual ao das bebidas alcoólicas e dos cigarros; [3] instituindo órgão de fiscalização da qualidade das drogas ou aproveitando para esse fim órgãos estatais já existentes.

Com a legalização do narcotráfico, reduzir-se-ia a criminalidade conexa: [1] assassinatos, lesões, roubos, furtos, contrabando; [2] corrupção: (i) de menores na circulação interna como olheiros, mulas ou aviões; (ii) de policiais, vereadores, deputados, senadores, governadores e outras autoridades.

Sobre essa matéria, o governo brasileiro: [1] retirar-se-ia dos tratados internacionais; [2] revogaria as leis civis e penais; [3] arquivaria todos os inquéritos policiais e extinguiria todas as ações penais; [4] libertaria todas as pessoas que estivessem presas preventivamente ou já cumprindo pena. Após a legalização, tais pessoas poderiam trabalhar com carteira assinada num mercado de drogas lícito.  

A receita tributária oriunda das drogas, provavelmente na casa dos milhões de dólares, seria arrecadada pela União Federal, distribuída aos Estados e Municípios e destinada exclusivamente: [1] às instituições oficiais de apoio médico e psicológico aos consumidores; [2] à educação e cultura; [3] à segurança pública.

Trata-se de um projeto ousado que desafia a inteligência, a coragem, a sensatez e o espírito público dos legisladores, além de reforçar e autenticar a soberania nacional em face da eventual resistência de algum outro país.

A pacificação social se faz pela compreensão, tolerância, solidariedade, compaixão e amor fraterno, atenuando a tradicional mentalidade punitiva. As relações entre o povo e as autoridades públicas devem se estabelecer num clima de sinceridade, honestidade, transparência, boa vontade, generosidade e justiça.   

quarta-feira, 1 de março de 2017

SONS



Ouço a minha voz /
Voz da minha memória /
Voz da minha consciência /
Vozes ao meu redor /

Ondas sonoras nos ouvidos meus /
Vozes da rua, da praça, do tribunal /
Do mercado, da feira, do ambulante /
Chilrear dos pássaros, ladrar dos cães /

Ressoar dos vales, da mata, da floresta /
Sonoridade de palavras na mente /
Harmônica regência metafísica /
Murmúrio no êxtase amoroso.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

POESIA



Se amas, pobre criança / ah! Se tu amas? / Não tenhas medo / não é inefável desastre / Há um misterioso sistema / e leis e influências / na gravitação das almas / e na gravitação dos astros / Estás, assim, tranquilamente / sem pensar no que evitas / e de repente / já não aguenta mais / é como se a cada instante / descesses bem depressa / de elevador / e é o amor / Nem livros mais, nem paisagens / nem desejos de céus da Ásia / Sobra apenas um rosto – aquele / ao qual se anestesia o coração / E nada em torno.
(“Se Amas, Pobre Criança”. Jean COCTEAU. Traduzido por Sérgio Milliet).

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

RIMAS



Juntar os pedaços
Reunir os trapos
Apertar os laços
Afastar os sapos

Ir aos poucos
Chegar sem pressa
Ouvir os loucos
Cumprir promessa

Da batalha vital esmorecendo
De ansiedade o peito ardendo
Das dores resistir não podendo
As portas a transpor correndo
No ar a dança dos gases cedendo
Deixam os corredores fedendo

domingo, 19 de fevereiro de 2017

CARNAVAL



Veio o verão chegou o carnaval
Blocos alegres e animados
Batucada de festa multirracial
A contagiar os desconsolados

Ao som da bateria a pista percorrendo
Coro de altas vozes o enredo a cantar
Turistas de emoção quase morrendo
No coração sentindo o forte palpitar

Finas cinturas nos corpos gostosos
Tapa sexo e seios apetitosos
A negritude autentica o samba
No compasso de quem é bamba

Desfilando em terreno plano
Vamos nós e o Império Serrano
Sem morar no morro e na favela
Vamos nós evoluir na passarela

Somos gente do asfalto das cidades
Dos frios burgos cimentados
Somos foliões robotizados 
A desfilar com as celebridades

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

PINGOS & RESPINGOS

Dinheiro e sexo.
No Brasil atual, perderam prestígio: honestidade, lealdade, dignidade, piedade, cultura, bem-comum e felicidade geral. Restaram prestigiados: dinheiro, utilidade, falsidade, brutalidade, liberdade sexual e felicidade individual.
O dinheiro desempenha papel substantivo na sociedade. Deus dos fraudadores, larápios e plutocratas, o dinheiro não tem ideologia, moral e religião, porém, resolve quase tudo. Aquele que dispõe de dinheiro para tudo comprar detém o real poder na sociedade moderna. Compra posições, votos e consciências. Manipula a autoridade pública. Nos prazeres da mesa e da cama tem por companhia e ao seu dispor pessoas do mesmo sexo ou do sexo oposto. Adquire e consome drogas ilícitas sem ser molestado.
O poder do estado (parlamentares, chefes de governo, juízes, procuradores, burocracia, aparelho policial, forças armadas) submete-se ao poder econômico (financeiro, industrial, mercantil). As maiores empresas privadas de comunicação social (jornal, revista, rádio, televisão) cujos donos integram o poder econômico, atuam para prestigiar, desmoralizar e manipular; deturpam a informação, quando não a sonegam; participam de golpes de estado; incentivam a licenciosidade e o consumo de coisas supérfluas.

Distribuição de renda e desigualdade social.
O quinhão maior da riqueza mundial está nas mãos de 8 (oito) pessoas. O quinhão menor distribui-se por 7 (sete) bilhões e 300 milhões de pessoas. Desse quinhão menor, a maior parcela está nas mãos dos ricos e dos remediados e a menor parcela dilui-se entre bilhões de pobres e miseráveis (Davos/Suíça/2017).
No Brasil, a desigualdade social se agrava na proporção que aumenta a concentração da renda nas mãos de poucas famílias: 46 bilionários + 10.300 multimilionários. O saldo da renda nacional está distribuído por 200 milhões de habitantes. Desse saldo, a parcela maior está nas mãos dos milionários + remediados (50 milhões?) e a parcela menor diluída entre os pobres + miseráveis (150 milhões?).

Movimento pendular.
Ideias e ações em espiral no curso da história. Período progressista sucede o conservador. Volta acima, retorna o conservador; depois, o progressista. Nacionalismo ontem, cosmopolitismo hoje. Capitalismo ontem, socialismo hoje. Direita ontem, esquerda hoje. Ora predomina um modelo, ora outro. Há convergências, posições moderadas e conciliadoras que amenizam as estremaduras.
O retorno cíclico dos modelos ocorre paralelamente ao avanço da técnica e da ciência. Mudam as roupagens, variam os costumes, multiplicam-se as comodidades, mas a essência humana permanece a mesma na sua bipolaridade: angelical e demoníaca.
Ritmo acelerado das mudanças desnorteia a geração anterior. “No socialismo me prometeram que tem um lugar ao sol para todo mundo. Agora, falam outra coisa: é necessário viver pelas leis de Darwin, aí é que teremos prosperidade. Prosperidade para os fortes. Mas eu sou um dos fracos. Não sou um lutador” {russo entrevistado pela jornalista e escritora Svetlana Aleksiévitch, após a perestroika. “O Fim do Homem Soviético”. Tradução de Lucas Simone. São Paulo. Cia. das Letras, 2016, p. 379}.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

PINGOS & RESPINGOS

Igualdade de direitos.
Ricos e pobres. Brancos e negros. Cultos e ignorantes. Nacionais e estrangeiros. Governantes e governados. Todos são iguais perante a lei. Este preceito jurídico não expressa uma verdade ontológica e sim um postulado deontológico derivado do senso de justiça. Comentário satírico de Anatole France: "O rico e o pobre têm igual direito de dormir embaixo da ponte". 
As normas de direito elaboradas segundo emanações da realidade social visam a atingir certos fins, tais como: paz, ordem pública; desenvolvimento econômico e social; proporcionar certeza e segurança às relações humanas; indicar o caminho ético aceito pela sociedade; disciplinar a vida social, política e econômica da nação. 
No plano operacional, todavia, os legisladores brasileiros violam na raiz o princípio da isonomia que a eles se destina primacialmente. As leis são votadas segundo os interesses de grupos. Os legisladores brasileiros são de baixa extração moral (a maioria composta de vira-latas) vinculados a igrejas, a corporações nacionais e estrangeiras, a banqueiros, a associações civis, a sindicatos.
A democracia ateniense (500-400 a.C.) também tinha os seus políticos vira-latas: “Os promulgadores das leis são os homens fracos e a massa. Assim, em vista de si mesmos e do que lhes é conveniente, promulgam as leis e compõem os elogios e os vitupérios”. (Platão. Górgias. Trad. Daniel R.N. Lopes. São Paulo. Perspectiva, 2014, pág. 299).

Cone Sul da América.
Maior concentração de fascistas e nazistas por quilometro quadrado. Difusão das doutrinas fascistas e nazistas na Argentina, no Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, desde 1930. No território brasileiro, havia agentes alemães e propaganda nazista e a intenção de separar o Sul do Brasil (São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul) e de organizar nação ítalo-germânica de feição fascista e nazista. A juventude brasileira meridional foi educada sob o signo das citadas doutrinas. 
Nas cidades sulistas grassam o pensamento autocrático e os sentimentos e condutas correlatos entre operários, comerciários, funcionários públicos, jornalistas, professores, empresários, advogados, policiais, vereadores, deputados, prefeitos, governadores. Na esfera judiciária, procuradores, juízes e tribunais desvirtuam o direito positivo ao lançarem no cadinho do relativismo os princípios fundamentais da república, o sistema jurídico penal positivo e o conceito de prova. 
Católicos, protestantes e judeus tratam como inimigo todo aquele que deles difere nos costumes, no pensamento, na visão de mundo, na opção política. Eles seguem à risca o mandamento bíblico: “Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo” (Bíblia, Antigo Testamento, Levítico 19: 18). Fiéis às suas seitas religiosas e manifestando a dimensão diabólica da natureza humana, aquelas pessoas desprezam a retificação feita por Jesus, o Cristo: “Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem, para que vos torneis filhos do vosso Pai Celeste, porque Ele faz nascer o seu sol sobre bons e maus e vir chuvas sobre justos e injustos” (Bíblia, Novo Testamento, Mateus 5: 43/45).