sexta-feira, 15 de julho de 2016

FUTEBOL 2016

Da Copa América, disputada por seleções americanas em cidades dos EUA e da Copa Europa disputada por seleções europeias em cidades da França (junho/julho/2016), foi possível notar que os latino-americanos movem-se mais pela paixão, driblam mais, praticam mais o lado artístico do esporte, sentem necessidade de mostrar talento e de se exibir para o público e as câmeras de TV. Os europeus, na histórica posição de colonizadores, psicologicamente maduros, driblam menos, aprenderam a pedalar e a usar o calcanhar, apelam para o vigor físico, valorizam o conjunto, esquemas táticos sem grande variedade. Falhas comuns aos americanos e europeus: finalizações mal endereçadas, erros nos passes, deficiente trato da bola, desarmes sofridos por desatenção. Os árbitros europeus levam em conta o aspecto viril, não marcam falta só porque a disputa foi vigorosa, evitam interromper a dinâmica do jogo. Preferem advertências verbais, depois advertem por cartão (amarelo), são econômicos nas expulsões (cartão vermelho). Da arbitragem e das faltas sofridas, os europeus do norte pouco reclamam, não fazem cena teatral no choque com o adversário, nem são exibicionistas (o sueco Ibrahimovic é exceção). Os europeus do sul e os latino-americanos reclamam mais, algumas vezes, acintosamente. Na maioria das vezes, as reclamações são improcedentes.
Os telões colocados na parte superior interna dos estádios europeus atraíam olhares dos jogadores e dos torcedores. Quando focadas, as pessoas apontavam na direção dos telões, acenavam e vibravam de alegria, algumas fantasiadas, outras com os rostos pintados com as cores do seu país. Clima de festa e confraternização que incluía a contagem regressiva para o início de cada partida. Todos contavam em voz alta até o árbitro apitar. A execução dos hinos nacionais era o momento de exaltação cívica. A força emotiva da “Marselhesa” impressiona, parece um hino universal, apesar do teor revolucionário francês da sua letra. O reflexo mundial da revolução francesa de 1789, com o seu lema liberdade + igualdade + fraternidade, talvez seja a causa da vibração e do calor emocional sentidos por quem ouve o hino.
A equipe que estiver bem preparada do ponto de vista físico, técnico e psicológico e que demonstre força e determinação durante as partidas, tem condições de vencer, sendo irrelevante se é principiante como a da Islândia ou experiente como a da Alemanha. Nas copas de 2016, seleções tradicionais fracassaram. Na copa americana, por exemplo, a brasileira pentacampeã mundial (1958+1962+1970+1994+2002) e a uruguaia bicampeã mundial (1930+1950), as duas de longa experiência e tradição, ficaram na rabeira. A colombiana e a estadunidense obtiveram o terceiro e quarto lugares respectivamente. A argentina bicampeã mundial (1978+1986) manteve a tradição e ficou em segundo lugar. A chilena conquistou a taça pela segunda vez consecutiva.
Premiados pela insidiosa FIFA, Lionel Messi e Cristiano Ronaldo tiveram desempenho modesto nas copas/2016; jogam melhor no Barcelona e no Real Madri. Embora goleadores, os dois são medianos em outros fundamentos do esporte: têm estrábica visão de jogo, sofríveis nas assistências e nas cobranças de faltas e de pênaltis, perdem a bola com muita frequência e facilidade. O robótico e previsível argentino, sem a criatividade, o carisma e a pujança de Maradona, marcou gols durante o torneio americano, porém sumiu na partida final, perdeu o pênalti e a taça. O vaidoso e midiático bailarino português, artista nos dribles (a maioria ineficaz), sem a densidade do genial Eusébio, só melhorou seu desempenho na partida semifinal, quando fez um gol, ajudou no setor defensivo e sua equipe se classificou para a partida final depois de vários empates no tempo normal das partidas anteriores. 
As seleções da Alemanha, Bélgica, França, Gales, Islândia, Itália, Polônia e Portugal classificaram-se para as partidas quartas-de-final. Deixaram para trás seleções experientes e tradicionais como a da Hungria e as campeãs mundiais: Inglaterra (1966) e Espanha (2010). Islandeses e galeses taticamente disciplinados e preparados fisicamente mostraram valentia, porém certa ingenuidade nas jogadas. Os islandeses lutaram bravamente contra a seleção da França visando a se classificar para a semifinal, mas perderam (5x2). Foram recebidos como heróis ao retornarem à Islândia. Seleções fortes como as da Bélgica, da Polônia e da Itália tetracampeã mundial (1934+1938+1982+2006) também não se classificaram. Na primeira semifinal, Portugal (2) x Gales (0), a seleção portuguesa que já foi vice-campeã venceu a galesa. Na outra semifinal, Alemanha (0) x França (2), a seleção alemã tetracampeã mundial (1954+1974+1990+2014), no frescor da última copa, mas sem o mesmo brilho, não conseguiu superar a seleção francesa campeã mundial (1998).
No tempo normal da última partida do torneio, França x Portugal empataram sem gols. No segundo tempo da prorrogação a seleção portuguesa marcou um gol. Sagrou-se campeã. Cristiano Ronaldo, solitária estrela do encontro, sofreu lesão na perna esquerda e foi substituído no início da partida. Houve equilíbrio técnico entre as duas seleções, apesar das táticas diferentes de cada equipe. O placar do tempo normal (0x0) e o escore mínimo da prorrogação (1x0) refletiram esse equilíbrio. As substituições feitas pelo treinador português produziram efeitos positivos. Os dois goleiros se destacaram pela excelente atuação. Portugueses e franceses esforçaram-se ao máximo. Alguns deles eram de origem africana, o que mostra o aspecto construtivo da imigração. A seleção francesa tinha leve favoritismo por jogar em casa diante da sua torcida e ter jogadores tão bons quanto os da seleção portuguesa. Os lusitanos superaram a perda da sua estrela, lutaram com bravura e venceram.   
Rotineiramente, a imprensa esportiva faz prognósticos fundados no passado glorioso de alguns jogadores, clubes e seleções. Encara como ponto de honra e selo de autoridade o acerto no prognóstico. Errar significa descrédito para o jornalista. No entanto, mais importante é o momento de cada atleta e de cada equipe, independente da tradição. No futebol masculino, extraordinárias seleções sofreram inesperadas derrotas em copas do mundo, como a húngara de 1954, a holandesa de 1974 e as brasileiras de 1950, 1982 e 2006.
Havia diferentes narradores e comentaristas das emissoras de TV nas cidades da França onde se realizaram os jogos da Copa Europa/2016. Falavam compulsivamente como se a tela do televisor nada exibisse. Alguns gritalhões e fanfarrões tentavam aumentar a temperatura emocional do espetáculo a fim de prender a atenção do público. Trocavam confetes. Caprichavam na senha para a entrada da propaganda comercial durante a transmissão do jogo. Há narradores que prestam informações sobre a cidade e o país onde se encontram, incluindo costumes, símbolos e imagens. Fazem sumárias biografias de jogadores e treinadores e breve histórico das equipes. Notam-se dois tipos de comentaristas: (1) o prático, que jogou futebol profissional, geralmente é conciso e objetivo, a experiência que adquiriu em campo confere relativa autoridade à sua opinião; (2) o teórico, que jogou na várzea ou nunca jogou futebol, geralmente é falastrão, quer mostrar que conhece bem o esporte e a psicologia dos jogadores e dos treinadores, ensina padre a rezar missa. Quando a sua análise choca-se com a realidade mostrada em campo, desconversa.
Após os primeiros 10 minutos de cada tempo da partida, o melhor é desligar o som do aparelho. Basta a imagem. Ao ligar o som nos momentos de substituição de jogadores, de alguma encrenca no campo ou na torcida, ou nos intervalos da prorrogação e da decisão por pênaltis, o telespectador ouve explanações sobre: (1) quem vai ser substituído, por quem e por que; (2) a gravidade da lesão; (3) a intenção do treinador; (4) o que deve ser feito; (5) como será o jogo dali para frente; (6) a violência das faltas; (7) a inadequada conduta dos briguentos; (8) os efeitos do cansaço na musculatura dos jogadores; (9) quem cobrará os pênaltis; e assim por diante.
Se a realidade não se amolda ao desenho traçado pelo analista, fica o dito pelo não dito. Às vezes, sem admitir o equívoco, o analista faz considerações à margem para justificar a profecia. 

sexta-feira, 8 de julho de 2016

BANDIDOS DE TOGA

Certas regularidades no tempo e no espaço foram denominadas leis naturais por analogia com as leis sociais emanadas do costume, da religião e do estado. Alguns fenômenos naturais se repetem regularmente, como as estações, as fases lunares, o agir instintivo dos animais, enquanto outros provocam mutações, como dilúvios, submersão de ilhas e continentes, movimento das placas tectônicas, choque de asteroides contra a superfície do planeta.
Assim como no mundo da natureza, na sociedade humana também há regularidades tanto nos períodos de repouso aparente como nas crises. Retrospectivo olhar para a história da civilização ocidental revela crises periódicas, algumas resultantes de processos subterrâneos, lentos, imperceptíveis, que afloram à superfície, como nas ascensões e quedas de impérios, reinos e repúblicas. O Brasil serve de exemplo: foi Colônia (1501 a 1640), Vice-Reino (1640 a 1815), Reino Unido (1815 a 1822), Império (1822 a 1889) e República. Na forma republicana houve regimes: oligárquico (1889 a 1930), autocrático (1930 a 1945 e 1964 a 1985) e democrático (1945 a 1964 e 1985 a 2016).
Com o golpe de estado em 2016, o Brasil retomou a feição oligárquica, submisso aos interesses de potência estrangeira. Estelionatários (alguns enriquecidos no governo Cardoso) assumiram o governo dispostos a vender o que resta de valioso no patrimônio público: empresa petroleira, pré-sal, minérios, plantas medicinais. Sem apelar para a força, a nação brasileira poderá recuperar a democracia por decisão do tribunal parlamentar ou do tribunal judiciário no insólito e abominável processo de impeachment da Presidente da República. 
Odiado por opositores, quase todos situados à direita do espectro político, o Partido dos Trabalhadores (PT) foi acusado de controlar o editorial político do The New York Times e abonar comentários desairosos ao governo gerado pelo golpe de estado. Dessa linha acusatória flui a certeza de que os tentáculos do PT e do seu subversivo bloco partidário também alcançam a Europa, o que torna irrefutável a sua participação na compra de votos dos eleitores britânicos no “brexit”, certamente com dinheiro da Petrobrás, da Caixa Econômica e do Caixa Dois. Baseados nesta evidência, o juiz federal curitibano e os seus fiéis procuradores, com o aval corporativo do tribunal regional federal paranaense, todos a serviço de um bloco partidário, poderão prender os integrantes do bloco partidário rival. A citada compra de votos e o “conjunto da obra” indicam a responsabilidade dos líderes do bloco subversivo pela crise europeia.
Desse ativismo internacional, conclui-se que o bloco partidário liderado pelo PT também é responsável pelas seguintes práticas criminosas: (1) manipular as eleições presidenciais dos EUA a fim de favorecer a vitória do candidato Donald Trump; (2) tentativa de melar as boas relações entre Cuba e EUA; (3) defender o neoliberalismo perverso. Provavelmente, a ágil e eficiente justiça federal curitibana investigará o caso e prenderá os líderes do bloco subversivo. 
Tais líderes também poderão cair sob a pesada e justiceira mão do juiz instrutor curitibano e dos seus fiéis procuradores por outro motivo: a participação deles no planejamento e comando do ataque: (1) às torres gêmeas de NY; (2) ao hebdomadário parisiense Charlie Hebdo.
O heroico e patriótico juiz curitibano (que por esse merecimento ganha mensalmente o dobro do subsídio mensal dos ministros da suprema corte), com fundamento na Constituição e na Lei e sustentando que o país acha-se em estado de guerra, provavelmente aplicará a pena de morte a esses líderes do mal.
O noticiário da TV, os artigos da imprensa, a literatura e o domínio do fato suprem a falta de provas e autorizam a condenação.
Quando eu exercia o cargo de juiz substituto no Estado do Paraná, de 1970 a 1973, dei o nome de “barnabé de toga” a determinado tipo de magistrado. Isto não agradou a alguns colegas. Decorridos 40 anos, a ministra Eliana Calmon, do Superior Tribunal de Justiça, deu o nome de “bandido de toga” a outro tipo de magistrado. Parcela da magistratura mostrou desagrado.
Nem todo barnabé de toga é bandido; nem todo bandido de toga é barnabé. Contudo, esporadicamente, podem conviver os dois tipos na mesma pessoa sob a mesma toga.
Do ponto de vista moral e intelectual, há juízes nos tribunais federais e estaduais bem qualificados para ocupar vaga no Supremo Tribunal Federal. No entanto, notícia recente informa que o juiz comandante da Operação Lava-Jato está sendo cogitado para ocupar a vaga do ministro Celso de Mello (ainda não aberta) no Supremo Tribunal Federal. Desenha-se, pois, no panorama político e judiciário do Brasil, o seguinte quadro: bandido comum vai para a cadeia; bandido empresário vai para a sua mansão particular; bandido togado vai para a suprema corte. Se tal critério vingar, a mais alta corte de justiça do país, antes de findar o primeiro terço deste século, será um conventilho de bandidos de toga. 

sexta-feira, 1 de julho de 2016

CRISES PERIÓDICAS V

A cada época histórica os humanos reclamam das crises. No período compreendido entre 6.000 a.C. a 2.000 d.C. houve enorme progresso material. Na esfera espiritual, o avanço foi grande no discurso e diminuto na prática.
Movimentos de pessoas e de instituições sociais contra armas nucleares e a favor da proteção ambiental revelam uma tomada de consciência, em nível planetário, da necessidade de assegurar a sobrevivência da espécie humana e a boa qualidade de vida. Nessa consciência cosmopolita imbrica-se um sentimento de fraternidade e de comum destino da humanidade. Este sentimento torna-se mais vivo: (1) nas ocasiões festivas, como as competições esportivas e o congraçamento religioso de pessoas de diversas nacionalidades; (2) nas ocasiões trágicas, como calamidades naturais ou produzidas por ação humana, que atingem diferentes regiões do planeta.
No cotidiano, porém, a fraternidade e a solidariedade são sufocadas pela competição econômica, política e religiosa, cujos ingredientes são o egocentrismo, a desonestidade, a cobiça, a fraude, a inveja, a traição, a hipocrisia, a perversidade, a difamação, o fanatismo e o ódio. Exemplo disto é dado pela União Europeia (UE). Confederação de 28 estados europeus associados por comuns interesses econômicos e estratégicos, a UE estremeceu afetada pela crise econômica mundial, pela imigração, pela xenofobia e pelo retorno do nacionalismo exacerbado (fascismo + nazismo). Havia expectativa de os estados confederados celebrarem pacto federativo no evoluir histórico, à semelhança do que ocorreu no século XVIII, nos EUA. Todavia, ronda o perigo de dissolução da UE ao prosperar o movimento separatista decorrente dos atuais desafios sociais e econômicos da Europa. Lideranças da França, Alemanha, Itália, lutam para evitar a ruptura. A pressão popular poderá ser forte nos dois sentidos: da união e da dissolução. 
A base jurídica de uma confederação de estados (como a UE) é o tratado internacional. O vínculo entre eles é dissolúvel. Cada estado é livre para dela se desligar. A base jurídica de uma federação de estados (como os EUA) é a Constituição. O vínculo entre eles é indissolúvel. A questão da indissolubilidade do vínculo federativo gerou guerra civil nos EUA, entre os estados do Norte, de um lado, a defender a união e o fim da escravatura e, de outro, os estados do Sul, que pretendiam a secessão e manter o regime escravocrata (1861 a 1865). Com a vitória do Norte, a regra da indissolubilidade se cristalizou, tornou-se dogma do constitucionalismo.  
Embora indissolúveis do ponto de vista jurídico, os laços federativos podem ser desfeitos pela via do fato. Concretas situações de efervescência política, social e econômica, provocam crises que podem implodir a federação de estados, tal como aconteceu na década de 80, do século XX, com a União Soviética. Em defesa da união, o governo federal reage ao movimento separatista valendo-se de meios pacíficos de dissuasão (conferências, acordos) ou mediante o uso da força.
A crise europeia irrompida do plebiscito de 23/06/2016, no Reino Unido (RU), está impregnada de alguns dos citados ingredientes. O RU compõe-se de quatro estados: Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte, sendo que os três primeiros convivem na grande ilha (Grã-Bretanha) e o quarto situa-se na ilha vizinha, ambas no Oceano Atlântico, Trópico de Câncer. Parcela da população do RU quer separar-se da UE. Os bretões reclamam que contribuem para a UE muito mais do que dela recebem. Mostram insatisfação com o autoritarismo do comando da UE, com a política de imigração e com a influência do Papa nessa questão. O descontentamento culminou com uma consulta aos eleitores do RU, apelidada de “brexit”, sobre romper com a UE. A maioria dos eleitores da Escócia e da Irlanda do Norte votou pela permanência na UE. A maioria dos eleitores da Inglaterra e do País de Gales votou pela saída. Na soma dos votos de todo o RU, venceu a decisão pela saída (51,9%). Escoceses e irlandeses ameaçam separar-se do RU e se integrar à UE por vontade própria e autônoma. Se tal independência concretizar-se, o RU ficará composto só de dois estados: Inglaterra e Gales. 
O alvoroço ocorreu antes de o desmembramento RU x UE estar homologado pelos parlamentos britânico e europeu. A decisão plebiscitária pode ser revista. Há forte pressão das grandes cidades da Inglaterra visando a realizar um segundo plebiscito com quorum qualificado (participação de todo o eleitorado ou, pelo menos, de uma fração significativa dele como, por exemplo, 2/3, 4/5). Pretende-se que decisão de tal magnitude obtenha, pelo menos, 60% dos votos. O Presidente da França pressiona visando ao desligamento sem demora.     
A atual crise europeia mostra a extrema sensibilidade do sistema capitalista. Imediatamente à publicação do resultado do plebiscito, houve queda nas bolsas de valores de diversos países da Europa, da América e da Ásia, bem como, a desvalorização da libra esterlina (moeda inglesa concorrente do euro e do dólar). Chefes de governo e autoridades em economia reuniram-se para analisar os efeitos econômicos da crise em níveis local e mundial, tendo em vista a globalização do mercado, da indústria e dos negócios especulativos. Nessa discussão, entra o problema da vigência e eficácia de tratados internacionais ante o princípio pacta sunt servanda e a cláusula rebus sic stantibus (os tratados vigoram e devem ser cumpridos enquanto não se alterarem as essenciais condições da sua celebração).

sexta-feira, 24 de junho de 2016

CRISES PERIÓDICAS IV

Acordos e desacordos, harmonia e conflito, paz e guerra, obediência e desobediência às leis, tal como nas épocas anteriores, coexistem no mundo moderno. As armas foram aperfeiçoadas e multiplicadas. A capacidade de destruição aumentou em progressão geométrica. A hipocrisia diplomática sofisticou-se. Competição selvagem e pretensões hegemônicas prosseguem. A segurança do planeta está ameaçada pelo potencial nuclear de algumas nações e pela ação predadora e poluente da humanidade. Contra esse estado de coisas reagem pessoas, grupos e entidades, tanto na esfera internacional como no âmbito interno dos Estados (tratados, convenções, conferências, tribunais, organizações civis, passeatas, greves, interdições).
No curso da história, algumas vozes denunciaram as crises de caráter material, intelectual, moral e espiritual. Oh tempora! Oh mores! Bradava Cícero, em Roma, contra a corrupção dos costumes e as tentativas de golpe contra a república. A crise da nossa época é moral! Repetia o saudoso professor Miguel Reale do alto da sua cátedra na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, no curso de especialização em filosofia e sociologia jurídicas, nos idos paulistanos de 1968. A morte poupou o professor do desgosto de ver o serviço sujo prestado por seu filho associado a um senil e recalcado ex-petista e a uma destrambelhada professora. Será isto um sinal da decadência do corpo docente da tradicional escola de direito?  
A humanidade já conheceu reformadores (profetas, políticos, filósofos) que galvanizavam os espíritos. A moralidade era a tônica invariável no discurso dos republicanos, fossem eles democratas ou aristocratas. As previsões eram apocalípticas ou paradisíacas, conforme a posição de quem estivesse a favor ou contra o governo. Assim continuará, porque o humano almeja progresso, bem-estar e felicidade, ao mesmo tempo em que se deixa fascinar pelo insólito, navega na ilusão e faz da mentira munição para convencer e enganar.  
A lei do movimento governa o mundo: gênese e evolução dos seres do simples ao composto, do caos para ordem e da ordem para o caos; astros no céu e partículas no átomo. Universo dinâmico. A matéria é energia concentrada e vibrante. A visão humana não capta plenamente a realidade material e espiritual do universo. O meritório esforço de progredir e de se aproximar da fonte divina do conhecimento possibilita a harmonização do plano individual com o plano coletivo e da esfera corporal com a esfera anímica, através da senda holística. Nexos entre matéria e espírito no interior de um vasto sistema cósmico são revelados enquanto outros permanecem ocultos. A cartesiana separação entre corpo e alma foi posta em xeque; o seu questionamento detona a crise no pensamento racionalista ocidental. 
A saturação cultural provoca mudança nos modelos políticos e econômicos, nos usos e costumes, como aconteceu, por exemplo, nas passagens: (1) do Império Romano para a sociedade européia medieval; (2) do sistema mercantilista para o industrial; (3) do domínio da nobreza e da honra para o domínio da burguesia e do dinheiro; (4) do religioso para o secular; (5) da família gentílica para a família nuclear; (6) do machismo para o feminismo; (7) do corpo coberto para a pública e sensual exibição; (8) do tabu à liberação sexual; (9) do proibido ao permitido.
De acordo com o “I Ching – O Livro das Mutações”, registro da antiga sabedoria chinesa, há pontos de mutação que caracterizam crises, como se depreende dos seguintes excertos: Ao término de um período de decadência sobrevém o ponto de mutação. Tendo yang atingido seu clímax, retira-se em favor do yin; tendo o yin atingido o seu clímax, retira-se em favor do yang.  Mudança e transformação são imagens do progresso e retrocesso. O movimento e o repouso têm suas leis definidas de acordo com as quais se distinguem as linhas firmes e maleáveis. Os acontecimentos seguem seus rumos próprios, cada qual segundo a sua natureza.
Ao prefaciar esse livro traduzido do chinês para o alemão por Richard Wilhelm e do alemão para o português por Alayde Mutzenbecher e Gustavo Alberto Correa Pinto (SP, Pensamento, 1982), Carl G. Jung assinala que o acaso tem lugar na mente chinesa; nela, o casual parece mais importante do que o causal; o concreto (realidade empírica múltipla) mais importante do que o abstrato (teoria da unidade no múltiplo). Na opinião de Jung, a causalidade vista como verdade relativa, meramente estatística, é uma espécie de hipótese de trabalho sobre como os acontecimentos surgem uns a partir dos outros, enquanto que a sincronicidade (coincidência dos acontecimentos no espaço e no tempo) significa algo mais do que mero acaso, precisamente uma peculiar interdependência de eventos entre si objetivos. Jung considera anátema o opressivo enfoque pedagógico que pretende enquadrar os fenômenos irracionais dentro de um padrão racional preconcebido. Diz ele: “segurança, certeza e paz não conduzem a descobertas”.
A regeneração é uma ideia presente no misticismo oriental admitida como forma de superar crises e evoluir espiritualmente. A doutrina hebreia da criação e queda de Adão e Eva participa dessa ideia, embora repouse na fé religiosa e na mistificação da realidade. A tese prevalecente fundada na fé científica é a da linear evolução no reino animal, desde a estrutura mais simples (ameba) até a mais complexa (homem). Na sua marcha, a humanidade atravessa crises periódicas.
O manifesto da AMORC (Antiga e Mística Ordem Rosa Cruz) intitulado “Positio Fraternitatis Rosae Crucis” adverte: A excessiva racionalização da ciência é um perigo real que ameaça a humanidade, pois, toda sociedade em que a matéria domina a consciência, desenvolve o que há de menos nobre na natureza humana. Em virtude disso, ela se condena a desaparecer prematuramente em circunstâncias o mais das vezes trágicas.
A ciência opera com a razão e prima pela objetividade. O excesso nessa operação interfere na vida espiritual. O desequilíbrio entre o materialismo e o espiritualismo gera males às relações humanas e à vida no planeta. Ao chegar a extremos no mundo ocidental, a fé religiosa provocou a reação racionalista: a soberania do conhecimento científico. Ao chegar a extremos, a fé científica provocou a reação espiritualista: a soberania do conhecimento intuitivo (cultivo dos valores morais e espirituais para alcançar a luz divina, o amor fraternal e a paz interior).
O pensamento místico funciona como background filosófico para as teorias da ciência. Descobertas científicas podem se harmonizar com crenças religiosas e doutrinas místicas. Os princípios da incerteza e da complementaridade expostos respectivamente pelos físicos Heisenberg e Bohr, por exemplo, foram recebidos com reserva por Einstein, que se apegava ao determinismo. Se, na ocasião do debate, presente estivesse a sua primeira esposa, genial matemática e co-autora da teoria da relatividade, ela certamente lhe teria dito:
- Querido Albert, não seja teimoso. Deus joga dados, sim!

domingo, 19 de junho de 2016

CALAMIDADE

Calamidade significa desgraça, catástrofe. O mal que representa é suportado de modo individual ou coletivo. Trata-se de desgraça grande e irreparável que recai sobre uma pessoa, uma ou várias famílias, uma determinada comunidade ou sobre a humanidade. Sua extensão pode ser local, regional ou planetária. A catástrofe pode ser: (1) natural, como inundações, terremotos, maremotos, efeitos desastrosos do choque de um meteoro na superfície do planeta; (2) social, como fome, epidemia, genocídio motivado por diferença de crença ou de etnia, explosão de uma nave espacial, colisão de trens; (3) econômica, como a crise na economia mundial, a implosão do sistema econômico nacional, os efeitos deletérios do fracasso de um plano; (4) política, como o colapso do sistema representativo, a corrupção nos negócios estatais, a guerra, o terrorismo.
Calamidade pública é a desgraça exponencial que atinge um ente político como o município, a província, o estado, a nação, trazendo extraordinário sofrimento à população, enorme prejuízo patrimonial ou grande dano ambiental. Sob este ângulo, o sofrimento ordinário, causado pela má administração dos governantes não se considera calamidade pública, embora seja uma calamidade moral que assola a classe política, ou uma desgraça eleitoral provocada por um povo ainda não desenvolvido culturalmente.
O Vice-Governador do Rio de Janeiro, no interino exercício do governo estadual, decretou estado de calamidade pública. Na verdade, não há situação extraordinária que autorize tal medida. Cuida-se de uma situação ordinária decorrente da má administração da coisa pública. O precedente criado pela esperteza enganosa do Vice-Governador terá efeito dominó, pois todos os estados da federação queixam-se da situação de insolvência ou de estarem à beira da insolvência sem condições de atender decentemente a população. Sobre o festival de propinas, superfaturamento das obras e serviços, o desvio de verbas, todos silenciam. Assim como o governador do Rio de Janeiro, os governadores dos demais estados também pleitearão ajuda financeira ao Vice-Presidente da República que, generoso com o dinheiro do contribuinte, abrirá a burra aos suplicantes. Cuida-se de um modo indireto de comprar votos no tribunal parlamentar favoráveis à destituição da Presidente. Para se garantir na presidência, o Vice-Presidente distribui dinheiro a rodo para os parlamentares, para os juízes, para o funcionalismo e cria milhares de cargos, enquanto reduz os benefícios sociais. Michel é um Robin Hood às avessas: tira dos pobres e dá para os ricos.       
Parcela da população fluminense não questionará o decreto de estado de calamidade pública, até por não perceber suas implicações. A outra parcela, principalmente carioca, por sua proverbial consciência política, certamente questionará. O Rio de Janeiro já foi governado por políticos de primeira grandeza, como Negrão de Lima, Carlos Lacerda, Chagas Freitas, Leonel Brizola. Depois, entrou em decadência sob a direção de garotinhos, rosinhas, serginhos, pezinhos e chiquinhos. Do ponto de vista moral, financeiro, administrativo e político, essa infeliz seqüência foi catastrófica para o Rio de Janeiro, a real e efetiva calamidade.  
A medida decretada pelo Vice-Governador revela esperteza política. A sua iniciativa é tomada quando o processo de impeachment está em curso e a condenação da Presidente já não é tão certa como pensavam os golpistas. Há chances de o processo penal parlamentar terminar com a absolvição da Presidente. Mas, ad argumentandum, ainda que haja condenação, o tribunal parlamentar pode deixar de aplicar a pena correspondente por entender politicamente inoportuna, incompatível com o interesse nacional no momento. Além disto, se houver condenação, a sentença do tribunal parlamentar poderá ser questionada perante o Supremo Tribunal Federal no que concerne aos seus aspectos constitucionais e legais, principalmente quanto à caracterização do crime de responsabilidade. No tipo de estado democrático de direito adotado pela Constituição do Brasil, os direitos fundamentais condicionam a ação dos poderes da república; logo, em consequência, a exaustão da instância política não impede o exame das questões de direito na instância judiciária. Não é demais lembrar que, diferente dos EUA, a separação de poderes no Brasil não é rígida.
O Vice-Presidente da República, no interino exercício da presidência, diz que fará a sua parte e espera que o Vice-Governador do Rio de Janeiro faça a sua. A parte do Vice-Presidente é injetar dinheiro – e muito dinheiro – no Estado do Rio de Janeiro. Aliás, essa esperteza é bem conhecida dos brasileiros. Sempre que há uma catástrofe natural ou social (artificialmente exagerada), os administradores municipais ou estaduais correm para o administrador federal em busca de ajuda financeira. O dinheiro recebido não é aplicado inteiramente nas obras e serviços necessários para reparar os estragos, para eventual reconstrução e para a prevenção de novos infortúnios. Geralmente, parte do dinheiro (quando não a totalidade) vai para os cofres dos partidos políticos ou dos seus caciques, aplicada para fins particulares. A movimentação desse dinheiro não costuma ser bem fiscalizada. Pouca transparência e muita opacidade.   
No atual episódio do Rio de Janeiro, a parte do Vice-Governador, que entende de finanças, é distribuir o dinheiro da ajuda. A parcela esclarecida da população fluminense tem motivos suficientes para desconfiar sobre o destino desse dinheiro e chegar à certeza de que, pelo menos em parte, esse dinheiro azeitará a votação no tribunal parlamentar que decidirá se a Presidente da República permanecerá no cargo. Graças à orientação do Vice-Governador, os deputados e senadores do seu partido votaram a favor do impeachment. Ao invés de o voto ser resultado do individual exame de consciência dos parlamentares, o voto resultou da vontade do cacique e da coerção exercida pela hierarquia do partido. Constrangimento atenuado pela propina e pela promessa de vantagens e cargos na administração pública direta e indireta.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

FUTEBOL

12/06/2016. Domingo. Dia dos namorados. Copa América de futebol masculino. A seleção brasileira perde para a seleção do Peru pelo escore mínimo (1 x 0). Provavelmente, pesou no ânimo dos jogadores a saudade das namoradas. Os brasileiros exibiram um futebol moderno com alguma deficiência no setor de armação. Todos os jogadores se esforçaram, movimentaram-se pelos dois lados do campo e pelo centro. Depois do gol da seleção peruana, Lucas podia ter entrado e jogado ao lado de William, Coutinho e Gabriel, municiados por Lucas Lima. A brasileira necessitava de êxito nas finalizações. A adversária estava fechada no setor defensivo.
Goleador no clube = goleador na seleção. Por que nem sempre essa igualdade ocorre? Dificuldade maior diante de seleção estrangeira? Falta de entrosamento com os companheiros? Castradoras instruções do treinador? Pressão interna e externa? Fator psicológico?
Sem discrepar da média geral do torneio, a equipe brasileira e a peruana apresentaram falhas individuais, erros na assistência e no domínio da bola. O ataque peruano foi menos frequente e impetuoso do que o brasileiro, porém levou mais sorte: em boa jogada pela direita, já avançado o segundo tempo da partida, o atacante peruano cruzou fortemente para a pequena área brasileira, a bola bateu no braço do seu companheiro que ali se postara e entrou no gol. Os brasileiros reclamaram do toque e pleitearam a invalidade do gol. O árbitro e os auxiliares conferenciaram entre si e decidiram pela validade do gol. Os brasileiros sentiram o golpe (agora esportivo e não político). Os peruanos se fecharam ainda mais na defesa. Apito final. A seleção brasileira estava fora da Copa América/2016, ainda na fase de grupos.    
Procurar culpados pela derrota nada resolve, muito menos crucificar o treinador que, aliás, não goza da simpatia das tendenciosas e argentárias emissoras de rádio e televisão. Dunga é econômico no sorriso e não bajula a imprensa. Isto irrita os jornalistas amestrados. Convém lembrar: sob o comando de Felipe Scolari, o queridinho dos jornalistas amestrados, a seleção brasileira, jogando no Brasil, na Copa do Mundo de 2014, arrastou-se até levar uma chapoletada de 7 a 1. Tal como naquela ocasião, agora também a CBF demitiu o treinador. Então, a boçalidade da emotiva imprensa esportiva suplicou por seu outro queridinho no comando da seleção: Tite, treinador do Corinthians. A CBF contratou-o.
Nenhum treinador do passado e do presente revelou-se milagreiro. A mudança na comissão técnica não é garantia de que doravante a seleção vencerá todas as competições. Múltiplas são as causas da derrota. Há que se considerar todo o ambiente que envolve a seleção brasileira: jogadores, comissão técnica, cartolas, patrocinadores, torcedores, imprensa, mentalidade dominante, costumes, fatores psicológicos, econômicos e políticos. Quem conquistará a Copa Mundial da Safadeza: o Congresso Nacional (Câmara dos Deputados + Senado Federal), a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), ou a Federação Internacional de Futebol (FIFA)?
O futebol brasileiro não é mais hegemônico embora o Brasil ainda seja um celeiro de bons jogadores. O futebol de outros países latino-americanos e europeus nivelou-se ao brasileiro e até o superou parcialmente. Inigualável no passado, como se viu nas copas de 1938, 1950, 1958, 1962 e 1970, apesar de não vencer todas, o futebol brasileiro mostrava beleza e excelência em níveis individual e coletivo e era admirado por outros países. Pouco importava se havia dois ou três jogadores que vestiam a mesma camisa e ocupavam as mesmas posições nos seus diferentes clubes, pois todos entravam na seleção e jogavam juntos porque eram craques e sabiam se comportar em campo sem medo de perder. Havia ousadia, mais coração e menos cálculo, ao enfrentar os adversários. Basta lembrar a partida final da Copa de 1958.
A década de 70, do século XX, foi um divisor de águas no futebol mundial. Nesse período teve início a decadência do futebol brasileiro e a ascendência do futebol europeu. A Europa estava recuperada dos estragos sofridos em decorrência da segunda guerra mundial. Em nível de seleção masculina, depois de conquistar a taça, a brasileira adotou um futebol retranqueiro, sob disciplina militar, com altos e baixos na sua trajetória até chegar ao ponto negativo máximo em 2014. Ao contrário do que acontecia no século XX, a auto-estima de muitos brasileiros não mais depende do sucesso no futebol. As gerações de brasileiros posteriores à década de 80 aceitam a nova realidade mais facilmente do que as gerações anteriores. O futebol continua muito interessante para o mercado e para o faturamento das emissoras de televisão.
Com o engessamento dos jogadores dentro de esquemas táticos, a seleção passou a depender da excelência e da personalidade de algum jogador como Romário, Ronaldinho Gaúcho, Robinho. Raras vezes na  história do futebol se viu tantos craques reunidos numa única seleção como na brasileira que disputou a Copa Mundial de 2006. No entanto, apesar disto e do alto nível da sua comissão técnica, a seleção brasileira fracassou de modo retumbante naquela Copa.
O jogador da vez agora é Neymar, incensado pela imprensa esportiva nacional, jogador cuja molecagem em nada engrandece a seleção. A sua atuação em campo é inferior à dos jogadores retro mencionados. O cai-cai é sua especialidade; a ridícula brabeza de guri mimado, a sua característica; as caretas risonhas, a sua marca de garoto-propaganda. A imagem e a fama azeitadas pela mídia e pelo marketing pesam mais do que a real eficácia. A seleção brasileira necessita de liderança efetiva dentro do campo. Liderança nominal não resolve, ainda mais a de um moleque. Com ou sem esse jogador, a seleção ganhará, empatará e perderá como qualquer outra.
A duradoura crise no meio esportivo brasileiro estender-se-á até a Copa Mundial de 2022. A saída passa por retirar das mãos dos cartolas a organização e os assuntos das seleções de futebol e de outras modalidades esportivas. O Ministério dos Esportes assumiria essa responsabilidade. Com os cartolas ficariam apenas os clubes e associações esportivas em geral.    
As seleções que disputam os torneios de futebol merecem respeito. Desqualificar qualquer uma delas por não ter “tradição” é sinal de preconceito. Dizer que é vergonha perder desta ou daquela é depreciar a vencedora. Ideias preconcebidas impedem os azedos críticos de enxergar o que está se desenrolando no estádio. Equipes sem “tradição”, como as da Bolívia, Equador, Peru, Venezuela, podem apresentar bom e competitivo futebol. O estilo barcelonense é imitado por equipes que disputam a Copa América. A velocidade dos jogadores e a rápida troca de passes são constantes a indicar bom preparo físico e treinamento tático. Nos jogos, há escores mínimos e amplos. A seleção brasileira vazou sete vezes o gol da seleção do Haiti, mas diante da seleção peruana não fez um gol sequer. A seleção uruguaia, com toda a sua “tradição”, foi eliminada também na fase de grupos. A venezuelana, sem “tradição”, passou invicta para as quartas-de-final. Enfrentará a seleção argentina.       
Na copa europeia de futebol (UEFA – EURO/2016), ora em andamento, os atuais campeões do mundo jogam como se não o fossem e se esforçam na busca de resultados positivos. Venceram a seleção da Ucrânia e empataram com a da Polônia. Expressões fisionômicas limpas, sem máscara, eles jogam sem salto alto, sem requebros e sem desmunhecar. Alguns deles aprenderam a driblar e a usar o calcanhar. Jogam de modo sério, vigoroso e bem entrosado. Entre eles há jogadores excelentes, como Kroos e Boateng. Todos eles mostram amor e respeito à camisa da sua seleção.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

GOLPE E PROPINA

Não lanceis aos cães as coisas santas, não atireis aos porcos as vossas pérolas para que não as calquem com os seus pés e voltando-se contra vós, vos despedacem”.
(Bíblia, Novo Testamento, Mateus 7: 6).

As convenientes cegueira e surdez dos golpistas.
Contra a barbárie não prevalece argumento fincado na lógica, no bom senso, na moral e no direito. Em locais e datas diferentes, num movimento difuso dentro e fora do Brasil, professores, estudantes, escritores, artistas, juristas, cientistas, filósofos, apresentaram boas e convincentes razões em favor da democracia e contra o golpe de Estado desferido pelo Vice-Presidente da República e seus comparsas. Aquelas pessoas deixaram claro o motivo da sua posição contrária ao impeachment: o processo é uma farsa. Na sua oportuna e relevante participação, elas denunciaram os propósitos desonestos e impatrióticos do grupo subversivo: alienar riquezas nacionais (petróleo, minérios), submeter o Brasil aos interesses continentais dos EUA, retirá-lo do BRICS, esvaziar o MERCOSUL, adotar o modelo neoliberal de economia, revogar direitos trabalhistas, suspender os programas sociais, estancar a operação denominada Lava Jato para que não se estenda aos bandidos do grupo golpista.
As previsões daquela considerável parcela da intelectualidade brasileira estavam corretas. O novo governo de “salvação nacional” vem fazendo tudo o que foi previsto, ou seja, nada que atenda aos interesses do povo brasileiro. O movimento da intelectualidade brasileira não era em defesa da política econômica do governo Rousseff e nem de partido algum. O movimento defendia – e defende – o mandato político conquistado nas urnas em eleições legítimas, o sistema democrático, a vigente Constituição da República e a integridade do patrimônio nacional. No substrato dessa defesa estão o esforço e o propósito de mostrar ao mundo que há uma face honesta e séria do Brasil contrapondo-se à face desonesta e carnavalesca.
As manifestações de índole prática e teórica do citado movimento são bem aceitas pela parcela honesta da população que valoriza a democracia, porém não comovem a parcela desonesta que, de modo lampeiro, ocupou o governo. Não há razão moral, jurídica ou religiosa, que possa demover a súcia dos seus vis objetivos. Essa malta carece de senso moral e religioso e é muito sensível ao dinheiro. Os golpistas chafurdam na lama e sentem-se confortáveis na pocilga {vice-presidente, ministros, governadores, senadores, deputados, membros de partidos políticos, procuradores, magistrados, empresários, donos de emissoras de TV e jornalistas amestrados}. Eles não se importam com a ordem jurídica vigente, com princípios éticos, com preceitos religiosos e com a opinião do povo (pelos menos, de 54 milhões de eleitores). 

Não há coisa oculta que não acabe por se manifestar, nem secreta que não venha a ser descoberta”.
(Bíblia, Novo Testamento, Lucas 8: 17).

A corrupção a farsa e a maçonaria.
A parcela honesta do povo brasileiro ainda descobrirá comprovadamente a negociação entabulada, as promessas feitas e aceitas, quanto e de quem os senadores e deputados receberam (real, dólar, euro) para participar da farsa do impeachment. A probabilidade de os parlamentares receberem dinheiro e promessas de vantagens – inclusive a indefectível distribuição de cargos no alto escalão da administração pública direta e indireta – em troca do voto favorável ao impeachment, assenta-se nos conhecidos precedentes e na corrupção endêmica. Provavelmente, parte da verba vem das companhias petroleiras e dos departamentos do governo estadunidense. Os episódios semelhantes registrados na história brasileira, a atividade conspiratória da embaixadora estadunidense, as idas dos líderes do golpe a NY após o provisório afastamento da Presidente da República, o assédio dos senadores ao lamuriento e melindroso Vice-Presidente, indicam o nefasto comércio. A opinião pública internacional fortalece a mencionada probabilidade ao considerar o Brasil o país mais corrupto do planeta. “O Brasil não é um país sério” já afirmavam, no século XX, um estadista francês e outro estadunidense. “País”, naquela frase, significa: povo brasileiro e seus representantes. Daí, o recente editorial do vetusto jornal estadunidense The New York Times conceder ao nosso país a medalha de ouro da corrupção.
Acrescente-se a esses indícios veementes (fronteiriços à certeza), a notícia de que, além de ser filiado à maçonaria, o Vice-Presidente da República é informante dos órgãos de inteligência dos EUA. Esse camaleônico personagem tem dois discursos: (1) para a população: comigo não há barganha por votos, meu governo não é ação entre amigos; (2) para a freguesia: calma, todos serão atendidos, não somos amigos, mas somos correligionários e estamos no mesmo barco.
Inúmeros políticos corruptos são maçons e transnacionais. Notório é o veio conspiratório da maçonaria. O Grande Oriente do Brasil (maçonaria) apoiou o golpe de 1964 e se aliou à ditadura militar. Essa é outra característica da ordem maçônica, fiel à herança judaica: a de sempre se postar junto ao poder político, seja este monárquico ou republicano, autocrático ou democrático.
A conduta dos maçons discrepa dos princípios maçônicos de piedade e virtude. Embora se considerem uma elite intelectual, moral e espiritual, a verdade é que, no plano dos fatos, os maçons não honram os rituais iniciáticos a que se submetem nas lojas, desviam-se da ética maçônica tradicional e aplicam mal o conhecimento que lhes é transmitido. Os ensinamentos não ecoam na ação efetiva. Achar agulha no palheiro é mais fácil do que encontrar autêntico maçom digno desse nome. Sob a justificativa de que são maçons operativos e não especulativos, adotam pragmatismo desvinculado dos valores morais e oposto ao idealismo. Ao invés de servirem à sociedade e à humanidade, servem a si próprios e ao seu grupo. A Ordem dos Advogados do Brasil está coalhada de maçons, o que explica a sua participação nos golpes de 1964 e 2016.   

A minha casa é casa de oração! Mas vós a fizestes um covil de ladrões”.
(Bíblia, Novo Testamento, Lucas 19: 46).

Calote no propinoduto.
Nos inquéritos e processos sobre corrupção e lavagem de dinheiro, findos ou em andamento, há menções a calotes, dinheiro de propina prometido e não pago, ou pago a menor, ou prometido a um e dado a outro, e assim por diante. Os corruptores estrangeiros são negociantes espertos que possivelmente adiantaram parcela da propina aos deputados e senadores para votarem a favor do impeachment. Condicionaram o pagamento da parcela restante ao afastamento definitivo da Presidente da República e à aprovação do projeto de lei do senador José Serra (pré-sal). Se for obtido o resultado combinado, os corruptores estrangeiros pagarão o saldo devedor ou darão o calote. Os corruptores estrangeiros talvez não tenham a mesma honestidade dos bicheiros nacionais. Daí, a hipótese do calote. Neste caso, os brasileiros corruptos não poderão reclamar judicialmente a satisfação do saldo devedor. Propina só é cobrável pelas vias extrajudiciais.