segunda-feira, 13 de abril de 2015

FILOSOFIA XV - 41



EUROPA (1900 a 2014). Final.

Hannah Arendt preocupa-se com as raízes e com o significado da existência e da política na sociedade moderna No livro inacabado “A Vida da Mente”, ela trata do pensar, do querer e do julgar, à semelhança das três críticas formuladas por Kant (razão pura, razão prática e juízo). No livro “A Condição Humana”, publicado em 1958, Hannah propõe que se reconsidere a condição humana tendo em vista os horrores da segunda guerra mundial. O livro discute a ação e exclui do foco do debate considerações sobre o pensar humano. O seu tema central é “o que estamos fazendo” (homo faber). Analisa a natureza, o mecanismo, a complexidade e o significado da ação. A categoria central do pensar político é a natalidade e não a mortalidade como quer o pensamento metafísico e religioso. Todos os aspectos da condição humana relacionam-se com a política. Com palavras e atos nos inserimos no mundo humano como um segundo nascimento quando assumimos o fato original e singular do nosso aparecimento físico. A Vita Activa inclui três atividades fundamentais: labor, trabalho e ação. Labor corresponde ao processo biológico do corpo humano. Trabalho é atividade artificial da existência humana, produção de coisas distintas das coisas da natureza. Ação é a única atividade direta entre homens sem mediação das coisas.

Maurice Merleau-Ponty (1908 a 1961), francês, professor, filósofo, lecionou nas universidades de Lyon e Paris, assumiu a cadeira de filosofia no College de France, serviu como oficial do exército francês na segunda guerra mundial. Alinhou-se ao marxismo como método heurístico e não como expressão histórica, como se depreende das suas obras “Humanismo e Terror” e “Aventuras da Dialética”. Deixou inacabado o livro “O Visível e o Invisível”. Há uma perspectiva estética no seu pensamento. Adentra o terreno da psicologia em “Fenomenologia da Percepção”. Põe o problema do momento que a consciência é integrada ao mundo. Filiou-se à fenomenologia do filósofo e matemático alemão Edmund Husserl. Segundo Maurice, “a fenomenologia é uma filosofia transcendental que põe em suspenso, para compreendê-las, as afirmações da atitude natural”. Partiu do estágio da neurociência do seu tempo, especialmente do funcionamento do sistema nervoso, para construir uma teoria do conhecimento fundada na percepção. Salientou o papel do organismo humano no processo de conhecimento. Aprender a ver as coisas é adquirir um estilo de visão, enriquecer e reorganizar o esquema corporal.
Na arte, diz Maurice, experimenta-se a percepção de modo intenso e vibrante. O mundo sensível é o logos do mundo estético. Ele toma como exemplo a pintura e cita Cézanne e Matisse. Perceber o que nos cerca está na base do conhecimento, seguindo-se a atribuição de significado ao que foi captado pelos sentidos e o estabelecimento das conexões entre objetos. Percepção e sensação se diferenciam. A primeira é a apreensão de um objeto pela consciência mediante sensações; está relacionada com a postura corporal. A segunda é uma espécie de eletricidade, de movimento do corpo, aspecto motriz do organismo. O corpo humano sintetiza quando: (1) sai de sua dispersão e se ordena; (2) dirige-se para um termo único do seu movimento; (3) concebe uma única intenção pelo fenômeno da sinergia. A percepção emerge no recesso do corpo. A apreensão do significado do objeto se faz pelo corpo. Da cooperação entre os órgãos sensoriais e a característica motriz dos músculos decorre a percepção. Há uma interdependência entre o organismo humano e o meio ambiente. O ser humano é uma estrutura psicológica e histórica, entrelaçamento do tempo natural, do tempo afetivo e do tempo histórico. 

Gilles Deleuze (1925 a 1995), francês, professor, formou-se em Filosofia na Sorbonne (Universidade de Paris) e escreveu alguns textos em parceria. Ante o agravamento do câncer de pulmão, atirou-se da janela do seu apartamento em Paris, encontrando a morte nas pedras da rua. Preferiu a morte à ociosidade forçada por doença incurável e corrosiva. Gilles estudou as filosofias de Spinoza, Leibniz, Hume, Kant, Nietzsche, Bérgson e Foucault, além das obras de alguns escritores como Proust e Kafka, a fim de formar o seu pensamento e alicerçar suas teses. Ele se opõe à psicanálise freudiana que reduz o desejo ao complexo de Édipo. Enfrentar o caos e sobre ele traçar plano é o que define o pensamento.
Arte, ciência e filosofia são as três grandes formas do pensamento e em todas elas há criação, diz Gilles. A arte é a linguagem que faz entrar as sensações na pedra, na cor, no som, na palavra. A ciência deve se livrar da sua forma clássica, lógica e representativa. Nem todo organismo tem cérebro; nem toda vida é orgânica; em tudo há forças que constituem microcérebros. No seu livro “O que é a Filosofia?” Gilles diz que a filosofia não consiste em saber. Não é a verdade que inspira a filosofia e sim categorias como interessante, notável e importante, as quais decidem sobre o seu sucesso ou o seu fracasso. A Filosofia é devir e não história, coexistência de planos e não sucessão de sistemas. Filosofia é criação de conceitos. Gilles ampara-se no cinema para formular os seus conceitos de imagem + movimento e de imagem + tempo.

Michel Foucault (1926 a 1984) historiador e filósofo francês que investigou os métodos terapêuticos, questões psicológicas e o funcionamento da sociedade ocidental moderna. Criticou a propensão ao sofisma e ao artifício intelectual nos outros filósofos da pós-modernidade embora ele próprio incidisse ocasionalmente nesses mesmos defeitos. Em suas obras, o poder político e social é tema recorrente. Na opinião de Foucault, idéias e práticas sociais têm caráter arbitrário; carecem de fundamento racional. A linguagem é o instrumento do poder na sociedade. As formas de pensamento implicam coerção e estão presentes nas relações de poder. Afirmava que a AIDS era irreal, estratagema do stablishment para reprimir a sexualidade pelo terror. [Ironicamente, a AIDS o matou]. Sobre poder e sexualidade ele trata na sua “Historia da Sexualidade” [investigação certamente provocada por sua homossexualidade e não apenas por influência de Nietzsche]. Na sua “História da Loucura”, expõe os conceitos de saúde e de loucura, a combinação de ambos no conceito mais amplo de doença mental e as conseqüências práticas daí decorrentes. No seu livro “Vigiar e Punir”, analisa a política disciplinar utilizada nas prisões relacionando-a com os padrões de conduta estudados nas ciências sociais.

[No século XIX, outro Foucault se destacara em França: Jean Bernard Leon Foucault (1819 a 1868). Este cientista utilizou um enorme pêndulo para demonstrar a rotação da Terra. A experiência chamou-se “Pêndulo de Foucault”. O escritor Umberto Eco deu esse título a um dos seus romances. O cientista formulou noção precisa sobre a velocidade da luz].

Jürgen Habermas, nascido em 1929, filósofo, sociólogo e professor da Universidade Johann Wolfang Goethe (Frankfurt), filiado à teoria crítica desenvolvida pela Escola de Frankfurt. Aborda o contraste entre o real funcionamento da sociedade e as idéias que sustentam o capitalismo. Diz que o sistema e o mundo da vida convivem na sociedade tendo como mediador o direito; arrola três tipos de democracia: liberal, republicano e deliberativo. Como interesses centrais do homem, Jürgen entende: (1) a exploração técnica da natureza {dominante no sistema capitalista}; (2) as relações recíprocas {a comunicação entre as pessoas para ser autêntica e efetiva depende da relação de mútua confiança}; (3) a libertação do domínio de outrem {ação comunicativa, em que o outro é ouvido, oposta à ação estratégica, lógica da dominação que define o objetivo sem ouvir o outro e que fundamenta a sociedade capitalista}.
A razão comunicativa (comunicação livre, racional e crítica) distingue-se da razão instrumental e da razão iluminista; busca o consenso mediante o debate ao invés da arbitrariedade e da coerção. O coletivo prepondera sobre o individual. Legítima é a norma social aceita em determinada situação ideal, sem constrangimento algum, sujeita apenas à argumentação racional. Entre dezenas de obras da autoria de Jürgen, estão: “Conhecimento e Interesse”, “Discurso Filosófico da Modernidade” e “Inclusão do Outro”.

sábado, 11 de abril de 2015

FILOSOFIA XV - 40



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

Se a humanidade persistir na violência da lei do talião, a práxis política radical renovará o terror do passado, afirmava Theodor Adorno. Ao criticar a práxis brutal da sobrevivência, a obra de arte apresenta-se como antítese da sociedade. A obra de arte adquire prioridade epistemológica e autonomia. A música constitui a manifestação imediata do instinto humano e ao mesmo tempo a instância própria para o seu apaziguamento. Ela desperta a dança das deusas, ressoa da flauta encantada de Pã, brotando ao mesmo tempo da lira de Orfeu, em torno da qual se congregam saciadas as diversas formas do instinto humano. A música de entretenimento preenche os vazios do silêncio que se instalam entre as pessoas deformadas pelo medo, pelo cansaço e pela docilidade de escravos sem exigências. O programa musical ético de Platão tem a característica de uma purificação, de uma campanha de saneamento de estilo espartano. À mesma classe pertencem outros traços da pregação musical dos capuchinhos. O prazer do momento transforma-se em pretexto para desobrigar o ouvinte de pensar no todo, cuja exigência está incluída na audição adequada e justa; sem grande oposição, o ouvinte se converte em simples comprador e consumidor passivo.

Na opinião de Theodor, a nova etapa da consciência musical das massas se define pela negação e rejeição do prazer no próprio prazer. Assemelha-se tal fenômeno aos comportamentos que as pessoas soem manter em face do esporte ou da propaganda. A música atual caracteriza-se como mercadoria. Os bens da cultura fazem parte do mundo da mercadoria, são preparados para o mercado e são governados segundo os critérios do mercado. A modificação da função da música atinge os próprios fundamentos da relação entre arte e sociedade. No pólo oposto ao fetichismo na música opera-se uma regressão da audição. A audição regressiva relaciona-se com a produção através do mecanismo de difusão o que acontece precisamente mediante a propaganda. Na audição regressiva o anúncio publicitário assume caráter de coação. As vítimas da regressão auditiva agem como crianças: exigem o mesmo alimento que provaram anteriormente. Embora a audição regressiva não constitua sintoma de progresso na consciência da liberdade, é possível que inesperadamente a situação se modificasse se, um dia, a arte de mãos dadas com a sociedade, abandonasse a rotina do sempre igual.                  

Jean-Paul Sartre (1905 a 1980), escritor francês, ateu, filósofo filiado ao existencialismo, autor de romances como “A Náusea” e “Os Caminhos da Liberdade” e de algumas peças de teatro. A sua obra literária ilustrava o seu projeto filosófico consubstanciado no tratado “O Ser e o Nada” escrito em 1943. Após a segunda guerra mundial, ele aborda questões políticas em seus escritos, principalmente sobre o marxismo. “Para nós, franceses, o individualismo conservou a velha forma clássica da luta do indivíduo contra a sociedade e especialmente contra o Estado; isto não existe nos Estados Unidos”, dizia ele.

Na esfera filosófica, Jean-Paul procura as estruturas fundamentais da existência humana; salienta o choque entre a consciência e o mundo objetivo; considera a liberdade uma característica que melhor define o ser humano e que deve ser manifestada na atividade política. O homem escolhe o seu destino, sem vínculos com a tradição e com o passado. O cientista e o sacerdote tentam escapar dessa realidade racionalizando ou espiritualizando o mundo. Jean-Paul rejeita a concepção de liberdade sintonizada com necessidade, predominante na ciência teórica. A rebeldia dos adeptos do existencialismo contra o racionalismo advém do sentimento de opressão. A existência não pode ser deduzida de princípios lógicos gerais. {O ser humano existe como fenômeno biológico e não como produto de um princípio lógico}.

Hannah Arendt (1906 a 1975), alemã, nascida Johanna Arendt, no seio de família judia em Hanover, escritora, filósofa, cientista política, jornalista, professora e, no que tange à produção sociológica, integrante da tradição intelectual da república de Weimar. Estudou nas universidades de Marburgo, Heildelberg e Friburgo. Doutorou-se em Filosofia com a tese sobre o conceito de amor em Santo Agostinho. Durante os seus estudos na Alemanha, tornou-se amante de Heidegger, seu professor e mentor. Dele separou-se em decorrência da pressão social, pois ele era casado com outra mulher e tinha filhos. Alguns anos depois, Heiddeger aderiu à política nazista, motivo pelo qual Hannah rompeu as relações cordiais que ainda mantinha com ele. Casou duas vezes com maridos diferentes. Ela foi presa pela Gestapo em 1933, por três meses; então, sai da Alemanha e permanece em Paris até 1939. Presa novamente e enviada a um campo de concentração, foge e emigra para os EUA (1941). Dez anos depois, adquire a cidadania americana. Em seqüência, lecionou na Universidade de Chicago (1963) e na New School for Social Research de Nova Iorque (1967 a 1975).

No livro intitulado “Eichmann em Jerusalém” publicado em 1963, Hannah Arendt juntou cinco artigos que escreveu a serviço do jornal The New Yorker, quando cobriu o julgamento desse servidor do nazismo. Considerou o réu homem normal, burocrata típico, zeloso cumpridor de ordens por amor ao dever sem considerar o bem ou o mal. Nesse livro, ela denuncia a cumplicidade de lideranças judaicas com o nazismo. As organizações judaicas americanas quase a crucificaram. Faltou pouco para ela não perder a sua cátedra na Universidade.

[Norman G. Finkelstein, judeu americano nascido no Brooklin em 1953, professor de Teoria Política da Universidade de Nova Iorque, lançou o livro “A Indústria do Holocausto” em 2000, denunciando a elite judaica que, para oprimir o povo palestino, aproveita-se do mito em que, na América, foram transformadas as atrocidades nazistas. Essa elite judaica exagerou o número de sobreviventes dos campos de concentração com o propósito de extorquir bancos suíços, indústrias alemãs e países do leste europeu e, assim, obter vultosas indenizações e se apropriar de obras de arte e outros objetos valiosos apreendidos durante a guerra. Tal qual aconteceu com Hannah, organizações judaicas se mobilizaram para impedir a circulação do livro e para afastar Norman da cátedra universitária].

Hannah Arendt defendia a democracia direta como alternativa à democracia representativa. O pluralismo é a condição da vida política e possibilita um potencial de liberdade e de igualdade entre as pessoas. Importante é incluir o outro. Hannah apresenta originalidade na sua obra. Ela procede à crítica da filosofia de Sócrates, Platão, Aristóteles, Maquiavel, Montesquieu, Kant, Heidegger e Jaspers. Desafia os conceitos convencionais tanto da esquerda como da direita. No livro “Origens do Totalitarismo”, publicado em 1951, ela exibe o que há de comum entre a política de Hitler e a de Stalin, vendo nisto um novo fenômeno político: imposição à sociedade, mediante o terror, de uma abstrata ideologia. Buscando os fatores que podiam explicar a submissão ou o consenso das vítimas dos regimes totalitários e as atrocidades neles praticadas, incluindo a prisão e tortura nos campos de concentração, Hannah se deparou com os efeitos das mudanças sociais e econômicas que abalaram e desenraizaram as massas. “Nada pode se comparar à vida nos campos de concentração; nenhum relato consegue expô-la plenamente, pela simples razão de que o sobrevivente volta ao mundo dos vivos, o que o impede de acreditar inteiramente em suas experiências passadas”.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

FILOSOFIA XV - 39



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

Holismo, novidade, mudança, essencialismo, são tópicos caros à corrente do historicismo contrária à visão naturalística, afirma Karl Popper. Há elemento comum às ciências naturais e às ciências sociais quanto aos métodos adotados. Assim pensa a corrente naturalista do historicismo. Tal qual a Física, a Sociologia é um ramo do conhecimento que pretende ser teorético e empírico ao mesmo tempo. Como disciplina teorética, a Sociologia explica e prevê eventos valendo-se de teorias e leis universais que procura descobrir. Como disciplina empírica, a Sociologia se baseia na experiência, nos fatos observáveis. A observação é a base para aceitar ou rejeitar qualquer teoria proposta. A previsão pode ser profética ou tecnológica. A primeira (previsão profética) refere-se a um evento futuro e inevitável. O seu valor prático está em permitir a prevenção, isto é, que possamos nos preparar para enfrentá-lo. A segunda (previsão tecnológica) é construtiva, indica o caminho que se nos abre se quisermos alcançar certos resultados. Este segundo tipo é próprio da engenharia social que pode ser de ação gradual e holística. A engenharia social holística tem por fim remodelar toda a sociedade, enquanto a gradual (tecnologia de ação por partes) projeta a criação e a reforma de instituições sociais de caráter público e privado. O planejamento holístico carece de base científica.

A concepção historicista de desenvolvimento social não implica fatalismo. Ideais, sonhos, raciocínios, desejos, conhecimentos, temores, energia, interesses, constituem forças do desenvolvimento social que não se aprisionam em planos. O historicista pode interpretar e favorecer o desenvolvimento social, mas não altera-lo. O método historicista surge como parte de uma ampla interpretação filosófica do mundo. A voga do historicismo pode ser vista como puro reflexo da voga evolucionista. A chamada hipótese evolucionista resulta da explicação de observações biológicas e paleontológicas fundada no pressuposto de uma ancestralidade comum de formas relacionadas. Tal hipótese carece do status de lei universal.

Na opinião de Karl, a evolução da vida na Terra é um processo histórico peculiar, um enunciado histórico singular e não uma lei universal. A dinâmica social difere da dinâmica natural. Os fatos da sociedade humana não giram em órbita, nem se movem progressivamente em uma trajetória, como se fossem fenômenos da natureza. O tipo de sociedade que o sociólogo denomina “estática” corresponde justamente ao sistema físico que o cientista natural denomina “dinâmico”. A hipótese de que existem tendências é um artifício estatístico útil, mas tendências não são leis e sim coisas radicalmente diversas. O enunciado da tendência é existencial e não universal. A tendência não deve ser utilizada como base para previsões de caráter científico.

A tentativa e o erro são necessários ao avanço científico. Através de ensaios e erros as gerações passadas chegaram ao conhecimento que transmitiram à geração presente e modelaram a sociedade. O cientista social encara tais ensaios e erros como seu método experimental para alicerçar suas teorias. Em época de rápida mudança social constata-se a caducidade das leis sociais em que nos apoiamos e verifica-se que elas não tinham o caráter universal que supúnhamos. Verifica-se, também, o caráter regional das leis sociais quando constatamos que outros povos se guiam por leis diferentes das nossas. A educação e a propaganda padronizam interesses e crenças e eliminam diferenças individuais. O progresso da ciência depende da livre competição de pensamentos e necessita de liberdade política. Sem suprimir a crítica pública, o governo democrático toma medidas duras e necessárias diante de males e perigos concretos.

O progresso pode ser desprezível em conseqüência de um fenômeno natural incontrolável ou de aspectos da natureza humana como a indolência e o esquecimento. Além de psicológicas, as condições do progresso científico e industrial também são institucionais e sociais. Ao tomar consciência de que a pesquisa científica em torno de problemas sociais exerce influência sobre a vida social, o cientista social fica impossibilitado de conservar a adequada atitude científica de desinteressada objetividade. O progresso científico poderá findar se um dia a humanidade mergulhar no misticismo, na busca do nirvana. O apelo emocionalmente persuasivo para que os homens se congreguem em torno de um propósito comum implica no apelo para que opiniões diferentes e opostas sejam abandonadas. Isto pode significar o abandono do pensamento racional. A liberdade de ser ímpar e diferente dos outros, de discordar da maioria e seguir o próprio caminho, pode constituir a mola propulsora da evolução e do progresso.                          

Theodor Wiesengrund-Adorno (1903 a 1969), graduado em filosofia pela Universidade de Frankfurt, faz da música e da tecnologia motivo para reflexão filosófica. Escritor prolífico, Theodor escreveu: “Dialética do Iluminismo”, “Teoria Estética”, estudos sobre Husserl e sobre Hegel, além de outras obras. Refugiou-se na Inglaterra para escapar do nazismo e lecionou na Universidade de Oxford. Mudou-se para os EUA, onde realizou estudo considerado modelo de sociologia empírica: “A Personalidade Autoritária”. Regressou a Frankfurt depois de terminada a guerra e reorganizou o Instituto de Pesquisa Social (1950).

A técnica, diz Theodor, se define enquanto: (i) qualquer coisa determinada interna e esteticamente; (ii) desenvolvimento exterior às obras de arte. As técnicas de reprodução sacrificam a distinção entre o caráter da obra de arte e o caráter do sistema social quando visam à produção em série e à homogeneização. A técnica é fonte de poder na sociedade. As circunstâncias que favorecem tal poder são geradas pelos mais fortes economicamente. A racionalidade da técnica identifica-se com a racionalidade do domínio. Rádio e cinema não podem ser tomados como arte por serem negócios e seus fins realizados mediante sistemática e programada exploração de bens considerados culturais caracterizadora de uma indústria cultural.

A expressão indústria cultural substitui a enganadora expressão cultura de massa utilizada pelos donos dos veículos de comunicação de massa. Essa “cultura” não surge das massas como fazem acreditar os senhores da comunicação, mas é por eles produzida e adaptada ao consumo das massas. Em larga medida, tais senhores determinam o próprio consumo. Ao “criar necessidades” ao consumidor (que deve contentar-se com o que lhe é oferecido) a indústria cultural se organiza para que o indivíduo se conforme a condição de objeto. A indústria cultural faz da humanidade a consumidora dos seus produtos e é portadora da ideologia dominante que outorga sentido a todo o sistema do mundo industrial. A humanidade tornou-se vítima de novo engodo: o progresso da dominação técnica que tolda a consciência individual e impede a formação de indivíduos independentes, capazes de conscientemente julgar e decidir. Instaurando o poder da mecanização sobre o homem, a indústria cultural cria condições cada vez mais favoráveis à implantação do seu comércio fraudulento onde os consumidores são continuamente enganados em relação ao que lhes é prometido e não cumprido.

terça-feira, 7 de abril de 2015

FILOSOFIA XV - 38



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

Na opinião de Herbert Marcuse, a superação da sociedade capitalista pela socialista é uma tendência histórica efetiva. No capitalismo, a realidade da família burguesa está condicionada pelo caráter da economia de mercado. Na segunda guerra mundial, a teoria burguesa se fundamenta inteiramente na frente comum contra o liberalismo e o marxismo; quem indica essa postura teórica é o adversário; a teoria mesma não possui terreno próprio do qual seria reconhecida a totalidade dos fenômenos sociais. Todos os conceitos fundamentais da teoria burguesa são contrariedades: (1) contra o materialismo histórico é criada a concepção orgânica da história; (2) contra o idealismo liberal é oposto o realismo heróico; (3) contra a teoria racionalista opõe-se a filosofia existencialista; (4) contra o Estado racional defende o Estado totalitário encabeçado por um chefe poderoso. Sem conteúdo material e racional, a autoridade se torna meramente formal. Esse formalismo é o véu diáfano que revela mais do que encobre a constelação de força factual.

O conceito de elites sociais exposto por Georges Sorel em “O Futuro Socialista dos Sindicatos”, publicado em 1898, serviu tanto à vanguarda proletária do leninismo como às elites dirigentes do fascismo. A acefalia do socialismo se transforma na teoria das elites revolucionárias: a revolução social gera novas autoridades sociais que surgem organicamente da vida social e chamam a si a direção disciplinadora no processo de produção. Essa é uma elite de mérito moral que consiste em grupos que desfrutam hegemonia moral, possuem sentimento correto de tradição e cuidam do futuro de modo racional. O conceito de elite formulado por Vilfredo Pareto se encontra em conexão com uma teoria nacional positiva da sociedade que constrói o equilíbrio social, a estabilidade de dominação em particular, a partir fundamentalmente de elementos irracionais, a saber: do funcionamento de determinados mecanismos psíquicos e de suas derivações {romantismo político}. A sociedade se compõe de uma camada inferior caracterizada pela massa popular e outra superior caracterizada pela elite governamental e não governamental. As duas camadas convivem com a liberdade do movimento da burguesia em ascensão, a ideologia do êxito, a possibilidade de ascensão individual para todos a partir de qualquer posição social.

Na segunda metade do século XX, houve certa imobilização da dialética da negatividade. Formas novas de um capitalismo maduro impõem a tarefa de desenvolver um conceito de dialética a elas adaptado. A dialética materialista permanece no campo da razão idealista, na positividade, na medida em que não destrua a concepção de progresso segundo a qual o futuro já está enraizado no seio do existente. Há dois conceitos dialéticos essenciais: (1) a negação da negação como desenvolvimento imanente de um todo social antagônico (superação); (2) o todo como fonte na qual cada elemento singular encontra o seu valor e a sua verdade.

O sistema global do capitalismo hodierno e maduro absorveu no seu interior o potencial revolucionário. A solidariedade atenua a competição, a repressão, a brutalidade, a vulgaridade e contribui para a paz como situação duradoura. A nova sociedade surge quando os valores e objetivos da velha se transformam em necessidades. O poder do negativo surge fora da totalidade repressiva representada pela sociedade antagônica a partir de forças e movimentos que ainda não estão manietados pela produtividade agressiva e repressiva da chamada “sociedade da abundância”. A recusa de participar, o nojo diante de toda prosperidade, o impulso de protesto, tipificam uma oposição débil, se desorganizada.            

Karl Raimund Popper (1902 a 1994), nascido em Viena no seio de uma rica família judia, doutor em filosofia, professor universitário, emigrou para a Nova Zelândia em 1937, em decorrência da ameaça nazista. Em 1946, mudou-se para a Inglaterra onde passou o resto da vida. Ainda na Áustria, filiou-se ao partido comunista. Discordou dos métodos dos companheiros e abandonou a causa. Refutou o marxismo e a psicanálise considerando-os superstição intelectual. Migrou para o liberalismo clássico. Contra o empirismo clássico, denominou sua filosofia de “racionalismo crítico”, mais próxima do positivismo e mais distante da metafísica. Dedicou-se à filosofia da ciência. Considerou inadequado o método indutivo para a pesquisa científica. Considerou mais adequado o método hipotético dedutivo, que consiste em conjecturas teóricas audaciosas que os cientistas tentariam refutar através de experimentos. A ciência progrediria por “falsificação”, ou seja, as teorias refutadas pelos testes experimentais seriam eliminadas.

A teoria científica é conjetural e provisória; mantém o seu vigor enquanto não é contrariada pelos fatos e a sua falsidade não ficar demonstrada. A consistência lógica e a conformidade com os fatos alicerçam a teoria científica. Nenhuma teoria científica tem garantia de imutabilidade e eternidade. A verdade é inalcançável e dela só podemos nos aproximar mediante tentativas. Os tolerantes têm o direito de não tolerar os intolerantes. Entre outros livros, Karl escreveu: “A Sociedade Aberta e os seus Inimigos”, “A Lógica da Pesquisa Científica”, “O Racionalismo Crítico na Política”, “Sociedade Aberta, Universo Aberto”, “A Miséria do Historicismo”. O título deste último livro é uma alusão ao livro “A Miséria da Filosofia”, de Marx e ao livro “Filosofia de Miséria”, de Proudhon. Nele Karl defende a tese de que a crença no destino histórico é pura superstição e de que não há como prever, com os recursos do método científico ou de qualquer outro método racional, o caminho da história humana, porque este é fortemente influenciado pelo crescer do conhecimento humano. Não é possível predizer através de recurso a métodos racionais ou científicos, a expansão futura do nosso conhecimento científico; logo, é impossível prever o futuro curso da história humana.

Isto significa que devemos rejeitar a possibilidade de uma História teorética, isto é, de uma ciência social histórica em termos correspondentes aos de uma Física teorética. Não pode haver teoria científica do desenvolvimento histórico a servir de base para a predição histórica. O interesse da História repousa nos eventos reais, singulares ou específicos e não em leis ou generalizações. O objetivo fundamental dos métodos historicistas está, portanto, mal colocado e o historicismo aniquila-se. A miséria do historicismo é uma pobreza da imaginação. Sob certas condições, certos desenvolvimentos virão a ocorrer, porém impossível afigura-se predizer desenvolvimentos históricos na medida em que estes possam ver-se influenciados pela expansão do conhecimento humano. Não há como antecipar hoje o que só saberemos amanhã.

Na opinião de Karl, historicismo é uma forma de abordar as ciências sociais a estas atribuindo o objetivo principal de fazer predição histórica, cujo objetivo seria atingido pela descoberta dos ritmos ou padrões, das leis ou das tendências, subjacentes à evolução da história. Nas ciências sociais há ampla e complexa interação entre o sujeito observador e o objeto observado. A predição pode influir no acontecimento previsto no sentido de causá-lo ou de evitá-lo. De acordo com os historicistas, as ciências que lidam com seres vivos, entre elas a Sociologia, devem proceder segundo o prisma holístico e não de maneira atomística. Todo grupo social, por menor que seja, tem a sua própria história e o seu próprio espírito, não sendo explicável somente em termos de mera junção dos seus elementos. O princípio da liderança nos acontecimentos históricos atribui demasiada importância às ações e decisões dos chefes como Alexandre, Napoleão e outros. Igual importância tem as ações e decisões dos incontáveis desconhecidos que, por exemplo, incendiaram Moscou e inventaram o método partisan de lutar. Não foi uma decisão e sim a necessidade que levou o exército russo a abandonar Moscou (Karl cita Tolstoi). Aí se configura a lógica da situação. O método próprio das ciências sociais em oposição ao método das ciências naturais, baseia-se na penetrante compreensão intuitiva dos fenômenos sociais.

domingo, 5 de abril de 2015

FILOSOFIA XV - 37



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

Na teoria crítica de Max Horkheimer, o aspecto social da ciência tem relevância. [Do ponto de vista filosófico, criticar significa examinar os pressupostos de alguma coisa segundo critérios de valor (natureza axiológica da crítica)]. A ciência não deve ser pragmática e sim favorável à reflexão autônoma. A verificação prática de uma idéia e a sua verdade são coisas distintas. A teoria crítica visa a descobrir o conteúdo da práxis histórica. Os fatos sensíveis são pré-formados socialmente pelo caráter histórico do objeto cognoscido e do sujeito cognoscente. O positivismo se caracteriza por supor um tipo de razão subjetiva, formal e instrumental, cujo único critério de verdade é o seu valor operacional, ou seja, o seu papel na dominação do homem e da natureza [ou seja, a sua utilidade como diriam Sócrates e os pragmáticos]. A existência social atua como determinante da consciência. A teoria crítica diagnostica uma situação a ser superada sem anunciar uma visão de mundo. Max propõe aos homens que protestem contra a aceitação resignada da ordem totalitária. As relações entre os seres humanos, bem como, as relações entre os humanos e a natureza devem ser configuradas de maneira diversa da que se instaura na dominação. Entre as obras de Max contam-se: “Dialética do Esclarecimento” (em parceria com Adorno); “Materialismo, Metafísica e Moral”; “Crítica da Razão Instrumental”, “Teoria Tradicional e Teoria Crítica”.        

Herbert Marcuse (1898 a 1979), filósofo alemão, professor e conferencista radicado nos EUA desde 1934 para escapar do nazismo. Filiava-se à Escola de Frankfurt, que combina a crítica marxista do capitalismo com os novos conhecimentos oriundos da psicologia e da economia. Foi um dos “novos filósofos” da década de 1960 e esteve na moda principalmente nos meios da juventude universitária contestadora do status quo nos países capitalistas ocidentais. A “nova esquerda” se considerava independente em relação aos partidos comunistas e à orientação da União Soviética. No seu livro “Eros e a Civilização”, Herbert ensaiou uma síntese com as idéias de Freud e de Marx: o inconsciente erótico sofre a repressão do consciente racional (1955). Da mesma forma, a massa revolucionária estava oprimida política e economicamente pela burguesia. A massa ansiava por se libertar dessa opressão. Este anseio acontece tanto na sociedade capitalista como na sociedade comunista, porque os dois tipos são repressores. Herbert desenvolve essa tese nos seus livros “O Marxismo Soviético” e “O Homem Unidimensional”, publicados em 1958 e 1964, respectivamente. Em outro livro de larga repercussão intitulado “Idéias Sobre uma Teoria Crítica da Sociedade”, ele reúne ensaios de diferentes épocas: novas fontes para a fundamentação do materialismo histórico (1932), estudo sobre a autoridade e a família (1936) e sobre o conceito de negação na dialética (1966).

A crítica da economia política há de ser tomada como expressão científica de uma problemática que apreende toda a essência humana. O trabalho exteriorizado na economia burguesa implica alienação do homem, desvalorização da vida, distorção e perda da realidade humana. Além de produzir bens, o trabalho produz a si mesmo e ao trabalhador como mercadoria. O trabalhador se torna mercadoria tanto mais barata quanto mais mercadoria produz. No conceito de trabalho deve se conter uma relação humana e não uma relação econômica. No trabalho se realiza a universalidade tipicamente humana. O trabalho é a verdadeira expressão da liberdade humana.

[O trabalho pode ser o caminho da servidão. A vadiagem pode ser a expressão da liberdade humana. O dono do capital tem o direito de vadiar muitas horas todos os dias durante a semana e muitas semanas durante o ano. O empregado tem o direito de trabalhar muitas horas todos os dias com breve descanso semanal, sendo-lhe reservado poucos dias durante o ano para vadiar. A liberdade virá quando empregador e empregado tiverem o direito de vadiar em igual extensão].

O sentido do trabalho, diz Herbert, consiste em propiciar ao homem a propriedade de bens e torna-los o universo da sua auto-realização e da sua auto-afirmação. A propriedade privada é uma forma falsa de ter bens. O retorno do homem à sua propriedade verdadeira é o retorno à sua essência social. O homem se reconhece como ser social exatamente em seus bens e no trabalho que existe neles. O relacionamento do homem com o objeto do seu trabalho implica relacionamento com outros homens.

Somente a prática resolve as contradições teóricas. O humanismo levado às últimas conseqüências difere do idealismo e do materialismo. O homem é interiormente livre (autônomo) e exteriormente determinado pela autoridade terrena (heterônomo). A reprodução de toda a sociedade só é possível em meio a uma crise permanente. O homem se encontra colocado em um sistema de ordem terrena que não corresponde de modo algum às doutrinas fundamentais da cristandade. Toda interpretação metafísica da ordem terrena traz consigo a tendência à formalização. Herbert cita Calvino: “Não foi o amor ou a justiça divina e sim a majestade divina que atuou na criação do mundo e, desse modo, os desejos e impulsos, as esperanças e queixas dos homens devem orientar-se não pelo amor nem pela justiça e sim pela obediência incondicional e o culto humilde”. Em conexão com a doutrina protestante da Reforma, ocorre uma reorganização programática da família e considerável fortalecimento da autoridade do pater famílias cada vez mais planificada e artificialmente criada. As características que a ordem social vindoura apresentará exigirão reavaliar os valores humanos a partir da infância. Honrar, temer e venerar em lugar de amar se torna o elemento decisivo na relação entre pai e filho.

Herbert critica os conceitos de liberdade e autoridade formulados por Kant e Hegel, ambos encarando a sociedade como ordem universal de coação para a garantia da propriedade privada. A família tem na propriedade não somente sua realidade exterior como também a existência da sua personalidade substancial. A existência social dos homens é construída como ordem autoritária de dominação. A hereditariedade é um dos elementos mais eficazes à vinculação da família à ordem social que a protege. Por trás da camada de abertura conceptual ética e organicista sempre se percebe a irracionalidade pura da autoridade do Estado: uma autoridade que só pode exigir obediência, mas não pode mais fundamenta-la. O direito regula uma organização social que se baseia nos alicerces de defesa da pessoa, dos bens e da família. A família é o ponto central da existência humana, o elo entre a vida individual e a vida em comunidade. A produção material inscreve-se no reino da necessidade. O desenvolvimento das potencialidades humanas está acima desse reino e caracteriza uma liberdade superior. A estrutura material condiciona a superestrutura política e cultural da sociedade e das formas de consciência que lhe correspondem.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

FILOSOFIA XV - 36



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

Jacques Maritain seleciona três grandes choques intelectuais que abalaram a confiança do homem em si mesmo: (I) O darwinismo do qual derivou uma ética materialista da luta pela vida. No entanto, simultânea à evolução biológica, há uma descontinuidade metafísica entre o universo animal e o universo humano gerada pela presença do espírito no homem que uma vez reconhecida revela a face moral da humanidade. (II) O marxismo do qual derivou uma ética materialista pela submissão das regras e dos procedimentos morais à estrutura econômica da sociedade. Todavia, se o homem tomar consciência da interdependência dos valores morais e econômicos, chegará a uma ética espiritualista. (III) A psicanálise que revelou a forte influência da libido e do inconsciente no comportamento humano. Com isto, a liberdade cede lugar ao determinismo da natureza em prejuízo do universo da moralidade. Todavia, se no universo de instintos, tendências e impulsos inconscientes forem inseridas a razão e a liberdade, resultará uma ética mais consciente da situação concreta do homem, uma equilibrada relação entre o consciente e o inconsciente. Introduzir-se-á outro tipo de inconsciente além do natural, a saber: o inconsciente espiritual que é a fonte viva da atividade consciente e das obras da razão.

[O método experimental das ciências físicas foi aplicado na Psicologia e fatores externos foram considerados no estudo do psiquismo humano. Com as pesquisas de Pavlov e suas observações sobre os reflexos condicionados desenvolve-se a psicologia do comportamento (behaviorismo). A incursão de Jung na metafísica e no misticismo oriental inaugurou sua divergência com Freud e gerou a psicologia analítica, a crença no inconsciente coletivo e na comunicação entre a mente humana e a mente divina].

A condição humana é a do corpo ligado a uma alma no universo da matéria que faz o homem sonhar com uma idade de ouro. Para os crentes no primitivo estado de inocência e no pecado original a idade de ouro situa-se no início da história após o que o homem decaiu por sua própria culpa. Para os que não comungam dessa crença judia e cristã, a idade de ouro situa-se no fim da história e o homem a ela chegará por seu libertador esforço graças à ciência e às mudanças sociais. Segundo a doutrina cristã, a condição humana será transfigurada de modo sobrenatural após a morte (reencarnação impossível). A recusa à condição humana situa-se no plano moral e não no plano físico. Tal recusa pertence ao mundo do sonho, mas o homem nutre-se de sonhos cujas raízes estão na sua psicologia individual e determinam sua atitude fundamental na vida.         

O desenvolvimento histórico da filosofia alemã pode ser visto em etapas. A primeira etapa seria de Kant e Hegel; a segunda, de Marx e Engels; a terceira, de Nietzsche; a quarta, de Heidegger, Husserl e Hartmann. A quinta, da Escola de Frankfurt, nome informalmente atribuído ao círculo formado durante a República de Weimar (1919/1933) por Max Horkheimer, Theodor Adorno, Herbert Marcuse, Friedrich Pollock, Eric Fromm, Otto Kirchheimer e Leo Löwenthal. A Escola teve seguidores como Albrecht Wellimer, Alfred Schmidt, Axel Honneth, Franz Neumann, Jürgen Harbemas e Oskar Negt.

Max Horkheimer (1895 a 1973), professor alemão, filósofo, sociólogo, nascido no seio de rica família judia (o pai era dono de fábrica de tecidos), doutorou-se em Filosofia (1922). Deixou-se influenciar pelas duas críticas de Kant e pelo pensamento de Schopenhauer. Juntamente com Marcuse, Adorno e Friedrich Pollock (sociólogo e economista alemão), Max fundou o Instituto para Pesquisas Sociais (IPS), anexo à Universidade de Frankfurt, que se dedica à pesquisa interdisciplinar: filosofia, sociologia, psicologia, política, economia. Este círculo de estudiosos ficou conhecido como Escola de Frankfurt. O IPS publicava periodicamente a Revista de Pesquisa Social, com textos dos seus membros e de outros colaboradores. Os componentes do IPS eram majoritariamente judeus marxistas. Com a queda da República de Weimar e com a ascensão do III Reich, o governo nazista fechou o IPS. Os seus membros debandaram para outros países. O IPS mudou-se para Nova Iorque (Universidade de Colúmbia), sob a direção de Horkheimer e Marcuse. Depois da guerra, o IPS retornou à Alemanha e retomou suas atividades regularmente até a presente data. Marcuse permaneceu nos EUA e seu pensamento influiu na formação da mocidade estudantil e no movimento social de maio de 1968 em França.

As revoluções russa (comunista), italiana (fascista) e alemã (nazista) mudaram o panorama social e político da Europa na primeira metade do século XX. Essas revoluções podem ser consideradas a fronteira entre a Idade Moderna e a Idade Contemporânea na história da civilização ocidental. O advento da teoria psicanalítica de Freud e o pragmatismo norte-americano aliados a tais mudanças, levaram os filósofos marxistas a um exame crítico do qual resultou o afastamento do marxismo ortodoxo, substituído por um marxismo ocidental no plano prático e teórico. A Escola de Frankfurt era receptiva ao pensamento dos filósofos e cientistas anteriores e posteriores à sua fundação. Daí resultou uma teoria social interdisciplinar e neomarxista. Esse novo pensamento constitui a Teoria Crítica da Sociedade, conjunto de idéias baseadas no criticismo de Kant, no socialismo de Marx, na teoria sociológica de Weber e na teoria psicanalítica de Freud, voltado para a cultura ocidental contemporânea. O centro da crítica está no poder, nas relações de dominação do modelo liberal e capitalista, do qual a cultura de massa é uma das expressões. Por isto mesmo, Adorno afirmou que se trata, na verdade, de uma indústria cultural que mantém os mecanismos de dominação de uma classe (elite capitalista) sobre outra (massa trabalhadora). A proposta da Escola é a de liberar os indivíduos desses mecanismos e devolver-lhes a liberdade em uma autêntica democracia. A Escola negava a vocação dos operários para a revolução social.    

Max vê a razão instrumental como criadora de mitos perigosos. Advoga um marxismo heterodoxo e um humanismo individualista. As categorias do marxismo não são definitivas e sim indicações para ulteriores investigações cujos resultados retroagem sobre elas próprias. Ele opõe à teoria tradicional a teoria crítica. No sistema dedutivo de René Descartes – que integra a teoria tradicional – as proposições de certo campo devem estar ligadas de tal modo que a maioria delas deriva de poucas. Estas poucas proposições constituem os princípios gerais e entre elas e as demais proposições decorrentes não pode haver contradição. Disto resulta um sistema matemático de signos. Os sistemas assim construídos (no modelo cartesiano) são operacionais, têm vasta aplicabilidade. Essa teoria tradicional não se ocupa da gênese social dos problemas que investiga, das situações reais em que a ciência é usada e do escopo dessa utilização. A razão abstrata dessa teoria é criadora de mitos em que se assenta o cientificismo.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

FILOSOFIA XV - 35



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

Jacques Maritain cita Platão: “A felicidade consiste na contemplação direta das idéias, das formas separadas; a alma, libertada do corpo, contempla o bem supremo; a partir da moral superior (celeste) os homens elaboram a sua moral (terrena); moral é a arte de se preparar para a felicidade que mora no outro mundo (das idéias, das formas). [A doutrina budista segue essa mesma linha]. O propósito da vida humana está naquele outro mundo. A alma busca a contemplação do sol espiritual. Deus é o sol que ilumina e aquece. “Deus não é o ser supremo porque ele é o criador do ser”. O bem vale por si mesmo. A boa conduta vale porque é boa e não porque está referida a um bem supremo; vale por si mesma e não porque é útil ou porque é um meio para chegar a um fim virtuoso. Prestar assistência aos necessitados, dizer a verdade, ser franco e leal, são condutas valiosas por si mesmas e considera-las valiosas implica juízo de valor imediato. Moralmente, o valor prevalece sobre o fim. Bem = valor + fim. De acordo com Platão, as virtudes cardeais são quatro: 1) sabedoria prática ou prudência; 2) força ou coragem; 3) justiça; 4) temperança.

Jacques cita Aristóteles: “A felicidade deve ser usufruída aqui na Terra ao final da vida de cada um, após longa experiência e reflexão. Felicidade e bem são conceitos diferentes. A vida política absorve a vida individual [vida política é a vida na “polis”, vida social]. O bem de todos deve ser perseguido. Os destinatários da felicidade são os poucos homens ricos, livres, contemplativos, com suas emoções sob controle, sem perturbação ou preocupação de ordem material”.

Jacques cita Epicuro: “O prazer é o bem maior”. As necessidades devem ser reduzidas ao mínimo. A ausência de desejos contribui para a felicidade, que deve ser a do homem concreto. O homem concreto e feliz é o que desfruta o prazer intelectual e espiritual.

O misticismo hindu persegue a libertação e a salvação do “eu” mediante um esforço ascético da natureza humana para, através da abolição de todo pensamento particular, libertar-se da ilusão do mundo físico e da sua causalidade. O objetivo é chegar ao vazio total e, assim, de modo intuitivo, experimentar a existência profunda do “eu interior”. Mediante técnicas e com suas próprias forças empregadas contra a sua natureza, o místico hindu busca transcender a condição humana (sofrimento, dor). O cristão admite essa condição humana e a transcende pela graça de deus sem contrariar a sua natureza. Embora o sofrimento eleve a alma, o cristão não o deseja para o próximo. O trabalho da razão, o fermento do evangelho, o progresso da ciência e a justiça social, amenizam o sofrimento e fazem a humanidade se aperfeiçoar.

Obediência à lei do Estado decorre da lei natural que conduz o homem ao estado social. O que a lei natural deixa indeterminado, à razão humana compete determinar. A obediência é um determinismo natural do homem. Válida é a resistência à lei do Estado quando injusta, ou seja, quando a lei do Estado ofende a lei natural que dá o sentido do justo. Reconhecer a dignidade humana na sociedade é um imperativo do bem. A lei humana muda de Estado para Estado e de época para época. A lei natural é imutável, perene, válida universalmente.

Jacques cita Hegel. Na dialética hegeliana, desaparece a distinção entre o fenômeno e a “coisa em si”. Tudo é pensamento. A realidade é o pensamento em movimento. O ente de razão contém o ente real. A Lógica é a ciência do real enquanto o produz (tese x antítese = síntese). O real é o vir-a-ser que obedece a duas leis fundamentais: (1) a lei da interação universal; (2) a lei da mudança. Os seres exercem uns sobre os outros uma causalidade recíproca. Aquilo que muda torna-se outro, sob novo aspecto. As duas leis mencionadas permitem acesso ao saber “a priori” do real. O vir-a-ser do real torna-se um vir-a-ser lógico. “Toda posição é uma negação”. Todo conceito tem a sua própria contradição. “Toda negação é uma posição”. Toda contradição envolve aquilo que ela contradiz. A idéia deixa de ser o que é e passa a ser outra coisa; nasce e morre para transformar-se; a semente morre para frutificar, pois, nela se contém o novo ser. Liberdade = espontaneidade, como necessidade natural + autonomia, como exigência racional. Espontaneidade = ausência de coação. Autonomia = poder de escolha. A felicidade é uma necessidade da natureza humana. A vontade visa a felicidade sem qualquer coação. O ser humano tem liberdade para querer o necessário. No pensamento de Hegel, o Estado é a máxima expressão da humana liberdade na Terra, ponto de encontro entre a subjetividade particular aparente e a subjetividade integral e concreta. Obedecer ao Estado é obedecer a si mesmo. O Estado é a consciência do todo. Nele reside a moralidade. Não importa se a regra de direito é justa ou injusta, desde que ditada pelo Estado; o que importa é cumprir o dever de obediência. A consciência do todo é superior à consciência individual. O Estado é a encarnação do espírito na dialética do vir-a-ser. Entre um tipo e outro de liberdade (espontaneidade e autonomia) há movimento evolutivo. Autonomia é fase superior que ultrapassa a espontaneidade. No todo (Estado), o homem se realiza como pessoa. Quando o indivíduo se universaliza e a sua vontade se confunde com a vontade geral, ele adquire a personalidade superior, torna-se parte do todo, sacrificando a sua individualidade.

Por que devo obedecer à regra de direito e à autoridade do Estado? Jacques faz a pergunta e dá as respostas prováveis: (1) porque todos obedecem; sigo o comportamento geral {lei do rebanho ou da imitação}; (2) porque os pais, os mais velhos, os professores, as autoridades e as leis do Estado me ensinaram a obedecer {determinismo cultural}; (3) porque sinto que devo obedecer {lei psicológica}; (4) porque penso que a obediência é necessária, que a regra e o comando são necessários à coexistência e à convivência entre os seres humanos {lei do bom senso}; (5) porque tenho a certeza de que sem ordem a vida em comum seria impossível {lei da razão necessária e final}.

Na sociedade, entre os indivíduos há vínculos decorrentes das relações de justiça e de amizade cívica. Jacques cita Hegel: “O bem comum é o bem próprio do Estado”. Acrescenta: “Bem comum é o bem do Estado (todo) que se redistribui aos indivíduos (partes)”. Jacques cita o apóstolo Paulo: “Devemos obediência à lei de deus, libertas christiana”. Para Hegel, devemos obediência à lei do Estado. A visão hegeliana supõe a Terra como centro do universo e palco do drama do espírito, da evolução em direção a deus mediante a dialética da história. Retire-se tal centro e nada sobrará dessa dialética.