terça-feira, 3 de março de 2015

REFORMA POLÍTICA II



O regime democrático necessita de um povo honesto, responsável, digno, que valorize a si próprio, a sua cultura e a sua pátria. Sem isto, haverá simulacro de democracia; os representantes do povo também serão desonestos, irresponsáveis, indignos e colonizados.

O ódio que se verifica no Brasil hodierno entre os partidos políticos e também entre os seus respectivos eleitores, evidencia a lacuna ética e a treva espiritual. A falta de amor e de respeito propicia a discórdia. Augusto Comte, positivista francês, sabia disto ao enumerar os elementos essenciais de uma nação: amor por princípio, ordem por base e progresso por fim. “Paz e amor” era a mensagem de esperança dos hippies na década de 1960 visando a um mundo melhor, pacífico e fraterno. “Luz, vida e amor”, apregoam os rosacruzes na construção da paz mundial.

Partidos e eleitores vencidos acatam o resultado das eleições apenas nominalmente. Na dinâmica social, buscam vingança e tentam atrapalhar a execução da política governamental de quem venceu as eleições. Não titubeiam em denegrir os vencedores, em mentir, manipular números, inventar casos, escamotear a verdade. Os derrotados, inclusive a grande imprensa, fazem alarde de dados sem que as instâncias do devido processo legal estejam esgotadas. Instituições bem rotuladas e pessoas com diplomas acadêmicos apresentam cálculos falaciosos e planilhas distorcidas. Agem por sensacionalismo e irresponsabilidade com o propósito de alarmar a população. O ódio cega essa gente. A derrota lhes provoca engulhos. Não se conformam de estar fora do governo sem chance de roubar mais do que o antecessor. O diálogo se torna impossível e descamba para as ofensas pessoais. Para ser benfazeja, a desejável e necessária crítica a qualquer governo democrático há de ser criteriosa, educada, honesta, ainda que sem alusão às boas obras. 

Por curiosidade, acessei o facebook. Meu entusiasmo durou pouco. Cancelei a assinatura. Notei que se trata de um espaço cibernético onde se exercita a manifestação do pensamento de modo democrático e libertino. Há mensagens e imagens bonitas e agradáveis, trocas de elogios e confetes, mas, também, opiniões medíocres, palavras chulas e ofensivas, estrume verberador. Do uso que dele as pessoas fazem, vem a impressão de que tal espaço destina-se ao divertimento, ao narcisismo, à veiculação de superficialidades e leviandades. Os ataques grosseiros e ofensivos aos governantes são frequentes. Eu externava opinião discordando: (1) da falta de respeito com que é tratada a Presidente da República; (2) das colocações capciosas.

Eu não escrevo com a bílis alheia. O exercício da magistratura, do magistério e a idade madura contribuíram para a serenidade com a qual examino e avalio fatos e ideias. Para surpresa minha, vertiam veneno as opiniões de um arquiteto conhecido da minha família. Cada sílaba secretava ódio. Palavras ofensivas aos petistas em geral. Qualificou de assassina a candidata petista à presidência da república. Mostrou-se não só leviano ao ofender, mas também criminoso, pois a calúnia está tipificada como crime no Código Penal Brasileiro (art. 138). Ele também censurou Vicentinho, deputado federal pelo PT, por praticar corrida em via pública tendo à retaguarda uma viatura policial, conforme fotografia postada. Discordei da censura. O arquiteto não se preocupou em verificar se era montagem ou não. Lembrei de uma capa de revista em que aparecia a fotografia do presidente Figueiredo em traje civil e de quepe. O fotógrafo escolheu, artística e simbolicamente, um ângulo em que não aparecia o general de farda postado atrás do presidente no palanque oficial. O quepe era do general, mas parecia estar na cabeça do presidente. Aventei a hipótese de o censor estar incomodado porque Vicentinho era negro, de origem humilde, operário metalúrgico, que trabalhou e estudou até se formar em direito, faz carreira vitoriosa na política e se utiliza legalmente da prerrogativa parlamentar. Foi o bastante para o septuagenário arquiteto curitibano treplicar com fúria e me lançar na “esquerda gramscista bolivariana”, apesar de desconhecer o meu pensamento político e o meu trabalho escrito.

Reconhecer o valor pessoal de Dilma e de Vicentinho não significa pertencer ao partido deles ou compartilhar das suas ideias. Em artigos publicados neste blog, na série “Eleições 2014”, eu declarei que não votaria em Dilma e em Aécio, porque havia quadrilhas tanto no PT como no PSDB. Defender o mandato presidencial obtido mediante eleições gerais, seja quem for o eleito, é defender o regime democrático instaurado pela Assembleia Constituinte em 1988.

Esquerda e direita têm as mesmas deficiências morais. A corrupção é notória no setor público e vem de longe; não nasceu no governo petista. Os corruptos foram estimulados pela impunidade. O volume da corrupção e o descaramento foram crescendo na sucessão dos diferentes governos até chegar aos píncaros da roubalheira no período posterior à autocracia militar. A novidade é que agora, finalmente, a corrupção está sendo enfrentada e combatida. Diante desta novidade, parece que só agora, no governo Dilma Rousseff, é que foram criados o ministério público e a polícia federal. Lícito é indagar: onde estavam e o que faziam essas duas instituições nos governos corruptos que antecederam o governo do PT? Na década de 1990, o jornalista Paulo Francis denunciou a corrupção na Petrobras e nada aconteceu. A conduta politicamente seletiva dessas duas instituições evidenciou-se: eficiente no governo petista, ineficiente no governo tucano.   

A representação política foi questionada pelo povo no movimento de junho de 2013, em virtude desse acúmulo de abusos praticados pelos diversos governos que se sucederam nos últimos 25 anos e cujos responsáveis se mantiveram impunes, com a única e pífia exceção do governo Collor. O cidadão arcando com os prejuízos e sustentando as safadezas da politicalha. Nas eleições de 2014, o povo deu o seu recado. Ficou evidente o descontentamento do eleitorado com o sistema político em vigor. Percebeu-se o anseio geral por: (1) compostura, honestidade e espírito público dos representantes do povo; (2) fim do monopólio da representação popular pelos partidos políticos; (3) redução do número de partidos e de deputados; (4) emprego do dinheiro do contribuinte em obras e serviços públicos sem fraude no faturamento e na execução; (5) carga tributária mais leve; (6) prioridade para o bem-estar (educação, saúde, moradia, previdência social, infraestrutura, segurança pública).

A reforma política reclama assembleia nacional constituinte específica e exclusiva porque os legisladores ordinários não gozam da confiança da nação, fato notório que os números confirmam: 70 milhões de eleitores não votaram em candidato algum para o Senado e para a Câmara de Deputados, o que significa 50% do eleitorado brasileiro. Isto indica que a atividade parlamentar está desacreditada e que a representação popular é uma falácia. É preciso arredar a hipocrisia e adotar abertamente: (1) a representação por categorias econômicas e sociais segundo distintas regiões eleitorais do país; (2) número certo e igual de representantes para cada região; (3) eleição majoritária também para o legislativo.    

No segundo turno das eleições presidenciais, 37 milhões de eleitores não votaram em qualquer dos dois candidatos (em 2010 foram 30 milhões). No Sul e Oeste do território nacional, o tucano teve 30 milhões de votos (setor azul do mapa eleitoral publicado pela imprensa) e a petista teve 19 milhões de votos. No Leste e Norte (setor vermelho do mapa) a petista teve 35 milhões de votos e o tucano 20 milhões. O corpo eleitoral em 2014 era composto de 142 milhões de brasileiros. A proporção entre esse número e o número dos resistentes indica o descrédito da instituição político-partidária no Brasil. Protesto popular silencioso contra o descalabro na administração pública: pressão das urnas para colocar paradeiro a essa vergonhosa tradição.

domingo, 1 de março de 2015

REFORMA POLÍTICA



O artigo “Ódio na Política”, publicado neste blog em 28/03/2008, seguiu a linha das admoestações aos governos de Fernando Henrique e Luiz Inácio feitas por mim no jornal impresso Tribuna da Imprensa, do Rio de Janeiro, ao longo de 20 anos, quanto às mazelas dos governos tucano e petista. O tucano e o petista prometiam governo honesto diferente dos maus costumes até então vigentes. No entanto, a safadeza continuou nos dois governos muito mais acentuada do que nos governos de Collor e Sarney. O prometido modelo econômico oposto ao neoliberal não foi implantado. O governo petista seguiu à risca o programa do governo tucano: colocou um tucano no Banco Central, esperto em práticas ilícitas (como a remessa de dinheiro para fora do país) e um condescendente no Ministério da Fazenda, esperto em arrecadar dinheiro para o partido, participar de festinhas em Brasília e violar sigilo bancário. O artigo acima citado censurava as altas taxas de juros que proporcionavam lucros fabulosos aos bancos. Ninguém proporciona estrondosos lucros a terceiros sem receber algo em troca. Eu via, nisto, indício de arrecadação de fundos para alimentar os projetos tucano e petista de navegação de longo curso.



O artigo também comentava o ódio e a arrogância manifestados pelos militantes do PT, líderes ou não, espalhados nos diversos escalões da república e no Congresso Nacional. Os petistas demonstravam ódio contra todos aqueles que desvendassem a sórdida e oculta face do PT; raiva e ódio daqueles que pretendiam investigar os gastos ilícitos da presidência da república. Eles formaram tropa de choque na CPI dos cartões corporativos para blindar os companheiros. Como esse tipo de cartão de crédito foi inventado pelos tucanos no governo de Fernando Henrique, tudo ficou como antes. O sigilo das contas da presidência ou de qualquer órgão público é incompatível com a forma republicana de governo onde todos os gastos devem ser comprovados. O saque de dinheiro público, por agente público ou privado, mediante cartão de crédito é inconcebível. O cartão corporativo é inaceitável no setor público, onde vigem a legalidade e a indisponibilidade do erário. A destinação da verba pública tem de ser específica e dentro das formalidades orçamentárias que assegurem a fiscalização e o controle.   



Reproduzia-se no governo Luiz Inácio a bandalheira do governo Fernando Henrique. Desde as eleições de 2014, o ódio mudou de lado. Agora, são os quadros do PSDB e aliados que destilam ódio contra o PT e aliados. Graves ofensas pessoais. Nível ético baixíssimo. A grande imprensa (jornais impressos, emissoras de televisão) prestigia e endossa os ataques desferidos pelo PSDB contra o governo petista. O clima de ódio propaga-se por todo o país. Amizades foram rompidas. Pessoas que pareciam ser de bom caráter, revelaram-se o oposto. No facebook, sem se conhecerem, tão só por divergência político-partidária, as pessoas ofendem umas às outras, o que é o máximo da leviandade. O caráter mal formado, a falta de educação e o linguajar chulo não são apanágios dos jovens imaturos, exclusivamente, mas, também, de pessoas adultas e com diploma universitário. Esses intolerantes agressores se dizem democratas e cristãos, mas não aceitam a derrota do seu candidato em eleições limpas e legais e promovem ostensiva e sórdida campanha para afastar a candidata eleita. Esses “cristãos democratas” são golpistas indecorosos.



Nas eleições presidenciais de 2014 notou-se clara divisão dos eleitores no mapa divulgado pela imprensa: o Sul aristocrata, colorido de azul, onde venceu o candidato tucano e o Norte democrata, colorido de vermelho, onde venceu a candidata petista. No Sul, preponderam os filiados e simpatizantes do PSDB e partidos aliados e no Norte, os filiados e simpatizantes do PT e partidos aliados. A minoria no Sul é democrata. A minoria no Norte é aristocrata. A operação lava-jato foi deflagrada no Sul (Paraná), onde a maioria tucana se faz presente na polícia federal, no ministério público, no executivo, no judiciário e na imprensa. Isto já é motivo de suspeição. A forma tendenciosa como a operação está sendo conduzida, reforça a suspeição. A imprensa divulga depoimento prestado por criminoso cujo interesse é o de se livrar da pena ou obter redução da pena. Por isto mesmo, o criminoso diz o que lhe é sugerido pelo delegado, pelo promotor e pelo juiz. Omite-se qualquer referência à corrupção na Petrobrás ao tempo do governo Fernando Henrique (PSDB). O objetivo é desestabilizar o governo da candidata que venceu as eleições. Conforme circulou na rede de computadores, o juiz do processo é marido da advogada do PSDB no Paraná. Se isto for verdade, então era dever do juiz se declarar suspeito ou impedido em atenção à ética da magistratura. A imprensa tucana paranaense e nacional explora qualquer fato, ainda que falso, em desfavor do governo petista e silencia sobre ilícitos do governo tucano praticados na Petrobras e na alienação das empresas públicas estratégicas.    



O equilíbrio da balança judicial certamente ocorrerá depois que o processo sair da jurisdição sulista, seguir para Brasília e passar pelo crivo do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal. Enquanto o processo estiver no Paraná, a balança penderá para os tucanos golpistas. Brasília fica entre o Sul e o Norte, o que sugere mediação e equilíbrio dos tribunais entre as duas forças antagônicas. Essa posição geopolítica pode influir beneficamente na visão ampla e panorâmica das autoridades judiciais superiores, ajudar na equidistância dos juízes no confronto entre aristocratas sulistas e democratas nortistas. A posição geográfica da capital foi projetada pelos militares que golpearam a monarquia e instauraram a república. O objetivo da mudança da capital era estratégico: dificultar agressão estrangeira pelo litoral à sede do governo federal e estimular o desenvolvimento social e econômico da região central. Constou das Constituições e Cartas da república até se tornar realidade no governo JK. Tendo em vista a sofisticação das armas contemporâneas, o primeiro motivo não mais subsiste. A sede do governo pode ser atingida por míssil disparado a quilômetros de distância. O segundo motivo subsiste e contribuiu de fato para o progresso do Brasil central e setentrional. As forças armadas fundaram a república e dela são tutoras. O aumento artificial do escândalo pelo tucanato apoiado pela grande imprensa visa a alarmar a população e criar expectativa de intervenção militar. As forças armadas nem sempre defenderam a legalidade na história brasileira. Na atual conjuntura, espera-se que elas cumpram o seu dever e assegurem o mandato da presidente eleita democraticamente e que governa dentro dos parâmetros da Constituição. Caso isto não aconteça, haverá confronto armado entre o exército de Caxias e o exército do Povo. Desta vez, não será um punhado de civis extremistas e impacientes que lutarão pela democracia e sim parte considerável da população devidamente organizada. No seio das forças armadas poderá ocorrer divisão: de um lado, soldados aristocratas e de outro, soldados democratas.



Na década de 1990, Luiz Inácio da Silva, que fora deputado constituinte, contou cerca de 300 picaretas no Congresso Nacional. Certamente, esses picaretas ajudaram na picaretagem dos governos do PSDB e do PT. Ante os escândalos que vieram à luz posteriormente, esse número provavelmente aumentou. Que boa reforma se pode esperar de um bando de picaretas? A solução não é apenas afastar as quadrilhas de bandidos do colarinho branco que infestam a política brasileira. As agremiações políticas devem dispor em seus quadros de pessoas dotadas de espírito público, de escolaridade superior, de excelente formação moral, cumpridoras das suas obrigações para com a família e a sociedade. Necessário também que, por sua vez, o eleitor amadureça e se conscientize da importância de um comportamento guiado por valores morais. Disto resultará boa escolha dos representantes do povo e melhor cuidado do bem público. Enquanto isto não acontecer, reforma alguma será eficaz e a situação continuará a mesma: roubalheira e quadrilhas se revezando no governo. A crise na política é moral e afetou o sistema representativo. Daí, o grito do povo, no movimento de junho de 2013, dirigido aos legisladores e chefes de governo: “VOCÊS NÃO NOS REPRESENTAM”. Vox populi vox dei.      

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

FILOSOFIA XV - 25



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

Otto Wagner (1841 a 1918), arquiteto alemão, reagiu aos estilos então vigentes e inaugurou o movimento arquitetônico denominado funcionalismo, que também influiu na teoria social. Segundo o novo princípio, a aparência externa deve refletir o uso e a finalidade do edifício construído. A beleza está na sinceridade, na honesta relação entre o construído e o seu objetivo. A arquitetura deve refletir direta ou simbolicamente a cultura contemporânea. A face decorativa deve refletir o estágio da ciência e da tecnologia. Na opinião de Otto, o homem moderno não acredita nos ideais gregos de harmonia e equilíbrio; tampouco se comove com a piedade e o cavalheirismo medievais. Poder, eficiência, velocidade e conforto, são as metas do homem moderno. A arte deve encampar essas metas. O estilo funcional preponderou no século XX. Edifícios públicos e particulares, hotéis, lojas, casas, foram construídos no estilo funcional com as suas características de simplicidade angular e linhas cubistas na Europa e na América.

Charles Édouard Jeanneret (1887 a 1965), conhecido pelo apelido “Le Corbusier”, arquiteto e urbanista suiço, trabalhou na França, Alemanha, Argélia, Índia e Brasil. Foi um dos subscritores do Manifesto Purista (1919). Expôs a relação entre as formas mecânicas modernas e as técnicas arquitetônicas. Projetou edifícios que se sustentavam sobre pilotis. Divulgou o planejamento urbano. Exerceu influência mundial com seus traços e seus escritos, inclusive sobre arquitetos brasileiros como Lúcio Costa e Oscar Niemeyer.   

Oscar Niemeyer (1907 a 2008), arquiteto brasileiro, com o seu traço curvo, revolucionou a arquitetura. O seu estilo correu o mundo contemporâneo. Sua obra arquitetônica é vasta e se distribui pela África, América, Ásia e Europa. Arquitetura arrojada também se faz hodiernamente em alguns países dos diversos continentes na construção de casas, edifícios, aeroportos, autódromos e estádios desportivos.

A música popular era de domínio público desde os trovadores medievais. Havia composições vulgares, de roda e folclóricas, cantadas e dançadas em família, nas festas populares e nas tavernas. A música popular teve notável impulso no século XX: valsa, rumba, tango, bolero, samba, rock´n roll e os ritmos deles derivados. A diversificação das vias transmissoras contribuiu para a difusão da música popular: rádio, televisão, gravadores, computadores, suportes de reprodução (discos, fitas). Espetáculos com público numeroso em recintos fechados ou em locais abertos são transmitidos pelos canais de televisão para vasta região do planeta. Vários instrumentos de corda, sopro e percussão foram inventados. A força mercadológica da musica popular relegou a música erudita a um público diminuto. Na América dos anos 1950, a banda de Bill Halley e o cantor Elvis Presley lançam o rock´n roll para o mundo, febre daquela geração e das gerações seguintes, cantantes e dançantes. As bandas se multiplicaram. De Liverpool para o mundo, na Europa dos anos 1960, a banda dos Beatles difundiu o yé-yé-yé, modalidade roqueira; executou suas composições musicais e ajudou a propagar o idioma inglês e a cultura inglesa entre a juventude dos outros países. Os seus integrantes foram condecorados pela rainha da Inglaterra. A indústria fonográfica teve enorme crescimento. O público jovem se tornou o principal consumidor dos produtos dessa indústria e das drogas que os acompanham.

Quando uma forma de expressão artística chega ao ápice, os artistas da geração seguinte buscam novas formas, como aconteceu na pintura, na escultura, na arquitetura, na literatura e na música. Na filosofia ocorre o mesmo. Após atingir o auge na Grécia clássica, a filosofia se ramificou e se tornou temática, com ênfase ora na religião, ora na ciência, ora na ética, ora na estética, ora na lógica. Na Idade Contemporânea, as análises lógica, lingüística, psicológica, antropológica, sociológica, ilustram essa fragmentação. Sirvam de exemplos: Alain Touraine e Claude Lèvi-Strauss. O primeiro (Alain) professor na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais escreveu numerosos livros, desde “Production de la Société” (1973) até “La Recherche de Soi” (2000). Em que pese ter se dedicado à Sociologia, Alain se inclui entre os inúmeros pensadores que expuseram suas reflexões filosóficas. O segundo (Claude), lecionou Filosofia em liceus franceses (1930), Sociologia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Paulo (1935) e, depois da guerra, Antropologia no Collège de France. Ingressou na Academia Francesa.

Do ponto de vista etnológico, Claude concebe a cultura como um conjunto de sistemas simbólicos cujo primeiro nível é ocupado pela linguagem e por regras matrimoniais, relações econômicas, arte, ciência e religião. Todos esses sistemas expressam aspectos da realidade física e social, sobretudo as relações que esses dois tipos de realidade mantêm entre si e que os sistemas simbólicos mantêm entre eles. Claude foi um dos líderes do estruturalismo nas ciências sociais. No livro “Antropologia Estrutural” da sua lavra, lê-se: “o objetivo do mito é fornecer um modelo lógico para resolver uma contradição”. No livro “O Pensamento Selvagem” ele expõe a sua visão de mundo ao tomar por tema o pensamento em estado natural e comum a todo o ser humano. Claude traça o paralelo entre o pensamento selvagem e o pensamento cultivado. Razão dialética e razão analítica se implicam. A dialética é a analítica em marcha, passarela que a razão analítica lança sobre um abismo do qual não enxerga a outra borda, mas sabe que ela existe e que se afasta constantemente. O pensamento selvagem é totalizante, lógico e intemporal. A finalidade última das ciências humanas não é a de constituir o homem e sim a de dissolvê-lo. Considerando que natureza e cultura estão integradas de fato, a oposição entre ambas deve-se ao método aplicado no estudo. A explicação científica consiste na substituição da complexidade menos por outra mais inteligível. Superestruturas são atos falhos que tiveram êxito socialmente.

Em “Tristes Trópicos”, estilo literário agradável, Claude narra suas viagens marítimas, a ameaçadora sombra do nazismo até chegar a América, dificuldade de sair da Europa por ser judeu, a sua transição da filosofia para a etnografia, as visitas a diversas regiões do Brasil, às tribos indígenas e à Índia. Ele descreve e confronta paisagens urbanas do Rio de Janeiro e de São Paulo, o perfil dos habitantes, os costumes, tal como faz com Calcutá e outras cidades indianas. Claude externa opinião pouco lisonjeira sobre a conduta dos alunos paulistas. À sua narrativa não faltam reflexões filosóficas infusas nas observações de cunho científico como esta: “A liberdade não é nem uma invenção jurídica nem um tesouro filosófico, ou propriedade acarinhada de civilizações mais dignas do que outras por terem sabido produzi-la e preserva-la. Resulta, sim, de uma relação objetiva entre o indivíduo e o espaço que ocupa, entre o consumidor e os recursos de que dispõe”. Na opinião dele – de nítida coloração marxista – não são os sistemas políticos que determinam a forma da existência social e sim as formas de existência é que dão um sentido à ideologia que as exprime. Claude advertia sobre o perigo da confusão entre o progresso do conhecimento e a crescente complexidade das construções do espírito. A Filosofia é vista como espécie de contemplação estética da consciência por si própria e não como a serva da Ciência. O marxismo é ciência humana com perspectiva social; a psicanálise, ciência humana com perspectiva individual. Cita o discurso em que o embaixador Luiz de Souza Dantas, em Paris (1934), afirmava não existir índio no Brasil; os portugueses haviam eliminado todos no século XVI. [O embaixador pretendia passar a imagem de um Brasil branco e civilizado]. Claude menciona o compromisso entre os sábios Victor Marguerite, Keyserling, Ladislas Raymond, Romain Rolland e Einstein: quando um deles publicasse um livro, os outros o louvariam como uma das mais altas manifestações do gênio humano.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

FILOSOFIA XV - 24



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

Albert Camus (1913 a 1960), escritor e filósofo francês que esteve na moda nos anos 1960. Na opinião dele, a dignidade e a liberdade serão possíveis apenas quando o homem se conscientizar do absurdo do universo em que vive. Entre as obras de Albert contam-se: “O Mito de Sísifo” (ensaio), “Calígula” (peça de teatro), “A Peste” e “A Queda” (romances), publicadas entre 1942 e 1956. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. 

Umberto Eco, escritor italiano nascido em 1932, na cidade de Alessandria, professor da Universidade de Bolonha, no âmbito acadêmico dedicou-se à filosofia da linguagem e à semiótica. Esta última palavra ele extraiu da parte final do livro de John Locke “Ensaio Sobre o Entendimento Humano”. Entre as dezenas de textos que ele escreveu sobre essa matéria podem ser citados: “Obra Aberta”, “Apocalípticos e Integrados”, “Tratado Geral Sobre Semiótica”, “Lector in Fabula”, “Os Limites da Interpretação”, publicados entre os anos 1962 e 1990. No seu pensamento, a obra de arte amplia o universo semântico mediante jogos semióticos que repercutem no intérprete. Ele se opõe às posturas: (1) apocalíptica, segundo a qual a cultura de massa é a ruína dos altos valores artísticos; (2) integrada, segundo a qual a cultura de massa resulta da integração das massas na sociedade democrática.

Na literatura, favorecido por sua cultura e atividade acadêmica, Umberto estréia em 1980 com o romance “O Nome da Rosa”, de sucesso internacional e que virou filme. O roteiro é policial: investigação sobre uma série de crimes praticados no interior de um mosteiro no ano de 1327. A história inclui a vida religiosa daquela época e movimentos heréticos. Na biblioteca do mosteiro estão arquivados códigos e livros antigos da cultura grega e latina. O monge investigador soluciona o caso. Descobre a técnica e a astuciosa tática empregadas na consecução dos crimes. Os outros livros, como “O Pêndulo de Foucault”, “Baudolino”, “O Cemitério de Praga”, embora possam agradar, carecem da mesma força emotiva daquela primeira obra.         

Salman Rushdie, indiano radicado na Inglaterra, nasceu em Bombaim no ano de 1947, no seio de família muçulmana liberal e abastada. Formou-se em história no King´s College (Cambridge). Dedicou-se à literatura e seus livros foram publicados a partir de 1971, tais como: “Oriente Ocidente” e “O Último Suspiro do Mouro”. O seu livro intitulado “Os Versos Satânicos”, publicado em 1988, causou celeuma internacional. Considerado blasfemo pelos muçulmanos, Salman tornou-se destinatário da fatwa, a sentença de morte do islamismo. Quem matá-lo terá as bênçãos divinas, merecerá o paraíso e ganhará recompensa em dinheiro. Questionar a validade do sagrado Islã é pecado imperdoável. A liberdade individual, declarada valor supremo no mundo ocidental, não se ajusta ao dever de submissão que caracteriza a religião islâmica. O espírito crítico de Salman também questiona valores do mundo ocidental. Na conciliação dos opostos (oriente x ocidente) ele busca uma resposta para a existência terrena. Questões que os filósofos gregos da Idade Clássica já tratavam, estão implícitas no enredo do livro censurado.

Segundo a narrativa do livro maldito (“Versos Satânicos”), dois atores indianos, Saladin e Gibreel, caem no solo depois de o avião em que viajavam ter sido derrubado por terroristas. Saladin empresta sua voz aos comerciais de televisão. Gibreel é astro do cinema. Um deles se metamorfoseia em diabo e o outro em anjo; um é apolíneo e o outro dionisíaco; um é fiel à sua pátria e o outro quer adquirir a nova nacionalidade. Ambos caíram em solo inglês quando o governo era chefiado pela senhora Thatcher, “a dama de ferro”. A narrativa entrelaça história e fantasia, o ordinário e o fantástico, o profano e o sagrado, o bem e o mal.      

Na pintura, Wassily Kandinski (1866 a 1944), russo naturalizado alemão e francês, sucessivamente, foi pioneiro da arte abstrata. Wassily dispensou os elementos representativos ao pintar os seus quadros. Usou a cor e o traço como expressividade vigorosa. Na série de pinturas intitulada “Composições, Improvisações e Impressões”, Wassily chegou à pura abstração.  

Pablo Picasso, nascido em 1881, na Catalunha, Espanha, radicado em Paris, criou o cubismo, técnica que reduz o objeto da pintura à forma geométrica. Além disto, o pintor ainda desmembra o objeto, separa as várias partes e as arranja de modo distinto do original. Com isto, ele simboliza o caos da vida moderna ao mesmo tempo em que se afasta da tradição e da concepção da arte como expressão do belo. Os cubistas vão ao extremo de recusar cores em seus quadros.

Outro movimento na arte pictórica veio de um poeta italiano: F.T. Marinetti. Ele é o autor do manifesto publicado em 1910, em que declarava guerra sem tréguas aos ideais estéticos do passado. A veneração pelos mestres e pela natureza, a glorificação das idades clássica e medieval, a obsessão pelo erótico e sentimental, tudo deve ser substituído pela devoção à ciência e à tecnologia. Esta corrente foi denominada futurismo. Inspirados na teoria científica da energia, os futuristas adotaram como tema central o movimento. A ilusão do tremido e do vibrátil passou a figurar nos quadros desses pintores (animal correndo, automóvel em velocidade, fábrica em funcionamento). A decoração futurista se faz presente em edifícios públicos e privados e nas estações das estradas de ferro.

Houve outras correntes extremadas, como o expressionismo e o surrealismo, que grassaram entre os pintores do século XX. O expoente do expressionismo foi o pintor alemão George Grosz. A característica desse movimento artístico é colocar na pintura o sentimento do próprio artista. Isto implicou no desprezo da forma e no uso da deformação para representar o estado da alma. Outro movimento contrário aos consagrados padrões da arte e da vida social ficou conhecido como surrealismo, fruto dos efeitos da guerra e do modismo psicanalítico. Os surrealistas, entre eles o desvairado Salvador Dali, têm o propósito de representar principalmente o ser humano e não a natureza. Sondam o subconsciente, os sonhos, as mágicas impressões dos momentos de devaneio. Os padrões convencionais de beleza e forma não preocupam os surrealistas. Para eles, a arte deve ter algum valor como expressão do pensamento.   

O impressionismo também marca presença na escultura, deformada e mais abstrata. Os materiais utilizados pelos escultores se diversificaram (rocha, metal, vidro, madeira, gesso, excremento).

A fotografia entra definitivamente para o mundo da arte ao lado da pintura e demais expressões artísticas. Escolas, museus e salões recebem-na. Criatividade e expressividade de fotógrafos futuristas, expressionistas e surrealistas ao fotografarem pessoas, objetos, paisagens. 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

FILOSOFIA XV - 23



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

Simone de Beauvoir (1908 a 1986), francesa, escritora de romances e ensaios, era adepta da filosofia existencialista. Embora não se considerasse feminista, Simone foi ícone do movimento feminista, principalmente por seus livros “O Segundo Sexo”, “Os Mandarins” e “Memórias de uma Moça Bem-Comportada”, publicados em 1949, 1954 e 1958, respectivamente. No primeiro, ela defende os direitos da mulher; no segundo, descreve o círculo existencialista em Paris após a segunda guerra mundial; no terceiro, narra fases da sua vida. Em “A Força da Idade”, publicado em 1960, Simone conta fatos da sua vida ocorridos entre 1929 e 1944, tais como: (1) o seu curso de filosofia; (2) o seu encontro e convívio com Jean-Paul Sartre e a primeira separação; (3) o tempo da sua formação literária, filosófica e política; (4) o seu magistério e o apogeu do existencialismo; (5) as viagens, amizades, ocupação da França pelos alemães e a libertação.

No pórtico do “Segundo Sexo”, Simone faz duas citações a indicar parâmetros: Há um princípio bom que criou a ordem, a luz e o homem, e um princípio mau que criou o caos, as trevas e a mulher (Pitágoras). Tudo o que os homens escreveram sobre as mulheres deve ser suspeito, pois eles são, a um só tempo, juiz e parte (Poulain de la Barre, século XVII).

Simone busca alicerces na historia, no mito e na ciência. Critica a posição subalterna da mulher na historia da humanidade. O homem é o sujeito, o absoluto, enquanto a mulher é o “outro”. Na Biologia, ela busca o amparo para demonstrar a injustificada desigualdade social entre o homem e a mulher. Examina a questão também do ponto de vista psicanalítico. Na mulher, o homem projeta todas as fêmeas do reino animal que se deitam servilmente para a posse do macho. Os fenômenos da multiplicação assexuada e da partenogênese não se mostram nem mais e nem menos fundamentais do que os da reprodução sexuada. Na maioria das espécies, há cooperação mútua entre os organismos masculino e feminino para reprodução. A mulher conhece uma alienação mais profunda quando o ovo fecundado desce ao útero e aí se desenvolve. A atividade ovariana, que desaparece com a menopausa após os 45 anos de idade, traz efeitos psicossomáticos. Os dados biológicos desempenham papel relevante na história da mulher. A eventual fraqueza muscular da mulher comparada à força do homem não significa fraqueza moral e intelectual. A mulher tem que ser vista e avaliada dentro de um contexto biológico, psicológico, econômico e social. Não é a natureza que define a mulher e sim a mulher que se define retomando a natureza em sua afetividade. Freud não se preocupou muito com o destino da mulher. Embora admita que em termos evolutivos a sexualidade da mulher está no mesmo nível da sexualidade do homem, Freud sustenta que a essência da libido é masculina, surja ela no homem ou na mulher. Uma vida é uma relação com o mundo. Escolhendo-se através do mundo é que o indivíduo se define; é para o mundo que nos devemos voltar a fim de responder questões que nos preocupam. A mulher se define como ser humano em busca de valores no seio de um mundo de valores, mundo cuja estrutura econômica e social é indispensável conhecer. A mulher deve se precaver contra o gosto pelo poder e evitar os defeitos dos homens. A teoria do materialismo histórico evidenciou verdades importantes. A humanidade não é uma espécie animal e sim uma realidade histórica. A sociedade humana não sofre passivamente a presença da natureza; ela a retoma em suas mãos. O destino da mulher e o destino do socialismo estão intimamente ligados. A mulher e o proletário são oprimidos. Ética verdadeiramente socialista que procure a justiça sem suprimir a liberdade, que imponha encargos aos indivíduos sem abolir a individualidade, ver-se-á embaraçada com os problemas postos pela condição da mulher. O monismo sexual de Freud e o monismo econômico de Engels são inadequados para explicar e compreender a mulher. A tendência da humanidade é a de superar-se. A mulher há de superar a sua posição subalterna na sociedade libertando-se dos grilhões que lhe foram postos.

Marguerite Duras (1914 a 1996), nascida Marguerita Donnadieu, na colônia francesa de Saigon, Indochina, onde passou a infância e a adolescência. Mudou-se para Paris, cursou Direito e Ciência Política na Sorbonne. Formou-se em 1935. Filiou-se ao partido comunista, participou ativamente da resistência francesa durante a segunda guerra mundial quando a França foi invadida pelas tropas alemãs. A partir de 1943, começa a publicar seus livros, dos quais “O Amante” se destacou por seu valor literário e rendeu a Marguerite o Prêmio Goncourt em 1984. O livro cobre o período de 1932 a 1949. Trata da experiência de vida da autora, sua mãe e irmãos na Indochina, do seu primeiro caso de amor com o filho de um milionário chinês aos quinze anos de idade, de quem ela se torna amante. Descreve a navegação no Rio Saigon, braço do Rio Mekong, a insuficiência ou ausência de rodovias e ferrovias na região, os navios que ligavam a Indochina à França em demoradas viagens de 24 dias até que fossem criadas as primeiras linhas aéreas. A narrativa alcança a vida adulta da autora em Paris, a morte da mãe e do irmão mais novo. Refere-se ao péssimo caráter do irmão remanescente, larápio, gigolô, viciado, que vendeu os bens da família, ficou na miséria, primeiro emprego como vigia de fábrica aos 50 anos de idade. No seu livro “A Dor”, lê-se: Essa nova face da morte organizada, racionalizada, descoberta na Alemanha, antes da indignação, desperta perplexidade. Fica-se assombrado. Como continuar a ser alemão? Buscam-se equivalências em outras partes, em outros tempos. Não existe nada. Uma das maiores nações civilizadas do mundo, a capital da música de todos os tempos, acaba de assassinar 11 milhões de seres humanos de maneira metódica, perfeita de uma indústria de Estado. Além de dezenas de livros, Marguerite produziu peças de teatro e filmes como diretora e roteirista. Entre estes, destaca-se “Hiroshima meu Amor”. 

José Saramago, romancista, poeta, dramaturgo, nascido em 1922 na província do Ribatejo, em Portugal, granjeou fama internacional com seus livros. Da sua produção intelectual constam: “Levantado do Chão”, “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, “Ensaio Sobre a Cegueira”, “O Homem Duplicado”, publicados entre 1980 e 2002. Em “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, José dá vestes próprias aos eventos narrados no evangelho. Ele se vale da imaginação e da licença artística como ao narrar a visita do anjo a Maria disfarçado de mendigo, a gruta em que ela estava com o filho recém nascido, o terror provocado pelo decreto de Herodes, a fuga, os diálogos com deus, a ovelha que Jesus titubeava em sacrificar e que deus insistia fosse morta, o debate entre deus e o diabo, e assim por diante. Nada de pieguice. Nada de milagre. Palavras aos borbotões. Costumes e fatos históricos citados como pano de fundo. O ostensivo a ocultar o recôndito. A terra mais saliente do que o céu. Recebeu o Premio Nobel.

Milan Kundera, escritor nascido em 1929, na cidade de Praga, Tchecoslováquia, testemunha a sujeição do seu país ao regime comunista. Trabalhou como operário, foi músico de jazz e se dedicou à literatura. Seu primeiro livro intitulado “A Brincadeira”, publicado em 1967, inscreve-se no movimento de libertação que culminou com a invasão do país pelas tropas soviéticas em 1968 (Primavera de Praga). A partir daí, os seus livros foram proibidos. Milan mudou-se para a França (1975). Tal qual o seu conterrâneo Kafka, para Milan também a vida é um absurdo, destituída de qualquer significado, ora sonho, ora pesadelo. A sua experiência de vida ajudou-o a escrever “A Insustentável Leveza do Ser”, notável romance de amor e erotismo que tem como personagens dois casais que nas suas mútuas relações acabam se atraindo para fins libidinosos. Há separações e trocas. O romance expõe problemas do relacionamento humano num cenário político opressivo (1983).   

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

FILOSOFIA XV - 22



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

Aldous Leonard Huxley (1894 a 1963), escritor inglês, faz o seu primeiro poema aos 13 anos de idade: “Cavalos do Mar”. Forma-se em letras pela Universidade de Oxford (1915). Publica versos em revistas inglesas a partir de 1916. Mudou de paradeiro por duas vezes: Suíça e EUA (Los Angeles). Extensa foi a sua produção literária na qual se incluem: “Limbo”, “Essas Folhas Mortas”, “Contraponto”, “Sem Olhos em Gaza”, “As Portas da Percepção”, “A Ilha”, livros publicados no período de 1920 a 1962. Criou também a utopia “Admirável Mundo Novo”, futura sociedade humanamente padronizada que soluciona o problema do excesso de população pela esterilização metódica. Sociedade totalitária organizada em castas. Ridiculariza a fé no progresso científico e materialista. Projetou a dimensão mística e filosófica da sua personalidade em “A Filosofia Perene”, onde salienta a raiz comum de todas as crenças conhecidas. Busca amparo nas escrituras de santos e profetas, nos pensadores chineses (taoísmo), nos ensinamentos de Sidarta e Maomé (budismo e islamismo), nos textos hindus (bramanismo), no antigo testamento (judaísmo) e novo testamento (cristianismo), comentando esse patrimônio místico e religioso da humanidade. A exposição de Aldous favorece a reflexão e o debate sobre os temas religiosos do passado e do presente e possibilita a avaliação da conduta dos indivíduos e comunidades através dos séculos, panorama de comportamentos individuais e coletivos contraditórios reveladores da distância entre a crua realidade dos fatos, de um lado e as doutrinas e teorias, de outro.         

Antoine de Saint-Exupéry (1900 a 1944), escritor francês, ilustrador, participou da segunda guerra mundial como piloto de avião das Forças Francesas Livres, no Mediterrâneo. O seu avião foi abatido por fogo inimigo (alemão). O mar foi a sua sepultura. Antoine escrevia artigos para revistas e jornais franceses e alguns romances como “O Aviador”, “Correio do Sul”, “Terra dos Homens”, “Piloto de Guerra”, no período de 1926 a 1942. No entanto, o livro que o consagrou foi “O Pequeno Príncipe”, fábula para despertar a criança que mora no coração do adulto e questionar a hierarquia dos valores da humanidade. O autor se faz personagem nos seus diálogos com o pequeno visitante oriundo de um pequeno planeta. O príncipe visitante queria um pequeno carneiro para comer arbusto em seu planeta e impedir que crescessem árvores grandes como o baobá, mas que fossem preservadas as flores. O príncipe viaja por asteróides vizinhos ao seu planeta nos quais encontra determinados tipos de pessoa. No primeiro asteróide, o rei que não tinha súdito e ficou alegre com a sua chegada para poder exibir autoridade sobre alguém. No segundo asteróide, o vaidoso que via no visitante um seu admirador. No terceiro, o bêbado que bebia para esquecer que tinha vergonha de beber. No quarto, o homem de negócios que contava as estrelas das quais se julgava proprietário e não tinha tempo para mais nada, nem para cuidar da saúde. No quinto, o menor dos asteróides, o zelador do lampião cuja tarefa era acendê-lo e em seguida apaga-lo e tornar a acender e apagar, sucessivamente, sem parar porque este era o regulamento e o planeta girava cada vez mais depressa, quase sem intervalo entre o dia e a noite. No sexto asteróide, dez vezes maior do que o anterior, o geógrafo que escrevia livros enormes, mas que não sabia se havia oceano, cidade, rio e deserto em seu planeta porque não era explorador e não podia se afastar da sua escrivaninha, mas sabia que há coisas efêmeras e coisas que não mudam. A última visita do príncipe foi no planeta Terra. Ele pousou no deserto da África e o primeiro ser que encontrou foi uma serpente que o informou sobre a sua localização e o motivo de ali não haver humanos. Depois, ele encontra uma flor que lhe diz existirem na Terra seis ou sete homens que ela viu certa vez em caravana; que eles não gostam de fincar raízes e o vento os leva. O príncipe escalou uma montanha, ouviu o eco da sua voz e pensou tratar-se da voz dos homens e os julgou sem imaginação por repetirem o que ele dizia. Na sua caminhada, ele se deparou com um jardim cheio de rosas. Conversou com elas. Chorou desolado porque pensava que a rosa do seu planeta era a única do universo. Ele escuta um cumprimento. A raposa se identifica e se nega a brincar com ele porque ainda não foi cativada. Diz que, se for cativada, ela será necessária a ele e ele a ela. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas, disse a raposa. O príncipe entendeu que a rosa do seu planeta era a única no universo porque ela o cativara. Prosseguiu sua caminhada e finalmente encontrou alguns homens: o guarda-chaves que despacha os trens em direções opostas; o vendedor que vendia pílulas para aplacar a sede; o piloto a consertar o avião, com quem ele travou diálogos sobre a sua experiência e os valores humanos. Encerrada a visita, o pequeno príncipe regressa ao seu pequeno planeta.              

André Malraux (1901 a 1976) participou da resistência francesa na segunda guerra mundial, escritor festejado como um dos expoentes da literatura mundial. Escreveu várias obras de caráter político, social e filosófico. A sua última “L´Homme Precaire et la Literature” foi publicada após a sua morte. Destacam-se ainda: “La Condition Humaine”, inspirada no levante comunista chinês, “Esperança”, inspirada na guerra civil espanhola e “La Métamorphose des Dieux”.

Haldór Laxness, romancista nascido em 1902 na Islândia, sofreu influência de crenças e idéias católicas, socialistas e comunistas. Critica a instalação de bases estadunidenses na Islândia, país pacífico e cenário das suas obras. Ataca a moderna política de poder. Descreve pessoas lutando contra um mundo hostil em busca de independência. Escreveu: “Salka Valka”, “Luz do Mundo”, “A Base Atômica” e “Guerreiros Felizes”. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura.

Marguerite Yourcenar (1903 a 1987) escritora belga, nascida Marguerite Cleenewerck de Crayencour, em Bruxelas, recebeu educação doméstica e ainda na infância aprendeu latim e grego. Após a morte do seu pai em 1929, levou uma vida boêmia viajando pela Europa. Em decorrência da proximidade da segunda guerra mundial, Marguerite muda-se para os EUA em 1939, onde se radica. Posteriormente, adquire cidadania americana. Isto não impediu sua admissão na Academia Francesa em 1980. Marguerite escreveu quase duas dezenas de livros em língua francesa. No primeiro (1929), intitulado “Aléxis”, o personagem central, músico famoso, envia carta à esposa confessando a sua homossexualidade e declarando o propósito de romper o casamento. “Memórias de Adriano” foi a sua obra-prima. Ficou conhecida internacionalmente. Na pessoa desse imperador romano a autora exemplifica os elevados atributos do humanismo da Idade Clássica. Apesar do cenário geográfico, social e político, o livro não é biográfico e sim ficcional, um romance extraordinário inspirado na História.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

FILOSOFIA XV - 21



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

Na literatura do século XX, os realistas se extremam na linguagem picante dos marinheiros e vagabundos, na maneira bronca e indelicada dos trabalhadores se expressarem. Os temas mais freqüentes são: civilização burguesa degenerada, crueldade do sistema fundado no lucro, estupidez da guerra, corrupção, ignorância e intolerância.

Anatole France (1844 a 1924) satirizou a loucura humana. Escreveu ensaios, historietas maliciosas, sátiras religiosas e políticas. Em “O Jardim de Epicuro”, ele valorizou a ironia gentil e bondosa “que nos ensina a rir dos maldosos e dos tolos que poderíamos, sem ela, ter a fraqueza de odiar”. Anatole fez parceria com Emile Zola no vigoroso ataque contra os perseguidores de Dreyfus. Aliou-se também aos socialistas ao se convencer da injustiça reinante na sociedade moderna. Foi contemplado com o Prêmio Nobel de Literatura.

Arthur Conan Doyle (1859 a 1930), médico escocês, prestou seus serviços em duas guerras (Afeganistão + Transvaal), fixou residência em Londres e se dedicou à literatura. Criou dois personagens amigos e narrou suas aventuras que ganharam o mundo e ainda fazem sucesso: o detetive Sherlock Holmes e o médico Dr. Watson.  

Maurice Maeterlinck (1862 a 1949), poeta, ensaísta, dramaturgo, nasceu na Bélgica, viveu parte da sua vida em Paris, onde aderiu ao simbolismo. A sua peça teatral mais famosa intitula-se “Pélleas et Melisande”, animada pela música de Debussy. Simplicidade e poder de persuasão caracterizam a coletânea poética “As Estufas Quentes”. Escreveu, entre outros, os ensaios “A Vida das Abelhas” e “A Morte”. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura.

Maurice Leblanc (1864 a 1941) francês, nascido no seio de rica família da Normandia, jornalista, mestre da ficção policial, criou o tipo de gatuno elegante, inteligente, espirituoso, charmoso, mais esperto do que os detetives mais célebres: Arsène Lupin. No livro “Arsène Lupin contra Sherlock Holmes”, o autor contrapõe o inglês defensor da lei ao heróico francês violador da lei. Entre os seus contos de maior sucesso consta o “Arsène Lupin na Prisão”, engenhoso e magistral. Entre as suas obras mais lidas estão “Ladrão de Casaca” e “A Agulha Oca”. Filmes modernos para o cinema e a televisão seguem o modelo Leblanc: a delinqüência bem sucedida de personagens inteligentes e encantadores.

Luigi Pirandello (1867 a 1936) italiano, poeta, romancista, contista, novelista, dramaturgo, renovador do teatro, originalidade e senso de humor, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, cuja medalha de ouro doou ao governo italiano na campanha “coleta de ouro” iniciada por Mussolini como resposta às sanções econômicas impostas à Itália pela Liga das Nações. Sua obra é extensa: peças de teatro e livros. Delas saíram os filmes: “A Viagem Proibida”, “Enrico IV” e “Lê Due Vite di Mattia Pascal”. Afirmava que o cômico nasce de uma percepção do contrário. Distinguia o cômico do humorístico. Entre os seus escritos contam-se principalmente: “Assim é, se lhe parece”, “Seis Personagens à Procura de um Autor”, “Cada um a seu modo”, “Um, Nenhum, Cem, Mil”, “O Falecido Matias Pascal”.   

Marcel Proust (1871 a 1922), um dos maiores escritores da escola realista francesa, filho de um médico e de uma judia rica, sofria de asma, prestou serviço militar e morreu em decorrência de pneumonia. Ele escreveu diversos artigos e ensaios. Na série “Em Busca do Tempo Perdido”, sua mais famosa obra, composta de sete livros, o personagem central é sempre o mesmo, de saúde precária, pessoa rica que freqüenta a alta sociedade parisiense, cuja vida é narrada desde a infância até a velhice, com os amores da adolescência e da maturidade e seus desenganos. A narrativa mostra a relação do personagem com o pai, com a mãe, com a avó, com a empregada (vida doméstica), com o pederasta Charlus e com o oficial militar Saint-Loup, ambos nobres, com a duquesa de Guermantes, com Odete, Gilberte, Albertine e outras mulheres (vida social). Conta viagens a cidades francesas de nome fictício e a Veneza. Em prosa atraente com frases interpoladas em períodos longos, Marcel descreve a moda e os costumes do século XIX. Menciona o caso Dreyfus. De modo ousado para a época, inclui a prostituição, a pederastia e o lesbianismo na obra. [Marcel era homossexual]. Faz cuidadosa análise psicológica e registra as mudanças na aparência e na conduta dos personagens operadas na passagem do tempo. Aqui, certamente, inspira-se no pensamento de Pascal: “Mudamos com a passagem do tempo. Os amigos do passado distante não são os mesmos. Assim também os amores. Olhamos as coisas com outros olhos. Todos os prazeres não passam de vaidades”. Marcel retrata a realidade social e econômica da nobreza decadente e da burguesia ascendente. Relata com detalhes as reuniões sociais nos salões e a competição entre as madames para ver quem reunia no seu salão as pessoas mais ilustres. O convite para a reunião media o prestígio de quem o recebia. Marcel mostra conhecer o estágio científico e as nuances filosóficas e políticas da sua época.

William Somerset Maugham (1874 a 1965), nasceu em Paris quando o pai servia na embaixada inglêsa, ainda criança voltou para a Inglaterra. Romancista, contista e dramaturgo inglês, viveu entre os pobres enquanto estudava medicina. Esta experiência inspirou o seu romance de estréia: Liza of Lambeth. Em “Servidão Humana” narra, com base na sua própria vida, uma adolescência solitária e o doloroso caminho em direção à maturidade. Inspirado na vida do pintor Paul Gauguin, escreveu “Um Gosto e Seis Vinténs”. Com base na sua experiência de viajante escreveu: “Histórias dos Mares do Sul”, “Um Drama na Malásia”, “A Carta”, “Chuva”.    

Thomas Mann (1875 a 1955), alemão, filho de um senador e rico comerciante da cidade de Lübeck, romancista, contista, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Seus primeiros contos foram reunidos em um volume intitulado “O Pequeno Senhor Friedman”. Depois publicou “O Buddenbrook”, livro que o tornou célebre. Outras obras de menor vulto lhe seguiram como “A Morte em Veneza”, adaptada para o cinema, “Tristão”, “Tobias Mindernickel”, pequeno conto em que o personagem que o intitula, solitário e esquisito, adquire um cão e dele cuida com carinho, mas, de modo inexplicável e infame, em certo dia, no seu apartamento, mata o animal com uma facada. Thomas ainda publicou o livro considerado um dos maiores do século: “A Montanha Mágica”. Mudou-se para os EUA, para fugir do nazismo e depois para a Suiça. Prosseguiu na sua produção literária: “Cabeças Trocadas”, “Doutor Fausto”, “Os Famintos”.

James Augustine Aloysius Joyce (1882 a 1941), romancista e poeta irlandês, colocado no Olimpo literário ao lado de Proust e Kafka, educado em regime de internato na cidade de Dublin, ele sai da sua terra natal por discordar da intolerância do catolicismo romano ali reinante. Erra por Trieste, Zurique e Paris. Revolucionou a estrutura do romance. Contribuiu para a chamada corrente da consciência. Influenciado pela psicanálise, James busca retratar em suas obras o que se passa na mente humana. As palavras adquirem inúmeros significados de modo a sugerir uma fragmentação do pensamento comum. Em “Ulysses”, sua obra-prima, paródia da “Odisséia” de Homero, ele navega do realismo à fantasia ao relatar um dia na vida de Leopold Bloom, um personagem comum (1922). Em “Finnegans Wake”, ele conta a história de Chimpden Earwicker, taberneiro de Dublin (1939).         

Franz Kafka (1883 a 1924), romancista, contista, nasceu em família rica, na cidade de Praga, na Boêmia (Tchecoslováquia), sob o império austro-húngaro. Formou-se em direito e exerceu a advocacia. Apesar do namoro com quatro mulheres e o noivado com uma delas, preferiu o celibato. O pai não o reconheceu como escritor. Na obra de Franz, marcam presença: o fantástico, o humor grotesco, a culpa, a dúvida, a autoridade e a liberdade. A sua morte ocorreu no sanatório de Kierling, próximo a Viena, em conseqüência da doença nos pulmões. No idioma alemão, escreveu romance, conto, novela, tais como: “Carta ao Pai”, “O Veredicto”, “Na Colônia Penal”, “O Castelo”. Franz narra a submissão de um filho à sentença de morte proferida pelo pai durante conversa doméstica. Em “Metamorfose”, a sua imaginação trabalhou mais na esfera do fantástico. Enquanto escrevia, leu o primeiro capítulo aos amigos em um bar e todos riram às gargalhadas, inclusive ele. O personagem central, Gregor Samsa, solteiro, morava com seus pais e sua irmã. Certa manhã, ao acordar, ele percebe que se transformou em um inseto monstruoso. Durante meses causa problemas à família. Finalmente, morre, para alívio de todos. Com uma vassoura, a criada o retira do quarto. Em “O Processo”, considerado o seu melhor romance, fica evidente a formação jurídica de Franz. O personagem Josef K, procurador de um banco, que morava em cômodo alugado na casa da senhora Grubach, esperava pelo café da manhã que lhe traria Anna, a criada, quando vê o seu quarto invadido por um homem enquanto outro aguardava na sala. Sem lhe dar explicações, o homem comunicou-lhe que estava detido. Assim, tem início o processo que Josef respondeu em liberdade, autorizado a continuar seu trabalho no banco e seguir a sua vida habitual, que incluía freqüência a uma cervejaria após o trabalho e visitas esporádicas a Elsa, sua amiga e amante. O processo tinha seus trâmites perante tribunal de exceção, onde Josef prestava depoimento e dialogava com diversas pessoas desconhecidas. No final, Josef é executado por dois indivíduos supostamente oficiais de justiça que cumpriam ordens. O motivo da acusação e da condenação não foi revelado.

Nikos Kazantzakis (1883 a 1957), grego, poeta, romancista, nasceu na ilha de Creta, da qual faz tema recorrente em sua obra. Os seus romances foram adaptados para o cinema: “Zorba”, “Cristo Recrucificado” e “A Última Tentação de Cristo”. 

Andrés Maurois (Emile Salomon Wilhelm Herzog, 1885 a 1967), francês, nascido no seio de rica família de industriais de Elbeuf, romancista, contista, membro da Academia Francesa. Seus primeiros livros foram: “O Silêncio do Coronel Branbles” e “Os Discursos do Dr. O´Grady”. As obras que o tornaram célebre foram biografias de Byron, Sheley e Disraeli, que se tornaram clássicas neste gênero de literatura. No comovente conto “O Mal-entendido”, narra a história de Neuville, jovem e sedutor diplomata e Beatriz, jovem e bela francesa, governanta de outra família nobre na Áustria. Os dois se amavam, mas não se tornaram amantes e nem cônjuges porque ela não acreditava na sinceridade do amor daquele Don Juan. Ela se casou com outro. Ele nunca se casou, sempre fiel à lembrança de Beatriz. No final da vida, depois de quarenta anos de separação, ela soube notícia dele e do verdadeiro e sincero amor que ele lhe devotara certo de que ela não o amava. Ao amigo mensageiro ela confessa que sempre o amara, mas se recusou a visitá-lo para não apagar a imagem da sua juventude. Na semana seguinte dessa troca de informações, Neuville morre com mais de oitenta anos de idade, sem rever aquela mulher que ele amara por toda a vida e da qual fora separado por um mal-entendido.      

François Mauriac (1885 a 1970), romancista francês, a sua obra provém de uma visão religiosa e pessimista da vida. Seus personagens se debatem na luta entre o corpo e o espírito. O cenário de sua predileção é o sudoeste da França, onde o calor e a floresta contribuíram para o clima emocional dos seus romances. Nesse clima, desenrola-se a história de “Thérèse Desqueyroux”, seu romance mais conhecido. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura.

Agatha Christie (1891 a 1976), inglesa, romancista, contista, dramaturga, poetisa, escreveu livros, peças de teatro e ficção policial. Seus livros tiveram grande aceitação pelo público. Escritora mais publicada no mundo, depois de Shakespeare e da Bíblia. Entre os personagens que criou, presentes em muitas das aventuras narradas, estão Hercule Poirot, detetive belga que morava em Londres, e seu amigo Arthur Hasting. O detetive de meia idade, vaidoso, inteligente, tem excepcional faro para seguir a pista certa. O amigo relata as aventuras do detetive e se coloca sempre como menos perspicaz, sempre vencido pelo raciocínio do outro. Algumas das obras de Agatha foram adaptadas para o cinema, como “A Testemunha do Processo” e “Assassinato no Expresso do Oriente”. Outra obra de grande sucesso foi “O Caso dos Dez Negrinhos”. Ela primava por esconder a identidade do assassino e por finais inesperados. 
 

Vladimir Mayakovsky (1894 a 1930), russo, poeta, dramaturgo, preso diversas vezes pelo governo soviético por subversão. Vladimir liderou o movimento futurista. Os mitos da revolução lhe serviram de matéria para longos poemas. Dirigiu peças teatrais criticando o provincianismo que se seguiu à revolução russa. O governo soviético impediu-o de viajar para o exterior. Ele se suicidou. Poemas mais conhecidos: “Okay”, “Do Alto da Minha Voz” e “Sobre Isto”.