segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

FILOSOFIA XV - 20



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

A conquista do espaço sideral, os problemas comuns em escala planetária e as comunicações sem fronteiras geram consciência cosmopolita, ou seja: as pessoas expandem sua consciência individual para além de si mesmas, do seu lar, da sua cidade, do seu país e do seu planeta. A Física especula sobre: (1) o limite espacial do universo; (2) a matéria escura; (3) o plasma universal; (4) as múltiplas dimensões em nível subatômico. Introduz o acaso e o caos na especulação científica. Diversifica-se a aplicação do raio laser, das fibras óticas e do silício (chip eletrônico, semicondutores em transistores, cristais para relógios de precisão, aplicação no aço, bronze, vidro). Aperfeiçoam-se aparelhos de sondagem interna do corpo humano e técnicas cirúrgicas. A humanidade percebe que mananciais podem secar, a poluição afeta o clima e a saúde, o aquecimento global provoca degelo no pólo e elevação do nível do mar.

O código genético é decifrado. A engenharia genética se desenvolve. Há clonagem de animais a partir da experiência com a ovelha Dolly, na cidade de Edimburgo, primeiro animal mamífero gerado de uma célula extraída de animal adulto (1996). Empresas passam a produzir animais clonados que entram no comércio pecuário. Debates sobre pesquisa genética ensejam nova disciplina: Bioética. A UNESCO promulga a “Declaração Universal sobre o Genoma Humano e os Direitos Humanos” (11.11.1997). Órgãos são transplantados de pessoa para pessoa. Christian Neethling Barnard (1922 a 2001), médico cirurgião sul-africano, revolucionou a cardiologia ao realizar o primeiro transplante de coração conhecido no mundo (1967). Causou polêmica ao defender e praticar a eutanásia em doentes terminais (inclusive sua mãe). A igreja cristã opõe-se à pesquisa científica com célula tronco-embrionária, ao aborto, a métodos anticoncepcionais e a uniões homossexuais. Aids, câncer, diabetes e epidemias multiplicam o número de vítimas no mundo e exigem pesquisas de controle e erradicação. Drogas com efeitos colaterais danosos são lançadas no mercado pelos laboratórios (o mundo se alarmou com as vítimas da talidomida). Fora da Europa, há países carentes de remédios, assistência médica, alimentos, moradia, saneamento básico e escolas. Países europeus prestam assistência aos consumidores de bebidas alcoólicas, tabaco, maconha e outras drogas, independente de persecução criminal.

A robotização aumenta a produtividade e reduz o número de trabalhadores nas fábricas, o que contribui para agravar o problema do desemprego. Cresce o consumo de energia e a demanda por automóveis, computadores, telefones celulares e outros produtos tecnológicos. Os meios de comunicação social padronizam condutas e opiniões, fazendo do planeta uma aldeia global, como dito por MacLuhan. A sensibilidade moral se atrofia com a passividade do sujeito diante do aparelho de televisão ligado. Gente feia, faminta, desnutrida, maltrapilha, doente, sem teto, filmados nos países da África; gente bonita, bem nutrida, bem vestida e agasalhada, saudável, em lugares paradisíacos com casas, automóveis, jatinhos e barcos luxuosos, filmados na América e na Europa; cenas que desfilam pelos olhos indiferentes do telespectador.    

A literatura no século XX ganhou reforço com a instituição, na Suécia, do Prêmio Nobel (1901). A premiação é realizada todos os anos sob a direção da academia sueca. A fama do escritor e a extensão territorial em que a obra é conhecida pesam pouco na avaliação. Possivelmente, 99,9% da população mundial nunca ouviram falar dos escritores premiados. Certamente, o público maior desses escritores é composto de professores e alunos do curso de Literatura nas diferentes universidades da Europa e da América. Fatores políticos, econômicos e sociais entram no processo de escolha. O prêmio pode ser outorgado a um escritor em dificuldade financeira; a outro, pela defesa da liberdade em país totalitário; a outro, por se relacionar bem com a comunidade de escritores e editores, e assim por diante. Inúmeros escritores que mereciam o prêmio não foram escolhidos. Entre eles estão: Tolstoi, Proust, Joyce, Kafka, Ibsen, Zola, Valery, Amado, Borges, Galeano. Houve duas recusas: a de Boris Pasternak, impedido de receber o prêmio pelo governo soviético (1958) e a de Jean-Paul Sartre, que se negou a recebê-lo por se considerar filósofo e não literato (1964).

Do total de 111 (cento e onze) escritores premiados até 2014, 10 (dez) são mulheres e 1 (um) é negro. A maioria é da Europa. Até a segunda guerra mundial, foram abertas duas exceções: uma para a Índia, em 1913 e outra para os EUA, em 1930, 1936 e 1938 (era importante o apoio americano na guerra que estava prestes a eclodir). Depois da guerra, novas exceções: 6 (seis) prêmios para os EUA entre 1948 e 1998; 2 (dois) prêmios para: o Chile em 1945 e 1971, o Japão em 1968 e 1994, a África do Sul em 1991 e 2003, a China em 2000 e 2012; 1 (um) prêmio para: Israel em 1966, Guatemala em 1967, Austrália em 1973, Colômbia em 1982, Nigéria em 1986, Egito em 1988, México em 1990, Peru em 2010 e Canadá em 2013. Por ordem cronológica de premiação em cada continente, a partir de 1901 até 2014 inclusive, foram agraciados:

EUROPA: Sully Prudhomme, França; Theodor Mommsen, Alemanha; Bjornstjerne Bjornson, Noruega; José Echegaray, Espanha; Frédéric Mistral, França; Henrik Sienkiewicz, Polônia; Giosué Carducci, Itália; Rudyard Kipling, Reino Unido; Rudolf Eucken, Alemanha; Selma Lagerlöf, Suécia; Paul J.L. von Heyse, Alemanha; Maurice Maeterlinck, Bélgica; Gerhart Hauptmann, Alemanha; Romain Rolland, França; Verner von Heidenstam, Suécia; Karl Adolph Gjellerup e Henrik Pontoppidan, Dinamarca; Carl Spittele, Suíça; Knut Hamsun, Noruega; Anatole France, França; Jacinto Benavente, Espanha; William Butler Yeats, Irlanda; Wladyslaw Reymont, Polônia; George Bernard Shaw, Irlanda; Grazia Deledda, Itália; Henri Bérgson, França; Sigrid Undset, Noruega; Thomas Mann, Alemanha; Erik Axel Kailfeldt, Suécia; John Galsworthy, Reino Unido; Ivan Bunin, URSS; Luigi Pirandello, Itália; Roger Martin du Gard, França; Frans Eemil Sillanpää, Finlândia; Johannes Vilhem Jensen, Dinamarca; Hermann Hesse, Alemanha; André Gide, França; Bertrand Russell, Reino Unido; Pär Lagerkvist, Suécia; François Mauriac, França; Winston Churchillj, Reino Unido; Halldón Laxness, Islândia; Juan Ramón Jiménez, Espanha; Albert Camus, França; Boris Pasternak, URSS; Salvatore Quasimodo, Itália; Saint-John Perse, França; Ivo Andríc, Iugoslávia; Giórgos Seféris, Grécia; Jean-Paul Sartre, França; Michail Sholokhov, URSS; Nelly Sachs, Alemanha; Samuel Beckett, Irlanda; Alexander Soljenitsin, URSS; Henrich Böll, Alemanha; Eyvind Johnson e Harry Martinson, Suécia; Eugênio Montale, Itália; Vicente Alexandre, Espanha; Isaac Bashevis Singer, Polônia; Odysséas Elytis, Grécia; Czeslaw Mitosz, Polônia; Elias Canetti, Turquia; William Golding, Reino Unido; Jaroslav Seifert, República Checa; Claude Simon, França; Joseph Brodsky, URSS; Camilo José Cela, Espanha; Derek Walcott, Santa Lúcia; Seamus Heaney, Irlanda; Wistawa Szymborska, Polônia; Dario Fo, Itália; José Saramago, Portugal; Günter Grass, Alemanha; Vidiadhar Naipaul, Reino Unido; Imre Kertész, Hungria; Elfriede Jelinek, Áustria; Harold Pinter, Reino Unido; Orhan Pamuk, Turquia; Doris Lessing, Reino Unido; Jean-Marie G. Lê Clésio, França; Herda Muller, Alemanha; Thomas Tranströmer, Suécia; Patrick Modiano, França. AMÉRICA: Sinclair Lewis, Eugene O´Neill e Pearl S. Buck, EUA; Gabriela Mistral, Chile; T.S. Eliot, William Faulkner, Ernest Hemingway e John Steinbeck, EUA; Miguel Angel Astúrias, Guatemala; Pablo Neruda, Chile; Saul Bellow, EUA; Gabriel Garcia Márquez, Colômbia; Octávio Paz, México; Toni Morrison, EUA; Mario Vargas Llosa, Peru; Alice Munro, Canadá. ÁFRICA: Wole Soyinka, Nigéria; Naguib Mahfouz, Egito; Nadine Gardiner e J.M. Coetzee, África do Sul. ÁSIA: Rabindranath Tagore, Índia; Shmuel Yosef Agnon, Israel; Yasunari Kawabata e Kenzeburo Oe, Japão; Gao Xingjian e Mo Yan, China. OCEANIA: Patrick White, Austrália.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

FILOSOFIA XV - 19



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

Houve estímulos recíprocos entre a revolução intelectual e a revolução industrial. Elevou-se o padrão de vida na sociedade européia. A ânsia por conforto e prazer estimula a produção de utilidades cada vez mais aperfeiçoadas e diversificadas. Algumas demandas são provocadas pelos produtores. Ante a insaciável sede de conhecimento e progresso foram criadas associações de cunho científico cujo patrocínio, às vezes, molda o respectivo trabalho. Instrumental para a pesquisa científica é produzido e aperfeiçoado desde o telescópio e o microscópio até aparelhos altamente sofisticados, como os computadores e as máquinas cibernéticas (robôs).

Augusto Weismann (1834 a 1914), cientista alemão, impugnou a tese da transmissão dos caracteres adquiridos. Mostrou a distinção entre as células somáticas e as células reprodutoras e a impossibilidade de modificações nas somáticas afetarem as reprodutoras. Concluiu: as únicas qualidades transmissíveis à descendência são aquelas que sempre estiveram no plasma germinativo dos pais.

Hugo De Vries (1848 a 1935), botânico holandês, publicou seus estudos sobre as mutações. Este cientista partiu das leis da hereditariedade descobertas pelo monge austríaco Gregório Mendel e do princípio darwiniano da seleção natural.  Segundo o cientista holandês, a evolução se processa por saltos repentinos, mediante mutações ou modificações radicais de uma geração a outra e não por pequenas variações como supunha Darwin. Os descendentes herdam as qualidades decorrentes das mutações sofridas pelos ascendentes. De tempos e em tempos, surgem novos mutantes melhor adaptados ao meio. Depois de um determinado número de gerações, nova espécie pode surgir. 

Takamine, cientista japonês, isola a adrenalina segregada pelas glândulas supra-renais e mostrou a sua utilidade no funcionamento do coração (1901). Descobriu-se, depois, que a glândula pituitária produz substância essencial ao crescimento do corpo (1912). Intensificou-se o estudo do sistema glandular para fins terapêuticos que inclui a administração de hormônios no paciente. Práticas místicas orientais incidem sobre as glândulas. Ao tratarem da técnica terapêutica, as monografias da Antiga e Mística Ordem Rosacruz – AMORC consideram as glândulas centros psíquicos. Descobriu-se que amido, gordura, açúcar e proteína não eram as únicas substâncias necessárias à boa alimentação, mas também elementos acessórios encontrados exclusivamente em certos alimentos. Tais elementos receberam o nome genérico de vitamina. Em 1915, foram identificados dois tipos de vitaminas: A e B; posteriormente, dezenas de tipos foram descobertos. O médico canadense Frederik Banting desenvolve a insulina para combater diabetes. Esse produto também se mostrou eficaz na cura de certos tipos de loucura. Os vírus causadores da varíola, raiva, paralisia infantil, febre amarela e resfriado comum foram identificados; buscam-se meios de neutralizá-los ou exterminá-los.

Novas drogas foram produzidas. A sulfa destina-se ao tratamento das infecções provocadas por estafilococos. Penicilina e Estreptomicina utilizadas na cura de numerosas moléstias e infecções. Hormônios sintéticos aplicados para restabelecer o equilíbrio hormonal nos pacientes. A pílula anticoncepcional recebeu boa acolhida pelas mulheres e enriqueceu ainda mais a indústria farmacológica. Na ânsia de lucro, os laboratórios também produzem drogas nocivas, como a talidomida, responsável pelos defeitos congênitos em crianças cujas mães ingeriram aquele remédio. Foram criados métodos para tratamento do câncer, inclusive mediante radiação, e técnicas para o armazenamento de sangue, de plasma e de genes.

Ernest Rutherford e Niels Bohr descrevem o átomo (invisível) como miniatura do sistema solar (visível): um núcleo (próton + nêutron) de carga positiva em torno do qual giram unidades elétricas de carga negativa (elétrons). Concluíram que a eletricidade é o elemento fundamental da matéria. No período compreendido entre 1905 e 1915, Albert Einstein publica suas teorias divergindo das teorias vigentes que consideravam absolutos o espaço e o movimento. Na escala astronômica, o espírito relativista (Einstein) transcende o espírito clássico (Newton). A tese de Einstein é a de que há relação entre movimento e espaço e que há quatro dimensões: comprimento, largura, altura e tempo. Agrupou as quatro na síntese: espaço-tempo continuum. A massa depende do movimento. Tamanho e peso dos corpos em movimento variam segundo a velocidade e diferem quando em repouso. Velocidade e movimento são conceitos distintos. “O fluxo de eletricidade negativa livre possui duas velocidades diferentes: uma quando o consideramos como um conjunto de partículas; outra quando aí vemos um curso de ondas” (Karl Darrow). Ambígua, neste caso, é a realidade e não a formulação do cientista. No entender de Einstein, a matéria na sua originária manifestação é energia e o universo é finito no que concerne ao espaço. {O espaço é finito e depende do tempo}. Há uma região além do espaço onde não existe matéria. O espaço curva-se sobre si mesmo e faz do universo uma gigantesca esfera dentro da qual estão as galáxias com as suas estrelas, os seus planetas, cometas e asteróides. No século XXI, servindo-se de poderosos e modernos telescópios, os astrônomos verificaram a conexão por filamentos entre galáxias que, assim, formam um conjunto galático.    

Werner Heinsenberg (1901 a 1976), físico alemão, ganhou o Prêmio Nobel de Física em 1932. Ele desenvolveu a mecânica quântica e descobriu que os elétrons não seguem qualquer lei definida de causa e efeito. A esta dinâmica que ocorre no mundo subatômico foi dado o nome de princípio da indeterminação ou princípio da incerteza. Destarte, pelo menos, neste nível da matéria, o princípio mecanicista da causalidade universal perdeu a sua plenitude, assim como, a geometria do sólido perdeu a sua plena aplicação. Do mundo subatômico, o cientista não extrai certezas e sim probabilidades tão somente. A perturbação, a incerteza, o erro, passam a ser considerados no estudo dos fenômenos físicos. O determinado sofre a concorrência do indeterminado. O determinismo provoca o – ou provém do – sentimento de ordem, repouso, certeza, simetria, segurança; o indeterminismo provoca o – ou provém do – sentimento de desordem, agitação, incerteza, assimetria, insegurança. As idéias de perturbação e deformação passam a freqüentar o vocabulário científico. No século XXI, os físicos se defrontam com o bóson de Higgs, possivelmente responsável pela massa de todas as partículas atômicas.

As teorias de Rutherford, Bohr, Einstein e Heisenberg mudaram a antiga concepção do universo. Os físicos também engendraram técnicas para liberar a energia contida no átomo. Descobrem que além dos prótons de carga positiva, o núcleo também se compõe de nêutrons de carga elétrica neutra. Ao bombardear os átomos do urânio com nêutrons, os cientistas conseguiram dividi-lo. Desprendeu-se enorme quantidade de energia. Sob a direção e o patrocínio do governo dos EUA, os cientistas produziram as primeiras bombas atômicas (1945). Esse governo brindou o final da guerra com duas bombas atômicas, uma para Nagasaki e outra para Hiroshima. Grato pelo brinde, o Japão celebrou a paz.    

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

FILOSOFIA XV - 18



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

O espírito científico não se libertou inteiramente do espírito religioso. Esta indevida conexão responde por equívocos cobertos pela etiqueta da ciência. “No piolho podemos ver o dedo de deus”, dizia um anatomista do século XVII. Einstein incorreu no mesmo erro no século XX, ao pretender amoldar a ciência à teologia, porém se penitenciou quando o corrigiu. O espírito mágico também permanece. O mago opera com aquilo que está oculto na natureza e o faz visando o bem (magia branca) ou o mal (magia negra). O cientista traz para a claridade aquilo que está oculto na natureza. A microfísica implica nova epistemologia: o objeto elementar da ciência nesta região não é sólido, nem líquido, nem gasoso. A geometria dos sólidos tem mínima aplicação neste campo. Constatou-se que a matéria é formada de partículas elétricas que se deformam no movimento. Ao perder ou ganhar energia, o átomo assume nova forma. Verificou-se a passagem do ter para o ser: a matéria não tem energia; a matéria é energia. Tal passagem também se verifica no misticismo: deus não tem luz, vida e amor; deus é luz, vida e amor.

Os historiadores referem-se à revolução tecnológica ocorrida no século XX: cibernética, telemática, rapidez do transporte humano e de carga (trem bala, trem de levitação magnética, avião supersônico). O título “revolução” justifica-se pela repercussão desses avanços nos costumes, nas artes, nas relações de consumo e por salientar a indiferença da técnica em relação aos valores morais e religiosos. Por outro ângulo, verifica-se o contínuo desenvolvimento da técnica na história da humanidade, desde a invenção da roda até a nave espacial. No mundo moderno, o laboratório distancia-se do atelier e do escritório. O artista e o filósofo trabalham de modo individual. O trabalho científico diversifica-se, especializa-se e conta com equipes e não apenas com a dedicação individual. A especialização ocorre também na indústria, no comércio, na agricultura, na pecuária e nos serviços em geral.

A desilusão pode motivar a busca de alternativas. Divorciada da ética, a utilização da ciência e da tecnologia pode produzir frutos amargos. A filosofia mecânica rompe com o passado e sela a revolução científica. Segundo essa filosofia, as categorias que explicam os fenômenos são: a forma, o tamanho, a quantidade, o movimento e o repouso; os corpos são constituídos de átomos ou corpúsculos invisíveis. Os filósofos mecanicistas também se debruçaram sobre os processos vitais: os seres vivos atuam segundo as leis da mecânica. Descartes e Hobbes, por exemplo, centraram atenção nos fenômenos vitais e no comportamento do animal (racional e irracional). O sistema cartesiano foi a mais influente e admirável versão da filosofia mecânica. Os otimistas estavam convictos de que o paraíso chegara ao nosso mundo. Simultânea à formação do sistema capitalista, a revolução científica e tecnológica foi sem paralelo no mundo. Isto desafiou a capacidade do homem de se ajustar ao novo ambiente. A instabilidade gerada pela velocidade das mudanças tornou-se dramática, influiu nas relações humanas e aguçou contradições. O sentimento de urgência assedia as novas gerações: a vida é curta; viver intensamente o presente; felicidade já; o futuro a deus pertence. Casamento de curta duração, instabilidade no emprego, exigência de resultados imediatos, são efeitos da nova dinâmica social.  

A eletricidade e os derivados do petróleo tornam-se as principais fontes de energia, deixando em segundo plano o vapor e as energias nuclear, solar e eólica.  Cresce o automatismo das máquinas. O trabalho se especializa. Surgem novas profissões. O trabalho científico serve à técnica e ao capital. A maquinaria automática aumentou a produção de bens e suscitou a idéia de dividir tarefas em unidades diminutas do processo de fabricação. Inventaram a célula fotoelétrica. A ciência a serviço da indústria química possibilitou a produção de artigos sintéticos e farmacológicos. O dispositivo denominado diafragma, ao evitar a fecundação do óvulo pelo espermatozóide, previne a gravidez. A mesma finalidade preventiva tem o invólucro de plástico (Camisa de Vênus) e a vasectomia. A família se beneficiou com máquinas elétricas, aparelhos eletrônicos e utensílios de plástico. O conforto em casa e no trabalho externo, a maior diversidade de remédios, técnicas cirúrgicas aperfeiçoadas e dietas balanceadas, contribuíram para melhorar a saúde das pessoas e aumentar a expectativa de vida que, nos dias atuais, está em torno de 80 anos. Os octogenários são 15% da população européia (2014).

O conceito de família transforma-se pela prática social. Lar homossexual com filhos adotivos registrados em nome do casal e do pai biológico. Convívio de famílias constituídas e providas pela mesma pessoa (poligamia). Sucessão de bens e direitos contemplando a esposa e a outra companheira do marido. Filho registrado em nome do pai biológico e do pai adotivo. Nomes da mãe e da madrasta lançados no registro de nascimento do filho e enteado. Essas mudanças operam-se no plano dos fatos e acabam protegidas pelo legislador ou pelo juiz, ainda que desaprovadas pela religião. Os avanços na biologia, principalmente no campo da genética, exigiram novas leis e um novo direito. Drogas e plantas alucinógenas circulam pelos continentes e são consumidas pelos jovens. Entre os países da Europa hodierna, os nórdicos apresentam a melhor distribuição de renda, bom padrão de vida, menor índice de corrupção e baixa criminalidade (Bélgica, Dinamarca, Finlândia, Holanda, Islândia, Noruega, Suécia).   

Em setores da ciência e da tecnologia há invenções paralelas por diferentes pessoas sem comunicação entre elas. Isto aconteceu com o avião. A idéia de voar vem de longe. Conta-se que, na Idade Antiga, Ícaro se equipou com asas coladas ao corpo com cera e se atirou do alto de um rochedo. O sol derreteu a cera, as asas se despregaram e o homem voador despencou. O Ícaro da Idade Contemporânea voa de asa delta, para-pente, wingsuit (macacão com asa) e base jump (building antena spam earth) atirando-se de altos edifícios, antenas, pontes e montanhas. Na Idade Média, Leonardo da Vinci planejou a máquina voadora. Na Idade Moderna, há notícia de experimentos com máquinas voadoras mais pesadas do que o ar dos quais não há prova. O brasileiro Alberto Santos Dumont (1873 a 1932), vivendo na França, sem preocupação financeira, membro de família rica, idealizou objetos voadores dirigíveis pelo homem. Perante uma comissão do aeroclube da França, demonstrou a dirigibilidade dos balões ao contornar a Torre Eiffel, em Paris. A seguir, naquela mesma cidade, Alberto construiu máquina voadora com motor a explosão denominada 14-Bis e empreendeu o primeiro vôo em público e documentado da história da aviação (1906). Recebeu o Deutsch-Archdeacon Prize como reconhecimento pelo primeiro vôo motorizado da Europa. Alberto criou o monoplano que pesava 100 kg., com velocidade máxima de 90 km/h. Batizou-o de Demoiselle (1907). Alberto suicidou-se quando estava no Brasil, na praia paulista do Guarujá. O motivo seria o desgosto de ver a sua invenção utilizada para fins bélicos.

O rádio, como instrumento de comunicação, expandiu-se a partir de 1920. Na segunda guerra mundial, os ingleses inventaram o radar (dio detection and rage). Este aparelho permitia à defesa britânica detectar a presença dos aviões inimigos quando ainda se encontravam a uma distância de 100 milhas. Com auxílio desta invenção, os britânicos destruíram mais de uma centena de aeronaves alemãs. A navegação aérea civil e militar se desenvolveu. Sofisticados, potentes e velozes aviões transportam passageiros e carga por todos os continentes. Avançada tecnologia dos aviões de combate e espionagem protege-os do radar (invisibilidade). Naves espaciais viajam pelo sistema solar. Satélites artificiais foram criados e lançados ao espaço para monitorar a Terra e auxiliar na meteorologia, na pesquisa astronômica e nas comunicações.  

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

FILOSOFIA XV - 17



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

Signatário do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca de 1947, o Brasil alinhou-se com os EUA e os países do Cone Sul no combate ao comunismo e à influência soviética na América (1964 a 1985). À semelhança dos gulags, formou-se o arquipélago sul-americano: Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai. Nele ocorreram prisão, exílio, tortura, assassinato e desaparecimento de milhares de pessoas, troca de prisioneiros, violação de mulheres, arresto de crianças, numa infernal atrocidade da qual somente a natureza demoníaca do ser humano é capaz. Governos constitucionais de esquerda foram substituídos por ditaduras de direita até que os ventos mudassem de direção nos anos 1980.

A política e a economia têm essa flexibilidade: mudam conforme a direção do vento ou de acordo com o teor da boataria. As notáveis mudanças na Europa Oriental nas duas últimas décadas do século XX refletiram-se no mundo ocidental. O governo dos EUA sob a chefia de Donald Reagan aproveitou-se das mudanças para estabelecer uma nova ordem mundial em sintonia com os interesses do seu país. Induziu a globalização da economia. Margareth Thatcher, na chefia do governo da Inglaterra, declara o fracasso do socialismo democrático, adota política conservadora, substitui o Estado do Bem-Estar pelo Estado Liberal, privatiza a economia e estimula a iniciativa privada. A onda neoliberal leva de cambulhada países do “terceiro mundo”, inclusive o Brasil. O Mercado Comum Europeu evolui para União Européia e os países membros criam moeda comum (Euro) e elaboram projeto de Constituição (1999).

O fenômeno globalização não era novo e sim uma ocorrência do processo civilizador como se verifica do intercâmbio cultural e comercial havido na Idade Moderna entre as nações do mundo. A novidade era o tipo de globalização na Idade Contemporânea: comunicação de massa em tempo real; circulação instantânea de enorme volume de capital por vários centros financeiros do mundo (diferentes mercados nacionais); maior competitividade no comércio internacional com a padronização de sistemas produtivos, de normas e de comportamento dos consumidores e produtores. Em Davos, Suíça, na véspera do terceiro milênio, realizou-se o Fórum Econômico Mundial, que reuniu centenas de empresários e agentes políticos de várias nações do mundo (28/01/1999 a 02/02/1999). Ali, os participantes chegaram à conclusão de que todos viviam em um mundo no qual flutuam as moedas, as empresas e os regimes políticos. Confirmaram a instabilidade da economia nesta quadra da história e colocaram em dúvida a capacidade das pessoas de aceitar e enfrentar essa realidade. Além da econômica, a globalização tem outras faces, tais como: a ecológica, a demográfica, a escassez de emprego, de água potável e de combustível fóssil, o tráfico ilícito de drogas, de plantas, animais silvestres, mulheres, crianças e  órgãos humanos. A globalização política foi ensaiada com a Liga das Nações, sucedida pela Organização das Nações Unidas (ONU), com êxito até o momento, apesar dos antagonismos entre as potências.    

A implosão da URSS alterou o mapa europeu e a correlação de forças entre os países. A maré separatista prossegue de forma tentada ou consumada: Chechênia, País Basco, Bálcãs (Bósnia, Sérvia, Montenegro). A província do Kosovo separa-se da Sérvia e recebe apoio dos EUA, Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Croácia, Hungria e Bulgária, enquanto a China, Rússia, Espanha, Chipre, Grécia e Romênia, negaram o reconhecimento (2008). Os EUA autorizaram envio de armas ao Kosovo. A Rússia ameaçou lançar mísseis contra o país que receber tais armas. A província da Criméia separa-se da Ucrânia e adere à federação russa (2014). A disputa entre Rússia e EUA pelo controle político e ideológico da Ucrânia e a ameaça de confronto bélico é mais um episódio a mostrar a fragilidade da concórdia internacional. Houve represálias econômicas de todos os lados. A guerra fria renasce com calor.

Invenções e aprimoramentos tecnológicos prosseguiram em ritmo acelerado nos séculos XX e XXI. A tendência para a padronização ocorre em todo o orbe. Isto repercutiu no pensamento filosófico. Costumes, relação de força entre as nações, regimes políticos, sistemas econômicos, tudo isso mudou com tendências padronizadoras. À revolução comercial da Idade Média seguiu-se o surto econômico da Idade Moderna que se convencionou chamar revolução industrial. A indústria consome mais energia do que no período anterior, as fábricas se multiplicam, os meios de transporte e as comunicações se desenvolvem, o socialismo concorre com o capitalismo. Há uma profusão de idéias e descobertas em seqüência à revolução intelectual, tudo contribuindo para o formidável progresso da civilização ocidental. A revolução sexual que explodiu nos anos 1960 e 1970 derrubou tabu no cinema e na vida real, permitiu a pornografia, liberou a homossexualidade, levou educação sexual às escolas, incentivou o uso de preservativos e das drogas anticoncepcionais, protegeu a prostituta sem incluir o proxeneta, enfraqueceu a censura oficial e a moral conservadora.

Todo conceito perde ou tende a perder, total ou parcialmente, a sua utilidade e significação quando as condições empíricas em que foi elaborado tornam-se remotas, mudam ou se extinguem. O excesso de regulamentação sufoca a liberdade. Quando liberadas forças perturbadoras, o governo é chamado a intervir em defesa da ordem social. O pensamento científico se altera diante da novidade. O discurso científico é circunstancial. Na pesquisa científica, a dedução perde terreno para a indução. Apesar disto, a experimentação depende de uma prévia construção intelectual. A prova da coerência do concreto (fenômeno) é procurada no abstrato (matemática). A filosofia esmaece diante da autoridade da ciência como fonte do conhecimento. Essas duas ordens do saber tendem a se harmonizar. O misticismo se mantém como acesso intuitivo à luz espiritual e se manifesta intensamente nas crises sociais.

A contextualização ou conexão passa a integrar o trabalho do cientista junto com a formulação matemática da natureza e o método experimental. Este método consiste em realizar experimentos para confirmar ou rejeitar alguma hipótese no quadro de uma estrutura teórica. A experiência natural concorre com a experiência artificial provocada pelo cientista com propósito definido. Os passos do método experimental variam segundo o tipo de pesquisa e o objeto pesquisado. Os alquimistas foram predecessores do método experimental (Paracelso, Boyle, Newton, Leibniz, foram alquimistas). A vida ativa se harmoniza com a vida contemplativa. Conhecer a natureza é útil para a vida ativa (agricultura, culinária, medicina, comércio, indústria) tanto quanto a filosofia o é para o Estado e a sociedade (história, política, retórica, ética, direito). A metafísica perde autoridade ante a filosofia derivada da experiência. A filosofia ocidental sofre a influência da filosofia oriental. A religião cristã sofre a concorrência da religião e do misticismo oriental (islamismo, budismo, hinduismo).

Carl Gustav Jung (1875 a 1961), suíço, psiquiatra, psicanalista, criou a psicologia analítica. O seu trabalho foi recebido com reservas pela comunidade científica justamente por sua incursão na metafísica e nas crenças orientais. Carl interpretou como símbolo do “eu”, a mandala, figura de contemplação usada na ioga tântrica. Em “Memórias, Sonhos e Reflexões”, ele sustenta: que os padrões simétricos em movimento dentro de um círculo refletem certo estado psíquico e, disto, as rosáceas expostas nas catedrais medievais são exemplos incontestes; que nos sonhos há premonição; que há um inconsciente coletivo, repositório de mitos e símbolos religiosos, subjacente ao inconsciente individual; que os arquétipos mostram a comunicação entre a mente humana e a mente divina. A teoria de Carl foi bem recebida nas instituições místicas.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

FILOSOFIA XV - 16



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

Xenofobia e fanatismo religioso foram os ingredientes do trágico episódio em Paris que dividiu a opinião pública mundial por envolver jornalistas, liberdade de imprensa e muçulmanos. Dois irmãos descendentes de imigrantes árabes (Cherif e Said Kouachi) atacaram a sede do hebdomadário satírico intitulado “Charlie Hebdo” (07.01.2015). Morreram 12 pessoas. Prontos a desempenhar o papel de mártires e servir de exemplo heróico à irmandade a que pertenciam, os homicidas empreenderam um confronto suicida com a polícia francesa e foram mortos. A organização paramilitar “Al Qaeda” assumiu a responsabilidade pelo ataque (14.01.2015).

Ultrajar crença religiosa ou exceder-se no exercício do direito de defesa são condutas consideradas criminosas pela ordem jurídica de alguns países, inclusive o Brasil. No citado hebdomadário, os jornalistas publicaram imagens degradantes ridicularizando o profeta Maomé e o Islã. Cutucaram a onça com vara curta, diria um caipira brasileiro. Os árabes são semitas, tal como os antigos cananeus, babilônios, assírios e hebreus. No século VI da era cristã, esse povo adotou a religião islâmica fundada por Maomé, dela é cioso e por ela tem o dever de lutar, conforme preceitua o livro sagrado (Corão). Essa luta defensiva leva o nome de Jihad. [O capítulo “Filosofia XI”, da presente série, tratou da Arábia]. A xenofobia de franceses judeus e cristãos de um lado e o fanatismo de franceses muçulmanos de outro, geraram o ato homicida praticado – não por estrangeiros – e sim por dois cidadãos franceses fiéis tanto à bandeira tricolor como à religião islâmica.

François Hollande, presidente da França, organizou a “Marcha para a Liberdade” e convidou líderes de outros países. Os que atenderam ao convite caminharam pelas ruas de Paris à frente de uma multidão de pessoas que portavam a mensagem solidária “Je suis Charlie” (11/01/2015). Em diversas partes do mundo houve manifestação contrária à debochada linha do hebdomadário: “Je ne suis pas Charlie” ou “Je suis Mohamed”. A minoria proprietária dos meios de comunicação social sentiu-se ameaçada, mormente no que tange ao seu patrimônio e ao seu negócio. Na mencionada marcha, governantes e governados serviram de massa de manobra a essa poderosa minoria. Nos países democráticos, aos políticos interessa prestar apoio à imprensa, pois, por meio dela, conquistam ou perdem votos. Os donos de jornais impressos, de revistas, de emissoras de rádio e televisão, servem-se desses veículos com o propósito claro ou camuflado de: (1) aumentar sua fortuna; (2) propagar suas idéias e crenças e atacar as alheias; (3) construir e destruir reputações; (4) manipular informações e escamotear a verdade; (5) orientar as decisões e os investimentos do governo na direção dos seus interesses privados.  

Tragédias maiores, com milhares de mortos (adultos, jovens e crianças) não mereceram a mesma atenção dada ao episódio do hebdomadário. Dessa discriminação feita pela imprensa e pelas autoridades ocidentais constata-se que o patrimônio é mais importante do que a vida. Há gente sobrando no planeta e o que é abundante tem pouco valor de troca. A destruição de edifícios, casas, estradas, pontes, viadutos, veículos, máquinas, equipamentos, causa maior impacto do que a perda de vidas humanas, porque a recuperação material custa dinheiro. Há notícia de projeto de fabricação de bomba que ao explodir só mata pessoas sem destruir o patrimônio. 

Liberdade significa ausência de limites, freios e grilhões. A ausência total corresponde à liberdade total cujo único titular é deus, porque nada lhe é superior em poder e vontade. A ausência parcial de limites corresponde à liberdade parcial cujo titular é o animal, porque está submetido às determinações da natureza. O animal irracional está limitado pelas leis da natureza, como acontece com o vôo do pássaro. O animal racional está limitado pelas leis da natureza e pelas leis da sociedade. As determinações sociais são criadas pelo homem e para o homem. Consistem de convenções, de regras técnicas e científicas, de normas éticas, jurídicas e religiosas, que limitam a conduta humana e condicionam a vontade e o pensamento. Transgredir faz parte do comportamento animal, embora como exceção. O transgressor é ator do drama existencial. Utiliza a liberdade contra a ordem estabelecida. A gaivota, do conto mavioso de Richard Bach, transgrediu a ordem natural ao voar além do limite a que estava determinada pela natureza (“Fernão Capelo Gaivota”, 1970). A fêmea de uma raça excepciona a ordem natural ao cuidar dos filhotes de outra raça. A liberdade humana implica poder de escolha (autonomia da vontade) e ausência de coação (espontaneidade). Ao arrostar leis naturais ou sociais, o transgressor pode ser punido ou inaugurar nova ordem se a sua vontade prevalecer. A coerção se opõe à liberdade. Nas modalidades de ação, como a manifestação da vontade, do sentimento e do pensamento, a liberdade humana suporta limites traçados pelo legislador. A violação desses limites provoca a reação da vítima e a intervenção coercitiva do Estado.

A extensão da liberdade humana tem sido exagerada com o propósito de acobertar privilégios. Os donos e profissionais da imprensa pretendem usufruir liberdade total incompatível com a democracia e com a natureza. Onde vigora o regime democrático, governante e governado desfrutam liberdade parcial, todos submetidos às normas jurídicas, sob o pálio da igualdade. A imprensa é livre quando independe de censura prévia e de licença da autoridade para se expressar. Isto não significa ausência de regramento. A sociedade liberal tem valores morais e religiosos que não se afinam com a falta de decoro, com a pornografia, o deboche, a injúria, a difamação, a calúnia. Leis fundadas naqueles valores estabelecem parâmetros tanto para a atividade jornalística como para os demais serviços nas esferas pública e privada.   

Em nação alicerçada na dignidade humana e na liberdade, o cidadão tem o direito de abraçar qualquer religião. Este direito supõe o correlato dever de tolerância sem o qual a liberdade de religião é ineficaz. Ainda que seja ateu, o cidadão tem o dever de tolerar a crença do outro. Os europeus adeptos da religião islâmica sofrem discriminação. Nas “religiões do livro” (judaica, cristã e islâmica) há seguidores moderados, fanáticos e extremistas. Nem todos os seguidores interpretam o “livro sagrado” (Bíblia ou Corão) no mesmo sentido. Os sermões na sinagoga, na igreja e na mesquita nem sempre são suficientes para controlar a ação dos fanáticos e extremistas que apelam para a violência. Nas três religiões há facções fundamentalistas das quais se despregam grupos extremistas do tipo “Opus Dei” e “Estado Islâmico”, embalados por valores políticos, econômicos e religiosos, cujos membros não se desligam da crença religiosa, mas, ao contrário, têm-na como garantia de uma futura e venturosa vida no mundo espiritual.

No interior de um avião, diante de jornalistas convidados, o papa Francisco manifestou-se sobre o episódio do hebdomadário parisiense, os limites da liberdade de imprensa, o respeito devido à fé religiosa e a reação a ofensas. Ele disse que daria um soco em alguém que lhe ofendesse a mãe (15.01.2015). Explicar o lançamento de bomba atômica sobre um país não significa concordar com o lançamento. O papa não estava a justificar a violência. Apenas explicava que reagir a uma ofensa é natural e humano. Ao ser esbofeteado, ninguém oferece a outra face, apesar da anedota evangélica. Há brocardos nessa mesma linha, tais como: “olho por olho”, “quem semeia vento colhe tempestade”, “quem diz o que quer ouve o que não quer”, “quem com ferro fere com ferro será ferido”. No estudo da natureza, cientistas observaram que a toda ação corresponde uma reação. No meio social, o princípio do contraditório efetiva-se por tipos de resposta como a contestação e a retorsão. Ofensas físicas e morais geram resposta imediata ou mediata. Por considerar o comércio no templo ofensa a deus, Jesus agrediu os mercadores a chicotadas. Nem todos têm a frieza de suportar a ofensa, raciocinar, escolher a forma mais adequada, o tempo e o lugar mais favoráveis para reagir.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

FILOSOFIA XV - 15



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

A população européia decresceu com a Peste Negra; depois, cresceu até a primeira guerra mundial; a seguir, decresceu (milhões de mortos na guerra); voltou a crescer até a segunda guerra mundial; depois, decresceu novamente (milhões de mortos na guerra); voltou a crescer ao ponto de reduzir a marcha e apelar para o controle da natalidade. Este controle resultou da iniciativa dos casais que encaram a realidade econômica e adotam novos costumes e nova mentalidade: família minúscula, ser feliz aqui e agora. Influem na gangorra demográfica: períodos de guerra e paz; fluxo de emigrações e imigrações; controle e descontrole da natalidade; maior ou menor efeito das proibições religiosas; maior ou menor expectativa de vida.

A ciência médica passa a considerar o psiquismo e o organismo físico de modo integrado no processo terapêutico ao notar a recíproca influência entre a vida orgânica, a vida social e a vida mental. A técnica psicanalítica participa do processo. Nutricionistas elaboram dietas e orientam a produção de alimentos. O controle de doenças mediante aperfeiçoados e acessíveis recursos da medicina contribuem para maior duração da vida e redução das incertezas sobre a saúde, embora permaneçam incertezas derivadas de epidemias e de moléstias como aids, câncer, diabetes, alcoolismo. A ênfase na higiene contribuiu para melhorar a saúde das pessoas: lavar as mãos, banhar-se e escovar os dentes diariamente, roupas limpas e passadas, dormitórios separados, ventilação, limpeza dos utensílios domésticos, móveis, banheiro e quintal. A ampliação do espaço das moradias populares proporcionou mais conforto a partir da segunda metade do século XX. Água represada e tratada chega ao interior das residências através de encanamento. Rede de esgoto permite que as necessidades fisiológicas sejam atendidas dentro de casa em local reservado e provido de vaso sanitário e descarga. Cogita-se o tratamento e reaproveitamento da água do esgoto e a dessalinização da água do mar para irrigação e consumo humano.

As casas das camadas ricas e remediadas da sociedade estão providas de fogão a gás ou elétrico, geladeira, freezer, máquinas de lavar e secar roupa e louça, telefone, liquidificador, batedeira, aparelhos eletrônicos, além do mobiliário. Jardim na frente, quintal nos fundos, garage e piscina. Casa decente, aquecimento ambiental, ar condicionado, rádio, televisão, computador, bicicleta e automóvel são os itens mais freqüentes aspirados pelas famílias. A leitura de livros, de jornais, de revistas e a freqüência às salas de cinema sofrem a concorrência do noticiário e dos programas das emissoras de televisão e das matérias publicadas na rede de computadores. Os consumidores, por comodismo, fazem compras através dessa rede e recebem a mercadoria em casa. O volume das vendas por esse meio atinge bilhões de dólares.

A urbanização da sociedade européia gerou concentração de famílias nas cidades. Parte da população rural abandonou a atividade agrícola. As casas da camada pobre da sociedade são mais amplas e mais confortáveis do que as casas dos pobres do século anterior e geralmente estão providas de fogão a gás, de geladeira, ferro de passar roupa, aparelho de televisão e mobiliário simples e essencial. O trabalho urbano e mal remunerado realizado em casa no século XIX, deslocou-se para as fábricas, onde os salários eram melhores, havia benefícios sociais e os donos forneciam ferramentas e material. Após 1914, atividade doméstica e atividade profissional têm domicílios distintos. Vida privada e vida pública separam-se.

No século XXI, a atividade profissional ligada à informática e atividades informais, como artesanato e culinária, retornam ao ambiente doméstico. Algumas empresas preferem que o empregado trabalhe em casa. Da parte do prestador de serviço, verifica-se, neste século, mudança de mentalidade em andamento: ser feliz na atividade escolhida, ainda que para isto sua renda venha a ser menor do que a auferida no emprego em grande empresa. A racionalização do espaço do setor produtivo levou à criação de áreas comerciais e de zonas industriais nos territórios municipal e metropolitano. Oportunidade de emprego, conforto e lazer na cidade moderna atrai o pessoal do campo. Incluído no proletariado (operários, comerciários, trabalhadores domésticos), o campônio fica à mercê da burguesia (banqueiros, donos de fábricas, de minas, de companhias de transportes, comerciantes, profissionais liberais).

O trabalhador nacional sofre a concorrência de pessoas vindas de outros países em busca de melhor padrão de vida. A mobilidade de pessoas no continente europeu facilitada pela diversidade e quantidade dos meios de transporte aumenta a população do país que recebe o contingente de imigrantes e diminui a população do país remetente. Portugueses, gregos, turcos, africanos morenos e negros, asiáticos morenos e amarelos, saem dos seus países e aportam na Alemanha, na França, na Inglaterra. Normalmente, a primeira geração de imigrantes, ainda apegada aos costumes e tradições de sua terra de origem, tem dificuldade de se adaptar à cultura do país receptor. Os seus descendentes assimilam-na com mais facilidade, embora mantenham a cultura dos ascendentes parcialmente (religião, folclore e alguns hábitos alimentares numa dieta mista de carne, arroz, massa, batata, legume, verdura, fruta, chá, café, suco, refrigerante, cerveja, vinho). Ocorre intercâmbio cultural no seio da sociedade receptora.

A emigração e a imigração têm provocado, na Idade Contemporânea, sérios problemas aos países europeus receptores de indivíduos e famílias oriundos principalmente da África e da Ásia. O alto grau de desenvolvimento econômico de uma região atrai pessoas de países menos desenvolvidos. Isto gera problema de moradia, abastecimento, emprego e distúrbios internos como tem acontecido na França, Inglaterra e Alemanha. Em defesa do país receptor da imigração, invoca-se preceito da encíclica Rerum Novarum, do papa Leão XIII: “Ninguém é obrigado, em absoluto, a socorrer o próximo tirando o que é necessário a si ou à sua família, nem reduzindo nada do que a conveniência ou o bem-estar impõe à sua pessoa”.

A xenofobia intensificou-se nesses países hospedeiros. As vestes das muçulmanas (véu, burka), por exemplo, provocaram reações xenófobas, ainda que essas mulheres, jovens e adultas, fossem cidadãs nascidas na Europa. Adeptos da religião islâmica são, de maneira equivocada e preconceituosa, associados ao terrorismo. Cidadãos europeus descendentes da primeira leva de imigrantes saíram pelas ruas em diversas ocasiões causando danos ao patrimônio público e particular como forma de protesto contra a discriminação que sofrem. Eles queriam ser reconhecidos como cidadãos de primeira categoria, obter empregos que rendessem bons salários, viver urbanamente fora de guetos e exercer os direitos humanos declarados no ordenamento jurídico. Houve mortos e feridos nas manifestações e nos confrontos com a força policial.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

FILOSOFIA XV - 14



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

O governo estadunidense enterrou bilhões de dólares em guerras na Ásia amarela. Apesar disto, sofreu derrotas (Saigon, 1975). O potencial militar dos EUA não foi totalmente utilizado nessas guerras. O governo temia a intervenção direta da China e da URSS. Cerca de 60 mil soldados estadunidenses foram mortos, 600 mil incapacitados por ferimentos e 600 mil desempregados. Para compensar o abalo moral e o efeito deletério do fracasso, Hollywood entra em cena, produz filmes em que heróis americanos aniquilam divisões, quartéis, acampamentos e arsenais dos inimigos amarelos e brancos, salvam prisioneiros e exibem sua força e superioridade. Na vida real, sem a presença de Rambo, o fracasso se repete na Ásia morena. Longe das suas casas, os estadunidenses invadem terra alheia com aviões, veículos de guerra e modernos equipamentos e armas. Bem nutridos com suas rações enlatadas, os soldados prendem, torturam e matam os nativos. Sem o mesmo potencial bélico e sem a mesma dieta alimentar, mas nutridos pela fé nos seus valores culturais e pelo amor à sua pátria, os nativos resistem à ofensiva americana com ardor, eficiência e sem apego à própria vida. O que os americanos pretendiam resolver em poucos meses dura anos. Reincidiram no erro de avaliação. A superioridade econômica e militar de uma nação nem sempre é suficiente para aprisionar e domesticar a alma de uma outra nação.        

As mudanças econômicas dos séculos XIX e XX se refletiram na vida civil e militar dos povos e exibiram alicerces teóricos. Verdadeira revolução na economia ocorreu com a adesão dos países capitalistas às idéias de John Maynard Keynes (1883 a 1946), rico economista inglês, fazendeiro, colecionador de obras de arte, investidor bem sucedido. Ao se apaixonar por uma bailarina russa com quem se casou em 1925, John abrandou o seu homossexualismo. Ele foi considerado um dos maiores economistas e uma das pessoas mais influentes do século XX. John desempenhou importante papel na conferência de Bretton Woods, da qual resultaram o FMI e o Banco Mundial (1944). O impacto da sua teoria econômica foi semelhante ao ocasionado pelas teorias de Adam Smith (século XVIII) e de Karl Marx (século XIX). “As Conseqüências Econômicas da Paz”, “Tratado Sobre a Moeda” e “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, são da sua lavra.

Até os anos 1930, imperava o tipo clássico do liberalismo econômico: teoria do laissez faire, do mercado livre da ingerência do Estado, do ajuste automático da oferta e da procura, da submissão dos fatos econômicos à lei natural. O campo da especulação era microeconômico. Estudava-se a vida econômica das pessoas, das famílias, das empresas. Com John, entra em cena a macroeconomia e um liberalismo mitigado que desconfiava dos mecanismos espontâneos (1936). Passa-se a estudar a vida econômica da nação como totalidade: vinculações entre o produto nacional, a renda nacional, o dispêndio nacional, a poupança nacional, o investimento global, o emprego, a inflação, o desenvolvimento econômico. John introduziu na economia capitalista o princípio da incerteza por simetria com igual princípio da microfísica detectado por Heisenberg. Os agentes econômicos preferem a liquidez dos seus ativos, manter sua riqueza na forma de dinheiro ao menor sinal de queda no sistema, afirmava John com base na experiência. A incerteza própria do sistema capitalista justifica a intervenção do Estado na economia, não para extinguir o referido sistema e sim para aperfeiçoá-lo. O altruísmo (serviço social do Estado) combinado com o egoísmo (livre iniciativa dos particulares). Os ciclos econômicos (recessão, depressão, implosão, crescimento, explosão, recessão...) exigem intervenção estatal através de medidas fiscais e monetárias.

O período de 1950 a 1970 foi o de maior sucesso das idéias de John. Após esse período, a sua teoria perdeu o trono. Os problemas resultantes da crise do petróleo foram atribuídos ao modelo keynesiano (1971). O dólar americano desvinculou-se do ouro. O presidente Richard Nixon, ao mencionar os centros de poder econômico do mundo {EUA + URSS + China + Japão + bloco europeu: Grã-Bretanha, Alemanha, França, Itália} assim se pronunciava: “Serão esses cinco que determinarão o futuro econômico e, como o poder econômico será a chave de outros tipos de poder, o futuro do mundo sob outros aspectos, no último terço deste século”. Depois do Japão, a Europa Ocidental foi a região cuja economia mais cresceu de 1950 a 1970. A Alemanha foi a força motriz do crescimento europeu (indústrias química, elétrica e automobilística; robótica, biotecnologia, telecomunicações; sistema bancário, comércio exterior; nível superior de escolaridade, cientistas, engenheiros e administradores).

A interdependência dos países no mundo contemporâneo assume cores fortes nos momentos críticos. Nos anos 1970, ficou dramática a situação dos países importadores de petróleo. A OPEP suspendera o fornecimento de petróleo aos EUA e demais aliados de Israel. Ao recomeçar o fornecimento, aumentou o preço do barril. O PIB brasileiro despencou após um crescimento de 11,4% a/a (1973). O preço do barril de petróleo sobe acima de US$100 (2008). Cingapura, Taiwan, Hong-Kong e Coréia do Sul recebem o apelido de “tigres asiáticos” por seu acelerado desenvolvimento econômico. A União Européia e a China concorrem com a economia dos EUA e do Japão. A China se mantém no socialismo pragmático introduzido por Deng Xiaoping. O processo chinês de modernização implicava concessão a técnicas capitalistas e obedecia à seguinte ordem de prioridade: agricultura, indústria, ciência e defesa militar (1978). A partir de 2003, a economia chinesa cresce 10% a/a; o seu PIB soma 2,6 trilhões de dólares em 2006. O déficit comercial dos EUA em relação à China foi superior a 250 milhões de dólares em 2007. Ainda na primeira década do século XXI, a China se torna a segunda maior economia do planeta.

Com o mundo capitalista em crise, a teoria monetarista passa a dar as cartas no período de 1971 a 2008. Milton Friedman (1912 a 2006), economista estadunidense, professor na Universidade de Chicago, foi o expoente dessa teoria. Severo crítico da teoria de Keynes, ele era adepto do liberalismo econômico: redução do papel do Estado na economia, livre jogo das forças econômicas segundo leis naturais. As idéias de Milton foram aplicadas nos EUA (governos Nixon e Reagan) e no Chile (governo Pinochet) com repercussão em outros rincões do planeta. Todavia, nova crise econômica mundial gerada pela ganância e malandragem dos especuladores forçou o recuo dos países capitalistas (2008). Líderes mundiais como Barack Obama (EUA) e Gordon Brown (Inglaterra) adotaram as idéias de Keynes como base teórica para os seus planos de combate à recessão e de prevenção contra futuras crises. O Brasil, sob o governo de Luiz Inácio da Silva, também enveredou por essa trilha com sucesso (2008 a 2010). O governo dos EUA, chefiado por Barack Obama, reata as relações diplomáticas com o governo de Cuba, chefiado por Raul Castro. Abre-se vereda à suspensão do embargo econômico (dezembro, 2014). Em atenção ao gesto do presidente estadunidense, o presidente cubano liberta presos políticos. Em janeiro de 2015, uma comissão oficial do governo estadunidense visita Cuba para tratar das novas relações entre os dois países.