quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

FILOSOFIA XV - 18



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

O espírito científico não se libertou inteiramente do espírito religioso. Esta indevida conexão responde por equívocos cobertos pela etiqueta da ciência. “No piolho podemos ver o dedo de deus”, dizia um anatomista do século XVII. Einstein incorreu no mesmo erro no século XX, ao pretender amoldar a ciência à teologia, porém se penitenciou quando o corrigiu. O espírito mágico também permanece. O mago opera com aquilo que está oculto na natureza e o faz visando o bem (magia branca) ou o mal (magia negra). O cientista traz para a claridade aquilo que está oculto na natureza. A microfísica implica nova epistemologia: o objeto elementar da ciência nesta região não é sólido, nem líquido, nem gasoso. A geometria dos sólidos tem mínima aplicação neste campo. Constatou-se que a matéria é formada de partículas elétricas que se deformam no movimento. Ao perder ou ganhar energia, o átomo assume nova forma. Verificou-se a passagem do ter para o ser: a matéria não tem energia; a matéria é energia. Tal passagem também se verifica no misticismo: deus não tem luz, vida e amor; deus é luz, vida e amor.

Os historiadores referem-se à revolução tecnológica ocorrida no século XX: cibernética, telemática, rapidez do transporte humano e de carga (trem bala, trem de levitação magnética, avião supersônico). O título “revolução” justifica-se pela repercussão desses avanços nos costumes, nas artes, nas relações de consumo e por salientar a indiferença da técnica em relação aos valores morais e religiosos. Por outro ângulo, verifica-se o contínuo desenvolvimento da técnica na história da humanidade, desde a invenção da roda até a nave espacial. No mundo moderno, o laboratório distancia-se do atelier e do escritório. O artista e o filósofo trabalham de modo individual. O trabalho científico diversifica-se, especializa-se e conta com equipes e não apenas com a dedicação individual. A especialização ocorre também na indústria, no comércio, na agricultura, na pecuária e nos serviços em geral.

A desilusão pode motivar a busca de alternativas. Divorciada da ética, a utilização da ciência e da tecnologia pode produzir frutos amargos. A filosofia mecânica rompe com o passado e sela a revolução científica. Segundo essa filosofia, as categorias que explicam os fenômenos são: a forma, o tamanho, a quantidade, o movimento e o repouso; os corpos são constituídos de átomos ou corpúsculos invisíveis. Os filósofos mecanicistas também se debruçaram sobre os processos vitais: os seres vivos atuam segundo as leis da mecânica. Descartes e Hobbes, por exemplo, centraram atenção nos fenômenos vitais e no comportamento do animal (racional e irracional). O sistema cartesiano foi a mais influente e admirável versão da filosofia mecânica. Os otimistas estavam convictos de que o paraíso chegara ao nosso mundo. Simultânea à formação do sistema capitalista, a revolução científica e tecnológica foi sem paralelo no mundo. Isto desafiou a capacidade do homem de se ajustar ao novo ambiente. A instabilidade gerada pela velocidade das mudanças tornou-se dramática, influiu nas relações humanas e aguçou contradições. O sentimento de urgência assedia as novas gerações: a vida é curta; viver intensamente o presente; felicidade já; o futuro a deus pertence. Casamento de curta duração, instabilidade no emprego, exigência de resultados imediatos, são efeitos da nova dinâmica social.  

A eletricidade e os derivados do petróleo tornam-se as principais fontes de energia, deixando em segundo plano o vapor e as energias nuclear, solar e eólica.  Cresce o automatismo das máquinas. O trabalho se especializa. Surgem novas profissões. O trabalho científico serve à técnica e ao capital. A maquinaria automática aumentou a produção de bens e suscitou a idéia de dividir tarefas em unidades diminutas do processo de fabricação. Inventaram a célula fotoelétrica. A ciência a serviço da indústria química possibilitou a produção de artigos sintéticos e farmacológicos. O dispositivo denominado diafragma, ao evitar a fecundação do óvulo pelo espermatozóide, previne a gravidez. A mesma finalidade preventiva tem o invólucro de plástico (Camisa de Vênus) e a vasectomia. A família se beneficiou com máquinas elétricas, aparelhos eletrônicos e utensílios de plástico. O conforto em casa e no trabalho externo, a maior diversidade de remédios, técnicas cirúrgicas aperfeiçoadas e dietas balanceadas, contribuíram para melhorar a saúde das pessoas e aumentar a expectativa de vida que, nos dias atuais, está em torno de 80 anos. Os octogenários são 15% da população européia (2014).

O conceito de família transforma-se pela prática social. Lar homossexual com filhos adotivos registrados em nome do casal e do pai biológico. Convívio de famílias constituídas e providas pela mesma pessoa (poligamia). Sucessão de bens e direitos contemplando a esposa e a outra companheira do marido. Filho registrado em nome do pai biológico e do pai adotivo. Nomes da mãe e da madrasta lançados no registro de nascimento do filho e enteado. Essas mudanças operam-se no plano dos fatos e acabam protegidas pelo legislador ou pelo juiz, ainda que desaprovadas pela religião. Os avanços na biologia, principalmente no campo da genética, exigiram novas leis e um novo direito. Drogas e plantas alucinógenas circulam pelos continentes e são consumidas pelos jovens. Entre os países da Europa hodierna, os nórdicos apresentam a melhor distribuição de renda, bom padrão de vida, menor índice de corrupção e baixa criminalidade (Bélgica, Dinamarca, Finlândia, Holanda, Islândia, Noruega, Suécia).   

Em setores da ciência e da tecnologia há invenções paralelas por diferentes pessoas sem comunicação entre elas. Isto aconteceu com o avião. A idéia de voar vem de longe. Conta-se que, na Idade Antiga, Ícaro se equipou com asas coladas ao corpo com cera e se atirou do alto de um rochedo. O sol derreteu a cera, as asas se despregaram e o homem voador despencou. O Ícaro da Idade Contemporânea voa de asa delta, para-pente, wingsuit (macacão com asa) e base jump (building antena spam earth) atirando-se de altos edifícios, antenas, pontes e montanhas. Na Idade Média, Leonardo da Vinci planejou a máquina voadora. Na Idade Moderna, há notícia de experimentos com máquinas voadoras mais pesadas do que o ar dos quais não há prova. O brasileiro Alberto Santos Dumont (1873 a 1932), vivendo na França, sem preocupação financeira, membro de família rica, idealizou objetos voadores dirigíveis pelo homem. Perante uma comissão do aeroclube da França, demonstrou a dirigibilidade dos balões ao contornar a Torre Eiffel, em Paris. A seguir, naquela mesma cidade, Alberto construiu máquina voadora com motor a explosão denominada 14-Bis e empreendeu o primeiro vôo em público e documentado da história da aviação (1906). Recebeu o Deutsch-Archdeacon Prize como reconhecimento pelo primeiro vôo motorizado da Europa. Alberto criou o monoplano que pesava 100 kg., com velocidade máxima de 90 km/h. Batizou-o de Demoiselle (1907). Alberto suicidou-se quando estava no Brasil, na praia paulista do Guarujá. O motivo seria o desgosto de ver a sua invenção utilizada para fins bélicos.

O rádio, como instrumento de comunicação, expandiu-se a partir de 1920. Na segunda guerra mundial, os ingleses inventaram o radar (dio detection and rage). Este aparelho permitia à defesa britânica detectar a presença dos aviões inimigos quando ainda se encontravam a uma distância de 100 milhas. Com auxílio desta invenção, os britânicos destruíram mais de uma centena de aeronaves alemãs. A navegação aérea civil e militar se desenvolveu. Sofisticados, potentes e velozes aviões transportam passageiros e carga por todos os continentes. Avançada tecnologia dos aviões de combate e espionagem protege-os do radar (invisibilidade). Naves espaciais viajam pelo sistema solar. Satélites artificiais foram criados e lançados ao espaço para monitorar a Terra e auxiliar na meteorologia, na pesquisa astronômica e nas comunicações.  

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

FILOSOFIA XV - 17



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

Signatário do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca de 1947, o Brasil alinhou-se com os EUA e os países do Cone Sul no combate ao comunismo e à influência soviética na América (1964 a 1985). À semelhança dos gulags, formou-se o arquipélago sul-americano: Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai. Nele ocorreram prisão, exílio, tortura, assassinato e desaparecimento de milhares de pessoas, troca de prisioneiros, violação de mulheres, arresto de crianças, numa infernal atrocidade da qual somente a natureza demoníaca do ser humano é capaz. Governos constitucionais de esquerda foram substituídos por ditaduras de direita até que os ventos mudassem de direção nos anos 1980.

A política e a economia têm essa flexibilidade: mudam conforme a direção do vento ou de acordo com o teor da boataria. As notáveis mudanças na Europa Oriental nas duas últimas décadas do século XX refletiram-se no mundo ocidental. O governo dos EUA sob a chefia de Donald Reagan aproveitou-se das mudanças para estabelecer uma nova ordem mundial em sintonia com os interesses do seu país. Induziu a globalização da economia. Margareth Thatcher, na chefia do governo da Inglaterra, declara o fracasso do socialismo democrático, adota política conservadora, substitui o Estado do Bem-Estar pelo Estado Liberal, privatiza a economia e estimula a iniciativa privada. A onda neoliberal leva de cambulhada países do “terceiro mundo”, inclusive o Brasil. O Mercado Comum Europeu evolui para União Européia e os países membros criam moeda comum (Euro) e elaboram projeto de Constituição (1999).

O fenômeno globalização não era novo e sim uma ocorrência do processo civilizador como se verifica do intercâmbio cultural e comercial havido na Idade Moderna entre as nações do mundo. A novidade era o tipo de globalização na Idade Contemporânea: comunicação de massa em tempo real; circulação instantânea de enorme volume de capital por vários centros financeiros do mundo (diferentes mercados nacionais); maior competitividade no comércio internacional com a padronização de sistemas produtivos, de normas e de comportamento dos consumidores e produtores. Em Davos, Suíça, na véspera do terceiro milênio, realizou-se o Fórum Econômico Mundial, que reuniu centenas de empresários e agentes políticos de várias nações do mundo (28/01/1999 a 02/02/1999). Ali, os participantes chegaram à conclusão de que todos viviam em um mundo no qual flutuam as moedas, as empresas e os regimes políticos. Confirmaram a instabilidade da economia nesta quadra da história e colocaram em dúvida a capacidade das pessoas de aceitar e enfrentar essa realidade. Além da econômica, a globalização tem outras faces, tais como: a ecológica, a demográfica, a escassez de emprego, de água potável e de combustível fóssil, o tráfico ilícito de drogas, de plantas, animais silvestres, mulheres, crianças e  órgãos humanos. A globalização política foi ensaiada com a Liga das Nações, sucedida pela Organização das Nações Unidas (ONU), com êxito até o momento, apesar dos antagonismos entre as potências.    

A implosão da URSS alterou o mapa europeu e a correlação de forças entre os países. A maré separatista prossegue de forma tentada ou consumada: Chechênia, País Basco, Bálcãs (Bósnia, Sérvia, Montenegro). A província do Kosovo separa-se da Sérvia e recebe apoio dos EUA, Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Croácia, Hungria e Bulgária, enquanto a China, Rússia, Espanha, Chipre, Grécia e Romênia, negaram o reconhecimento (2008). Os EUA autorizaram envio de armas ao Kosovo. A Rússia ameaçou lançar mísseis contra o país que receber tais armas. A província da Criméia separa-se da Ucrânia e adere à federação russa (2014). A disputa entre Rússia e EUA pelo controle político e ideológico da Ucrânia e a ameaça de confronto bélico é mais um episódio a mostrar a fragilidade da concórdia internacional. Houve represálias econômicas de todos os lados. A guerra fria renasce com calor.

Invenções e aprimoramentos tecnológicos prosseguiram em ritmo acelerado nos séculos XX e XXI. A tendência para a padronização ocorre em todo o orbe. Isto repercutiu no pensamento filosófico. Costumes, relação de força entre as nações, regimes políticos, sistemas econômicos, tudo isso mudou com tendências padronizadoras. À revolução comercial da Idade Média seguiu-se o surto econômico da Idade Moderna que se convencionou chamar revolução industrial. A indústria consome mais energia do que no período anterior, as fábricas se multiplicam, os meios de transporte e as comunicações se desenvolvem, o socialismo concorre com o capitalismo. Há uma profusão de idéias e descobertas em seqüência à revolução intelectual, tudo contribuindo para o formidável progresso da civilização ocidental. A revolução sexual que explodiu nos anos 1960 e 1970 derrubou tabu no cinema e na vida real, permitiu a pornografia, liberou a homossexualidade, levou educação sexual às escolas, incentivou o uso de preservativos e das drogas anticoncepcionais, protegeu a prostituta sem incluir o proxeneta, enfraqueceu a censura oficial e a moral conservadora.

Todo conceito perde ou tende a perder, total ou parcialmente, a sua utilidade e significação quando as condições empíricas em que foi elaborado tornam-se remotas, mudam ou se extinguem. O excesso de regulamentação sufoca a liberdade. Quando liberadas forças perturbadoras, o governo é chamado a intervir em defesa da ordem social. O pensamento científico se altera diante da novidade. O discurso científico é circunstancial. Na pesquisa científica, a dedução perde terreno para a indução. Apesar disto, a experimentação depende de uma prévia construção intelectual. A prova da coerência do concreto (fenômeno) é procurada no abstrato (matemática). A filosofia esmaece diante da autoridade da ciência como fonte do conhecimento. Essas duas ordens do saber tendem a se harmonizar. O misticismo se mantém como acesso intuitivo à luz espiritual e se manifesta intensamente nas crises sociais.

A contextualização ou conexão passa a integrar o trabalho do cientista junto com a formulação matemática da natureza e o método experimental. Este método consiste em realizar experimentos para confirmar ou rejeitar alguma hipótese no quadro de uma estrutura teórica. A experiência natural concorre com a experiência artificial provocada pelo cientista com propósito definido. Os passos do método experimental variam segundo o tipo de pesquisa e o objeto pesquisado. Os alquimistas foram predecessores do método experimental (Paracelso, Boyle, Newton, Leibniz, foram alquimistas). A vida ativa se harmoniza com a vida contemplativa. Conhecer a natureza é útil para a vida ativa (agricultura, culinária, medicina, comércio, indústria) tanto quanto a filosofia o é para o Estado e a sociedade (história, política, retórica, ética, direito). A metafísica perde autoridade ante a filosofia derivada da experiência. A filosofia ocidental sofre a influência da filosofia oriental. A religião cristã sofre a concorrência da religião e do misticismo oriental (islamismo, budismo, hinduismo).

Carl Gustav Jung (1875 a 1961), suíço, psiquiatra, psicanalista, criou a psicologia analítica. O seu trabalho foi recebido com reservas pela comunidade científica justamente por sua incursão na metafísica e nas crenças orientais. Carl interpretou como símbolo do “eu”, a mandala, figura de contemplação usada na ioga tântrica. Em “Memórias, Sonhos e Reflexões”, ele sustenta: que os padrões simétricos em movimento dentro de um círculo refletem certo estado psíquico e, disto, as rosáceas expostas nas catedrais medievais são exemplos incontestes; que nos sonhos há premonição; que há um inconsciente coletivo, repositório de mitos e símbolos religiosos, subjacente ao inconsciente individual; que os arquétipos mostram a comunicação entre a mente humana e a mente divina. A teoria de Carl foi bem recebida nas instituições místicas.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

FILOSOFIA XV - 16



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

Xenofobia e fanatismo religioso foram os ingredientes do trágico episódio em Paris que dividiu a opinião pública mundial por envolver jornalistas, liberdade de imprensa e muçulmanos. Dois irmãos descendentes de imigrantes árabes (Cherif e Said Kouachi) atacaram a sede do hebdomadário satírico intitulado “Charlie Hebdo” (07.01.2015). Morreram 12 pessoas. Prontos a desempenhar o papel de mártires e servir de exemplo heróico à irmandade a que pertenciam, os homicidas empreenderam um confronto suicida com a polícia francesa e foram mortos. A organização paramilitar “Al Qaeda” assumiu a responsabilidade pelo ataque (14.01.2015).

Ultrajar crença religiosa ou exceder-se no exercício do direito de defesa são condutas consideradas criminosas pela ordem jurídica de alguns países, inclusive o Brasil. No citado hebdomadário, os jornalistas publicaram imagens degradantes ridicularizando o profeta Maomé e o Islã. Cutucaram a onça com vara curta, diria um caipira brasileiro. Os árabes são semitas, tal como os antigos cananeus, babilônios, assírios e hebreus. No século VI da era cristã, esse povo adotou a religião islâmica fundada por Maomé, dela é cioso e por ela tem o dever de lutar, conforme preceitua o livro sagrado (Corão). Essa luta defensiva leva o nome de Jihad. [O capítulo “Filosofia XI”, da presente série, tratou da Arábia]. A xenofobia de franceses judeus e cristãos de um lado e o fanatismo de franceses muçulmanos de outro, geraram o ato homicida praticado – não por estrangeiros – e sim por dois cidadãos franceses fiéis tanto à bandeira tricolor como à religião islâmica.

François Hollande, presidente da França, organizou a “Marcha para a Liberdade” e convidou líderes de outros países. Os que atenderam ao convite caminharam pelas ruas de Paris à frente de uma multidão de pessoas que portavam a mensagem solidária “Je suis Charlie” (11/01/2015). Em diversas partes do mundo houve manifestação contrária à debochada linha do hebdomadário: “Je ne suis pas Charlie” ou “Je suis Mohamed”. A minoria proprietária dos meios de comunicação social sentiu-se ameaçada, mormente no que tange ao seu patrimônio e ao seu negócio. Na mencionada marcha, governantes e governados serviram de massa de manobra a essa poderosa minoria. Nos países democráticos, aos políticos interessa prestar apoio à imprensa, pois, por meio dela, conquistam ou perdem votos. Os donos de jornais impressos, de revistas, de emissoras de rádio e televisão, servem-se desses veículos com o propósito claro ou camuflado de: (1) aumentar sua fortuna; (2) propagar suas idéias e crenças e atacar as alheias; (3) construir e destruir reputações; (4) manipular informações e escamotear a verdade; (5) orientar as decisões e os investimentos do governo na direção dos seus interesses privados.  

Tragédias maiores, com milhares de mortos (adultos, jovens e crianças) não mereceram a mesma atenção dada ao episódio do hebdomadário. Dessa discriminação feita pela imprensa e pelas autoridades ocidentais constata-se que o patrimônio é mais importante do que a vida. Há gente sobrando no planeta e o que é abundante tem pouco valor de troca. A destruição de edifícios, casas, estradas, pontes, viadutos, veículos, máquinas, equipamentos, causa maior impacto do que a perda de vidas humanas, porque a recuperação material custa dinheiro. Há notícia de projeto de fabricação de bomba que ao explodir só mata pessoas sem destruir o patrimônio. 

Liberdade significa ausência de limites, freios e grilhões. A ausência total corresponde à liberdade total cujo único titular é deus, porque nada lhe é superior em poder e vontade. A ausência parcial de limites corresponde à liberdade parcial cujo titular é o animal, porque está submetido às determinações da natureza. O animal irracional está limitado pelas leis da natureza, como acontece com o vôo do pássaro. O animal racional está limitado pelas leis da natureza e pelas leis da sociedade. As determinações sociais são criadas pelo homem e para o homem. Consistem de convenções, de regras técnicas e científicas, de normas éticas, jurídicas e religiosas, que limitam a conduta humana e condicionam a vontade e o pensamento. Transgredir faz parte do comportamento animal, embora como exceção. O transgressor é ator do drama existencial. Utiliza a liberdade contra a ordem estabelecida. A gaivota, do conto mavioso de Richard Bach, transgrediu a ordem natural ao voar além do limite a que estava determinada pela natureza (“Fernão Capelo Gaivota”, 1970). A fêmea de uma raça excepciona a ordem natural ao cuidar dos filhotes de outra raça. A liberdade humana implica poder de escolha (autonomia da vontade) e ausência de coação (espontaneidade). Ao arrostar leis naturais ou sociais, o transgressor pode ser punido ou inaugurar nova ordem se a sua vontade prevalecer. A coerção se opõe à liberdade. Nas modalidades de ação, como a manifestação da vontade, do sentimento e do pensamento, a liberdade humana suporta limites traçados pelo legislador. A violação desses limites provoca a reação da vítima e a intervenção coercitiva do Estado.

A extensão da liberdade humana tem sido exagerada com o propósito de acobertar privilégios. Os donos e profissionais da imprensa pretendem usufruir liberdade total incompatível com a democracia e com a natureza. Onde vigora o regime democrático, governante e governado desfrutam liberdade parcial, todos submetidos às normas jurídicas, sob o pálio da igualdade. A imprensa é livre quando independe de censura prévia e de licença da autoridade para se expressar. Isto não significa ausência de regramento. A sociedade liberal tem valores morais e religiosos que não se afinam com a falta de decoro, com a pornografia, o deboche, a injúria, a difamação, a calúnia. Leis fundadas naqueles valores estabelecem parâmetros tanto para a atividade jornalística como para os demais serviços nas esferas pública e privada.   

Em nação alicerçada na dignidade humana e na liberdade, o cidadão tem o direito de abraçar qualquer religião. Este direito supõe o correlato dever de tolerância sem o qual a liberdade de religião é ineficaz. Ainda que seja ateu, o cidadão tem o dever de tolerar a crença do outro. Os europeus adeptos da religião islâmica sofrem discriminação. Nas “religiões do livro” (judaica, cristã e islâmica) há seguidores moderados, fanáticos e extremistas. Nem todos os seguidores interpretam o “livro sagrado” (Bíblia ou Corão) no mesmo sentido. Os sermões na sinagoga, na igreja e na mesquita nem sempre são suficientes para controlar a ação dos fanáticos e extremistas que apelam para a violência. Nas três religiões há facções fundamentalistas das quais se despregam grupos extremistas do tipo “Opus Dei” e “Estado Islâmico”, embalados por valores políticos, econômicos e religiosos, cujos membros não se desligam da crença religiosa, mas, ao contrário, têm-na como garantia de uma futura e venturosa vida no mundo espiritual.

No interior de um avião, diante de jornalistas convidados, o papa Francisco manifestou-se sobre o episódio do hebdomadário parisiense, os limites da liberdade de imprensa, o respeito devido à fé religiosa e a reação a ofensas. Ele disse que daria um soco em alguém que lhe ofendesse a mãe (15.01.2015). Explicar o lançamento de bomba atômica sobre um país não significa concordar com o lançamento. O papa não estava a justificar a violência. Apenas explicava que reagir a uma ofensa é natural e humano. Ao ser esbofeteado, ninguém oferece a outra face, apesar da anedota evangélica. Há brocardos nessa mesma linha, tais como: “olho por olho”, “quem semeia vento colhe tempestade”, “quem diz o que quer ouve o que não quer”, “quem com ferro fere com ferro será ferido”. No estudo da natureza, cientistas observaram que a toda ação corresponde uma reação. No meio social, o princípio do contraditório efetiva-se por tipos de resposta como a contestação e a retorsão. Ofensas físicas e morais geram resposta imediata ou mediata. Por considerar o comércio no templo ofensa a deus, Jesus agrediu os mercadores a chicotadas. Nem todos têm a frieza de suportar a ofensa, raciocinar, escolher a forma mais adequada, o tempo e o lugar mais favoráveis para reagir.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

FILOSOFIA XV - 15



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

A população européia decresceu com a Peste Negra; depois, cresceu até a primeira guerra mundial; a seguir, decresceu (milhões de mortos na guerra); voltou a crescer até a segunda guerra mundial; depois, decresceu novamente (milhões de mortos na guerra); voltou a crescer ao ponto de reduzir a marcha e apelar para o controle da natalidade. Este controle resultou da iniciativa dos casais que encaram a realidade econômica e adotam novos costumes e nova mentalidade: família minúscula, ser feliz aqui e agora. Influem na gangorra demográfica: períodos de guerra e paz; fluxo de emigrações e imigrações; controle e descontrole da natalidade; maior ou menor efeito das proibições religiosas; maior ou menor expectativa de vida.

A ciência médica passa a considerar o psiquismo e o organismo físico de modo integrado no processo terapêutico ao notar a recíproca influência entre a vida orgânica, a vida social e a vida mental. A técnica psicanalítica participa do processo. Nutricionistas elaboram dietas e orientam a produção de alimentos. O controle de doenças mediante aperfeiçoados e acessíveis recursos da medicina contribuem para maior duração da vida e redução das incertezas sobre a saúde, embora permaneçam incertezas derivadas de epidemias e de moléstias como aids, câncer, diabetes, alcoolismo. A ênfase na higiene contribuiu para melhorar a saúde das pessoas: lavar as mãos, banhar-se e escovar os dentes diariamente, roupas limpas e passadas, dormitórios separados, ventilação, limpeza dos utensílios domésticos, móveis, banheiro e quintal. A ampliação do espaço das moradias populares proporcionou mais conforto a partir da segunda metade do século XX. Água represada e tratada chega ao interior das residências através de encanamento. Rede de esgoto permite que as necessidades fisiológicas sejam atendidas dentro de casa em local reservado e provido de vaso sanitário e descarga. Cogita-se o tratamento e reaproveitamento da água do esgoto e a dessalinização da água do mar para irrigação e consumo humano.

As casas das camadas ricas e remediadas da sociedade estão providas de fogão a gás ou elétrico, geladeira, freezer, máquinas de lavar e secar roupa e louça, telefone, liquidificador, batedeira, aparelhos eletrônicos, além do mobiliário. Jardim na frente, quintal nos fundos, garage e piscina. Casa decente, aquecimento ambiental, ar condicionado, rádio, televisão, computador, bicicleta e automóvel são os itens mais freqüentes aspirados pelas famílias. A leitura de livros, de jornais, de revistas e a freqüência às salas de cinema sofrem a concorrência do noticiário e dos programas das emissoras de televisão e das matérias publicadas na rede de computadores. Os consumidores, por comodismo, fazem compras através dessa rede e recebem a mercadoria em casa. O volume das vendas por esse meio atinge bilhões de dólares.

A urbanização da sociedade européia gerou concentração de famílias nas cidades. Parte da população rural abandonou a atividade agrícola. As casas da camada pobre da sociedade são mais amplas e mais confortáveis do que as casas dos pobres do século anterior e geralmente estão providas de fogão a gás, de geladeira, ferro de passar roupa, aparelho de televisão e mobiliário simples e essencial. O trabalho urbano e mal remunerado realizado em casa no século XIX, deslocou-se para as fábricas, onde os salários eram melhores, havia benefícios sociais e os donos forneciam ferramentas e material. Após 1914, atividade doméstica e atividade profissional têm domicílios distintos. Vida privada e vida pública separam-se.

No século XXI, a atividade profissional ligada à informática e atividades informais, como artesanato e culinária, retornam ao ambiente doméstico. Algumas empresas preferem que o empregado trabalhe em casa. Da parte do prestador de serviço, verifica-se, neste século, mudança de mentalidade em andamento: ser feliz na atividade escolhida, ainda que para isto sua renda venha a ser menor do que a auferida no emprego em grande empresa. A racionalização do espaço do setor produtivo levou à criação de áreas comerciais e de zonas industriais nos territórios municipal e metropolitano. Oportunidade de emprego, conforto e lazer na cidade moderna atrai o pessoal do campo. Incluído no proletariado (operários, comerciários, trabalhadores domésticos), o campônio fica à mercê da burguesia (banqueiros, donos de fábricas, de minas, de companhias de transportes, comerciantes, profissionais liberais).

O trabalhador nacional sofre a concorrência de pessoas vindas de outros países em busca de melhor padrão de vida. A mobilidade de pessoas no continente europeu facilitada pela diversidade e quantidade dos meios de transporte aumenta a população do país que recebe o contingente de imigrantes e diminui a população do país remetente. Portugueses, gregos, turcos, africanos morenos e negros, asiáticos morenos e amarelos, saem dos seus países e aportam na Alemanha, na França, na Inglaterra. Normalmente, a primeira geração de imigrantes, ainda apegada aos costumes e tradições de sua terra de origem, tem dificuldade de se adaptar à cultura do país receptor. Os seus descendentes assimilam-na com mais facilidade, embora mantenham a cultura dos ascendentes parcialmente (religião, folclore e alguns hábitos alimentares numa dieta mista de carne, arroz, massa, batata, legume, verdura, fruta, chá, café, suco, refrigerante, cerveja, vinho). Ocorre intercâmbio cultural no seio da sociedade receptora.

A emigração e a imigração têm provocado, na Idade Contemporânea, sérios problemas aos países europeus receptores de indivíduos e famílias oriundos principalmente da África e da Ásia. O alto grau de desenvolvimento econômico de uma região atrai pessoas de países menos desenvolvidos. Isto gera problema de moradia, abastecimento, emprego e distúrbios internos como tem acontecido na França, Inglaterra e Alemanha. Em defesa do país receptor da imigração, invoca-se preceito da encíclica Rerum Novarum, do papa Leão XIII: “Ninguém é obrigado, em absoluto, a socorrer o próximo tirando o que é necessário a si ou à sua família, nem reduzindo nada do que a conveniência ou o bem-estar impõe à sua pessoa”.

A xenofobia intensificou-se nesses países hospedeiros. As vestes das muçulmanas (véu, burka), por exemplo, provocaram reações xenófobas, ainda que essas mulheres, jovens e adultas, fossem cidadãs nascidas na Europa. Adeptos da religião islâmica são, de maneira equivocada e preconceituosa, associados ao terrorismo. Cidadãos europeus descendentes da primeira leva de imigrantes saíram pelas ruas em diversas ocasiões causando danos ao patrimônio público e particular como forma de protesto contra a discriminação que sofrem. Eles queriam ser reconhecidos como cidadãos de primeira categoria, obter empregos que rendessem bons salários, viver urbanamente fora de guetos e exercer os direitos humanos declarados no ordenamento jurídico. Houve mortos e feridos nas manifestações e nos confrontos com a força policial.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

FILOSOFIA XV - 14



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

O governo estadunidense enterrou bilhões de dólares em guerras na Ásia amarela. Apesar disto, sofreu derrotas (Saigon, 1975). O potencial militar dos EUA não foi totalmente utilizado nessas guerras. O governo temia a intervenção direta da China e da URSS. Cerca de 60 mil soldados estadunidenses foram mortos, 600 mil incapacitados por ferimentos e 600 mil desempregados. Para compensar o abalo moral e o efeito deletério do fracasso, Hollywood entra em cena, produz filmes em que heróis americanos aniquilam divisões, quartéis, acampamentos e arsenais dos inimigos amarelos e brancos, salvam prisioneiros e exibem sua força e superioridade. Na vida real, sem a presença de Rambo, o fracasso se repete na Ásia morena. Longe das suas casas, os estadunidenses invadem terra alheia com aviões, veículos de guerra e modernos equipamentos e armas. Bem nutridos com suas rações enlatadas, os soldados prendem, torturam e matam os nativos. Sem o mesmo potencial bélico e sem a mesma dieta alimentar, mas nutridos pela fé nos seus valores culturais e pelo amor à sua pátria, os nativos resistem à ofensiva americana com ardor, eficiência e sem apego à própria vida. O que os americanos pretendiam resolver em poucos meses dura anos. Reincidiram no erro de avaliação. A superioridade econômica e militar de uma nação nem sempre é suficiente para aprisionar e domesticar a alma de uma outra nação.        

As mudanças econômicas dos séculos XIX e XX se refletiram na vida civil e militar dos povos e exibiram alicerces teóricos. Verdadeira revolução na economia ocorreu com a adesão dos países capitalistas às idéias de John Maynard Keynes (1883 a 1946), rico economista inglês, fazendeiro, colecionador de obras de arte, investidor bem sucedido. Ao se apaixonar por uma bailarina russa com quem se casou em 1925, John abrandou o seu homossexualismo. Ele foi considerado um dos maiores economistas e uma das pessoas mais influentes do século XX. John desempenhou importante papel na conferência de Bretton Woods, da qual resultaram o FMI e o Banco Mundial (1944). O impacto da sua teoria econômica foi semelhante ao ocasionado pelas teorias de Adam Smith (século XVIII) e de Karl Marx (século XIX). “As Conseqüências Econômicas da Paz”, “Tratado Sobre a Moeda” e “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, são da sua lavra.

Até os anos 1930, imperava o tipo clássico do liberalismo econômico: teoria do laissez faire, do mercado livre da ingerência do Estado, do ajuste automático da oferta e da procura, da submissão dos fatos econômicos à lei natural. O campo da especulação era microeconômico. Estudava-se a vida econômica das pessoas, das famílias, das empresas. Com John, entra em cena a macroeconomia e um liberalismo mitigado que desconfiava dos mecanismos espontâneos (1936). Passa-se a estudar a vida econômica da nação como totalidade: vinculações entre o produto nacional, a renda nacional, o dispêndio nacional, a poupança nacional, o investimento global, o emprego, a inflação, o desenvolvimento econômico. John introduziu na economia capitalista o princípio da incerteza por simetria com igual princípio da microfísica detectado por Heisenberg. Os agentes econômicos preferem a liquidez dos seus ativos, manter sua riqueza na forma de dinheiro ao menor sinal de queda no sistema, afirmava John com base na experiência. A incerteza própria do sistema capitalista justifica a intervenção do Estado na economia, não para extinguir o referido sistema e sim para aperfeiçoá-lo. O altruísmo (serviço social do Estado) combinado com o egoísmo (livre iniciativa dos particulares). Os ciclos econômicos (recessão, depressão, implosão, crescimento, explosão, recessão...) exigem intervenção estatal através de medidas fiscais e monetárias.

O período de 1950 a 1970 foi o de maior sucesso das idéias de John. Após esse período, a sua teoria perdeu o trono. Os problemas resultantes da crise do petróleo foram atribuídos ao modelo keynesiano (1971). O dólar americano desvinculou-se do ouro. O presidente Richard Nixon, ao mencionar os centros de poder econômico do mundo {EUA + URSS + China + Japão + bloco europeu: Grã-Bretanha, Alemanha, França, Itália} assim se pronunciava: “Serão esses cinco que determinarão o futuro econômico e, como o poder econômico será a chave de outros tipos de poder, o futuro do mundo sob outros aspectos, no último terço deste século”. Depois do Japão, a Europa Ocidental foi a região cuja economia mais cresceu de 1950 a 1970. A Alemanha foi a força motriz do crescimento europeu (indústrias química, elétrica e automobilística; robótica, biotecnologia, telecomunicações; sistema bancário, comércio exterior; nível superior de escolaridade, cientistas, engenheiros e administradores).

A interdependência dos países no mundo contemporâneo assume cores fortes nos momentos críticos. Nos anos 1970, ficou dramática a situação dos países importadores de petróleo. A OPEP suspendera o fornecimento de petróleo aos EUA e demais aliados de Israel. Ao recomeçar o fornecimento, aumentou o preço do barril. O PIB brasileiro despencou após um crescimento de 11,4% a/a (1973). O preço do barril de petróleo sobe acima de US$100 (2008). Cingapura, Taiwan, Hong-Kong e Coréia do Sul recebem o apelido de “tigres asiáticos” por seu acelerado desenvolvimento econômico. A União Européia e a China concorrem com a economia dos EUA e do Japão. A China se mantém no socialismo pragmático introduzido por Deng Xiaoping. O processo chinês de modernização implicava concessão a técnicas capitalistas e obedecia à seguinte ordem de prioridade: agricultura, indústria, ciência e defesa militar (1978). A partir de 2003, a economia chinesa cresce 10% a/a; o seu PIB soma 2,6 trilhões de dólares em 2006. O déficit comercial dos EUA em relação à China foi superior a 250 milhões de dólares em 2007. Ainda na primeira década do século XXI, a China se torna a segunda maior economia do planeta.

Com o mundo capitalista em crise, a teoria monetarista passa a dar as cartas no período de 1971 a 2008. Milton Friedman (1912 a 2006), economista estadunidense, professor na Universidade de Chicago, foi o expoente dessa teoria. Severo crítico da teoria de Keynes, ele era adepto do liberalismo econômico: redução do papel do Estado na economia, livre jogo das forças econômicas segundo leis naturais. As idéias de Milton foram aplicadas nos EUA (governos Nixon e Reagan) e no Chile (governo Pinochet) com repercussão em outros rincões do planeta. Todavia, nova crise econômica mundial gerada pela ganância e malandragem dos especuladores forçou o recuo dos países capitalistas (2008). Líderes mundiais como Barack Obama (EUA) e Gordon Brown (Inglaterra) adotaram as idéias de Keynes como base teórica para os seus planos de combate à recessão e de prevenção contra futuras crises. O Brasil, sob o governo de Luiz Inácio da Silva, também enveredou por essa trilha com sucesso (2008 a 2010). O governo dos EUA, chefiado por Barack Obama, reata as relações diplomáticas com o governo de Cuba, chefiado por Raul Castro. Abre-se vereda à suspensão do embargo econômico (dezembro, 2014). Em atenção ao gesto do presidente estadunidense, o presidente cubano liberta presos políticos. Em janeiro de 2015, uma comissão oficial do governo estadunidense visita Cuba para tratar das novas relações entre os dois países. 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

FILOSOFIA XV - 13



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

A tensão entre URSS e EUA teve reflexos negativos em todas as nações do globo. A disputa entre o país socialista e o país capitalista pela hegemonia no mundo foi apelidada de guerra fria por Walter Lippmann, comentarista político estadunidense, expressão que se consolidou no vocabulário da política internacional como característica do período de 1945 a 1991. A expectativa de uma terceira guerra mundial deixa o mundo em suspense nesse período. Grave era o perigo geral proveniente da corrida espacial e armamentista. O potencial destruidor das armas contemporâneas colocou as grandes nações no caminho da coexistência pacífica. As duas grandes potências estabeleceram regras para o caso de um conflito nuclear. A população civil devia ser poupada. Foram celebrados tratados e acordos para limitar testes com bombas e evitar a proliferação de armas nucleares. Do medo da hecatombe nuclear surgiu a esperança de que ela jamais ocorresse. Havia preocupação com a sobrevivência humana, com a proteção do patrimônio econômico e cultural e com a organização estável e duradoura de uma sociedade internacional que proporcionasse paz e prosperidade. 

A competição entre as duas grandes potências estremeceu o espírito de conciliação e de colaboração internacional que presidira a fundação da ONU. O então Secretário-Geral da ONU, U-Than, afirma que essa competição envenenou as relações internacionais do pós-guerra (1963). O poder divorciou-se da ética e do direito nos negócios internacionais e enveredou para a espionagem, o seqüestro, a tortura, o assassinato, o genocídio, a derrubada de governos legítimos, o apoio a ditaduras, o desrespeito à autodeterminação dos povos. A produção de material bélico cresceu em progressão geométrica e os preços de tanques, aviões, navios, submarinos, atingiram níveis estratosféricos. Isto representou um peso colossal no orçamento militar dos países. A corrida armamentista e a disputa ideológica e econômica nos continentes africano e asiático eram manifestações do envenenamento a que se referiu U-Than.

A URSS foi a primeira a lançar ao espaço sideral um satélite artificial (Sputnik) e uma nave tripulada por ser humano (Yuri Gagarin, extasiado com a cor azul da Terra, 1961). Astronautas fincaram a bandeira dos EUA na Lua (1969). O terrorismo de grupo e o terrorismo de Estado marcaram presença na Europa, Ásia e África. A América também teve os seus dias amargos, tais como: o da explosão em local público no Brasil (Riocentro, RJ) e em local privado na Argentina (sinagoga) e o choque proposital de aeronaves civis contra edificações nos EUA (Pentágono e World Trade Center). Questões regionais como as de Cuba, do oriente médio e do sudeste asiático, ganhavam dimensão planetária desassossegando as nações ante a expectativa de novo conflito mundial. As duas potências dispunham da bomba de hidrogênio e de mísseis intercontinentais que podiam ser lançados da terra e do mar. A fim de evitar a hecatombe, linha telefônica foi instalada entre os gabinetes dos chefes de governo dos EUA e da URSS depois da crise dos mísseis soviéticos com ogivas nucleares em Cuba (1962). O governo estadunidense decretou embargo econômico a Cuba, no que foi acompanhado pelos países aliados.

Do ponto de vista secular, a derrocada da URSS começou com a “Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa” em Helsinque, realizada de comum acordo entre Washington e Moscou como estratégia para congelar a guerra fria (détente, 1975).

Leonid Brejnev, na chefia da URSS, insistira na realização dessa conferência pensando no reconhecimento internacional das fronteiras entre os países da Europa e assim evitar intervenções armadas como as ocorridas na Alemanha Oriental (para sufocar o levante de 1953), na Hungria e na Tchecoslováquia (em 1956 e 1968, respectivamente, para impedi-las de se desligarem do Pacto de Varsóvia). Leonid aceitou as cláusulas sobre direitos humanos que constaram da ata final da reunião. Os dissidentes internos da confederação soviética (países satélites + países federados) aproveitaram-se disto para exigir coerência do Kremlin, unidade de princípios, liberdade e respeito aos direitos humanos. A pressão por autonomia aumentou. A má situação econômica da URSS contribuiu para o desfecho implosivo (1981 a 1990).

Mikhail Gorbachev, na chefia da URSS, iniciou a reestruturação política e econômica (perestroika). Acreditava que a aceleração do desenvolvimento social e econômico do país era a chave para a solução de todos os problemas (1985). No “Congresso do Partido Comunista”, Mikhail afirmou que as dificuldades econômicas começaram a se acumular a partir da década de 1970 e as metas dos últimos planos qüinqüenais não foram alcançadas. Admitiu atraso geral nas seguintes áreas: (1) ciências, engenharia, eletricidade, carvão e petróleo; (2) indústrias dos metais ferrosos e dos produtos químicos; (3) formação de capital; (4) educação, saúde e cultura; (5) serviços à população (1986). Bulgária, Hungria, Polônia, Romênia, Tchecoslováquia (estados satélites), romperam os vínculos políticos com a URSS (1989). O muro de Berlim que separava a Alemanha Oriental da Alemanha Ocidental veio abaixo por ação espontânea e rebelde do povo (09/11/1989). A Alemanha se reunifica e Berlim é a capital (1990). Armênia, Bielorússia, Casaquistão, Estônia, Geórgia, Letônia, Lituânia, Moldávia, Rússia e Ucrânia (estados federados) rompem o vínculo federativo. Mikhail Gorbachev assina o decreto de dissolução da URSS (1991). Perde eficácia a ata final da Conferência de Helsinque que fixara as fronteiras européias. A guerra fria chega ao fim.

Do ponto de vista espiritual, a derrocada da URSS tomou impulso com a visita do papa à Polônia (1979). Leonid Brejnev, chefe do governo soviético, tentou impedir a visita. O governo da Polônia insistiu em receber o religioso, invocando o orgulho nacional: o papa era polonês! Leonid lavou as mãos. A massa do bolo desandou.

O papa não tinha arsenal bélico – fato que na segunda guerra mundial inspirou o motejo de Stalin – porém, dispunha de recursos mais poderosos do que fuzis, tanques e canhões. Karol Wojtyla, ator, atleta, sacerdote vigoroso física, moral e espiritualmente, entra no território comunista, beija o solo e provoca um terremoto. Multidões ouvem-no e cantam com entusiasmo em praça pública. João Paulo II (Wojtyla) coloca deus e Jesus acima de Marx e Lênin. O efeito mesmerizador de palavras e gestos faz o povo sentir a presença divina e perder o medo. A onda religiosa engolfa a Europa Oriental. Segundo o magistério pontifical, a moralidade devia ser uma só nas esferas individual, nacional e internacional. No ano seguinte, apoiado pela igreja católica, Lech Walesa, operário polonês, em frente ao estaleiro Lênin, em Gdansk, anuncia a fundação do sindicato de trabalhadores “Solidariedade” (Solidarnosc), o primeiro sindicato livre em solo comunista (1980). O episódio foi uma fissura no bloco do leste europeu. Lech foi eleito presidente da Polônia. No Brasil, ainda sob ditadura militar, mas já na fase de distensão lenta e gradual, Luiz Inácio da Silva, operário, lidera os metalúrgicos do Estado de São Paulo e funda o Partido dos Trabalhadores com apoio da igreja católica e de um grupo de intelectuais (1980). Luiz Inácio esperou 22 anos para ser eleito presidente do Brasil.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

FILOSOFIA XV - 12



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

Terminada a segunda guerra mundial, as duas potências iniciaram a disputa pelo controle territorial, estratégico, econômico e ideológico de áreas do planeta: Europa (Oriental e Ocidental), Ásia morena (Palestina, Síria, Arábia Saudita, Jordânia, Iêmen, Iraque, Irã, Índia, Paquistão, Afeganistão), Ásia amarela (China, Coréia, Japão, Vietnã, Camboja, Tailândia), Oceania (Filipinas, Malásia, Indonésia), África morena (Egito, Marrocos, Argélia, Líbia), África negra (Central e Meridional), América morena (Central e Meridional). As duas potências prestavam ajuda financeira e militar aos países do “terceiro mundo”. A cessão de parte do território palestino para criação do Estado de Israel atendeu aos interesses dos EUA, o que explica a tolerância do governo ianque com as práticas criminosas do governo israelense.

Dean Rusk, secretário do governo estadunidense, faz a seguinte afirmação: “Este planeta tornou-se muito pequeno. Temos de nos ocupar de todo ele, de todas as suas terras, águas, atmosfera e com o espaço circundante” (1965). O governo soviético, sob a liderança de Kruschev, afirmava que havia diferentes caminhos para o socialismo e tomou iniciativa para o degelo da guerra fria ao retirar as tropas soviéticas estacionadas na Áustria, ao devolver base naval a Finlândia e o Port Arthur à China e ao suavizar as relações com a Iugoslávia. O líder soviético passou a ocupar-se intensamente com o “terceiro mundo” após ver frustrado o seu esforço para uma détente real e efetiva com os EUA em conseqüência dos incidentes com o U-2 (1960), com o muro de Berlim (1961) e com os mísseis em Cuba (1962). Alguns países procuravam manter boas relações diplomáticas com as duas potências sem alinhar-se, ainda que delas recebessem algum tipo de ajuda, como a Iugoslávia sob o governo Tito, o Egito sob o governo Nasser e a Índia sob o governo Nehru. O imperialismo universal russo e estadunidense sofria resistência.

A fissura no bloco soviético se deu com o afastamento da China (1963). A URSS liderada por Kruschev, colocava ênfase no proletariado industrial. A China liderada por Mao Tse Tung, colocava ênfase nos camponeses e se desvinculou do governo russo. Esperava-se que a China, a Índia e outros países do “terceiro mundo” promovessem com êxito a revolução verde mediante a produção e exportação de cereais. A China marchou a passos largos para ingressar no seleto clube atômico ao fabricar e explodir a sua primeira bomba (1964). O governo chinês assumiu uma linha independente. Contestou as ações do governo soviético sobre outros países comunistas e os tratados sobre armamento por ele assinados com países ocidentais.

A fissura no bloco estadunidense ocorreu inicialmente com a França, liderada pelo general De Gaulle, herói da resistência francesa, cuja postura era contrária à hegemonia dos EUA na Europa. A França entra para o restrito clube atômico ao fabricar e explodir a sua primeira bomba (1960). O governo francês expulsou de Paris a sede da OTAN, fechou todas as bases americanas em França, estabeleceu relações mais vigorosas com a URSS, discordou da entrada da Grã-Bretanha na Comunidade Econômica Européia e se reconciliou com a Alemanha então governada por Konrad Adenauer (1963). À doutrina Monroe, “a América para os americanos”, De Gaulle opôs uma doutrina simétrica: “a Europa para os europeus”. O prestígio do general sofreu sério abalo com a revolta dos estudantes e dos trabalhadores que tumultuou Paris (1968).

Outra fissura no bloco estadunidense, porém menos contundente, decorreu da política da Alemanha Ocidental de aproximação e reconciliação com a Rússia, Polônia, Tchecoslováquia e Alemanha Oriental durante o governo de Willy Brandt (1969 a 1973). A Alemanha Ocidental estabeleceu relações econômicas e culturais com esses países e participou dos acordos de Helsinque sobre direitos humanos (1975). O número de estrelas no céu internacional aumentou. Forma-se progressivamente uma constelação e uma nova ordem multilateral: EUA, União Européia, Tigres Asiáticos (Cingapura, Taiwan, Hong-Kong, Coréia do Sul, países que se industrializaram e prosperaram rapidamente), BRICA (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul). O centro de gravidade do poder econômico mundial fragmentou-se.

À medida que os laços entre os países da Europa Ocidental se fortaleciam, os países da Europa Oriental sentiam-se mais atraídos pelo progresso que percebiam naquela região. No sentido oposto, a Rússia, que fora a maior exportadora de cereais do mundo, teve necessidade de importar dezenas de milhões de toneladas de trigo e de milho a partir do início da década de 1970. Este foi o primeiro sintoma da implosão que ocorreria na década seguinte. Para fortalecer os laços de união das repúblicas soviéticas ante o perigo de secessão, as lideranças soviéticas providenciaram uma nova Constituição (1977) que anunciava um novo estágio em direção ao comunismo: Estado Socialista de Todo o Povo que expressa a vontade e os interesses dos trabalhadores, camponeses e intelectuais de todas as nações e etnias do país. O estágio da Ditadura do Proletariado fora cumprido com êxito. Entrava-se agora numa nova comunidade histórica socialista desenvolvida e de relações maduras: o povo soviético. Esta comunidade tem como lei de vida o desvelo de todos pelo bem de cada um e o desvelo de cada um pelo bem de todos; autêntica democracia cujo sistema assegura a eficiente administração de todos os assuntos sociais e a conjugação de direitos e deveres. Cuida-se de uma etapa lógica do caminho até o comunismo. O supremo objetivo do Estado soviético é edificar a sociedade sem classes na qual se desenvolverá a autogestão social comunista, sendo necessário, para tanto, criar a base material e técnica, aperfeiçoar as relações socialistas e transforma-las em comunistas, educar o homem da sociedade comunista, elevar o nível de vida dos trabalhadores, segurança do país, fortalecimento da paz e fomento da cooperação internacional.

Segundo a Constituição soviética de 1977, ao povo pertence o poder exercido através dos sovietes de deputados. Adota-se o centralismo democrático: (1) preenchimento de todos os órgãos de poder do Estado mediante eleições; (2) prestação de contas ao povo da gestão governamental; (3) obrigação dos órgãos inferiores obedecerem às decisões dos órgãos superiores. Legalidade socialista condicionadora da atividade administrativa. Obediência de todos à Constituição e às leis. Debate e referendo popular sobre as questões transcendentais da vida do Estado. O Partido Comunista da URSS, força dirigente e orientadora da sociedade, núcleo do sistema político, existe para o povo, ao serviço do povo e tem por objetivo: (1) definir a orientação geral do desenvolvimento da sociedade e a linha da política interna e externa; (2) imprimir caráter científico e sistemático na luta pelo triunfo do comunismo. A juventude, os sindicatos, as cooperativas e outras organizações sociais participarão da administração dos assuntos do Estado e da Sociedade e na solução dos problemas políticos, econômicos, sociais e culturais. A propriedade socialista dos meios de produção é base do sistema econômico. Ninguém tem o direito de utilizar a propriedade socialista para seu lucro pessoal e nem para outros fins egoístas. A atividade econômica individual na esfera da pequena produção, da agricultura e dos serviços à população é permitida na forma da lei. A propriedade do Estado, patrimônio comum de todo o povo soviético, é a forma fundamental da propriedade socialista. A renda proveniente do trabalho constitui a base da propriedade pessoal dos cidadãos. O desenvolvimento econômico e social obedecerá a planos periódicos. O solo, o subsolo, as águas, a flora, a fauna, serão objeto de proteção estatal para conservar limpos o ar e a água e assegurar a reprodução das riquezas naturais e o melhoramento do meio ambiente.