quarta-feira, 2 de julho de 2014

COPA 2014 - V



Na seqüência dos jogos desta copa, a esperteza burra e a tática suicida aconteceram novamente. A seleção mexicana vencia a holandesa (1x0). No segundo tempo, para garantir a vitória, o técnico mexicano substituiu por um defensor o atacante que marcara o gol. Abdicou do ataque. Próximo do final da partida, ele colocou sua equipe na retranca. Nos acréscimos ao tempo regulamentar, a seleção holandesa marcou dois gols, o segundo por pênalti no minuto final do jogo, virou o placar a seu favor e se classificou para a fase seguinte.

Pretender com retranca assegurar um placar magro diante de uma equipe adversária de bom nível coletivo e de bons valores individuais equivale ao anseio por suicídio. Técnicos excessivamente cautelosos que se valem dessa tática têm gerado derrotas para as suas equipes. Isto acontece com freqüência em jogos nacionais e internacionais. Serve de exemplo a recente decisão do campeonato europeu entre os clubes Atlético de Madri e Real Madri (24/05/2014).

A seleção da Costa Rica também foi vítima da esperteza burra e da tática suicida. Vencia a seleção da Grécia (1x0). No segundo tempo recuou para garantir o resultado. Nos acréscimos ao tempo regulamentar os gregos empataram (1x1). Houve prorrogação em que a seleção da América Central se viu em palpos de aranha. Persistiu o empate. Na decisão por pênaltis a vitória coube aos costarriquenhos para alívio do seu treinador que teve mais sorte do que juízo. Tal comportamento ainda poderá se repetir até o final da copa. Em alguns treinadores, parece que o medo de perder suplanta a coragem de vencer.  

A seleção francesa venceu a nigeriana (2x0). A seleção africana mostrou-se melhor na maior parte do tempo. Sofreu pelo fato de ser uma seleção de negros do terceiro mundo a competir com uma seleção do primeiro mundo em um jogo arbitrado por um branco cidadão dos EUA. A seleção da Nigéria lutou contra uma adversária mediana: a seleção francesa; e contra outra adversária poderosa: a arbitragem. Teve anulado um gol legítimo. Além disto, o árbitro ignorou um pênalti escandaloso na área francesa. Duas covardes agressões contra jogadores africanos foram toleradas: (1) Cotovelada desferida por Giroud no rosto do africano fora da disputa por bola no primeiro tempo do jogo. O árbitro limitou-se a advertência verbal quando o caso era de expulsão. (2) Solada violenta de Matuidi que tirou o adversário africano da partida no segundo tempo. O árbitro limitou-se a advertência com cartão amarelo quando o caso era de expulsão (cartão vermelho). Próximo do final da partida a seleção francesa fez um gol a favor e a africana fez um gol contra. O segundo jogo da tarde desse mesmo dia (30/06) foi da seleção da Alemanha contra a seleção da Argélia. O empate no tempo regulamentar refletiu bem o equilíbrio entre as duas equipes (0x0). A seleção alemã venceu na prorrogação (2x1). No início da tarde do dia seguinte (1º/07) jogaram a seleção da Argentina e a seleção da Suíça. Houve empate no tempo regulamentar (0x0). Na prorrogação, venceu a platina com um só gol na bacia das almas (1x0). A reação suíça foi insuficiente para mudar o resultado. No final da tarde, jogaram as seleções da Bélgica e dos EUA, quiçá a partida mais descontraída. Empataram no tempo regulamentar (0x0). Os belgas forçaram os americanos a ficar na defensiva. Na prorrogação, venceu a européia (2x1). A americana perdia de 2x0. Reagiu mas não conseguiu inverter o placar a seu favor. 

A fase das partidas oitavas-de-final chegou ao fim. No jogo da seleção brasileira, a fisionomia do treinador era a de quem olha a vaca a se encaminhar para o brejo. Como se esperava, todas as partidas foram bem disputadas e os gols foram poucos. Continuou o festival de finalizações ruins. Inúmeras oportunidades de gol perdidas. Bons atacantes, porém maus artilheiros. Em jogo de várzea talvez não se erre tanto e de modo tão bisonho. Por outro lado, as equipes mostram-se fortes no sistema defensivo. Nervos à flor da pele. Fortes emoções. A atuação de alguns jogadores não correspondeu à fama. Restaram apenas os seus nomes como placas luminosas anunciando produto de validade vencida. A copa do mundo mostra a real dimensão de cada jogador sem a lente de aumento da propaganda, do clube dos bajuladores, dos agenciadores de compra e venda de atletas e daquela parcela da imprensa esportiva sensacionalista, deformadora e enganadora. Os famosos decepcionam em campo ao se apresentarem em tamanho natural, em preto e branco, sem artifícios. Destacaram-se alguns jogadores ainda não glorificados. O afunilamento no curso da competição torna os jogos cada vez mais difíceis para as equipes. A ânsia pela vitória e a preocupação com a classificação para a fase seguinte obscurecem o aspecto técnico e artístico do espetáculo. O aspecto estratégico e coletivo assume relevância maior e divide a responsabilidade entre todos os jogadores. O efeito paradoxal disto é que o resultado favorável fica na dependência do desempenho individual de alguns jogadores. Serve de exemplo o jogo entre Argentina e Suíça. Durante todo o tempo regulamentar as duas seleções atuaram bem e de forma aguerrida, mas não conseguiram converter em gols os seus esforços. Messi novamente mostrou suas deficiências e insuficiências. Faltou-lhe habilidade para escapar da marcação. Ele exibiu um futebol ordinário ao nível de qualquer jogador comum. Nos minutos finais da prorrogação, faz um passe normal ao seu companheiro Di Maria que marca o único gol da partida. Os mentecaptos atribuirão a vitória ao “passe maravilhoso” de Messi, tal como qualificam de “fantástico e extraordinário” o gol que ele faz ao cobrar pênalti. A vitória foi da garra argentina.

Para as quartas-de-final classificaram-se: Brasil x Colômbia; Holanda x Costa Rica; França x Alemanha e Argentina x Bélgica. Como se vê: 4 seleções americanas e 4 européias, a sugerir certo equilíbrio entre o futebol praticado na América e o praticado na Europa. Há que se considerar, entretanto: (1) a primeira fase em que seleções de todos os continentes estavam presentes; (2) a quantidade maior de seleções européias. Verificar-se-á, então, em termos proporcionais, a supremacia do futebol americano.




domingo, 29 de junho de 2014

COPA 2014 - IV



A fase de grupos encerrou-se (26/06/2014). Seleções não tradicionais progrediram. Para as partidas oitavas-de-final classificaram-se: 8 seleções americanas (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, EUA, México e Uruguai); 6 seleções européias (Alemanha, Bélgica, França, Grécia, Holanda e Suíça); 2 seleções africanas (Argélia e Nigéria). A nova fase com dois jogos por dia começou em 28/06 e terminará em 1º/07: Brasil x Chile; Colômbia x Uruguai; Holanda x México; Costa Rica x Grécia; França x Nigéria; Bélgica x EUA; Alemanha x Argélia; Argentina x Suíça. As seleções vencedoras disputarão as quartas-de-final. No primeiro jogo da nova fase a seleção brasileira empatou com a chilena: 1x1. Na decisão por pênaltis, a vitória coube à seleção brasileira. No entardecer do mesmo dia a seleção da Colômbia venceu a do Uruguai (2x0) em um jogo aguerrido onde se destacaram: James Rodriguez como artilheiro e Juan Cuadrado como o melhor e mais completo jogador colombiano até o momento. Fantástico o cabeceio dele de olhos abertos junto à trave do gol adversário para o interior da área em direção aos pés de James que marcou o segundo gol. A seleção colombiana lembrou a brasileira de outrora, ágil, confiante, alegre, eficaz, sem preocupação exagerada e sem medo de ser feliz.
A cada fase aumenta a dificuldade. Na disputa acirrada pela posse da bola jogadores agridem os adversários usando mãos, cotovelos e até os dentes. O jogador uruguaio Luis Suárez mordeu o ombro de um adversário italiano durante a partida. Lembrou a mordida que Mike Tysson aplicou na orelha de Evander Holyfield na luta de boxe em que os dois disputavam o cinturão dos pesos-pesados (1997). A FIFA excluiu Suárez do certame. Esse jogador é reincidente. Doravante será conhecido como “El Mordedor”.
Nota-se, nesta copa, certa padronização na prática do esporte decorrente do acúmulo de lições aprendidas e reproduzidas nos últimos 80 anos. Contribuem para essa reprodução: (1) os jogadores e treinadores contratados por clubes estrangeiros; (2) os clubes nacionais que circulam por países de diversos continentes para jogos oficiais ou amistosos; (3) os torneios internacionais; (4) as emissoras de televisão que transmitem jogos nacionais e internacionais. O público aprendiz aumentou em progressão geométrica a partir da segunda metade do século XX. Os ingleses inventaram o jogo de bola e as respectivas regras, praticado com os pés em terreno retangular de dimensões específicas, com duração limitada e número certo de jogadores. Enquanto a base do esporte foi criada pelos britânicos, a arte de jogar futebol foi criada e ensinada por mestres brasileiros. Quem são eles? Até agora, são apenas doze: Friedenreich, Petronilho, Leônidas, Domingos, Zizinho, Didi, Garrincha, Pelé, Gerson, Sócrates, Juninho Pernambucano e Robinho (ordem aproximada de antiguidade). Eles criaram e ensinaram: desarme seguro e sem falta; drible com e sem bola (curto, longo, elástico, meia-lua, corta-luz, finta de corpo; giro do corpo com a bola sob a sola da chuteira); pedalada, lençol (chapéu); passe de longa distância; troca rápida e progressiva de passes curtos em tabela; passe no espaço vazio para chegada do companheiro; toque de calcanhar eficaz como drible e como passe; cobrança de faltas com efeito especial; gol de bicicleta e de calcanhar.
Certamente por modéstia ou por não estarem cônscios do seu magistério, os citados jogadores nunca se consideraram mestres apesar das suas habilidades e criatividade. No entanto, eles ensinaram mediante o exemplo em campo tendo o público nacional e estrangeiro como testemunha e como corpo discente. O estádio era a escola. Ensino prático não premeditado e nem intencional. Jogadores nacionais e estrangeiros copiaram aquelas especiais habilidades e técnicas de execução e alguns atingiram o nível de excelência. No entanto, em sendo minoria, jogadores de excelente nível técnico nem sempre garantem vitória para sua equipe. Por diversos fatores próprios da condição humana, os jogadores têm desempenhos irregulares. Até as máquinas funcionam mal esporadicamente.
A imitação faz o costume e o costume pereniza o modelo. Imitar significa seguir o modelo que nos agrada ou interessa; reproduzir por semelhança. Cuida-se de procedimento comum responsável pela padronização de determinados tipos de conduta que caracterizam a moda, o estilo, o método, a profissão. Este significado positivo do verbo imitar não se confunde com o seu significado negativo: o de falsificar com o propósito de enganar, de imitar dolosamente em proveito próprio ou alheio. Imitar nem sempre é falsificar, mas falsificar é sempre imitar. Exemplos: (1) O comediante imita um político para divertir o público. Até aí, o artista atua legitimamente. Então, ele resolve adicionar injúria na sua representação. A partir daí, o artista ingressa na ilicitude: comete crime contra a honra do representado. (2) Pintor imita um quadro de Rembrandt para se convencer de que é tão bom quanto ele. Até aí, conduta legítima do artista e sua vaidade. Então, ele resolve vender o quadro falsificado como sendo original. A partir daí, o copista ingressa na senda do crime.
A imitação dos expoentes faz parte do processo de reprodução técnica e artística. A elegância, por exemplo, entendida como harmonia e distinção de maneiras, é imitada socialmente e supõe um modelo. Possivelmente, Ademir da Guia imitou Didi que por sua vez imitou a elegância e a eficiência de Friedenreich. A elegância prende-se à estética enquanto a eficiência prende-se à técnica. O grau de eficiência varia de um jogador para outro. Não há contradição alguma quando um jogador elegante e eficiente comete falta violenta, pois tal ação censurável se prende à ética. O senso estético, a capacidade técnica e a conduta ética nem sempre se conjugam na mesma pessoa ao mesmo tempo e no mesmo lugar. Jogadores como Beckenbauer, Falcão, Geovani, Pirlo, Riquelme, Rivaldo, Valderrama, Zidane, podem ter tomado Didi e Ademir da Guia por modelo, ainda que remota e indiretamente. São hipóteses de alta probabilidade porque derivam da observação dos fatos e da comparação dos dados através dos anos que evidenciam a semelhança de estilo. Após o nosso planeta ter se tornado uma aldeia global, os fatos e as análises tornaram-se acessíveis a bilhões de pessoas nos séculos XX e XXI.
O estilo elegante e eficiente não agrada à maioria dos brasileiros, embora se mantenha vivo como bem ilustra a maneira de atuar de jogadores como Oscar (Chelsea), Paulo Henrique (São Paulo) e Zé Roberto (Grêmio). A maioria dos brasileiros aprecia e valoriza mais o estilo impetuoso e rompedor de Leônidas, imitado por atacantes nacionais e estrangeiros como Ademir Menezes, Balotelli, Careca, Eusébio, Hulk, Jairzinho, Maradona, Messi, Neymar, Pelé, Rivelino, Romário, Ronaldo, Vavá e Zico (ordem alfabética). Esse estilo desperta no torcedor o garanhão que ele gostaria de ser. Montaria do sistema político e econômico, esse tipo de torcedor espera a sua vez de ser o cavaleiro.    

sexta-feira, 27 de junho de 2014

FILOSOFIA XIII


EUROPA (1600 a 1800).

Martinho Lutero, alemão, monge agostiniano, professor de teologia, rebela-se contra os abusos da igreja católica (1453 a 1546). Insurge-se contra as vendas de indulgências. Afirmava que necessária à salvação era a expiação pelos pecados cometidos e não a fácil absolvição obtida por compra de indulgências. Martinho se opõe às vendas de cargos na hierarquia eclesiástica, à veneração de relíquias, à escandalosa vida dos clérigos e à exploração de tabernas e casas de jogos pelos monges. Considera tudo isto contrário à verdadeira religião. Apoiado nas epístolas de Paulo e na doutrina de Agostinho, ele publica noventa e cinco teses em documento que afixou na porta da igreja do castelo de Wittemberg na Saxônia (1517). Sobre esse pilar ergueu a doutrina da justificação pela fé, que negava qualquer valor ao jejum, às peregrinações e aos sacramentos. Na doutrina desse monge, a fé está acima das boas ações, a razão é a prostituta do diabo e só a revelação traz a verdade. A justificação pela fé – pedra angular da construção luterana – se opõe à salvação pelo ritual e pelos milagres da igreja católica. Por melhor que seja a pessoa, se ela não tiver fé, não terá salvação. Martinho condena: (1) a teoria do sacerdócio, do vigário de Cristo, da intermediação dos padres entre deus e os crentes; (2) os sacramentos; (3) os aditamentos medievais à fé cristã tais como: o culto à Maria, a crença no purgatório, a invocação dos santos, a veneração de relíquias e o celibato do clero. Ele foi excomungado porque se recusou a abandonar essas idéias. Alijado da igreja católica, Martinho funda a igreja alemã independente cujo rito inclui o idioma alemão. Neste idioma ele escreve o Novo Testamento tornando-o acessível a todos que soubessem ler. A todos reconhecia o direito de ler e interpretar a Bíblia. O objetivo era possibilitar aos alemães constatarem por si mesmos as discrepâncias entre os ensinamentos de Jesus e os ensinamentos e práticas da igreja católica. Martinho rejeita o sistema eclesiástico e a vida conventual. Aboliu o celibato e os sacramentos (manteve o batismo e a eucaristia). A doutrina da predestinação e as escrituras ganham autoridade suprema.
Na Alemanha havia descontentamento com Roma e interesse em passar para o domínio dos alemães as terras pertencentes à igreja. Príncipes apóiam a reforma luterana e desafiam o poder do papa. A reforma prega a liberdade de consciência e faz da religião indisfarçável tema político. Só governará o Estado quem pertencer à seita protestante. [Esta norma prevaleceu nos EUA até 1960 quando, pela primeira vez, foi eleito um presidente católico].    
A revolução protestante iniciada na Alemanha marcou uma nova fase da civilização européia. Até o século XVIII (1701 a 1800) havia só duas cidades na Europa com mais de 500 mil habitantes: Londres e Paris. Havia poucas cidades com mais de 100 mil habitantes. A maioria das cidades tinha de 2 a 20 mil habitantes, nas quais nasceram algumas celebridades como Robespierre, Babeuf e Napoleão. Predominava a vida rural. Na região nórdica (Escandinávia) e oriental (Bálcãs, Rússia) cerca de 90 a 95% da população vivia na zona rural. Na região ocidental cerca de 70 a 90% da população vivia na zona rural. A prosperidade vinha do campo. Nas cidades funcionavam as feiras e se localizavam os comerciantes e seus armarinhos (lojas de tecidos e miudezas), os negociantes dos produtos da agricultura e da pecuária, artesãos, financistas, advogados, tabeliães, nobres e clérigos.
As relações entre camponeses e proprietários das terras nem sempre eram pacíficas. Havia tensão permanente a nublar a cordialidade entre as duas classes. Os campônios produziam a riqueza enquanto os senhores da terra acumulavam-na. A pesada carga tributária também era motivo de insatisfação do campônio com o governo. O descontentamento com o alto clero católico era generalizado. Aquele momento histórico europeu foi propício à expansão do protestantismo. Milhares de pessoas perderam a liberdade e a vida em decorrência dos conflitos religiosos. Católicos e protestantes se julgavam donos da verdade; seus dogmas eram postos como certezas absolutas, sem espaço para a tolerância. Havia governos católicos (Espanha, Itália) e governos protestantes (Holanda, Inglaterra). Motivos religiosos, políticos e econômicos misturavam-se na eclosão das guerras e revoluções.
Os místicos e reformadores contribuíram para acelerar a revolução protestante. A maioria localizava-se na Alemanha e nos Países Baixos (Holanda + Bélgica). Nessa região setentrional da Europa, o misticismo se tornou uma das mais populares formas de expressão religiosa desde o século XIV (1301 a 1400). A corrente mística era contra os sacramentos, os milagres sacerdotais e a intermediação dos padres entre deus e os crentes. Os místicos entendiam suficientes: (1) a submissão a deus; (2) a extinção dos desejos egoístas. No final do século XIV, John Wycliffe antecipa-se a Martinho no ataque ao catolicismo. Do ponto de vista político, a reforma decorreu: (1) do desabrochar da consciência nacional na parte setentrional da Europa; (2) do aparecimento de governos despóticos. Os principais focos do nacionalismo e do absolutismo foram: Inglaterra, França e Alemanha. O absolutismo monárquico desafiava o poder do papa. Segundo a teoria de Wycliffe, o poder temporal do papa tinha de ser transferido para o monarca. Os príncipes europeus aspiravam ao domínio temporal e também espiritual, incluindo a riqueza da igreja. Pretendiam se compensar da tributação incidente sobre suas propriedades. Os tributos cobrados pelo papa provocavam descontentamento por canalizarem para a Itália, a riqueza dos países setentrionais. 

quarta-feira, 25 de junho de 2014

FILOSOFIA XII - 17



EUROPA (1000 a 1600). Final.

Francis Bacon introduziu o método experimental na pesquisa científica como indispensável ao conhecimento verdadeiro e sistemático. A natureza deve ser observada diretamente a fim de se descobrir as leis que a governam. A indução e a experimentação são as vias para este desiderato. Ao contrário da dedução, a indução tem caráter material e permite avançar no conhecimento. A partir de fatos pesquisados chega-se ao conhecimento sobre fatos não incluídos na pesquisa (generalização racional aceita).
A autoridade, a tradição e a lógica silogística devem ser evitadas. A fonte do conhecimento é sensorial e a sua base é racional. Os fenômenos naturais apresentam uma face estrutural, o esquematismo latente e também uma face dinâmica, o processo latente responsável pelas mudanças. As duas faces são conexas. “Os sentidos são como o sol que torna visível a face da terra, mas esconde a do céu. Para viajar ao reino da verdade celeste é necessário abandonar o barco da razão humana e se colocar a bordo do navio da igreja”.
Francis considera estéril a filosofia que o antecedeu por nada trazer de prático à vida dos homens. Os filósofos parecem aranhas que tecem teias maravilhosas, porém alheias à realidade. Francis tem sido mencionado como fundador da ciência moderna. A sua divisa era: “saber é poder”. Na opinião dele, a filosofia natural há de ser ativa e fecunda em resultados práticos, sendo de pouco valor o conhecimento puramente teórico ou contemplativo. [Mais tarde, Karl Marx navegaria nessas águas]. Esta opinião evidencia o caráter utilitário da filosofia de Francis. Para ele, as idéias de Aristóteles favoráveis à vida contemplativa são adequadas ao bem privado, ao prazer e à dignidade do indivíduo. Os homens, entretanto, devem saber que nesse teatro da vida humana apenas deus e os anjos podem ser espectadores.
Os ídolos e as noções falsas obstruem o intelecto humano. {A teoria dos ídolos contribuiu para os estudos sobre ideologia e comunicação}.
O ídolo da tribo é erro que decorre da natureza humana: (1) ao tomar como verdadeira a imagem produzida pelos sentidos e simplificar o complexo segundo a conveniência {inércia do espírito, oportunismo}; (2) ao ignorar os resultados negativos da adivinhação e se fixar nos resultados coincidentes com a esperança {astrologia, quiromancia}; (3) ao imaginar coisas que correspondam a necessidades numéricas {cabala, numerologia}; (4) ao tratar a ação da natureza de modo análogo à ação humana e ver simpatias e antipatias nos fenômenos {alquimia, magia}.
O ídolo da caverna é erro individual e não da espécie humana: “cada pessoa possui sua própria caverna particular; interpreta e distorce a luz da natureza”. O indivíduo vê as coisas sob a luz a que está acostumado. [Pode estar tão enfurnado na sua profissão técnica, científica, artística, religiosa, que tudo interpreta à luz dessa atividade].
O ídolo do foro é erro decorrente da ambigüidade das palavras utilizadas na comunicação entre pessoas. A mesma palavra utilizada com significados diferentes gera desentendimento entre as pessoas. “O homem crê que a razão governa as palavras, mas também é certo que as palavras atuam sobre o intelecto e é isso que torna sofística e ociosa a filosofia e a ciência”.
O ídolo do teatro é erro proveniente dos sistemas filosóficos fundados em invenções como as peças de teatro que não retratam fielmente os fatos. Francis refere-se a Platão como trocista que cometeu o maior dos erros ao confundir teologia com filosofia. Ele qualifica Aristóteles de “pior dos sofistas”.
O método indutivo proposto por Francis compreende as tábuas de investigação. A primeira é a tábua de presença onde são arroladas as características concordantes do objeto sob observação. A segunda é a tábua de ausência onde são arrolados os casos discordantes. A terceira é a tábua das graduações onde são anotados os graus de variação ocorridos no objeto da investigação com o fim de identificar possíveis correlações entre eventuais mudanças.
Além das tábuas, há procedimentos complementares tais como: prolongar, transferir, inverter, mudar condições. Há fatores que o filósofo denomina de instâncias prerrogativas que forçam a investigação a um sentido determinado. Francis arrola mais de vinte fatores entre os quais as instâncias: (1) solidárias, quando os corpos são iguais em tudo salvo uma única característica; (2) migrantes, quando a natureza se manifesta repentinamente; (3) ostensivas, quando certa característica é evidente; (4) analógicas, quando um fenômeno esclarece outro.

domingo, 22 de junho de 2014

COPA 2014 - III



A festa de abertura da copa mundial de futebol foi singela se comparada à festa das Olimpíadas, porém de bom gosto, excelente sintonia de todos os componentes, com exposição da cultura popular brasileira e sofisticada tecnologia com uma bola artificial no centro do campo que depois de múltiplas imagens abriu-se como se fora uma flor e transformou-se no palco em que se apresentaram duas cantoras carnudas e curvilíneas e um cantor esquálido (se comparado a elas). Momento de confraternização dos povos na Arena Corinthians localizada no bairro Itaquera, na cidade de São Paulo. Havia pessoas de todos os continentes. Preço dos ingressos proibitivo para a maior parte da população nacional. Alguns brasileiros de maior poder aquisitivo ocuparam lugares caros. Desse grupo, certamente com diploma universitário, mas sem boa educação cívica, partiram ofensas à presidente do Brasil com palavras de baixo calão pronunciadas por algumas meretrizes platinadas e alguns inaladores do pó branco. Ofenderam a mulher, mãe e avó que ocupa o mais alto cargo da república como Chefe de Estado e de Governo. Politicagem de uma ala putrefata da elite brasileira cuja pátria é Nova Iorque e Paris, cujo coração mora na Quinta Avenida e nos Campos Elíseos. Nas eleições que se aproximam a maioria do povo brasileiro dará o troco a essa corja moralmente podre. Para felicidade geral da nação, essas hienas perfumadas terão de engolir a senhora Dilma Rousseff por mais quatro anos no governo da república.       
O público nacional e estrangeiro mostra-se alegre e descontraído nos estádios das diferentes regiões do país onde as partidas são disputadas. Bandeiras, alegorias, fantasias, figurinos, perucas coloridas, rostos pintados, hinos, palavras de ordem, movimentos coletivos improvisados ou ensaiados, tudo em clima de festa. As pessoas vibram quando aparecem na enorme tela do estádio. De um modo geral, as japonesas e coreanas se exibem um tanto encabuladas, as européias um tanto comedidas e as latino-americanas um tanto extrovertidas. Congraçamento nas arquibancadas e nos gramados antes e depois dos jogos. Precedendo o início de cada jogo observa-se o cerimonial da FIFA em admirável ordem que inclui o hino nacional de cada seleção. Dá prazer de ver e ouvir. Chefes de Estado compareceram aos estádios em que atuavam as seleções dos seus países para lhes dar apoio moral. Não se ouviu vaias e xingamentos a eles dirigidos. Gente educada é outra coisa. Os japoneses, inclusive, recolhem o lixo que produzem no estádio. Alguns circundantes seguem o bom exemplo.  
O progresso individual e coletivo na prática do futebol tem sido modesto nesta década. Os jogadores e as seleções apresentaram nível técnico apenas razoável. Pouquíssimos jogadores perderam as estribeiras. A maioria demonstrou espírito esportivo. Ao fim de cada partida os jogadores se cumprimentam e permanecem em campo aplaudindo o público. Raras expulsões (cartão vermelho). Poucas advertências apesar das numerosas faltas (cartão amarelo). Arbitragem sofrível, aquém do alto nível esperado. Para não serem vítimas da malandragem dos jogadores, os árbitros acabam por deixar impunes faltas que realmente ocorrem principalmente dentro da área.
Nota-se padronização na dinâmica das equipes tendo por paradigma o clube de Barcelona da Era Guardiola. Diante do fiasco espanhol na copa de 2014, certamente o modelo será questionado. Em seleções de todos os continentes foram vistos alguns jogadores hábeis nos desarmes, na armação, nos passes de longa distância, no amortecimento da bola no peito e nos pés, nos dribles e pedaladas. Assimilaram a técnica e a habilidade individual dos mestres brasileiros exibidas no curso de 80 anos. Apesar disto, prevaleceram finalizações tíbias e ineficazes. Oportunidades de gol perdidas de modo incrível. Alguns jogadores tiveram atuação acima da média: Marcelo e Oscar (Brasil), Cuadrado (Colômbia), Gervinho (Costa do Marfim), Campbell e Bolaños (Costa Rica), Robben e Van Persie (Holanda), Guardado e Ochoa (México), Cáceres e Suárez (Uruguai). Algumas figuras carimbadas não estiveram à altura da fama. Pois é. Ao praticar solitariamente o caratê shoto-kan no pátio da minha casa, o meu desempenho é extraordinário. Ao enfrentar outro faixa-preta na academia, o meu desempenho é apenas ordinário. Mutatis mutandis, é o que acontece com alguns jogadores.
Obtiveram vitórias (até 21/06): 9 seleções americanas {Argentina (2), Brasil, Chile (2), Colômbia (2), Costa Rica (2), Equador, Estados Unidos, México e Uruguai}; 8 seleções européias {Alemanha, Bélgica, Croácia, França (2), Holanda (2), Itália, Rússia e Suíça}; 2 seleções africanas (Costa do Marfim e Nigéria). As seleções americanas venceram 13 partidas e as européias 10. A Europa tem 13 seleções disputando a copa. A América tem 10 seleções, a África 5 e a Ásia 4. Até agora, em termos proporcionais, nota-se vantagem do futebol americano sobre o futebol europeu e a superioridade de ambos em relação ao futebol africano e ao futebol asiático. No confronto direto entre seleções da América e da Europa, as americanas (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica e Uruguai) venceram 6 partidas e as européias (França e Suíça) venceram 2 partidas.
Competindo nesta copa estão 32 seleções distribuídas em 8 grupos. Cada grupo se compõe de quatro seleções que disputam entre si a classificação. A seleção que se classificar em primeiro lugar num grupo jogará contra a seleção que no grupo seguinte classificar-se em segundo lugar. A seleção que se classificar em segundo lugar no grupo antecedente jogará contra a seleção que no grupo seguinte classificar-se em primeiro lugar, critério que será observado até os dois últimos grupos inclusive. Duas seleções de cada grupo passarão para a fase seguinte do certame. Ao todo, portanto, 16 seleções classificar-se-ão para a fase denominada oitavas-de-final (oito jogos eliminatórios). As 8 seleções vencedoras nas oitavas classificar-se-ão para a fase denominada quartas-de-final (quatro jogos eliminatórios). As 4 seleções vencedoras nas quartas classificar-se-ão para a fase denominada semi-final (dois jogos eliminatórios). As 2 vencedoras disputarão um único jogo do qual sairá a seleção campeã da copa.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

FILOSOFIA XII - 16



EUROPA (1000 a 1600). Continuação.

Johan Althaus (Althusius), alemão, cristão protestante calvinista, professor de direito, foi autor da teoria do Estado exposta no livro intitulado Política Methodice Digesta Atque Exemplis Sacris et Profanis Illustrata (1557 a 1638). Apesar de publicado em 1603, só dois séculos depois o livro teve sua importância reconhecida. O título já anuncia o rigor lógico da obra. Funda-se no caráter orgânico e comunitário da vida social. Política, na definição de Althusius, é a arte de estabelecer, cultivar e conservar a comunhão entre os homens (consociatio) inerente à existência conjunta (symbiosis). A sociedade se compõe de uma série hierárquica de comunidades simbióticas a partir da família, célula inicial, alçando-se à companhia (ou colégio). Os seus membros são companheiros. A reunião dessas comunidades civis constitui a cidade, comunidade mista e pública cujos membros são cidadãos, não por serem homens e sim por serem companheiros. A reunião de cidades constitui a província e a reunião de províncias constitui o Estado. Em cada escalão superior à família intervém a livre adesão. O consenso se estabelece entre comunidades e não entre indivíduos. O Estado é uma comunidade de comunidades {um ente cultural complexo}. O Estado, portanto, não surgiu de um contrato firmado entre indivíduos e sim da passagem sucessiva de uma realidade orgânica para outra maior e superior. O Estado é essa comunidade simbiótica pública superior, universal, integral, perfeita e capaz de satisfazer as necessidades básicas dos cidadãos. O direito de majestade (jus majestatis) pertence ao Estado, direito de comandar sem sócio e sem superior, que compreende o poder de decisão sobre tudo o que é necessário à salvação espiritual e corporal dos membros da comunidade. Esse direito é indivisível, intransferível e imprescritível. O povo é o único titular da majestade {soberania}. Em nome do povo, o governante administra o Estado. {No esquema de Althusius, o governo cabe aos éforos e ao magistrado supremo (summus magistratus)}. Eleitos pelo povo, os éforos formam um colegiado com autoridade estatal suprema, acima do magistrado supremo. Este é eleito pelos éforos. O tipo misto de governo (monárquico + aristocrático + democrático) é mais adequado à comunidade simbiótica, pois a mistura é da essência da vida. Cabe ao colégio de éforos impedir que o magistrado supremo se torne um tirano. Os éforos e o povo têm o direito de combater a tirania, de resistir ao governo despótico. O tirano deve ser substituído e até assassinado. [Mediante o processo genético de construção do Estado, Althusius chega à democracia corporativa].

Francis Bacon, inglês, cristão, nasceu em Londres no seio de rica e puritana família (1561 a 1626). Acreditava na excelência da monarquia. Defendia o absolutismo do monarca e a limitação dos poderes do Parlamento. Seguiu carreira pública e chegou a Lorde Chanceler (1618). Acusado de receber propinas em processos sob sua presidência, Francis foi multado e preso. O rei Jaime I perdoou a multa e reduziu a pena privativa de liberdade para quatro dias apenas. Em liberdade, Francis se dedicou a escrever e expor o seu pensamento. Da sua produção intelectual sobressaem: Novum Organum (lógica), O Progresso do Saber (ciência), Ensaios (idéias sobre as paixões e a natureza humana) e História Natural. Em sua obra literária e utópica intitulada Nova Atlântida, Francis descreve um Estado imaginário cuja organização propicia felicidade geral. O controle científico da natureza possibilita a harmonia e o bem-estar aos habitantes daquele Estado cuja vida é orientada pelos sábios que trabalham na Casa de Salomão. [Ao escolher o nome da casa de ciência, Francis acolheu a lendária sabedoria desse rei hebreu. O filósofo abdicou do seu método científico para investigar se a lenda tinha algum fundo de verdade. Certamente, agiu por cautela, pois discordar da Bíblia naquele período histórico era suicídio. Ele perderia a sua posição na corte, seus bens, sua liberdade e sua vida. O credo rosacruz não exigia tal sacrifício]. Segundo a sua visão rosacruciana e a utópica narrativa da “Nova Atlântida”, mais importante do que governar homens é dominar a natureza, cujas forças são objeto de estudo pelos sábios. Hospital, usina de energia, centro agrícola, instituições em geral, tudo vinculado à Casa de Salomão. A obra científica resulta do trabalho coletivo de pesquisadores e intérpretes. A investigação científica tem por objeto a realidade e um sentido prático: aumentar a duração da vida humana, combater doenças, criar máquinas inclusive para transitar no ar e sob água.


quarta-feira, 18 de junho de 2014

FILOSOFIA XII - 15



EUROPA (1000 a 1600). Continuação.

Desidério Erasmo, holandês, teólogo, filósofo, professor, escritor, acreditava na bondade inata do homem e foi reconhecido internacionalmente como o príncipe dos humanistas (1464 a 1536). Dedicou-se ao ensino, à literatura e à reflexão filosófica. Suas principais obras são: O Elogio da Loucura (sátira do pedantismo e dogmatismo dos teólogos e da ignorância e credulidade das massas); Manual do Cavaleiro Cristão (censura à religião eclesiástica e defesa do retorno aos ensinamentos de Jesus “que nada mais ordenava do que o amor ao próximo”); A Lamentação da Paz (em que expressa o horror à guerra e ao despotismo) e Colóquios Familiares. Na opinião de Erasmo, as trevas da superstição, da ignorância e do ódio são afastadas pela luz da razão. Equidade e conciliação caracterizam o espírito liberal. O formalismo, o dogmatismo e a superstição da igreja merecem censura e indicam a necessidade de uma reforma religiosa. Impõe-se nova religião humanista, simples, de nobre conduta, alicerçada na filosofia de Cristo. [Esta crítica de Erasmo contribuiu para a reforma protestante. Ele pensava também que da ciência poderia advir grosseiro materialismo apto a distanciar os homens da literatura e da filosofia]. Voltar ao evangelho é o remédio para as desordens políticas, para curar os vícios sociais, para purificar a religião e para regenerar o ser humano. O governante há de ser virtuoso e ter a assistência de um preceptor cuidadosamente escolhido. A ética é uma só para governantes e governados. O governante deve seguir o caminho indicado por Jesus Cristo, pois da perfeição moral de um governante depende a felicidade de um povo. A guerra é um escândalo ante os ensinamentos de Jesus. A guerra é provocada pelas paixões humanas e não por necessidade. Cada lado apresenta sua causa como justa. A celebração da missa em cada um dos lados da guerra é uma monstruosidade. A arbitragem resolve pacificamente as controvérsias. A paz é a condição da prosperidade, fonte e mãe conservadora e protetora de todas as boas coisas.

François Rabelais (1469 a 1527), francês, médico, filósofo, humanista, escritor, satirizou as práticas da igreja apesar de ter sido educado em mosteiro [talvez, por isto mesmo]. Ridicularizou a escolástica, zombou das superstições e expôs as formas de opressão e hipocrisia. As suas obras mais conhecidas são Gargantuá e Pantagruel, nomes dos lendários gigantes medievais de prodigiosa força física e enorme apetite. Na abadia de Gargantuá não havia celibato, nem submissão perpétua. Os seus moradores viviam como irmãos. Cada qual seguia a sua livre vontade na busca do prazer. Havia uma só regra de observância obrigatória: “fazei o que quiserdes”. Na opinião de Rabelais, a bondade é inerente ao ser humano. Todos os instintos são bons, desde que não levem à tirania.

Thomas Morus, inglês, cristão, advogado, professor, locutor da Câmara dos Comuns, Lorde Chanceler da Inglaterra, inscreve-se entre os filósofos humanistas (1478 a 1535). Ao se opor ao divórcio entre o rei Henrique VIII e Catarina de Aragão, recusar o convite para assistir à coroação de Ana Bolena, discordar da pretensão do rei de estabelecer uma igreja nacional sob o controle do Estado, negar ao Parlamento legitimidade para fazer do rei o chefe da referida igreja (anglicana), Thomas foi acusado de traição, preso na Torre de Londres, processado, condenado e decapitado. Trezentos anos depois, considerado mártir da fé católica, ele foi beatificado pelo papa Leão XIII (1886). Posteriormente, foi canonizado pelo papa Pio XI (1935). Na esteira de dois diálogos de Platão intitulados República (modelo de Estado) e Crítias (mito da Atlântida), Thomas escreveu “Utopia”, livro que contém o seu pensamento filosófico expresso numa crítica à sociedade do seu tempo em que vigoravam a injustiça social e o absoluto direito de propriedade privada, os camponeses eram lançados à miséria em decorrência da transformação dos campos cultivados em pastos de carneiros (indústria da lã) e o dinheiro era visto como a medida de todas as coisas. Na história imaginada por Thomas, um marinheiro náufrago narra a sua experiência em uma ilha onde viveu durante cinco anos. Lá existia uma sociedade igualitária, sem pobreza, sem riqueza imerecida, sem guerra, sem punições drásticas e sem perseguição religiosa. Os habitantes tinham bens em comum. A propriedade privada não era permitida. O campo era cultivado por todos com as mesmas técnicas. As fazendas eram dirigidas nos mesmos moldes. Os habitantes vestiam o mesmo tipo de roupa, sem os caprichos da moda. Todos trabalhavam seis horas por dia. As horas restantes eram destinadas ao lazer, estudo e cultivo das virtudes clássicas: sabedoria, temperança, fortaleza e justiça. Os que se dedicavam ao trabalho intelectual compunham a aristocracia. Dentre os membros da aristocracia eram selecionados aqueles que comporiam a assembléia governante. Os magistrados eram eleitos. Havia treinamento de homens e mulheres para defesa do reino. Não existia vida conventual. Os cultos que reconheciam a existência de deus e a imortalidade da alma eram aceitos sem discriminação. Os ateus não tinham direito de cidadania e nem acesso ao governo.

Michel de Montaigne, francês, advogado, filósofo, escritor, diz que o ceticismo é a essência da filosofia (1533 a 1592). Aos 37 anos de idade ele se retira para a propriedade dos seus ancestrais e devota o resto da sua vida ao estudo, à contemplação e à escrita. Carlos IX o titulou honrosamente como homem gentil. O papa concedeu-lhe o título de cidadão romano. Margarida de França o mimou com especiais favores. O poeta americano Ralph Waldo Emerson o incluiu entre os homens representativos. O seu pensamento está contido nos Ensaios escritos durante os anos de retiro (história, política, moral e filosofia). Diante da diversidade das crenças, da balbúrdia de costumes revelados pelas descobertas de outras regiões do planeta, das perturbadoras conclusões da ciência, Montaigne afirmava que nenhuma seita era senhora da verdade ditada de uma vez por todas. A religião e a moralidade eram produtos do costume tal como a moda e a maneira de comer. O conhecimento não é a via adequada para alcançar deus. Os homens devem desprezar a morte, viver nobremente nesta vida sem almejar vida piedosa em outro mundo cuja existência é duvidosa. Os homens podem ser enganados tanto pela razão como pelos sentidos. Quanto mais depressa os homens se convencerem de que não há certeza em lugar algum, mais oportuno será escapar à tirania que jorra da superstição e da carolice. O caminho da salvação está na dúvida e não na fé. As instituições humanas são fúteis. Tolice empenhar-se em guerra para substituir umas por outras. Ideal algum justifica queimar o vizinho. “Sentemo-nos no mais alto trono do mundo e ainda estaremos sentados sobre o nosso próprio assento”, dizia Montaigne, ironicamente.