quarta-feira, 16 de abril de 2014

FILOSOFIA X - L



Europa. (500 a 1000). Final.

A divisão da história da humanidade em fases varia segundo os critérios de cada historiador. Na série aqui publicada, sem entrar no debate acadêmico, simplesmente adotei critério numérico elástico, tomando por base a divisão mais usual em idades (antiga, clássica, medieval, moderna, contemporânea).
Na primeira fase da Idade Média citada no título acima, a filosofia pagã resume-se ao neoplatonismo e ao estoicismo. Um dos seus expoentes nesse período foi o filósofo Boécio, nascido em 480, de família rica, principal conselheiro do rei Teodorico, com quem se desentendeu. Acusado de traição, morreu na prisão em 524. A sua filosofia transita entre o paganismo e o cristianismo. Boécio escreveu “Consolação da Filosofia”, quando estava na prisão. O tema dominante é a relação entre o homem e o universo. Destino, governo divino do mundo e sofrimento individual foram questões tratadas por este filósofo. A verdadeira felicidade implica compreensão filosófica de que o universo é bom e o mal é apenas aparente; deus é bondoso; logo, deus não pode ser autor do mal. Há punição para o vício e recompensa para a virtude. O livro de Boécio foi traduzido em vários idiomas, além de ser plagiado. As suas obras versam lógica aristotélica, música, aritmética, geometria e teologia.
Outro expoente desse período foi o irlandês João Escoto Erígena, neoplatônico e panteísta de visão liberal que viveu nos anos 800 a 880 e prestou serviços na área de educação na corte de Carlos, o Calvo, rei de França. Ele é considerado o fundador da escolástica, sistema de filosofia conciliador da fé e da razão. Defendeu o livre arbítrio na controvérsia em torno da predestinação. Na opinião de João Escoto, o esforço rumo à virtude é compensador; razão e revelação são fontes da verdade, mas se no caso concreto houver conflito entre as duas, a razão deve prevalecer; a verdadeira religião é a verdadeira filosofia. João era idealista {na terminologia atual}: os conceitos universais são coisas e precedem os conceitos particulares {a idéia “estado”, por exemplo, não se limita a um grupo de indivíduos em sociedade política, mais do que isto, é algo que existe em si mesmo; embora não percebido pelos sentidos o estado é apreendido pela razão}. Ele se opôs aos nominalistas para quem os conceitos universais são meros nomes precedidos dos conceitos particulares. A polêmica atravessou a Idade Média e chegou aos nossos dias. Segundo esse filósofo, as coisas podem: (1) criar ou não; (2) ser criadas ou não. Isto divide a natureza em quatro partes: (I) deus cria e não é criado; (II) as idéias criam os particulares e são criadas por deus; (III) coisas no tempo e no espaço que são criadas, mas não criam; (IV) o que não cria nem é criado (deus não se distingue do seu propósito). Esse filósofo assim expõe a doutrina da trindade: o ser de deus se revela no ser das coisas, sua sabedoria se revela na ordem das coisas e a sua vida se revela no movimento das coisas; isto corresponde ao pai, ao filho e ao espírito santo. Deus cria as coisas do nada; esse nada é o próprio deus.           
No final dessa primeira fase da civilização ocidental as línguas nacionais começam a ser empregadas na literatura. Serve de exemplo: “O casamento da Filologia com Mercúrio”, livro escrito por um africano neoplatônico de nome Marciano Capela (401 a 500). Trata-se de narrativa alegórica em que Mercúrio presenteia a sua noiva Filologia com sete criadas que simbolizam as sete artes liberais: gramática, retórica, dialética, aritmética, geometria, música e astronomia. Os assuntos são abordados mirando o simbolismo mágico mais do que a precisão científica.
Beda (monge inglês, 673 a 735) escreveu “História Eclesiástica da Inglaterra”. Foi considerado um dos mais cultos homens do seu tempo. Ele criou um novo referencial cronológico: o nascimento de Cristo, que tomou o lugar do suposto ano da criação do mundo. Destarte, na cultura ocidental, a história humana ficou dividida nesses dois períodos: antes e depois de Cristo (a.C. e d.C.).
O interesse pela literatura latina decai no primeiro período da Idade Média. Alguns filósofos cristãos chegam a qualificar de ímpio o escritor que escreve bem. “O oráculo celeste não deve ser agrilhoado às regras da gramática” (papa Gregório I). O sistema romano de escolas públicas desapareceu depois de Teodorico. Os mosteiros passaram a monopolizar a educação na Europa (a Itália ainda conservou escolas municipais). O primeiro mosteiro europeu foi fundado por Cassiodoro, antigo secretário de Teodorico. Cassiodoro estabeleceu regras para os monges, entre as quais, as de copiar manuscritos e ensinar com base em programa por ele criado e que se dividia em duas partes: (I) Trivium, composto de gramática, retórica e lógica, disciplinas consideradas em conjunto a chave do conhecimento; (II) Quadrivium, composto de aritmética, geometria, astronomia e música. A aprendizagem era privilégio de poucos. As massas e parte da aristocracia (inclusive reis e senhores feudais) não recebiam essa educação. A parcela maior da população era analfabeta. Apesar disto, as escolas dos mosteiros e das catedrais impulsionaram o conhecimento na fase seguinte da Idade Média. 

segunda-feira, 14 de abril de 2014

O GOLPE



Amiga residente em Campinas, valendo-se da rede de computadores, repassa artigo do jornalista Alexandre Garcia sobre o golpe de 1964, que ora comento.
Decorreram 50 anos! O golpe se consumou em 1º de abril, dia da mentira, quando os militares tomaram o poder. Para evitar zombaria, os golpistas resolveram fixar a data em 31 de março. O jornalista se equivoca quando diz que não há heróis na guerra. Há combatentes de ambos os lados que se destacam dos companheiros pela coragem em situações de excepcional perigo; homens e mulheres que perdem a vida ou se arriscam a perdê-la por um ideal, por um mundo melhor, por liberdade, por independência, por amor à pátria. Há heróis brasileiros e heróis paraguaios. Há heróis franceses e heróis alemães. Há heróis conhecidos e heróis desconhecidos. Quiçá por disposição genética, o homem do tipo covarde é incapaz de heroísmo. Daí a incapacidade da sua mente de perceber a existência de heróis. Atos heróicos na guerra se lhe afiguram impossíveis.
Quanto aos militares, cujos coturnos o jornalista lustra com sua língua, convém trazer o testemunho da história. As forças armadas que merecem o nosso respeito são aquelas que: (I) no período de 1851 a 1872 defenderam a pátria sucessivamente contra os governos hostis do Uruguai, da Argentina e do Paraguai; (II) na segunda guerra mundial lutaram na Itália cooperando com as nações aliadas em defesa da democracia; (III) em 1945, no Brasil, apoiaram a transição da autocracia para a democracia; (IV) em 1955, lutaram para assegurar a posse e o mandato de Juscelino Kubitschek, eleito presidente da república pelo voto popular; (V) a partir de 1988, garantem os poderes constitucionais, a lei, a ordem e a integridade do território nacional. 
As forças armadas que merecem o nosso repúdio são aquelas que: (I) derrubaram os governos legítimos de Pedro II, em 1889 e de João Goulart, em 1964; (II) permaneceram no governo a partir de 1968 até 1985, instaurando um período tenebroso no qual não estavam a serviço dos brasileiros e sim do governo dos EUA e das empresas multinacionais. Isto impediu que a nação brasileira assumisse posição livre e soberana frente ao problema da guerra fria entre EUA e URSS. O governo brasileiro atuou como vira-lata submisso, sem dignidade, incapaz de tomar decisões sem o aval do governo estadunidense.
Em agosto de 1961, os perdedores do pleito eleitoral viram na renúncia do presidente Jânio Quadros a oportunidade para o golpe de estado. Nos termos da Constituição, João Goulart (JG), vice-presidente da república, devia assumir o governo. Oposição civil e militar taxou-o de comunista, embora isto não se afinasse com o seu status de latifundiário no rincão gaúcho. Homem rico, bem educado e cordial, JG estava mais para populista do que para comunista. Lideranças civis e militares, instigadas por agentes do governo dos EUA, resistiam à posse de JG na presidência da república. Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná se uniram em favor da legalidade. São Paulo, Guanabara e Minas Gerais se uniram em favor do rompimento da legalidade. A fim de apaziguar os ânimos e evitar guerra intestina, o Congresso Nacional implantou o parlamentarismo (1961). A chefia de estado coube ao presidente JG. A chefia de governo coube ao gabinete de ministros. O parlamentarismo durou dois anos e três gabinetes (Tancredo Neves, Brochado da Rocha e Hermes Lima).
A nação estava inquieta desde a renúncia de Jânio. Trabalhadores rurais, organizados em ligas camponesas distribuídas por vários estados, enfrentaram a força pública e a resistência dos fazendeiros. Pleiteavam reforma agrária, lei trabalhista própria e direito à livre organização. Desse pleito coletivo resultou o Estatuto do Trabalhador Rural, que incluía o direito de organizar sindicatos rurais (1963). Consultado mediante referendo, o eleitor brasileiro rejeitou o parlamentarismo. Restabelecido o presidencialismo, JG lança o Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social, elaborado sob a direção de Celso Furtado, visando ao crescimento da economia com decréscimo da inflação. O Congresso Nacional resistiu ao plano a fim de não aumentar o prestígio do presidente e do seu partido (PTB). JG, então, aproxima-se das organizações sociais de esquerda que pleiteavam nova Constituição. A direita oposicionista reagiu. O Instituto Brasileiro de Ação Democrática, o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais e os governos de São Paulo, Guanabara e Minas Gerais recebem ajuda dos EUA para derrubar o governo Goulart. O governo daquele país discordava das medidas nacionalistas tomadas por JG (restrição à remessa de lucros, nacionalização das empresas de comunicação social, revisão das concessões para exploração de minas) e suspendeu a ajuda que prestava ao Brasil. Isto repercutiu na balança comercial. Houve aumento do custo de vida e da dívida pública. A inflação chegou a 74%. (1963).
As camadas média e alta da sociedade brasileira foram arregimentadas pelos oposicionistas para manifestação de rua contra o comunismo apelidada de Marcha da Família com Deus pela Liberdade, amplamente apoiada pela Igreja Católica, pela Grande Imprensa, pelo PSD e pela UDN (1964). Os organizadores da espetacular passeata associaram maliciosamente o governo federal ao comunismo. Exploraram a fé dos católicos, ludibriando-os. Pintaram o grupo de comunistas como se fosse um exército diabólico pronto a tirar a vida, a liberdade e os bens dos brasileiros. Os comunistas eram descritos como antropófagos que tinham o hábito de comer criancinhas. JG foi acusado de pretender bolchevizar ou cubanizar o país e instituir uma república sindicalista. A direita conservadora e golpista utilizou o comunismo como argumento para justificar o golpe de estado. Em defesa do governo constitucional de JG, dissidentes do PSD e da UDN (democratas, liberais) uniram-se a parlamentares do PTB e do PSB e formaram a Frente Parlamentar Nacionalista com apoio da União Nacional dos Estudantes e da Confederação Geral dos Trabalhadores.
No comício de 13 de março de 1964, que reuniu centenas de milhares de pessoas nas imediações da estação da Estrada de Ferro Central do Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, JG lançou o programa das reformas de base (rural, urbana, encampação de refinarias, direito de voto aos analfabetos, delegação legislativa). JG também discursou na Associação dos Sargentos da Polícia Militar do Rio de Janeiro, censurando as elites e os oficiais da Marinha (30/03/64). Militares de alta patente, políticos e personalidades da sociedade civil, instruídos e financiados pelo governo dos EUA, conspiravam para depor o presidente. Aquele agressivo discurso presidencial desencadeou a ação dos conspiradores. JG retira-se do governo. Em Porto Alegre, ele desaprova a resistência armada sugerida por Leonel Brizola. Evitou derramamento de sangue. As rédeas do estado brasileiro passaram às mãos dos militares com o aplauso de uma parcela da população e a perplexidade da outra (1º/04/64).
Tão logo normalizada a situação, o comando do país devia retornar aos civis, o que não aconteceu. Os militares tomaram gosto pela presidência. Eles expediram o ato institucional nº5, em 1968, e ficaram no poder até 1985. Parcela da nação mostrou inconformismo. No tendencioso e bajulador artigo acima referido, o jornalista afirma que os rebeldes (então chamados de subversivos) pretendiam implantar o comunismo nos moldes cubanos. Trata-se de ladainha castrense. No tenebroso período de 1968 a 1985, a resistência civil ao regime autocrático tinha o propósito de restabelecer a democracia e respirar o ar da liberdade. A cor ideológica era secundária. A resistência civil era integrada por liberais, socialistas e comunistas, por pessoas da direita, do centro e da esquerda do espectro político, por sindicatos e estudantes. Arrependidas pelo apoio que deram ao golpe, a igreja católica e a pequena imprensa aderiram à resistência civil. Durante a perseguição política empreendida pelo governo autocrático, civis, militares e sacerdotes foram torturados, perderam a vida, a liberdade, os bens, os empregos, as patentes e as graduações. Rádio, teatro, cinema, televisão, jornais, revistas, livros, toda essa produção estava sob censura oficial. Os militares montaram um estado hostil à classe política, aos intelectuais de esquerda e aos direitos humanos. O braço armado da resistência civil era composto de um punhado de extremistas impacientes. Nos confrontos armados houve morte de ambos os lados. Os civis foram derrotados tendo em vista o reduzido efetivo, a insuficiência logística e a falta de eficaz apoio da sociedade. A maioria dos resistentes desaprovava a ação violenta e se valeu de métodos persuasivos pacíficos. Os militares acenaram com a distensão lenta e gradual, o que realmente aconteceu.
O bajulador artigo do jornalista parece ensaio de um novo golpe. A empresa jornalística para a qual ele trabalha cresceu e se fortaleceu protegida pela ditadura. No Brasil, o sucesso dos partidos de esquerda e de centro causa desespero aos partidos da direita. Durante o governo de Fernando Henrique (“ele é um dos nossos” disse o general Figueiredo) a direita esteve no poder e deixou de atender os aposentados, os idosos, os trabalhadores e os pobres em geral. Escarneceu dessa camada da população e governou para os ricos e para a canalha incrustada no palácio. A maioria dos eleitores brasileiros é de gente pobre. Os governos de Luiz Inácio e Dilma Rousseff atenderam a esse vasto setor da nação brasileira. Hoje em dia, gente pobre viaja de avião e de ônibus com seus próprios recursos. O acesso à casa própria tornou-se uma realidade para a população de baixa renda. O direito à moradia deixou de ser apenas uma norma programática da Constituição. As famílias mais pobres recebem auxílio em pecúnia e em cestas básicas e são atendidas por médicos brasileiros e estrangeiros contratados pelo governo. A energia elétrica chegou aos lares pobres e longínquos. Isto demonstra que o Brasil não precisa copiar o regime cubano, chinês ou qualquer outro; que é possível praticar justiça social dentro dos parâmetros estabelecidos na vigente Constituição.
A simpatia entre Brasil e Cuba decorre – não da forma de governo que adotam – e sim da justiça social que praticam. O sistema constitucional brasileiro é diferente do cubano. Apesar da diferença, há respeito mútuo fundado nos princípios da fraternidade universal, da autodeterminação dos povos e da igualdade entre os estados da comunidade internacional. Brasil para os brasileiros e Cuba para os cubanos, em paz, amor e prosperidade, sem promiscuidade. No Brasil, o carcomido governo aristocrático transitou para o novo governo democrático, o que desagrada certa elite. 
Quanto ao item corrupção, falta autoridade moral aos oposicionistas para criticar a situação atual. No governo aristocrático de Fernando Henrique a roubalheira foi astronômica e ficou impune. No governo democrático de Dilma Rousseff as ilegalidades são apuradas e as penalidades aplicadas aos culpados. Tudo isto e mais o bom desempenho da economia reduz a possibilidade de a direita oposicionista, ladra e conservadora, conquistar o governo federal pelo voto popular. Então – e como sempre – a direita tenta o golpe, busca apoio dos militares e tem ao seu lado a Grande Imprensa com os seus jornalistas e economistas amestrados a tergiversar e a fazer previsões catastróficas para aterrorizar a nação.  

sexta-feira, 11 de abril de 2014

FILOSOFIA X - K



Europa. Cristianismo (final).

Agostinho, santo da igreja cristã, nascido Aurelius Augustinus, em Tagaste, na província romana de Numídia (África), morreu em Hipona (Argélia), como bispo (354 a 430). Contemporâneo das invasões dos bárbaros no império romano, Agostinho se propôs a defender o cristianismo dos ataques desferidos por aqueles que lançavam sobre os ombros da igreja a culpa do infortúnio. Entre as suas obras destacam-se: “Do Livre Arbítrio”, “Confissões” e a “Cidade de Deus”. Agostinho busca o equilíbrio entre as correntes dogmática e racionalista. No seu pensamento estão presentes as oposições: ser x não-ser; espírito x matéria; alma x corpo; inteligível x sensível; bem x mal; inocência x pecado; prêmio x castigo; salvação x perdição. A ele se deve a base teológica cristã que vigorou até a época da reforma religiosa.
Agostinho ficou atraído pela filosofia ao ler diálogo escrito por Cícero intitulado Hortensius. O cristianismo lhe parecia brutal e supersticioso. Aderiu ao maniqueísmo. Depois de uma década, aderiu ao neoplatonismo. Após ouvir a pregação de Ambrósio, aderiu ao cristianismo e nele permaneceu até a morte. A sua reflexão filosófica tinha forte coloração platônica. A sua noção de filosofia era reducionista: “O homem não tem razão para filosofar, exceto para atingir a felicidade”. Antecipou-se a Descartes ao afirmar: “Se eu me engano, eu sou, pois aquele que não é não pode ser enganado”. A fé está acima da razão, porém há necessidade de explicação intelectual para a crença. A iluminação divina não afasta o intelecto humano, bem ao contrário, o supõe. A iluminação coloca o intelecto na senda correta.
Há verdade absoluta e eterna. Há um conhecimento instintivo implantado por deus no espírito humano. Como reflexos da verdade eterna, existem conceitos básicos no ser humano desde o nascimento. Servem de exemplo as idéias imutáveis de justiça e direito. Deus é um espírito atemporal; não está sujeito à causalidade e nem ao processo histórico. Sob a ótica do tempo, o presente é o que existe realmente; o passado existe como memória do presente; o futuro existe como expectativa do presente. Perguntar o que houve antes da criação é insensatez, pois ao criar o mundo deus criou o tempo que, assim, integra-se à experiência mental do homem.
Na opinião de Agostinho, só há verdadeira justiça na cidade de deus. Tal justiça é cristã. A cidade terrena subtrai o homem ao deus verdadeiro o que significa injustiça. Os reinos nada mais são do que sociedades de bandidos quando não há justiça. As quadrilhas são pequenos reinos cujos membros comandados por um chefe vinculam-se por um pacto social e dividem o saque nos termos de uma lei aceita por todos. O poder secular e o poder espiritual são independentes, porém cooperativos: ao príncipe, o cuidado do reino; ao sacerdote, o cuidado da igreja; ao príncipe, os corpos; à igreja, as almas. A Constituição da cidade terrena é puramente temporal e eventual, pois depende da natureza do povo que se quer governar e das circunstâncias; ela nada tem de imutável e pode ser modificada para o bem dos cidadãos.
A ordem da igreja é superior porque tende para a ordem da cidade celeste. Da revelação contida nas escrituras advém grande parte do conhecimento. Apesar disto, o homem necessita compreender e o faz mediante o uso da razão. “Senti e experimentei não ser para admirar que o pão, tão saboroso ao paladar saudável, seja enjoativo ao paladar enfermo e que a luz amável aos olhos límpidos, seja odiosa aos olhos doentes.” A história humana é desenvolvimento da vontade divina: tudo o que aconteceu ou acontecerá representa um episódio dos desígnios de deus. Todos os homens sofrem as conseqüências do pecado original de Adão e Eva. Os que persistem no pecado são os construtores da cidade terrena. Os eleitos pela graça divina são os bem-aventurados edificadores da cidade de deus. Agostinho adere à teoria da predestinação: os selecionados por deus para a salvação eterna vivem na cidade de deus; todos os demais vivem na cidade terrena. No dia do juízo final, os habitantes da cidade de deus envergarão as vestes da imortalidade enquanto os habitantes da cidade terrena queimarão no inferno. Todo o significado da vida humana está nisto, diz Agostinho. Deus é onipotente. A graça divina é necessária ao homem na luta contra as tentações e o pecado. Todavia, nem todos a recebem.
O homem, depravado por natureza, não tem vontade livre. {Agostinho generaliza a sua própria experiência sensual, a sua licenciosidade nos prazeres ao tempo da sua juventude e do seu casamento}. A igreja é infalível. O erro é do indivíduo {responsabilidade individual pelo pecado equivale no plano civil à responsabilidade individual pelo crime}. Pelágio, monge galês, negava a doutrina do pecado original; afirmava a eficácia do livre arbítrio. Segundo os pelagianos, o homem alcançaria a salvação por seu próprio esforço se levasse vida virtuosa. A graça divina era dispensável. Agostinho combateu essa doutrina. Os reformadores cristãos do século XVI, como Calvino, adotaram alguns pontos da doutrina de Agostinho, tais como: a predestinação, o pecado original, a natureza depravada do homem e a escravidão da vontade.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

FILOSOFIA X - J



Europa. Cristianismo (continuação).

A autoridade do papa e o crescimento da vida conventual (monastério) refletiram na produção filosófica da Idade Média. A vida conventual era instituição cristã de caráter ascético. Certamente, essa instituição não foi inspirada na vida de Jesus tendo em vista que este profeta foi parcimonioso no ascetismo: jejuou no deserto apenas uma vez; a sua reclusão para meditar e orar era de pouca duração; ele mantinha relações íntimas com Maria Madalena e apesar de ser fisicamente feio cercava-se de mulheres graças ao seu carisma; circulava pelas cidades e aldeias, falava em público e em locais particulares. Destarte, a vida de clausura dos monges divergia da animada vida social de Jesus. A vida monástica está ancorada em motivos pessoais, tais como: (1) protestar contra a vida dissoluta do clero secular; (2) mostrar ardor religioso mediante mortificação; (3) dar exemplo de fé e piedade aos fiéis; (4) menosprezar a vida em sociedade, o luxo e a riqueza; (5) exaltar a sublimidade da vida reclusa e da mística união com deus.
O mosteiro mais antigo foi fundado por um cristão de nome Pacômio, no Egito, no século IV (301 a 400). O bispo Basílio, da Capadócia, apoiou a idéia e baixou as seguintes normas para organizar a vida monástica: (1) disciplina pelo trabalho útil; (2) mortificação moderada, sem jejuns prolongados e sem lacerações da carne; (3) períodos de silenciosa meditação e prece; (4) votos de pobreza e humildade. O modelo monástico para a cristandade latina foi traçado por Bento, no século VI (501 a 600). Ele renunciou à riqueza da sua família, tornou-se eremita aos 20 anos de idade e depois fundou um mosteiro em Monte Cassino. Bento estabeleceu as seguintes regras: obediência, castidade, devoção religiosa, trabalho e voto de pobreza. Preconizou um abade como diretor do mosteiro com ampla autoridade para disciplinar os monges e gerenciar os assuntos espirituais e seculares. Do mosteiro de Cluny, fundado em 910, irradiou-se a reforma monástica a partir de um novo princípio de organização: abadia diretamente vinculada ao papa; a autoridade sobre os mosteiros originados de Cluny compete ao abade; piedade e castidade reforçadas; moderação em tudo; proteção dos mosteiros contra a corrupção {reação à influência da aristocracia feudal}.
Os monges interferiam na política, estimulavam a violência dos fiéis contra os hereges e pagãos e descumpriam as regras sempre que lhes parecesse conveniente. Eles conquistaram a fama de ser os melhores lavradores da Europa: reivindicavam terras incultas além daquelas que lhes eram doadas, drenavam pântanos e estudavam formas de melhorar o solo para plantio. Mostravam proficiência na tecelagem, no entalhe da madeira, na fabricação do vidro e da cerveja. Havia entre eles copistas, terapeutas, escritores, professores e filósofos. Copiavam textos antigos, fundavam e mantinham escolas, bibliotecas e hospitais. Por viverem sob regras próprias, os monges eram classificados como clero regular. Os padres e bispos que sob regras gerais desempenhavam suas funções junto ao público eram classificados como clero secular. Entre as duas classes do clero havia rivalidade e censuras recíprocas. A vida conventual atraía pessoas que fugiam das dificuldades sociais e econômicas. A moça de família nobre ou abastada deflorada no estado de solteira abrigava-se no convento das freiras, voluntariamente ou forçada pelos pais. Nos mosteiros, a santidade mesclava-se com a corrupção e a hipocrisia; as relações homossexuais eram comuns e freqüentes. Os monges heterossexuais transavam com mulheres do campo e da cidade (meninas, moças e senhoras).
A igreja cristã incluiu na sua ética as virtudes cardeais defendidas por filósofos gregos: prudência, justiça, fortaleza e temperança. Além destas, a igreja acrescentou as virtudes teologais citadas nas epístolas e endossadas pelo Concílio de Trento: fé, esperança e caridade. Com a reforma protestante a partir de 1517, iniciada na Alemanha por Lutero, parte dos cristãos retornou à ética judia que considerava o homem depravado e corrupto, a riqueza e a prosperidade bênçãos divinas, o sábado sagrado. Os cristãos protestantes acataram as proibições do Antigo Testamento considerado “palavra de deus” para reforçar sua autoridade e supremacia. Na primeira fase da Idade Média havia superstição e credulidade em grau superlativo. Estabeleceu-se o conflito entre fé e razão. Teologia e filosofia confrontam-se. A filosofia bifurca-se em cristã e pagã. Os filósofos cristãos dividem-se: de um lado, os defensores da primazia do dogma; de outro lado, os defensores da razão como luz que ilumina as doutrinas da fé. Houve tentativa de harmonizar o pensamento cristão com o pensamento pagão. Em face do radicalismo das duas posições, o conflito se mantém vivo.
Entre os filósofos cristãos defensores da primazia do dogma encontram-se: Tertuliano, sacerdote de Cartago, Ambrósio, bispo de Milão, Jerônimo e o papa Gregório (201 a 600). Segundo essa corrente filosófica, o cristianismo é um sistema de leis sagradas aceito pela fé; o conhecimento intelectual merece desprezo; os dogmas da fé não estão sujeitos à prova da razão; os súditos têm o dever religioso de obedecer aos príncipes passivamente, sem críticas e sem murmúrios. O papa Gregório transformou em convento o palácio que herdara do pai e distribuiu o resto da rica herança aos pobres. Ele considerava a penitência elemento essencial à remissão dos pecados e o purgatório o lugar de purificação que antecede o ingresso no reino dos céus. Segundo tese delirante desse papa, ao celebrar a missa, o sacerdote coopera com deus no milagre de renovar o sacrifício de Jesus na cruz. Reagindo contra as heresias e os maus costumes na igreja e na sociedade, Gregório esquece a sua própria heresia e escreve cartas doutrinárias. Os seus ensinamentos teológicos primaram pelo simbolismo e negligenciaram o lado histórico.
Clemente de Alexandria e Orígenes estão entre os filósofos cristãos racionalistas (201 a 300). Ambos sofreram influência do neoplatonismo e do gnosticismo {sofrer influência não significa aderir plenamente}. Na opinião deles, os filósofos gregos anteciparam os ensinamentos de Jesus. O cristianismo só tinha a ganhar harmonizando-se com a filosofia grega. A razão é a base fundamental do conhecimento religioso e secular. O poder de deus é limitado por sua bondade e sabedoria. {Deus limita a si próprio; logo, o rei também deve limitar a si próprio e respeitar os direitos dos súditos}. Enquanto encarnado, o homem modela o curso da sua vida mediante livre arbítrio. O universo não foi criado em determinada época; o processo de criação é eterno {moto-contínuo}; as velhas coisas são suplantadas pelas novas em uma infindável sucessão. Esses dois filósofos deploravam o ascetismo extremo e a qualificação do casamento como forma legalizada da concupiscência, pois viam no matrimônio um enlace sagrado e necessário à sociedade e à perfeição do homem. Eles sustentavam que a punição futura não tem conotação vingativa e sim o propósito de purificar os homens, por isso mesmo, a punição no inferno não pode ser eterna e o mais infame dos pecadores poderá ser redimido graças à bondade e à misericórdia de deus. {No plano civil, essa doutrina corresponde à finalidade pedagógica da pena e à política de recuperação social dos criminosos}. Segundo Orígenes, deus é incorpóreo; a alma penetra no corpo por ocasião do nascimento; a Bíblia foi divinamente inspirada.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

JORNALISMO EXIBICIONISTA



Causou celeuma a morte de um cinegrafista de emissora de televisão no início de 2014. Durante manifestação de rua, o profissional se colocou no meio do confronto entre populares e policiais e se feriu em conseqüência de uma explosão. Os profissionais da imprensa se solidarizaram e saíram à caça dos culpados com vasta cobertura pelas emissoras de televisão. Os lançadores do artefato explosivo foram localizados, presos e indiciados em inquérito policial. Notável a rapidez e a eficiência do aparelho estatal de persecução criminal quando a imprensa está nos seus calcanhares. E nem se tratava de crime doloso e sim de crime culposo: lesões corporais seguidas de morte causadas por imprudência do agente. O indivíduo preso declarou que recebia certa importância em dinheiro para participar de manifestações e fazer barulho. Não havia o propósito de ferir ou matar. Ainda que não revele o nome do mandante, esse indivíduo corre o risco de ser morto: queima de arquivo, no jargão policial. Estará ele protegido contra esse risco? A brava e livre imprensa parece que perdeu o interesse após a confissão do preso. Será que os jornalistas sentir-se-ão vingados se o indiciado for morto?
A sociedade espera ser informada sobre o mandante que paga os executores, fornece o material explosivo e o respectivo transporte. À sociedade interessa saber não só a identidade do mandante, mas a sua motivação, os nexos sociais e políticos. Parece que há gente graúda envolvida, ligada à grande imprensa e a partido político de oposição ao governo federal. O repentino desinteresse do jornalismo investigativo deve ser suprido pela ação do ministério público e da instituição policial, se o tráfico de influência permitir. Caso o fio da meada não tenha sido cortado, provavelmente virá à tona coisa escabrosa. Grupos civis e militares apoiados pelos donos da grande imprensa talvez estejam na origem desses movimentos como aconteceu em 1964. Não se descarta a hipótese de o estímulo a tais movimentos partir dos meios de comunicação social com o propósito de fabricar matéria e causar sensação.
Interessante seria saber o que o cinegrafista fazia naquela posição suicida, além do intuito de registrar imagens. O primeiro responsável por seu trágico destino pode ter sido ele próprio. A ânsia de sensacionalismo, de se consagrar como herói, de se exibir ao público como profissional destemido, tipo “Amaral Neto, O repórter”, é nota constante na conduta dos jornalistas. Há inúmeros exemplos no cotidiano do jornalismo no Brasil e no estrangeiro exibidos nos programas das emissoras de televisão. Os repórteres não se limitam a mostrar e relatar; sem necessidade alguma, colocam-se em situações de perigo apenas por vaidade. Entrevistadores sombreiam e interrompem abrupta e deseducadamente os seus entrevistados, falam pelos cotovelos para expor a própria opinião e exibir um verniz de cultura; às vezes, temperam matéria insossa ou forçam o mudo a falar. O propósito do exibicionismo pode ser o de conquistar algum prêmio concedido à categoria, expectativa sedutora, ambição que leva o jornalista a inventar situações, a deformar e selecionar imagens e mensagens a fim de causar impacto. Geralmente, a edição do noticiário favorece os interesses do dono da empresa jornalística e do grupo econômico e político a que pertence. No Brasil, a imprensa é livre, mas está longe da moderação, da imparcialidade e da honestidade.
A manifestação de rua é forma popular de mostrar descontentamento com os rumos da política e da economia, protestar coletiva e publicamente e formular pretensões. A violência durante manifestação originariamente pacífica é risco inerente a esse tipo de movimento. A democracia convive com os riscos e se fortalece quando os supera. Os sentimentos represados, as frustrações, a dura realidade para a maioria, o maior proveito da produção nacional para a minoria, a desigual e injusta distribuição da riqueza, o descaso dos governantes ante a penúria dos governados, a parceria do setor público com o setor privado na desbragada corrupção, tudo isto contribui para a erupção de forças irracionais avassaladoras. A frio, raciocinar e julgar é fácil. No calor das emoções de um movimento popular em via púbica, não se há de esperar raciocínio límpido e contenção por freios morais ou religiosos. A busca de culpados nesse caso é movida pelo sentimento de vingança. Nesse tipo de movimento todos os participantes são inocentes e todos são culpados. A irresponsabilidade civil individual é a regra; a responsabilidade, a exceção. 
Cabe repressão ao abuso no exercício dos direitos. Há de ser apurada, na forma da lei, a responsabilidade civil e penal de quem provoca ou organiza movimento popular, ou de qualquer modo dele se aproveita, com finalidade eleitoreira extemporânea, subversiva ou com o objetivo de satisfazer interesse privado e egoístico. Os autores intelectuais devem ser punidos com rigor maior do que o aplicado aos executores do plano ilícito. Em um estado democrático de direito a liberdade há de ser vivenciada em sintonia com os preceitos constitucionais e legais. Cidadão e autoridade se devem mútuo respeito. O patrimônio público deve ser preservado tanto quanto o patrimônio privado, nos termos da ordem jurídica vigente.
Na atual conjuntura em que parcela do povo se mostra hostil a determinados veículos de comunicação social, as empresas jornalísticas devem pagar aos seus empregados o adicional de periculosidade. A hostilidade a repórteres de certa emissora de televisão é pública e notória. Há risco de vida e de lesão corporal. As torres de transmissão e as instalações urbanas das emissoras podem ser atacadas e destruídas. Há precedentes, como aquele motivado pelo suicídio de Vargas em agosto de 1954, quando o alvo foram jornais de oposição ao governo. Além dos danos materiais, poderá haver danos pessoais. A empresa não sofrerá grande prejuízo porque as companhias de seguro a indenizarão. Por sua vez, as seguradoras promoverão ação contra o estado para se ressarcirem. Argumentarão com a falha na segurança pública. Dirão que o estado não cumpriu o seu dever constitucional. A indenização sairá do erário. O dinheiro do erário vem do bolso do contribuinte. No final da corrente, o povo pagará o pato. O povo faz, o povo paga. Pois, é.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

FILOSOFIA X - I



Europa. Cristianismo (continuação).

O movimento reformista gerador da nova seita judia cresceu e superou o judaísmo tradicional. Os distintos ingredientes da doutrina facilitaram sua aceitação e seu desenvolvimento em Roma e nas suas províncias. Além dos elementos judaicos (origem divina do mundo, pecado original, providência divina, decálogo) a nova seita, que recebeu o nome de cristã, apropriou-se das idéias e práticas pagãs. Efetivamente, adotou: (1) dos persas, o dualismo deus x satã; (2) dos gnósticos: a teoria do primeiro homem e do verbo encarnado; (3) do mitraísmo: a sagrada refeição do pão e vinho, o batismo, a água benta, os dias sagrados de domingo e 25 de dezembro, o nascimento do profeta em circunstâncias singulares; a visita dos magos; (4) dos antigos babilônios: o mito do nascimento virginal {o herói Gilgamesh nascera de uma virgem; aprisionada por seu pai, rei que não queria herdeiro para lhe disputar o trono, a virgem foi engravidada por um raio de sol}; (5) de Pitágoras, Platão e Filo: ascetismo, misticismo, desprezo pelo mundo material; (6) de Cícero e Sêneca: estoicismo, visão cosmopolita, lei natural e eterna inscrita no coração dos homens, estado de primitiva inocência do homem, igualdade dos homens na cidade celestial; desigualdade e diversidade na cidade terrena.
Pontos essenciais da ética cristã: (1) amar a deus e ao próximo; (2) regra de ouro (“tudo o que desejais que os homens façam por vós, fazei assim também por eles”); (3) supremacia da substância espiritual em relação ao ritual (“o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado”); (4) condenação da avareza (“é mais fácil uma corda passar pelo furo de uma agulha do que um rico entrar no reino de deus”); (5) distinção entre poder secular e poder espiritual, entre cidade terrena e cidade celestial (“daí a César o que é de César e a deus o que é de deus”; “o meu reino não é deste mundo”). 
A admissão de mulheres na primitiva comunhão dos santos contribuiu para o sucesso da nova seita. O papel delas diminuiu após a morte do profeta. Contribuíram para esse decréscimo: a aversão de Paulo pelas mulheres e o patriarcado vigente na sociedade palestina hebraica. O fato de existirem pessoas de carne e osso na origem da nova seita (João, Jesus, apóstolos) também facilitou a adesão dos pagãos cujas religiões giravam em torno de criaturas lendárias e fantásticas. O acolhimento dos pobres, a exaltação dos humildes, a censura à ganância, contam-se entre os fatores simpáticos da nova seita. Verifica-se desigualdade, discriminação e predestinação quando são colocadas na boca do profeta as biliosas assertivas de que poucos entrarão no reino dos céus, de que os ricos e os pecadores estão excluídos, de que somente os escolhidos terão acesso ao reino divino.
A perseguição sofrida pelos adeptos da nova seita por meio século fortaleceu os laços da comunidade. A seita cristã tornou-se religião autônoma. Um dos fundadores foi divinizado, primeiro como filho unigênito de deus e depois como o próprio deus. {Na mitologia pagã, os deuses transavam com as fêmeas humanas e geravam filhos}. O movimento cristão se expandiu depois de reconhecido pelo estado romano. O Edito de Milão expedido pelo imperador Constantino em 313, concedeu liberdade de culto aos cristãos que, assim, obtiveram igualdade com os pagãos. Mais tarde, o imperador Teodósio decretou a interdição do culto pagão. O cristianismo torna-se religião oficial.
Após alcançar estabilidade, segurança e hegemonia, a igreja cristã se vê enredada em desavenças internas: de um lado, as posturas intelectuais; de outro, as posturas emocionais. Arianos e nestorianos (seguidores de Ário e de Nestor) rejeitavam a ortodoxa teoria da trindade; não admitiam a igualdade entre deus e Cristo; afirmavam que o filho é criatura gerada no pecado e de limitada inteligência se comparada à onisciência do Pai Celestial; que Maria não é a mãe de deus e sim a mãe de Cristo. Os atanasianos (seguidores de Atanásio) afirmavam a plena igualdade entre o pai, o filho, e o espírito santo. Os ebionitas (seguidores de Ébion) negavam o nascimento virginal e a divindade de Jesus; defendiam a pureza dos ensinamentos do profeta sem os adornos da teologia de Paulo; rejeitaram o Novo Testamento e o substituíram por escritura própria: Evangelho dos Ebionitas. O caráter emocional do cristianismo era enaltecido pelos montanistas, gnósticos e maniqueus (seguidores de Mani). Eles acolhiam o ascetismo e o misticismo, viam na religião um produto exclusivo da revelação; censuravam as tentativas de colocar a fé sob o crivo da razão; combatiam o mundanismo do clero; viam na matéria o mal e no espírito o bem. A corrente donatista aspirava maior espiritualidade na religião do que a oferecida pelo clero; admitia na igreja só quem levasse vida santa; não reconhecia valor algum aos sacramentos quando administrados por sacerdotes imorais. Os adeptos de cada uma das correntes doutrinárias divergentes acreditavam em um deus criador do universo e nos ensinamentos de Jesus.
Os primitivos cristãos reuniam-se nos seus lares e ouviam aqueles que se comunicavam diretamente com o espírito santo. Não havia subordinação entre sacerdote e leigo. Bispos e anciãos presidiam os serviços e recebiam auxílio material dos fiéis. Por conveniência do culto e razões práticas, o local da reunião se fixou em uma casa que se denominou templo ou igreja. Depois, no evolver histórico, também se chamou catedral e basílica, segundo a sede e a posição hierárquica. O clero se profissionalizou a partir do século II, quando um dos bispos passou a liderar os demais em cada região. Nas cidades grandes os bispos foram denominados metropolitanos com jurisdição provincial. No século IV, o bispo líder sediado nas cidades maiores (Roma, Constantinopla, Antioquia e Alexandria) recebe o nome de patriarca e ocupa o mais elevado grau da hierarquia eclesiástica que, então, ficou assim organizada: patriarcas, metropolitanos, bispos locais e padres.
Estribado na teoria da sucessão de Pedro, o imperador Valentiniano III, por decreto do ano 455, submeteu todos os bispos ocidentais ao patriarca de Roma. Essa teoria legitimava a primazia do patriarca de Roma porque nesta cidade Pedro e Paulo desempenharam missões evangelizadoras e foram mortos. Segundo a lenda convertida em dogma teológico, o apóstolo Pedro foi designado por Jesus para ser a pedra fundamental da igreja, recebeu as chaves do reino dos céus e o poder para punir ou absolver os pecadores. Investido desta autoridade {invejada e ambicionada por Paulo}, Pedro fundou o bispado de Roma. Os seus sucessores foram reconhecidos como herdeiros da sua autoridade e do seu carisma. Os patriarcas da igreja oriental não aceitaram a supremacia do patriarca de Roma.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

FILOSOFIA X - H



Europa. Cristianismo (continuação).

O evangelho de Lucas, médico grego, tem destinatário certo e único: Teófilo, pessoa desconhecida, mas que devia ser importante, eis que tratada de excelentíssimo. No prólogo desse evangelho, consta que outras pessoas já haviam contado a mesma história. Apesar disto, Lucas resolveu escreve-la para exclusiva ciência de Teófilo. Deduz-se, pois, que os evangelhos escritos por outros tinham o público por alvo enquanto o escrito por Lucas destinava-se a um só indivíduo. Lucas diz que a narrativa estriba-se em testemunhas oculares que se tornaram ministros da palavra e transmitiram os acontecimentos. Referia-se aos apóstolos da primeira hora. Considerando que Lucas era estrangeiro; que escreveu o seu evangelho mais de vinte anos depois da crucifixão de Jesus; que não conheceu o profeta pessoalmente; conclui-se pela fraca credibilidade da sua narrativa. Mateus copiou o evangelho de Marcos; Lucas copiou os evangelhos de Marcos e de Mateus. Os três evangelhos são conhecidos como sinóticos em virtude da semelhança entre eles. Imitar e copiar idéias, obras e instituições alheias era costume arraigado na cultura hebraica.
Lucas narra: o nascimento milagroso de João e de Jesus; a visita de Maria (grávida de Jesus) a Isabel (grávida de João); a circuncisão do menino por exigência da lei de Moisés; a consagração do menino a deus; a presença do menino com 12 anos de idade no templo de Jerusalém durante a páscoa a ouvir e interrogar os doutores; a pregação de João Batista; a genealogia de Jesus; a tentação no deserto; a rejeição de Jesus por seus conterrâneos; as diversas curas; a pesca milagrosa; o sermão da montanha; a troca de mensagens entre João Batista e Jesus; as andanças pelo território palestino acompanhado de mulheres; o perdão concedido à mulher pecadora que, ao saber da presença de Jesus na casa de um fariseu, para lá se dirigiu com um vaso de alabastro cheio de perfume, prostrou-se aos pés do profeta, lavou-os com suas lágrimas, enxugava-as com os cabelos, beijava os pés do mestre e os ungia com perfume. Lucas menciona a seleção de 72 discípulos com a missão de: precederem o profeta em todos os lugares por onde ele teria de passar; anunciarem a vinda do reino de Deus; curarem os enfermos. Cita o acontecido na aldeia de Betânia, na casa das irmãs Marta e Maria: enquanto Marta cuidava dos afazeres domésticos, Maria colocou-se aos pés de Jesus para ouvi-lo e com ele flertar; enciumada, Marta protestou; Jesus a admoestou. O mestre ensina a orar. Durante o jantar em casa de um fariseu ele critica os fariseus {ignorou as normas do hóspede bem educado e o ditado popular: não se fala de corda em casa de enforcado}. Lucas informa sobre: a ameaça de Herodes e a insistência de Jesus em prosseguir viagem; a hospedagem de Jesus na casa de Zaqueu, em Jericó; a lição sobre humildade; a assertiva sobre o reino de Deus (não virá de um modo ostensivo, nem se dirá ei-lo aqui ou ei-lo ali, pois o reino de Deus já está no meio de vós). No episódio da aparição depois da suposta morte na cruz, Lucas diz que os apóstolos ficaram espantados e perturbados, pensando ver um espírito e que Jesus os censura, mostrando estar ali em carne e osso; o profeta pede algo para comer e afirma que permanecerá na cidade até que eles fossem revestidos da força do alto.
Há divergência quanto à ascensão. Lucas diz que Jesus levou os apóstolos a Betânia, os abençoou, deles separou-se e foi arrebatado ao céu. Marcos não menciona lugar algum: depois que o Senhor Jesus lhes falou, foi levado ao céu e está sentado à direita de Deus. Mateus nada menciona. Limita-se a informar que a reunião foi na Galiléia {Betânia fica na Judéia}. O evangelista João também silencia a esse respeito e diz que os discípulos estavam reunidos no mesmo dia da ressurreição quando Jesus veio, saudou-os e soprou sobre eles dizendo: recebei o espírito santo; aqueles a quem perdoares os pecados, ser-lhes-ão perdoados, aqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos. Se a ascensão tivesse ocorrido de fato, Mateus e João, apóstolos da primeira hora, não deixariam passar in albis evento de tal magnitude. Ambos encerram seus evangelhos sem falar sobre o destino de Jesus.
Dos 12 apóstolos, João era o mais novo em idade. Ele foi pintado por Leonardo da Vinci no mural da última ceia como um adolescente imberbe. João se refere a si mesmo como o discípulo que Jesus amava. É possível que João, por ser muito jovem, recebesse um carinho especial do mestre sem que isto tipificasse pedofilia. O seu evangelho difere dos outros, inclusive pela forma entusiástica de tratar o mestre a quem galardoa com o título de divino. João ditou o seu evangelho aos 80 anos de idade, aproximadamente. Não se descarta a hipótese de a senectude ter afetado as suas idéias, recordações e sentimentos. O seu livro “Apocalipse” parece obra de alguém mentalmente desequilibrado. A “linguagem simbólica” referida por seus defensores na verdade é linguagem de pessoa sem domínio das suas faculdades mentais. No prólogo do seu evangelho, João declara que Jesus é o verbo e que o verbo é deus e que ninguém jamais viu deus {o que faz da visão de deus por Moisés uma balela}. João silencia sobre o nascimento, infância e juventude de Jesus. Discorre sobre João Batista e o batismo de Jesus adulto. Menciona os primeiros discípulos indicados por João Batista e admitidos por Jesus.
João narra: (1) o primeiro milagre ocorrido em uma festa de casamento na aldeia de Cana, situada na Galiléia, em que o profeta transforma água em vinho; (2) a conversa do profeta com Nicodemos, príncipe judeu, sobre o renascer da água e do espírito para entrar no reino de deus; (3) o episódio da mulher que deu água a Jesus quando ele passava pelo território da Samária e descansava sozinho próximo a um poço na aldeia de Sicar {os companheiros que serviam água e comida ao mestre tinham ido à cidade comprar mantimentos; João não esclarece como Jesus agradeceu: se piscou um olho para a samaritana, ou se a beijou na testa, ou a abraçou, ou usou apenas a palavra; o evangelista diz apenas que, ao regressarem das compras, os companheiros interpelaram Jesus que respondeu: tenho um alimento para comer que vós não conheceis e resolveu ficar dois dias na aldeia samaritana onde comeu e foi bem tratado}; (4) a pregação na Samária; (5) as diversas curas realizadas; (6) o discurso em que Jesus diz aos judeus que fala e age em nome de deus; (7) a festa religiosa em Jerusalém quando o mestre dá lições no templo, é questionado pelos judeus e sofre ameaça de prisão e morte; (8) o julgamento da mulher adúltera: quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra {o adultério era punido com a morte por apedrejamento, segundo a lei dos hebreus e continua a ser segundo a lei dos maometanos}; (9) as fugas de Jesus após debater com os judeus e sofrer tentativas de apedrejamento por causa das suas idéias e de afirmações como estas: eu sou a luz do mundo, aquele que me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida; eu sou o bom pastor, se permanecerdes na minha palavra sereis meus verdadeiros discípulos, conhecereis a verdade e a verdade vos livrará; o pão de deus é o pão que desce do céu e dá vida ao mundo; eu sou o pão da vida; (10) a parábola do bom pastor; (11) a ressurreição de Lázaro; (12) a intenção do Grande Conselho Judaico de prender e matar Jesus; (13) a cena em que Maria lava os pés de Jesus com nardo e Judas Iscariotes protesta alegando desperdício; (14) a entrada de Jesus em Jerusalém para a páscoa; (15) a lavagem dos pés dos discípulos pelo mestre; (16) a vinda do Paráclito (espírito santo) e a recepção pelos apóstolos; (17) prisão, julgamento, crucifixão, sepultamento e ressurreição de Jesus; (18) aparição a Maria Madalena e aos discípulos; (19) a incredulidade do apóstolo Tomé; (20) a aparição junto ao lago de Tiberíades; (21) a pesca milagrosa e a reunião com os discípulos.
Segundo João, ao notar inveja e competição entre os apóstolos, Jesus lhes deu novo e específico mandamento: amai-vos uns aos outros. João revela ódio ao mundo material. Espicaçado pelo ciúme, João não esconde o seu ódio por Judas, único judeu do colégio apostólico. Judas era alvo da atenção e da confiança de Jesus. Exercia a função de tesoureiro da comunidade. A se acreditar em João, ter-se-ia de admitir falsidade e teatralidade na atitude de Jesus. Durante a ceia, Jesus embebe pedaço de pão no vinho e dá a Judas. Depois da ceia, Jesus ordena a Judas que faça o que tinha de fazer. Isto indica prévio acordo entre os dois. Os outros evangelistas narram o episódio de forma singela e diferente, sem a carga temperamental colocada por João.