sexta-feira, 28 de março de 2014

FILOSOFIA X - G



Europa. Cristianismo (continuação).

O evangelho de Mateus foi redigido em aramaico e traduzido para o grego. O nome original do escritor é Levi, coletor de impostos. Esse evangelho abrange fatos anteriores ao nascimento de Jesus e vai até fatos posteriores à crucifixão. A narrativa dos fatos anteriores à época em que o profeta tinha 30 anos de idade brota da especulação do evangelista, porque ele não os testemunhou. Possivelmente, Mateus obteve informações da mãe e dos parentes ainda vivos de Jesus. Maria já era sexagenária {segundo a igreja católica, o corpo de Maria subiu ao céu, dogma instituído pelo papa Pio XII, em 1950}. Inúmeras passagens foram inventadas por Mateus. Supor que Maria era virgem antes de engravidar é aceitável por sintonizar com a natureza. Afirmar que Maria foi fecundada por um espírito contraria as leis da natureza, salvo se o espírito estivesse encarnado em um belo jovem ou em um sacerdote malandro. Realmente, a fecundação por um homem de caráter angelical ou por um espírito encarnado é versão mais palatável. A igreja católica criou o mito da virgindade perpétua de Maria e o erigiu em artigo de fé. Para sustentar o mito e convencer os fiéis, a igreja apela para o sofisma: diz que irmão significa primo e que os irmãos de Jesus não eram filhos de Maria e sim da irmã de Maria, ou seja, eles eram primos de Jesus. A viagem a Belém, conveniente para vincular o rebento à dinastia de Davi, a fuga para o Egito e a mortandade de crianças carecem de valor histórico. Há um esforço mais literário e apologético e menos histórico no evangelho de Mateus. Diz ele: José era da linhagem de Davi, casou com Maria que estava grávida e não a tocou. Se José não era o pai biológico, então Jesus não pertencia à linhagem de Davi e a gravidez resultara da conjunção carnal de Maria com outro parceiro. Trazendo lendas pagãs para a nova seita, Mateus atribui a concepção ao espírito santo. Um anjo apareceu ao inconformado José e o convenceu a não se divorciar. Maria pariu um menino e recebeu a visita dos magos: entrando na casa, eles acharam o menino com Maria, sua mãe; prostrando-se diante dele, o adoraram; depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe como presentes: ouro, incenso e mirra. {O texto diz casa e não manjedoura ou estrebaria}.
Mateus menciona: a pregação de João Batista, precursor de Jesus e arauto do reino dos céus; a experiência extática de Jesus no deserto depois de jejuar 40 dias e 40 noites; o sermão que contém a sua doutrina: Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o reino dos céus; bem-aventurados os mansos, os que choram, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os limpos de coração, os pacíficos, os que padecem perseguição por amor da justiça; sois o sal da terra e a luz do mundo. Nesta ocasião, o profeta amolda os mandamentos de Moisés à sua doutrina: Não vim para abolir a lei, mas para aperfeiçoá-la. {Lei = Pentateuco = cinco primeiros livros do AT}. O profeta recomenda servir ao próximo em silêncio e não agir como hipócrita, sob pena de perder a recompensa divina: Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens para serdes vistos por eles. Ensina a orar: pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu, o pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai-nos as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. A igreja católica adotava esta oração como retro transcrita, porém, na segunda metade do século XX, visto que ninguém estava disposto a abrir mão dos seus créditos, mesclou-a com a prece mais breve de Lucas, na passagem que fala das dívidas: perdoai-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos aqueles que nos ofenderam.
Os evangelistas João e Marcos não mencionam essa oração. Quanto às ofensas, nem todos as perdoam e muitos jamais as esquecem. Os que assim rezam, mentem a deus. Dívidas e ofensas raramente são perdoadas. Os tribunais estão repletos de ações de cobrança e de ações por injúria, difamação e calúnia. Há milhares de crimes e de ilícitos civis praticados por vingança. A intenção do autor dessa prece talvez fosse a de induzir o crente a se conduzir daquela forma piedosa.    
O sermão prossegue: não ajunteis para vós tesouros na terra; a cada dia basta o seu cuidado; olhai como crescem os lírios do campo, não trabalham nem fiam, entretanto vos digo que o próprio Salomão no auge da sua glória não se vestiu como um deles; buscai, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo; não julgueis e não sereis julgados; não atireis aos porcos as vossas pérolas; tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles; entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição; guardai-vos dos falsos profetas, pelos seus frutos os conhecereis. O sermão termina com a advertência de que não basta ouvir as palavras do profeta; há necessidade de colocá-las em prática. Mateus ainda narra: a formação de igrejas (onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles); a outorga de poderes aos 12 apóstolos; mensagem e morte de João Batista; expulsão dos mercadores do templo; conspiração dos sacerdotes judeus; episódio em que, sob os protestos dos discípulos, certa mulher derrama perfume caro na cabeça de Jesus {outro apóstolo diz que foi nos pés e a mulher era irmã de Lázaro; a igreja diz que o bálsamo foi posto na cabeça e nos pés, que a mulher chamava-se Maria e que certamente tratar-se-ia de Maria Madalena}. A narrativa continua: traição de Judas Iscariotes; última ceia antes da crucifixão; angústia no Getsêmani; prisão e sucessivos julgamentos perante o Sinédrio (tribunal judeu), Herodes (tetrarca da Galiléia) e Pilatos (autoridade romana); suicídio de Judas Iscariotes; ajuda prestada por Simão de Cirene a Jesus; crucifixão, sepultamento e ressurreição.
A existência na Galiléia de uma cidade ou aldeia com o nome de Nazaré ao tempo de Jesus não está provada. Uma coisa é chamá-lo Jesus Nazareno como faziam o povo palestino e os romanos; outra, bem diferente, é chamá-lo de Jesus de Nazaré, como faz a igreja cristã. Para induzir a crença de que o conhecimento e a doutrina do profeta vêm de deus e não dos mestres humanos e das escolas de mistérios, a igreja cristã esconde as relações de Jesus com as seitas dos nazarenos e dos essênios e com as citadas escolas do Egito e da Grécia. O apelido nazareno não significa naturalidade ou cidadania. Independente da cidade natal, o homem consagrado a deus recebia a alcunha de nazareno; assim, também, o adepto da seita nazarita. Ficar no deserto por 40 dias e 40 noites era uma provação que santificava. Jejuar todo esse tempo sem morrer de fome, de sede ou sem ser atacado por animal é impossibilidade frente às leis da natureza e do bom senso. Talvez o número seja cabalístico: 40 = tempo indeterminado, impreciso. A montanha onde Jesus teria proferido o sermão é desconhecida. Provavelmente, alguma elevação próxima a Cafarnaum (norte da Galiléia), ou o próprio Monte Tabor (sul da Galiléia), caso a referência à montanha não seja apenas simbólica.

quarta-feira, 26 de março de 2014

FILOSOFIA X - F



Europa. Cristianismo (continuação).



O vocábulo grego evangelho significa boa nova ou boa notícia e na linguagem cristã é utilizado nas acepções de: (1) mensagem transmitida oralmente pelo profeta; (2) livro que a contém; (3) coleção de textos reunidos em um volume denominado Novo Testamento – NT, sobre a vida e a doutrina do profeta, a organização inicial e a evolução da igreja cristã. A mensagem leva em si o fundamento doutrinário de uma nova religião. Há vários livros (rolos de pergaminho ou de papiro) chamados de evangelhos, que são narrativas de diferentes autores sobre o mesmo tema: vida e morte do profeta, suas lições, seus milagres, suas andanças na Palestina. O clero cristão organizou o NT como unidade teológica. O trabalho foi de Jerônimo, no século IV (301 a 400), aprovado pelo Concílio de Trento em 1546, como versão latina oficial da igreja. Esse trabalho inclui as duas coleções de livros: a do Antigo Testamento (AT) sobre os hebreus e a do Novo Testamento (NT) sobre os cristãos. Essa versão recebeu o nome de Vulgata e o conjunto das duas coleções (AT + NT) recebeu o nome de Bíblia (palavra grega que significa livros).

Jerônimo selecionou e traduziu para o latim algumas epístolas expedidas em nome dos apóstolos, a narrativa de Lucas sobre as atividades dos apóstolos, o Apocalipse (livro profético do apóstolo João) e quatro evangelhos escritos pelos apóstolos João e Mateus e pelos discípulos Lucas e Marcos. Os evangelhos escritos pelos apóstolos Tiago, Judas Tadeu, Maria Madalena, Tomé e Felipe foram descartados. Os apóstolos e discípulos só conheceram Jesus adulto. Nenhum deles testemunhou o nascimento, a infância e a juventude do profeta. Dos quatro evangelistas selecionados pela igreja só João e Mateus testemunharam a vida adulta do profeta. Marcos e Lucas não o conheceram pessoalmente e escreveram por ouvir dizer. Por volta do ano 60, os ensinamentos atribuídos ao profeta começam a tomar forma escrita. Há semelhanças e diferenças entre os quatro evangelhos escolhidos pela igreja. No que tange ao messias, culturas antigas também mencionam a vinda de salvadores políticos e religiosos. A novidade está na chegada real de um deles no seio da sociedade palestina. Apenas insignificante minoria do povo palestino reconheceu Jesus como o messias. A maioria escarneceu. Incredulidade, agressões, acusações de blasfêmia e de subversão foi o que o profeta recebeu dos palestinos, conforme os evangelhos.

O primeiro evangelho que veio à luz foi escrito (ou ditado) por Marcos, discípulo de Pedro e companheiro de Paulo nas viagens missionárias. O seu livro resultou dos ensinamentos de Pedro em Roma e do convívio com Paulo e alguns apóstolos. Quiçá, por não ter conhecido Jesus pessoalmente, Marcos salta os episódios relativos ao nascimento, infância e juventude do profeta. Começa a narrativa com a pregação de João Batista, que não presenciou, mas da qual ouviu falar. Do seu evangelho constam: (1) o batismo de Jesus por João Batista; (2) o recrutamento dos 12 apóstolos que formaram o círculo interno da nova seita (colégio apostólico); (3) a questão do jejum; (4) o trabalho terapêutico; (5) parábolas; (6) os nomes dos irmãos {os nomes das irmãs de Jesus foram omitidos, reflexo do lugar subalterno ocupado pela mulher na Palestina}; (7) o lamento de Jesus por ser vítima do descrédito: um profeta só é desprezado na sua pátria, entre os seus parentes e na sua própria casa. {Jesus intitulava-se profeta. Na família, parece que só os seus irmãos Tiago e Judas Tadeu nele acreditaram. José, o pai adotivo, certamente dava mais atenção aos filhos legítimos do que ao bastardo. A mãe, as irmãs e os outros irmãos não lhe davam a importância da qual ele se achava merecedor}.

Marcos cita a missão dos apóstolos e coisas que não viu, tais como: o prodígio sobre a tempestade, a execução de João Batista, a multiplicação dos pães, a caminhada sobre as águas, as discussões com os fariseus, a transfiguração na presença de Pedro, Tiago e João. Embora não tenha testemunhado o ministério de Jesus na Judéia, Marcos narra: a entrada em Jerusalém; o debate em torno da ressurreição e do tributo a César; a questão do matrimônio; a benção das crianças; as profecias sobre a morte de Jesus e a destruição do templo; os entraves da riqueza para quem pretende entrar no reino dos céus: é mais fácil passar o camelo pelo fundo de uma agulha do que o rico entrar no reino de Deus. Jesus considerava amar a deus e ao próximo os maiores mandamentos, diz Marcos.

Quanto à descendência de Davi, rei judeu que viveu por volta do ano 1000 (mil) antes de Jesus nascer, Marcos relata a fala de Jesus sobre o Cristo como se ambos não fossem a mesma pessoa. Expõe o seguinte argumento: Davi chamou o Cristo de Senhor, que senta à direita do outro e poderoso Senhor; ora, o subalterno não pode ser pai do superior; logo, o Cristo não pode ser filho de Davi. {Evidentemente, o vocábulo cristo aí utilizado não se refere a Jesus, pessoa que ainda não tinha nascido. Na mística linguagem, cristo é o nome da especial condição de uma pessoa que recebeu unção. Cristo significa “ungido”. A unção pode ser recebida por qualquer pessoa segundo a circunstância, independentemente de tribo, dinastia, raça ou religião. Ungir é ato humano: aplicar óleo em alguém ou em alguma coisa. Apesar disto, a expressão é empregada no sentido figurado: pessoa ungida espiritualmente pela divindade. Subalterno e superior estão mal empregados naquela frase, pois não é raro o filho superar o pai em robustez, riqueza, inteligência e cultura. O que fere a lógica das gerações é o filho ser pai do pai, embora o filho adulto possa prestar assistência ao pai idoso ou inválido}.

Marcos aborda os episódios do julgamento, da crucifixão, da ressurreição e das sucessivas aparições de Jesus a Maria Madalena, a dois discípulos e aos onze apóstolos. Na última reunião com os apóstolos, Jesus teria anunciado a descida do espírito santo sobre eles: estes milagres acompanharão os que crerem: expulsarão os demônios em meu nome, falarão novas línguas, manusearão serpentes e, se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal; imporão as mãos aos enfermos e eles ficarão curados. {Por medida de cautela, convém não beber veneno e deixar as serpentes na selva, no Instituto Butantan ou no Jardim Zoológico}.


segunda-feira, 24 de março de 2014

FUTEBOL



Deselegância injuriosa. O Corinthians sofreu seguidas derrotas e não conseguiu se classificar para a fase seguinte do campeonato paulista. O treinador Mano Meneses culpou o treinador Muricy Ramalho pela desclassificação, acusando-o de entregar a partida ao adversário a fim de prejudicar o Corinthians. No jogo São Paulo x Ituano, pivô do libelo, o clube do interior foi mais feliz ao enfrentar o mau tempo e superar os obstáculos. Portanto, não merece o menosprezo embutido na leviana acusação. O fato de ser do interior paulista não significa inferioridade moral ou técnica. Há que se arredar o preconceito de que clube do interior só vence se houver franquia do clube da capital. Clubes do interior já venceram o campeonato paulista ou obtiveram boas colocações. O Santos FC é um caso peculiar por sua história, seu patrimônio e suas numerosas conquistas (está muito bem no atual campeonato).
Seleção brasileira. Habilidade individual não é exclusiva do americano do sul. Outrora, via-se um Di Stefano aqui, um Puskas ali, um Beckenbauer acolá. Agora, nota-se maior número de jogadores europeus, africanos e asiáticos com habilidade individual acima da média. O Brasil tem tradição: venceu cinco copas mundiais de futebol. Todavia, tradição não vence jogo e sim a equipe que melhor desempenho apresente em campo, seja tradicional, seja adventícia. Na copa de 2006, a seleção brasileira tinha os melhores jogadores do mundo: os dois Ronaldo, Adriano, Robinho, KK, Zé Roberto, Juninho Pernambucano, Roberto Carlos, Cafu. Apesar disto, fracassou. Excesso de confiança, ufanismo e mediocridade da comissão técnica, interesses econômicos dos dirigentes e dos patrocinadores, ambiente carnavalesco na “concentração”, foram os ingredientes do fracasso. Durante a terrena existência das pessoas, das instituições (família, escola, empresa, clube) e das nações, verifica-se alternância entre atividade e inércia, guerra e paz, construção e destruição, progresso e estagnação, saúde e doença, e assim por diante. Na vida do atleta também altos e baixos se alternam. Cada vez fica mais difícil reverter curva descendente para ascendente na medida em que a parte inferior da ampulheta fica mais cheia do que a superior. O fato de atuar numa competição não significa que o atleta esteja pronto para a próxima. Razões físicas, psicológicas, econômicas, no plano individual, familiar ou social, determinam o desempenho. O atleta poderá manter o bom nível, melhorar ou piorar. Damião, Diego, Fred, Ganso, KK, Pato, Robinho e outros, ilustram a passagem de um nível superior a um inferior e a difícil reversão. Daí o equívoco da CBF ao contratar treinador e convocar seleção com muita antecedência (salvo se o objetivo for o de valorizar certos jogadores para fins de negociação, hipótese em que não há equívoco e sim deliberada intenção). A convocação deve ser próxima das disputas oficiais, tempo suficiente para o entrosamento, uma vez que o jogador convocado – seja famoso ou não, tenha ou não tenha fortes patrocinadores – deve estar em plena forma física, técnica e psicológica e ser o melhor no setor que atua. A opinião do público, do praticante do esporte e do cronista esportivo é valiosa por ser independente e livre (quando não entra o “jabá”), porém de eficácia limitada. Só tem plena eficácia a opinião do treinador, do cartola e do patrocinador. Após entendimento nesse núcleo decisório, os atores auferem rendimentos advindos da publicidade, das entrevistas e dos programas de TV. A opinião do público está livre de compromisso com superiores hierárquicos e patrocinadores. Ao público interessa apenas o bom desempenho da equipe que representa o seu país.  
Futebol internacional. Da próxima fase do campeonato europeu (liga dos campeões) participarão três clubes espanhóis, dois clubes alemães, dois clubes ingleses e um clube francês. Isto não significa fragilidade do futebol italiano ou de outro país europeu. O poder econômico daqueles clubes permite a contratação dos melhores jogadores da América, da África, da Ásia e da Europa. A copa do mundo revelará aos olhos do público (e não aos olhos da FIFA exclusivamente) o nível atual do futebol de cada país participante. O público poderá identificar a melhor seleção, o melhor defensor, o melhor armador, o melhor atacante e o melhor goleiro da competição. Aqueles que nos seus respectivos setores exibirem maior domínio dos fundamentos do esporte serão consagrados pelo público.

sábado, 22 de março de 2014

FILOSOFIA X - E



EUROPA. (Cristianismo. Continuação).

Em livro intitulado “Ato dos Apóstolos”, incluído na Bíblia (Novo Testamento - NT), Lucas narra vicissitudes dos apóstolos posteriores à morte de Jesus. Em assembléia, os 11 apóstolos escolhem Matias para ser o 12º e ocupar o lugar de Judas Iscariotes no colégio apostólico. Lucas diz que no dia de pentecostes (50º dia depois da páscoa) o espírito santo desceu sobre a assembléia formada de 120 pessoas. Nesse número incluíam-se homens e mulheres fiéis, discípulos e apóstolos. Os membros da assembléia passam a conversar em diferentes línguas. Pedro faz um discurso de autenticação: declara Jesus o Senhor e o Cristo. Pedro consegue as primeiras conversões dos judeus ao cristianismo. Prega a união dos fiéis em comunidade: uma só alma, um só coração e um só patrimônio. Apóstolos eram considerados nazarenos porque consagravam sua vida a deus. O povo palestino considerava-os integrantes de uma nova seita religiosa com aquele nome (nazarena). Adeptos proprietários de terras e casas vendiam-nas e entregavam o produto da venda ao colégio apostólico. Os bens eram repartidos entre os membros da comunidade, segundo a necessidade de cada um. {A doutrina marxista sobre a distribuição dos bens na sociedade finca raízes aí nessa prática comunitária dos primitivos cristãos: “a cada um segundo suas necessidades”, ao invés de “a cada um segundo sua capacidade”}. Diáconos eleitos pela assembléia administravam o patrimônio da comunidade depois de confirmada a escolha pelo colégio apostólico.
Lucas narra: (1) os milagres dos apóstolos; (2) a prisão de Pedro e João por ensinarem em nome de Jesus; (3) a prisão e a morte do diácono Estevão sob acusação de blasfêmia contra a lei de Moisés e contra o lugar santo (templo); (4) a dispersão dos membros da comunidade cristã de Jerusalém pelas diferentes regiões da Palestina, a fim de escaparem da perseguição dos judeus; (5) a conversão de Saulo de Tarso no caminho de Damasco e o seu batismo por Ananias; (6) as pregações de Saulo (Paulo) em Damasco e a sua fuga para a cidade de Tarso a fim de não ser morto pelos judeus de fala grega; (7) a participação de Paulo na assembléia de Jerusalém; (8) a visão de Pedro e a sua atividade como apóstolo; (9) o episódio na casa de Cornélio, em Cesaréia, quando Pedro expõe o conceito de deus: que não faz distinção de pessoas, mas em toda nação lhe é agradável quem o temer e fizer o que é justo.
Em Jerusalém, Pedro é censurado pelos fiéis circuncisos por comungar com pessoas incircuncisas. Pedro convence-os de que fizera a vontade de deus e que a mensagem de Jesus não se destinava apenas aos judeus, mas incluía os pagãos. Lucas ainda menciona: (1) a fundação da igreja na Antioquia pelo apóstolo Barnabé e a conversão de muitos pagãos; (2) a morte de Tiago; (3) a prisão de Pedro por ordem de Herodes Antipas, a milagrosa libertação do apóstolo por um anjo e a morte do rei. Lucas relata a difusão dos ensinamentos cristãos pela Ásia Menor e Europa, atividades missionárias de Barnabé e de Paulo, controvérsia no concílio dos apóstolos em Jerusalém sobre os requisitos a serem preenchidos pelos novos adeptos, inclusive sobre o valor da circuncisão. Naquela oportunidade, ficou decidido que: (I) dos novos adeptos devia ser exigida apenas a abstenção de carnes sacrificadas aos ídolos, do sangue, da carne sufocada e da impureza; (II) a circuncisão não era obrigatória; (III) Barnabé, Judas, Paulo e Silas levariam a decisão do concílio às igrejas da Antioquia, Síria e Cilícia.
Lucas menciona: a discussão entre Barnabé e Paulo e a separação dos dois; a prisão de Paulo e Silas, sob acusação de amotinarem a cidade; o encontro de Paulo com os discípulos de João Batista em Éfeso {alguns discípulos fiéis a João Batista não se misturavam com os discípulos fiéis a Jesus}; as viagens à Macedônia, Grécia, Mileto, Tiro, Cesaréia e Jerusalém. Sobre a prisão e o julgamento de Paulo em Jerusalém, sob acusação de blasfêmia contra o templo e de violar a lei de Moisés, Lucas diz: que Paulo afirmou ser judeu convertido ao cristianismo; que sem ser convencido, o povo judeu pede a morte dele; que o tribuno (autoridade pública) ordena que Paulo seja recolhido e açoitado; que Paulo se declara romano de nascimento e cita a norma que vedava açoitar um romano; que ele é libertado, mas o tribuno ordena o seu comparecimento perante o Grande Conselho Judaico; que perante este Conselho, Paulo se declara fariseu, filho de fariseus e que fora preso por causa da sua crença na ressurreição; que houve divergência entre os juízes desse Conselho (funcionava como tribunal): de um lado, os juízes fariseus que acreditavam na ressurreição dos justos; de outro, os juízes saduceus que não acreditavam na ressurreição; que os ânimos se exaltaram; que a autoridade romana recolhe Paulo na cidadela, sem uma sentença. Depois disto, Paulo foi enviado a Cesaréia, acusado de pertencer à seita dos nazarenos e de ser uma peste que fomentava a discórdia entre os judeus no mundo inteiro. Paulo negou as acusações. O governador de Cesaréia suspendeu o processo e manteve Paulo recluso, porém, permitiu que ele fosse assistido por companheiros. Após o decurso de dois anos, Paulo invoca a cidadania romana e apela a César. O governador despacha-o para Roma. Forte tempestade desvia o barco para a ilha de Malta de onde ele parte três meses depois. Em Roma, ele obtém licença para morar em casa própria vigiado por soldado. A prisão domiciliar durou dois anos. Neste ponto, termina a narrativa de Lucas.
Os judeus convertidos eram poucos. Tanto os judeus que residiam na Palestina como os que viviam em outras regiões permaneceram fiéis a Moisés. Os judeus e pagãos convertidos ao cristianismo eram perseguidos pelos judeus e pagãos não convertidos. Paulo mostrou-se hábil argumentador e se valeu da sua cultura geral e jurídica. Invocava tanto a lei hebraica como a lei romana sempre que essas leis lhe fossem favoráveis. Em Roma, viveu livre até ser acusado da prática de delito contra o Estado. Foi preso, condenado e decapitado.

sexta-feira, 21 de março de 2014

PILULAS


Hipocrisia. A Ucrânia, país que faz fronteira com a Rússia e que integrava a União Soviética, está às voltas com problemas internos. Houve golpe de Estado que derrubou o governo legítimo. A província da Criméia não assimilou o golpe. Por decisão da sua assembléia legislativa (parlamento) e do povo (referendo) resolveu desligar-se da Ucrânia, declarar-se Estado independente e se vincular à federação russa. O governo russo apoiou a decisão, aceitou o ingresso da Criméia na federação e colocou forças armadas à disposição da província rebelde como garantia contra os golpistas. O governo americano entendeu ilegítimas a conduta do povo e dos parlamentares da Criméia e a atitude do governo russo, por violarem a soberania da Ucrânia e o direito internacional. O presidente Barack Obama recuou do inicial propósito de uma intervenção armada no quintal da Rússia e propõe outro tipo de represália. Apelidamos de “quintal” a zona contígua e contínua de influência de um Estado poderoso e centralizador, e de “satélites” os países nela situados. Os EUA não admitem interferência no seu quintal, segundo a doutrina do presidente Monroe: “a América para os americanos”. No entanto, não costumam respeitar o quintal alheio, salvo quando o quintal é de outra potência como a Rússia ou a China. O governo americano considera legítimo apenas o que atende aos seus interesses: democracia é coisa interna dos EUA válida apenas para os países que estiverem de acordo com os propósitos americanos, caso contrário, valem a ditadura e os golpes de Estado que lhes forem favoráveis. Acovardada, parcela da comunidade internacional finge que não percebe a hipocrisia; outra parcela, movida por interesses econômico e estratégico, apóia o governo dos EUA e se dispõe a excluir a Rússia do grupo dos grandes países. Os EUA sentem-se no exclusivo “direito” de invadir e espoliar qualquer região do planeta, mas negam o mesmo “direito” a qualquer outro país. O governo americano lança bombas atômicas no Japão; invade a Coréia, o Vietnã, o Afeganistão, o Iraque, praticando atrocidades e genocídio; patrocina a deposição de governos legítimos na América Latina e os substitui por ditaduras; sem o devido processo legal, mantém presas em suas bases e sob tortura pessoas acusadas de terrorismo; menospreza a cultura de outros povos, principalmente as culturas de fundo religioso como a islâmica, a budista e a hinduísta; ergue barreiras protecionistas contra produtos estrangeiros e reclama contra outros países que fazem o mesmo; decreta embargo econômico aos países que ousam desafia-lo; recusa-se a assinar o protocolo de Kyoto na defesa do seu “direito” de poluir o planeta, colocando o seu interesse econômico acima de uma saudável qualidade de vida para a humanidade. Após o final da segunda guerra mundial (1945), Rússia e EUA disputaram o domínio sobre as diferentes nações do planeta. A soberania nacional não foi empecilho para invasões. Após a implosão do império soviético nos anos 80, os EUA ficaram senhores da situação internacional. O presidente Ronald Reagan impõe a doutrina da globalização: nova ordem mundial que esvazia o conceito de soberania nacional. Os EUA, entretanto, continuaram ciosos da sua soberania, do seu território, do seu patrimônio, do seu modo de vida. Ao governo americano falta autoridade moral para julgar a ação do governo russo, do governo chinês ou de qualquer outro governo.

quarta-feira, 19 de março de 2014

FILOSOFIA X - D



Europa. (Cristianismo. Continuação).

O “apóstolo” Paulo alinha vários conselhos e regras de conduta aos homens e mulheres comuns, aos anciãos, às viúvas, aos escravos, aos diáconos e bispos. Organiza a igreja e a hierarquia eclesiástica. Qualifica de sublime o episcopado. O bispo deve ser irrepreensível, prudente, sóbrio, hospitaleiro, regrado no seu proceder, capaz de ensinar, casado uma só vez, governar bem a sua casa, educar os seus filhos na obediência e na castidade. Apesar das dificuldades do ministério, os bispos devem perseverar na sua missão e não se enredar em controvérsias. {Nem sempre o que deve ser, é. A igreja medieval instituiu o celibato. Há papas, bispos e padres pedófilos, masturbadores, mulherengos, homossexuais, argentários, polêmicos. Em março de 2014, Bento, papa honorífico, escreve um texto de censura a Francisco, papa jesuíta}.
O “apóstolo” Paulo, em sua epístola, diz que o diácono também deve ser virtuoso. Ele orienta o ministério dos bispos, a especial atenção que devem dar aos idosos e às viúvas. Dita normas aplicáveis aos presbíteros: dupla remuneração quando dedicados à pregação e ao ensino; duas testemunhas, no mínimo, para ser recebida acusação contra eles. {Testis unus, testis nullus}. Ao faltarem às suas obrigações, os bispos devem ser repreendidos diante de todos para que os demais se atemorizem. Recomenda aos seguidores cautela ao impor as mãos {terapia magnética utilizada por Jesus} a fim de não se tornarem cúmplices dos pecados alheios. O dinheiro está na raiz de todos os males. A piedade deve ser distribuída sem qualquer interesse pecuniário. O homem de deus combate o bom combate da fé. Paulo exorta os ricos a abdicarem do orgulho e a não depositarem na riqueza as suas esperanças; que pratiquem o bem e façam boas obras; que sejam generosos e comunicativos.
A carta expõe a magnificência de Jesus, a sua condição de filho de deus, fato que o sobrepõe aos anjos, aos profetas e aos sacerdotes. {Paulo diviniza o homem Jesus, no que foi imitado por alguns apóstolos, inclusive João}. Censura aqueles que saíram do Egito, conduzidos por Moisés, por se revoltarem contra a pregação de Jesus {censura os descendentes dos hebreus do êxodo}. Lembra que Jesus esteve indignado com os judeus durante 40 anos. {Portanto, Jesus tinha 52 anos de idade quando foi crucificado, posto que, segundo o NT, aos 12 anos Jesus teve a primeira discussão com o sacerdócio judeu; 12 + 40 = 52}. Paulo adverte: o sacrifício de Jesus esvaziou de importância os sacrifícios do culto hebraico (holocaustos). Na opinião dele, os personagens do AT não obtiveram o cumprimento de todas as promessas feitas pela divindade, enquanto que os do NT vê-las-ão todas cumpridas. {O deus de Paulo e dos judeus faz promessas, o que não se compatibiliza com o deus do universo, onipotente e onisciente. Pior: aquele deus não cumpre as promessas que faz, ou seja, é um deus enganador}. Paulo aconselha os crentes a se cuidarem a fim de não serem excluídos da companhia de deus, como foram os judeus.
Paulo solicita atenção à mensagem trazida por Cristo, pontífice eterno segundo a ordem de Melquisedec e não segundo a ordem hebraica de Aarão. {Rei de Salém, que significa rei da paz, Melquisedec também era rei da justiça (significado do seu nome). A esse rei estrangeiro, sem genealogia, sem pai, sem mãe, cuja vida não tem começo nem fim, Abraão foi prestar tributo de vassalagem, pagar o dízimo e pedir as bênçãos}. Argumento de Paulo: se a perfeição tivesse sido realizada pelo sacerdócio levítico (porque é sobre este que se funda a legislação dada ao povo) que necessidade havia ainda de que surgisse outro sacerdote segundo a ordem de Melquisedec e não segundo a ordem de Aarão? Pois, transferido o sacerdócio, forçoso é que se faça também a mudança da lei. Em outra carta, com outras palavras, Paulo disse que a lei de Jesus não revogara a lei de Moisés. Agora, nesta carta, Paulo diz: que a antiga lei está revogada por sua ineficácia e inutilidade; que a igreja cristã tem um sumo sacerdote (Cristo) sentado à direita da majestade divina, cujo tabernáculo está localizado no próprio céu e não foi construído por mãos humanas; que Cristo é o mediador do NT e a sua morte expiou os pecados cometidos na vigência do AT. {Quem morreu foi Jesus, o profeta. Cristo é uma condição especial de quem recebe unção. Há vários cristos na história da humanidade}.
Paulo exorta os crentes à fidelidade, à perseverança, à assistência mútua. Aos apóstatas, diz ele, está reservado o fogo ardente. O fundamento da esperança é a fé: certeza a respeito do que não se vê. O mundo formou-se pela palavra de deus. As coisas visíveis se originaram do invisível. Pela fé, Enoc foi arrebatado sem ter conhecido a morte. Os que claudicam, tornem ao bom caminho e não se desviem. Paulo repete as recomendações de hospitalidade, benemerência, liberalidade, obediência, fidelidade conjugal, viver sem avareza e fortificar a alma pela graça. Informa que Timóteo saiu da prisão. Roga a todos que, de boa mente, recebam as exortações.

segunda-feira, 17 de março de 2014

RAPINA



O JUDICIÁRIO E A RAPINA.

A Justiça Eleitoral pretendia construir um edifício destinado à sede do Tribunal Regional Eleitoral. Celebrou parceria com o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, que obteve da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro cessão de um terreno localizado na Avenida Presidente Vargas, na região urbana denominada Cidade Nova. A passarela que havia nessa área foi desmontada para tornar possível a obra. Como esta não se realizou, a população ficou sem a passarela e sem o novo edifício. O presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Estado do Rio de Janeiro, desembargador Bernardo Garcez Neto, por decisão datada de 10.03.2014, suspendeu a obra por causa das irregularidades e ilegalidades constatadas no curso de um processo administrativo. Percebe-se que a decisão brotou de um espírito independente, honesto e corajoso, ou seja, de um juiz e não de um barnabé de toga. Minuciosa e clara exposição dos fatos bem assentada na robusta prova produzida durante a instrução do processo administrativo. Fundamentação jurídica bem sintonizada com os fatos desde os princípios constitucionais até as normas de menor hierarquia. Conduta dos agentes da ilicitude bem descrita com o correspondente e adequado enquadramento legal. Na parte dispositiva da decisão, determinações firmes para o restabelecimento do direito, ressarcimento do erário e punição dos responsáveis pelas ações e omissões ilícitas.
Se a justa decisão terá conseqüências na esfera penal, civil e administrativa é um enigma. As vias judiciais devem ser esgotadas. Isto demora. O espírito corporativo pode influir. Pessoas reunidas em grupo estável, irmanadas nos mesmos procedimentos, submetidas ao mesmo e específico estatuto, com finalidades e interesses comuns, constituem corporação que pode exibir duas faces: uma positiva e outra negativa. A face positiva da corporação corresponde à sua função construtiva na sociedade, à realização regular de objetivo lícito como: defesa dos legítimos direitos próprios e dos membros; assistência aos membros e às respectivas famílias no terreno da saúde; financiamento para aquisição de bens; lazer em colônias de férias; e assim por diante. A face negativa perverte os fins e interesses legítimos da corporação; protege ações e omissões imorais e antijurídicas, procura escamotear a verdade, livrar do processo e da punição os membros que violam a Constituição e as leis. Precavido contra a dimensão negativa do espírito de corporação, ao verificar a evidência da ilicitude dos atos e fatos provados no processo, o presidente Garcez enquadrou na lei os prevaricadores e corruptos, inclusive os seus colegas de toga, desembargadores Luiz Zweiter e Letícia Sardas, ex-presidentes daquele tribunal, os auxiliares, os funcionários, a empresa “vencedora” do certame e o seu representante legal, todos envolvidos na fraudulenta licitação e na maliciosa celebração e execução do contrato administrativo. 
Propósitos estranhos ao bem-comum e ao interesse público podem interferir em favor dos delinqüentes no processo de responsabilização jurídica, como soe acontecer nesta república plutocrática. A fraude nas licitações públicas e na elaboração e execução dos contratos é notória, corriqueira, “normal”, nesta terra descoberta por Cabral, país do português degradado e do índio batizado e do negro escravizado e do mulato inzoneiro (citado nos versos de Ari Barroso) e do macunaíma (retratado na prosa de Mário Andrade) e do mazombo (tipo da antropologia brasileira). O caso ora comentado ilustra bem essa vergonhosa realidade. Esta prática delituosa não é exceção, posto figurar nos costumes e na cultura brasileira. A exceção está na instauração do devido processo legal, na apuração da responsabilidade e na aplicação das penas aos responsáveis pela fraude. Esta exceção assemelha-se a aquela outra do processo penal alcunhado de “mensalão” em trâmites pelo Supremo Tribunal Federal. Quiçá, no futuro, exceções éticas como as duas aqui citadas se tornem regra geral e comum para o bem do Brasil e orgulho dos brasileiros.
Durante a leitura da decisão proferida pelo eminente desembargador Garcez, alguns questionamentos visitaram a minha mente. O tribunal eleitoral é órgão federal. Cabe à União Federal o projeto e a construção do edifício destinado a tribunal federal. A União deve arcar com todas as despesas. O erário estadual destina-se às despesas regulares e legais do Estado federado. Não se afigura correto desviar o dinheiro do contribuinte estadual para obras federais. Outro dado interessante: o edifício seria construído em terreno da prefeitura. Destarte, o edifício seria propriedade municipal e não estadual, tendo em vista as normas de direito civil: “são bens imóveis o solo e tudo quanto se lhe incorporar natural ou artificialmente”. “O proprietário pode conceder a outrem o direito de construir ou de plantar em seu terreno”; nesta hipótese, o construído e o plantado ficam incorporados ao imóvel, ou seja, são de propriedade do dono do terreno. Do ponto de vista administrativo, a cessão do terreno pela prefeitura municipal a outro órgão público é juridicamente possível, desde que feita dentro dos parâmetros legais e atenda ao bem da coletividade. 
O edifício projetado destinava-se a um tribunal do Poder Judiciário. Portanto, o projeto arquitetônico devia prever um espaço para o plenário, local das sessões jurisdicionais, administrativas e cívicas, em que se reúnem todos os juízes componentes do tribunal. No entanto, pelo que consta da decisão do presidente Garcez, o projeto não previa este salão essencial ao funcionamento de um tribunal. A espantosa e inacreditável omissão levanta sérias dúvidas sobre a idoneidade técnica e profissional do arquiteto. O projeto é de uma obra faraônica como a do Tribunal Superior Eleitoral (Brasília). Tal projeto segue o padrão da safadeza: obra pública demasiadamente cara, sofisticada e superfaturada. Quanto mais cara a obra, maior o volume do propinoduto e mais intenso o assédio das aves de rapina, consoante tolerada praxe da administração pública brasileira. A majestade da obra discrepa da penúria em que vive grande parcela da população. Este contraste lembra o Império Centro-Africano (1976 a 1979): trono de ouro do imperador e miséria dos súditos (Jean-Bèdel Bokassa, 1921 a 1996).
Diante de tal quadro, não admira que a corrupção grasse também no Poder Judiciário, ambiente em que teoricamente devia prevalecer a justiça, a honestidade e a verdade. A bandalheira na alta esfera do Judiciário gera tristeza e acabrunhamento. Abatido em seu ânimo frente ao indecoroso episódio, o juiz honrado perde a capacidade de se indignar; a ira santa não mais navega por suas veias. A desilusão faz soçobrar o barco da esperança. 
Na vizinhança do terreno destinado à futura sede do tribunal eleitoral há um hospital federal que entra na categoria de imóvel tombado. Diante disto e por motivo ambiental, o limite da altura do novo edifício devia ser igual ou inferior a dezoito metros. No entanto, a altura prevista no projeto era de sessenta metros. A megalomania, que caracteriza o administrador público brasileiro, criou a necessidade de um espaço para pouso de helicópteros na cobertura do edifício. Certamente, além dos magistrados, os helicópteros transportariam ao tribunal os políticos que respondem a processos por crime eleitoral.
Faltavam elementos essenciais ao projeto básico que na forma da lei devia preceder e condicionar a licitação. Mesmo assim, a licitação foi realizada. Como havia uma única empresa inscrita no certame, a obra milionária lhe foi adjudicada. Posteriormente, a empresa “vencedora” procedeu a alguns adendos, modificando a situação anterior. Este golpe é comum nas licitações. O ajuste posterior compensa o valor menor lançado na proposta inicial. O objetivo do pequeno valor inicial da proposta para realizar a obra é o de vencer a licitação. Obtida a vitória, cobra-se o triplo mediante ajustes.  A obra estagnou ainda no início dos trabalhos em virtude das ilegaliddes e irregularidades verificadas. Apesar disto, a empresa “vencedora” recebeu doze milhões de reais. Certamente, parte dessa verba escorreu pelo propinoduto. Como sempre acontece, o valor indevidamente recebido pelo agente do crime dificilmente será devolvido ao erário. Constará do orçamento estatal sob a rubrica “verba a fundo perdido”. A sensibilidade moral dos corruptos situa-se no mais baixo grau da escala ética. Pouco importa ser condenado por juiz, tribunal ou pela opinião pública. Para eles, o importante é ficar com o produto do crime. Há especialistas para lavar o dinheiro sujo.