sábado, 22 de março de 2014

FILOSOFIA X - E



EUROPA. (Cristianismo. Continuação).

Em livro intitulado “Ato dos Apóstolos”, incluído na Bíblia (Novo Testamento - NT), Lucas narra vicissitudes dos apóstolos posteriores à morte de Jesus. Em assembléia, os 11 apóstolos escolhem Matias para ser o 12º e ocupar o lugar de Judas Iscariotes no colégio apostólico. Lucas diz que no dia de pentecostes (50º dia depois da páscoa) o espírito santo desceu sobre a assembléia formada de 120 pessoas. Nesse número incluíam-se homens e mulheres fiéis, discípulos e apóstolos. Os membros da assembléia passam a conversar em diferentes línguas. Pedro faz um discurso de autenticação: declara Jesus o Senhor e o Cristo. Pedro consegue as primeiras conversões dos judeus ao cristianismo. Prega a união dos fiéis em comunidade: uma só alma, um só coração e um só patrimônio. Apóstolos eram considerados nazarenos porque consagravam sua vida a deus. O povo palestino considerava-os integrantes de uma nova seita religiosa com aquele nome (nazarena). Adeptos proprietários de terras e casas vendiam-nas e entregavam o produto da venda ao colégio apostólico. Os bens eram repartidos entre os membros da comunidade, segundo a necessidade de cada um. {A doutrina marxista sobre a distribuição dos bens na sociedade finca raízes aí nessa prática comunitária dos primitivos cristãos: “a cada um segundo suas necessidades”, ao invés de “a cada um segundo sua capacidade”}. Diáconos eleitos pela assembléia administravam o patrimônio da comunidade depois de confirmada a escolha pelo colégio apostólico.
Lucas narra: (1) os milagres dos apóstolos; (2) a prisão de Pedro e João por ensinarem em nome de Jesus; (3) a prisão e a morte do diácono Estevão sob acusação de blasfêmia contra a lei de Moisés e contra o lugar santo (templo); (4) a dispersão dos membros da comunidade cristã de Jerusalém pelas diferentes regiões da Palestina, a fim de escaparem da perseguição dos judeus; (5) a conversão de Saulo de Tarso no caminho de Damasco e o seu batismo por Ananias; (6) as pregações de Saulo (Paulo) em Damasco e a sua fuga para a cidade de Tarso a fim de não ser morto pelos judeus de fala grega; (7) a participação de Paulo na assembléia de Jerusalém; (8) a visão de Pedro e a sua atividade como apóstolo; (9) o episódio na casa de Cornélio, em Cesaréia, quando Pedro expõe o conceito de deus: que não faz distinção de pessoas, mas em toda nação lhe é agradável quem o temer e fizer o que é justo.
Em Jerusalém, Pedro é censurado pelos fiéis circuncisos por comungar com pessoas incircuncisas. Pedro convence-os de que fizera a vontade de deus e que a mensagem de Jesus não se destinava apenas aos judeus, mas incluía os pagãos. Lucas ainda menciona: (1) a fundação da igreja na Antioquia pelo apóstolo Barnabé e a conversão de muitos pagãos; (2) a morte de Tiago; (3) a prisão de Pedro por ordem de Herodes Antipas, a milagrosa libertação do apóstolo por um anjo e a morte do rei. Lucas relata a difusão dos ensinamentos cristãos pela Ásia Menor e Europa, atividades missionárias de Barnabé e de Paulo, controvérsia no concílio dos apóstolos em Jerusalém sobre os requisitos a serem preenchidos pelos novos adeptos, inclusive sobre o valor da circuncisão. Naquela oportunidade, ficou decidido que: (I) dos novos adeptos devia ser exigida apenas a abstenção de carnes sacrificadas aos ídolos, do sangue, da carne sufocada e da impureza; (II) a circuncisão não era obrigatória; (III) Barnabé, Judas, Paulo e Silas levariam a decisão do concílio às igrejas da Antioquia, Síria e Cilícia.
Lucas menciona: a discussão entre Barnabé e Paulo e a separação dos dois; a prisão de Paulo e Silas, sob acusação de amotinarem a cidade; o encontro de Paulo com os discípulos de João Batista em Éfeso {alguns discípulos fiéis a João Batista não se misturavam com os discípulos fiéis a Jesus}; as viagens à Macedônia, Grécia, Mileto, Tiro, Cesaréia e Jerusalém. Sobre a prisão e o julgamento de Paulo em Jerusalém, sob acusação de blasfêmia contra o templo e de violar a lei de Moisés, Lucas diz: que Paulo afirmou ser judeu convertido ao cristianismo; que sem ser convencido, o povo judeu pede a morte dele; que o tribuno (autoridade pública) ordena que Paulo seja recolhido e açoitado; que Paulo se declara romano de nascimento e cita a norma que vedava açoitar um romano; que ele é libertado, mas o tribuno ordena o seu comparecimento perante o Grande Conselho Judaico; que perante este Conselho, Paulo se declara fariseu, filho de fariseus e que fora preso por causa da sua crença na ressurreição; que houve divergência entre os juízes desse Conselho (funcionava como tribunal): de um lado, os juízes fariseus que acreditavam na ressurreição dos justos; de outro, os juízes saduceus que não acreditavam na ressurreição; que os ânimos se exaltaram; que a autoridade romana recolhe Paulo na cidadela, sem uma sentença. Depois disto, Paulo foi enviado a Cesaréia, acusado de pertencer à seita dos nazarenos e de ser uma peste que fomentava a discórdia entre os judeus no mundo inteiro. Paulo negou as acusações. O governador de Cesaréia suspendeu o processo e manteve Paulo recluso, porém, permitiu que ele fosse assistido por companheiros. Após o decurso de dois anos, Paulo invoca a cidadania romana e apela a César. O governador despacha-o para Roma. Forte tempestade desvia o barco para a ilha de Malta de onde ele parte três meses depois. Em Roma, ele obtém licença para morar em casa própria vigiado por soldado. A prisão domiciliar durou dois anos. Neste ponto, termina a narrativa de Lucas.
Os judeus convertidos eram poucos. Tanto os judeus que residiam na Palestina como os que viviam em outras regiões permaneceram fiéis a Moisés. Os judeus e pagãos convertidos ao cristianismo eram perseguidos pelos judeus e pagãos não convertidos. Paulo mostrou-se hábil argumentador e se valeu da sua cultura geral e jurídica. Invocava tanto a lei hebraica como a lei romana sempre que essas leis lhe fossem favoráveis. Em Roma, viveu livre até ser acusado da prática de delito contra o Estado. Foi preso, condenado e decapitado.

sexta-feira, 21 de março de 2014

PILULAS


Hipocrisia. A Ucrânia, país que faz fronteira com a Rússia e que integrava a União Soviética, está às voltas com problemas internos. Houve golpe de Estado que derrubou o governo legítimo. A província da Criméia não assimilou o golpe. Por decisão da sua assembléia legislativa (parlamento) e do povo (referendo) resolveu desligar-se da Ucrânia, declarar-se Estado independente e se vincular à federação russa. O governo russo apoiou a decisão, aceitou o ingresso da Criméia na federação e colocou forças armadas à disposição da província rebelde como garantia contra os golpistas. O governo americano entendeu ilegítimas a conduta do povo e dos parlamentares da Criméia e a atitude do governo russo, por violarem a soberania da Ucrânia e o direito internacional. O presidente Barack Obama recuou do inicial propósito de uma intervenção armada no quintal da Rússia e propõe outro tipo de represália. Apelidamos de “quintal” a zona contígua e contínua de influência de um Estado poderoso e centralizador, e de “satélites” os países nela situados. Os EUA não admitem interferência no seu quintal, segundo a doutrina do presidente Monroe: “a América para os americanos”. No entanto, não costumam respeitar o quintal alheio, salvo quando o quintal é de outra potência como a Rússia ou a China. O governo americano considera legítimo apenas o que atende aos seus interesses: democracia é coisa interna dos EUA válida apenas para os países que estiverem de acordo com os propósitos americanos, caso contrário, valem a ditadura e os golpes de Estado que lhes forem favoráveis. Acovardada, parcela da comunidade internacional finge que não percebe a hipocrisia; outra parcela, movida por interesses econômico e estratégico, apóia o governo dos EUA e se dispõe a excluir a Rússia do grupo dos grandes países. Os EUA sentem-se no exclusivo “direito” de invadir e espoliar qualquer região do planeta, mas negam o mesmo “direito” a qualquer outro país. O governo americano lança bombas atômicas no Japão; invade a Coréia, o Vietnã, o Afeganistão, o Iraque, praticando atrocidades e genocídio; patrocina a deposição de governos legítimos na América Latina e os substitui por ditaduras; sem o devido processo legal, mantém presas em suas bases e sob tortura pessoas acusadas de terrorismo; menospreza a cultura de outros povos, principalmente as culturas de fundo religioso como a islâmica, a budista e a hinduísta; ergue barreiras protecionistas contra produtos estrangeiros e reclama contra outros países que fazem o mesmo; decreta embargo econômico aos países que ousam desafia-lo; recusa-se a assinar o protocolo de Kyoto na defesa do seu “direito” de poluir o planeta, colocando o seu interesse econômico acima de uma saudável qualidade de vida para a humanidade. Após o final da segunda guerra mundial (1945), Rússia e EUA disputaram o domínio sobre as diferentes nações do planeta. A soberania nacional não foi empecilho para invasões. Após a implosão do império soviético nos anos 80, os EUA ficaram senhores da situação internacional. O presidente Ronald Reagan impõe a doutrina da globalização: nova ordem mundial que esvazia o conceito de soberania nacional. Os EUA, entretanto, continuaram ciosos da sua soberania, do seu território, do seu patrimônio, do seu modo de vida. Ao governo americano falta autoridade moral para julgar a ação do governo russo, do governo chinês ou de qualquer outro governo.

quarta-feira, 19 de março de 2014

FILOSOFIA X - D



Europa. (Cristianismo. Continuação).

O “apóstolo” Paulo alinha vários conselhos e regras de conduta aos homens e mulheres comuns, aos anciãos, às viúvas, aos escravos, aos diáconos e bispos. Organiza a igreja e a hierarquia eclesiástica. Qualifica de sublime o episcopado. O bispo deve ser irrepreensível, prudente, sóbrio, hospitaleiro, regrado no seu proceder, capaz de ensinar, casado uma só vez, governar bem a sua casa, educar os seus filhos na obediência e na castidade. Apesar das dificuldades do ministério, os bispos devem perseverar na sua missão e não se enredar em controvérsias. {Nem sempre o que deve ser, é. A igreja medieval instituiu o celibato. Há papas, bispos e padres pedófilos, masturbadores, mulherengos, homossexuais, argentários, polêmicos. Em março de 2014, Bento, papa honorífico, escreve um texto de censura a Francisco, papa jesuíta}.
O “apóstolo” Paulo, em sua epístola, diz que o diácono também deve ser virtuoso. Ele orienta o ministério dos bispos, a especial atenção que devem dar aos idosos e às viúvas. Dita normas aplicáveis aos presbíteros: dupla remuneração quando dedicados à pregação e ao ensino; duas testemunhas, no mínimo, para ser recebida acusação contra eles. {Testis unus, testis nullus}. Ao faltarem às suas obrigações, os bispos devem ser repreendidos diante de todos para que os demais se atemorizem. Recomenda aos seguidores cautela ao impor as mãos {terapia magnética utilizada por Jesus} a fim de não se tornarem cúmplices dos pecados alheios. O dinheiro está na raiz de todos os males. A piedade deve ser distribuída sem qualquer interesse pecuniário. O homem de deus combate o bom combate da fé. Paulo exorta os ricos a abdicarem do orgulho e a não depositarem na riqueza as suas esperanças; que pratiquem o bem e façam boas obras; que sejam generosos e comunicativos.
A carta expõe a magnificência de Jesus, a sua condição de filho de deus, fato que o sobrepõe aos anjos, aos profetas e aos sacerdotes. {Paulo diviniza o homem Jesus, no que foi imitado por alguns apóstolos, inclusive João}. Censura aqueles que saíram do Egito, conduzidos por Moisés, por se revoltarem contra a pregação de Jesus {censura os descendentes dos hebreus do êxodo}. Lembra que Jesus esteve indignado com os judeus durante 40 anos. {Portanto, Jesus tinha 52 anos de idade quando foi crucificado, posto que, segundo o NT, aos 12 anos Jesus teve a primeira discussão com o sacerdócio judeu; 12 + 40 = 52}. Paulo adverte: o sacrifício de Jesus esvaziou de importância os sacrifícios do culto hebraico (holocaustos). Na opinião dele, os personagens do AT não obtiveram o cumprimento de todas as promessas feitas pela divindade, enquanto que os do NT vê-las-ão todas cumpridas. {O deus de Paulo e dos judeus faz promessas, o que não se compatibiliza com o deus do universo, onipotente e onisciente. Pior: aquele deus não cumpre as promessas que faz, ou seja, é um deus enganador}. Paulo aconselha os crentes a se cuidarem a fim de não serem excluídos da companhia de deus, como foram os judeus.
Paulo solicita atenção à mensagem trazida por Cristo, pontífice eterno segundo a ordem de Melquisedec e não segundo a ordem hebraica de Aarão. {Rei de Salém, que significa rei da paz, Melquisedec também era rei da justiça (significado do seu nome). A esse rei estrangeiro, sem genealogia, sem pai, sem mãe, cuja vida não tem começo nem fim, Abraão foi prestar tributo de vassalagem, pagar o dízimo e pedir as bênçãos}. Argumento de Paulo: se a perfeição tivesse sido realizada pelo sacerdócio levítico (porque é sobre este que se funda a legislação dada ao povo) que necessidade havia ainda de que surgisse outro sacerdote segundo a ordem de Melquisedec e não segundo a ordem de Aarão? Pois, transferido o sacerdócio, forçoso é que se faça também a mudança da lei. Em outra carta, com outras palavras, Paulo disse que a lei de Jesus não revogara a lei de Moisés. Agora, nesta carta, Paulo diz: que a antiga lei está revogada por sua ineficácia e inutilidade; que a igreja cristã tem um sumo sacerdote (Cristo) sentado à direita da majestade divina, cujo tabernáculo está localizado no próprio céu e não foi construído por mãos humanas; que Cristo é o mediador do NT e a sua morte expiou os pecados cometidos na vigência do AT. {Quem morreu foi Jesus, o profeta. Cristo é uma condição especial de quem recebe unção. Há vários cristos na história da humanidade}.
Paulo exorta os crentes à fidelidade, à perseverança, à assistência mútua. Aos apóstatas, diz ele, está reservado o fogo ardente. O fundamento da esperança é a fé: certeza a respeito do que não se vê. O mundo formou-se pela palavra de deus. As coisas visíveis se originaram do invisível. Pela fé, Enoc foi arrebatado sem ter conhecido a morte. Os que claudicam, tornem ao bom caminho e não se desviem. Paulo repete as recomendações de hospitalidade, benemerência, liberalidade, obediência, fidelidade conjugal, viver sem avareza e fortificar a alma pela graça. Informa que Timóteo saiu da prisão. Roga a todos que, de boa mente, recebam as exortações.

segunda-feira, 17 de março de 2014

RAPINA



O JUDICIÁRIO E A RAPINA.

A Justiça Eleitoral pretendia construir um edifício destinado à sede do Tribunal Regional Eleitoral. Celebrou parceria com o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, que obteve da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro cessão de um terreno localizado na Avenida Presidente Vargas, na região urbana denominada Cidade Nova. A passarela que havia nessa área foi desmontada para tornar possível a obra. Como esta não se realizou, a população ficou sem a passarela e sem o novo edifício. O presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Estado do Rio de Janeiro, desembargador Bernardo Garcez Neto, por decisão datada de 10.03.2014, suspendeu a obra por causa das irregularidades e ilegalidades constatadas no curso de um processo administrativo. Percebe-se que a decisão brotou de um espírito independente, honesto e corajoso, ou seja, de um juiz e não de um barnabé de toga. Minuciosa e clara exposição dos fatos bem assentada na robusta prova produzida durante a instrução do processo administrativo. Fundamentação jurídica bem sintonizada com os fatos desde os princípios constitucionais até as normas de menor hierarquia. Conduta dos agentes da ilicitude bem descrita com o correspondente e adequado enquadramento legal. Na parte dispositiva da decisão, determinações firmes para o restabelecimento do direito, ressarcimento do erário e punição dos responsáveis pelas ações e omissões ilícitas.
Se a justa decisão terá conseqüências na esfera penal, civil e administrativa é um enigma. As vias judiciais devem ser esgotadas. Isto demora. O espírito corporativo pode influir. Pessoas reunidas em grupo estável, irmanadas nos mesmos procedimentos, submetidas ao mesmo e específico estatuto, com finalidades e interesses comuns, constituem corporação que pode exibir duas faces: uma positiva e outra negativa. A face positiva da corporação corresponde à sua função construtiva na sociedade, à realização regular de objetivo lícito como: defesa dos legítimos direitos próprios e dos membros; assistência aos membros e às respectivas famílias no terreno da saúde; financiamento para aquisição de bens; lazer em colônias de férias; e assim por diante. A face negativa perverte os fins e interesses legítimos da corporação; protege ações e omissões imorais e antijurídicas, procura escamotear a verdade, livrar do processo e da punição os membros que violam a Constituição e as leis. Precavido contra a dimensão negativa do espírito de corporação, ao verificar a evidência da ilicitude dos atos e fatos provados no processo, o presidente Garcez enquadrou na lei os prevaricadores e corruptos, inclusive os seus colegas de toga, desembargadores Luiz Zweiter e Letícia Sardas, ex-presidentes daquele tribunal, os auxiliares, os funcionários, a empresa “vencedora” do certame e o seu representante legal, todos envolvidos na fraudulenta licitação e na maliciosa celebração e execução do contrato administrativo. 
Propósitos estranhos ao bem-comum e ao interesse público podem interferir em favor dos delinqüentes no processo de responsabilização jurídica, como soe acontecer nesta república plutocrática. A fraude nas licitações públicas e na elaboração e execução dos contratos é notória, corriqueira, “normal”, nesta terra descoberta por Cabral, país do português degradado e do índio batizado e do negro escravizado e do mulato inzoneiro (citado nos versos de Ari Barroso) e do macunaíma (retratado na prosa de Mário Andrade) e do mazombo (tipo da antropologia brasileira). O caso ora comentado ilustra bem essa vergonhosa realidade. Esta prática delituosa não é exceção, posto figurar nos costumes e na cultura brasileira. A exceção está na instauração do devido processo legal, na apuração da responsabilidade e na aplicação das penas aos responsáveis pela fraude. Esta exceção assemelha-se a aquela outra do processo penal alcunhado de “mensalão” em trâmites pelo Supremo Tribunal Federal. Quiçá, no futuro, exceções éticas como as duas aqui citadas se tornem regra geral e comum para o bem do Brasil e orgulho dos brasileiros.
Durante a leitura da decisão proferida pelo eminente desembargador Garcez, alguns questionamentos visitaram a minha mente. O tribunal eleitoral é órgão federal. Cabe à União Federal o projeto e a construção do edifício destinado a tribunal federal. A União deve arcar com todas as despesas. O erário estadual destina-se às despesas regulares e legais do Estado federado. Não se afigura correto desviar o dinheiro do contribuinte estadual para obras federais. Outro dado interessante: o edifício seria construído em terreno da prefeitura. Destarte, o edifício seria propriedade municipal e não estadual, tendo em vista as normas de direito civil: “são bens imóveis o solo e tudo quanto se lhe incorporar natural ou artificialmente”. “O proprietário pode conceder a outrem o direito de construir ou de plantar em seu terreno”; nesta hipótese, o construído e o plantado ficam incorporados ao imóvel, ou seja, são de propriedade do dono do terreno. Do ponto de vista administrativo, a cessão do terreno pela prefeitura municipal a outro órgão público é juridicamente possível, desde que feita dentro dos parâmetros legais e atenda ao bem da coletividade. 
O edifício projetado destinava-se a um tribunal do Poder Judiciário. Portanto, o projeto arquitetônico devia prever um espaço para o plenário, local das sessões jurisdicionais, administrativas e cívicas, em que se reúnem todos os juízes componentes do tribunal. No entanto, pelo que consta da decisão do presidente Garcez, o projeto não previa este salão essencial ao funcionamento de um tribunal. A espantosa e inacreditável omissão levanta sérias dúvidas sobre a idoneidade técnica e profissional do arquiteto. O projeto é de uma obra faraônica como a do Tribunal Superior Eleitoral (Brasília). Tal projeto segue o padrão da safadeza: obra pública demasiadamente cara, sofisticada e superfaturada. Quanto mais cara a obra, maior o volume do propinoduto e mais intenso o assédio das aves de rapina, consoante tolerada praxe da administração pública brasileira. A majestade da obra discrepa da penúria em que vive grande parcela da população. Este contraste lembra o Império Centro-Africano (1976 a 1979): trono de ouro do imperador e miséria dos súditos (Jean-Bèdel Bokassa, 1921 a 1996).
Diante de tal quadro, não admira que a corrupção grasse também no Poder Judiciário, ambiente em que teoricamente devia prevalecer a justiça, a honestidade e a verdade. A bandalheira na alta esfera do Judiciário gera tristeza e acabrunhamento. Abatido em seu ânimo frente ao indecoroso episódio, o juiz honrado perde a capacidade de se indignar; a ira santa não mais navega por suas veias. A desilusão faz soçobrar o barco da esperança. 
Na vizinhança do terreno destinado à futura sede do tribunal eleitoral há um hospital federal que entra na categoria de imóvel tombado. Diante disto e por motivo ambiental, o limite da altura do novo edifício devia ser igual ou inferior a dezoito metros. No entanto, a altura prevista no projeto era de sessenta metros. A megalomania, que caracteriza o administrador público brasileiro, criou a necessidade de um espaço para pouso de helicópteros na cobertura do edifício. Certamente, além dos magistrados, os helicópteros transportariam ao tribunal os políticos que respondem a processos por crime eleitoral.
Faltavam elementos essenciais ao projeto básico que na forma da lei devia preceder e condicionar a licitação. Mesmo assim, a licitação foi realizada. Como havia uma única empresa inscrita no certame, a obra milionária lhe foi adjudicada. Posteriormente, a empresa “vencedora” procedeu a alguns adendos, modificando a situação anterior. Este golpe é comum nas licitações. O ajuste posterior compensa o valor menor lançado na proposta inicial. O objetivo do pequeno valor inicial da proposta para realizar a obra é o de vencer a licitação. Obtida a vitória, cobra-se o triplo mediante ajustes.  A obra estagnou ainda no início dos trabalhos em virtude das ilegaliddes e irregularidades verificadas. Apesar disto, a empresa “vencedora” recebeu doze milhões de reais. Certamente, parte dessa verba escorreu pelo propinoduto. Como sempre acontece, o valor indevidamente recebido pelo agente do crime dificilmente será devolvido ao erário. Constará do orçamento estatal sob a rubrica “verba a fundo perdido”. A sensibilidade moral dos corruptos situa-se no mais baixo grau da escala ética. Pouco importa ser condenado por juiz, tribunal ou pela opinião pública. Para eles, o importante é ficar com o produto do crime. Há especialistas para lavar o dinheiro sujo. 

sábado, 15 de março de 2014

FILOSOFIA X - C



Europa. (Cristianismo. Continuação).

Sem amparo na realidade histórica, mas tão só para fins de convencimento dos crentes, o “apóstolo” Paulo diz que Ismael, patriarca da nação árabe, filho da natureza (mãe egípcia) perseguia Isaac, patriarca da nação judia, filho da liberdade (mãe judia) e que ele (Paulo) e os crentes são filhos da liberdade. {Não há notícia alguma no Antigo Testamento de que o garoto Ismael, filho de Abraão, perseguisse o garoto Isaac, suposto filho de Abraão. Este sofisma discriminatório coloca os judeus (Isaac) como vítimas dos árabes (Ismael) e estimula a animosidade entre as duas nações}. Na opinião de Paulo, liberdade não significa entregar-se às obras da carne (fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, superstição, inimizades, briga, ciúme, discórdia, ódio, ambição, inveja, bebedeira, orgia). A obra do espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança. O crente não deve ser ávido de vangloria; no seio da comunidade não há lugar para provocações e inveja; quem for surpreendido em falta deve ser admoestado com mansidão; todos devem se cuidar para não cair em tentação; ajudar um ao outro, porém, cada um carrega o seu próprio fardo. Quem recebe a catequese deve repartir todos os seus bens com aquele que o instrui {preceito que se mostrou de grande valia ao tesouro da igreja}. O que o homem semeia isto mesmo colherá. {Ditado popular: “quem semeia vento, colhe tempestade”}. Ao encerrar a missiva, Paulo diz que a escreveu de próprio punho {afirmação desnecessária se fosse veraz}. Paulo escreve à igreja de Roma (anciãos + bispos + presbíteros + diáconos + crentes). O intróito é o mesmo das epístolas anteriores. Embora a Ásia fosse a sua jurisdição, Paulo visitava cidades da Europa por serem pagãs. Percebe-se nele, o desejo de dividir com Pedro o prestígio derivado da proeza de catequizar os habitantes da capital do império romano, a grande potência da época. Esta ambição custou-lhe a vida. À igreja de Roma ele diz que o evangelho {não o livro e sim a palavra de Cristo} é uma força vinda de deus para salvar os crentes; que deus se manifesta do céu contra a impiedade e a perversidade humana; pela injustiça, os homens aprisionam a verdade. Paulo dá conselhos e dita preceitos éticos; critica a depravação de homens e mulheres e cita os vícios. As bênçãos cabem aos judeus em primeiro lugar e depois aos estrangeiros embora não deva existir distinção entre as pessoas {aqui Paulo abre exceção ao princípio da igualdade e mantém o dogma do “povo eleito de deus”}. Justos são os que praticam a lei, pois não basta ouvi-la; merece censura quem ensina o bem e pratica o mal; a verdadeira circuncisão é a do coração, segundo o espírito e não a letra da lei; a incredulidade dos judeus {da Palestina} serviu para salvar os pagãos que receberam o evangelho; a injustiça humana realça a justiça divina; há um só deus para judeus e pagãos {omitiu os cristãos}. Paulo escreve à igreja de Corinto solicitando que os crentes acabem com os abusos e as disputas internas. Diz que foi enviado por Cristo, não para batizar e sim para pregar o evangelho. {Paulo tenta se sobrepor a João Batista; ignora, ou finge ignorar, que o fundador da seita também ensinava além de batizar}. Para os crentes – prossegue a missiva – Cristo se tornou sabedoria, justiça, santificação e redenção; Cristo é o único fundamento do edifício de deus; cada um receberá o louvor que merece de deus quando o tempo chegar. A carta sugere aos crentes que imitem Paulo; refuta os que o denigrem; recrimina a igreja de Corinto pela luxúria. Os crentes devem submeter suas desavenças à irmandade, sem recorrer aos tribunais profanos. Quem se ajunta a uma prostituta torna-se um só corpo com ela. O corpo do crente é o templo do espírito santo. O corpo da mulher pertence ao marido e o do marido à esposa. Os solteiros e as viúvas, se não puderem se conter, devem casar, pois melhor casar do que se abrasar. O celibato convém a quem se dedica ao Senhor. Por seu trabalho espiritual, os missionários têm direito a colher bens materiais dos crentes {o exercício deste “direito” rendeu riqueza material aos padres, pastores e igrejas}. Os crentes não devem comer alimento oriundo do sacrifício a ídolos; as mulheres devem orar com a cabeça coberta e os homens com a cabeça descoberta. Nas assembléias, os irmãos devem se comportar bem, um esperando o outro; as mulheres devem permanecer caladas e submissas. Na ceia comum, todos devem comer com moderação, pois quem tiver fome, coma em casa. Diversos são os dons, mas o espírito é um só; devemos preferir o dom da profecia ao dom das línguas. Quem não acredita na ressurreição de Cristo está em pecado. Jesus morreu por nossos pecados, foi sepultado, ressurgiu no terceiro dia, apareceu sucessivamente a Pedro, aos doze apóstolos, a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, a Tiago, novamente aos apóstolos e por último, a ele, Paulo, como a um abortivo que, por ser o menor dos apóstolos, não se considera digno de ser chamado de apóstolo, pois perseguiu a igreja de deus. {Falsa modéstia de Paulo, cuja pieguice é desmentida por suas próprias epístolas. Jesus apareceu primeiro a Madalena. A aversão de Paulo às mulheres o faz omitir esse fato. Eram 11 apóstolos, pois a vaga de Judas ainda não fora preenchida. Depois da sua morte, Jesus nunca apareceu a Paulo e nem à multidão referida (a “aparição” de Jesus na estrada de Damasco é mais uma das mentiras de Paulo)}. Carne e sangue não participam do reino de deus, diz ele {isto implica afastar a lenda sobre a ascensão ao céu em carne e sangue de Enoc, Moisés, Elias e Jesus}. Diz mais: quando soar a trombeta, os mortos ressuscitarão incorruptíveis e os vivos serão transformados. Ele instrui os coríntios sobre a coleta em benefício dos santos (ajuda financeira à igreja de Jerusalém). Na segunda missiva aos coríntios, Paulo segue no mesmo diapasão. Fala do consolo dos angustiados, da tribulação que sofreu na Ásia, da sua sinceridade pessoal; defende-se da acusação de ser leviano, alude à dificuldade que encontra no seu ministério e à confiança na morada espiritual. Pede aos crentes que se reconciliem com deus, pois não pode haver acordo entre a luz e as trevas. Faz referência à carta anterior que causou sofrimento aos crentes pelas reprimendas. Mostra-se grato pela coleta em favor da igreja de Jerusalém. Exorta os crentes à mansidão, à bondade e ao respeito à sua autoridade, da qual confessa se orgulhar. Justifica o fato de receber o seu sustento das igrejas. Esclarece que não é louco. Afirma ter apelado a deus para que o apartasse de Satanás e ter recebido a seguinte resposta: Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que se revela toda a minha força. {Esta é mais uma passagem em que Paulo tenta se nivelar a Jesus e impressionar os crentes, porque Jesus também fora tentado por Satanás}. Fala de um homem que há 14 anos atrás (por volta do ano 50) foi arrebatado ao paraíso – com ou sem o corpo, não sabe dizer – e lá ouviu palavras inefáveis que não é permitido a um homem repetir {muito conveniente à simulação}. Paulo deixa subentendido, em subliminal falsa modéstia, que esse homem é ele próprio. O objetivo é sempre o mesmo: nivelar-se a Jesus para impressionar e convencer os crentes {o profeta fora arrebatado, segundo narrativa dos evangelistas Marcos e Lucas}. Diz que foi insensato ao elogiar a si próprio; que às igrejas cabia elogiá-lo porque ele em nada era inferior aos apóstolos. {Pedir para ser elogiado ou elogiar a si próprio é expediente solerte e de mau tom}. Avisa que visitará a igreja de Corinto, ouvirá testemunhas e desta vez não haverá perdão pelas faltas apuradas; diz que os crentes não devem exigir, como vêm exigindo, prova de que é Cristo que fala por ele. À igreja de Filipos, Paulo fala das suas orações em favor da igreja, tal qual nas epístolas anteriores, em que faz referência aos seus padecimentos por amor a Cristo, na visível intenção de comover os crentes. Pede união e perseverança. Fala de si mesmo, da sua vida farisaica e da sua vida cristã e pede aos crentes que o imitem {pedido que já fizera alhures e continuaria a fazer, como se imitado devesse ser ele e não Jesus}. Agradece a ajuda que recebe da igreja. A Filêmon, cristão rico, Paulo escreve pedindo que receba e perdoe o escravo fugitivo de nome Onésimo, que ele convertera à fé cristã; que Onésimo fosse recebido não mais como escravo e sim como irmão de fé. Diz que podia usar da sua autoridade em Cristo para prescrever o que era da obrigação de Filêmon, porém, prefere apenas fazer um apelo à sua caridade. Compromete-se a pagar qualquer prejuízo que Onésimo tenha causado. Paulo solicita pouso na casa de Filêmon, pois espera sair da prisão em breve. Timóteo e Tito foram colocados à frente das igrejas de Éfeso e Creta, como bispos.

quarta-feira, 12 de março de 2014

FILOSOFIA X - B



Europa. (Cristianismo. Continuação).
Judas Tadeu (irmão de Jesus e de Tiago) escreve aos fiéis incentivando-os a pelejarem pela fé. Rememora episódios da história do povo hebreu: êxodo, Sodoma e Gomorra, discussão entre o arcanjo Miguel e o demônio pela posse do corpo de Moisés. {Tradição judaica não documentada refere-se à ascensão celestial de Moisés de corpo e alma. Em torno disto houve a tal discussão. O arcanjo submeteu o caso a deus. O demônio foi repreendido}. O NT menciona ascensão celestial de Jesus, tal qual o AT menciona a de Elias, ecoando a disputa entre judeus e cristãos sobre quem é o maior: Moisés ou Jesus. O apóstolo Judas Tadeu pede aos crentes que se edifiquem mutuamente fundados na fé, que orem no espírito santo e se conservem no amor de deus.
João, em sua primeira epístola, diz que pretende completar a alegria dos fiéis para que não pequem e para que eles permaneçam na verdade e na justiça. Diz que os pecados dos fiéis já foram perdoados em nome de deus e que eles venceram o Maligno. Aconselha-os a não amar as coisas do mundo. João adverte: quem odeia o seu irmão está nas trevas; quem anda nas trevas não está em comunhão com deus. O sangue de Jesus purifica os nossos pecados. Negar que somos pecadores é nos enganarmos. Jesus expia os pecados do mundo. {Em conseqüência, o holocausto é abolido e se poupa a vida dos cordeiros}. Quem nega Jesus é anticristo. Há anticristos que saíram da comunhão {dos santos}. Quem permanece na comunhão tem a unção do espírito santo. João esclarece: somos filhos de deus por causa do amor de deus por nós. Pecar é transgredir a lei. Jesus Cristo é o filho de deus que se manifestou para destruir as obras do demônio. João explica: os crentes devem amar uns aos outros, mas não com palavras e sim com atos e em verdade. João garante: ninguém jamais viu deus. {Então, quem disser que viu deus é mentiroso; ora, Moisés disse que viu deus; logo, Moisés é mentiroso}. João ensina: deus é luz e amor; nós estamos em deus e deus está em nós pelo vínculo do amor; quem nasce de deus vence o mundo que jaz sob o Maligno. A segunda epístola de João é endereçada a uma senhora e a terceira a um homem chamado Gaio.
Paulo, apóstolo tardio, superou os apóstolos da primeira hora em número de cartas e de viagens. Das epístolas, depreende-se que Paulo estava ressentido pelo fato de não pertencer ao primeiro e original colégio apostólico organizado por Jesus. O seu campo de atuação situava-se fora da Palestina. Ele podia ser preso e condenado por crime de deserção, já que abandonara as fileiras da força pública judia. Assumiu, então, a tarefa de converter os pagãos ou os “gregos”, assim genericamente chamados os que eram de outras terras, raças e crenças. As cartas evidenciaram o intuito de Paulo de ditar regras de organização da nova seita judia, afirmar a sua autoridade diante dos fieis e a sua independência em relação ao colégio dos apóstolos. Esse trabalho contribuiu para transformar a nova seita judia em religião cristã e fazer dos fiéis uma igreja autônoma. As epístolas aos Hebreus, Timóteo, Tito, Tessalonicenses, Colossenses e Efésios, não são de autoria de Paulo, embora a ele atribuídas. Das epístolas que escreveu ou simplesmente ditou, constata-se que Paulo outorgou a si próprio o título de apóstolo de Cristo (ele evita citar o Jesus histórico). Afirma, falsamente, ter recebido de deus a missão evangelizadora e de ter sido nomeado apóstolo diretamente por Cristo. Após a crucificação de Jesus, competia ao colégio apostólico a escolha dos novos apóstolos mediante escrutínio. Petulante e afrontoso, Paulo não se submeteu e afirmou de modo arrogante ter sido indicado por autoridade divina superior à autoridade do colégio apostólico. Na carta aos gálatas, Paulo se gaba da sua independência em relação aos apóstolos da primeira hora e da autoridade que lhe foi outorgada por deus e Cristo.
Na Palestina, os cristãos eram vistos como um bando de vagabundos, anarquistas, pobres e ignorantes. Intelectual, doutor na lei, fariseu, Paulo certamente achou um despropósito submeter o seu nome a um grupo com aquela fama e características, grupo que ele aterrorizara tempos atrás quando prestava serviço militar ao Sinédrio (conselho judaico). Embora analfabetos e deficientes em cultura geral, os apóstolos receberam lições de Jesus durante três anos pelo menos, adquiriram cultura mística e religiosa, sabedoria advinda tanto da experiência comum como da experiência extática. Portanto, já não eram mais totalmente ignorantes e nem vagabundos, embora continuassem pobres. Paulo conta, sem provar, que viajou para a Arábia e ficou no deserto por 40 dias. Tenta se alçar ao nível do profeta para impressionar o seu público {Jesus permanecera 40 dias e 40 noites no deserto}. Em Jerusalém, ele conhece Pedro e Tiago que concordaram em dividir as tarefas. Paulo anunciaria o evangelho aos povos da Ásia (acabou incluindo cidades da Europa). Ele volta para Tarso, sua cidade natal; depois de algum tempo, segue para a igreja de Antioquia a convite de Barnabé. De lá, empreende viagens missionárias sempre em companhia de um apóstolo (Barnabé) ou de discípulos (Marcos, Silvano, Timóteo, Lucas). Estas viagens são narradas por Lucas no livro do NT intitulado “Atos dos Apóstolos”. Quando estava em Éfeso, Paulo escreve às igrejas da Galácia (uma epístola), de Roma (uma) e de Corinto (duas). Paulo desertara da corporação policial da Judéia e abandonara a missão, que lhe fora confiada pelo Sinédrio, de buscar e prender cristãos. Quando voltou a Jerusalém foi preso como desertor e traidor. Alegando cidadania romana por ter nascido em Tarso, ele apelou ao imperador. Escoltado por soldados romanos, foi enviado a Cesaréia e de lá removido para Roma onde ficou preso por dois anos. Desse período são as cartas aos efésios e colossenses de autoria desconhecida. Depois foram escritas (não se sabe por quem) as epístolas a Timóteo (bispo de Éfeso), uma para Tito (bispo de Creta) e outra aos hebreus {especialmente aos judeus, pois os israelitas estavam dispersos pelo mundo}.
Após obter liberdade em Roma, Paulo visita as igrejas do oriente. Ao retornar da viagem, foi preso e decapitado no dia em que Pedro foi crucificado. Os dois foram executados por ordem da autoridade romana. A lei romana reservava a crucifixão aos estrangeiros (Pedro) e a decapitação aos cidadãos romanos (Paulo). A prisão e a execução da pena de morte resultaram da perseguição aos cristãos iniciada após o incêndio da cidade de Roma (ano 64). Sobre os cristãos pesava a suspeita da autoria da ação incendiária em virtude da fama de serem cidadãos desleais, perigosos, subversivos e de tentarem enfraquecer o espírito romano, posto que: (1) não prestavam juramento nos pretórios romanos; (2) negavam-se a participar da religião cívica; (3) reuniam-se em segredo; (4) censuravam os ricos; (5) enalteciam a humildade e a paz. Na carta aos tessalonicenses de duvidosa autoria, consta: (i) a afirmativa de que o evangelho chegara aos crentes não só por palavras, mas, sobretudo, pelo espírito santo {coloca em segundo plano as palavras ditas por Jesus}; (ii) elogio aos que abandonaram os ídolos; (iii) menção às dificuldades e sofrimentos de Paulo por anunciar o evangelho; (iv) a defesa de Paulo relativa às acusações de usar linguagem bajuladora, de ter intuitos gananciosos e de exigir contribuição financeira dos crentes para a sua glorificação pessoal; (v) graças pela compreensão recebida dos tessalonicenses e por sofrerem as mesmas dores do que Paulo; (vi) lamento pelo fato de os judeus, não contentes em matar Jesus e os profetas, ainda perseguirem os apóstolos e os impedirem de falar aos gentios (pagãos, “gregos”, estrangeiros); (vii) que a mulher deve ser tomada por esposa, não pela lascívia e sim em santificação e honra; (viii) que a morte é como o sono, do qual os fiéis serão despertados por deus; vivos e mortos serão arrebatados entre nuvens ao encontro do Senhor nos ares {nas suas viagens espaciais os homens não encontraram anjos nem “senhor” algum}.
Paulo exorta os crentes à mútua consolação e a se manterem vigilantes, pois repentina será a vinda do Senhor; os crentes devem admoestar os insubmissos, consolar os desanimados, amparar os fracos, ser magnânimos com todos, sem retribuir o mal com o mal, dar graças por tudo, reter o que for bom em todas as coisas. Ele formula votos para que deus santifique a todos os crentes, que o espírito, a alma e o corpo de cada um se mantenham íntegros ante a vinda do Cristo {que acabou não vindo}. Ele fala da vingança de deus em chama de fogo contra quem desobedece ao evangelho; que deus matará o iníquo com o sopro da sua boca {Paulo coloca no Pai Celestial, deus de Jesus, a veia homicida, sinistra e cruel de Javé ou Jeová, deus dos hebreus}. Paulo ordena que as suas epístolas sejam obedecidas; que o pão seja pago por quem o come; que todos trabalhem para não ser peso a ninguém: quem não trabalha, não come. Na epístola aos gálatas, após glorificar a si próprio, intitulando-se apóstolo escolhido diretamente por Cristo, Paulo alerta-os de que não existem dois evangelhos, reclama da perda de entusiasmo dos gálatas para com a pessoa dele e se declara enviado de deus. Paulo rebate os comentários de que a sua pregação era insuficiente à salvação e que a circuncisão era necessária. Ele se defende da acusação de oportunista porque mandara seu discípulo Timóteo circuncidar-se para agradar aos judeus convertidos e depois se colocou contra a circuncisão para agradar aos pagãos convertidos. Defende a sua autoridade e a sua liderança ao afirmar que o “seu evangelho” vem de fonte divina e não humana. Paulo rememora o seu passado farisaico, a sua conversão, a sua independência em relação ao colégio apostólico e a qualquer apóstolo, as viagens missionárias por iniciativa própria sem depender da autorização de ninguém. Põe-se no mesmo nível de Pedro em importância e autoridade: aquele que fez de Pedro o apóstolo dos circuncisos, fez também de mim o dos pagãos {falseou a verdade em benefício próprio}. Informa que Pedro, Tiago e João, colunas do templo cristão, apertaram a mão dele e a de Barnabé em sinal de acordo: aqueles três cuidariam dos circuncisos e estes dois cuidariam dos pagãos, especialmente dos pobres. Paulo gaba-se da censura que fez a Pedro durante a assembléia na presença dos fiéis. Sem modéstia alguma, afirma sua unidade com Jesus: Cristo vive em mim; censura aqueles que retornaram ao paganismo: só quem tem fé pode ser filho de Abraão. {O cristão autêntico certamente prefere ser filho do Pai Celestial de Jesus, do que ser descendente de um proxeneta como Abraão}. Esta é mais uma das passagens em que Paulo manifesta o seu judaísmo. Ele coloca o cristianismo em posição subalterna ao acrescentar: a lei que veio 430 anos depois não pode anular o testamento feito por deus e a promessa feita a Abraão e à sua descendência, ou seja: o evangelho de Jesus que veio no ano 30, não pode anular o Pentateuco escrito por Esdras no ano 430 antes de Cristo. Paulo mente tal qual Esdras e demais autores bíblicos. Deus não faz testamento, pelo menos o deus do universo. Só faz testamento quem é mortal e o deus do universo é imortal. Em sendo onisciente e onipotente, o deus do universo não faz promessas; constrói e destrói segundo a dinâmica determinada por suas leis eternas.

segunda-feira, 10 de março de 2014

FUTEBOL



09.03.2014. Campeonato paulista. Corinthians x São Paulo (2 x 3). Jogo muito bom. Parece que os jogadores não brincaram o carnaval. Nos dois tempos, os jogadores se empenharam. Influência, talvez, da proximidade da Copa do Mundo de Futebol. Quem sabe? Esperança de ser convocado para jogar na seleção. Bobagem. O treinador, o cartola e o patrocinador já têm os seus preferidos. Luis Fabiano ainda é muito bom, melhor do que Fred e Jô, mas graças ao seu temperamento, grande é a probabilidade de ser expulso durante alguma partida e deixar a seleção brasileira desfalcada. Walter do Fluminense carioca, se bem adaptado, também seria bem melhor para a seleção do que Fred e Jô.  
A dinâmica da partida foi excelente. Bom entendimento coletivo. Do ponto de vista da técnica individual, nenhum destaque. Nível apenas razoável, apesar do passado e do nome de alguns jogadores. As duas equipes orientadas por treinadores que se classificam entre os melhores do futebol mundial (Mano Menezes e Muricy Ramalho). Mano estava muito nervoso e foi expulso de campo. Creio que ao perder o comando da seleção brasileira ele perdeu também o equilíbrio emocional. Mesmo assim, colocou a sua equipe nos trilhos. Há torcedores do Corinthians e do Palmeiras que são malfeitores. Formam bandos, invadem o clube, causam danos, ameaçam a integridade de atletas e dirigentes. Parece que a polícia e o ministério público encaram esses delitos com timidez o que facilita a impunidade e a reincidência, levando insegurança ao setor esportivo da sociedade. No que tange à dinâmica do jogo de domingo, a estratégia dos débeis e covardes não se viu aplicada. As duas equipes se defrontaram com coragem em todos os setores, sem medo de perder. Ganhou o público com o belo espetáculo. A equipe do São Paulo fez os cinco gols da partida: três a favor e dois contra. O defensor do São Paulo parecia atacante do Corinthians. Conseguiu a façanha de – em uma só partida – fazer dois gols para o adversário. Até o final do campeonato é possível melhorar o desempenho individual de todos os jogadores e maior acerto nos passes. A movimentação coletiva certamente continuará boa como a de domingo.
Seleção brasileira. A comissão técnica e os dirigentes da CBF tentam passar confiança ao público. Afirmam que a seleção brasileira está forte e ganhará a taça a ser disputada este ano no Brasil. O excesso de confiança já propiciou a derrota: (1) à seleção brasileira em 1950 e em 2006; (2) ao Atlético Mineiro no campeonato mundial de clubes em 2013. Tenho sérias dúvidas. Repito o que disse alhures: se a seleção brasileira perder não será o fim do mundo; haverá outras copas. O povo brasileiro deve se preparar para esta probabilidade sem lançar a culpa no treinador ou nos jogadores. Todos são bons e dedicados, mas o nível é insuficiente para vencer uma copa do mundo. Os atacantes até agora selecionados são fracos técnica e psicologicamente. Perdem gols quando a oportunidade se apresenta. Bom o repertório de dribles de Neymar Jr., boa a sua visão de jogo e a sua inteligência lúdica, porém poucas finalizações; ele erra passes, cobra falta sem êxito e é desarmado muitas vezes. Os demais jogadores também erram passes mais do que seria normal. No setor de armação da seleção brasileira falta inteligência, com modesta ressalva para Oscar. Atualmente, no referido setor, a seleção estaria mais bem servida com Ronaldo Gaúcho do Atlético Mineiro e Douglas do Vasco carioca. Aliás, entre os jogadores em atividade na Europa, nenhum supera o citado Ronaldo, em que pesem as preferências da FIFA. Cristiano Ronaldo, Messi, Ibrahimovic, Balotelli, Pirlo, Ribery, Neymar, KK, Iniesta, Roben, nenhum desses bons jogadores reúne as virtudes esportivas de Ronaldo Gaúcho dentro do campo (boemia, extravagâncias, tudo fora do campo é outra conversa). Digo mais: em matéria de qualificação técnica individual (domínio dos principais fundamentos do futebol), inteligência lúdica e visão de jogo, o veterano Zé Roberto, ainda em atividade no Grêmio de Porto Alegre, é melhor do que qualquer um deles. Marcelo e Daniel Alves são ótimos jogadores, mas praticam faltas violentas e desleais; o torcedor fica rezando para que eles não sejam expulsos durante a partida. Davi e Tiago Silva são ótimos, atuam bem, terão muito trabalho até as quartas-de-final (a seleção dificilmente ultrapassará esse limite). Quanto aos goleiros e demais jogadores, seja o que deus quiser!