sábado, 15 de março de 2014

FILOSOFIA X - C



Europa. (Cristianismo. Continuação).

Sem amparo na realidade histórica, mas tão só para fins de convencimento dos crentes, o “apóstolo” Paulo diz que Ismael, patriarca da nação árabe, filho da natureza (mãe egípcia) perseguia Isaac, patriarca da nação judia, filho da liberdade (mãe judia) e que ele (Paulo) e os crentes são filhos da liberdade. {Não há notícia alguma no Antigo Testamento de que o garoto Ismael, filho de Abraão, perseguisse o garoto Isaac, suposto filho de Abraão. Este sofisma discriminatório coloca os judeus (Isaac) como vítimas dos árabes (Ismael) e estimula a animosidade entre as duas nações}. Na opinião de Paulo, liberdade não significa entregar-se às obras da carne (fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, superstição, inimizades, briga, ciúme, discórdia, ódio, ambição, inveja, bebedeira, orgia). A obra do espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança. O crente não deve ser ávido de vangloria; no seio da comunidade não há lugar para provocações e inveja; quem for surpreendido em falta deve ser admoestado com mansidão; todos devem se cuidar para não cair em tentação; ajudar um ao outro, porém, cada um carrega o seu próprio fardo. Quem recebe a catequese deve repartir todos os seus bens com aquele que o instrui {preceito que se mostrou de grande valia ao tesouro da igreja}. O que o homem semeia isto mesmo colherá. {Ditado popular: “quem semeia vento, colhe tempestade”}. Ao encerrar a missiva, Paulo diz que a escreveu de próprio punho {afirmação desnecessária se fosse veraz}. Paulo escreve à igreja de Roma (anciãos + bispos + presbíteros + diáconos + crentes). O intróito é o mesmo das epístolas anteriores. Embora a Ásia fosse a sua jurisdição, Paulo visitava cidades da Europa por serem pagãs. Percebe-se nele, o desejo de dividir com Pedro o prestígio derivado da proeza de catequizar os habitantes da capital do império romano, a grande potência da época. Esta ambição custou-lhe a vida. À igreja de Roma ele diz que o evangelho {não o livro e sim a palavra de Cristo} é uma força vinda de deus para salvar os crentes; que deus se manifesta do céu contra a impiedade e a perversidade humana; pela injustiça, os homens aprisionam a verdade. Paulo dá conselhos e dita preceitos éticos; critica a depravação de homens e mulheres e cita os vícios. As bênçãos cabem aos judeus em primeiro lugar e depois aos estrangeiros embora não deva existir distinção entre as pessoas {aqui Paulo abre exceção ao princípio da igualdade e mantém o dogma do “povo eleito de deus”}. Justos são os que praticam a lei, pois não basta ouvi-la; merece censura quem ensina o bem e pratica o mal; a verdadeira circuncisão é a do coração, segundo o espírito e não a letra da lei; a incredulidade dos judeus {da Palestina} serviu para salvar os pagãos que receberam o evangelho; a injustiça humana realça a justiça divina; há um só deus para judeus e pagãos {omitiu os cristãos}. Paulo escreve à igreja de Corinto solicitando que os crentes acabem com os abusos e as disputas internas. Diz que foi enviado por Cristo, não para batizar e sim para pregar o evangelho. {Paulo tenta se sobrepor a João Batista; ignora, ou finge ignorar, que o fundador da seita também ensinava além de batizar}. Para os crentes – prossegue a missiva – Cristo se tornou sabedoria, justiça, santificação e redenção; Cristo é o único fundamento do edifício de deus; cada um receberá o louvor que merece de deus quando o tempo chegar. A carta sugere aos crentes que imitem Paulo; refuta os que o denigrem; recrimina a igreja de Corinto pela luxúria. Os crentes devem submeter suas desavenças à irmandade, sem recorrer aos tribunais profanos. Quem se ajunta a uma prostituta torna-se um só corpo com ela. O corpo do crente é o templo do espírito santo. O corpo da mulher pertence ao marido e o do marido à esposa. Os solteiros e as viúvas, se não puderem se conter, devem casar, pois melhor casar do que se abrasar. O celibato convém a quem se dedica ao Senhor. Por seu trabalho espiritual, os missionários têm direito a colher bens materiais dos crentes {o exercício deste “direito” rendeu riqueza material aos padres, pastores e igrejas}. Os crentes não devem comer alimento oriundo do sacrifício a ídolos; as mulheres devem orar com a cabeça coberta e os homens com a cabeça descoberta. Nas assembléias, os irmãos devem se comportar bem, um esperando o outro; as mulheres devem permanecer caladas e submissas. Na ceia comum, todos devem comer com moderação, pois quem tiver fome, coma em casa. Diversos são os dons, mas o espírito é um só; devemos preferir o dom da profecia ao dom das línguas. Quem não acredita na ressurreição de Cristo está em pecado. Jesus morreu por nossos pecados, foi sepultado, ressurgiu no terceiro dia, apareceu sucessivamente a Pedro, aos doze apóstolos, a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, a Tiago, novamente aos apóstolos e por último, a ele, Paulo, como a um abortivo que, por ser o menor dos apóstolos, não se considera digno de ser chamado de apóstolo, pois perseguiu a igreja de deus. {Falsa modéstia de Paulo, cuja pieguice é desmentida por suas próprias epístolas. Jesus apareceu primeiro a Madalena. A aversão de Paulo às mulheres o faz omitir esse fato. Eram 11 apóstolos, pois a vaga de Judas ainda não fora preenchida. Depois da sua morte, Jesus nunca apareceu a Paulo e nem à multidão referida (a “aparição” de Jesus na estrada de Damasco é mais uma das mentiras de Paulo)}. Carne e sangue não participam do reino de deus, diz ele {isto implica afastar a lenda sobre a ascensão ao céu em carne e sangue de Enoc, Moisés, Elias e Jesus}. Diz mais: quando soar a trombeta, os mortos ressuscitarão incorruptíveis e os vivos serão transformados. Ele instrui os coríntios sobre a coleta em benefício dos santos (ajuda financeira à igreja de Jerusalém). Na segunda missiva aos coríntios, Paulo segue no mesmo diapasão. Fala do consolo dos angustiados, da tribulação que sofreu na Ásia, da sua sinceridade pessoal; defende-se da acusação de ser leviano, alude à dificuldade que encontra no seu ministério e à confiança na morada espiritual. Pede aos crentes que se reconciliem com deus, pois não pode haver acordo entre a luz e as trevas. Faz referência à carta anterior que causou sofrimento aos crentes pelas reprimendas. Mostra-se grato pela coleta em favor da igreja de Jerusalém. Exorta os crentes à mansidão, à bondade e ao respeito à sua autoridade, da qual confessa se orgulhar. Justifica o fato de receber o seu sustento das igrejas. Esclarece que não é louco. Afirma ter apelado a deus para que o apartasse de Satanás e ter recebido a seguinte resposta: Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que se revela toda a minha força. {Esta é mais uma passagem em que Paulo tenta se nivelar a Jesus e impressionar os crentes, porque Jesus também fora tentado por Satanás}. Fala de um homem que há 14 anos atrás (por volta do ano 50) foi arrebatado ao paraíso – com ou sem o corpo, não sabe dizer – e lá ouviu palavras inefáveis que não é permitido a um homem repetir {muito conveniente à simulação}. Paulo deixa subentendido, em subliminal falsa modéstia, que esse homem é ele próprio. O objetivo é sempre o mesmo: nivelar-se a Jesus para impressionar e convencer os crentes {o profeta fora arrebatado, segundo narrativa dos evangelistas Marcos e Lucas}. Diz que foi insensato ao elogiar a si próprio; que às igrejas cabia elogiá-lo porque ele em nada era inferior aos apóstolos. {Pedir para ser elogiado ou elogiar a si próprio é expediente solerte e de mau tom}. Avisa que visitará a igreja de Corinto, ouvirá testemunhas e desta vez não haverá perdão pelas faltas apuradas; diz que os crentes não devem exigir, como vêm exigindo, prova de que é Cristo que fala por ele. À igreja de Filipos, Paulo fala das suas orações em favor da igreja, tal qual nas epístolas anteriores, em que faz referência aos seus padecimentos por amor a Cristo, na visível intenção de comover os crentes. Pede união e perseverança. Fala de si mesmo, da sua vida farisaica e da sua vida cristã e pede aos crentes que o imitem {pedido que já fizera alhures e continuaria a fazer, como se imitado devesse ser ele e não Jesus}. Agradece a ajuda que recebe da igreja. A Filêmon, cristão rico, Paulo escreve pedindo que receba e perdoe o escravo fugitivo de nome Onésimo, que ele convertera à fé cristã; que Onésimo fosse recebido não mais como escravo e sim como irmão de fé. Diz que podia usar da sua autoridade em Cristo para prescrever o que era da obrigação de Filêmon, porém, prefere apenas fazer um apelo à sua caridade. Compromete-se a pagar qualquer prejuízo que Onésimo tenha causado. Paulo solicita pouso na casa de Filêmon, pois espera sair da prisão em breve. Timóteo e Tito foram colocados à frente das igrejas de Éfeso e Creta, como bispos.

quarta-feira, 12 de março de 2014

FILOSOFIA X - B



Europa. (Cristianismo. Continuação).
Judas Tadeu (irmão de Jesus e de Tiago) escreve aos fiéis incentivando-os a pelejarem pela fé. Rememora episódios da história do povo hebreu: êxodo, Sodoma e Gomorra, discussão entre o arcanjo Miguel e o demônio pela posse do corpo de Moisés. {Tradição judaica não documentada refere-se à ascensão celestial de Moisés de corpo e alma. Em torno disto houve a tal discussão. O arcanjo submeteu o caso a deus. O demônio foi repreendido}. O NT menciona ascensão celestial de Jesus, tal qual o AT menciona a de Elias, ecoando a disputa entre judeus e cristãos sobre quem é o maior: Moisés ou Jesus. O apóstolo Judas Tadeu pede aos crentes que se edifiquem mutuamente fundados na fé, que orem no espírito santo e se conservem no amor de deus.
João, em sua primeira epístola, diz que pretende completar a alegria dos fiéis para que não pequem e para que eles permaneçam na verdade e na justiça. Diz que os pecados dos fiéis já foram perdoados em nome de deus e que eles venceram o Maligno. Aconselha-os a não amar as coisas do mundo. João adverte: quem odeia o seu irmão está nas trevas; quem anda nas trevas não está em comunhão com deus. O sangue de Jesus purifica os nossos pecados. Negar que somos pecadores é nos enganarmos. Jesus expia os pecados do mundo. {Em conseqüência, o holocausto é abolido e se poupa a vida dos cordeiros}. Quem nega Jesus é anticristo. Há anticristos que saíram da comunhão {dos santos}. Quem permanece na comunhão tem a unção do espírito santo. João esclarece: somos filhos de deus por causa do amor de deus por nós. Pecar é transgredir a lei. Jesus Cristo é o filho de deus que se manifestou para destruir as obras do demônio. João explica: os crentes devem amar uns aos outros, mas não com palavras e sim com atos e em verdade. João garante: ninguém jamais viu deus. {Então, quem disser que viu deus é mentiroso; ora, Moisés disse que viu deus; logo, Moisés é mentiroso}. João ensina: deus é luz e amor; nós estamos em deus e deus está em nós pelo vínculo do amor; quem nasce de deus vence o mundo que jaz sob o Maligno. A segunda epístola de João é endereçada a uma senhora e a terceira a um homem chamado Gaio.
Paulo, apóstolo tardio, superou os apóstolos da primeira hora em número de cartas e de viagens. Das epístolas, depreende-se que Paulo estava ressentido pelo fato de não pertencer ao primeiro e original colégio apostólico organizado por Jesus. O seu campo de atuação situava-se fora da Palestina. Ele podia ser preso e condenado por crime de deserção, já que abandonara as fileiras da força pública judia. Assumiu, então, a tarefa de converter os pagãos ou os “gregos”, assim genericamente chamados os que eram de outras terras, raças e crenças. As cartas evidenciaram o intuito de Paulo de ditar regras de organização da nova seita judia, afirmar a sua autoridade diante dos fieis e a sua independência em relação ao colégio dos apóstolos. Esse trabalho contribuiu para transformar a nova seita judia em religião cristã e fazer dos fiéis uma igreja autônoma. As epístolas aos Hebreus, Timóteo, Tito, Tessalonicenses, Colossenses e Efésios, não são de autoria de Paulo, embora a ele atribuídas. Das epístolas que escreveu ou simplesmente ditou, constata-se que Paulo outorgou a si próprio o título de apóstolo de Cristo (ele evita citar o Jesus histórico). Afirma, falsamente, ter recebido de deus a missão evangelizadora e de ter sido nomeado apóstolo diretamente por Cristo. Após a crucificação de Jesus, competia ao colégio apostólico a escolha dos novos apóstolos mediante escrutínio. Petulante e afrontoso, Paulo não se submeteu e afirmou de modo arrogante ter sido indicado por autoridade divina superior à autoridade do colégio apostólico. Na carta aos gálatas, Paulo se gaba da sua independência em relação aos apóstolos da primeira hora e da autoridade que lhe foi outorgada por deus e Cristo.
Na Palestina, os cristãos eram vistos como um bando de vagabundos, anarquistas, pobres e ignorantes. Intelectual, doutor na lei, fariseu, Paulo certamente achou um despropósito submeter o seu nome a um grupo com aquela fama e características, grupo que ele aterrorizara tempos atrás quando prestava serviço militar ao Sinédrio (conselho judaico). Embora analfabetos e deficientes em cultura geral, os apóstolos receberam lições de Jesus durante três anos pelo menos, adquiriram cultura mística e religiosa, sabedoria advinda tanto da experiência comum como da experiência extática. Portanto, já não eram mais totalmente ignorantes e nem vagabundos, embora continuassem pobres. Paulo conta, sem provar, que viajou para a Arábia e ficou no deserto por 40 dias. Tenta se alçar ao nível do profeta para impressionar o seu público {Jesus permanecera 40 dias e 40 noites no deserto}. Em Jerusalém, ele conhece Pedro e Tiago que concordaram em dividir as tarefas. Paulo anunciaria o evangelho aos povos da Ásia (acabou incluindo cidades da Europa). Ele volta para Tarso, sua cidade natal; depois de algum tempo, segue para a igreja de Antioquia a convite de Barnabé. De lá, empreende viagens missionárias sempre em companhia de um apóstolo (Barnabé) ou de discípulos (Marcos, Silvano, Timóteo, Lucas). Estas viagens são narradas por Lucas no livro do NT intitulado “Atos dos Apóstolos”. Quando estava em Éfeso, Paulo escreve às igrejas da Galácia (uma epístola), de Roma (uma) e de Corinto (duas). Paulo desertara da corporação policial da Judéia e abandonara a missão, que lhe fora confiada pelo Sinédrio, de buscar e prender cristãos. Quando voltou a Jerusalém foi preso como desertor e traidor. Alegando cidadania romana por ter nascido em Tarso, ele apelou ao imperador. Escoltado por soldados romanos, foi enviado a Cesaréia e de lá removido para Roma onde ficou preso por dois anos. Desse período são as cartas aos efésios e colossenses de autoria desconhecida. Depois foram escritas (não se sabe por quem) as epístolas a Timóteo (bispo de Éfeso), uma para Tito (bispo de Creta) e outra aos hebreus {especialmente aos judeus, pois os israelitas estavam dispersos pelo mundo}.
Após obter liberdade em Roma, Paulo visita as igrejas do oriente. Ao retornar da viagem, foi preso e decapitado no dia em que Pedro foi crucificado. Os dois foram executados por ordem da autoridade romana. A lei romana reservava a crucifixão aos estrangeiros (Pedro) e a decapitação aos cidadãos romanos (Paulo). A prisão e a execução da pena de morte resultaram da perseguição aos cristãos iniciada após o incêndio da cidade de Roma (ano 64). Sobre os cristãos pesava a suspeita da autoria da ação incendiária em virtude da fama de serem cidadãos desleais, perigosos, subversivos e de tentarem enfraquecer o espírito romano, posto que: (1) não prestavam juramento nos pretórios romanos; (2) negavam-se a participar da religião cívica; (3) reuniam-se em segredo; (4) censuravam os ricos; (5) enalteciam a humildade e a paz. Na carta aos tessalonicenses de duvidosa autoria, consta: (i) a afirmativa de que o evangelho chegara aos crentes não só por palavras, mas, sobretudo, pelo espírito santo {coloca em segundo plano as palavras ditas por Jesus}; (ii) elogio aos que abandonaram os ídolos; (iii) menção às dificuldades e sofrimentos de Paulo por anunciar o evangelho; (iv) a defesa de Paulo relativa às acusações de usar linguagem bajuladora, de ter intuitos gananciosos e de exigir contribuição financeira dos crentes para a sua glorificação pessoal; (v) graças pela compreensão recebida dos tessalonicenses e por sofrerem as mesmas dores do que Paulo; (vi) lamento pelo fato de os judeus, não contentes em matar Jesus e os profetas, ainda perseguirem os apóstolos e os impedirem de falar aos gentios (pagãos, “gregos”, estrangeiros); (vii) que a mulher deve ser tomada por esposa, não pela lascívia e sim em santificação e honra; (viii) que a morte é como o sono, do qual os fiéis serão despertados por deus; vivos e mortos serão arrebatados entre nuvens ao encontro do Senhor nos ares {nas suas viagens espaciais os homens não encontraram anjos nem “senhor” algum}.
Paulo exorta os crentes à mútua consolação e a se manterem vigilantes, pois repentina será a vinda do Senhor; os crentes devem admoestar os insubmissos, consolar os desanimados, amparar os fracos, ser magnânimos com todos, sem retribuir o mal com o mal, dar graças por tudo, reter o que for bom em todas as coisas. Ele formula votos para que deus santifique a todos os crentes, que o espírito, a alma e o corpo de cada um se mantenham íntegros ante a vinda do Cristo {que acabou não vindo}. Ele fala da vingança de deus em chama de fogo contra quem desobedece ao evangelho; que deus matará o iníquo com o sopro da sua boca {Paulo coloca no Pai Celestial, deus de Jesus, a veia homicida, sinistra e cruel de Javé ou Jeová, deus dos hebreus}. Paulo ordena que as suas epístolas sejam obedecidas; que o pão seja pago por quem o come; que todos trabalhem para não ser peso a ninguém: quem não trabalha, não come. Na epístola aos gálatas, após glorificar a si próprio, intitulando-se apóstolo escolhido diretamente por Cristo, Paulo alerta-os de que não existem dois evangelhos, reclama da perda de entusiasmo dos gálatas para com a pessoa dele e se declara enviado de deus. Paulo rebate os comentários de que a sua pregação era insuficiente à salvação e que a circuncisão era necessária. Ele se defende da acusação de oportunista porque mandara seu discípulo Timóteo circuncidar-se para agradar aos judeus convertidos e depois se colocou contra a circuncisão para agradar aos pagãos convertidos. Defende a sua autoridade e a sua liderança ao afirmar que o “seu evangelho” vem de fonte divina e não humana. Paulo rememora o seu passado farisaico, a sua conversão, a sua independência em relação ao colégio apostólico e a qualquer apóstolo, as viagens missionárias por iniciativa própria sem depender da autorização de ninguém. Põe-se no mesmo nível de Pedro em importância e autoridade: aquele que fez de Pedro o apóstolo dos circuncisos, fez também de mim o dos pagãos {falseou a verdade em benefício próprio}. Informa que Pedro, Tiago e João, colunas do templo cristão, apertaram a mão dele e a de Barnabé em sinal de acordo: aqueles três cuidariam dos circuncisos e estes dois cuidariam dos pagãos, especialmente dos pobres. Paulo gaba-se da censura que fez a Pedro durante a assembléia na presença dos fiéis. Sem modéstia alguma, afirma sua unidade com Jesus: Cristo vive em mim; censura aqueles que retornaram ao paganismo: só quem tem fé pode ser filho de Abraão. {O cristão autêntico certamente prefere ser filho do Pai Celestial de Jesus, do que ser descendente de um proxeneta como Abraão}. Esta é mais uma das passagens em que Paulo manifesta o seu judaísmo. Ele coloca o cristianismo em posição subalterna ao acrescentar: a lei que veio 430 anos depois não pode anular o testamento feito por deus e a promessa feita a Abraão e à sua descendência, ou seja: o evangelho de Jesus que veio no ano 30, não pode anular o Pentateuco escrito por Esdras no ano 430 antes de Cristo. Paulo mente tal qual Esdras e demais autores bíblicos. Deus não faz testamento, pelo menos o deus do universo. Só faz testamento quem é mortal e o deus do universo é imortal. Em sendo onisciente e onipotente, o deus do universo não faz promessas; constrói e destrói segundo a dinâmica determinada por suas leis eternas.

segunda-feira, 10 de março de 2014

FUTEBOL



09.03.2014. Campeonato paulista. Corinthians x São Paulo (2 x 3). Jogo muito bom. Parece que os jogadores não brincaram o carnaval. Nos dois tempos, os jogadores se empenharam. Influência, talvez, da proximidade da Copa do Mundo de Futebol. Quem sabe? Esperança de ser convocado para jogar na seleção. Bobagem. O treinador, o cartola e o patrocinador já têm os seus preferidos. Luis Fabiano ainda é muito bom, melhor do que Fred e Jô, mas graças ao seu temperamento, grande é a probabilidade de ser expulso durante alguma partida e deixar a seleção brasileira desfalcada. Walter do Fluminense carioca, se bem adaptado, também seria bem melhor para a seleção do que Fred e Jô.  
A dinâmica da partida foi excelente. Bom entendimento coletivo. Do ponto de vista da técnica individual, nenhum destaque. Nível apenas razoável, apesar do passado e do nome de alguns jogadores. As duas equipes orientadas por treinadores que se classificam entre os melhores do futebol mundial (Mano Menezes e Muricy Ramalho). Mano estava muito nervoso e foi expulso de campo. Creio que ao perder o comando da seleção brasileira ele perdeu também o equilíbrio emocional. Mesmo assim, colocou a sua equipe nos trilhos. Há torcedores do Corinthians e do Palmeiras que são malfeitores. Formam bandos, invadem o clube, causam danos, ameaçam a integridade de atletas e dirigentes. Parece que a polícia e o ministério público encaram esses delitos com timidez o que facilita a impunidade e a reincidência, levando insegurança ao setor esportivo da sociedade. No que tange à dinâmica do jogo de domingo, a estratégia dos débeis e covardes não se viu aplicada. As duas equipes se defrontaram com coragem em todos os setores, sem medo de perder. Ganhou o público com o belo espetáculo. A equipe do São Paulo fez os cinco gols da partida: três a favor e dois contra. O defensor do São Paulo parecia atacante do Corinthians. Conseguiu a façanha de – em uma só partida – fazer dois gols para o adversário. Até o final do campeonato é possível melhorar o desempenho individual de todos os jogadores e maior acerto nos passes. A movimentação coletiva certamente continuará boa como a de domingo.
Seleção brasileira. A comissão técnica e os dirigentes da CBF tentam passar confiança ao público. Afirmam que a seleção brasileira está forte e ganhará a taça a ser disputada este ano no Brasil. O excesso de confiança já propiciou a derrota: (1) à seleção brasileira em 1950 e em 2006; (2) ao Atlético Mineiro no campeonato mundial de clubes em 2013. Tenho sérias dúvidas. Repito o que disse alhures: se a seleção brasileira perder não será o fim do mundo; haverá outras copas. O povo brasileiro deve se preparar para esta probabilidade sem lançar a culpa no treinador ou nos jogadores. Todos são bons e dedicados, mas o nível é insuficiente para vencer uma copa do mundo. Os atacantes até agora selecionados são fracos técnica e psicologicamente. Perdem gols quando a oportunidade se apresenta. Bom o repertório de dribles de Neymar Jr., boa a sua visão de jogo e a sua inteligência lúdica, porém poucas finalizações; ele erra passes, cobra falta sem êxito e é desarmado muitas vezes. Os demais jogadores também erram passes mais do que seria normal. No setor de armação da seleção brasileira falta inteligência, com modesta ressalva para Oscar. Atualmente, no referido setor, a seleção estaria mais bem servida com Ronaldo Gaúcho do Atlético Mineiro e Douglas do Vasco carioca. Aliás, entre os jogadores em atividade na Europa, nenhum supera o citado Ronaldo, em que pesem as preferências da FIFA. Cristiano Ronaldo, Messi, Ibrahimovic, Balotelli, Pirlo, Ribery, Neymar, KK, Iniesta, Roben, nenhum desses bons jogadores reúne as virtudes esportivas de Ronaldo Gaúcho dentro do campo (boemia, extravagâncias, tudo fora do campo é outra conversa). Digo mais: em matéria de qualificação técnica individual (domínio dos principais fundamentos do futebol), inteligência lúdica e visão de jogo, o veterano Zé Roberto, ainda em atividade no Grêmio de Porto Alegre, é melhor do que qualquer um deles. Marcelo e Daniel Alves são ótimos jogadores, mas praticam faltas violentas e desleais; o torcedor fica rezando para que eles não sejam expulsos durante a partida. Davi e Tiago Silva são ótimos, atuam bem, terão muito trabalho até as quartas-de-final (a seleção dificilmente ultrapassará esse limite). Quanto aos goleiros e demais jogadores, seja o que deus quiser!    

domingo, 9 de março de 2014

FILOSOFIA X - A



Europa (continuação).

O cristianismo foi a vertente mais poderosa da nova civilização européia ocidental. A sua origem está na reforma religiosa empreendida na Palestina do primeiro século da era cristã por um judeu chamado João, apelidado de Batista, e por um galileu chamado Jesus, apelidado de Nazareno. O apelido do primeiro (João) se deve ao ritual de batismo por ele utilizado na admissão de adeptos à nova seita judia. O apelido do segundo (Jesus) provém de duas fontes: (1) do costume de consagrar ao deus o filho primogênito por decisão dos pais {tal como aconteceu com os juízes Sansão e Samuel, entre outros nazarenos (nenhum deles nascido em cidade de nome Nazaré)}; (2) do vínculo do profeta com a seita dos nazarenos exteriorizado na sua aparência (cabelos e barba), no seu modo de vestir (túnica branca e sandália), na sua conduta (oposição ao sacerdócio fariseu e saduceu) e na sua doutrina (amor, paz, solidariedade, humildade, caridade, esperança, fé no Pai Celestial). Os dois líderes nada deixaram por escrito e o pouco que deles se sabe está nos livros do Novo Testamento (Bíblia). Tais livros começaram a ser escritos quarenta anos depois da morte dos citados líderes reformadores. O acesso à verdade dos fatos ficou difícil tendo em vista: (1) o lapso de tempo decorrido; (2) o analfabetismo e a deficiência cultural dos evangelistas; (3) as contradições e fantasias contidas nos evangelhos; (4) as interpolações feitas por escritores e tradutores clericais no curso dos anos e dos séculos. O tom apologético e fantástico de tais livros é indisfarçável. Os evangelistas prosseguem na tradição ficcionista iniciada por Esdras, autor do Pentateuco (cinco primeiros livros da Bíblia). De fato, tal como no chamado Antigo Testamento, o chamado Novo Testamento mescla fatos históricos com lenda, fantasia, falsidade, projetos pessoais e interesses de classe. Isto dificulta a localização de alguma verdade. Os apóstolos e outros seguidores esperavam o breve retorno de Jesus, a iminente destruição do mundo e a fundação da cidade divina denominada Nova Jerusalém. Nada disto aconteceu. Diante desta frustração e do fato de alguns apóstolos enviarem cartas (epístolas) aos fiéis de outras bandas, emerge a idéia de registrar por escrito o que se passou desde o nascimento até a morte do profeta. A maioria dos apóstolos era analfabeta, tal qual a maioria do povo palestino. Escribas (secretários) escreviam o que os apóstolos ditavam. A fidelidade do texto ao ditado é problemática quando aquele que ditou não sabe ler.
A dogmática cristã se contém nas epístolas (cartas) e nos evangelhos (narrativas feitas pelos apóstolos João e Mateus e pelos discípulos Marcos e Lucas, selecionadas pela igreja dentre inúmeras narrativas feitas por outros apóstolos). As cartas (epístolas) de autoria dos apóstolos são os primeiros documentos escritos sobre Jesus, sua doutrina e respectiva difusão. O conteúdo doutrinário e normativo dessas cartas é reproduzido nos evangelhos. Os remetentes são: Pedro, Tiago, Judas Tadeu e João, apóstolos da primeira hora, e Paulo, apóstolo tardio. Os apóstolos da primeira hora citam os ensinamentos e as recomendações que receberam diretamente de Jesus. Suas cartas são apelidadas de católicas (= universais) porque dirigidas às comunidades ou igrejas cristãs, salvo a segunda e a terceira de João, destinadas a determinadas pessoas. Entre as epístolas de Paulo, o apóstolo tardio, umas são gerais e outras individuais; a metade delas não foi escrita nem ditada por ele. Há um padrão nas cartas decorrente da unidade de doutrina e do propósito comum de fortalecer e expandir a igreja cristã. De um modo geral, as epístolas exortam o crente a: (1) perseverar na fé em deus e em Jesus; (2) viver no amor e na luz de deus; (3) amar a deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo; (4) obedecer às autoridades do estado e da igreja; (5) comprometer-se com a verdade, com a justiça e com a bondade; (6) praticar caridade; (7) se acautelar contra falsos profetas, homens ímpios que se introduzem nas comunidades cristãs e espalham a maldade; (8) afastar-se dos prazeres carnais, da cobiça, da corrupção e da concupiscência.
Quanto ao prometido retorno de Jesus, os missivistas pedem paciência e que os crentes mantenham a esperança, pois esse dia chegará {dois mil anos se passaram desde a morte do profeta e o dia ainda não chegou; haja paciência!} São deveres dos crentes: (1) recusar-se a prestar juramento; (2) rezar quando estiver triste e cantar quando estiver alegre; (3) confessar os pecados entre si; (4) curar os enfermos pela unção com óleo e oração fervorosa; (5) orar uns pelos outros. Os missivistas enaltecem o reino espiritual e abjuram o mundo terreno, a riqueza material e a soberba dos ricos; qualificam o mundo terreno de reino do demônio; falam da alegria de receber notícias sobre a fé e a dedicação dos crentes à causa de Cristo.       
A primeira epístola de Pedro é destinada às igrejas da Ásia (anciãos + presbíteros + crentes). Fala em misericórdia e ressurreição de Jesus. Exorta os fiéis à santidade, ao amor fraterno e sincero. Alerta-os para não se contaminarem com a inveja, maledicência, astúcia, fingimento. Usa a imagem do edifício espiritual: Jesus é a pedra angular, e os crentes, o material da construção. Arrola os deveres: servir a deus; seguir o exemplo de Jesus; obedecer às autoridades; cumprir as obrigações com a família e com os patrões; repudiar a luxúria, bebedeira, orgia, idolatria; praticar a hospitalidade; vigiar, orar, aplicar os dons em benefício alheio; exercer o ministério com força divina. Na segunda epístola, Pedro menciona a dificuldade de entender as cartas de Paulo. Há implícita censura nesta observação, fruto da desconfiança dos apóstolos da primeira hora quanto às reais intenções de Paulo, que parecia querer imprimir rumo à igreja cristã ao seu talante {o que de fato aconteceu}. Pedro exorta os crentes a se unirem na fé, a vincular a fé à virtude, a virtude à ciência, a ciência à temperança, a temperança à paciência, a paciência à piedade, a piedade ao amor fraterno, o amor fraterno à caridade. Segundo Pedro, tal proceder abre as portas do reino de Cristo. Ele pede aos crentes que perseverem nesse proceder e dá o seu testemunho pessoal da majestade de Jesus. Na opinião dele, toda profecia da escritura deriva do espírito santo e não da vontade humana; por isto, não comporta interpretação pessoal. Pedro qualifica os falsos profetas de imundos, cobiçosos, corruptos, libertinos, pervertidos, fontes sem água, filhos do Maligno. Compara aqueles que estiveram no caminho de Cristo e retornaram ao paganismo a uma porca lavada que volta ao lamaçal; um cão que volta ao seu vômito: tal é o louco que reitera suas loucuras (Bíblia, AT, Provérbios, 26: 11).
A epístola do apóstolo Tiago (irmão de Jesus e primeiro bispo de Jerusalém) é dirigida às 12 tribos da dispersão. Tiago presidiu o primeiro concílio da igreja (ano 49). A carta homenageia o povo hebreu expulso da Palestina nos séculos VI e V a.C. (israelitas + judeus). Tiago pretendia angariar a simpatia dos descendentes daqueles judeus que retornaram do exílio babilônico. Quanto aos israelitas (10 tribos) o paradeiro era desconhecido. Na sua epístola, com algumas expressões sem nexo e outras confusas (deficiência que se nota também nas outras epístolas e nos evangelhos) ele se dirige aos seus contemporâneos e os adverte das provações pelas quais passarão {ele próprio as vivenciou e acabou morto por ordem de Herodes Antipas}. Aconselha-os a ter paciência, fortaleza na fé e a suplicarem sabedoria a deus, sem vacilar. Adota o discurso a favor da pobreza e contra a riqueza, típico da mensagem do profeta. Tiago ensina o caminho para ser feliz: meditar sobre a lei perfeita da liberdade. Censura os excessos da linguagem: quem não refreia a sua língua e engana o seu coração não pode ser piedoso. Diz que a língua inflamada pelo inferno incendeia o curso da nossa vida; que a língua é um mal irrequieto cheio de veneno mortífero; com ela abençoamos e amaldiçoamos. Diz que o gosto pelas contendas recheadas de mentiras é sabedoria terrena, humana, diabólica: onde há ciúme e contenda há perturbação. A religião pura e sem mácula inclui visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições e purificar-se da corrupção do mundo. O bom tratamento dado aos ricos dar-se-á aos pobres, porque deus escolheu os pobres deste mundo para que fossem ricos na fé e herdeiros do reino celestial. Fé sem obras é morta em si mesma. O fruto da justiça semeia-se na paz para aqueles que praticam a paz sem fingimento, sem parcialidade. Quem é amigo do mundo é inimigo de deus. Tiago cita os Provérbios (livro do AT) 3: 34, um pouco modificado: ao invés de Se ele (o Senhor) escarnece dos zombadores, concede a graça aos humildes; escreve: Deus resiste aos soberbos, mas dá sua graça aos humildes. Ao citarem de memória passagens do AT, os apóstolos às vezes se enganam. Ele diz mais: que os crentes devem se purificar; recrimina a maledicência e a falta de virtudes nos homens. Na opinião dele, quem pode fazer o bem e não o faz, comete pecado. Censura os ricos que fraudam os salários dos trabalhadores; acusa-os de haver matado o justo que nenhuma resistência oferecera {os membros do tribunal que condenou Jesus à morte (Sinédrio) eram judeus abastados}. Segundo Tiago, a oração do justo tem grande eficiência. O crente deve orar e obrar para o retorno ao bom caminho de quem dele se afastou.

quarta-feira, 5 de março de 2014

FILOSOFIA X



Europa (500 a 1000).

Com a derrocada do império romano do ocidente no século V (401 a 500), surge paulatinamente nova civilização na Europa fundada na herança cultural da Grécia e de Roma, capitaneada pelo cristianismo em quase todos os seus aspectos. Ao mesmo tempo e paralelamente à civilização européia surgem e se desenvolvem na Ásia a civilização bizantina (500 a 1500) e a civilização sarracena (600 a 1300). A primeira fase da civilização européia caracterizou-se pelo domínio político dos bárbaros (germanos, ostrogodos, visigodos, vândalos, lombardos, francos) e pelo domínio espiritual da igreja cristã. O território que estava sob a jurisdição romana ficou sob a jurisdição bárbara. Vários reinos se constituíram. Mesclaram-se usos e costumes de diferentes culturas, porém a característica marcante da nova civilização foi o cristianismo. Em tempo relativamente curto os bárbaros aderiram à fé cristã. O domínio cristão foi facilitado: (1) pela conversão dos chefes bárbaros; (2) pela credulidade e ignorância da massa popular; (3) pelo travamento da razão. A fé cristã incluía ascetismo mórbido, desprezo ao mundo material e esperança de vida melhor em um mundo espiritual.
A península ibérica ficou sob domínio visigodo e sarraceno; o sul da Itália sob controle de Bizâncio; a Inglaterra dominada pelos anglos, celtas, dinamarqueses e saxões. A maior parte da Europa ocidental esteve sob o mais influente e duradouro governo dos francos. O latim era o idioma comum e geral. A população decresceu. À vista disto, as mulheres foram proibidas de entrar para o convento antes dos 40 anos de idade. O propósito da lei era o de incentivar a procriação e frear o assustador declive demográfico. A economia retrocedeu ao escambo e ao ruralismo diante do isolamento europeu decorrente do controle do Mediterrâneo pelos mouros. Decaíram rapidamente o comércio, a indústria e a lavoura. A cidade de Marselha (sul da França) exemplificou esse estado de coisas: ruas tomadas pelo mato e o porto parado por 200 anos. O dinheiro sumiu de circulação. O banditismo aumentou. O estado das estradas era péssimo. Revestiram-se de poderes feudais: (1) os condes beneficiados com imunidades e isenções concedidas pelos reis merovíngios e carlovíngios; (2) os donatários das terras doadas por esses reis. Em conseqüência, surgiram duas classes no campo: a dos aristocratas rurais e a dos servos da gleba.
Ao cair o último imperador romano do ocidente, o comandante bárbaro de nome Odoacro se declara rei e governa a Itália. Sobrevém a invasão dos ostrogodos liderada por Teodorico, que reina por 33 anos na Itália (493 a 526). Este bárbaro favoreceu a agricultura e o comércio, mas não conseguiu abolir a servidão da massa popular e a concentração da riqueza nas mãos dos latifundiários. Esse rei consertou e construiu edifícios públicos e estradas, patrocinou o ensino e estimulou a tolerância em matéria de religião. De Constantinopla, o imperador Justiniano trava guerra com os ostrogodos e os vence (552). Logo depois, os lombardos invadem a Itália (568). Duques a governam até o século VIII (701 a 800), quando Carlos Magno a conquista. A Gália (França) foi o mais forte estado ocidental no começo da civilização européia. Clovis torna-se rei da tribo dos francos e inicia guerra de conquista (481). Domina o território da Gália e parte da Germânia (Alemanha), converte-se ao cristianismo, obtém apoio do clero e abre caminho para alianças dos seus sucessores com os papas. Clóvis descendia de Meroveu, patriarca da família. Daí o nome da dinastia por ele fundada: merovíngia. Essa dinastia ocupou o trono do reino franco de 491 a 751. A linhagem real se estiola: os reis francos delegam poderes e sucumbem à luxúria e à indolência (640 a 750). Os delegados do rei se fortaleceram na autonomia que lhes foi concedida. O mais agressivo desses delegados, Carlos Martel, considerado o segundo fundador do reino dos francos, defendeu-o contra os mouros e sufocou rebelião interna, mas não reivindicou o título de rei. O seu filho, Pepino, “O Breve”, inaugurou nova dinastia em 751, que ficou conhecida como carlovíngia em homenagem ao seu maior personagem: Carlos Magno (Carolus Magnus) que reinou de 771 a 814 e conquistou a parte central e setentrional da Itália e a maior parte da Europa central.
Carlos Magno extinguiu o cargo de prefeito do paço e os ducados tribais; designou pessoas da sua confiança para exercerem os poderes locais com o título de condes; nomeou mensageiros reais para prevenir abusos das autoridades nos condados (missi dominici); modificou o sistema de justiça privada e concedeu poderes aos condes para intimarem pessoas a comparecer perante os tribunais; concedeu maior poder aos magistrados no que tange ao processo judicial; estabeleceu o sistema romano de inquirição sob juramento para elucidar crimes. Carlos Magno auxiliou o papa Leão III, que fora exilado, a retornar à Itália e a ocupar o trono da igreja. Em retribuição, durante missa na igreja de São Pedro, no natal do ano 800, o papa o coroa Imperador: “Augusto coroado por Deus, grande e pacífico imperador dos romanos” saudaram-no os fiéis presentes à igreja. Apanhado de surpresa quando se ajoelhara para orar durante a missa, Carlos Magno ficou embaraçado {versão discutível}, pois não queria ficar devendo ao papa a sua coroação como imperador, posição que já sustentava de fato no ocidente. Ele pretendia ressuscitar a grandeza de Roma. {Os bárbaros tinham obsessão pelo império de César}. Apesar da coroação pelo papa, Carlos Magno não admitiu limites eclesiásticos à sua soberania; legislava amplamente em assuntos religiosos, fiscalizava a nomeação para cargos na igreja, instruía bispos e padres quanto à moral e aos sermões. Quiçá por ser analfabeto, Carlos Magno deu grande importância à educação e à cultura, reunindo em sua corte as mais primorosas e cultas inteligências da sua época. Após a sua coroação e a instalação de um novo império no ocidente paralelo ao império romano do oriente {ao menos formalmente, a jurisdição de Constantinopla ainda abrangia a Europa}, o cristianismo dividiu-se em latino e bizantino. Puxando a brasa para a sua sardinha, citando a coroação de Carlos Magno e se intitulando representantes de deus, os papas se declaravam os verdadeiros fundadores do novo império e afirmavam a primazia do seu poder espiritual sobre o poder secular dos reis. {A igreja tinha o divino direito de produzir ilusão; o crente tinha o secular direito de produzir alimento}.
Segundo a tradição dos francos, o território do reino devia ser partilhado entre os filhos do monarca falecido. Com a morte de Carlos Magno, a unidade imperial tão cara à igreja cristã ficou estilhaçada com a divisão do território entre os herdeiros (814).
O povo germano exerceu considerável influência na civilização européia. Ora pacificamente, ora pelo uso da força, os germanos foram ocupando a Europa com seus costumes e leis. Parte deles veio com os comandantes romanos que os admitiam no exército e na guarda pessoal dos imperadores. Milhares deles foram colocados nas grandes propriedades como servos; outros milhares ingressaram no exército. Sentindo-se tão fortes quanto os romanos, os bárbaros começaram a dominar a Itália (378), Gália (410), Roma (455 e 476) e finalmente todo o império romano do ocidente. Dos germanos, a nova civilização herdou: (1) a concepção da lei como expressão dos costumes e não como imposição da vontade do soberano; (2) a lei como proteção pessoal que acompanha o indivíduo por onde ele for (jus sanguinis), diferente da concepção romana segundo a qual o vigor da lei se limita ao território (jus soli); (3) relação entre governantes e governados em termos contratuais: ao governante cabe a obrigação de proteger; ao governado cabe a obrigação de produzir; (4) relação honrosa entre suserano e vassalo (comitatus): mediante juramento de honra e lealdade, os guerreiros se obrigavam a servir e a lutar pelo chefe; (5) o ordálio como prova no processo judicial; (6) os juramentos nos tribunais; (7) a idealização da virtude feminina; (8) a importância da fidelidade conjugal, o que influiu na glorificação da união conjugal como sacramento da igreja cristã medieval.

sábado, 1 de março de 2014

FILOSOFIA IX - A



Bizâncio (final).

Na linguagem da igreja bizantina, ícone era qualquer imagem de deus, de Jesus ou de santo. Iconoclasta era a pessoa ou grupo de pessoas que derrubava imagens ou condenava o uso de imagens no culto e em lugares religiosos. O imperador bizantino Leão III proibiu o uso de imagens na igreja (717 a 741). Opunha-se a tudo que fosse material ou patético na religião cristã; combatia o paganismo e o mundanismo na igreja; refreava o poder eclesiástico. A renda dos monges proveniente da fabricação e do comércio de ícones ficou ameaçada. Os mosteiros absorviam porção considerável da riqueza coletiva e desviavam do serviço – militar e civil – muitos homens aptos; isto contribuía para fragilizar o império. Os súditos piedosos apoiavam os imperadores na luta contra a idolatria e a corrupção na igreja. As esculturas foram retiradas das igrejas. As pinturas permaneceram. No governo de Miguel III, as esculturas voltaram às igrejas sob a justificativa de que não eram sagradas em si mesmas, mas tão somente representavam o sagrado (842 a 867). O uso de imagens afinava-se com a religião eclesiástica herdada do paganismo romano. Na posição oposta colocavam-se os místicos e ascetas que advogavam o retorno ao cristianismo primitivo. O movimento iconoclasta está entre as causas do cisma na igreja cristã quando se posicionaram em pólos opostos os ramos grego e romano (1054). Os iconoclastas foram excomungados. O papa buscou apoio junto aos reis francos e afastou-se dos imperadores bizantinos. Aprofundou o abismo entre as duas principais facções do cristianismo. O movimento iconoclasta retorna com força na reforma promovida por Lutero e Calvino no século XVI (1501 a 1600). Mais do que simples retorno ao cristianismo primitivo, os protestantes retrocedem ao judaísmo. Os protestantes (luteranos, calvinistas, anglicanos e outras seitas despregadas do catolicismo) adotaram doutrina, leis e práticas do Antigo Testamento (Bíblia); adoram o deus Javé (ou Jeová) de Moisés, no lugar do Pai Celestial de Jesus e como justificativa afirmam que o deus de Moisés é o mesmo deus de Jesus, apesar das diferenças essenciais e inconciliáveis; tratam a Bíblia como “palavra de deus” a fim de revesti-la de soberana autoridade e de submeter os crentes. Os ensinamentos, o exemplo e o deus de Jesus ficaram na sombra.
A sociedade bizantina era urbana e perdulária. Constantinopla abrigava um milhão de habitantes. Edessa, Nicéia, Tarso, Tessalônia, eram grandes centros urbanos. Latifundiários, banqueiros, comerciantes e industriais competiam com a nobreza em importância social. Parte considerável da produção industrial destinava-se a artigos de luxo para consumo dos ricos (vestidos de lã e seda tecidos com fio de ouro e prata, tapeçarias de brocado e damasco ricamente coloridas, objetos de vidro e porcelana, evangelhos com iluminuras e joalheria ornamental). Embora em nível de conforto e bem-estar inferior ao da classe alta, o homem comum gozava de situação superior à do homem comum das cidades européias. O desenvolvimento econômico propiciava emprego a milhares de pessoas. Durante a agressão dos muçulmanos, a população de Constantinopla cresceu com a chegada dos refugiados. Isto gerou problema de emprego, habitação, higiene, saúde e consumo de bens. Os servos se mantinham servos pelo nascimento; a servidão era hereditária. Os escravos destinados aos serviços domésticos gozavam de uma existência mais confortável. Em todas as camadas sociais, principalmente na mais alta, notavam-se condutas extremadas de vícios e virtudes; de um lado, indulgência excessiva, sensualidade depravada, crueldade; de outro, abstinência plena, pieguice e caridade. Na corte do imperador, no palácio dos nobres e no alto clero eram normais a indolência, a intriga, as maneiras efeminadas, a pederastia e o lesbianismo.    
A civilização bizantina contribuiu para a ciência do direito com a providencial revisão e codificação determinada por Justiniano logo que ele assumiu o governo (527).  A comissão de juristas por ele nomeada elaborou uma coletânea de leis vigentes desde o reinado de Adriano. Essa coletânea recebeu o nome de Código.  Posteriormente, o Código foi atualizado por um conjunto de leis promulgadas por Justiniano e seus sucessores. Esse conjunto recebeu o nome de Novelas. A doutrina dos jurisconsultos romanos foi reunida em um compêndio denominado Digesto. Os princípios fundamentais do direito extraídos das leis e dos costumes foram lançados em um livro denominado Institutas. Em seu conjunto, o Código, as Novelas, o Digesto e as Institutas compõem o Corpus Juris Civilis. Alguns conceitos antigos sofreram modificações sem serem revogados. O jus civile estendeu-se para além dos cidadãos romanos. O jus naturale revestiu aura divina e se colocou em patamar superior ao da lei humana. O imperium e a auctoritas do imperador eram supremos e o alçavam às alturas da divindade; somente a lei divina era limite ao seu poder.
Dois filósofos se destacaram: João de Damasco no século VIII (701 a 800) e Miguel Psellus no século XI (1000 a 1100). O primeiro combinou, pela primeira vez, em defesa da fé racional, os ensinamentos aristotélicos com os ensinamentos da Bíblia e dos padres e, assim, deu origem à escolástica. Nesta linha persistiria com grande sucesso Tomas de Aquino no século XIII (1201 a 1300). O segundo (Psellus) de afilado senso crítico no estilo que mais tarde consagraria Voltaire, chefiou o renascimento pagão e defendeu a liberdade de pensamento. Os acontecimentos do império bizantino foram registrados pelo historiador Procópio, contemporâneo de Justiniano. Ainda no campo intelectual, João, O Gramático, abordou questões físicas. Ele refutou as teorias vigentes sobre gravidade e movimento; expôs o conceito de inércia; negou que a velocidade da queda dos corpos fosse diretamente proporcional ao peso. Na área médica, Écio descreveu a difteria e descobriu mais casos de doença dos olhos. Simeão Seth arrolou em dicionário propriedades curativas de drogas.
A arte bizantina vinha prenhe de misticismo e espiritualidade graças à forte influência da religião cristã. A arquitetura teve sua grande expressão na igreja de Santa Sofia (Sabedoria Sagrada) construída pelo imperador Justiniano. Simbolizava a grandeza e a supremacia da religião cristã. A planta estrutural foi inovadora. A cruz foi o desenho básico. Sobre o quadrado central, colocou-se cúpula magnífica apoiada em quatro grandes arcos procedentes de pilares plantados em cada canto do quadrado. A aparência externa mereceu pouca atenção. Toda riqueza artística e simbólica concentrou-se no interior da igreja: mosaicos coloridos com folhas de ouro, colunas de mármore colorido, vitrais colocados nos lugares certos para refração dos raios solares e inundar a atmosfera da igreja de cores e desenhos como um caleidoscópio. Refinamento espiritual: dar a impressão de que a luz nascia no interior da igreja. Além da arquitetura, a arte bizantina incluía a pintura, a escultura de marfim, objetos de vidros com relevo, mosaicos, brocados, iluminuras em textos, ourivesaria. Representações de Jesus e dos santos geralmente eram deformadas para despertar piedade nos crentes.
A Rússia dos czares imitou, em grande parte, as instituições e as realizações bizantinas. A igreja russa filiou-se à igreja ortodoxa grega com sede em Bizâncio. À semelhança do imperador bizantino, o Czar também era o chefe do estado e da igreja. A civilização bizantina é o berço da arquitetura, do calendário e de grande parte do alfabeto dos russos. Os eruditos bizantinos legaram ao ocidente cópias de manuscritos, antologias da literatura grega e enciclopédias. A produção intelectual e artística do mundo bizantino influiu na renascença italiana e no mundo europeu medieval. O amplo comércio entre Constantinopla e Veneza favoreceu a relação cultural entre oriente e ocidente. A igreja de São Marcos, em Veneza, imita o estilo bizantino. O Corpus Juris Civilis foi o instrumento de transmissão da ciência prática e especulativa do direito à fase final da idade média européia e ao mundo moderno. 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

FILOSOFIA IX



Bizâncio (330 a 1453 d.C.)

A civilização bizantina, que durou um milênio, começa a formar-se ao longo de dois séculos depois que o imperador Constantino decidiu mudar a capital do império romano para Bizâncio (324). Por isso mesmo, não se fala em data precisa do início desta civilização. Precisar data inicial de uma civilização que tem matriz cultural em outra é tarefa quase impossível. A matriz cultural de Bizâncio era Roma. Há sempre um período de gradual mudança até a nova civilização reunir características próprias. A nova capital denominou-se Constantinopla (330). Hoje, o seu nome é Istambul (Turquia). A parte menor do território desse império situava-se na Europa e a parte maior na Ásia Menor, no Oriente Próximo e na África. Justiniano empreendeu a reconquista de partes perdidas do império romano. Todavia, enorme faixa de norte a sul da Itália ficou em poder dos lombardos; a parte central e norte da Espanha, com os ostrogodos; a Gália, com os francos. Bizâncio ficou com o sul da península italiana, incluindo a Sicília, com as ilhas da Sardenha, com a Córsega e Creta e com as cidades de Ravena, Gênova e Nápoles. Na África, o império bizantino incluiu o Egito e Cartago; no Oriente Próximo, a Palestina, Fenícia e Síria. Esta nova civilização adquiriu feição oriental. Predominava o idioma grego. A cultura literária, artística e científica era acentuadamente helenística. A cultura religiosa era cristã de traços místicos, abstratos e pessimistas. O regime político era despótico e teocrático. A população era formada de armênios, egípcios, eslavos, fenícios, germanos, gregos, judeus, mongóis, persas e sírios. Os bizantinos nutriam certa animosidade em relação à igreja de Roma, aos italianos, aos normandos e aos germanos.
Durante o governo de Heráclio, que assumiu o título de basileu (principal ocupante do palácio real), Bizâncio recuperou todas as províncias que a Pérsia havia conquistado (610 a 641). Os califas empreenderam sucessivos ataques a Bizâncio. A guerra com a Pérsia enfraquecera os contendores. Disto se aproveitaram os árabes para lhes conquistar territórios (1071). Para libertar o imperador Diógenes das mãos dos turcos, Bizâncio teve de pagar vultosa quantia. Para se defender dos ataques dos muçulmanos, Bizâncio pede ajuda aos povos cristãos do ocidente. Estes organizam cruzadas sob a inicial orientação do papa Urbano II. A primeira cruzada invadiu Nicéia e não devolveu as terras conquistadas como prometera. A segunda saqueou a região balcânica. A terceira liderada por Frederico Barbarubra (roxa?) da Alemanha, Ricardo Coração de Leão da Inglaterra e Felipe II da França, além de não livrar Constantinopla, ocasionou a deposição do imperador Andrônico. A quarta cruzada, patrocinada por Enrico Dândolo, Doge de Veneza, “libertou” Constantinopla, porém a saqueou tal qual faziam os bárbaros e instaurou a monarquia latina (1204 a 1260). Apesar dos infortúnios provocados por seus “salvadores” ocidentais, a civilização bizantina recupera poder, influência e prosperidade até a tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos quando, então, chega ao fim (1453).
A longa duração da civilização bizantina deve-se a alguns fatores tais como: (1) governo forte, centralizado e penetrado pela religião; (2) disposição popular favorável ao regime; (3) conservadorismo e timidez – expressões da lei social de inércia – quanto a realizações novas e aventureiras; (4) localização geográfica de Constantinopla que desestimulava invasões {cercada de água por quase todos os lados e de altas muralhas com fossos profundos, o que não impediu duas quedas: a primeira nas mãos dos cruzados; a segunda nas mãos dos turcos}; (5) indústria e comércio estáveis; (6) colossal tesouro do estado a garantir a defesa e o desenvolvimento. O poder do imperador era soberano e absoluto; a sua força temporal e a sua dignidade espiritual se equivaliam e estribavam-se na convicção de que: (1) o imperador era o vigário de deus, ungido com a autoridade dos apóstolos, legítimo sucessor da púrpura romana e monarca do mundo; (2) o império era o único e legítimo herdeiro da civilização cristã grega e romana, santificado instrumento de deus; (3) a fé religiosa legitimava o patriotismo cívico e este amparava a religião. As reformas implantadas por Diocleciano e Constantino orientavam a administração pública centralizada sem prejuízo das administrações regionais (prefeituras, dioceses e províncias). O imperador era auxiliado por vasta, racional e competente burocracia. Funcionários especializados espiavam a vida dos habitantes do império. Os súditos se prostravam diante do imperador e se declaravam seus escravos. A delação era incentivada. Além de explorar diretamente a indústria, o estado exercia o controle virtual das atividades sociais e econômicas; fixava o salário dos trabalhadores e o preço das mercadorias; mantinha o sistema corporativo, o que reduzia o direito do indivíduo de escolher profissão fora da corporação; determinava ao produtor a quantidade e a qualidade da matéria-prima de que podia dispor e as condições da venda do seu produto. Havia latifúndios e poucos lavradores independentes. Na terra trabalhavam também arrendatários e servos. O camponês que vivesse por mais de 30 anos na mesma terra, dela ficava proibido de sair, consoante decreto do imperador Anastácio (401 a 500). Ante a falta de apreciável rentabilidade da lavoura de um lado e a valorização do ascetismo de outro, muitos lavradores buscaram refúgio nos mosteiros e a estes doavam suas terras. Em conseqüência, os mosteiros tornaram-se ricos proprietários e empregavam servos para o trabalho agrícola. Notória se tornou a cruel exploração dos servos pelos monges. Esta dura realidade levou o imperador Leão III a baixar legislação protetora dos pequenos agricultores e a codificar as leis (Código Agrário + Écloga). Bispos e abades fizeram forte oposição à tentativa do imperador de abolir a servidão (701 a 800).
Fenômeno social interessante ocorreu em Bizâncio: o povo discutia religião como hoje se discute futebol no Brasil. Discussões teológicas que hoje consideramos estéreis eram relevantes para os bizantinos. {Aliás, discussões teológicas absurdas, insignificantes ou estéreis não faltam no mundo ocidental desde a idade média até a idade contemporânea}. Os bizantinos travavam intermináveis debates sobre questões insípidas. O exemplo mais citado é o da discussão em torno do sexo dos anjos; se eram ou não assexuados; se eram todos do sexo masculino ou de ambos os sexos. A discussão partia do pressuposto da existência de anjos. Esta existência era vista pelos crentes como axiomática. A substância e a forma dos anjos, entretanto, eram problemáticas. A quem não acredita em anjo e menos ainda em mundo espiritual, toda essa discussão afigura-se baboseira. Gregório de Nisa, bispo da igreja bizantina, faz o seguinte comentário: “Todos os lugares estão cheios de pessoas que dizem coisas ininteligíveis: as ruas, os mercados, as praças e as encruzilhadas. Pergunto quantos óbulos tenho de dar; em resposta, filosofam sobre os nascidos e os não nascidos. Quis saber o preço do pão e alguém me responde: o Pai é maior que o Filho. Pergunto se meu banho está pronto e alguém responde: o Filho foi feito do nada”.
A partir da oficialização do cristianismo, a igreja assume os assuntos sobre deus e religião com soberana autoridade. Os assuntos temporais ficam a cargo do imperador. A filosofia fica sob os cuidados da igreja e se destina a justificar a supremacia do cristianismo. Ário, sacerdote de Alexandria, afirmava que o pai celestial prevalecia sobre o filho e ambos eram pessoas distintas. A doutrina oposta afirmava a unidade do pai e do filho. O Concílio de Nicéia votou pela ortodoxia: pai e filho situam-se no mesmo nível, idênticos em substância, porém diferentes como pessoas (325). Os movimentos monofisista e iconoclasta também se incluem entre as lutas doutrinárias desse período. O primeiro afirmava que a natureza de Cristo era exclusivamente divina; fincava alicerces no platonismo: desprezo pelo aspecto material da vida. Nestor, patriarca de Constantinopla, afirmava que havia duas pessoas: o Cristo homem e o Cristo filho de deus. A igreja de Roma defendia a dupla natureza do Cristo: física e espiritual. Confirmou este entendimento no Concílio de Calcedônia ao rejeitar o monofisismo (451). Na época de Justiniano, a tensão entre os dois pólos chegou ao ápice (527 a 565). Esse imperador vacilou entre as duas posições. Pretendia concomitantemente: (I) a unificação dos súditos sob uma só fé a que todos se curvassem; (II) o apoio da igreja de Roma. A esposa de Justiniano, Teodora, atriz famosa, pertencia à seita monofisista e isto contribuiu para que o imperador se decidisse por esta crença. No século seguinte, a seita monofisista separou-se da igreja bizantina e sobreviveu no Egito, na Síria e na Armênia, como ramo do cristianismo.