No texto abaixo, final do segundo
parágrafo, houve erro datilográfico. Onde constava “Nova Constituição (1991)”
passou a constar o correto “Nova Constituição (1891). Desculpem-me.
Volto na quinta-feira (15/08/2013) com alguns versos. Atenciosamente,
ASLima.
domingo, 11 de agosto de 2013
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
O BRASIL E A CONSTITUIÇÃO XXV
Estados da América do Sul buscam união em torno de
interesses aduaneiros. Conflitos do passado e rivalidade entre o Brasil e
paises vizinhos dificultam o entendimento. A Venezuela lança a doutrina
bolivariana de solidariedade entre esses países e advoga a ruptura dos
laços coloniais com os EUA. Norma programática da Constituição brasileira de
1988 dispõe sobre a integração dos povos da América Latina e a formação de uma
comunidade latino-americana de nações. Combatentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia acampados no Equador,
considerados bandidos comuns, foram mortos enquanto dormiam pelo exército
regular da Colômbia (2008). A violação da soberania territorial do Equador pela
Colômbia recebeu solução amigável no âmbito da Organização dos Estados
Americanos. O Brasil enviou contingente militar ao Haiti contribuindo para a
paz internacional, tal como enviara nos anos 50 ao Suez, e nos anos 60, à
República Dominicana.
As relações com países africanos se intensificaram no
governo Silva. O presidente Luiz Inácio perdoou dívida africana para redimir o
Brasil do pecado da escravatura, embora tenha sido o governo português o
fundador e mantenedor da sociedade escravocrata na América Portuguesa de 1500 a 1822. Os negros foram
vendidos como escravos pelos negros da África aos homens brancos da Europa e da
América. Negro também tinha escravo negro lá e cá. A maldade é branca, preta,
amarela, vermelha e mestiça. Após a independência e o fim do conflito com
Portugal (1822 a
1825) o governo brasileiro proibiu o tráfico negreiro (1850), concedeu
liberdade ao nascido de mulher escrava (1871) e ao escravo com idade igual ou
superior a 60 anos (1885) e extinguiu a escravidão (1888). Com caneta de ouro
feita especialmente para a cerimônia, a princesa regente assinou o decreto de abolição
quando a Constituição brasileira vigorava há 64 anos (1824-1888). Isabel sabia
que isto poderia custar o trono. Decorridos 19 meses, instaura-se a república
(1889). Nova Constituição (1891).
Na América Latina o espírito monárquico e
aristocrático sobrevive no caudilho, no governo ditatorial, nas oligarquias e
na democracia simiesca. O regime democrático exige igualdade social, primazia
do bem comum, Constituição e leis sintonizadas com as aspirações nacionais e
com os valores vigentes na sociedade, efetiva participação do povo nos negócios
do Estado, governantes escolhidos em eleições periódicas e sujeitos à
fiscalização e ao controle dos governados, alicerces econômicos, sociais e
morais tais como: energia, siderurgia, tecnologia, informação, ciência, educação,
saúde, transporte, segurança, trabalho, honestidade, solidariedade, espírito
público, amor ao país.
No Brasil, a fragilidade dessa base o torna arremedo
de democracia. Parcela da população continua à margem dos benefícios da
civilização. O país ainda é paraíso dos criminosos de colarinho branco. O patrimônio
público é utilizado como bem pessoal do governante. Os recursos públicos são canalizados
ilicitamente para o setor privado. A cada ano crescem a dívida pública e a
fortuna dos encastelados no governo. Há problemas crônicos tais como: (i) serviços
públicos e obras públicas deficientes; (ii) licitações fraudulentas; (iii)
corrupção; (iv) analfabetismo; (v) insegurança, impunidade. O caráter macunaima
& mazombo de parcela da nação contribui para a reinante deficiência social
e moral.
Ao ouvir a voz do povo e ver as manifestações
legítimas pelas vias públicas do território brasileiro no meado de 2013, o
Congresso Nacional com a sua atual composição de senadores e deputados
apressou-se em colocar na pauta proposições sobre: (1) extinção do voto secreto
nos assuntos legislativos, do suplente de senador e do foro privilegiado; (2)
exigência de ficha limpa para todos os ocupantes de cargos públicos; (3)
destinação de parte da receita do petróleo para os setores da educação e da
saúde. Outras propostas são cogitadas, como o fim da obrigação de filiar-se a
partido político para se candidatar a cargo eletivo (candidatura avulsa),
redução do número de partidos e de ministérios, voto distrital, rigor na
punição de certos crimes, maioridade penal aos 16 anos, fiscalização e controle
efetivo das agências reguladoras e das tarifas cobradas pelas concessionárias
de serviços públicos. A esta disposição de ânimo os parlamentares denominaram agenda positiva.
Os atuais senadores e deputados silenciam sobre a
exigência de qualificação acadêmica para cargos eletivos federais, escolaridade
secundária completa para cargos eletivos estaduais e municipais; redução do
número de senadores, deputados, vereadores e funcionários; extinção dos
penduricalhos nos subsídios e vencimentos que triplicam o valor básico; comparecimento
ao trabalho nos cinco dias úteis da semana; elevar à categoria de honorário e
não remunerado o mandato parlamentar. Os parlamentares trabalham três dias na
semana, recebem cerca de 60 mil reais por mês além da assistência médica,
hospitalar, automóvel e outras mordomias. Entram em “recesso branco” (férias)
sem cumprir disposição expressa da Constituição: “a sessão legislativa não será
interrompida sem a aprovação do projeto de lei de diretrizes orçamentárias” (CF
57, §2º). Certamente, o povo saberá, doravante, como escolher seus
representantes e colocá-los na linha. O mandato do representante há de ser revogável
no curso da legislatura. Esse poder do eleitor deve constar expressamente do
texto constitucional.
No dia 05 de
outubro de 2013 a
Constituição completará 25 anos de vigência. Essa lei fundamental do Estado
brasileiro serviu de base a uma estabilidade institucional sobre a qual havia
ceticismo. Apesar da formidável quantidade de emendas, os seus alicerces
permanecem intocados. O excesso de emendas deve-se a inúmeras matérias que
poderiam estar fora do texto constitucional e ser tratadas por meio de leis
infraconstitucionais. A Constituição traz esse vício desde o nascedouro:
prolixidade. A experiência autocrática levou o povo brasileiro a valorizar a
Constituição que organiza a democracia e a reveste de juridicidade. O Poder
Judiciário foi provocado com maior freqüência para garantir a eficácia dos
princípios e normas constitucionais. Isto importa em conhecer, no devido
processo jurídico, matérias políticas, sociais e econômicas relevantes para a
nação e apresentar soluções amparadas no direito. Juízes e tribunais cumprem
essa missão essencial ao Estado Democrático de Direito.
A série “O Brasil
e a Constituição” chega ao seu final. Espero que tenha sido proveitosa e
agradável a todos que tiveram paciência de acompanhá-la até este ponto. Faço
votos para que as manifestações populares de junho e julho de 2013 bastem para
se efetivarem as mudanças reclamadas pela nação brasileira e que não seja
necessário o apelo às armas.
Aceitem o meu fraternal abraço. Antonio
Sebastião de Lima.
terça-feira, 6 de agosto de 2013
O BRASIL E A CONSTITUIÇÃO XXIV
A história dos povos ocidentais revela uma seqüência
de crises. Esse fato induz a pensar em movimentos cíclicos necessários à
evolução dos costumes, da arte, da técnica e da ciência. A crise pode ser vista
como um agente catalisador a provocar esforços humanos para que novos caminhos
sejam abertos e novas soluções sejam encontradas. A crise pode ser comparada à
irrupção vulcânica, movimentos imperceptíveis no subsolo da nação que em dado
momento irrompem na superfície. Dela advêm soluções ao sabor dos grupos influentes.
Na esfera internacional, o sistema capitalista atravessou crises que culminaram
com o neoliberalismo teórico na primeira metade e prático na segunda metade do
século XX. Verificaram-se notáveis mudanças na Europa que se refletiram no
mundo ocidental. Mikhail Gorbachev iniciou a reestruturação política e
econômica da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas - URSS (perestroika,1985). Hungria, Polônia, Bulgária,
Romênia, Tchecoslováquia, romperam os vínculos políticos com a URSS no mesmo
ano em que o muro de Berlim veio abaixo (1989). A Alemanha se reunifica (1990).
Armênia, Bielorússia, Casaquistão, Estônia, Geórgia, Letônia, Lituânia,
Moldávia, Rússia e Ucrânia desvinculam-se da federação soviética. Gorbachev
assina o decreto de dissolução da URSS (dezembro, 1991). A guerra fria chega ao
fim. Disto se aproveita o governo Reagan para estabelecer uma ordem mundial em
sintonia com os interesses dos EUA, induzindo à globalização da economia.
Argumentando com o fracasso do socialismo democrático, Margareth Thatcher, no
governo da Inglaterra, adota política conservadora e substitui o Estado do
Bem-Estar pelo Estado Liberal (desregulamentação, privatizações). O Mercado
Comum Europeu evolui para União Européia, cria moeda própria (Euro, 1999) e
elabora projeto de Constituição. A onda neoliberal leva de cambulhada países
periféricos, inclusive o Brasil no governo Cardoso (1995-2002).
A interdependência dos países no mundo contemporâneo
assume cores fortes nos momentos críticos. Nos anos 70 do século XX ficou
dramática a situação dos países importadores de petróleo. A OPEP suspendera o
fornecimento de petróleo aos EUA e demais aliados de Israel. Ao recomeçar o
fornecimento, o preço do barril aumentou e o PIB brasileiro despencou após um
crescimento de 11,4% (1973). Na primeira década do século XXI o preço do
petróleo sobe acima de US$100 o barril (2008). A implosão da URSS mudou o mapa
europeu e a correlação de forças no mundo. A União Européia e a China concorrem
com a economia dos EUA e do Japão. A China se mantém no socialismo pragmático
introduzido por Deng Xiaoping (1978). A economia chinesa cresce 10% ao ano e o
seu PIB chega a 02 trilhões e 600 bilhões de dólares em 2006. O déficit
comercial dos EUA em relação à China foi superior a 250 milhões de dólares em 2007.
Cingapura, Coréia do Sul, Hong-Kong e Taiwan recebem o apelido de tigres
asiáticos graças ao crescimento econômico naquele período. A
robotização reduz o número de vagas para operários nas fábricas. Crescem o
consumo de energia e a demanda por automóveis, telefones celulares,
computadores e derivados.
A conquista do espaço sideral, os problemas comuns em
escala planetária e as comunicações sem fronteiras geram consciência
cosmopolita. A Física propõe hipótese sobre o limite espacial do universo, plasma
universal, matéria escura, forma primária da matéria (teoria das cordas), dimensões
subatômicas e introduz o acaso e o caos na especulação científica.
Diversifica-se a aplicação do raio laser, das fibras óticas e do silício (chips
eletrônicos, semicondutores em transistores, cristais para relógios de
precisão, aplicação no aço, bronze e vidros). Criam-se aparelhos de sondagem
interna do corpo humano; técnicas cirúrgicas são aperfeiçoadas; órgãos humanos
são transplantados. A humanidade percebe que mananciais podem secar, a poluição
afeta o clima e a saúde, o aquecimento global provoca o degelo no pólo e a
elevação do nível do mar. A consciência ecológica se expande e se universaliza.
A engenharia genética se desenvolve; o código genético é decifrado. Há clonagem
animal, hibridismo vegetal e rações compondo a indústria agro-pecuária. Religiosos
se opõem ao aborto, a métodos anticoncepcionais, à pesquisa com células tronco-embrionárias
e a uniões homossexuais. AIDS, câncer, diabetes, epidemias, desafiam a ciência
médica e matam milhares de pessoas no mundo. Países carecem de remédios,
assistência médica e hospitalar, alimentos, moradia, escolas e saneamento
básico. Nota-se reação social contrária ao consumo de bebidas alcoólicas e
tabaco (de cujas indústrias os governos recebem gordos tributos).
Horrores do século XX como as explosões atômicas em
Hiroshima e Nagasaki e o extermínio em massa de prisioneiros de diversas etnias
nos campos de concentração germânicos no decorrer da segunda guerra mundial
marcaram a humanidade e colocaram o ser humano face a face com a sua natureza
demoníaca. Essa desgraça aproximou os povos que organizaram as Nações Unidas em
1945, quando celebraram o pacto de paz e de colaboração recíproca. O terror
rebelde (Al-Qaeda) e o terror oficial (EUA) causaram choque de aeronaves contra
o Pentágono e o World Trade Center e a invasão do Afeganistão e Iraque (2001,
2002, 2008). Vem a lume a existência de grupos poderosos interessados em
reduzir a população mundial por meios insidiosos. Drogas com efeitos colaterais
danosos circulam livremente no mercado. O lucro da indústria farmacêutica prevalece
sobre o interesse pela saúde da população.
No Brasil, a crise dos anos 60 do século XX gerou mecanismos
progressistas no campo econômico e práticas conservadoras na esfera política.
Com a Constituição de 1988, o Brasil voltou ao modelo social democrático. Legislativo,
Executivo e Judiciário funcionam em favor de pessoas e grupos influentes. O
povo manifesta indignação diante da extensão dos abusos ocorridos na sociedade
envolvendo senadores, deputados, presidentes, magistrados, ministros, gestores de
empresas públicas e de instituições financeiras, banqueiros e empresários. O ativismo
social ocorre através das comunidades eclesiais, dos círculos bíblicos, de
associações civis de bairros, de mulheres, negros, homossexuais, consumidores,
estudantes, vítimas de acidentes e de crimes, trabalhadores sem terra e sem
teto, profissionais liberais. O ativismo também se manifesta de modo difuso com
reivindicações genéricas e protestos como aconteceu em 2013. Bilhões de reais
do erário são destinados a organizações não governamentais que não cumprem devidamente
as finalidades previstas nos seus estatutos e nem prestam contas; os desvios
costumeiros indicam a utilização do dinheiro em gastos pessoais e despesas de
partido da base governista.
A maior parte da população brasileira concentra-se nas
cidades. Agrava-se a má qualidade da vida nas grandes cidades; crescem as comunidades
(favelas sem barracos e urbanizadas); imóveis públicos e privados são invadidos.
O espaço urbano se valoriza, a especulação imobiliária aumenta e propicia
corrupção no licenciamento de obras. A construção civil continua como fonte de
emprego ao lado das pequenas e médias empresas. O trânsito urbano congestionado
nas grandes cidades causa sérios transtornos à população. Rio de Janeiro e São
Paulo possuem trens de superfície e de subsolo (metropolitano). A cultura física e a busca por dietas e
hábitos saudáveis se integram aos costumes urbanos. As igrejas disputam o
mercado da fé, cada qual buscando mais contribuintes; servem-se das emissoras
de rádio e televisão, além dos cultos em seus templos. Novelas de TV, carnaval,
música, esporte, ganham espaço internacional. O cinema se projeta
esporadicamente com o realismo social de filmes como O Cangaceiro, Eles
Não Usam Black-tie, Pixote, Cidade de Deus, Central do Brasil,
Tropa de Elite.
domingo, 4 de agosto de 2013
O BRASIL E A CONSTITUIÇÃO XXIII
As normas do regime anterior compatíveis com a
Constituição de 1988 permanecem no ordenamento jurídico. Leis expedidas pela
autocracia civil (1937 a
1945) e pela autocracia militar (1964
a 1985) ainda estão em vigor. O fenômeno da
recepção ocorre na passagem de uma ordem jurídica a outra e evita rupturas
desnecessárias. O legislador ordinário cuidou, entre outras, das seguintes
matérias: (1) adesão à Convenção
Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica) e ao
Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional; (2) mar territorial, bens da União, procedimento administrativo
demarcatório de terras indígenas; (3)
partidos políticos, proteção ao consumidor, acesso a informações, registros
públicos, gratuidade dos atos necessários ao exercício da cidadania inclusive das
certidões para defesa de direitos; (4) educação nacional, vigilância sanitária,
licenciamento ambiental, sanções por condutas lesivas ao meio ambiente; (5) segurança e mecanismos de
fiscalização de atividades que envolvam organismos geneticamente modificados; (6) presidência da república, ministérios,
declaração de bens e da fonte de renda de autoridades e servidores; (7) desestatização, telecomunicações,
agências nacionais de energia, transporte, água e saúde; programa de gestão das
empresas estatais, enriquecimento ilícito de agentes públicos, responsabilidade
na gestão fiscal; (8) parceria
do poder público com organizações privadas para fomento e execução de projetos
e programas de interesse público; licitações e contratos da administração
pública, reajuste de preços nos contratos da administração federal, concessões
e permissões de serviços públicos e obras públicas; (9) servidor e emprego público, concurso público e nomeação para
cargos de provimento efetivo, remuneração de servidor público, limites das
despesas com o funcionalismo público, jornada de trabalho dos servidores da
administração pública federal, contratação temporária de pessoal; (10) greve, previdência social, piso
salarial fixado pelos Estados e Distrito Federal; (11) política urbana, concessão de uso especial de imóvel público
situado em área urbana, reforma agrária, cédula de produto rural, cédula de
crédito imobiliário, cédula de crédito bancário, financiamento de imóveis,
alienação fiduciária de imóvel; (12)
código civil, código florestal, locação, fiança locatícia, despejo, revisão de
aluguel; (13) planejamento familiar, união estável, sucessão e alimentos entre
companheiros, violência doméstica, bem de família, investigação de paternidade,
estatuto da criança e do adolescente, estatuto do idoso, transplante de órgãos;
(14) propriedade industrial,
propriedade intelectual de programas de computador, direito autoral; (15) mercado de valores mobiliários,
protesto de títulos, recuperação de empresa, falência, estatuto da
microempresa, franquia empresarial, sociedade por ações, cooperativa de
trabalho; (16) instituições
financeiras, sigilo bancário, conflito de leis em matéria de cheques; (17)
Conselho Administrativo de Defesa Econômica, arbitragem; (18) imposto de renda, imposto sobre a
propriedade territorial rural, contribuição de intervenção no domínio
econômico, contribuição provisória de movimentação financeira, crédito
tributário, processo administrativo fiscal; (19) ministério público, advocacia; (20) ação de constitucionalidade (positiva e negativa), argüição
de descumprimento de preceito fundamental, normas procedimentais perante o
Supremo Tribunal Federal e o Superior Tribunal de Justiça, súmula vinculante; (21) ações penais originárias nos
tribunais de justiça e nos tribunais regionais federais (privilégio de foro),
acordos e transações nas causas em que figurarem no pólo ativo ou passivo a
União e os entes da administração pública indireta, prioridade dos
procedimentos derivados de inquérito parlamentar; (22) ação civil pública especial por danos causados aos
investidores no mercado de valores mobiliários; (23) medidas cautelares contra atos do poder público, antecipação
da tutela jurisdicional, juizados especiais, proteção a testemunha e a vítima,
informatização do processo judicial, inversão do ônus da prova, prisão temporária,
execução penal; (24) sistemas
nacionais de armas e de combate às drogas, de informações de segurança pública,
identificação criminal; (25) crime hediondo, de tortura, de preconceito, de trânsito,
de repressão uniforme, de extermínio de seres humanos; (26) crime eleitoral, contra
o deficiente físico, o trabalho, a economia, o sistema tributário; (27) improbidade administrativa,
interceptação telefônica, lavagem de dinheiro, organização de fins ilícitos.
O legislador constituinte ditou normas visando ao desenvolvimento
econômico e social das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Desde 1930, pelo
menos, governos autocráticos e democráticos tiveram essa preocupação. O turismo
se intensificou nessas regiões. Cresce reação da sociedade civil contra o desmatamento
feito por empresas agro-pecuárias, madeireiras e mineradoras. O comércio
ilícito de minérios, plantas e animais silvestres preocupa a sociedade. O
governo Silva defendeu o desenvolvimento sustentável. A demissão da senadora
Marina Silva, do Ministério do Meio Ambiente, repercutiu no mundo e preocupou
os ambientalistas (maio, 2008). Reservas indígenas de dimensões enormes comprometem
a soberania territorial. Sob orientação estrangeira, dezenas de nações
indígenas poderão reivindicar autonomia como advertiu o indianista Villas Boas
referindo-se à região de terras contínuas do Brasil e Venezuela. Desse perigo,
o Comando Militar da Amazônia alertou o governo e a nação em 2008. Há terras
ricas em minérios dentro das reservas indígenas. Em hectares a elas destinados,
o governo homologou: 14 milhões e 370 mil (Sarney), 31 milhões e 800 mil
(Collor e Itamar), 41 milhões e 43 mil (Cardoso) e 12 milhões e 300 mil (Silva,
até 2007), números estes que não podem ser somados em virtude das revisões e
superposições.
Usinas hidrelétricas suprem de energia vastas regiões
do território nacional. Usinas nucleares e termoelétricas suplementam o
fornecimento. Ambientalistas se posicionaram contra a construção da terceira
usina nuclear de Angra dos Reis. A produção de petróleo aumentou. Aguarda-se a
suficiência ante a exploração das reservas descobertas no campo Tupy (bacia de
Santos), no campo Carioca (Angra dos Reis) e no pré-sal (litoral fluminense e
capixaba). O combustível de álcool teve boa receptividade. Produzido a partir
da cana de açúcar, o álcool não interfere na produção de grãos. O automóvel de
motor elétrico começa a ganhar espaço por ser econômico, não poluir o ambiente
e lembrar que o petróleo um dia acaba.
A manutenção e conservação de algumas rodovias foram
confiadas a empresas particulares que abusam na cobrança do pedágio com o
beneplácito da agencia reguladora (o que pode configurar violação do direito de
locomoção e corrupção). Em algumas regiões do país o estado de abandono das rodovias
impede ou dificulta o escoamento da produção rural, prejudica os produtores e
isola a população local. As ferrovias mereceram atenção do governo Silva. Do
aproveitamento dos rios para navegação e irrigação faz parte o projeto de
transposição do Rio São Francisco com o duplo objetivo de revitalizá-lo e de
levar água a áreas secas do nordeste. Movimento social contrário a esse projeto
incluiu greve de fome voluntária e intencional de bispo católico (2007 e 2008).
O transporte fluvial ainda prevalece na região amazônica e dele dependem
povoações ribeirinhas.
O crescimento da economia na vigência da Constituição
de 1988 variou de 1% a 5%. O Brasil ficou na rabeira das demais nações do BRIC
(Brasil, Rússia, Índia e China). Recessão nos EUA decorrente da
crise no sistema de crédito imobiliário repercutiu na economia mundial (2008). A
desaceleração da economia nos países desenvolvidos afeta as exportações e o
desempenho comercial dos países periféricos. Os grandes favorecidos no governo
Cardoso e no governo Silva foram os banqueiros, empreiteiros, agentes
publicitários e as quadrilhas que infestaram a administração pública. A maior
parte da renda nacional fica nas mãos de 80 mil pessoas aproximadamente (0,04%
da população em 2008). A carga tributária e as taxas de juro em patamares
elevados pesaram na bolsa do povo e afetaram negativamente o setor produtivo. A
dívida pública estava acima de 40% do produto interno bruto no primeiro
trimestre de 2008. Em reais, a dívida cresceu de R$01 trilhão e 890 bilhões em
2010 para 02 trilhões em 2012. Estima-se que subirá para 02 trilhões e 240
bilhões em 2013.
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
O BRASIL E A CONSTITUIÇÃO XXII
Sofismas
são utilizados para escapar às decisões do povo tomadas em plebiscito,
referendo ou iniciativa de lei. Os argumentos falaciosos mais freqüentes são: (i)
as consultas (plebiscito e referendo) e os projetos de lei vindos do povo servem
apenas para orientar os governantes, não criam obrigação alguma; (ii) o Congresso Nacional exerce a soberania
constituída, por isto é livre para dispor como bem lhe parecer, inclusive
contra o resultado das consultas populares. Estes argumentos afrontam a
essência da democracia: todo poder emana
do povo. A soberania é do povo e não dos seus representantes. Parlamentares,
chefes de governo e magistrados exercem a soberania em nome do povo. O
resultado da consulta é uma decisão do povo e não mera opinião ou sugestão que o
representante pode aceitar ou rejeitar ao seu talante. Tal decisão advém do
exercício direto da soberania popular, por isso mesmo, obriga governantes e
governados enquanto vigorar o regime democrático. O voto é o veículo da
decisão. No plebiscito e no referendo o povo escolhe a solução que lhe parece
melhor; não opina, nem sugere; vota. Nas ruas, praças e bairros das cidades brasileiras
nos meses de junho e julho de 2013 o povo clamava por mudança nos costumes
políticos, na mentalidade e na atuação geral dos órgãos públicos e em especial dos
governantes lato sensu (parlamentares,
presidentes, magistrados). A mensagem indicava impaciência com os paliativos,
as safadezas, o engodo. A massa popular estava a exigir providências sem delongas
e sem disfarces e uma efetiva e autêntica representação política. Sem assembléia
constituinte ou sem renovar o Congresso Nacional através de eleições e
candidaturas avulsas de gente bem qualificada do ponto de vista moral e
intelectual, as mudanças serão ilusórias.
Nesse clima conturbado e de expectativas sociais e
políticas, o Papa visita o Brasil (julho, 2013). Multidões o aclamam. Jovens de
vários países se confraternizam sob um lacrimejante céu carioca. O cenário foi
composto pela praia de Copacabana, “princesinha do mar”, obra da natureza e
pela estátua do Cristo Redentor, obra humana. O mundo assiste a um espetáculo
de fé religiosa do povo e de sagacidade política da Igreja de Roma. O Vaticano tenta
limpar a nódoa dos crimes financeiros e sexuais praticados pelo clero e que
agravam a dificuldade de inculcar nas novas gerações as falsidades contidas na
Bíblia e as mentiras da catequese. Se esse livro falacioso fosse a “palavra de
Deus” como se apregoa maliciosa e cinicamente, então Deus seria um baita enganador
à imagem e semelhança dos autores que redigiram o texto bíblico a partir de 398 a.C. A igreja não
consegue ocultar o propósito de iludir e dominar as massas, de manter a riqueza
e o poder. Traça, então, nova estratégia para não perder adeptos e conquistar
novas cabeças e aumentar o rebanho e o tesouro. Essa estratégia inclui: (i) trocar
um papa de aparência nazista por um papa de aparência franciscana; (ii) adotar discurso
em favor dos pobres; (iii) seduzir os jovens (a igreja dispõe de peritos e
cantores).
Nações se alarmam com a espionagem dos EUA denunciada
por indivíduo que prestava serviço no setor de segurança nacional (julho, 2013).
A presidente Dilma pede explicações ao governo estadunidense. Aos seus
auxiliares, ela solicita estudos visando a reduzir os riscos de invasão à
privacidade dos usuários públicos e particulares da rede de computadores no
Brasil. Ouviram-se veementes protestos no Congresso Nacional. O teatral
esbravejar dos parlamentares brasileiros é manifestação de hipocrisia. Eles fizeram
pior do que o governo estadunidense: permitiram que pessoa jurídica (integrada
por brasileiros e estrangeiros) fosse proprietária de empresas jornalísticas e
de radiodifusão sonora e de sons e imagens; permitiram entrada de capital
estrangeiro nessas empresas. Parcela da população sem juízo crítico, segue o padrão
transmitido por rádio, televisão e rede de computadores, arquitetado por
estrangeiros donos dos meios de comunicação. A fim de salvaguardar a soberania,
os valores e a cultura da nação brasileira, as constituições republicanas proibiam
aos estrangeiros a propriedade dessas empresas e a participação de pessoa
jurídica no capital social. Moedas romperam essa tradição em 2002 (EC 36 + lei
10.610). Daí, a colonização cultural; daí, o filtro do noticiário sempre favorável ao governo dos EUA e de
Israel e desfavorável aos seus adversários ou inimigos; daí, a exibição maciça de
filmes enaltecendo esses governos e lembrando o holocausto dos judeus para
eternizar a falsa imagem de únicas vítimas e justificar o genocídio que
praticam contra os palestinos; daí, entrevistas, reportagens e documentários tendenciosos;
daí, a alusão pejorativa aos governos que não gozam da simpatia dos EUA e
Israel (Bolívia, Coréia do Norte, Cuba, Irã, Venezuela); daí, a falta de
isenção e de honestidade nas transmissões, a deturpação na linguagem de
comentaristas e apresentadores (quem era tratado de “presidente” quando satisfazia
interesses dos EUA e de Israel, passa a ser tratado de “ditador” quando não
mais os satisfaz; defensor dos interesses contrários aos dos EUA e de Israel é
“terrorista”, e assim por diante).
O legislador constituinte dotou o Poder Judiciário de
autonomia administrativa e financeira, estruturou-o com tribunais e juízes
federais, estaduais, eleitorais, trabalhistas e militares e manteve as
garantias de vitaliciedade, inamovibilidade e irredutibilidade dos subsídios dos
magistrados. Aos juízes e tribunais compete o controle da constitucionalidade e
da legalidade dos atos do poder público, conhecer e solucionar controvérsias à
luz do direito. Aos tribunais cabe administrar a sua economia interna e tomar a
iniciativa das leis nos casos especificados na Constituição. O supremo tribunal
pode elaborar súmula de efeito vinculante sobre matéria objeto de reiteradas
decisões. Na hipótese de violação grave dos direitos humanos, a competência da
Justiça Estadual poderá ser deslocada para a Justiça Federal a pedido do
Procurador-Geral da República. Aos juizados especiais compete processar causas
cíveis de menor complexidade e infrações penais de menor potencial ofensivo. Mediante
emenda à Constituição, o legislador ordinário instituiu o Conselho Nacional de Justiça
(CNJ), antes rejeitado pelo legislador constituinte. Compete ao CNJ o controle da
atuação administrativa e financeira dos tribunais e a fiscalização da conduta
funcional dos magistrados (juízes, desembargadores, ministros). Cogita-se a extinção
do privilégio de foro. A Constituição exige: (1) do Poder Judiciário: julgamentos públicos,
decisões fundamentadas, atividade ininterrupta, imediata distribuição dos
processos, número de juízes proporcional à demanda e à população da unidade
jurisdicional; (2) do juiz:
produtividade, aperfeiçoamento, residência na comarca, abstenção política partidária,
dedicação exclusiva à função judicante, quarentena antes de retornar à
advocacia junto ao juízo ou tribunal do qual se afastou.
Em 24 anos de vigência (1988 a 2012) a Constituição
recebeu 77 emendas (6 de revisão e 71 de reforma). Idéias e pretensões vencidas
na assembléia constituinte foram posteriormente incorporadas ao ordenamento
jurídico quando os seus defensores ocuparam o Legislativo e o Executivo. Amoldaram
a Constituição ao neoliberalismo. As emendas alteraram: (I) os sistemas previdenciário, tributário,
financeiro, do ensino e da administração pública; (II) as regras atinentes aos
juros, medidas provisórias, contribuições de intervenção no domínio econômico,
reunião do Congresso Nacional e contratação de agentes comunitários de saúde e
combate às endemias; autorizaram: (I) instauração de ação penal contra
parlamentar sem prévia licença da Casa; (II) reeleição do chefe de governo;
(III) participação de pessoas jurídicas no capital social de empresas
jornalísticas e de radiodifusão sonora e de sons e imagens; (IV) admissão de
professores, técnicos e cientistas estrangeiros nas universidades; criaram: (I) o Ministério da
Defesa; (II) o Plano Nacional de Cultura; (III) juizados especiais na Justiça
Federal; reformaram o Poder Judiciário; favoreceram as pequenas empresas, concederam
autonomia às instituições de
pesquisa científica, estabeleceram limites
às despesas de câmara municipal, criaram contribuição para custeio do serviço
municipal de iluminação, elevaram
o quantitativo de recursos a ser entregue pela União ao Fundo de Participação
dos Municípios, desvincularam as
candidaturas e outorgaram aos partidos liberdade de escolha das coligações, garantiram o registro nos consulados
de brasileiros nascidos no exterior. Inúmeras emendas regulam a si próprias
quando tal regulamentação é matéria de lei complementar e exige participação do
presidente da república (sanção, promulgação, publicação). Ao subtraírem da
sanção presidencial os preceitos reguladores, os parlamentares abusaram do seu
poder e desvirtuaram o processo de emenda.
quarta-feira, 31 de julho de 2013
O BRASIL E A CONSTITUIÇÃO XXI
O governo Silva lançou os programas: Bolsa-Família (reunião de programas
sociais anteriores); Luz Para Todos (energia elétrica para regiões
carentes); PAC (aceleração da economia); Territórios da Cidadania
(auxílio financeiro a jovens eleitores e carentes de 16 a 18 anos) e Minha Casa, Minha Vida (programa
habitacional que permite o financiamento de imóvel próprio à população de baixa
renda). Na outra ponta, banqueiros recebem fortunas através das altas taxas de
juro e da liberação das tarifas com a cumplicidade do Banco Central. Cada um
dos dois maiores bancos brasileiros lucrou mais de oito bilhões de reais em
2007, cifra que chegou a 13 bilhões em 2012. O governo Silva livrou o Brasil da
dependência do FMI e administrou bem os efeitos da crise mundial de 2008. O
turismo oficial, a prática quadrilheira e a corrupção do governo Cardoso
prosseguiram a todo vapor no governo Silva. Ministérios foram criados a fim de
acomodar correligionários ansiosos por mordomias e rapinagem. Diárias,
locomoções, passagens e auxílio-alimentação consumiram 03 bilhões e 180 milhões
de reais de 2003 a
2007. Milhares de servidores nomeados sem concurso público. As vísceras
putrefatas do organismo político brasileiro foram expostas nos inquéritos
parlamentares: correios e mensalão (peculato, corrupção ativa e passiva,
lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e evasão de divisas), vampiro e
sanguessuga (negociatas com plasma e ambulâncias), dólar na cueca e cartões
corporativos (dinheiro de origem ilícita para compra de relatórios, distribuição
de 11 mil cartões corporativos para saques em dinheiro e pagamento de despesas
particulares do presidente, familiares e servidores).
O governo Rousseff fechou – ao que parece – o ciclo da
corrupção desenfreada que vinha desde o governo Sarney. A presidente não
avalizou o lamaçal. Apesar desta atitude ética e positiva, o vírus encalacrado
na cultura nacional não foi removido. O problema não se localiza exclusivamente
na área política. Enquanto parcela significativa da população cultivar o jeitinho safado e a esperteza malandra a conduta dos políticos vibrará no mesmo
diapasão. Pela primeira vez na república, o Brasil é governado por mulher. No
império, ocuparam o governo como regentes a imperatriz Leopoldina (na ausência
temporária de Pedro I) e a princesa Isabel (na ausência temporária de Pedro
II). O princípio feminino deu nova cor à administração pública. Há mulheres
ocupando cargos de ministro. Os programas sociais do antecessor tiveram
continuidade (como disse a presidente: Lula
não voltará, porque ele nunca saiu). Incentivou-se a interiorização do
atendimento médico. Medida provisória permite a contratação de médicos
estrangeiros com atraente piso salarial para clinicar nas cidades do interior
do país. A máfia do jaleco branco alega deficiência qualitativa dos médicos
estrangeiros antes mesmo de existir candidato inscrito. Médicos brasileiros
mandaram às favas o juramento de Hipócrates e cruzaram os braços em protesto;
colocaram o interesse pessoal e corporativo acima da vida e da saúde da
população; reivindicam carreira de Estado semelhante à do magistério, da
magistratura e outras. Como se lhes faltassem ciência, inteligência e talento,
os médicos alegam que no interior do país há falta de equipamentos, de
instalações, de recursos e de pessoal auxiliar, o que os faz preferir as
capitais.
Em São Paulo, moças e moços protestaram nos logradouros públicos sem
líderes aparentes, sem ideologia, sem cores partidárias, num movimento
instintivo, aberto e político no seu mais elevado sentido (junho, 2013). As
tentativas de exibir bandeiras foram rechaçadas. A massa estava desiludida com
os políticos profissionais, rejeitava os partidos políticos e atuava por conta
própria. Houve contágio através da rede de computadores e do noticiário de
rádio e televisão. O movimento ganhou as ruas e praças de várias cidades das
diversas regiões do país. A massa popular mostrou insatisfação com o estado de
coisas vigente na esfera pública. A má conduta de senadores, deputados,
presidentes, ministros, magistrados, governadores, secretários, prefeitos,
vereadores, leva o povo a invadir e depredar prédios públicos e privados. A
usura e os lucros acintosos dos bancos, o abuso nos preços e nas tarifas e o atendimento
precário (empregados despedidos para empregador lucrar mais) causam revolta e induzem
o povo a agredir estabelecimentos bancários e comerciais, ônibus, trens, estações
de pedágio. A interferência estrangeira direta e indireta nos assuntos internos
do país e nos meios de comunicação induz o povo a atacar consulados, embaixadas,
editoras, emissoras e a empastelar jornais. A história atesta e ensina: se não
houver violência popular o governo se acomoda e se fecha na torre de marfim.
O governo defende a ordem vigente. A massa popular descontente
promove a desordem para implantar nova ordem. Neste jogo político que a
história registra, o povo danifica o que lhe pertence (patrimônio público) e o
que pertence aos particulares (patrimônio privado). Trata-se de fúria popular
legítima. Para reprimi-la o governo brasileiro serviu-se de pelotões de
soldados, cassetete, gás lacrimogêneo, espingarda com balas de borracha, tanque
provido de canhão de água. A massa invadia e depredava prédios, atirava pedras
e coquetéis molotov, fazia barricadas de fogo, utilizava paus, canos e tudo que
servisse de arma na batalha campal travada nas ruas e praças. Houve correria, luta
corpo a corpo e prisões. A Ordem dos Advogados do Rio de Janeiro prestou
assistência imediata aos presos. Emissoras de TV faziam ampla cobertura e
apoiavam a qualificação de “vândalos” dada pelo governo aos manifestantes. O
vandalismo é inerente aos movimentos de protesto e reivindicação coletivos como
atestam episódios na África, América, Ásia e Europa. Da filmagem exibida na
rede de computadores constata-se que havia policiais disfarçados promovendo
atos de vandalismo no Rio de Janeiro. Nesta capital, a residência do governador
e o palácio do governo foram alvos da indignação dos manifestantes. Provada a
corrupção de que é acusado, o governador poderá perder o cargo após o devido
processo constitucional (impeachment).
Os
jovens querem um mundo melhor como também queria a presidente Dilma em sua
juventude quando lutou contra a ditadura. A juventude atual protestou e mostrou
insatisfação com o status quo.
Inicialmente, a massa foi contra o aumento e reivindicava redução no preço das
passagens dos ônibus e trens urbanos na cidade de São Paulo. Depois, o
movimento tomou conta do país e o pleito se diversificou: serviços públicos
eficientes e de boa qualidade (educação, saúde, transporte, segurança); tarifas
baixas e passe livre para estudantes; fim da impunidade e da corrupção; menor
carga tributária e melhor aplicação das verbas públicas (crítica aos gastos com
a copa mundial de futebol). Na opinião da presidente da república, o
atendimento às reivindicações da massa popular exige reforma política.
Solicitou ao Congresso Nacional a convocação de um plebiscito. A mensagem
presidencial provocou divergências. Sem consenso, o Legislativo entrou em
recesso (julho, 2013).
Diante da voz do povo ouvida nas ruas em movimento
social legítimo e oportuno, o plebiscito cabível seria exclusivamente para o
povo decidir se quer uma nova Constituição ou se quer manter a atual. Esse tipo
de plebiscito independe de autorização do Congresso Nacional, porque a consulta
mira um processo constituinte e não o processo legislativo; bastam decreto
presidencial, coragem e vontade política. Se a resposta oriunda do plebiscito for
positiva, a presidente da república convoca assembléia constituinte composta
por pessoas filiadas ou não a partido político, eleitas pelo povo exclusivamente
para elaborar a nova Constituição; encerrados os trabalhos, o mandato especial
não se converteria em mandato ordinário, cautela recomendável em face da
tentação de legislar em causa própria. Caso seja negativa a decisão resultante
do plebiscito, ficará mantida a vigente Constituição, na qual serão lançadas as
reivindicações do povo através de emenda. Neste caso, se novamente o povo for
consultado, agora sobre quais reivindicações pretende ver lançadas no
ordenamento jurídico em vigor, o plebiscito dependerá de autorização do
Congresso Nacional, porque a consulta nesse caso mira o processo legislativo e não
um processo constituinte. No Congresso, alvitrou-se o referendo: os
parlamentares lançariam as reivindicações em um projeto que seria submetido à
apreciação do povo. Enquanto isto, tudo permanece como está.
segunda-feira, 29 de julho de 2013
O BRASIL E A CONSTITUIÇÃO XX
O Poder Legislativo é exercido pelo Congresso Nacional
que se compõe do Senado Federal e da Câmara dos Deputados e se reúne
ordinariamente a cada semestre no curso da legislatura de quatro anos (duração
do mandato de deputado; a de senador é de oito anos). Os parlamentares
(senadores e deputados) podem exercer cargo de ministro de Estado sem perder o
mandato. Entre o parlamentar e o presidente da república não há subordinação.
Entretanto, ao aceitar cargo de ministro o parlamentar assume a posição
subalterna de auxiliar e assim fica subordinado ao presidente. Isto não condiz
com o exercício da soberania que o povo confiou ao parlamentar eleito para
legislar, fiscalizar e controlar o Executivo. Nos crimes de responsabilidade, o
processo e o julgamento do presidente, do vice-presidente e dos ministros de
Estado cabem ao Senado Federal. À Câmara dos Deputados cabe autorizar a
instauração do processo. Senadores e deputados gozam de imunidades que
subsistem mesmo no estado de sítio; são invioláveis por seus votos, opiniões e
palavras; só podem ser presos em flagrante de crime inafiançável; estão livres
de testemunhar sobre informações recebidas ou prestadas em razão do exercício
do mandato. Na hipótese de crime praticado por parlamentar depois da diplomação,
a casa a que pertencer o acusado (Senado ou Câmara) poderá sustar os trâmites
do respectivo processo judicial. O parlamentar perde o mandato: (1) por decisão da casa
a que pertence quando: (I) infringir proibições estabelecidas no texto
constitucional; (II) agir de modo incompatível com o decoro; (III) sofrer
condenação criminal; (2) por decisão da Mesa da casa quando: (I) faltar ao dever de
assiduidade; (II) perder ou tiver suspensos os direitos políticos; (III)
condenado pela Justiça Eleitoral. O processo
legislativo compreende a elaboração de normas. O processo parlamentar compreende o inquérito para apurar fato
determinado e o processo e julgamento de autoridades.
O Congresso Nacional exerce: (1) função legislativa ao elaborar emendas à Constituição,
leis complementares e ordinárias, decretos legislativos e resoluções e aprovar
(ou rejeitar) o veto presidencial; (2) função
moderadora quando: (I) convoca ministro de Estado ou titulares de órgãos
diretamente subordinados à presidência da república para prestar informações;
(II) susta atos normativos do Executivo e os trâmites de ações judiciais; (III)
autoriza (ou não) a instauração de processo judicial, a declaração de guerra, o
estado de sítio e a celebração da paz; (IV) aprova (ou não) o estado de defesa,
a intervenção federal e atividades nucleares; (V) resolve definitivamente sobre
tratados, acordos e atos internacionais; (VI) fiscaliza atos e julga contas da
administração pública; (VII) aprecia atos de concessão (ou renovação) de
emissoras de rádio e televisão; (VIII) permite (ou proíbe) alienação de terras
públicas e a exploração de recursos hídricos (inclusive potenciais
energéticos), pesquisa e lavra de recursos minerais nas reservas indígenas; (3) função executiva, quando dispõe sobre a sua própria
organização, defende a sua competência, fixa subsídios, convoca plebiscito,
autoriza referendo, instaura inquérito parlamentar, escolhe membros do tribunal
de contas, autoriza (ou não) o afastamento temporário do presidente ou do
vice-presidente da república, muda a sua sede temporariamente; (4) função judicante, quando processa
e julga autoridades por ilícitos que importem perda do cargo e interdição de
direitos.
A
representação política mudou desde a sua ingênua conceituação no século XVIII
na Europa e na América. No curso dos séculos XIX a XXI, em países europeus e
americanos, grupos econômicos, instituições sociais, seitas religiosas, máfias,
paulatinamente se integraram aos partidos políticos e se entronizaram nos
parlamentos. O povo, como categoria política e sociológica, ficou sem
representação. Os parlamentares só representam o povo formalmente em razão do
voto. Materialmente, eles cuidam dos interesses privados de grupos,
instituições, seitas e máfias. Difícil encontrar entre parlamentares
brasileiros alguém que esteja a serviço do bem comum e da felicidade da nação.
Ao invés de homens e mulheres virtuosos, de pessoas do mais alto padrão ético e
intelectual para bem representar a nação brasileira e desempenhar a relevante
função de ditar leis, encontram-se indivíduos de péssima índole, moral e
intelectualmente deficientes, inclusive criminosos condenados pelo Judiciário. A
escória poderá ser excluída se a lei permitir candidatura avulsa de pessoa não
filiada a partido e exigir, além da ficha limpa, formação acadêmica para cargos
eletivos federais.
O Poder Executivo é exercido pelo presidente da república.
Auxiliam-no ministros de sua escolha, nomeados e demissíveis livremente (ad
nutum) geralmente indicados pelos partidos da base governista. A
quem ocupasse o cargo de ministro a lei também devia exigir formação acadêmica
e ficha limpa. O presidente dispõe de dois órgãos de consulta: (1) Conselho da República, para os
casos de intervenção federal, estado de defesa, estado de sítio e demais
questões relevantes à estabilidade das instituições democráticas; (2) Conselho de Defesa Nacional, para
assuntos relacionados à guerra e paz, à intervenção federal, aos estados de
sítio e defesa, às áreas indispensáveis à segurança do território nacional e às
garantias da independência nacional e do regime democrático. Eleito pelo voto
direto e secreto para um mandato de quatro anos (permitida a reeleição para o
período imediato, uma única vez) o presidente assume o compromisso de manter,
defender e cumprir a Constituição, observar as leis, promover o bem geral do
povo, sustentar a união, a integridade e a independência do Brasil. Violar esse
compromisso tipifica crime de responsabilidade e enseja o impeachment. O
presidente participa do processo legislativo (iniciativa, sanção, promulgação e
publicação das leis; elaboração de medidas provisórias e de leis delegadas).
Ocuparam a presidência do Brasil no período
democrático os civis: José Sarney (1985 a 1989), Fernando Collor e Itamar Franco (1990 a 1994), Fernando
Henrique Cardoso (1995 a
2002), Luiz Inácio Lula da Silva (2003 a 2010) e Dilma Vana Rousseff (2011 a 2014, com
probabilidade de reeleição para 2015
a 2018).
Oriundo do partido que apoiava a autocracia, Sarney administrou
a passagem do regime militar ao regime civil e inaugurou o ciclo da deslavada
corrupção no governo da república que adentrou o século XXI. Criou os planos
econômicos Cruzado, Bresser e Verão (1986, 1988, 1989); todos fracassaram; a
inflação disparou. Dezenas de greves ocorreram. Por acordo com a Assembléia
Nacional Constituinte, Sarney abriu mão de um ano do seu mandato (cumpriu cinco
dos seis anos previstos na Carta de 1967 sob a qual assumira a presidência). O
governo Collor também elaborou plano econômico, sem pleno êxito; bloqueou a
poupança nacional; desqualificou os automóveis fabricados no Brasil; liberou as
importações; despejou cimento na Serra do Cachimbo para impedir experiências
nucleares. Os excluídos da República das Alagoas (círculo restrito de aliados) acusaram o presidente Collor de
efetuar gastos ilegais e usar automóvel comprado em nome de pessoa inexistente;
promoveram escândalo e provocaram o impeachment. Mesmo depois da
renúncia do presidente, o processo parlamentar seguiu os trâmites e terminou em
condenação que o inabilitou para o exercício de função pública por oito anos.
Itamar Franco assumiu o governo e terminou o mandato com maciça aprovação popular.
Mostrou-se um governante sério, honesto e competente. Criou o Plano Real e fez
retroceder a inflação. Apoiou a indústria automobilística (numa fábrica,
desfilou no “fusca”). O governo Cardoso manteve o Plano Real; introduziu a
reeleição em benefício próprio; criou programas sociais; elevou a taxa de juros;
privatizou empresas valiosas do ponto de vista econômico e estratégico (colocou
a corretagem acima do interesse nacional); submeteu-se ao Fundo Monetário
Internacional (FMI); ligou-se à Fundação Ford; excedeu-se na corrupção, nas
viagens internacionais e nos gastos com cartões corporativos.
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