sexta-feira, 24 de maio de 2013

TROVAS



Amanheci com vontade de rimar
Não sei para o que isto serve
Se para nutrir a fraca verve
Ou se para meu tempo ocupar

Noite chuvosa e sombria
Feita para embalar
Mágoas da alma fria
Que se recusa a sonhar

Trovas e trovoadas
Chegam a mim enlaçadas
Aquelas para alegrar
Estas para assustar

Saudade da minha terra
Tempos da minha infância
Felicidade que encerra
Doce afeição à distância

Lanço os dados coloridos
No nebuloso jogo da vida
Sem destino e sem guarida
Rolam todos perdidos

Humana jornada vital
Lentamente sem perceber
Aproxima-se do final
Anestesiada ao fenecer

sábado, 18 de maio de 2013

AMIZADE



Amizade, ligação afetiva entre pessoas, expressão do amor universal condicionada no tempo, cessa com a morte. Permanece a  lembrança. Em vida, a amizade pode se esvair por cortes nas artérias sociais e psicológicas. Ascensão ou declínio social pode gerar novas amizades e arrefecer as antigas. A inveja, a falsidade, o rancor, são agentes corrosivos da amizade. Entretanto, o reconhecimento de virtudes no invejoso, no hipócrita, no rancoroso, pode manter a relação amigável no limite do suportável.

A simpatia, a dedicação, o espontâneo respeito, são formas de amor que ensejam laços de amizade. O amor é a força afetiva fundamental do universo. Manifesta-se de vários modos: coesão das partículas; atração dos corpos; união dos membros da família, da tribo, da cidade, da nação; zelo pela natureza, pela sociedade, pelo bem próprio e pelo bem alheio; apreço pelos valores morais e religiosos; devoção a Deus.  

Charles de Gaulle e Harry Truman, quiçá influenciados pelo clima da segunda guerra mundial, afirmavam que entre nações não há amizade e sim interesses. O interesse econômico pode gerar tanto a amizade como a inimizade. A ganância propicia conflitos. Com a política externa de Truman (1945 a 1953) começa a guerra contra o comunismo em todo o orbe. Se tribos e nações travam guerras, também celebram acordos e coexistem pacificamente. O interesse pode aproximar os povos, inaugurar ou fortalecer amizades. Chefes de Estado apertam as mãos uns dos outros. Flores são colocadas pelo representante da nação visitante em monumento da nação visitada. As nações se confraternizam nos torneios esportivos mundiais.   

A inimizade pode resultar das diferenças que se reputam inconciliáveis nas crenças religiosas, nas ideologias políticas, nos valores morais, nas visões de mundo. A ruptura da amizade pode ocorrer por motivos diversos: crítica destrutiva, comentário desairoso, ofensa imperdoável, humilhação, atitude preconceituosa, vício adquirido e assim por diante. A amizade esmaece com a distância, com a falta de reciprocidade, com a negligência na dedicação e no respeito. As imagens da juventude cristalizadas em nossas retinas causam surpresas na maturidade. A casa de nossa infância não é tão grande como a víamos; os nossos pais e parentes não são tão altos e fortes como pareciam; os nossos amigos não são tão atenciosos e afetuosos como os sentíamos; as antigas namoradas se mostram indiferentes, irreconhecíveis, algumas curtindo os netos, outras se dedicando à arte, ao comércio, ao turismo, ao computador. Como o suave sopro reaviva a brasa encoberta pela cinza, assim também um toque delicado e atencioso desperta a amizade adormecida.

No pequeno e primoroso livro “Longe é um lugar que não existe”, o autor, Richard Bach, faz o beija-flor perguntar ao personagem narrador (não identificado no texto): “Podem os quilômetros separar-nos realmente dos amigos? Se quer estar com Rae já não está lá”? O personagem narrador viajava no coração do beija-flor a caminho da festa de aniversário da pequena Rae (personagem misteriosa, também não identificada). Bach se referia à dimensão espiritual da vida. Estamos onde estiver o nosso pensamento.

Como diz a canção de Lupicínio Rodrigues: o pensamento parece coisa à toa/mas como a gente voa/ quando começa a pensar.

domingo, 12 de maio de 2013

NÓS E O BEM



Alguns filósofos tratam o bem como paixão. Para os sofistas (sec. V a.C.) paixão do êxito; para Sócrates (séc. IV a.C.) paixão da verdade, obediência à lei, ainda que nos custe a vida; para Platão (sec. IV a.C.) paixão do justo; realidade e supremacia do mundo ideal.

O bem é objeto da Moral, conjunto de princípios e regras voltados para a arte de ser feliz. A felicidade é o bem supremo da vida e consiste no bom procedimento e êxito no agir. A idéia de bem se liberta do particularismo dos instintos e dos sentidos ao ganhar autonomia intelectual. A partir daí, a idéia de bem ilumina o espírito humano. A idéia de fim é correlata à idéia de bem, ambas vinculadas ao agir humano. O fim supremo do agir humano é a felicidade. A conduta deve ser orientada a esse fim. Nisto consiste a arte de bem viver. Se a personalidade anímica não for boa, a riqueza e a boa saúde serão insuficientes para gerar felicidade. Espírito liberto de perturbações, dedicado ao saber e à verdade, que saiba pensar e sentir, é o que torna alguém feliz. “A felicidade e a boa conduta são uma só e mesma coisa”. (Jacques Maritain. Filosofia Moral. Rio, Agir, 1973, p. 26 + 34/39).

Sistemas políticos foram construídos, doutrinas foram elaboradas, associações civis foram organizadas, tudo fundado na promessa de felicidade geral, promessa difícil de cumprir tantas são as guerras, os conflitos, as competições, as ambições, as desigualdades, a miséria e a fome no mundo. Na declaração de direitos de Virgínia (16/06/1776), na declaração de independência dos EUA (04/07/1776) e na declaração francesa dos direitos do homem e do cidadão (26/08/1789), por exemplo, a felicidade consta como direito inalienável do ser humano. Filosoficamente, o direito reflete o justo, caminho seguro para a felicidade. Historicamente, entretanto, os poderosos colocam o direito ao seu serviço. As perturbações são constantes na vida em sociedade o que torna a felicidade geral inalcançável.

No plano pessoal a felicidade é vivenciada só por alguns momentos, mas pode ser prolongada. Dedicar-se ao culto da beleza, da verdade e da justiça eleva o espírito humano. As exigências orgânicas e materiais acorrentam a pessoa. Quanto menor a dependência da pessoa em relação aos bens materiais, maior a chance de ser feliz. A posse de bens materiais é boa se encarada – não como fim – mas sim como meio de se obter boa qualidade de vida sem ganância. Bons pensamentos, bons sentimentos e boa conduta são os passos para a felicidade pessoal.

Virtude é conhecer bem e pensar bem (Sócrates). Praticamos o mal porque desconhecemos o bem. Caímos no erro porque não pensamos corretamente. No sentido amplo, virtude é a excelência própria ou característica de uma coisa ou de uma pessoa na sua manifestação essencial. Exemplos: virtude do imã, virtude da música, virtude do professor, do cientista, do filósofo, do santo. 

O conhecimento pode ser especulativo quando paira no plano das idéias, ou prático quando se refere ao agir. O conhecimento tem por objeto o mundo natural, o mundo cultural e o mundo espiritual. O conteúdo desse conhecimento é a representação que o ser humano tem do seu objeto. Para permitir o discernimento daquilo que a conduta humana deve ser ou não ser na realidade concreta, a que determinação vai esse conhecimento apegar-se? Qual o critério do bom, do conveniente ou virtuoso?

A resposta a essas indagações dada por Sócrates é a de que não há outro critério a não ser o da utilidade. O cálculo da utilidade preside a conduta humana. Na vida mundana triunfa o utilitarismo. Os homens não esperaram pelos moralistas para estabelecer regras morais. As normas e os valores da vida moral integram uma moralidade tradicional prevalecente historicamente no meio social. Na vida comum, o feirante pode ter uma conduta moral mais firme do que a doutrina dos educadores e dos reformadores.

Platão fala da morte mística da inteligência extasiada no bem pelo eros supremo. A felicidade consiste na contemplação direta das idéias, das formas separadas. A alma libertada do corpo contempla o bem supremo (para tanto, a pessoa não precisa morrer fisicamente; basta calar os instintos e a mente e deixar a personalidade anímica fluir em profundo estado de meditação). A partir da moral superior os homens elaboram a sua moral, arte de se preparar para a felicidade que mora no outro mundo. O fim da vida humana está no outro mundo (das idéias, das formas). Platão enumera as virtudes cardeais: 1) sabedoria prática ou prudência; 2) força ou coragem; 3) justiça; 4) temperança.

Na opinião de Aristóteles, a felicidade deve ser usufruída aqui na Terra ao final da vida de cada um após longa experiência e reflexão. Felicidade e bem são conceitos diferentes. A vida política absorve a vida individual. Vida política é a dinâmica das coisas de interesse geral e comum na cidade e no país. Busca-se o bem de todos, porém são as pessoas ricas, contemplativas, livres de perturbação e preocupação de ordem material e emocional que usufruem da felicidade. Segundo Epicuro, o prazer é o bem maior. As necessidades devem ser reduzidas ao mínimo. A ausência de desejos e o desfrutar do prazer intelectual e espiritual contribuem para a felicidade que há de ser do homem concreto e não do homem abstrato.  

Ao contemplar o sol espiritual a personalidade anímica se ilumina. O bem vale por si mesmo. O bom sentimento vale porque é bom e não porque está referido a qualquer outro bem. A boa conduta vale porque é boa e não porque é útil para este ou aquele fim. Pensar no bem de todos e assistir aos necessitados se puder, dizer a verdade, ser honesto, justo, franco e leal, são condutas valiosas por si mesmas.

sábado, 4 de maio de 2013

BRASILEIROS x ESTRANGEIROS



A decisão do torneio de futebol da liga dos campeões da Europa será entre clubes alemães no final de maio em Londres. Nas partidas semifinais Borússia Dortmund venceu o Real Madri na primeira (4x1) e perdeu na segunda (0x2), mas se classificou pelo placar agregado (4x3); Bayern de Munique venceu o Barcelona nas duas partidas (4x0 e 3x0). As semifinais foram disputadas em 23 e 24/04/2013 na Alemanha e em 30/04 e 1º/05/2013 na Espanha. Futebol vigoroso e de bom nível. 



Paul Breitner, ex-jogador da seleção alemã, entrevistado no canal 30 (ESPN) em abril de 2013, antes das referidas semifinais, disse que na copa de 1974, vencida pela Alemanha, a melhor seleção foi a da Polônia e não a da Holanda; que os alemães têm espírito de equipe, perseguem a vitória como principal objetivo e exibem habilidades individuais somente no final da partida quando em vantagem no marcador; que para eles, futebol não é diversão; que ao se convencer de que tinha o melhor futebol do mundo, a seleção alemã começou a decair; que os brasileiros colocam a vitória em segundo ou terceiro plano, pois preferem exibir suas qualidades individuais em primeiro lugar.



Em que pese a opinião de Breitner, o fato é que na copa de 1974 o melhor desempenho foi da seleção holandesa sem desdouro algum para a seleção polonesa. Por capricho dos deuses do futebol a taça foi para a Alemanha, premiada por seu esforço e dedicação. Pelo que se viu no torneio da liga dos campeões da Europa, o futebol alemão está no ápice. Quanto aos brasileiros, jogam para vencer (às vezes, para empatar). Vê-se um futebol alegre, mas também objetivo, viril e até violento. Os árbitros toleram carrinhos e cotoveladas. Os jogadores se aproveitam da leniência arbitral, o público começa a gostar do cheiro de sangue como na luta de gladiadores e o estádio de futebol toma a feição de um coliseu romano.



Ao contrário dos alemães, os brasileiros não separam a arte de jogar futebol da estratégia que visa a vitória; não separam beleza de um lado e eficiência de outro. Os brasileiros sabem praticar o futebol solidário sem abdicar do talento individual. Abusam do individualismo quando não conseguem dosá-lo. Com o seu tradicional e admirável modo de jogar foram vice-campeões em 1950 e campeões em 1958, 1962 e 1970. Breitner deixou transparecer despeito. A criatividade, a flexibilidade e a versatilidade dos brasileiros parecem incomodá-lo. Da habilidade individual de alguns alemães saem jogadas inventadas por brasileiros. A Alemanha nunca teve jogadores com a criatividade e as performances de Petronilho, Heleno, Zizinho, Didi, Zico, Romário, Ronaldinho (para não alongar a lista, cito na ordem cronológica sem incluir outros craques notáveis). Aliás, não só a Alemanha, mas país algum apresenta uma lista tão extensa de jogadores excepcionais como o Brasil, desde a fundação da FIFA em 1904 até agora (2013). Outrora, o futebol dos brasileiros era admirado e imitado. Ainda treinador do Barcelona, clube campeão do mundo, Guardiola confessou que havia adotado o futebol brasileiro que seu pai e seu avô tanto admiravam. Certamente, pela idade, os ascendentes de Guardiola referiam-se às seleções brasileiras de 1938 a 1970 e ao Santos FC da era Pelé.



Houve retrocesso quando o futebol brasileiro fugiu das suas características para imitar os europeus. O vigoroso futebol de resultado de que são adeptos os alemães aniquilou o estilo brasileiro. O bom jogador se torna sofrível ao ficar preso na camisa-de-força imposta por treinador colonizado e retranqueiro. Algumas derrotas da seleção brasileira devem ser atribuídas a esse tipo de treinador. O craque necessita de certa liberdade a fim de render tudo o que pode e fazer tudo o que sabe em campo. Vence, perde ou empata quem joga. O treinador ora ajuda, ora atrapalha. No jogo de 24.04.2013, em Belo Horizonte, entre as seleções brasileira e chilena (2x2) as duas equipes estavam incompletas. As vaias foram imerecidas.



Imagens e pensamentos quando se cristalizam na mente impedem a clara percepção dos fatos presentes. O discurso se torna repetitivo e irrefletido. A insistência na convocação de KK serve de exemplo. Considerado o melhor do mundo pela FIFA, este jogador não estava bem na copa de 2010 (África do Sul). Submetido a cirurgia, ainda está sem a antiga habilidade. Ronaldinho não é o mesmo da época em que recebeu o título de melhor jogador do mundo, mas está em boa forma física e técnica, presta assistências incríveis e graças à sua arte surpreende o adversário com seus gols. Quem aposta todas as fichas em Neymar arrisca-se a perder. Bom jogador, ele não tem culpa se em campo não é tudo aquilo que a ala carnavalesca da imprensa esportiva criou. Outros jogadores e equipes também são colocados nos cornos da Lua por exagerados elogios insistentemente repetidos sem corresponderem à realidade. Os componentes da mencionada ala carnavalesca não têm olhos para as deficiências dos seus ídolos. Parcela do público se deixa levar pela onda. 



Desde 2002, a seleção brasileira de futebol masculino experimenta jejum em copas do mundo semelhante ao do período de l970 a 1994. Ansiedade, intranqüilidade, vontade de resolver tudo sozinho e sair consagrado, desejo de ser herói aplaudido pelo mundo, medo de errar, desânimo durante a partida, apelo à violência, são fatores que influem no desempenho de alguns jogadores. A estes faria bem o afeto dos pais, esposas, amigos, clérigos e psicólogos. A qualidade técnica do jogador e o seu valor de mercado não devem impressionar o psicólogo, pois à sua frente está um homem com virtudes e fraquezas. Tal assistência ajuda os jogadores e contribui para o bom entrosamento da equipe durante as partidas.


Algumas seleções perderam o futebol ingênuo e o espírito olímpico da primeira metade do século XX. Para elas não basta competir. Importante é conquistar o título de campeão. A partir dos anos 60 e 70, os europeus começam a apresentar um futebol eficiente e bem estudado, fruto da inteligência, da tecnologia, da importação de craques da América do Sul (brasileiros e argentinos na maioria) e de um trabalho metódico desde as categorias de base. Eles deram ênfase ao aspecto coletivo do esporte ao verificar que lhes faltava habilidade individual como a dos jogadores brasileiros e argentinos. O futebol africano e asiático trilha o mesmo caminho, inclusive com treinadores importados e consegue boas classificações a cada copa mundial. Isto complica a vida das seleções americanas e européias. O horizonte da copa de 2014 está nublado. O sucessor do exorcizado fantasma de 1950 começa a rondar. Se a taça for erguida por mãos estrangeiras não será o fim do mundo. Haverá outras copas. Sem neurose, a seleção brasileira será hexacampeã no devido tempo. Por enquanto, o essencial é competir bem. A vitória depende dos deuses.

sábado, 27 de abril de 2013

ORIGEM



Sobre começo e fim do universo o saudoso filósofo paulista Vicente Ferreira da Silva menciona abalizadas opiniões entre as quais a de Aristóteles: o vir-a-ser das coisas não tem começo nem fim, constituindo uma eterna evolução; e também a de Kant: o conceito de uma totalidade de fenômenos suscetível de começo e fim provém de uma totalização ilegítima que transforma a experiência indeterminada e móvel do mundo num dado objeto fixo (“Obras Completas”. São Paulo. Instituto Brasileiro de Filosofia, 1966, vol.II p.121/124). Marcel Proust faz um personagem dizer: A criação do mundo não teve lugar no começo; ela ocorre todos os dias (“Em Busca do Tempo Perdido - A Fugitiva”. Rio, Ediouro, 2002, vol.III, p.506).

De acordo com as “escrituras sagradas” o mundo teve começo e terá fim; foi criado há seis mil anos conforme as gerações desde Adão e Eva mencionadas no Gênesis. No quadro cronológico feito pelo historiador judeu Flávio Josefo, o ano da criação de Adão e Eva foi 4342 a.C. (Antigüedades Judias. Madri. Akal/Clásica, 1997, tomo I p.7). O Vice-Chanceler da Universidade de Cambridge, em 1654, reverendo John Lightfoot, depois de meticulosos cálculos, constatou que Adão foi criado na manhã do dia 26 de outubro de 4004 a.C. às 9,00 horas (Edward McNall Burns. História da Civilização Ocidental. Porto Alegre, Globo, 1955, vol. I p. 29).

O mito da criação do mundo e do homem exposto nos textos religiosos dos hebreus, cristãos e muçulmanos cede lugar ao novo conhecimento. Assim como a Terra não se formou em seis dias e nem é o centro do universo, o ser humano também não saiu da mão do divino oleiro e nem é o centro das atenções de Deus.

O físico George Gamow expôs, em 1946, a teoria do big bang, que atribui a origem do universo a uma gigantesca explosão ocorrida há bilhões de anos (10, 15, 20?) depois de uma formidável concentração de energia. Falta explicar a origem dessa energia. Retorna a antiga tese da geração espontânea retirada de cena por Louis Pasteur no que tange aos germes. Para elaborar sua teoria, Gamow serviu-se da descoberta feita em 1929 pelo astrofísico Edwin Powell Hubble de que as galáxias afastam-se umas das outras a indicar que o universo está em expansão.

Na opinião do físico Stephen Hawking, as galáxias situam-se na superfície de um universo esférico à semelhança de um balão de borracha que se enche de ar progressivamente. Destarte, o que se expande é o espaço e não as galáxias (O Universo em uma Casca de Noz. SP, Arx, 2001). Essa teoria tem implicações. A esfera implica um centro; a expansão implica uma força propulsora que, por sua vez, implica uma fonte (ou geração espontânea). No entanto, o universo não tem ponto de partida e nem lugar preferencial ou centro, segundo postulado copernicano.

A existência de outros universos cada qual com seus bilhões de galáxias também é objeto de especulação científica como informa o físico Brian Greene. As mesmas leis da matéria vigoram em todos os universos. Ao invés de partículas puntiformes, os componentes fundamentais da matéria são filamentos unidimensionais chamados cordas. Cada universo possui a mesma mistura de material e é sempre o mesmo em todas as direções (O Universo Elegante. SP. Cia. das Letras, 2001). Vislumbra-se aqui a unidade cósmica. Sem começo e sem fim, o cosmos seria a expressão material e espiritual da eternidade; dimensões material e espiritual imbricadas. O cosmos constituído de vários universos estaria mergulhado em um oceano de energia criadora, mantenedora e transformadora.

Trabalhos divulgados em filmes documentários exibidos na TV mostram como os primeiros humanos saíram da África para os demais continentes. Utilizando computadores, os trabalhos retrocedem 140 mil anos no tempo para explicar tal pressuposto. Entre o leste africano (Etiópia) e o sul da Ásia Menor (Yemen) o nível das águas baixou e a distância marítima encurtou. Os africanos atravessaram por aí e após cruzar o deserto localizado na outra margem descobriram um lugar rico em água, flora e fauna, cujo nome assemelha-se a Éden, o paraíso terrestre.

A partir dos fósseis encontrados nas cavernas do Monte Carmelo pesquisadores aventam outro possível itinerário dos nômades pelo nordeste da África (Egito) e noroeste da Ásia Menor (Israel). Naquela época era menor e mais estreito o deserto do Saara. Israel não existia, mas tão somente o espaço geográfico conhecido como Canaã. Israel era apelido de Jacó, filho de Isaac e neto de Abraão. Os descendentes de Jacó tomaram seu apelido, povo de Israel, constituído de doze tribos. Abraão e cerca de 70 pessoas chegaram à Palestina (Canaã) por volta de 1400 a.C. e se depararam com povos habitando aquele território. Escritores exageram essa data para dar ao povo hebreu antiguidade igual ou superior à dos outros povos (Flavio Josefo, por exemplo, fixa a data em 2080 a.C.). O grupo de Abraão e descendentes formam o povo hebreu que manteve relações ora amistosas ora conflituosas com aqueles povos. Nessa mesma região, já decorridos três mil anos, em pleno século XXI d.C. israelenses e palestinos continuam a trocar gentilezas.

O esforço para ajustar a teoria científica à teologia é recorrente. Einstein caiu nessa esparrela, mas se redimiu a tempo de reformular sua teoria. Nos trabalhos acima referidos nota-se a presença da versão bíblica (criação, paraíso, primeiro casal) a guiar o pensamento do cientista. Bem mais sensato e honesto seria livrar-se das algemas religiosas e partir do fato natural: a existência de águas, plantas e animais nativos em todos os continentes desde que o planeta reuniu condições propícias. Quando o meio favorável à vida se formou teve início a cadeia evolutiva nos diferentes pontos do planeta. Assim como os outros seres vivos, os humanos também são nativos de cada continente.

A vida animal na Terra quase desapareceu por completo há 65 milhões de anos, em conseqüência de terrível vulcanismo na Ásia (Índia) e da colossal colisão de um meteoro com o solo da América (México). Decorridos mais de 60 milhões de anos daquela catástrofe e depois de longa evolução ocorrida no reino animal nesse vasto período, nasceram os humanos com tipos distintos na compleição física, cor da pele, resistência ao ambiente, capacidade craniana, fala e cultura. Na primeira fase da sua existência na Terra (eolítica, anos 1.500.000 a 300.000) houve três tipos: Pithecanthropus (Java), Sinanthropus (Pequim) e Eoanthropus (Piltdown). Na fase seguinte (paleolítica inferior, anos 300.000 a 25.000) teve existência o gênero homo sob duas espécies: o homem de Heidelberg e o homem de Neandertal. O período seguinte (paleolítico superior, anos 25.000 a 10.000) foi do homo sapiens. Os dois períodos culturais subseqüentes foram do homo sapiens moderno: o neolítico (anos 10.000 a 3.000) e a civilização (Egito e Mesopotâmia 3.000 anos a.C.) (E. M. Burns, obra citada, vol. I p. 29/71). Pesquisas antropológicas e paleontológicas na América e na Oceania podem revelar outros tipos humanos.

sábado, 20 de abril de 2013

SEGREDO



Não deixe que males pequeninos/ venham mudar nossos destinos/ O peixe é pro fundo das redes/ segredo é pra quatro paredes/...(canção popular brasileira).

Ocultar de outrem coisa, fato, técnica, conhecimento, sentimento, faz parte dos costumes humanos. Pajés, feiticeiros, alquimistas, não revelam as fórmulas da sua arte. Depositários guardam silêncio sobre material e assunto que lhes são confiados. Proprietários ou administradores têm o conhecimento privativo dos códigos para abertura de cofres. Acesso a contas ou a lugares protegidos requer senha. Estudos, pesquisas e descobertas no campo da ciência ignorados do público ficam restritos à comunidade científica. Empresas ocultam fórmulas e técnicas de fabricação dos seus produtos. Governos classificam de confidencial assunto sobre o qual somente poucos agentes credenciados têm informação.

Pessoas levam para o túmulo, para o forno crematório, para o outro mundo, vivências introvertidas, esperanças caladas, paixões e anseios secretos encerrados em seus corações. A revelação de tais segredos antes da morte do guardião pode ter bons ou maus efeitos. Sentimentos e projetos reprimidos quando deixam a esfera sigilosa para entrar na claridade dos fatos abrem caminho à desgraça. Às vezes, os guardiões do segredo exposto são pessoas comuns, amáveis, educadas, que se relacionam bem com os familiares e com os vizinhos. Ao serem descobertos como agentes do crime impactam a comunidade, causam espanto e incredulidade. Vem à balha a sentença de Blaise Pascal: o coração tem razões que a razão desconhece.

O conhecimento fechado em um círculo restrito de pessoas é fonte de poder. Razões de segurança determinam o sigilo de assuntos na esfera estatal, cientifica ou religiosa, visando a livrar de entraves o que se busca, investiga, pesquisa, ou para evitar o desvirtuamento e o mau uso pela massa ignara. Assim foi no passado e continua a ser no presente. Servem de exemplo cerca de oitocentos manuscritos descobertos em onze cavernas no sítio de Qumran, na Jordânia. A primeira caverna foi descoberta em 1947; as demais, entre 1952 e 1956. Até hoje (2013) o pleno conteúdo dos manuscritos não foi revelado ao público. Os pergaminhos lá encontrados em rolos e em fragmentos podem revelar dados que interessam à cultura ocidental e lançar nova luz sobre as raízes do cristianismo. Para tanto, importa manter o material intacto e o conteúdo original sem interpolações. O grupo de estudiosos, a maioria de católicos, mantinha os manuscritos em seu poder sem divulgá-los. A partir de 1985, agregaram-se judeus ao grupo. O propósito era traduzir os manuscritos do hebraico e aramaico para outros idiomas e publicá-los, porém prevaleceu o temor de que dogmas judeus e cristãos fossem abalados.

O clima de segredo continuou. O significado de muitos desses manuscritos continua inacessível a grande parcela da humanidade. A Biblical Archaeology Review publicou coletânea de ensaios organizada por seu presidente com o cuidado de resguardar a dogmática judia e cristã. Os ensaios versam a descoberta dos manuscritos e seus vínculos com seitas palestinas, com a bíblia hebraica, com o primitivo cristianismo, além de outros temas. (Para Compreender os Manuscritos do Mar Morto. Hershel Shanks, org. Rio de Janeiro, Imago Editora, 1993). 

A intuição, veículo de acesso ao conhecimento armazenado no mundo metafísico, conduz à iluminação espiritual (conhecimento intuitivo) e provoca mudanças na pessoa. Isto aconteceu com o dominicano Tomas de Aquino. Após sentir um toque espiritual quando celebrava missa em Nápoles, ele parou de escrever a Summa Theológica (06/12/1273). Indagado sobre o motivo, ele disse que lhe foram reveladas coisas de tal ordem que diante delas tudo o que escrevera parecia palha (Saint Thomas D´Aquin. Des Lois. Paris, Egloff, 1946, p. 11). Três meses depois (07/03/1274), aos 49 anos de idade, ele morre quando se dirigia a Lyon para o concílio ecumênico (reunião dos bispos de todo o mundo convocada pelo papa). Diante de tantos crimes praticados por papas, cardeais, bispos e padres no curso da história medieval e moderna, cabível a suspeita de que Tomas tenha sido envenenado para impedir que aquelas revelações íntimas viessem a público. Elas foram sepultadas com ele. A Igreja o santificou, adotou como pensamento oficial a “palha” por ele deixada e lhe outorgou o título máximo de Doutor da Igreja. Mediante essa artimanha clerical a “palha” adquiriu autoridade e triunfou sobre as revelações.

Desde a Idade Média até a Idade Moderna a maior parte da população européia era analfabeta (calcula-se em 90% ou mais). O vulgacho olhava com admiração e reverencial respeito os textos escritos e dependia de uma estreita minoria alfabetizada para conhecer e entender o conteúdo. Isto passou de geração a geração. Os textos religiosos eram cercados de uma aura sacra. O segredo e o sagrado se entrelaçavam. Os clérigos, senhores do mistério, convenciam os fiéis de que a Bíblia era a “palavra de Deus”, ou escrita por pessoas especiais inspiradas por Deus. Assim, as infantilidades, falsidades e maldades contidas na Bíblia, escritura “sagrada”, eram engolidas sem resistência e sem reflexão. Religião não se discute era o dogma para manter o crente na ignorância e na fé cega.

Apesar da vitória do cristianismo no ocidente, o paganismo se manteve ativo. Algumas práticas pagãs foram cristianizadas (a festa natalina, por exemplo). Enquanto na Europa o cristianismo vigorou como religião oficial do Estado, os europeus se dedicavam em segredo às práticas pagãs em suas casas, nos bosques ou em redutos ocultos. Na época atual (séculos XX e XXI) essas práticas livraram-se do constrangimento estatal e religioso em países da Europa e da América. Servem de exemplo: o carnaval, a festa das bruxas, os cantos e danças em locais abertos ou fechados para invocação de espíritos. A ordem maçônica, a ordem rosacruz e outras similares funcionam às claras na forma da lei e dos estatutos. Aos membros dessas ordens é exigido segredo apenas no que tange aos rituais e ensinamentos. 

sábado, 13 de abril de 2013

MUNDO ESPIRITUAL



Os costumes, crenças, aspirações, sentimentos, idéias, vigentes em uma sociedade conformam a existência religiosa, moral e jurídica dos seus membros. Ao se falar no espírito do povo, no espírito da lei, no espírito científico, no espírito religioso, está se reconhecendo um substrato mental e emocional, uma dimensão espiritual da cultura humana à qual temos acesso por intermédio da nossa inteligência e sensibilidade. Desde a infância somos educados para penetrar nesse mundo e trabalhar com o material nele existente (aritmética, álgebra, estética, regras do decoro, explicações científicas, opiniões filosóficas, doutrinas religiosas). 

Além desse mundo imaterial criado pela mente humana, acredita-se na existência de outro mundo também imaterial organizado segundo leis divinas e povoado por seres desprovidos de corpo físico. Essa crença é o alicerce do espiritualismo que está na base das religiões. Aniquilada essa crença que inclui a continuidade da vida após a morte do corpo físico, religiões desmoronariam e igrejas perderiam poder. Secaria a fonte de renda dos mercadores da fé. Cada líder religioso constrói a imagem do mundo espiritual como lhe parece e a transmite ao público. A necessidade humana do pão espiritual torna viáveis a mitologia e a religiosidade. Desse pão, a ilusão é o fermento. Entre os padeiros estão os estelionatários da fé. Sociólogos consideram a religião fenômeno social com base nessa necessidade sentida pelo grupo humano desde remota antiguidade quando ainda não havia templo nem teologia (Émile Durkheim. Las Formas Elementales de la Vida Religiosa. Madri. Akal, 2007, p. 8).

O medo, a ignorância, a insegurança, a incerteza, o sentimento de impotência diante das forças telúricas, o desejo de se proteger da doença e do perigo, as inquietações da vida enfim, levam os humanos a crer em entidades poderosas exteriores ao mundo físico. Essa base psicológica leva à solidariedade e à comunhão. Rituais e fórmulas são engendrados para agradar à divindade, aplacar a fúria da natureza, obter proteção, cura dos males, êxito nos empreendimentos e prosperidade. A religião do antigo Egito tinha por base a crença na imortalidade da alma e na vida no além. O paganismo grego e romano prescindia desse tipo de preocupação embora houvesse espírito religioso (deuses com atuação histórica, templos, devoção, cultos domésticos). O judaísmo, o cristianismo e o islamismo colocam fé e esperança na salvação da alma. Segundo a Bíblia hebraica, os humanos são pecadores. A igreja cristã assombra os fiéis com o pecado: poucos ganham o Céu, cuja porta é estreita; a maioria arde nas labaredas do Inferno. Essa doutrina contradiz a tese de que Jesus veio para salvar a humanidade e tirar os pecados do mundo. De acordo com o próprio Jesus, a maioria dos humanos já está condenada; só a minoria que atravessa a porta estreita se salvará. Durante sua passagem pela Terra coube a Jesus criar o embrião dessa pequena comunidade de santos.

Religião e mito são aparentados. O humano cria o mito: narrativa, deuses e heróis. Os membros do clã, da tribo ou da nação compartilham do mito. A tradição conserva-o. Segundo Joseph Campbell, o mito é uma pista para as potencialidades espirituais da vida humana. Ao invés de um sentido para a vida, busca-se uma experiência de estar vivo de modo que essa experiência no plano puramente físico tenha ressonância no interior do ser humano. Essa ressonância provoca o enlevo de estar vivo. O mito ajuda a colocar a mente em contacto com a experiência de estar vivo (O Poder do Mito. São Paulo, Associação Palas Athena, 1990, p. 5/6).

A busca por essa experiência não exclui a busca pelo sentido da vida. Ainda que a vida não tenha sentido algum e a salvação da alma seja uma quimera ou um pretexto, o fato é que fiéis do judaísmo, do cristianismo e do islamismo procuram tal sentido e nessa procura podem perceber o enlevo de estar vivo. O terreno da espiritualidade é metafísico e nele se caminha com a intuição; prepondera a crença; o raciocínio é coadjuvante. Diz Huberto Rohden: entre o entendimento intelectual do homem profano e o compreender espiritual do iniciado medeia um grande sofrimento. Ninguém chega a Deus só pela força do pensamento (“O Triunfo da Vida Sobre a Morte”. São Paulo, Martin Claret, 1991, p. 17).

Em se tratando de uma dimensão cósmica imaterial, o mundo espiritual se constitui no habitat dos seres imateriais inteligentes que ocuparam corpos físicos nos rincões do universo. No mundo espiritual será impossível uma torre de babel, pois os seres imateriais não necessitam do aparelho da fala próprio do organismo físico. Idiomas são dispensáveis. A personalidade anímica não está sujeita aos limites da matéria. Os seres encarnados na Terra usam diferentes idiomas para expressar a mesma idéia (céu, cielo, sky). No mundo espiritual há transparência, a expressão das idéias é direta e imediata e o meio de circulação é vibratório.  

Em decorrência da sua arquitetura mental, os humanos pensam o mundo espiritual em termos de espaço e tempo. O brocardo místico assim como encima é embaixo exemplifica essa transposição. Vem de Platão essa imagem espacial e hierárquica do mundo material como sombra do mundo espiritual. Místicos orientais afirmam a necessidade de esvaziar a mente para acessar ao mundo espiritual. Para eles, aquelas categorias são inoperantes no mundo espiritual. A estrutura lógica do pensamento humano coloca ordem nas idéias, mas o raciocínio dificulta a harmonização no plano espiritual. A mente vazia é a senda para o êxtase espiritual.

A radical separação entre os mundos material e espiritual pode ser enganosa. Espírito e matéria formam unidade cósmica em faixas vibratórias distintas. A célula animal serve de exemplo. Além da matéria (membrana plasmática, citoplasma, cromossomos, ribossomos, mitocôndrias) a célula está provida de energia e de inteligência para realizar sua função, ou seja, provida de substrato espiritual.

Inferno e purgatório não são lugares e sim condições terrenas criadas pela morbidez humana e materializadas pela conduta dos crentes. Na avançada concepção de Santo Agostinho, o paraíso era um lugar de paz e alegrias harmoniosas onde Adão e Eva se relacionavam sexualmente com prazer e sem pecado, sob o beneplácito divino. Esse lugar jamais existiu. Paraíso é sonho esperançoso. O primeiro casal é concepção infantil da mente primitiva. No mundo material atua a lei do karma nos dois níveis: individual e coletivo. Plantado o bem, colhe-se o bem; plantado o mal, colhe-se o mal. Cogita-se do perdão. Recebe-lo não significa neutralizar o karma. Pedir perdão com arrependimento gera efeito compensador. Conceder perdão com sinceridade gera crédito. Alguns perdoam porque se julgam divinos; outros perdoam porque se julgam civilizados e bondosos. A natureza não perdoa. A rigidez das suas leis mantém o universo estável apesar do caos aparente. Flexíveis porque ditadas por conveniência, as leis humanas geram instabilidade apesar da ordem aparente.