sábado, 9 de março de 2013

FRASES IRREFLETIDAS



1) Vá chafurdar no lixo como você sempre faz.
Autor: Joaquim Barbosa, ministro do Supremo Tribunal Federal.

No início do mês de março/2013, ao sair de uma reunião do Conselho Nacional de Justiça, o ministro Joaquim Barbosa, ao ser interpelado por um jornalista, mandou-o chafurdar no lixo e o chamou de palhaço. Do que consta da lista da Associação Nacional dos Magistrados Estaduais na rede de computadores e do jornal ali mencionado, percebe-se que o ministro já tinha esse jornalista na mira, na conta de alguém que falta à verdade e distorce os fatos.

Chafurdar significa enlamear-se, sujar-se, tornar-se imundo. O verbo é empregado geralmente para indicar o revolver dos porcos na lama do quintal ou no chiqueiro. A atitude do ministro foi aprovada por alguns magistrados e censurada por outros que se pronunciaram na citada lista. Dos magistrados exige-se decoro, cuja falta enseja punição consoante lei complementar 35/1979. Segundo essa lei, aos membros dos tribunais ordinários e superiores não se aplicam penas de advertência e censura. Por faltas disciplinares, eles estão sujeitos às penas de remoção e aposentadoria compulsórias, disponibilidade e demissão.   

Lição da experiência: no jornalismo não há compromisso com a verdade; falta boa educação e respeito à privacidade alheia; sobra abuso no exercício da profissão. Considerada o quarto poder, a imprensa dele abusa e atua segundo seus próprios interesses econômicos e políticos; não há imparcialidade, isenção de ânimo, amor à verdade e espírito de justiça. A ânsia por sensacionalismo sobrepõe-se a qualquer escrúpulo. Certa vez, entrevistando o presidente Collor, o jornalista perguntou se ele era corrupto. Essa pergunta retrata bem a falta de bom caráter desse tipo de jornalista. Ele quis exibir coragem e atrevimento aos seus colegas de profissão e aos seus chefes na redação. Formulou pergunta idiota e injuriosa. Jamais o entrevistado admitiria ser corrupto ou criminoso. A intenção do jornalista não era a de informar o público e sim a de promover a si próprio.     

2) Os mortos governam os vivos.
Autor: Luiz Fux – ministro do Supremo Tribunal Federal.

Em sessão do Supremo Tribunal Federal (6-7/03/2013) ouviu-se do ministro a frase acima. Citou-a para se por contra a cristalização de princípios e regras e justificar a mudança de normas constitucionais e legais elaboradas por gerações passadas. Segundo o ministro, cada geração tem o direito de elaborar suas próprias leis. Assim também pensam os tiranos.

No Brasil, paraíso dos estelionatários públicos e privados, a frase serve aos espertalhões que pretendem mudar as normas em benefício próprio. O ex-presidente Fernando Henrique debochava das cláusulas pétreas e dos juristas que as defendiam. Ele, Luiz Inácio e Dilma seguem a vocação autocrática dos governantes brasileiros: afastam regras legítimas para atender às suas idiossincrasias, aos seus planos pessoais e aos interesses da canalha incrustada nos labirintos do poder público. Conquistam maioria no Legislativo para obter emendas à Constituição e leis que amparem os seus projetos e safadezas. Colocam na suprema corte ministros dispostos a defender cerebrinamente a juridicidade de normas espúrias.

A frase em tela é de efeito meramente retórico sem amparo na razão e nos fatos. Os vivos são governados por leis da natureza, por leis humanas e por pessoas vivas. As almas dos mortos pertencem a outro mundo. Os seus corpos se decompõem em terra ou cinzas, ou servem de alimento a antropófagos e a animais irracionais. Chávez já não governa os venezuelanos; nem Getúlio, os brasileiros.

Há idéias e crenças que permanecem válidas através dos séculos. Princípios morais, jurídicos e religiosos que emanaram da milenar experiência dos povos e que integram os valores de determinada civilização servem de balizas ao poder político atual. O Código Civil brasileiro de 2002 contém preceitos com mais de dois mil anos de existência oriundos do direito romano. A Constituição brasileira de 1988 contém alguns princípios e regras fundamentais vigentes há oitocentos anos na Inglaterra, outros gerados nas revoluções americana e francesa do século XVIII (1701-1800) e outros no pensamento socialista do século XIX (1801-1900) que se integraram aos valores da civilização ocidental e continuam válidos até hoje (2013). Por mais de duzentos anos gerações se sucedem nos EUA sob a égide da mesma Constituição. Cada nova geração a recebe, a mantém e zela por sua eficácia. Preserva a sua herança cultural e valoriza a sua identidade como nação. Mudam-se normas em face de exigências sociais e econômicas sem perder a sintonia com os princípios e as normas fundamentais.

sábado, 2 de março de 2013

ENCONTRO NA PRAÇA



Olavo, meu camarada! Como vai essa força?

Ora, ora, se não é o Arquibaldo!

Sou eu mesmo. O que faz você aqui nesta praça, em manhã de sol, todo enternado, engravatado e ensapatado? Noto que você carrega sofisticada valise de couro. Será que aquele adolescente tímido do curso colegial abraçou profissão que exige espírito de luta?

Ô Arquibaldo, você não perdeu a maneira jocosa de se expressar e aquele jeito extrovertido que a turma do colégio admirava. Pois é. Adivinhou. Sou advogado. Estou de roupa de trabalho porque meu escritório fica ali naquele prédio. Deixo meu carro no estacionamento deste outro lado da praça.

O que você me conta, Olavo, está tudo bem?

Sim, está tudo bem. Enfrento dificuldades normais no exercício profissional e na consolidação da família. Chegam os filhos e o sossego bate asas. Sou pai de dois: o rapaz formado em direito e a moça em pedagogia. Moro na Barra da Tijuca. Marieta, minha esposa, formou-se em psicologia e montou consultório na Zona Sul. Além disto, atua como assistente dos juízes em varas de família. Continuo a torcer pelo Flamengo. Mantenho-me longe dos partidos, mas acompanho o desempenho dos políticos eleitos. Da crise econômica mundial de 2008, por exemplo, acho que o governo brasileiro saiu-se bem. Já no quesito honestidade não se pode dizer o mesmo. Na democracia impera a lei elaborada pelos representantes do povo. Quando a casa dos representantes vira covil de ladrões e vagabundos, o império da lei torna-se um risco para a democracia e para a justiça. Os juizes têm de buscar escoras nas vigas mestras do Direito para escapar da involuntária cumplicidade com as safadezas dos legisladores. Creio que a postura enérgica do supremo tribunal na ação penal do “mensalão”, por exemplo, não intimidará os corruptos. O mal é congênito. Mas, Arquibaldo, fale-me de você.

Tentei engenharia, mas desisti. Prestei concurso, ingressei no serviço público, fiz carreira e me aposentei com proventos insuficientes para uma vida cômoda. Continuo a trabalhar como corretor de imóveis para reforçar a renda mensal. Por duas vezes casei e me separei. Moro sozinho no Leme. Cansei das rondas noturnas pelos bares de Copacabana, Leblon e Gávea. Para mim, a boemia perdeu a graça. À Lapa, eu só vou para acompanhar algum amigo em visita ao Rio. Quase não vou ao teatro. Meus atores preferidos morreram e restam poucas atrizes do meu agrado. Cinemas de que eu tanto gostava fecharam as portas. Não há mais glamour. Salas insossas nos shoppings. Poucos filmes de boa qualidade. Ainda resta a pipoca. Assisto a alguns programas na televisão. Durmo cedo e acordo cedo. Tomo o café da manhã na padaria ao lado do edifício onde moro. Pão quentinho que derrete a manteiga. Na xícara, fumegando, um estimulante café. Não troco esse café nem pelo sortido café do Sheraton. Há delícias que só a simplicidade propicia. Do primeiro casamento, tenho um filho que se formou em medicina; do segundo, duas filhas: uma formada em odontologia e outra em educação física. O meu time do coração continua a ser o Fluminense. Lembra da algazarra que eu fazia no pátio do colégio quando o tricolor vencia? O inspetor de alunos acabava com a festa. Ele era vascaíno. Fui militante na política partidária e tirei bom proveito disto. Para mim, obtive cargos em comissão e gratificações que engordavam a renda. Para meus filhos, consegui boas colocações enquanto eles cursavam a faculdade. Ontem eu tentava vender apartamento para um cliente da imobiliária quando ele mencionou a proximidade da data do fim do mundo. Dei a mínima para aquela bobagem. O mundo acaba para quem morre.

Pois eu, enquanto aguardava o fim do mundo participei de uma rodada de chope com os amigos na hora do almoço. À noite, em casa, a família se reuniu em jantar festivo organizado por Marieta. A crença no fim do mundo, Arquibaldo, é armadilha do intelecto. Vida e morte, começo e fim, são idéias fincadas na experiência humana. Os seres vivos nascem e morrem. Estrelas nascem e morrem. Civilizações emergem, ascendem e declinam. Fácil pensar então – ainda mais com apoio em escrituras religiosas – que o cosmos também teve começo e terá fim. No meu entender, fim terá a vida em nosso planeta quando o sol queimar todo o seu combustível, o que levará milhões de anos. 

Estou com você, Olavo. Não descarto a extinção acidental da vida em extensão planetária por cataclismo decorrente do choque com algum corpo celeste de enorme dimensão, ou por hecatombe nuclear provocada pela doidice das lideranças mundiais. As verdades científicas são sempre provisórias. A inteligência humana passa por altos e baixos. A mediocridade ocupa o espaço maior na comunidade humana. Veja alguns exemplos domésticos: Academia Brasileira de Letras, nos últimos cinqüenta anos tornou-se abrigo de mentecaptos. No ensino, a decadência é notória. Raros são os estabelecimentos em que o ensino é de boa qualidade. Profissionais de formação acadêmica cometem erros crassos com graves prejuízos aos clientes, à sociedade e ao Estado. A presidente da República deu uma paulada no vernáculo ao exigir tratamento de Presidenta, além do embaraço ao se expressar sem muletas. 

A conversa está boa, mas o tempo voa. Gostou da rima? Preciso ir ao escritório elaborar petições e me preparar para uma audiência vespertina. Vamos nos encontrar mais vezes de agenda marcada e não ao acaso. Não vamos dar chance à saudade. Dá cá um abraço.

Saudade, Olavo, é bom e nostálgico sentimento provocado pela recordação das experiências registradas em nossa memória e que deixaram marcas em nosso coração. Gosto de curtir as doces lembranças e não só o momento atual. Agora, sigo para o apartamento do meu filho no Leblon, coloco traje de banho e vou à praia porque está no meu horário. Vá lá o abraço.

Traje de banho? Horário de praia? O que é isso, Arquibaldo? Você quer me impressionar ou me provocar inveja?

Nem uma coisa, nem outra. O traje de banho compõe-se de sunga e sandália. Horário de praia é o período da manhã que eu escolhi para caminhar na areia e tomar banho de mar. Nesse horário a praia é freqüentada por mulheres bonitas e de corpos torneados em academia. Quando elas mergulham, os traseiros roliços e firmes brilham ao sol antes de sumirem na água. Colírio para os olhos. Isto me basta, pois além de senil, estou um bagaço. 

Sentindo a fofa areia da praia sob os pés, Arquibaldo pensava enquanto caminhava: será que Olavo acreditou em tudo o que eu disse? A troca de endereços e telefones foi para valer? Sabemos que não. “Apareça”, “me liga”, expressões convencionais que se esgotam em si mesmas. Passam os anos e não aparecemos, nem ligamos.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

FUTEBOL



Seleção inglesa x seleção brasileira (2 x 0). Os ingleses bem entrosados mostraram um futebol eficiente. Até o momento, mostram-se preparados para a copa de 2014. Os brasileiros estão bem individualmente. Necessitam melhorar o conjunto. O treinador convocou jogadores experientes e novatos, todos bons e em forma. Entre os experientes, Ronaldo Gaúcho perdeu um pênalti. Demérito para o batedor; mérito para o goleiro. O batedor tem a obrigação de converter a penalidade em gol diante da enorme vantagem de que dispõe: tiro livre (sem barreira) a pequena distância com enorme gol à sua frente. O goleiro não tem obrigação de defender diante da evidente desvantagem decorrente da punição; se defender, aleluia! Artilheiros como Zico, Romário, Neymar, perderam cobranças de penalidade, o que não lhes retirou a qualificação de bons jogadores. Agora mesmo, no campeonato português, na partida contra o Rio Ave, o artilheiro do Porto cobrou penalidade com a “cavadinha” e o goleiro defendeu. O batedor reabilitou-se na mesma partida ao cobrar de modo simples uma segunda penalidade. Certa vez, o argentino Palácio deixou de converter três penalidades distintas no mesmo jogo.

A presença de Parreira na comissão técnica é mau agouro. Com a sua displicência ele enterrou a seleção de 2006. O elenco daquela seleção era muito bom: Cafu, Juninho Pernambucano, KK, Mauro Silva, Roberto Carlos, Robinho, Ronaldo Gaúcho, Ronaldo Nazário, Zé Roberto, entre outros. Todos confiavam na conquista da copa. A concentração da equipe virou festa. Desvario. Resultado: ficou nas oitavas-de-final. Há jogadores briosos que merecem respeito. Desgostosos com a derrota e com aquele clima carnavalesco, Juninho Pernambucano, Mauro Silva e Zé Roberto decidiram não mais participar da seleção brasileira. Ausência sentida em 2010. Seria bom se voltassem à seleção para a copa de 2014, agora sob o comando de Luis Felipe Scolari. A questão da idade é preocupação de jornalistas brasileiros repetitivos, medíocres, desatualizados com a medicina. Ao treinador mais importa saber se o jogador está em forma do ponto de vista físico, técnico e psicológico e situado entre os melhores da atualidade. Em caso positivo, estudar o modo de bem aproveitá-lo na seleção brasileira.  

Campeonato paulista. 23/02/2013. Bragantino x Corinthians (2 x 2). O Bragantino jogou bem. Lembrou o tempo em que o jovem Luxemburgo era o treinador. Grande partida do Pato; atuou como nos seus primeiros jogos na categoria profissional. Por que ele não jogava tão bem na Europa? Aconteceu o mesmo com Robinho que ambicionava o título de melhor jogador do mundo e cuja estrela perdeu o brilho em céus europeus. Talvez o mesmo aconteça com Lucas, cuja ambição é a mesma de Robinho. Já as estrelas de Careca, Falcão e Romário brilharam naquele firmamento sem a preocupação de ganhar aquele título. Inibição de uns, desenvoltura de outros? Bem possível. O fato negativo pode ter diversas causas: (i) falta de adaptação ao clima europeu, ao futebol europeu, aos costumes europeus; (ii) política dos treinadores; (iii) indiferença da torcida local; (iv) saudade do paparico da imprensa, dos amigos, parentes e torcedores.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

PASSARINHADA



1951. Alto da Rua Itupava, periferia de Curitiba, onde as casas eram de madeira e havia chácaras de imigrantes e descendentes. Plantavam verduras, legumes, pés de laranja, pêra, jabuticaba; criavam gado leiteiro, porcos, galinhas. Havia cavalos atrelados a carroças de rodas de madeira com aros de ferro, sem molejo, tábua servindo de banco. Nós, minoria, de baixa estatura, pele morena, cabelos e olhos escuros, contrastávamos com aquela gente alta, pele clara, cabelos louros ou castanhos claros, olhos azuis ou verdes. Olhávamo-nos com mútua curiosidade. Ao falar, eles erravam na concordância e na pronúncia. No alvorecer do dia e da adolescência eu saía com a minha cetra para caçar passarinhos. No bornal, a munição: pequenas pelotas de barro feitas por mim e secadas ao sol. No regresso, eu depenava os dois passarinhos que caçara e minha mãe os temperava e fritava, mais para nutrir o meu orgulho de caçador do que para alimentar o corpo. O diminuto volume da carne não mexia o ponteiro da mais sensível balança. Pesava mais a satisfação moral de comer a caça.

2013. Campos e morros de Penedo, distrito de Itatiaia/RJ. Ao raiar do dia os passarinhos começam a cantar aqui no quintal de casa e nas cercanias. Suspendo a música da meditação. Escuto-os. Entôo sons vocálicos, cada qual no tom adequado para acompanhá-los. Penso: provavelmente, os místicos orientais se inspiraram no canto dos pássaros quando inventaram os mantras. O meu diabinho interior questiona: por que os passarinhos cantam? Podiam apenas voar, beber, comer e reproduzir. Respondo: é da natureza deles; cantam de alegria. O diabinho pondera: mas o canto pode ser de tristeza. Os poetas cantam as desilusões e as experiências que os fizeram sofrer. Respondo: sim, mas os poetas são homens e não passarinhos. O diabinho opina (aliás, era essa a sua intenção desde o início): da minha parte, acho que os passarinhos cantam o hino à vida. O canto os fortalece e os identifica; cada espécie, o seu gorjeio. Aborrecido por ver minha verdade questionada e minha vaidade ferida não lhe dei resposta. Liguei o aparelho de som. Música suave. Voltei a meditar.

As andorinhas costumam enfileirar-se nos quatro fios da rede elétrica que passa em frente e ao lado da minha casa. Por um longo tempo ali ficam quietas ou a bicar embaixo das asas; às vezes, uma ou outra muda de posição. Há ocasiões em que não passam de uma dezena, param pouco e logo vão embora. Hoje contei mais de 100. Uma festa! Veio um pardal e se empoleirou no topo do poste com pose de dono do pedaço. Ouço um canto alto, forte e melodioso. Não é do pardal, nem da andorinha. Localizo o cantor: um passarinho, inho, inho, do tamanho do mindinho. Fico admirado: como este pequerrucho pode cantar desse jeito alto e vigoroso? Assemelha-se à espécie de passarinho que no Paraná, ainda crianças, nós chamávamos de corruíra. Ele parece gostar da audiência. Faz trejeitos, olha-me de soslaio, finge que não me vê estufa o peito e capricha no agudo. Aceito o desafio. Finjo também que não o vejo, fico no pátio e não arredo o pé enquanto ele não decola. O bem-te-vi também canta alto e forte, mas é um gigante comparado com o tamanho deste passarinho. Quando um canta outros respondem e a cantoria parece orquestrada por maestro. Ouvem-se cantos vindos de mais distante, tanto das corruíras (vou chamá-los assim) como dos bem-te-vis, sabiás, pintassilgos e outras espécies de passarinho. Cria-se autêntica e natural sinfonia.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

POESIA



Nos meus cadernos de escola, nesta carteira, nas árvores, nas areias e na neve /
Escrevo teu nome.
Em toda página lida, em toda página branca, pedra, sangue, papel, cinza /
Escrevo teu nome.
Nas imagens redouradas, na armadura dos guerreiros e na coroa dos reis /
Escrevo teu nome.
Nos jungles e no deserto, nos ninhos e nas giestas, no céu da minha infância /
Escrevo teu nome.
Nas maravilhas das noites, no pão branco da alvorada, nas estações enlaçadas /
Escrevo teu nome.
Nos meus farrapos de azul, no tanque sol que mofou, no lago lua vivendo /
Escrevo teu nome.
Nas campinas, no horizonte, nas asas dos passarinhos e no moinho das sombras /
Escreve teu nome.
Em cada sopro da aurora, na água do mar, nos navios, na serrania demente /
Escrevo teu nome.
Até na espuma das nuvens, no suor das tempestades, na chuva insípida e espessa /
Escrevo teu nome.
Nas formas resplandecentes, nos sinos das sete cores e na física verdade /
Escrevo teu nome.
Nas veredas acordadas e nos caminhos abertos, nas praças que regurgitam /
Escrevo teu nome.
Na lâmpada que se acende, na lâmpada que se apaga, em minhas casas reunidas /
Escrevo teu nome.
Em meu cão guloso e meigo, em suas orelhas fitas, em sua pata canhestra /
Escrevo teu nome.
No trampolim desta porta, nos objetos familiares, na língua do fogo puro /
Escrevo teu nome.
Em toda carne possuída, na fronte de meus amigos, em cada mão que se estende /
Escrevo teu nome.
Na vidraça das surpresas, nos lábios que estão atentos, bem acima do silêncio /
Escrevo teu nome.
Em meus refúgios destruídos, em meus faróis desabados, nas paredes do meu tédio /
Escrevo teu nome.
Na ausência sem mais desejos, na solidão despojada e nas escadas da morte /
Escrevo teu nome.
Na saúde recobrada, no perigo dissipado, na esperança sem memórias /
Escrevo teu nome.
E ao poder de uma palavra, recomeço minha vida, nasci para te conhecer /
E te chamar liberdade.
(“Um Único Pensamento”. Paul Éluard. Trad. Manuel Bandeira e Carlos Drumond de Andrade).

sábado, 9 de fevereiro de 2013

POESIA



Tu me queres alva / me queres de espuma / me queres de nácar / que seja açucena / mais casta que todas. / De perfume suave / corola fechada. / Nem raio de lua / filtrado me toque. / Nem a margarida / seja minha irmã. / Tu me queres nívea / tu me queres branca / tu me queres casta.
Tu, que as taças todas / já tiveste à mão. / Os lábios corados / de frutos e mel. / Tu, que no banquete / coberto de pâmpanos / as carnes gastaste / festejando a Baco. / Tu, que nos jardins / escuros do engano / lascivo e vermelho / correste no abismo.
Ó tu, que o esqueleto / não sei por que graça / ou por que milagre / conservas intacto / só me queres branca / (que Deus te perdoe!) / só me queres casta / (que Deus te perdoe!) / só me queres alva.
Foge para o bosque / vai para a montanha. / Purifica a boca / vive na humildade. / Segura com as mãos / a terra orvalhada. / Alimenta o corpo / de raiz amarga. / Bebe a água das rochas / dorme sobre a geada / renova os tecidos / com salitre e água. / Conversa com os pássaros / lava-te na aurora.
E já quando as carnes / ao corpo te voltem / e quando hajas posto / nas carnes a alma / que pelas alcovas ficou enredada / então – homem puro – / pretende-me nívea / pretende-me branca / pretende-me casta.
(“Tu me queres casta”. Alfonsina Storni. Trad. Oswaldo Orico).

sábado, 2 de fevereiro de 2013

POESIA



A brigada dos velhos repete sem se cansar. / A cantilena é sempre igual: / Camarada, para as barricadas! / E eu digo: barricadas da alma e do coração. / E eu digo: somente é comunista verdadeiro / quem destrói as pontes da retirada. / Basta de marchas futuristas / ou de saltos no futuro. / Construir um trem é pouco. / Se a canção rebelde não levanta os povos / de que serve a mudança de marcha? / Ajuntai os sons uns aos outros / e prossegui cantando e assoviando. / Há, entretanto, lindas letras / U R S S / É pouco para fabricar um par de botinas / ou coser os galões às calças. / Os deputados não movimentarão os exércitos / se os músicos não abrirem a marcha. / Basta de verdades baratas. / Arrancai o ranço do coração! / As ruas são nossos pincéis / e paletas as nossas praças. / No livro do tempo / ainda não foram cantadas / as mil páginas da revolução. / Para a rua, futuristas, tambores e poetas!

(“Ordem do dia aos exércitos da arte”. Vladimir Vladrovitch Maiakowsk. Trad. Sérgio Milliet).


Toma-me agora que ainda é cedo / e levo dálias novas pela mão / Toma-me agora que ainda está sombria / a minha cabeleira ondulante e vadia / agora que ainda tenho uma carne olorosa / os olhos de cristal e a pele de uma rosa. / Agora que me calça o meu pé de roseira / a sandália vivaz da primavera. / Agora que em meu lábio o riso soa / como um sino que bate e cuja nota voa. / Depois... Ah! Eu sei / que nada mais do que hoje tenho, então terei! / Hoje, mais tarde não. Vem, antes que anoiteça / e que murche com o tempo esta corola fresca. / Hoje, e não amanhã. Amor: não percebeste / que a parasita azul acabará cipreste?

(“A Hora”. Juana de Ibarbourou. Trad. Oswaldo Orico).