segunda-feira, 26 de março de 2012

FUTEBOL


A imprensa esportiva costuma comparar jogadores nacionais e estrangeiros. Movidos pelo sensacionalismo e pelo complexo de inferioridade decorrente da mentalidade colonizada, jornalistas brasileiros comparam sem critério, sem considerar época, arte e técnica. Parcela da população brasileira sofre desse complexo que o dramaturgo Nelson Rodrigues apelidara de complexo de vira lata. Para essa gente, tudo o que se faz nos países da América do Norte e da Europa é superior ao que se faz no Brasil: literatura, música, esporte, tecnologia, arte, ciência, costumes. A equipe econômica do governo brasileiro enfrentou bem a crise mundial iniciada em 2008. Sem paranóia, tratou a crise de modo próprio, frio e realista. Saiu-se melhor do que os governos dos países do primeiro mundo. Mostrou que é possível superar o colonial complexo de inferioridade; não ficou à espera de solução alienígena. Na última década do século XX, na capital do Rio de Janeiro, em almoço de trabalho, foi apresentado a um deputado federal o esboço de reforma do Poder Judiciário prevendo tribunal constitucional para cada região do país a fim de desconcentrar a jurisdição, acelerar o julgamento de milhares de processos e reduzir as despesas da população decorrentes das grandes distâncias a serem percorridas até Brasília. O supremo tribunal converter-se-ia em tribunal constitucional da região central. Pois bem. O deputado perguntou se algum país adotara aquele modelo. Ante a resposta negativa, perdeu o interesse. Eis aí como pensa e age o vira lata: há que ter um modelo estrangeiro para ser imitado. Esse tipo de postura foi notado pelos argentinos que, por isso mesmo, chamavam os brasileiros de macaquitos. O contingente de vira latas compõe-se de indivíduos dos setores público e privado, de diferentes níveis sociais, faixas etárias e profissões.

No futebol, jogadores brasileiros são rebaixados por análises superficiais – algumas levianas – e por comparações impróprias feitas por esse contingente de mentecaptos.  Com objetivos políticos e financeiros, a FIFA passou a incluir na lista dos melhores, sem criterioso exame do merecimento, jogadores de todos os continentes e a manipular a escolha do melhor jogador de cada ano. Do ponto de vista ético, todavia, o correto é avaliar o merecimento dentro de critérios objetivos, sem valorizar em demasia, nem aviltar. Bem cotados, entre outros, no cenário esportivo internacional, estão: (i) os africanos Etoo, Eusébio (naturalizado português), Milla e Zidane (naturalizado francês); (ii) os americanos Batistuta, Cambiasso, Chilavert (goleiro), Cubillas, Di Stéfano (argentino hispânico), Forlán, Gamarra, Hugo Sanchez, Maradona, Mario Kempes, Messi (argentino hispânico), Riquelme, Suarez, Valderrama; (iii) os europeus Anelka, Baggio, Ballack, Barthes (goleiro), Beckenbauer, Beckham, Bobby Charlton, Bobby Moore, Casillas (goleiro), Cristiano Ronaldo, Deco (luso brasileiro), Figo, Franco Baresi, Gerd Müller, Gordon Banks (goleiro), Gullit, Hagi, Ibrahimovic, Iniesta, Johan Cruyff, Just Fontaine, Klinsmann, Klose, Kócsis, Larsen, Lato, Lineker, Lothar Mattheüs, Malouda, Marco van Basten, Mazurkiewicz (goleiro), Michel Platini, Nasry, Oliver Kahn (goleiro), Özil, Paolo Maldini, Paolo Rossi, Paul Breitner, Pirlo, Puskas, Ribery, Rijkaard, Robben, Rooney, Rummenigg, Schweinsteiger, Sneijder, Stoichkow, Totti, Vieri, Villa, Xavi, Yashin (goleiro).

Para se valorizar mais do que o merecido, há jogadores servindo-se de promoção através dos meios de comunicação social, onde são colocados maliciosamente no mesmo nível dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos. Organizações esportivas européias passaram a colocar no rol dos melhores do mundo, sem merecimento, jogadores de clubes europeus, por não se conformarem com a supremacia dos jogadores de clubes e seleções de países subdesenvolvidos. 

quinta-feira, 22 de março de 2012

POESIA


Ouvem-se gritar cem pássaros: dois ou três sabem cantar. / Todos os outros palram, vibram ou guincham num ranger de eixo sem graxa. / Isso, para os ouvidos! Para os olhos, ante a alvorada de um róseo e azul estirados por pinceladas tímidas / erguem-se – entre palmeiras e araucárias, entre as primeiras fumaradas das usinas, algodão e café – a grande poeira rubra do dia / a cor soberana que vai penetrar tudo / avermelhando as árvores do caminho, os postes telegráficos / a grande cerca de “bougainvillers” / e até mesmo as bestas, jungidas de seis em seis às carroças / conduzidas por negros, japoneses e escandinavos / as bestas brancas que ela retoca / vestidos escarlates, cabeças azuis. / Nas usinas, a prensa de algodão “feita em Burlington, Alabama, USA” / mandíbulas terríveis, cerradas, o ponteiro marcando no quadrante os décimos de atmosfera / trabalha já, soltando fardos sobre fardos. / Cada fardo vestido de estopa grossa e atado por cintas de aço, cúbico e enorme como um armário / teus futuros armários de roupa branca, velha Europa! / lençóis e lenços, ceroulas e toalhas. / E os grãos de café atrás do vidro, à ventania do catador / “feito em São Paulo” desta vez. / Orgulhoso São Paulo! Com seus homens ásperos, suas mulheres finas, seus algarismos, suas usinas, seus rancores. / São Paulo que, do golfo a Mato Grosso, pesa como um bloco de aço. / É ele que parece puxar para baixo toda a América / puxar para o Brasil, para os pensamentos frios expostos ao contato do Pólo. / Porque é em vão que o continente arfa sob o Equador / e que os trópicos incham como velas. / São Paulo pesa, mantendo o Brasil como uma âncora. / No entanto, uma vaca muge, à moda européia, no cercado de eucaliptos. / E os periquitos e as rolas esvoaçam entre as palmeiras e os cipós / enquanto as colinas perfilam por milhões seus cafeeiros / e o beija-flor vibra e se vai rodopiando como uma alma / e para o céu, como uma estrela, antecipando o Cruzeiro do Sul / sobe o sol altivo de São Paulo. (“Alvorada Paulista” – Luc Durtain = André Robert Gustave Nepveu).   

domingo, 18 de março de 2012

POESIA


Para que uma vez mais João Batista sorria / Senhor, eu dançarei melhor que um serafim. / Mãe, por que está imersa em tal melancolia / vestida de condessa e ao lado do delfim? / Meu coração só de escutá-lo quando eu vinha / dançar junto ao funchal, batia angustiado. / Eu lhe bordara lírios numa bandeirinha / destinada a flutuar no alto do seu cajado. / E agora, para quem farei lírios bordados? / Seu bordão refloresce às margens do Jordão. / Vieram prende-lo, ó Rei Herodes, teus soldados / e em meu jardim lírios murcharam desde então. / Vinde todos comigo, além, sob os quincôncios / Não chores mais, lindo bufão de reis / em vez do guiso, empunha esta cabeça e dança! / Mãe, sua fronte fria está. Não lhe toqueis. / Senhor, ide na frente e que a guarda nos siga. / Abriremos um fosso e nele o enterraremos / entre flores e, em roda, em torno dançaremos / dançaremos até que eu perca a minha liga / o rei, a tabaqueira, a infanta, o seu rosário/ e o cura, o seu breviário. (“Salomé”. Guillaume Apollinaire Kortrovitz).

quinta-feira, 15 de março de 2012

POESIA

Neve caindo e a noite tão depressa / tão depressa, no campo onde passei / quase coberto de macia neve / algum restolho só a distinguir-se. / Os circundantes bosques têm-na – é deles. / Os animais se encolhem pelas tocas. / Vago demais eu vou para contar / a solidão me inclui sem que eu o saiba. / Solitária como é tal solidão / sê-lo-á bem mais, por menos que antes seja / alva brancura da noturna neve / sem expressão, sem nada que exprimir. / Ninguém me assusta com o vazio espaço / entre as estrelas sem humanidade. / Tenho dentro de mim, e bem mais perto / com que assustar-me: o meu próprio deserto. (“Lugares Desertos” – Roberts Frost).

quinta-feira, 8 de março de 2012

PAZ


Paz de criança dormindo, poetava Dolores Duran. Paz de espírito para bem viver neste mundo. Devaneio poético. A civilização gerou modelos de convivência refratários à paz sonhada por Dolores. A paz entre os seres humanos implica defesa contra os estímulos que provocam ações e pensamentos destrutivos; que despertam sentimentos de inveja, raiva e ódio; que geram inquietação, horror e desespero. Nas relações humanas, a paz se obtém mediante respeito mútuo, moderação, altruísmo, controle do egocentrismo e do impulso de dominação. Exige atitudes positivas: reagir à exploração de uma pessoa por outra, ou de um povo por outro; opor a liberdade à servidão; submeter interesses ao crivo da razão; combater a criminalidade; apear do poder governante que atua contra o bem comum. Suprema arte: assumir essas atitudes positivas sem violência.

Problemas políticos, sociais e econômicos assediam a humanidade através dos séculos. São entraves à paz. Exigem constantes esforços para solução adequada. Não são insolúveis, mas se renovam. Vontade, capacidade, oportunidade e meios para resolvê-los sempre faltam. Problemas e paz não combinam embora um clima de paz ajude a solucioná-los. Superar dificuldades requer arte, paciência e reflexão. No indivíduo, restam em potência os recursos para superá-las (conhece-te a ti mesmo). Nos folguedos da comunidade, a paz é subtraída por pessoas que sentem prazer em tumultuar, atemorizar, ferir e matar. Parlamentares, chefes de governo, magistrados, funcionários de qualquer escalão, abusam do poder, criam dificuldades, causam sobressaltos e embaraços aos governados.         

No campo espiritual, há necessidade de permanente e sincera busca do reino de Deus para alcançar a paz. Ao ser invadido por uma paz profunda, o indivíduo sente que se aproximou do reino divino. Nessa experiência extática, ele vivencia a paz. Segundo os evangelhos, Jesus dizia estreita a porta que leva ao Pai e poucos seriam os escolhidos. Portanto, ele não veio salvar e sim selecionar, constituir uma comunidade de santos. A multidão excluída vai queimar no inferno. Os crentes, ainda que não sigam à risca os mandamentos, serão perdoados desde que não pequem contra o espírito santo. Ricos, remediados e pobres, desde que misericordiosos, ingressarão na morada celeste, ainda que não pertençam à comunidade dos santos. Segundo essa doutrina, os incrédulos, os hipócritas e os que zombam do espírito santo são parceiros do demônio.

Na realidade, jamais houve comunidade de santos aqui na Terra. A razão é simples: a doutrina de Jesus é impraticável por ser incompatível com a natureza bipolar do ser humano: angelical + demoníaca. Na farsa da exeqüibilidade do que é inexeqüível, a organização eclesial serve-se do terror para convencer e formar o rebanho. Mais fácil: conduzir quem se acha nas trevas da ignorância, colocá-lo em servidão, ditar-lhe regras e lhe tirar parte dos bens e dos ganhos mediante chantagem emocional. Mais difícil: conduzir quem cultiva a razão e a intuição; quem alarga o conhecimento de si, do outro e do mundo; quem busca aproximar-se de Deus com a mente e o coração abertos, escorado em conduta ilibada, com firme e sincera disposição de ânimo. Os iluminados – não só pelo cultivo do intelecto, mas que o são na quietude das suas almas, como Akenaton, Sócrates, Sidarta, Jesus, Gandhi, portadores da luz da razão divinamente inspirada – constituem ameaça às oligarquias políticas e religiosas. Daí, serem eles odiados, traídos e até privados da liberdade e da vida. A ojeriza dos oligarcas contra os ensinamentos desses mestres é óbice à celebração da paz.

domingo, 4 de março de 2012

PAZ


Paz como exigência estática jamais terá lugar no universo. A vida é o principio dinâmico que mantém o universo em eterno movimento e progresso. No mundo natural, há momentos de calmaria refletidos na superfície do lago, no cume da montanha, na solidão dos campos varridos por suave brisa, na profundidade do oceano, no céu límpido em noite estrelada e enluarada. Todavia, o fluxo é de fenômenos telúricos, de sucessões de causas e efeitos, de mutações. No mundo cultural, há momentos de calmaria nos templos místicos e religiosos, nos mosteiros, nas tréguas, no isolamento individual para meditação, contemplação, êxtase, beatitude, sintonia com o mundo divino, iluminação espiritual. Há momentos de tranqüilidade pública, sem guerra, sem competição selvagem na atividade econômica, sem confronto violento entre classes, grupos e etnias. Vige a paz nos momentos de cooperação para o bem geral, de sossego, repouso e harmonia no lar.  

Na acepção positiva, entre os seres humanos, paz implica presença de: (i) amizade, solidariedade, simplicidade; (ii) liberdade, igualdade, fraternidade; (iii) simpatia, compreensão, tolerância, bondade, serenidade, silêncio, amor.  Na acepção negativa, implica ausência de: (i) conflito, hostilidade, destempero; (ii) ódio, cobiça, desejo; (iii) maldade, crise, sofrimento, preocupação, desespero, inveja, paixão.

A paz esteja convosco! Assim se cumprimentam os místicos. Buscam o silêncio dos mosteiros e dos templos, longe do torvelinho dos centros urbanos e dos desencontros da vida em sociedade. Zelam pela paz nos seus corações e nas suas mentes, pelo controle das emoções e dos apetites. Grande vitória é manter a paz interior ao caminhar nos dias úteis pelas ruas de uma metrópole ou nelas trafegar em veículos automotores. 

Quem tem paz, amor não tem, diz a canção popular. Indaga-se de que amor o compositor está falando. Da paixão que gera o ciúme, certamente. Do amor possessivo e torturante que rouba a paz de espírito. Do exagerado afeto e apego às coisas materiais, possivelmente. Formas de amor incompatíveis com a paz interior e exterior. 

Paz e amor combinam-se no discurso e na visão de mundo dos hippies da era de aquário. O modelo era Jesus, cuja aparência nazarena era imitada pelos rebeldes e vinha estampada nas camisetas. A escolha do modelo foi infeliz, pois segundo os evangelhos, Jesus afirmava que não viera para trazer a paz e sim a espada, que viera para dividir e não para unir; viera para fundar uma comunidade de santos e atemorizar os pecadores. A imagem nazarena adequou-se mais a Che Guevara do que aos hippies.    

Queremos paz! Bradam as populações vítimas dos conflitos provocados pelos governos. A estupidez dos governantes entra em recesso para ceder espaço a momentos de paz. Celebram-se tratados de armistício entre as forças combatentes ou de sucumbência entre vencedores e vencidos. Na busca da paz, cessadas as hostilidades, há reivindicações de mudança na organização social, política e econômica, nas prioridades, na hierarquia dos valores e princípios morais e jurídicos.

quinta-feira, 1 de março de 2012

PAZ


O sentimento de alegria e de esperança por um futuro risonho repete-se todo final de ano. As padronizadas festas motivam reflexões de variados matizes expressas em linguagem poética ou literária, matéria de revistas, jornais, programas de televisão e de intensa propaganda comercial. Renovam-se os votos de saúde, prosperidade, amor e felicidade. Paz é palavra freqüente nesses festejos em que as pessoas se vestem de branco, se abraçam, cantam, dançam, riem, comem, bebem, soltam fogos e estouram bombas. Euforia. Costume raso.  Promessas de mudança jamais cumpridas. Para alguns, o ano velho foi muito bom e não convém mudar. Vida nova! Exclamam outros, sem convicção. Temas correlatos à paz, como o místico trinômio luz + vida + amor, o binômio eu + tu e a felicidade, foram tratados na série publicada nos meses de fevereiro, março e abril de 2010 aqui neste espaço. Dispensável, pois, a repetição. Cabem algumas considerações sobre a paz.  

Em janeiro, o livro da vida continua a ser escrito. Fevereiro: carnaval. Março: quaresma. Abril: páscoa. Junho: festas juninas. Setembro: semana da pátria. Dezembro: reveillon. Durante o ano: (i) dias santificados e outros feriados que ensejam passeios à praia ou à montanha e incrementam o turismo interno; (ii) nascimentos, casamentos, divórcios e mortes; (iii) pessoas amando, odiando, fingindo, tolerando, estudando, trabalhando, vagabundeando; (iv) homens e mulheres empregados e desempregados, saudáveis e doentes, alegres e tristes, felizes e sofrendo, sorrindo e chorando.

Abundância para uns, mendicância para outros. Crianças e adolescentes, amparados alguns, abandonados e explorados, outros. Famílias sem moradia. Habitações em regiões sem infra-estrutura e em áreas de risco. Tragédias por fatores naturais e humanos que: (i) agitam as emissoras de TV e nutrem a vaidade dos repórteres e apresentadores; (ii) enchem cofres e armazéns particulares de políticos corruptos com o dinheiro do erário destinado ao socorro e com os bens doados pelo povo; (iii) evidenciam a solidariedade da maioria e o egoísmo e a pilantragem da minoria.

Aumento de preços, tarifas e tributos. Inflação. Acidentes de veículos com lesões e morte. Assassinatos, furtos, roubos, estupros. Violência doméstica. Agressão à mulher, à criança e ao meio ambiente. Tráfico de drogas, de gente, de bicho, de madeira e de metal. Propaganda enganosa. Manipulação de dados. Corrupção no Legislativo, no Executivo, no Judiciário e nos órgãos da administração pública indireta. Impunidade. Eleição para cargos públicos de gente que não presta. Eleitor ignorante ou corrupto.

Vitórias e derrotas no esporte. Insuficiência de escolas, hospitais, professores, médicos e de verba para pesquisa científica. Despreparo de professores e alunos. Má remuneração dos professores da escola pública e dos médicos da previdência social. Má qualidade do ensino e da assistência à saúde. Aprovações escolares aos lotes. Ensino privado como negócio lucrativo. Policiais e criminosos associados. Consumo de craque, cocaína, maconha, tabaco e bebida alcoólica. Nações a cobiçar as riquezas de outras e a provocar guerras a pretexto de defesa prévia. Hipocrisia como norma das relações internacionais. Mentira como valor diplomático. Covardia das nações aliadas à grande potência.

Cada novo ano já nasce velho de 100 anos!