terça-feira, 27 de dezembro de 2011

FUTEBOL


18.12.2011. Manhã nefasta. Santos FC goleado pelo Barcelona FC na partida final do campeonato mundial de clubes: 0 x 4. O favoritismo pendia para a equipe catalã. A santista perdera vigor no campeonato brasileiro de 2011 e longe estava de ser a melhor do Brasil. Corinthians, Vasco, Fluminense, Flamengo, Internacional, classificaram-se bem no referido campeonato porque apresentaram futebol superior ao do clube santista. O campeonato realizado no Japão era de clubes (cada continente um clube) e não de seleções nacionais. Lá, estava representado o decadente futebol de um clube brasileiro e não o futebol da seleção brasileira (ainda que medíocre na atualidade).   

Fator tático. O clube santista jogou na retranca todo o primeiro tempo. Diante de uma equipe que joga por música, tem boa defesa, trama bem no meio do campo, entrosada, segura e objetiva, com atacantes de primeira linha, a equipe adversária tem que se impor com coragem e partir para o ataque. Com Arouca, Elano, Ganso, Borges e Neymar, quinteto de boa qualidade técnica, o Santos FC podia servir-se da tática ofensiva. O treinador preferiu a tática defensiva. Levou uma surra. Em mais de 70% do tempo a bola ficou sob o domínio do Barcelona. O clube santista sofreu três gols na primeira etapa. Na segunda, o time voltou mais ofensivo e sofreu apenas um gol. Se assim houvesse procedido na primeira etapa, haveria possibilidade de a partida: (i) terminar empatada; (ii) ser vencida pelo clube catalão com placar estreito; (iii) ser vencida pelo clube santista. Difícil aceitar o fato de um time com aquele quinteto não fazer pelo menos um gol no adversário. O clube catalão teve mais dificuldade de vencer o clube árabe do que vencer o clube santista. A equipe de Santos já mostrara fraqueza diante do time japonês, da mesma forma que o fizera no campeonato brasileiro. A correta crítica de Mourinho, técnico do Real Madri, procede da razão e não da inveja. A disputa se deu entre equipes fracas: japonesa, árabe e brasileira. Para o clube catalão foi um passeio. A defesa santista é frágil e não houve santo que a fortalecesse. Falhas há em qualquer jogo de ambos os lados. Contudo, algumas são intoleráveis em time que disputa campeonato mundial. De duas falhas incríveis resultaram dois gols, sinal de que os santos protegiam os catalães. Os erros de passe eram constantes. O time catalão errava bem menos e tocava melhor a bola. O seu treinador declarou, após o jogo, que seguira indicações dos seus antepassados e tomara por modelo o antigo futebol brasileiro. Os vencidos podem vislumbrar ironia nas palavras dele, mas não deboche. Ele falava sério e homenageava seu pai e seu avô naquele momento de glória.  

Fator psicológico. Treinador e jogadores do clube santista entraram derrotados em campo. A maioria que assistiu ao jogo pela televisão certamente percebeu a postura submissa dos jogadores santistas diante dos jogadores catalães. Pelo aparvalhado olhar, parecia que iam pedir autógrafos ali mesmo no túnel. Na troca de cumprimentos na cerimônia do início da partida, Messi nem olhou para Neymar. A atitude servil do brasileiro estimulou no argentino o menosprezo. O santista ficou desorientado. Os santistas jogaram para se defender convencidos da superioridade do adversário. No futebol não há time invencível, nem time de outro planeta. Os melhores times sofrem derrotas. O clube de Barcelona já as sofreu, apesar da sua excelência. O clube de Santos, nível técnico razoável, mostrou-se inferior sob o ângulo tático e psicológico. Comissão técnica, jogadores e jornalistas brasileiros resvalaram no complexo de vira lata de que falava Nelson Rodrigues. Os ascendentes de Guardiola se referiam ao futebol brasileiro da época deles (1930 a 1970), quando viram em campo jogadores como Leônidas, Domingos da Guia, Ademir, Zizinho, Djalma Santos, Vavá, Didi, Garrincha, Pelé, Gerson, Rivelino, Jairzinho, jogadores de têmpera de aço, de refinada arte, de majestoso e eficiente toque de bola. O avô e o pai do treinador catalão também gravaram em suas retinas a maravilhosa atuação do Santos FC dos anos 60, nos estádios europeus. Hoje, impera a frouxidão, salvo no aguerrido e excelente futebol feminino.       

Fator organizacional. Faltou a necessária concentração dos jogadores e o comando de um Dunga para moderar o assédio da imprensa e a ganância dos patrocinadores. Concederam entrevistas antes do jogo e abriram precocemente largo espaço para a propaganda comercial. Criaram um clima artificial de descontração que ocultava o medo e o sentimento de inferioridade. Ao encherem a bola de Neymar e de Ganso plantaram a semente da decepção. O futebol desses dois jogadores é aquele mesmo apresentado no Japão: de vez em quando, uma boa jogada. Neymar perdeu gols; Messi marcou gols. Neymar tem mais arte; Messi mais eficiência. Neymar tem repertório de belos dribles; Messi tem um drible só. Neymar é bom com a direita e razoável com a esquerda; Messi é bom com a esquerda e ruim com a direita. Ambos são deficientes no cabeceio e na cobrança de faltas, fazem algumas jogadas geniais e outras medíocres, são velozes e têm boa visão de jogo. Salvo Ganso, os demais companheiros de Neymar são mais lentos do que os companheiros de Messi na percepção das jogadas. Neymar procura ser simpático; Messi não esconde a arrogância. Com olho no faturamento, a imprensa esportiva brasileira costuma endeusar jogadores, mostrar ângulos favoráveis ao sensacionalismo e criar falsas imagens. Diante da realidade mostrada em campo, o público se decepciona, fica indignado e procura os culpados. Chegará o tempo em que o público perceberá ter sido manipulado por aquele tipo de jornalismo. A copa do mundo de 2014 será disputada no Brasil. Apesar disto e da efervescência da imprensa, a taça será levada por seleção estrangeira. No presente, o clube campeão do mundo pratica o bom futebol brasileiro do passado. Guardiola dixit.

domingo, 25 de dezembro de 2011

JESUS


JESUS, O RESSURRECTO.

Alguns príncipes do Sinédrio, entre eles José de Arimatéia e Nicodemus, discordaram da condenação de Jesus. O romano Pilatos, que governava Jerusalém, convicto da inocência, também não queria a morte de Jesus e autorizou Arimatéia a retirar o corpo da cruz sem quebrar as pernas do crucificado. O evangelista Marcos refere-se ao testemunho do centurião sobre a morte de Jesus (Mar 15: 44-45). Breve nos costumes: o centurião recebera propina para testemunhar (Mat 28: 12). Pilatos aceitou o testemunho. Jesus foi levado ao sepulcro de propriedade de Arimatéia, próximo ao Gólgota (Monte Calvário). Ali recebeu os primeiros socorros e visual novo para não ser reconhecido por seus perseguidores. A crucifixão aconteceu na sexta-feira. No domingo pela manhã, Maria Madalena, companheira de todas as horas, não reconheceu Jesus (Jo 20: 11-15). Mais tarde, os demais discípulos também não o reconheceram e só ficaram convencidos quando viram as feridas deixadas pelos cravos nas mãos e nos pés de Jesus, assistiram-no tomar refeição e ouviram-no falar dos assuntos internos da irmandade (Luc 24: 16,36-43). Dificuldade explicável. Durante alguns anos, a comunidade palestina conviveu com um rabi nazareno de cabelos longos, barba comprida, bigode, vestindo clara túnica e sandália. De repente, dois dias após a execução da pena de morte, apresenta-se diante dos discípulos um homem de aparência madura, cabeça raspada, rosto liso (sem barba e sem bigode), roupas comuns, identificando-se como o rabi crucificado. Natural que duvidassem.

Teses mirabolantes tentam explicar essa aparição e esse convívio posterior à crucifixão. Sustentam que Jesus ali não estava com o seu corpo natural e sim com um corpo virtual ou um corpo astral. No entanto, o fato nada tem de sobrenatural ou milagroso. A explicação não pode fugir da evidência: Jesus ali estava com seu corpo biológico, com seu apetite natural, com sentidos e atividade mental humanos, simplesmente porque não morreu na cruz. Houve desmaio por fraqueza decorrente da desidratação, da falta de refeição normal, da agitação, do suplício e da perda de sangue no dia da crucifixão. Apesar disto, morte não houve, quiçá em decorrência da dieta saudável dos nazarenos e da ceia pascal da quinta-feira, quando eles comemoravam a passagem do culto mosaico ao culto cristão (páscoa = passagem). A páscoa dos judeus comemorava a saída do povo hebreu do Egito e o genocídio de crianças egípcias perpetrado pelo deus Javé; compreendia o período de março a abril de cada ano; iniciava-se no crepúsculo da sexta-feira (Êxodo 12 + 34: 18).

A pena de morte aplicada a Jesus adentraria o período pascal judeu, violando a lei mosaica. Daí, a súplica dos sacerdotes e escribas para que fosse aplicada a lei romana. Efetivada a crucifixão, houve socorro tempestivo e eficaz. Ainda hoje se fala em ressurreição quando pessoa vítima de acidente ou paciente de delicada cirurgia e de grave doença, nos limites entre a vida e a morte, consegue sobreviver. Costuma-se dizer: “foi um milagre, fulano ressuscitou”. A própria pessoa diz: “nasci de novo”. Em tal sentido, pode-se falar da ressurreição de Jesus e que ele nasceu de novo. Após a crucifixão, a irmandade cristã passou a comemorar – não mais a passagem do culto mosaico ao cristão – e sim a ressurreição de Jesus (páscoa cristã).

A prece católica, entretanto, cuja repetição na missa condiciona a mente dos fiéis de modo robótico, falsamente coloca Jesus entre os mortos e o faz descer ao inferno. O verdadeiro inferno vivido por ele começou no Monte das Oliveiras, passou pela assembléia do Sinédrio, pelo trono de Herodes, pelo pretório de Pilatos e terminou no Monte Calvário. A versão da morte era oportuna e necessária para tornar crível o milagre e causar maior impacto no espírito do povo. A notícia da morte e da milagrosa ressurreição convenceria o povo de que se cumprira profecia contida no Antigo Testamento. Deixar no sepulcro vazio o sudário cuidadosamente enrolado incluía-se na estratégia para lograr tal objetivo. A mensagem cristã e a catequese teriam força e êxito no futuro.

No livro “Quebrando o Código Da Vinci”, o professor Bock, sob ótica marcial, diz que a ressurreição é o choque entre a vida e a morte, do qual a vida sai vencedora. Contudo, outro será o panorama se o conceito “morte” separar-se do conceito “fim”. Desde que a morte seja definida como passagem de uma forma de vida a outra, a ótica marcial mostrar-se-á inadequada. Entre a vida e a morte há continuidade em diferente freqüência vibratória. Trata-se da universal lei de mutação que Heráclito e Lavoisier perceberam no mundo físico. O professor fala no “caminho para a vida”, como se os humanos estivessem mortos. Esta metáfora se afigura imprópria. A vida é palpitação, vibração, como se nota de todos os seres vivos. A natureza é vida, energia cósmica. A sua fonte está em Deus. Há diferentes modos de a fonte da vida ser percebida. O ciclo vital do ser humano provoca o sonho da eternidade.

Ponto chave, segundo Bock: Jesus revela o que Deus fez e faz para a humanidade. Argumento esquálido. Bastam, aos humanos, lucidez e sentidos ativos para perceber a obra divina neste mundo: maremotos, terremotos, furacões, que ceifam a vida de milhares de pessoas (idosos, adultos, crianças) e destroem patrimônios obtidos com muito sacrifício. As forças telúricas são forças da natureza cegas aos valores humanos. A natureza é criação divina. Isto indica que: (i) as leis de Deus são inflexíveis, incidindo sobre animais racionais e irracionais, planetas e galáxias; (ii) o universo está em constante movimento cíclico de construção, conservação, destruição e reconstrução; (iii) inexiste preocupação divina especial com qualquer ser da natureza. Os humanos percebem a obra divina também através da beleza captada pelos sentidos e interpretada pela razão. Sentem pulsar em seus corações a força ética da justiça, da verdade, da bondade e da santidade.    

Ponto chave real: Jesus desperta a consciência da universalidade de Deus. Mostra como os seres humanos podem se aproximar de Deus. A casa do Pai tem muitas moradas. Escala-se a montanha por diferentes lados. Quem se aventurar – e merecer – encontrará o reino de Deus. Aí, como disse Jesus, bastará bater e a porta se abrirá, pois, o reino de Deus já está entre vós.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

JESUS


JESUS, O REDENTOR.

Havia mulheres “livradas de espíritos malignos e curadas de enfermidades” que acompanhavam e prestavam assistência a Jesus: Maria Madalena, Joana, Susana e outras (Lucas 8: 1-3). Aquela expressão (“livradas de...”), numa leitura tendenciosa, pode sugerir enganosamente que elas estavam livres da sensualidade e do pecado por acompanharem Jesus nas andanças através da Galiléia, Samária e Judéia (Marcos 15: 40). Na verdade, a expressão indica que eram mulheres saudáveis de corpo e alma. Por serem galileus, Jesus e o seu grupo de homens e mulheres eram tratados como estrangeiros pelos judeus. Na Judéia, destacavam-se as seitas dos saduceus, dos fariseus e dos essênios. Esta última seita era vigorosa na doutrina, rigorosa nos costumes e coletivista na organização social, cujos adeptos – menos numerosos do que os seguidores das outras duas – consideravam-se os verdadeiros filhos de Israel e autênticos herdeiros do sacerdócio de Levi. A organização do grupo de Jesus assemelhava-se à organização dos essênios, o que contribuiu para irritar mais ainda os saduceus e os fariseus.

Os votos dos nazarenos incluíam a castidade e o celibato. O voto de castidade implicava abstinência sexual, prática adotada pelos místicos para alcançar iluminação espiritual. A energia sexual é canalizada para a concentração, meditação e demais exercícios físicos e mentais. A relação sexual desvia essa energia e enfraquece a vontade do adepto para lograr o fim espiritual colimado. A masturbação desperdiça essa energia e frustra aquele objetivo. O voto de celibato consiste em viver no estado de solteiro por um determinado tempo. Durante esse período o adepto transa sexualmente se não houver prestado o voto de castidade, porém, não pode casar e nem constituir família. O estudo, a prática e a difusão da doutrina exigem dedicação intensa e exclusiva. Os deveres de cônjuge e de pai comprometem essa dedicação. 

Dos objetivos da irmandade de Jesus constavam: (i) o de acabar com o mito do messias; (ii) o de introduzir um deus universal (Pai Celestial) no lugar do deus nacional (Javé ou Jeová); (iii) o de elevar espiritualmente a humanidade; (iv) o de amparar os pobres e o de curar os enfermos.

Para atingir tais objetivos, Jesus assumiu o papel de messias. Cumpriu, passo a passo, as profecias do Antigo Testamento, como se fora o roteiro de um filme. Jeová e Satanás são nomes diferentes daquela mesma divindade que celebrou, com êxito, um pacto com Abraão e que também tentou celebrá-lo com Jesus no deserto, sem êxito. A partir da monolatria dos hebreus, a ação redentora conduziria o povo ao universal monoteísmo da irmandade. A monolatria facilitaria a passagem ao monoteísmo cristão. Convertido aquele povo, a ação redentora se estenderia aos povos politeístas. O plano desconsiderou o que estava escrito sobre os hebreus: “Tu mesmo sabes o quanto esse povo é inclinado ao mal”; “somos um povo cabeça dura” (Êxodo 32: 22 + 34: 9). O deus desse povo (Javé ou Jeová) dissera a Saul: “Vai, pois, fere Amalec e vota ao interdito tudo o que lhe pertence, sem nada poupar: matarás homens e mulheres, crianças e meninos de peito, bois e ovelhas, camelos e jumentos” (I Samuel 15: 3). Tal índole frustrou a ação redentora. Ao contrário do que Jesus e sua irmandade esperavam, o plano fracassou entre os judeus. Entretanto, ironicamente, a doutrina floresceu no seio dos outros povos.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

JESUS



JESUS, O GALILEU.

Somente os apóstolos Mateus e Lucas, sem especificar data, referem-se ao nascimento de Jesus em Belém, cidade natal do rei Davi, na Judéia. Explicam que fora determinado um censo no país, o que obrigara o deslocamento de José e Maria (grávida) da Galiléia para a Judéia. Não há registro histórico do censo. Houve esforço dos evangelistas para colocar Jesus na realeza judaica, porque o Antigo Testamento refere-se a um messias da linhagem de Davi (embora se refira, também, a um renovo da Galiléia). Acontece que não havia laço sangüíneo entre Jesus e José, seu pai adotivo. Ainda que José descendesse de Davi, Jesus não descenderia. Para amenizar, tentam colocar Maria (mãe de Jesus) também na linhagem de Davi. No entanto, a sucessão judaica se dava pela linha paterna; a sociedade era patriarcal e não matriarcal. Ademais, toda genealogia que começa em Adão é falsa, tendo em vista que Adão e Eva nunca existiram. A genealogia de Jesus começa em Adão (Lucas 3:38); logo, é falsa. A cidade natal é falsa. O episódio é falso.

A versão do apóstolo Mateus sobre o morticínio de crianças e fuga para o Egito não encontra amparo na versão de Lucas, nem dos demais evangelistas. Nenhum evangelista testemunhou o nascimento daquele menino. Os apóstolos só conheceram Jesus adulto. Quando ele nasceu, alguns deles nem haviam nascido e outros eram crianças de pouca idade. A Palestina estava dividida em quatro províncias, cada qual governada por um tetrarca subordinado ao imperador romano. Um tetrarca não podia invadir a jurisdição do outro. Ao tetrarca da Galiléia faltavam poderes para mandar matar crianças na Judéia ou nas outras tetrarquias. A Judéia estava sob jurisdição direta de um romano. Herodes não ousaria afrontá-la. A jurisdição era levada a sério pelos romanos. Ao verificar que Jesus era galileu, por exemplo, o tetrarca da Judéia (Pilatos, general romano) recusou-se a julgá-lo e o enviou ao juiz natural: o tetrarca da Galiléia  (Herodes Antipas) que devolveu o prisioneiro por ausência de culpa. Pilatos não prolatou sentença. Se o tetrarca da Galiléia, autoridade competente para decidir o caso, não condenou Jesus, não seria ele, Pilatos, quem o condenaria. Deixou a decisão por conta dos fariseus que insistiam na aplicação do direito romano (morte por crucifixão) já que a proximidade da páscoa impedia a aplicação do direito judaico (morte por apedrejamento). No judaísmo e no islamismo, direito e religião se interpenetram.  

Para compensar o culto pagão à Deusa Mãe (bem romanceado por Marion Z. Bradley em “As Brumas de Avalon”) a igreja católica introduziu um vigoroso culto à Maria, como “Mãe de Deus” e “Virgem Maria”. Duas impossibilidades: (i) Deus ter genitores; (ii) ser virgem a mãe de 7 filhos. Há indícios de Maria ter sido deflorada em ritual de fertilidade. Engravidou. Pariu Jesus provavelmente na aldeia do Monte Tabor, entre Caná e Naim, na Galiléia. Depois, teve mais 6 filhos com José, que a recebeu por esposa: Tiago, José, Judas, Simão e duas meninas cujos nomes são incertos: Salomé ou Ruth, Miriam ou Lia. Há quem afirme que filhos de Maria eram apenas Jesus, Judas e Simão; que Tiago, José e as duas meninas eram filhos do primeiro casamento de José. Dessas primeiras núpcias não há registro. O mito da concepção virginal foi tomado de empréstimo à cultura mais antiga de outros povos. O culto à Maria reforçou a crença na divindade de Jesus. Serviu para impressionar os crentes e aumentar o rebanho com a inclusão da realeza européia, o que favoreceu o domínio espiritual e temporal da Igreja na Idade Média. Conseqüentemente: (i) a mãe de Jesus passou a ser a mãe de Deus; (ii) o colégio apostólico passou a ser herdeiro de Deus; (iii) o vigário de Cristo passou a ser vigário de Deus. 

Na última década do século XX e na primeira do século XXI, Jesus tem sido tratado insistentemente como judeu em livros, revistas, filmes, programas de televisão e em pronunciamento do Papa. Até os judeus, que sempre negaram ser Jesus da raça e da religião judia e o consideravam gentio (estrangeiro), agora proclamam a todos os cantos do planeta que ele era judeu. Essa arquitetada reviravolta na história está ligada ao objetivo dos governos de Israel e dos EUA de obter apoio dos católicos e protestantes nas investidas contra os muçulmanos da Palestina, do Irã e de outros países do Oriente e da África. Interesses políticos e econômicos inspiram essa artificial reviravolta.   

Dan Brown, autor do livro “O Código Da Vinci”, por exemplo, e os professores que o contestaram, Amy Welborn (“Decodificando Da Vinci”) e Darrell L. Bock (“Quebrando o Código Da Vinci”)  referem-se a Jesus como judeu. Na verdade, Jesus, Pedro, João e outros apóstolos da primeira hora (início do revolucionário movimento) eram da Galiléia e não da Judéia; portanto, galileus e não judeus. Por isso, os judeus tratavam-nos de gentio, ou seja: estrangeiros. Naquele tempo, a Galiléia era habitada por migrantes da Mesopotâmia e adjacências, depois da expulsão das 10 tribos do Reino de Israel. O fato de alguém ser galileu, pois, não significava que fosse hebreu (israelita ou judeu). Israelita era o hebreu do Reino de Israel (Norte da Palestina). Judeu era o hebreu do Reino de Judá (Sul da Palestina). Jerusalém localizava-se em terras da tribo Benjamin que, aliada à tribo Judá, formava o Reino de Judá. Os dois minúsculos reinos (Israel e Judá) dividiam entre si o pequeno território palestino (menor do que o Estado de Alagoas). O apóstolo Pedro refere-se aos habitantes de Jerusalém como um povo diferente do seu. “Tornou-se este fato conhecido aos habitantes de Jerusalém, de modo que aquele campo foi chamado, na língua deles, Hacéldama, isto é, Campo de Sangue” (Atos 1: 19). Pedro distingue o modo de falar dos judeus do modo de falar dos galileus. Enquanto Jesus era interrogado no Sinédrio, Pedro, do lado de fora, era acusado de pertencer ao subversivo grupo de Jesus porque ambos tinham o mesmo sotaque. Em outra ocasião, Pedro indaga sobre a restauração do Reino de Israel e silencia sobre o Reino de Judá (Atos 1: 6). O Reino de Israel estava extinto há mais de 700 anos e as suas dez tribos espalhadas pelo mundo. O Reino de Judá estava extinto há cerca de 600 anos, desde a remoção compulsória das suas duas tribos para a Babilônia. O exílio babilônico terminou por volta de 538 a.C. quando alguns judeus regressaram a Jerusalém, mas logo foram subjugados: a partir de 322 a.C. pelos gregos, de 175 a.C. pelos assírios e de 63 a.C. pelos romanos.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

JESUS


JESUS, O PROFETA.

Cristo. Assim apelidaram o profeta Jesus, depois da sua passagem pelo mundo terreno: “o ungido”. Tal era – e continua a ser – o apelido de inúmeros místicos dedicados às coisas divinas, ungidos com os santos óleos, purificados, sagrados. Houve – possivelmente ainda há – vários cristos na Terra. Acredita-se que Jesus tenha sido o maior deles. Os seguidores da sua doutrina foram chamados cristãos, espalharam-se pelo mundo, organizaram igrejas. Do nascimento dele, fizeram divisor do tempo histórico em antes e depois. Multiplicaram-se. Agruparam-se em ortodoxos e heterodoxos, católicos, protestantes e espíritas. Nos tempos difíceis da inquisição na Espanha e em Portugal (1478-1835), maometanos e judeus converteram-se ao cristianismo, alguns por conveniência. Estes continuavam muçulmanos e judeus em seus corações e na privacidade dos seus lares. Por isso, foram denominados “cristãos novos”. Distinguiam-se dos cristãos velhos e dos nascidos na autêntica fé cristã. Insuficiente só crer. Necessário praticar. A doutrina é bela, mas impraticável no mundo terreno. Ele próprio dizia: meu reino não é deste mundo. Sabia que as congênitas fraquezas dos seres humanos tornavam a prática improvável. Nem o próprio Jesus a praticou inteiramente, como revelam episódios narrados nos evangelhos (violência no templo, luxúria com mulheres, ofensas a sacerdotes, menosprezo à mãe e aos irmãos, agressividade verbal contra discípulos e conterrâneos).    

Nazareno. O povo e as autoridades judias e romanas assim o apelidaram, sem relação alguma com o torrão natal, pois, ao seu tempo, não havia cidade ou aldeia com o nome de Nazaré. Esse nome foi dado séculos depois a uma localidade pelo clero católico para encobrir o fato de Jesus ter pertencido a uma seita mística. Ao clero interessava passar a idéia aos fiéis de que todo o conhecimento de Jesus vinha diretamente de Deus e não dos homens. Jesus apresentava-se publicamente com as vestes e a aparência dos adeptos da seita nazarita, cuja doutrina pregava. Daí o apelido “nazareno”. Para a sua própria e visível irmandade mística adotou o modelo de organização nazarita e essênia. “Nazareno também era o apelido que se dava, entre os hebreus, ao filho primogênito, quando a família o colocava a serviço de Deus. O menino consagrado a Deus era entregue aos cuidados do sacerdote. Assim aconteceu com Samuel e Sansão, dois juízes hebreus, ambos nazarenos, nenhum deles nascido em aldeia ou cidade denominada Nazaré. Embora não sendo de origem hebréia, mas submetidos à lei judaica em vigor na Palestina, os pais de Jesus o consagraram a Deus e o entregaram aos cuidados de uma irmandade que lhe deu formação intelectual, moral e mística. Passados 30 anos, Jesus retorna à vida pública com missão definida.

Rabi. Assim o chamavam os discípulos e os leigos da Palestina: “mestre”. Ele demonstrava grande conhecimento das escrituras sagradas, das coisas divinas e mundanas, inclusive da natureza humana. Ensinava em lugares abertos e fechados, na montanha, à beira do lago, nas casas de discípulos, de simpatizantes e de curiosos, nas sinagogas e no templo de Jerusalém. Travava debates com os sacerdotes e escribas judeus. Ao ficarem inteirados dos ensinamentos de Jesus, os sacerdotes e escribas perceberam que a religião judaica corria sério risco. Ficaram preocupados quando aumentou a adesão da camada pobre e ignorante do povo aos novos ensinamentos. A idade de Jesus girava em torno de 40 anos – e não 33, como se difundiu – quando tramaram a sua morte. Acusaram-no de blasfêmia e o condenaram. A autoridade romana se recusou a executá-lo por aquele motivo religioso. Os sacerdotes e escribas mudaram a acusação: Jesus era subversivo, intitulava-se rei dos judeus e desafiava o poder de Roma. Desta vez, conseguiram o seu desiderato. Apesar de a autoridade romana ter lavado as mãos, foi aplicada a pena de morte. Era sexta feira. Duas horas depois da crucifixão, ou pouco menos, sem atender ao costume de quebrar as pernas do crucificado, Jesus foi retirado da cruz e atendido em lugar próximo ao Gólgota, por José de Arimatéia. Na madrugada de sábado ou na manhã de domingo, deixou o abrigo e saiu de Jerusalém sem barba, de cabelos cortados e vestes comuns, o que dificultou ser identificado até pelos discípulos, inclusive Maria Madalena. Na Galiléia, reuniu-se com os apóstolos e depois se recolheu à vida privada.  

Profeta. Assim o chamava o povo de Canaã (Palestina), terra dos profetas. Desde Elias em 875 a.C. até Malaquias em 450 a.C. quase 20 profetas se destacaram. Qualificava-se profeta a pessoa carismática que não só tinha antevisões do futuro, mas tinha também a fama e a credibilidade de falar em nome de Deus, de expressar a vontade e a palavra de Deus. Daí a autoridade moral dos profetas sobre o povo hebreu e seus governantes. Quando se excediam nas admoestações, os profetas eram perseguidos e punidos pelo povo ou pelo governante. Isto aconteceu mais de uma vez, inclusive com Jesus e seu primo João Baptista. No entusiasmo da pregação com o fim de cativar adeptos e mudar os maus costumes, os dois se excederam na agressividade contra a massa e contra as autoridades. No sermão da montanha, Jesus referiu-se aos maus tratos de que eram vítimas os profetas. Na sinagoga da cidade da Galiléia em que viviam seus pais, reclamou da desconfiança do povo ao afirmar que nenhum profeta é bem aceito em sua pátria.     

Jesus. Este era o nome de batismo desse profeta. Pregava a existência de um deus bondoso e misericordioso a quem chamava “Pai Celestial”, diferente do deus hebreu, maldoso, vingativo, genocida, denominado “Javé” ou “Jeová”. Dizia, para acalmar e cativar os indecisos, que não viera para revogar a lei (os cinco primeiros livros da bíblia hebraica = torá = pentateuco). Contudo, a sua doutrina a revogava de fato. Daí a feroz resistência e perseguição dos sacerdotes e escribas judeus aos ensinamentos e à pessoa de Jesus. Esse profeta qualificava de bem aventurados aos que seguissem a nova e boa doutrina (evangelho = boa nova). A quem padecia de pobreza, fome e tristeza na Terra, haveria riqueza, fartura e alegria no Céu. Ele recomendava as seguintes condutas: (i) amar ao inimigo, fazer bem a quem nos odiar, abençoar aos que nos maldizem, orar aos que nos injuriam; (ii) a quem nos ferir numa face, oferecer a outra; quem nos tirar a capa, que também leve a túnica; dar ou emprestar sem almejar retorno, a quem nos fizer algum pedido; se alguém tira o que é nosso, não reclamar; (iii) fazer às pessoas o que queremos que elas nos façam; (iv) ser misericordioso; não julgar para não ser julgado; não condenar para não ser condenado; perdoar para ser perdoado. Com a mesma medida com que medirmos, seremos medidos. Os cumpridores de tais mandamentos formariam uma comunidade de santos. Desde aquela época até hoje, nenhuma comunidade cristã os cumpriu. No juízo final, os bons entrariam na morada divina e os maus queimariam no inferno. Por seus vícios, Jerusalém seria destruída; não ficaria pedra sobre pedra. Esta profecia é do tipo post factum. Esperteza dos evangelistas diante da destruição de Jerusalém no ano 70. Posteriormente, eles lançaram o fato nos evangelhos como profecia com o propósito de fortalecer a crença na origem divina dos poderes do profeta.  

sábado, 17 de dezembro de 2011

BÓRIS

II
Certa vez, durante o matinal passeio, Pretinho, que assumira a frente, como era do seu costume, retornou e entrou em disparada na rua da nossa casa, na maior velocidade que suas curtas pernas permitiam. No seu encalço dois cachorros grandes, um pastor e outro de pelo dourado. Ao se depararem com o Bóris, os dois frearam e voltaram correndo. Bóris os perseguiu. Ao ver isto, Pretinho tomou-se de brios e valentia. Acompanhou o irmão. De perseguido passou a perseguidor. Os cachorros colocaram-se a salvo no quintal da casa. Em outra ocasião, Pretinho saíra pela manhã sozinho e tardava a voltar. Saí à sua procura. Levei o Bóris para ajudar na localização. Encontramo-lo amedrontado no final daquela rua. Os dois cachorros moravam nas proximidades e estavam à espreita. Portão aberto. Pretinho percebeu e estacionou distante, horas a fio. Diante da presença do Bóris, eles fugiram para os fundos da casa. Por via das dúvidas, coloquei o Pretinho no colo e voltamos para casa. Bóris ostentava um ar de triunfo. 
A linguagem de Bóris tinha tonalidades diferentes, de acordo com os seus propósitos. Latido agressivo e irritado para o carteiro e sua motocicleta barulhenta e também para o caminhão coletor de lixo. Aliás, Bóris ficava nervoso com ronco de motores e com o estouro de fogos de artifício (crime ambiental). Tinha medo das trovoadas e procurava abrigo no canil, na oficina de arte da Jussara ou na varanda da casa. Dócil, educado, valente e medroso. Assim era o nosso Bóris.
O cruzamento dos pais caninos de raças diferentes gerou rebentos musculosos e grandes, mas de saúde frágil. Imunidade baixa. Bóris tinha constantes infecções e recebia medicação segundo receitas do veterinário. Com intervalo de alguns anos entre uma e outra, ele foi submetido a duas cirurgias. Todos os irmãos de sangue morreram por volta dos quatro anos de idade, segundo informação do antigo dono. Bóris viveu sete anos. Latido suplicante e impaciente ao se aproximar hora de refeição. Movimentava o corpo como se fosse recuar, batia as patas dianteiras contra o chão de pedra, e mexia a cabeça para cima e para baixo.  A súplica ocorria em frente à janela da cozinha ou à porta do escritório. Ele nos fitava e latia baixo, curto e brando. Queria lembrar a nossa obrigação de lhe servir comida. O seu relógio biológico era pontual. Ele e seus três irmãos eram atendidos prontamente.
Latia rouco, em tom grave, mexia a cabeça impaciente, quando o provocávamos ao diálogo. Irritava-se consigo por não poder expressar com palavras o que sentia. Falávamos com ele de maneira afetuosa, como se fala a um filho mimado e ele respondia daquele modo. Depois de algum tempo, retirava-se aborrecido, na certeza de que não se fizera entender. Às vezes, mostrava-se de mau humor e não queria conversa. Ele gostava de brincar, mas o seu corpanzil assustava as irmãs e desanimava o irmão. Gigante com alma de criança. Gostava de colocar e balançar a cabeça entre os meus joelhos para brincar. Fazia festa quando chegávamos das compras ou das viagens.
Novembro. 2011. 27. Sul do Estado do Rio de Janeiro. Manhã fria. Céu nublado, telhados, árvores, plantas, grama, tudo molhado. Ainda assim, ouvia-se o ladrar de cães, o gorjeio de pássaros e o mugir do gado. No dia anterior, Bóris fora sepultado. A natureza entristecera. Manoel chorou doído. Fomos os únicos protagonistas do melancólico funeral. Os dois eram grandes amigos. Jussara também chorou e sua alma veste luto. Chora-se a perda de entes amados, sejam racionais ou irracionais. Chora-se pelas perdas mais preciosas. Sempre que eu me aproximava, Bóris deitava-se de lado, erguia e movimentava pata dianteira esquerda e a pousava na palma da mão que eu lhe estendia. Então, eu deslizava o polegar da mão direita na entrância da sua testa até o alto do crânio e lhe fazia cafuné. Ele ficava quieto a espera que eu repetisse a operação. E eu repetia várias vezes, por algum tempo.  
Nos últimos meses, ele perdera aquele porte majestoso, caminhava devagar, cansava, parecia idoso. No derradeiro dia da sua terrena existência, combalido apesar da medicação aplicada pelo veterinário, deitado na garagem, ele tornou a pedir carinho. Segurei a sua pata esquerda e repetimos o costumeiro ritual, até quando parou de respirar. Esticou as patas dianteiras para frente e as traseiras para trás, como se espreguiçando. Cessaram todos os movimentos. Seus olhos ficaram vidrados e esverdeados. Pareciam duas esmeraldas. 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

BÓRIS

BÓRIS, O Gigante.
I
Fevereiro. 2004. Barra da Tijuca. Rio de Janeiro. Ninhada de cachorrinhos gerada por uma fêmea Dog e um macho Hotweiller. O dono dos animais oferece gratuitamente ao jovem Rafael, seu amigo, um roliço filhote de pelo negro e brilhoso. Pelas mãos do jovem, nosso filho, aquela bolinha cor de carvão chega ao apartamento em Ipanema. Escolhe um canto para seu retraimento. Estava triste, com saudade dos pais e irmãos caninos. Rafael o aconchegou. O cãozinho dormiu com o irmão humano. No dia seguinte, rumou para Penedo, onde fica a residência dos pais humanos que o adotaram. Lá o aguardava Pretinho, por mim batizado, filhote, mestiço, raça pequena, vindo de Curitiba, das ruas do Jardim América, por onde vagava abandonado. Os dois se aceitaram como irmãos. Cada qual com sua pré-fabricada casa de madeira. Chegado o momento de dar nome ao novo membro da família, Jussara, dona do nosso lar, o batizou: Bóris.
Os dois cãezinhos brincavam no quintal. Bóris crescia mais do que Pretinho. O recém chegado preferia ficar com o irmão adotivo, sob o mesmo teto. Compartilhavam também ração e água. Juntos iam à clínica veterinária para vacinas e exames regulares. Na adolescência, estranhavam-se na hora da refeição. Pretinho rosnava, arreganhava os dentes e impunha autoridade por ser mais antigo na casa. Latia e admoestava o irmão adotivo para mantê-lo distante da sua ração. Ambos recebiam atenção e carinho da família humana. Tomavam as vacinas na data certa e comiam as rações em intervalos e quantidade recomendados pelo veterinário. Ao perceber que Jussara tinha medo daquele adolescente negro, de crânio avantajado, testa proeminente, patas maiores do que os punhos da dona, o marido adverte: o cão é dócil e espera o materno amor. Dali em diante, ela o abraçava, com ele conversava e lhe fazia mimos, tal qual no tempo de filhote. Ao marido sobrou o oitavo lugar na ordem de preferência da esposa: os três filhos seguidos dos quatro cachorros, sem papagaio e sem gato.
Bóris ficou gigante: 80 kg. Manoel, zelador da nossa casa, no Jardim Martinelli, em manhãs alternadas leva os cachorros a passear pelas ruas próximas, todas sem pavimentação. A nossa região é urbana no código municipal de posturas e rural na sua paisagem. Às vezes falta água; outras vezes, falta luz. Era uma colônia finlandesa. Cresceu e se transformou em aldeia. Imensas áreas verdes, fauna e flora de rica variedade, pastagens, gado, cachoeiras, montanhas, hotéis, pousadas, restaurantes, artesanato, moradores e turistas. Ao se depararem com os nossos cachorros, as pessoas ficavam receosas, mas admiradas diante do tamanho e da beleza do Bóris. Nunca falamos da sua docilidade, pois a corpulência intimidadora funcionava como elemento da segurança da casa. Ele exibia força e valentia apenas contra animais irracionais ou contra racionais que pretendessem nos visitar sem serem convidados. Atiçado por Pretinho, deu cabo de um ouriço que invadiu o terreno da nossa casa. O médico veterinário o anestesiou. Ajudei na delicada tarefa de retirar os espinhos sem rasgar o tecido da boca (língua e bochecha).
Pretinho liderava as peripécias. Bóris o seguia. Foi assim que mandaram uma gatinha para o outro mundo. Deixada na casa por nossa filha, a gatinha se descuidou ao sair por uma fresta da janela da oficina para aspirar o ar da noite. Os dois caíram sobre ela. Barulho infernal. De pijamas, acudimos. A gatinha estava abatida, embora sem grave ferimento físico externo. Morreu de susto e/ou de lesão interna, no piso da cozinha onde fora colocada a salvo daqueles dois traquinas. Ficamos ao seu lado durante a madrugada. A gatinha dava sinais de que desistira de viver neste mundo cão. Demos-lhe sepultura.
Bóris tinha um porte nobre, passadas majestáticas. Pouco se importava com o latido dos cães no interior do quintal das casas que ladeavam as ruas por onde passeávamos. Brigitte e Laika chegaram depois, a primeira vinda do Leblon, abandonada que estava na Praça Antero de Quental, recolhida e socorrida por minha filha, e a segunda de Curitiba, comprada pela mãe da Jussara. As duas e Pretinho respondiam aos latidos daqueles cães e investiam contra cercas e portões provocando alarido. Durante o passeio, eles deixavam suas cargas fisiológicas pelo caminho. Onde um urinava, outro ia cheirar e fazer o mesmo. Os três sentiam segurança na companhia de Bóris.