Soa o órgão / soa o órgão numa igreja solitária / soa o órgão no recôndito da noite / e há um jorro de murmúrios melodiosos em suas flautas / que começam suavemente... suavemente / como passos em tapetes, como dedos em carícias, como sedas que se arrastam / e, de súbito, se encrespam e distendem-se e rebramam à maneira de rio largo / que sepulta em um leito pedregoso o solene abatimento de suas águas. / Uma flauta conta histórias impossíveis de períodos afastados / outra flauta conta coisas que deviam ser verdades / e que apenas são miragens e delírios e fantasmas / uma ri e outra chora / uma ruge e outra canta. / Uma é macho que persegue e outra é fêmea que se escapa / e entre tantas variações de cavatinas melodiosas / há um corpo e há uma alma que se juntam, se penetram, se confundem / e aos abanos animados de uma graça / vão cantando pelos ares que Toledo veste o luto de suas pompas funerárias / para glória de sua igreja de duzentos e cinqüenta anos / e uma glória ainda maior daquela estirpe que essa igreja levantara. / ... / Soa o órgão / soa o órgão na igreja solitária / soa o órgão no recôndito da noite / e há um jorro de murmúrios melodiosos em suas flautas. / Um poeta dos tempos de Cervantes comparece / comparece e fala deste modo: - eu quisera de meus versos fazer músicas estranhas / porém músicas vazias, sem conceitos nem paixões / com palavras e palavras e palavras... / Oh! As vezes em que sinto o tirano pensamento que me esmaga com seus peso. / Como quisera sacudi-lo ... sacudi-lo. / Fazer versos sem idéias, como pássaros que cantam! / Oh! As vozes que no peito me derramam decepções ou esperanças. / Como quisera sepultá-las... Fazer versos sem paixões. / Como rugem os pampeiros, como riem as cascatas! / Pensamentos que me esmagam! Sentimentos que me enganam! / ... / (“A elegia do órgão” – excertos – José Santos Chocano).
terça-feira, 25 de outubro de 2011
domingo, 23 de outubro de 2011
FUTEBOL
Quem tiver o melhor elenco vencerá o campeonato. O São Paulo FC tem o melhor elenco. Logo, o São Paulo FC vencerá o campeonato.
Raciocínio correto? Sim, formalmente corretíssimo. Raciocínio verdadeiro? Não. Por sua fluidez, o jogo situa-se no campo das incertezas. Há uma lógica lúdica, simplesmente indicativa: a equipe mais forte tende a vencer, mas pode perder por n fatores. Exemplo recente (22/10/2011): o Botafogo, no topo da classificação do campeonato, acaba de perder para o Avaí, que ocupa os últimos lugares (3x2).
O melhor elenco não dá certeza de vitória. As derrotas e empates do clube aqui tomado por modelo bem o demonstram. O São Paulo FC contratou Rivaldo e Luiz Fabiano, jogadores veteranos de excelente nível técnico. A disposição física de jogadores veteranos é inversamente proporcional à faixa etária. Todavia, com os recursos da medicina a partir da última década do século XX, os jogadores que cuidam da saúde e da forma física e técnica, podem atuar além dos 40 anos de idade. O que era extraordinário à época de Djalma Santos, hoje em dia é comum. Rivaldo tem exibido bom desempenho como armador e como atacante. Não há motivo plausível para não aproveitá-lo nos dois tempos em todos os jogos. Luiz Fabiano está no bom caminho. Nos jogos de que participou, mostrou habilidade. Em recente partida fez o seu primeiro gol, aliviando a tensão. Se treinar regularmente, estará exibindo todo o seu potencial muito em breve. No momento, Dagoberto é o melhor jogador do elenco do clube paulista.
O maior tempo na posse da bola durante as partidas indica bom entrosamento. A atuação coletiva satisfaz. Todavia, a finalização não corresponde a essa atuação. Falta o êxito. Além disto, os defensores se descuidam da marcação e a equipe sucumbe diante da reação do time adversário. A mudança na orientação técnica talvez ajude a melhorar a eficiência do time paulistano.
Atualmente, dentre os clubes brasileiros, o SP dispõe do melhor elenco: jogadores de alto nível sobrando. Isto atrapalha. Veja-se o caso de Marlos: excelente jogador, tão bom – ou até melhor – do que Lucas. Aguarda sempre no banco dos reservas. Do ponto de vista psicológico, este é um fator de desestímulo quando o jogador é chamado a atuar. O rendimento não é o mesmo. Rivaldo, em boa forma, ficar no banco, é algo esdrúxulo. Contratar jogador de alto nível para ficar no banco é extravagância. O clube deve estar com o cofre abarrotado de euros.
Como se viu das derrotas sofridas, não há certeza alguma de o São Paulo FC ser campeão só pelo fato de dispor do melhor elenco. Há probabilidade. Poderá ser campeão se aproveitar a boa qualidade dos seus jogadores e vencer as partidas que restam.
Mutatis mutandis, a presente análise aplica-se também aos demais clubes que ostentam elenco de bom nível técnico e estão bem classificados na tabela do campeonato.
Nos jogos panamericanos de 2011, em Guadalajara, os atletas brasileiros conquistam ótimo número de medalhas. Boa preparação para as olimpíadas. No futebol, os brasileiros estão sofríveis. Com alguma sorte, conquistarão medalha de ouro, de prata ou de bronze. Bom treinador pouco resolve se os jogadores são de médio nível técnico.
A seleção brasileira de futebol profissional também não inspira confiança. A seleção atual está abaixo do nível das seleções de 1950, 1958, 1970, 1982 e 1994. Pela segunda vez, será derrotada em casa.
A derrota em 2014 não será tão dolorida como a de 1950. Naquela copa, o desempenho da seleção foi excelente. Eficiência jamais igualada até os dias de hoje. Artilharia insuperável. Trio fabuloso: Zizinho, Ademir e Jair. Por isso mesmo, a inesperada derrota na partida final foi traumática, duríssimo golpe suportado pela nação brasileira.
Raciocínio correto? Sim, formalmente corretíssimo. Raciocínio verdadeiro? Não. Por sua fluidez, o jogo situa-se no campo das incertezas. Há uma lógica lúdica, simplesmente indicativa: a equipe mais forte tende a vencer, mas pode perder por n fatores. Exemplo recente (22/10/2011): o Botafogo, no topo da classificação do campeonato, acaba de perder para o Avaí, que ocupa os últimos lugares (3x2).
O melhor elenco não dá certeza de vitória. As derrotas e empates do clube aqui tomado por modelo bem o demonstram. O São Paulo FC contratou Rivaldo e Luiz Fabiano, jogadores veteranos de excelente nível técnico. A disposição física de jogadores veteranos é inversamente proporcional à faixa etária. Todavia, com os recursos da medicina a partir da última década do século XX, os jogadores que cuidam da saúde e da forma física e técnica, podem atuar além dos 40 anos de idade. O que era extraordinário à época de Djalma Santos, hoje em dia é comum. Rivaldo tem exibido bom desempenho como armador e como atacante. Não há motivo plausível para não aproveitá-lo nos dois tempos em todos os jogos. Luiz Fabiano está no bom caminho. Nos jogos de que participou, mostrou habilidade. Em recente partida fez o seu primeiro gol, aliviando a tensão. Se treinar regularmente, estará exibindo todo o seu potencial muito em breve. No momento, Dagoberto é o melhor jogador do elenco do clube paulista.
O maior tempo na posse da bola durante as partidas indica bom entrosamento. A atuação coletiva satisfaz. Todavia, a finalização não corresponde a essa atuação. Falta o êxito. Além disto, os defensores se descuidam da marcação e a equipe sucumbe diante da reação do time adversário. A mudança na orientação técnica talvez ajude a melhorar a eficiência do time paulistano.
Atualmente, dentre os clubes brasileiros, o SP dispõe do melhor elenco: jogadores de alto nível sobrando. Isto atrapalha. Veja-se o caso de Marlos: excelente jogador, tão bom – ou até melhor – do que Lucas. Aguarda sempre no banco dos reservas. Do ponto de vista psicológico, este é um fator de desestímulo quando o jogador é chamado a atuar. O rendimento não é o mesmo. Rivaldo, em boa forma, ficar no banco, é algo esdrúxulo. Contratar jogador de alto nível para ficar no banco é extravagância. O clube deve estar com o cofre abarrotado de euros.
Como se viu das derrotas sofridas, não há certeza alguma de o São Paulo FC ser campeão só pelo fato de dispor do melhor elenco. Há probabilidade. Poderá ser campeão se aproveitar a boa qualidade dos seus jogadores e vencer as partidas que restam.
Mutatis mutandis, a presente análise aplica-se também aos demais clubes que ostentam elenco de bom nível técnico e estão bem classificados na tabela do campeonato.
Nos jogos panamericanos de 2011, em Guadalajara, os atletas brasileiros conquistam ótimo número de medalhas. Boa preparação para as olimpíadas. No futebol, os brasileiros estão sofríveis. Com alguma sorte, conquistarão medalha de ouro, de prata ou de bronze. Bom treinador pouco resolve se os jogadores são de médio nível técnico.
A seleção brasileira de futebol profissional também não inspira confiança. A seleção atual está abaixo do nível das seleções de 1950, 1958, 1970, 1982 e 1994. Pela segunda vez, será derrotada em casa.
A derrota em 2014 não será tão dolorida como a de 1950. Naquela copa, o desempenho da seleção foi excelente. Eficiência jamais igualada até os dias de hoje. Artilharia insuperável. Trio fabuloso: Zizinho, Ademir e Jair. Por isso mesmo, a inesperada derrota na partida final foi traumática, duríssimo golpe suportado pela nação brasileira.
Dado curioso das copas do mundo que já assinalei alhures: nem sempre a melhor seleção sai vencedora. Isto aconteceu em 1950, com a seleção brasileira, em 1954, com a seleção húngara, em 1974 e 2010, com a seleção holandesa. Embora apresentassem o melhor desempenho durante a competição, todas perderam a partida final. Espera-se que em 2014, agora em nível inferior, a seleção brasileira chegue à partida final e conquiste a taça do mundo novamente.
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
POESIA
Uma coisa é cantar a amada, outra, ai de mim, é cantar o culpado e oculto deus rio do sangue. Aquele que a amada reconhece de longe, seu amante, que sabe ele do senhor da volúpia que tantas vezes o assaltava em plena solidão, antes que a mulher amada o abrandasse, como se nem mesmo ela existisse? Como o deus emergia a irreconhecível face gotejante, invocando a noite para o delírio infinito. Ó Netuno do sangue, com o hediondo tridente e o obscuro vento de seu peito, concha enrodilhada! Ouve como a noite se recurva e se aprofunda. Não se origina em vós, estrelas, a alegria que o amante respira no rosto da amada? A compreensão profunda de sua face pura, não a tomou ele das constelações tranqüilas? Tu não foste, ai, sua mãe não foi, quem assim distendeu o arco excitado de suas sobrancelhas. Não foi ao teu encontro, jovem eterna e sensível, que se animaram esses lábios numa expressão fecunda. Crês que assim o agitaria teu passo ligeiro, ó tu que te moves como a brisa da manhã? Apavoraste, entretanto, seu coração: antigos terrores nele despertavam a esse embate. (...) Não amamos como as flores, depois de uma estação: circula em nossos braços, quando amamos, a seiva imemorial. Ó jovem, amávamos em nós, não um ser futuro, mas o fermento inumerável; não uma criança, entre todas, mas os pais, ruínas de montanhas repousando em nossas profundezas; e o seco leito fluvial das mães de outrora, e toda a paisagem silenciosa, sob o destino puro ou nebuloso: - eis aqui, amada, o que adveio antes de ti. E tu mesmo, que sabes? Despertaste no amado a pré-história obscura. Que sentimentos, em seres desaparecidos agitaste! Que mulheres, nele, te odiaram! Que homens sombrios em suas veias jovens despertaste! Crianças mortas para ti se volveram. Oh! Retoma diante dele, com doçura, uma tranqüila tarefa cotidiana – dá-lhe a paz de jardins e a outra face das noites. Retem-no. (“Elegias de Duino” – excertos – Rainer Maria Rilke).
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
POESIA
Vai! Murmulhando salta! / Água azul / Água rósea / Turbilhona, pincha, flutua / focinha no vácuo da vaga / mergulha, volteia / encurva por baixo / por cima / Corte de navalha e se afunda / rola, revira / erecta-se e espirra no céu / todo rosadas, flamantes gotinhas / Anela-se no fundo / pingo / focinho para baixo / curva / cauda / mergulha / e se vai / Como bolhas leves de água azulada / leve, oleoso cobalto / coleante, líquido lápis-lazúli / cambiantes esmeraldinas / pinceladas de róseo e amarelo / escorregões prismáticos / sob o céu de ventania.../ (“Delfim na água azul” – Amy Lowell)
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
POESIA
Nada mais lindo do que uma criança que adormece rezando (disse Deus) / É como vos digo, nada mais lindo no mundo / Eu nunca vi nada tão lindo no mundo / e no entanto, muitas coisas lindas vi no mundo / E entendo de belezas. Minha criação regorgita de belezas / Há mesmo tantas belezas que nem sei onde colocá-las / Vi milhões e milhões de astros rolar sob os meus pés como as areias do mar / Vi dias ardentes como chamas / dias de verão, dias de junho, julho e agosto / noites de invernos pousadas como mantos / noites de verão, calmas e suaves como uma queda de paraísos, inteiramente consteladas de estrelas / Vi essas colinas de Meuse e essas igrejas que são minhas próprias casas / e Paris, e Reims, e Ruão, e catedrais que são meus próprios palácios e castelos / tão lindos que os guardarei no céu / Vi lágrimas de amor que hão de durar mais do que as estrelas do céu / Vi olhares de prece, olhares de ternura perdidamente caridosos / que brilharão eternamente na noite das noites / e vi vidas inteiras, do nascimento à morte / e do batismo aos santos óleos / desenrolar-se como um fuso de lã pura / E eu vos digo (disse Deus) que não conheço nada mais lindo no mundo / do que uma criança que adormece rezando / sob as asas do seu anjo da guarda / e que ri para os anjos ao adormecer / e já mistura tudo e não compreende nada / e enfia as palavras do padre nosso a torto e a direito entre as palavras da ave Maria / enquanto desce um véu sobre as suas pálpebras / o véu da noite, sobre seu olhar e sua voz / Vi os maiores santos (disse Deus), pois bem, em verdade vos digo que nada me pareceu tão gracioso e portanto tão lindo no mundo / como essa criança que adormece rezando / esse pequenino ser que adormece na confiança / e mistura o padre com a ave Maria / Nada é tão lindo, e neste ponto / a santa virgem é também da minha opinião / E posso dizer até que é esse o único ponto em que temos a mesma opinião / porquanto em geral nós divergimos / Ela é pela misericórdia / e eu tenho que ser pela justiça. (“Nada mais lindo do que uma criança...” – Charles Pierre Péguy).
sábado, 15 de outubro de 2011
FUTEBOL
As equipes do Atlético e do Coritiba, ambas do Paraná, foram infelizes na noite de quinta-feira, 13/10/2011.
Depois de vencer o Vasco no primeiro tempo, na arena da baixada, em Curitiba (2x0), o Atlético cedeu o empate e quase perde o jogo no segundo tempo. Erro tático. Recuou em demasia para garantir o placar. Contra time forte, isto equivale a suicídio. Ao aplicar essa tática suicida na rodada anterior, o Botafogo manteve a vitória conquistada no primeiro tempo, mas foi bombardeado intensamente pelo Corinthians, no segundo; o treinador botafoguense teve mais sorte do que juízo; os jogadores sofreram desgaste físico e emocional desnecessário. O treinador do Atlético paranaense não teve a mesma sorte. O Vasco reagiu no segundo tempo, intensificou o ataque, acertou nas finalizações e deu mínimas chances ao clube paranaense de contra atacar. Somente após sofrer o segundo gol, o Atlético resolveu atacar novamente. Se não houvesse abdicado do ataque desde o início do segundo tempo, certamente teria ampliado o placar e impedido a vitória do clube carioca. Conseqüência: o Atlético permanece na zona do rebaixamento.
A derrota do Coritiba diante do Fluminense foi mais fácil de digerir (3x1). O clube paranaense atuou bem, mas o carioca foi mais eficiente nas finalizações. Fred marcou os gols do Fluminense. Beneficiou-se das boas assistências dos seus companheiros. Superou o incidente fora de campo, quando agredido por torcedores, tempos atrás.
Ao saber das agressões a companheiros por torcedores descontentes com a atuação do time no campeonato brasileiro, o jogador Kleber, do Palmeiras, manifestou a vontade de mudar de clube, tal como anteriormente fizera Fred, do Fluminense, em nome da segurança própria e da família. Nos dois episódios, carioca e paulista, o problema não foi criado pela torcida – que se compõe de milhares de pessoas de bem, cumpridoras dos seus deveres para com a família e a sociedade – e sim por um grupo sem representatividade. O registro policial da ocorrência foi boa iniciativa. Nenhuma surpresa causará se for constatada ficha criminal de alguns membros desse pequeno grupo. Em geral, esses grupos são formados por arruaceiros que gostam de exibir força contra jogadores, invadir o clube, depredar instalações e veículos, como aconteceu no Corinthians em passado recente. As diretorias dos clubes e demais vítimas das agressões não devem ser complacentes com os agressores, ainda que sejam proletários que enfrentam dificuldades sociais e econômicas. O fato de alguém ser torcedor e proletário não autoriza vandalismos, arruaças, práticas criminosas. A paixão pelo time não justifica a violência. Os agressores ficam sujeitos às sanções legais pelos danos pessoais e patrimoniais causados.
Má fase do time não é óbice à permanência do jogador profissional no clube, nem justa causa para romper unilateralmente o contrato de trabalho. Risco de vida gerado pela atividade laboral não previsto em cláusula contratual tipifica justa causa para a unilateral rescisão. Crises acontecem no mundo da natureza e no mundo da cultura, nos organismos biológicos e nas instituições humanas. As crises ocorrem em momentos culminantes do processo natural ou artificial, por saturação e disfunção provocadoras de mudanças.
No mundo da cultura – criado pelo ser humano – as crises integram a dinâmica social e favorecem o progresso material, intelectual e moral. Abrem portas a novas técnicas, novos conhecimentos, novos padrões de conduta. Geram reestruturação ética e social. Caracterizam-se: (i) pela turbulência originada por questionamento da eficiência e da adequação do modelo vigente diante dos desafios de uma nova realidade; (ii) por situações aflitivas ou perigosas oriundas de alicerces materiais ou morais corroídos; (iii) por súbita alteração no status quo decorrente de fatores endógenos ou exógenos; (iv) por variáveis que apontam direções opostas. As crises podem abranger a comunidade nacional ou internacional, do que serve de exemplo a crise da economia mundial de 2008/2011; ou abranger setores da sociedade, como clubes de futebol. Da crise setorial pode resultar redirecionamento de relações internas e externas, aquisição e alienação de bens, contratação e dispensa de pessoal, e assim por diante. A mutação a partir de um ponto crítico e a adaptabilidade à situação resultante são fatos da natureza observáveis também na sociedade. O fim de um ciclo não é o fim do mundo. A vida continua.
Depois de vencer o Vasco no primeiro tempo, na arena da baixada, em Curitiba (2x0), o Atlético cedeu o empate e quase perde o jogo no segundo tempo. Erro tático. Recuou em demasia para garantir o placar. Contra time forte, isto equivale a suicídio. Ao aplicar essa tática suicida na rodada anterior, o Botafogo manteve a vitória conquistada no primeiro tempo, mas foi bombardeado intensamente pelo Corinthians, no segundo; o treinador botafoguense teve mais sorte do que juízo; os jogadores sofreram desgaste físico e emocional desnecessário. O treinador do Atlético paranaense não teve a mesma sorte. O Vasco reagiu no segundo tempo, intensificou o ataque, acertou nas finalizações e deu mínimas chances ao clube paranaense de contra atacar. Somente após sofrer o segundo gol, o Atlético resolveu atacar novamente. Se não houvesse abdicado do ataque desde o início do segundo tempo, certamente teria ampliado o placar e impedido a vitória do clube carioca. Conseqüência: o Atlético permanece na zona do rebaixamento.
A derrota do Coritiba diante do Fluminense foi mais fácil de digerir (3x1). O clube paranaense atuou bem, mas o carioca foi mais eficiente nas finalizações. Fred marcou os gols do Fluminense. Beneficiou-se das boas assistências dos seus companheiros. Superou o incidente fora de campo, quando agredido por torcedores, tempos atrás.
Ao saber das agressões a companheiros por torcedores descontentes com a atuação do time no campeonato brasileiro, o jogador Kleber, do Palmeiras, manifestou a vontade de mudar de clube, tal como anteriormente fizera Fred, do Fluminense, em nome da segurança própria e da família. Nos dois episódios, carioca e paulista, o problema não foi criado pela torcida – que se compõe de milhares de pessoas de bem, cumpridoras dos seus deveres para com a família e a sociedade – e sim por um grupo sem representatividade. O registro policial da ocorrência foi boa iniciativa. Nenhuma surpresa causará se for constatada ficha criminal de alguns membros desse pequeno grupo. Em geral, esses grupos são formados por arruaceiros que gostam de exibir força contra jogadores, invadir o clube, depredar instalações e veículos, como aconteceu no Corinthians em passado recente. As diretorias dos clubes e demais vítimas das agressões não devem ser complacentes com os agressores, ainda que sejam proletários que enfrentam dificuldades sociais e econômicas. O fato de alguém ser torcedor e proletário não autoriza vandalismos, arruaças, práticas criminosas. A paixão pelo time não justifica a violência. Os agressores ficam sujeitos às sanções legais pelos danos pessoais e patrimoniais causados.
Má fase do time não é óbice à permanência do jogador profissional no clube, nem justa causa para romper unilateralmente o contrato de trabalho. Risco de vida gerado pela atividade laboral não previsto em cláusula contratual tipifica justa causa para a unilateral rescisão. Crises acontecem no mundo da natureza e no mundo da cultura, nos organismos biológicos e nas instituições humanas. As crises ocorrem em momentos culminantes do processo natural ou artificial, por saturação e disfunção provocadoras de mudanças.
No mundo da cultura – criado pelo ser humano – as crises integram a dinâmica social e favorecem o progresso material, intelectual e moral. Abrem portas a novas técnicas, novos conhecimentos, novos padrões de conduta. Geram reestruturação ética e social. Caracterizam-se: (i) pela turbulência originada por questionamento da eficiência e da adequação do modelo vigente diante dos desafios de uma nova realidade; (ii) por situações aflitivas ou perigosas oriundas de alicerces materiais ou morais corroídos; (iii) por súbita alteração no status quo decorrente de fatores endógenos ou exógenos; (iv) por variáveis que apontam direções opostas. As crises podem abranger a comunidade nacional ou internacional, do que serve de exemplo a crise da economia mundial de 2008/2011; ou abranger setores da sociedade, como clubes de futebol. Da crise setorial pode resultar redirecionamento de relações internas e externas, aquisição e alienação de bens, contratação e dispensa de pessoal, e assim por diante. A mutação a partir de um ponto crítico e a adaptabilidade à situação resultante são fatos da natureza observáveis também na sociedade. O fim de um ciclo não é o fim do mundo. A vida continua.
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
FUTEBOL
O mimetismo típico da conduta do povo brasileiro, conseqüência da sua origem colonial, ocorre também no futebol. A partir da exibição da seleção holandesa na copa de 1974, os treinadores brasileiros passaram a adotar a múltipla função dos jogadores. Atacante tem que ser também armador e defensor. Armador tem que ser também defensor e atacante. Defensor tem que ser também atacante e armador. Esse modelo ajustou-se bem a treinadores medrosos, que se sentem seguros na retranca. Para esse tipo de treinador, a vitória é secundária; a prioridade é evitar a derrota.
Tal modelo mostrou-se inadequado ao futebol brasileiro. Retrospecto dos jogos da seleção nestes últimos 40 anos constata essa realidade. A seleção ficou 24 anos sem vencer copa do mundo (1970/1994). Depois, no lapso de 20 anos ainda incompletos (1994/2014) ganhou uma copa (2002). Os jogadores de nível técnico apurado não ficam à vontade ao exercer múltiplas funções. Nota-se que eles não têm vocação para coringa. Há alguns anos atrás, Oséias protagonizou caso emblemático. Ao ajudar a defesa em um escanteio, saltou e cabeceou para dentro do gol. Pintura mais bem acabada de gol contra a própria equipe. Ao tomar, logo em seguida, consciência do que praticara, ele se espantou. Todos compreenderam que ele, sem pensar, agira por reflexo decorrente do seu condicionamento de atacante e faro de goleador.
Auxiliar a defesa é uma coisa, assumir a função de defensor é outra. De um modo geral, o defensor tem mais habilidade para atacar do que o atacante para desarmar. Jogadores condicionados psicologicamente a atacar carregam a probabilidade de, no desarme, sem intimidade com a função defensiva, machucar a si próprios e aos adversários, receber cartões amarelos e vermelhos por imperícia ou imprudência. Os exemplos são numerosos. A função defensiva não é a praia deles. Alguns jogadores rendem menos na seleção do que nos seus clubes porque o treinador exige que eles exerçam funções estranhas às suas especialidades. Ocasionalmente, o esquema traçado pelo treinador sufoca a habilidade do jogador. O atacante de nível excelente pode auxiliar a defesa, sem recuar além da linha intermediária, simplesmente acossando o adversário. Deixa o desarme para quem é do ramo. Acossa e se aproveita do erro do adversário. Nada de carrinhos, rasteiras, tapas e cotoveladas. Quando o adversário adianta demais a bola, aproveita para tomá-la. Quando o adversário é interceptado pelo defensor, aproveita a sobra. Estas são maneiras inteligentes de o atacante ajudar os companheiros da defesa sem comprometer o seu desempenho no ataque. Evidente que o atacante não há de evitar o confronto direto quando estiver com a bola dominada. Aí entram o seu destemor, a sua perícia e a sua determinação.
A seleção brasileira atuou bem diante de uma seleção mexicana superior à costarriquenha em valores individuais. O início do jogo foi às 23,00, horas, meridiano brasiliense (11.10.2011). Horário injustificável e abusivo. O teste foi muito bom. Torcida contra. Árbitro contra. Gol contra. Inferioridade numérica em campo. Placar adverso (Mex1 x 0 Bra). No período final, a seleção canarinho virou o placar (Bra2 x1Mex). Jefferson e Hulk aprovados. Lucas do SP acanhado. Davi Luiz atabalhoado. Quiçá, a ausência de Lúcio o tenha deixado inseguro e aumentado o peso da responsabilidade. Nos últimos jogos, Davi se mostrou temperamental. Daniel praticou falta inexplicável dentro da área. Sem razão, ele reclamou da arbitragem e recebeu o segundo cartão amarelo, ainda no primeiro tempo. Desfalcou o time. Os demais jogadores mantiveram bom nível. Destaque para Marcelo e Ronaldo. Atuaram acima da média. Brindaram o público com dois gols de bonita e eficiente execução.
Estádio do Pacaembu. 12/10/2011. Botafogo vence o Corinthians (2x0). Gols feitos no primeiro tempo. No segundo, o time carioca, desfalcado pela expulsão de Cortês, fechou-se na defesa. Correu sério risco diante da qualidade técnica do time paulista. Confronto dramático. A defesa botafoguense foi submetida a intenso bombardeio. O contra ataque tornou-se quase impossível. Apesar dos inúmeros escanteios e finalizações, os paulistas não conseguiram marcar gol. Destaque para Renan, goleiro do Botafogo, por suas excelentes defesas.
Tal modelo mostrou-se inadequado ao futebol brasileiro. Retrospecto dos jogos da seleção nestes últimos 40 anos constata essa realidade. A seleção ficou 24 anos sem vencer copa do mundo (1970/1994). Depois, no lapso de 20 anos ainda incompletos (1994/2014) ganhou uma copa (2002). Os jogadores de nível técnico apurado não ficam à vontade ao exercer múltiplas funções. Nota-se que eles não têm vocação para coringa. Há alguns anos atrás, Oséias protagonizou caso emblemático. Ao ajudar a defesa em um escanteio, saltou e cabeceou para dentro do gol. Pintura mais bem acabada de gol contra a própria equipe. Ao tomar, logo em seguida, consciência do que praticara, ele se espantou. Todos compreenderam que ele, sem pensar, agira por reflexo decorrente do seu condicionamento de atacante e faro de goleador.
Auxiliar a defesa é uma coisa, assumir a função de defensor é outra. De um modo geral, o defensor tem mais habilidade para atacar do que o atacante para desarmar. Jogadores condicionados psicologicamente a atacar carregam a probabilidade de, no desarme, sem intimidade com a função defensiva, machucar a si próprios e aos adversários, receber cartões amarelos e vermelhos por imperícia ou imprudência. Os exemplos são numerosos. A função defensiva não é a praia deles. Alguns jogadores rendem menos na seleção do que nos seus clubes porque o treinador exige que eles exerçam funções estranhas às suas especialidades. Ocasionalmente, o esquema traçado pelo treinador sufoca a habilidade do jogador. O atacante de nível excelente pode auxiliar a defesa, sem recuar além da linha intermediária, simplesmente acossando o adversário. Deixa o desarme para quem é do ramo. Acossa e se aproveita do erro do adversário. Nada de carrinhos, rasteiras, tapas e cotoveladas. Quando o adversário adianta demais a bola, aproveita para tomá-la. Quando o adversário é interceptado pelo defensor, aproveita a sobra. Estas são maneiras inteligentes de o atacante ajudar os companheiros da defesa sem comprometer o seu desempenho no ataque. Evidente que o atacante não há de evitar o confronto direto quando estiver com a bola dominada. Aí entram o seu destemor, a sua perícia e a sua determinação.
A seleção brasileira atuou bem diante de uma seleção mexicana superior à costarriquenha em valores individuais. O início do jogo foi às 23,00, horas, meridiano brasiliense (11.10.2011). Horário injustificável e abusivo. O teste foi muito bom. Torcida contra. Árbitro contra. Gol contra. Inferioridade numérica em campo. Placar adverso (Mex1 x 0 Bra). No período final, a seleção canarinho virou o placar (Bra2 x1Mex). Jefferson e Hulk aprovados. Lucas do SP acanhado. Davi Luiz atabalhoado. Quiçá, a ausência de Lúcio o tenha deixado inseguro e aumentado o peso da responsabilidade. Nos últimos jogos, Davi se mostrou temperamental. Daniel praticou falta inexplicável dentro da área. Sem razão, ele reclamou da arbitragem e recebeu o segundo cartão amarelo, ainda no primeiro tempo. Desfalcou o time. Os demais jogadores mantiveram bom nível. Destaque para Marcelo e Ronaldo. Atuaram acima da média. Brindaram o público com dois gols de bonita e eficiente execução.
Estádio do Pacaembu. 12/10/2011. Botafogo vence o Corinthians (2x0). Gols feitos no primeiro tempo. No segundo, o time carioca, desfalcado pela expulsão de Cortês, fechou-se na defesa. Correu sério risco diante da qualidade técnica do time paulista. Confronto dramático. A defesa botafoguense foi submetida a intenso bombardeio. O contra ataque tornou-se quase impossível. Apesar dos inúmeros escanteios e finalizações, os paulistas não conseguiram marcar gol. Destaque para Renan, goleiro do Botafogo, por suas excelentes defesas.
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