terça-feira, 11 de outubro de 2011

FUTEBOL

Campeonato brasileiro. 2011. Série A. Nivelamento técnico, graças ao talento do jogador brasileiro e ao esforço dos treinadores. Pequena diferença em favor dos clubes cariocas e paulistas, como se observa nos jogos e na tabela de classificação. Vitórias de clubes mal classificados sobre clubes bem classificados, ou empates, têm acontecido com certa freqüência, a indicar essa pequena diferença de eficácia em campo. Neste sentido, afigura-se correta a orientação do treinador da Portuguesa, no campeonato da série B, aos seus jogadores: afinco em todas as partidas, independente do adversário estar bem ou mal colocado. Essa atitude mantém aquele clube em primeiro lugar na tabela de classificação e o conduzirá à série A.

Igualmente correta se afigura a orientação do treinador do Atlético de Goiás, no campeonato da série A: manter a equipe no ataque até o apito final, independente da posição do adversário na tabela. Sem medo de perder e garantido na série A, coloca em prática o princípio das artes marciais: o ataque é a melhor defesa. Empatou com o São Paulo FC (3 x 3). No jogo seguinte, fora de casa, perdeu para o Corinthians (3 x 0), placar formado no primeiro tempo. O time paulista jogou muito bem, mas não conseguiu aumentar a vantagem no segundo tempo enquanto o time goiano esteve perto de diminuí-la. O placar escondeu a boa atuação da equipe goiana. Os jogadores de ambos os times se esforçaram até o final da partida, sem afrouxamento.

O fato de um clube contratar jogador a peso de ouro não é garantia de vitória, ainda mais quando o contratado está fora de forma. Brocardo popular incidente: uma andorinha não faz verão. O desempenho de Luis Fabiano em sua primeira partida pelo SPFC após retornar da Europa, mostrou que estará em boa forma brevemente. A estréia de Adriano pelo Corinthians foi desastrosa. Pesado, gordo, manco, entrou nos 10 minutos finais da partida, arrastando-se pelo gramado. Lamentável.

As indevidas concessões do clube à torcida geram imagens constrangedoras para o jogador e negativas para o público. A rivalidade entre os clubes precipitou a estréia de Adriano. Do ponto de vista prático, pouco importava a estréia de Luis Fabiano no SPFC mais cedo do que a de Adriano no Corinthians. O importante era a volta do corintiano em bom estado, ainda que no próximo ano. A diretoria achou por bem aplacar a impaciência da torcida e refutar a verdade dos fatos exposta pela imprensa. Mais por vaidade do que para aliviar a pressão, a diretoria agiu para contestar certezas jornalísticas. A massa de torcedores é volúvel e irresponsável. Por isso mesmo, a diretoria dos clubes e as comissões técnicas precisam devotar-lhe menor importância e não permitir manipulações. A pressão externa há de ser recebida com cautela e resistência. Os clubes devem se defender da compressão.

A comparação do Santos FC com o Barcelona FC teve curta duração. A imprensa esportiva resolveu ser realista. A assertiva de que o clube santista era o melhor do Brasil mostrou-se destituída de fundamento, empolgação momentânea do clube, da torcida e da imprensa sensacionalista. O desempenho desse clube no campeonato brasileiro mostrou fragilidade. Há equipes melhores, como aquelas duas acima citadas. Nomes de jogadores são insuficientes para colocar qualquer equipe no topo. O que resolve é o entrosamento da nomenclatura com a força de trabalho da equipe. O clube santista está aquém da fama.
No que tange ao clube espanhol, o bom nível é incontestável, mas ainda falta provar em campo ser o melhor do mundo, título que ainda não conquistou e talvez nem venha a conquistar, visto que a fase da euforia se exauriu. A perspectiva mais adequada é a inversa em matéria de capacidade técnica individual e coletiva: nos clubes brasileiros, como São Paulo e Corinthians, é que devem se espelhar o catalão e madrileno. Venha o clube catalão aqui jogar com um desses clubes. Ver-se-á fogo e não só fumaça. Na Espanha, em bom nível, atualmente, só existem o Barcelona e o Real Madri. No Brasil, basta lançar os olhos na tabela de classificação do campeonato para constatar a presença de uma dezena de clubes de nível internacional.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

FUTEBOL

Seleção brasileira x seleção costarriquenha. 07/10/2011. O selecionado brasileiro esbarrou em adversário disposto a oferecer resistência e até a vencer o jogo. Quem esperava um adversário frágil, equivocou-se. O placar (1 x 0) reflete a dificuldade da equipe brasileira em vencer a adversária. A seleção brasileira não mais intimida, embora seu nível técnico ainda seja bom. As seleções dos outros países da América, da Europa, da África, da Ásia, da Oceania, evoluíram e progrediram. A jactância de torcedores brasileiros está fora de sintonia com essa nova realidade.

Erros dos jogadores e dos treinadores da seleção brasileira merecem crítica construtiva. A longa preparação do selecionado afigura-se errônea. Os gastos são grandes e inúteis. O caminho singelo é o mais indicado: um mês antes de campeonato internacional, a CBF escolherá um treinador que convocará os melhores jogadores em atividade. Certamente, o treinador dirigirá o seu olhar mais para o presente do que para o passado. Assim fizeram Feola, Saldanha e Dunga, nas suas respectivas passagens pela seleção brasileira, com bons resultados.

Nada assegura que os jogadores de hoje estejam em forma, em boas condições técnicas, físicas e psicológicas, para a copa que se realizará daqui a três anos! Até lá, os atuais jogadores podem regredir física e tecnicamente; novos e excelentes jogadores podem surgir; novos tafaréis, cafus, ronaldos, leandros damiões, pois o Brasil ainda é celeiro de craques. Por ser diferente da que ocorre em outros países, essa realidade brasileira dispensa longa preparação do selecionado. Basta um mês de antecedência. Acontece, com freqüência, de coexistirem, em nível de excelência, três ou mais jogadores para a mesma posição, o que embaraça a escolha. Os torcedores e a imprensa esportiva pressionam para que os jogadores da sua preferência sejam convocados.

Durante o campeonato nacional ou estadual os clubes sentem a ausência de jogadores convocados periodicamente. Além dos clubes, os torcedores ficam frustrados por não verem os melhores jogadores em campo e por verem o reflexo negativo na tabela de classificação. As competições de âmbito nacional ou local perdem o brilho. Urge mudar o modelo atual por outro menos dispendioso, menos desgastante, mais simples e sensato.

O desempenho dos brasileiros contra os costarriquenhos foi bom. Ronaldo Gaúcho esteve muito bem na armação. Lembrou o genial Didi, apesar de alguns passes errados, aliás, deficiência geral no futebol brasileiro da atualidade; até o Marcos Assunção tem falhado! Em 1958, dos pés de Didi, na copa do mundo, saíram mais de 20 passes, sem um único erro, todos certeiros, o que levou a imprensa francesa a considerá-lo o melhor jogador do mundo. Pelé era estreante e ainda precisava confirmar a sua genialidade, como efetivamente a confirmou na seqüência da sua carreira. Há jogadores que surgem como estrelas e que na verdade são cometas. Brilham rapidamente no céu esportivo e desaparecem. Ronaldo Gaúcho, por duas vezes, recebeu o título de melhor jogador do mundo, não pelos passes certeiros, mas por seu incrível talento como jogador de futebol. Embora concedido por uma FIFA mafiosa, ele mereceu o diploma. Continua a brilhar.

Paparicado pela imprensa, promovido pelo marketing, Neymar ainda está em ascensão, embora tenha feito o único gol, em lance de oportunismo e velocidade, no jogo contra a seleção da Costa Rica. O futuro próximo dirá se ele é estrela ou cometa. Dribla bem, com propósito exclusivamente decorativo, na maioria das vezes. Isto irrita o adversário e provoca revide violento. As jogadas decorativas mostram-se inócuas à equipe; favorecem exclusivamente o jogador quanto ao seu valor no mercado. Aliás, o Santos FC corre o risco de obter preço menos vantajoso na venda futura, comparado com o preço oferecido este ano por clubes estrangeiros, se o rendimento em campo permanecer como está, ou regredir. Constantemente, Neymar é desarmado. Em três passes erra dois. Fura ao chutar. Desperdiça penalidades. Franzino, sofre constantes quedas no gramado em choque com adversários corpulentos. Por medida de cautela, esse jogador deve ser poupado nos jogos contra seleções africanas. A probabilidade de sair quebrado é bem grande, o que trará prejuízo para ele próprio, para o clube e para a seleção.

Convém que Ronaldo e Neymar tenham maior controle dos nervos ao sofrerem faltas. Ambos serão caçados em campo mais pela fama do que pelo efetivo desempenho. Isto é esperado e faz parte da competição, motivo pelo qual os dois não devem reagir como crianças mimadas, ou como pessoas de suscetibilidade exagerada. Atletas de bom nível técnico devem se portar de modo altaneiro, sem brigas, sem reações violentas, sem palavrões. O desabafo há de vir em belas e eficazes jogadas, individuais e coletivas.

O nervosismo e o destempero indicam insegurança, reconhecimento tácito da momentânea fragilidade. Compreensível ficar nervoso quando a produção em campo está insatisfatória e o atleta sabe que ele e a equipe têm potencial para render mais. Porém, o jogador profissional deve ter controle sobre os seus nervos, procurar entender o que está ocorrendo dentro do campo e dar o melhor de si para vencer os pontos fracos detectados. Fundamental é ter autocontrole, vencer a si próprio, ter boa visão de jogo, compreender que não é a única estrela em campo, que faz parte de uma constelação. Companheiros e adversários merecem respeito.
O caçador é atleta que busca cumprir função dentro do campo; quanto mais grosso tecnicamente, mais bruto. O árbitro encarrega-se de discipliná-lo durante o jogo.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

MENSAGEM

Prezadas leitoras. Caros leitores.

O conto “Júnior, o curioso” que ora termina, foi bem mais longo do que “Venâncio, o corno”, publicado aqui em 31/07/2011. Os personagens do conto anterior eram pobres, pessoas simples, de modesto nível intelectual, que viviam na invisibilidade social. Os personagens do conto posterior desfrutam bom padrão de vida, dotados de nível intelectual acima da média. Talvez por isso, insistissem em ampliar a história. Recusavam-se a parar. Portavam-se como se fossem donos do pedaço. Cada vez que eu ia encerrar, era uma grita geral, protestos veementes dos personagens. Até de exterminador fui acusado. Há personagens que surgem e se impõem com a maior desfaçatez. O conto devia ser curto, como o anterior. Conversa de pai e filho em certa manhã de domingo. Aí, mãe e filha meteram o bedelho. Afinal, somos uma família; porque só o pai e o filho participam? Machismo? Não adiantou explicar que nada havia de discriminatório e que se tratava de simples exercício literário. As duas entraram na história voluntariosamente. Exigiram a inclusão do cachorro. Protestei: peraí, a história é de gente; não metam bicho no meio. Bastou eu me descuidar um pouco e lá estavam eles com cachorro e tudo no automóvel tipo utilitário viajando para a chácara dos pais e avós. Casal idoso, simpático, os avós entraram na história com a leveza de uma brisa primaveril. Com eles entraram os empregados da chácara, as aves, os bois, vacas, cavalos, porcos, patos, marrecos, gansos. Simplesmente, aconteceu. Tomaram conta do meu conto. Quando lancei “Capítulo Final” foi um pandemônio. Rebelião dos personagens. Mais uma vez cedi. Troquei por “Capítulo XXVII”. A rebelião foi controlada. Eles ficaram confiantes de que o conto não teria fim. Enganei-os. No tal capítulo coloquei um paradeiro a essa rebeldia das criaturas contra o criador. Finalizei com Júnior grisalho, trazendo dentro do peito a criança e o adolescente que a maturidade acumula e que nunca deixamos de ser. Recordar é reviver nossas vivências.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

CONTO

Capítulo XXVII

- Em pouco mais de seis mil anos – diz Dorotéia – a humanidade saiu do estado selvagem e atingiu elevado grau de civilização, estudando minerais, vegetais, animais, o organismo humano, a organização social dos animais racionais e irracionais, perscrutando a vastidão macroscópica do cosmos e a imensidão microscópica do átomo. Descobriu como fazer o fogo. Inventou a roda. Percebeu regularidades da natureza como as estações do ano, ciclos lunares e solares e posições das estrelas. Fundada nessa percepção, criou o calendário e elaborou mapas celestes e terrestres para se orientar no tempo e no espaço, na terra e no mar. Aperfeiçoou técnicas de plantio e colheita, de domesticação e criação de animais, de produção e distribuição de bens necessários, úteis e decorativos. Fabricou armas, munições, ferramentas, equipamentos, utensílios de barro, pedra, madeira e metal. Criou mitos, religiões, filosofias, instituições políticas, sociais e econômicas, terapias, técnicas cirúrgicas, métodos de ensino e aprendizagem. Construiu cabanas, casas, palácios, templos, pirâmides, cidades, obeliscos, pontes, estradas, barcos, navios, veículos de tração animal, motores a vapor, a combustão, elétricos, a jato. Aproveitou o fogo, a água, o vento, o sol, o gás natural, vegetais e resíduos fósseis, para produzir energia. Comunica-se pelo telégrafo, telefone, rádio, cinema, televisão, rede de computadores. A telepatia poderá ser meio usual de comunicação dentro de algumas centenas de anos, tão logo o cientista se desvencilhe do preconceito. Ondas cerebrais e expressões verbais serão concorrentes no processo de comunicação entre os humanos. Por enquanto, os estudos sobre comunicação telepática ligam-se à segurança nacional de alguns países. Antes do fim da vida biológica na Terra, a humanidade já terá suficiente conhecimento tecnológico e científico para produzir bens essenciais e viver em outro planeta.

Júnior menciona livros que trabalhavam com a hipótese de mudança de domicílio planetário e defendiam a tese de que habitantes de outros planetas se transferiram para a Terra, como os atlantes, os antigos egípcios, os maias, povos que sumiram com destino aos seus planetas de origem, a planetas diferentes, ou a outras dimensões do mundo. Tudo especulação – diz ele – porém o assunto fascina milhares de leitores e enriquece a ficção científica.

- Apesar do progresso material, avanço científico e tecnológico, desenvolvimento intelectual, parcela maior da humanidade permanece na infância espiritual e na adolescência moral – critica Isolda. A cada dedo da mão corresponde um “A”: ar, água, alimento, abrigo e amor, essenciais à vida individual e coletiva. Desses, a humanidade cuida mal dos quatro primeiros, principalmente no que tange a poluição e a distribuição. O quinto é frustrante; a humanidade ainda não aprendeu a amar. O amor a Deus e ao próximo, até o momento, é superfície esmaltada. Entre os seres humanos há muita paixão e pouco amor. O amor pela natureza, hodiernamente, parece mais real, autêntico e promissor. Em jogo, a sobrevivência da espécie.

A família habituara-se a passar fins de semana em lugarejo turístico no sopé da montanha, em algumas épocas do ano, principalmente no inverno. Em uma dessas ocasiões, no restaurante, Leopoldo notou dois casais, um septuagenário e outro sexagenário, segundo sua avaliação empírica. Acomodaram-se em torno da mesa em frente à sua. O varão mais idoso de cabelos curtos, rosto barbeado, alto, magro, olhar cansado e sem brilho de quem tudo já viu, escutou e experimentou na vida; o outro, com barba crescida, cabelos compridos em rabo de cavalo cercando a calva, de menor estatura, gordinho, olhar vivaz de quem ainda espera conhecer e experimentar mais alguma coisa neste mundo. O primeiro distante da mulher, embora sentado ao seu lado. O segundo, suavemente, alisava as costas da companheira. Carinho sem erotismo. Companheirismo afetuoso. Ela se reclinava no ombro dele e depois voltava à posição ereta na cadeira. “De um lado da mesa, frieza do hábito; do outro, calor da amizade” – pensou.

Da mesa em torno da qual a família se sentara, junto à vidraça do restaurante, Júnior via desfilar pela rua principal dezenas de motocicletas. Os motoqueiros haviam marcado aquela data e aquela aldeia para se confraternizar. O clima era de festa. O dia maravilhoso. Eles transitavam em todas as direções levando as companheiras na garupa. Havia também duplas de mulher e pilotos sozinhos, inclusive em triciclos vistosos. Diferentes marcas e tipos de motos. Casais idosos montavam em motos Harley-Davidson ou BMW. Capacetes com desenhos coloridos. A maioria usava blusa de couro, calça jeans e bota. Alguns usavam traje completo: botas, luvas, macacão de couro ou de tecido especial. Pareciam astronautas. Júnior sentiu vontade de ingressar naquela tribo, com motoca nova e namorada na garupa.

- Gostaria de ganhar motocicleta como presente de aniversário – disse aos pais.

A mãe foi contra. A moto é perigosa. Há muitos acidentes com morte ou lesões graves. Leopoldo e Isolda se manifestaram favorável ao presente de aniversário. Perigo havia em todo lugar, argumentavam eles. Acidentes ocorriam em terra, no rio, no mar, no ar. Tanto em cidade grande como em cidade pequena, acidentes acontecem. O olhar cauteloso aconselha a reduzir as chances do desastre mediante privação desse tipo de veículo. O olhar arrojado aconselha a assumir riscos e se aventurar. Viver sem emoção é vegetar. Cabe a cada indivíduo escolher a placidez do lago ou a inquietação do mar.

Júnior ganhou a motocicleta. 600 cilindradas. Japonesa. Tamanho grande, cor preta, metais niquelados, guidão alto. Rodava pela cidade e pelas estradas a caminho do mar ou da montanha. Namorada na garupa; nem sempre a mesma. Entrara para a tribo dos motoqueiros. Gostava daquela sensação de liberdade plena. Vento no rosto. Vida que segue.

O interfone tocou. O menino teve um sobressalto na poltrona da escrivaninha do escritório. A secretária anunciou:

- Doutor Rahman, o cliente chegou.

Somente no âmbito íntimo da família ainda o chamavam de Júnior. Ao tempo da faculdade, os colegas chamavam-no de Cidreira. Na tribo dos motoqueiros chamavam-no de Leô, modo abreviado de Leopoldo. Desistira de ingressar na mesma carreira do avô. Recusara o conselho de cultivar a mediocridade. Não se deixara aprisionar pela toga. Optou pelos vôos mais altos da inteligência e da liberdade. Dedicou-se à advocacia. O moço instruiu a secretária:

- Aguarde um momento.

Levantou-se, postou-se à frente do espelho, fechou o colarinho e ajeitou a gravata. Os olhos ainda estavam úmidos das emoções revividas. Vestiu o paletó. Curvou-se em direção à mesa e acionou o interfone. A secretária atendeu. Ele dita a ordem, curta e branda:

- Faça-o entrar.

O cliente apertou a mão vigorosa que lhe estendeu aquele homem grisalho, experiente nas demandas forenses, experto em assuntos jurídicos, que lhe indicava a poltrona no austero gabinete. Ambos sentaram-se. O advogado ouvia a confissão do cliente. Cessaram as recordações. Recomeçaram as lides.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

CONTO

Capítulo XXVI.

No entender de Dorotéia, a reencarnação satisfaz do ponto de vista lógico somente a quem aceita as seguintes premissas: que a reencarnação obedece a uma lei natural; que o homem está encarnado em um corpo físico a fim de passar por experiências terrenas necessárias ao aperfeiçoamento; que essas experiências ocorrem em mais de uma encarnação na Terra.

- Não há evidência alguma da existência de lei natural a comandar reencarnações – Júnior se atrela à opinião da mãe. O homem não está encarnado em um corpo físico. O homem é o corpo físico. Ao entrar no escritório eu não tiro o meu corpo e o penduro no cabide para depois apanha-lo na saída. A morte do corpo é a morte do ser humano. Resta o que chamam de alma. Prefiro chamar de personalidade anímica, como faz a dona Dorotéia.

Ao dizer isto, Júnior, que se sentara no braço da poltrona, afaga os cabelos da mãe e a beija na testa. Dorotéia, sentada em patamar inferior, coloca a sua mão sobre a mão que o filho pousara em seu ombro e responde à provocação.

- Concordo contigo, meu filho. Alguns chamam espírito, alma individual e autônoma. Eu prefiro personalidade anímica, integrada à alma universal. À energia fundamental que gerou e mantém o universo em eterno movimento e progresso eu reservo o nome de alma. Todas as galáxias estão mergulhadas nesse vibratório oceano cósmico chamado alma. Ao se desligar do corpo, a personalidade anímica permanece nesse plasma inefável como se fora decalque imaterial. Ressurreição supõe morte anterior. Só ressurge quem desapareceu. O que é imortal não ressurge, porque não desaparece. Sendo expressão da alma, a personalidade é imortal. Como a parte mortal do ser humano é o corpo, a ressurreição deve ser do corpo. Entretanto, ao se tornar pó ou cinza, o corpo desaparece, perde a estrutura necessária à ressurreição. Vejo que vocês já perceberam a incompatibilidade entre a doutrina da ressurreição e a doutrina da reencarnação. Nesta última, a personalidade ocupa vários corpos no curso dos milênios. Se houvesse ressurreição, a personalidade teria de escolher um desses corpos, admitida a inacreditável capacidade de o corpo se reconstituir depois de ter virado pó ou cinza. Os demais corpos dessa mesma personalidade se manteriam no estado de poeira. Com a reencarnação ocorreria algo diferente. A personalidade retornaria – não para ocupar corpo que já se desintegrara – e sim para ocupar novo corpo em gestação ou após o nascimento.

- Há complicadores também no caminho da doutrina da reencarnação – Júnior movimenta o dedo indicador para frente e para trás à altura da fronte direita enquanto fala. Estatísticas existentes nos institutos de economia de países ocidentais revelam que a população mundial vem crescendo, menos nos países do primeiro mundo e mais nos países periféricos. A mortandade causada pelas guerras e pelas pestes não impediu o crescimento demográfico que se iniciara com os descendentes do primeiro casal de que fala a mitologia judaica, cristã e muçulmana. Novos corpos exigem novos espíritos. Supõe a existência de espíritos que encarnam pela primeira vez, sem previa personalização no mundo material. Isto fere a lógica e o bom senso, uma vez que, segundo a exposição da minha mãe, a personalidade resulta da combinação da matéria do corpo com a força vital da alma, segundo uma ordem cosmicamente determinada. Sem essa prévia combinação em nosso planeta, ou em planetas de qualquer galáxia, não haverá personalidade no mundo espiritual. A combinação de duas polaridades para surgir um terceiro elemento é vista como manifestação da lei do triângulo, pelos místicos, e como dialética, pelos filósofos.

- Realmente – Dorotéia completa a exposição do filho – não vejo necessidade alguma de aperfeiçoamento de um suposto espírito virgem que existiria sem mácula no seio da alma universal em freqüência mais alta do que a da matéria.

- Parece que o universo é um computador programado por Deus – Leopoldo não resiste a comentar o que lhe dava coceira na língua। Essa programação inclui a providência divina. Isto significa que não existe providência divina pontual, específica, excepcional, para atender singulares indivíduos e episódios. As coisas acontecem segundo mecanismo cósmico que conhecemos parcialmente. Os nossos pensamentos, desejos, paixões, atividades, acionam o mecanismo do karma, citado na doutrina hindu, entendido como a lei de causa e efeito. O karma pode ser positivo ou negativo no que tange ao prazer, à felicidade, à dor e sofrimento; atua sobre pessoas e nações. No que tange ao primeiro casal, o assunto é mitológico, como disse o Júnior. Dos atuais estudos paleontológicos, antropológicos e etnográficos, podemos sacar a probabilidade do surgimento de seres humanos em diferentes pontos do planeta, na mesma ou em distinta era geológica, obedecendo às mesmas leis biológicas. Constata-se, pois, que a espécie não teve um só primeiro casal e sim vários casais geradores de diferentes raças humanas e de diferentes tipos humanos.

- A realidade é uma só embora com muitas dimensões e níveis vibratórios nem sempre acessíveis aos sentidos humanos – repete e acentua Dorotéia. Vivemos fisicamente no espaço tridimensional. No espaço subatômico, cientistas identificam quase uma dezena de dimensões. Na esfera metafísica, não há espaço e tempo, não há dimensão, há somente níveis vibratórios. Mediante processos racionais a humanidade vai conhecendo as dimensões do mundo físico e os níveis vibratórios do mundo metafísico. Mediante processos irracionais, como o êxtase místico, o indivíduo intui aquelas dimensões e aqueles níveis vibratórios.

- Vejo a tradição como elemento comum à religião e à ciência – Leopoldo aproveita o ensejo para expor algumas idéias. Na religião, vejo o legado das escrituras e o conjunto de crenças e rituais transmitidos de geração a geração. Na ciência, vejo o legado dos estudos e pesquisas profanos e o conjunto de conhecimentos transmitidos de geração a geração. Ambas apóiam-se na fé. A religião, na fé irracional. A ciência, na fé racional. Desde as primeiras civilizações até a medieval, o sacerdócio religioso foi de fundamental importância para o desenvolvimento das artes e das ciências. A partir da renascença, ou da segunda metade da idade média, conforme a visão de cada historiador, a ciência vai se despregando da teologia até adquirir autonomia na idade moderna. O dogmatismo da religião passou, então, a ser entrave. Rogério Bacon, Galileu, Copérnico, Descartes, Newton, Einstein, revolucionaram o conhecimento humano, ao lado de outros que sofreram constrangimentos e até perderam a vida porque ousaram pensar, estudar, pesquisar, sem subordinação à igreja. Atualmente, o sacerdócio religioso não é mais aquela fonte idônea para explicar fenômenos naturais e fatos culturais. Idônea para essa tarefa é a ciência. Muito mais do que qualquer religião, o conhecimento científico e tecnológico contribuiu para a evolução da humanidade, assim como os esportes, com suas regras éticas e competições mundiais, têm contribuído para a fraternidade universal. Ciência, tecnologia e esportes são de fundamental importância para a humanidade. Esses fatores influíram no despertar da consciência ecológica dos povos da idade contemporânea. Já a religião e a política são fontes de conflitos entre culturas, nações e indivíduos.

- O inglês Thomas Hobbes, no século XVII e o genebrino Jean-Jacques Rousseau, no século XVIII – novamente Júnior tira proveito dos seus estudos jurídicos – reconhecem a existência de um primitivo estado selvagem e atribuem à natureza humana, a passagem para o estado civilizado. Hobbes afirma a maldade inata do ser humano que gerou a guerra de todos contra todos, o que exigiu a racional decisão de se adotar um governo a fim de evitar o extermínio. Rousseau afirma a bondade inata do ser humano que levou a um tácito contrato social em que os contratantes abdicam da plena liberdade que gozavam para viver sob a tutela das regras ditadas pelos próprios destinatários e executadas por um governo. Em suas teorias, Hobbes privilegiou a força demoníaca, sem ignorar a bondade humana; Rousseau privilegiou a força angelical, sem ignorar a maldade humana. O pensamento da minha mãe coincide com o desses pensadores: a estrutura do ser humano se compõe de duas forças: a demoníaca, com seus pólos positivo e negativo, e a angelical, com seus pólos positivo e negativo.

sábado, 1 de outubro de 2011

CONTO

Capítulo XXV.

- Estou sentindo que é nesse ponto que a senhora e o papai divergem – Isolda fala como se houvesse descoberto um segredo.

- No que tange à humildade, não há discrepância entre a minha opinião e a da sua mãe – Leopoldo explica aos filhos. A diferença está no cenário. Não acredito absolutamente em reino de Deus separado dos reinos da natureza e da cultura. Creio na unidade do mundo e na multiplicidade das faixas vibratórias. Não acredito no juízo final. Juízo é operação mental própria do ser humano e que exige o cérebro como instrumento, tal como o conceito e o raciocínio. As personalidades desencarnadas intuem diretamente as coisas, sem necessidade de cérebro e dessas operações. Jesus está desencarnado, portanto, não formulará juízo algum. Se aceitarmos a proposição de que Deus não se confunde com Jesus, nem com qualquer outro ser existente no universo; que Deus é energia imanente e transcendente em concomitância; que Deus é luz, vida e amor; então, não haverá sentido atribuir-lhe cérebro e operações mentais a que estão sujeitos os seres encarnados. Se Deus é onisciente, onipotente e onipresente, então, ele tudo sabe por intuição direta, sem necessitar de órgãos físicos e das operações próprias do entendimento humano. Assemelhar Deus aos seres humanos é equívoco e o juízo final, grosseiro embuste.

Curioso e sedento por uma discussão entre os pais, Júnior refere-se a outros pontos de divergência. Isolda vibra no mesmo diapasão. “O cenário é mais amplo”, ela dizia para estimular a conversa. Leopoldo se prontifica a responder, embora em tom de encerramento e disposto a se recolher ao quarto de dormir, disto prevenindo os filhos.

- Penso que a divisão entre reino espiritual e reino material tem apenas importância didática. O reino divino abrange todas as galáxias, os reinos mineral, vegetal e animal, os universos paralelos, tudo vibrando em freqüências distintas. Vocês observaram o Rex? O nosso cão sente e ouve coisas que nós não sentimos e não ouvimos. Quando Dorotéia, longe da vista, a quilometro de distância, está para chegar de automóvel, Rex, no quintal, ergue a cabeça e fica de orelha em pé a espera. A sensibilidade do cachorro aos estados psíquicos do dono impressiona. Sentem quando o dono está saudável e quando está doente. “Só falta falar” dizem as pessoas ao notarem o cão sem adestramento atender ao comando verbal do dono. Mais do que o som das palavras, o cachorro capta a vontade do dono telepaticamente. Há vibrações percebidas pelos cães que os nossos cinco sentidos não registram. Segundo a Física, matéria é energia na sua origem e elementar expressão. A natureza dessa energia é vibratória. A vibração ocorre em freqüências distintas. Essas freqüências geram diversos campos de energia. Isto conduz a uma realidade mais ampla do que a percebida pelos cinco sentidos humanos, tanto na direção da baixa como da alta freqüência. O denominado mundo espiritual faz parte dessa realidade. Cuida-se de um campo de alta freqüência vibratória do qual o ser humano toma consciência esporadicamente pela intuição. Na opinião de René Descartes, a glândula pineal, localizada no centro do cérebro, é o órgão sensorial dessa intuição.

- Assim como nossos primitivos ancestrais – Júnior dá sinais exteriores de espírito crítico e tece algumas considerações – continuamos a crer em espíritos que falam e sentem como os humanos; que o chamado mundo espiritual é uma réplica do mundo material. Não creio que isto seja verdadeiro e sim que no mundo espiritual desaparecem as preocupações vividas no mundo material. Eventuais compensações por desvios de conduta são realizadas no mundo material, segundo a lei do karma. Pecado e crime são fatos e noções do mundo material. Tudo isto desaparece no mundo espiritual, campo vibratório de superior freqüência, como diz o senhor, meu pai. Nesse campo, as personalidades anímicas estão mergulhadas na lucidez e no amor da alma universal, sem os entraves da matéria. Nessa sublime realidade não há lugar para castigo e purificação. Cada personalidade ocupa o nicho compatível com a sua freqüência vibratória.

- Entre a minha opinião e a do seu pai há certa convergência – Dorotéia intervém com brandura. Acreditamos que no chamado mundo espiritual há personalidades que viveram entre nós e passaram pela transição; que podemos nos comunicar com essas personalidades; que tal mundo não tem estrutura atômica; situa-se fora do espaço e do tempo. Divergimos quanto à reencarnação das personalidades. Leopoldo nela acredita; eu, não. Penso que a personalidade anímica não tem existência individual, separada da alma universal.

- Desde a mais primitiva organização tribal, os silvícolas acreditavam na reencarnação dos ancestrais. No Oriente essa crença é antiga e permanece até hoje. No Ocidente, tornou-se um dos pilares do espiritismo e da doutrina mística.

- Apesar disto, Leopoldo, você sabe que tenho sérias restrições a essa tradição. Vejo muita crendice e pouca verdade. Essa crendice, no Ocidente, foi enxertada com uma indevida aplicação da teoria da evolução. A teoria de Charles Darwin se presta para explicar fenômeno natural que ocorre no planeta Terra e não para justificar doutrina religiosa. A reencarnação do mesmo Dalai-Lama, sempre um tibetano, líder de uma das seitas budistas, afigura-se ilusão provocada pela comunicação telepática entre a consciência da comissão investigadora e a consciência do investigado; simpatia entre investigador e investigado contribui para a escolha. O Dalai-Lama acumulava a função de pontífice com a chefia de Estado. Assim, o reencarnado devia pertencer à nação do Tibete. Separadas as funções, o Dalai-Lama poderá, sem óbices políticos, visitar qualquer nação que se disponha a recebê-lo como pontífice.

- Vejo aí, implícita, a essência do seu pensamento sobre tal assunto – comenta Júnior.

- Eu também – ajunta Isolda.

- Vou explicitar – prontifica-se Dorotéia. Se domar o desejo, o ser humano pode atingir estados de consciência elevados e chegar ao nirvana ainda em vida, sem passar pela roda de reencarnações mencionada por Sidarta Gautama, o primeiro buda. Após a morte do corpo, a personalidade anímica permanece onde sempre esteve: no seio da alma universal, oceano cósmico em que está mergulhado todo o universo. Não existe alma isolada, individual, no interior do corpo e sim uma personalidade formatada a partir do nascimento com vida e integrada à alma universal. Em não havendo alma individual, não há falar em reencarnação do indivíduo. O cadáver decompõe-se quimicamente. Vira pó, quando sepultado; vira cinza, quando cremado. Ressurreição e reencarnação não se sustentam diante dos fatos da natureza. Tais crenças resultaram da enganosa esperança de imortalidade de quem escreveu os textos religiosos. Produto da ignorância do passado, essas crenças são incompatíveis como o estágio atual do conhecimento. Personalidade alguma volta do mundo espiritual para ocupar um corpo que não existe mais, ou um novo corpo que ainda está no útero materno, ou que acabou de ser expelido. Ademais, esse retorno exigiria redução da freqüência vibratória, o que contraria a progressividade característica da energia fundamental. Em sendo matéria, o corpo vibra em baixa freqüência. A natureza não dá saltos. Logo, admissível o axioma: a freqüência vibratória é progressiva do mundo físico ao mundo espiritual. Não há retrocesso. Segundo o preceito místico “assim como encima, é embaixo”, cada faixa vibratória tem a sua própria freqüência, da esfera física à metafísica; diferentes tonalidades do teclado cósmico; acordes da mesma sinfonia.

Ao encerrar a explicação, Dorotéia diz que a personalidade anímica, após a morte do corpo, liberta-se das limitações da matéria e transita para faixa de superior freqüência no seio da alma universal; que desconhece a extensão desse teclado cósmico, se é limitada ou ilimitada; provável que a personalidade anímica vivencie luz maior e prossiga por freqüências mais elevadas sem abandonar o mundo espiritual; possível que algumas personalidades, seres iluminados, estacionem em alguma faixa vibratória daquele mundo com o propósito de orientar a humanidade, como os budas ou bodhisattvas, referidos na doutrina budista.

- Eu tenho a impressão de que a senhora já tocou neste assunto – Isolda faz breve comentário de aveludada censura, temperado com malícia, a fim de mordiscar a vaidade da mãe.

- É mesmo? Sintoma da terceira idade embora eu nem tenha completado 50 anos. Aliás, teus avós não são repetitivos, apesar de septuagenários. Conto com a tua benevolência. Receba a repetição como reforço das minhas idéias. – Embora falando baixo, Dorotéia estava irritada, pois percebera a intenção oculta na expressão da filha.

- Será a terceira idade de uma mulher simpática, bonita, lúcida, inteligente – atalha Júnior, animadamente, como fã incondicional da mãe.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

CONTO

Capítulo XXIV.

- A vingança parece extensão do mecanismo de defesa diante da análise que o senhor e a senhora acabam de fazer – Isolda fala pensativa; os pais e o irmão escutam. Ao revidarem, quinze anos depois, os alemães se defenderam das acusações contidas no tratado de 1919. No esporte, a vingança também está presente. Quando uma equipe perde e se sente humilhada, aguarda a oportunidade de retribuir e de vencer a outra de modo escabreado. No cotidiano, ao receber tapa numa das faces, ninguém oferece a outra; vai para o revide, se puder.

- Por essas e outras que examino os livros religiosos com muito cuidado – Leopoldo exibe determinação no semblante. Não me fio na falácia dos clérigos, segundo a qual devemos ler com os olhos da fé religiosa, fé cega. Eles pretendem que abdiquemos da razão e aceitemos baboseiras como verdades divinas. A fé cega convém à dominação mental. Interessa-lhes fazer dos fiéis um rebanho e mantê-los em servidão. Não acredito que as palavras de Jesus tenham sido lançadas com fidelidade nos evangelhos e nas epístolas. Ele era um mestre. Sabia, pois, que a perfeição não é deste mundo. Padres, pastores, rabinos, freiras, professores, cientistas, operários, lavradores, crianças, adultos, todos são imperfeitos. Apesar da natural organização, o corpo humano apresenta defeitos. A sociedade apresenta problemas estruturais e funcionais desde a antiguidade até a idade contemporânea.

- Doutrinas religiosas e teorias científicas apresentam incoerências – Dorotéia aproveita o gancho. Vejam o segundo mandamento nuclear: “Amai ao próximo como a si mesmo” ou “amai ao próximo como si mesmo”? Se suprimirmos o artigo “a”, o sentido se modifica. Na primeira forma, toma-se como suposta a separação física e espiritual entre o eu e o tu. Na segunda, o suposto é que o eu e o tu constituem uma unidade espiritual. Qual dessas duas proposições Jesus ditou? Depois de meio século, o escritor do evangelho reproduziu corretamente a frase pronunciada por Jesus? Lembrem-se: a primitiva e miúda comunidade cristã, com uma ou duas exceções, era composta de pessoas pobres e analfabetas.

Isolda apóia com entusiasmo a argumentação dos pais. Cita como exemplo a palavra recepção na entrada do hotel. Basta trocar a letra “r” pela letra “d” e teremos outra palavra: decepção. Foi o que sentimos em relação ao serviço hoteleiro nas férias. – A graça de Isolda teve fria recepção dos pais e do irmão, o que a deixou decepcionada. Ela avançou na conversa, tentando superar o desconforto, dizendo que Jesus pretendia uma perfeição incompatível com este mundo; que ele mesmo era imperfeito.

- Episódios narrados na bíblia mostram a imperfeição de Jesus. No templo, bagunçou o coreto e desceu o porrete nos comerciantes. Ele, que era galileu, xingava os judeus; discutia com os poucos judeus letrados e os chamava de víboras, hipócritas e certamente outros impropérios. Na casa de Lázaro, flertou com uma das moças e permitiu que ela derramasse caro perfume sobre ele. Na Galiléia, humilhou a mãe e os irmãos dele na frente da platéia. Livro apostólico não incluído na bíblia revela o caso amoroso dele com Maria Madalena. Eu e minhas amigas não temos dúvida: os dois transavam adoidados.

- Minha filha, por amor a Deus, deixe de falar essas coisas com suas amigas, quer nos intervalos das aulas, quer fora do colégio – Dorotéia se impressionou com o arroubo de Isolda. Você está no último ano. Se isto chegar aos ouvidos da madre superiora você poderá ser expulsa do colégio e atrasar teu ingresso na universidade. O teu linguajar é inadequado a assuntos religiosos. Concordo com as tuas idéias e as do teu pai sobre a imperfeição. Acho, entretanto, que Jesus criou um padrão de conduta para que fôssemos felizes, desprendidos das coisas materiais. Ele almejava paz e fraternidade entre os seres humanos, apesar do censurável comportamento mencionado por você. Missionários católicos e protestantes seguem os mandamentos e a doutrina nos limites individuais, na medida da imperfeição de cada um. As igrejas preocupam-se com os pobres, dedicam-se à educação, à terapêutica, à assistência social; constroem e mantêm escolas, clínicas, hospitais, albergues e creches.

- Tudo bem – Júnior fala de modo cordato. Nessa área atuam católicos, protestantes, espíritas, maçons, místicos. Seguem a escola de Jesus. Para dar visibilidade à ação caridosa, a igreja católica usa alguns vultos. Para tanto, vale-se dos meios de comunicação social. Mulheres como Madre Teresa de Calcutá e homens como Frade Francisco de Assis, merecem respeito e admiração, inclusive ateus e pessoas de diferentes credos que, no anonimato ou publicamente, prestam assistência aos necessitados. Além dos cristãos, também islamitas, hinduístas, budistas, têm propósitos humanitários. A clientela dos colégios e universidades católicas e protestantes é de ricos e remediados. Aos pobres, a escola pública.

- As instituições cristãs de ensino abrem vagas e concedem bolsas de estudo aos pobres – ponderou Dorotéia.

- As palavras da minha irmã podem ser impróprias fora de casa, porém, o pensamento dela coincide com o meu – intercede Júnior. A igreja católica criou o Vaticano, Estado muito rico. As basílicas que visitei são monumentos de arte e riqueza. Os serviços religiosos são prestados a troco de dinheiro. Atribuindo valor sacramental ao dízimo, as igrejas católicas e protestantes arrancam dinheiro dos fiéis. A arrecadação vai para os cofres clericais. Pouco reverte em benefício dos pobres. O dinheiro é aplicado em bolsas de valores, em títulos do tesouro estatal, em bancos e na aquisição de imóveis, obras de arte, emissoras de rádio e televisão, veículos terrestres, aéreos, fluviais, formando valioso patrimônio usufruído pelo clero católico e protestante. Essa riqueza e a concorrência entre as igrejas para aumentar o número de contribuintes e a respectiva arrecadação contrariam o exemplo de vida mística e modesta dado por Jesus. A fé tornou-se fonte de renda; a religião, mercado.

- A pobreza é doença social crônica – Isolda expõe o seu ponto de vista aproveitando o apoio do irmão. Ao invés de curar essa doença que assola a humanidade desde os primórdios da civilização, Jesus apenas consolou os pobres com promessas paradisíacas para depois da morte. As instituições políticas e religiosas não se interessam pela cura dessa doença, embora aparentem o contrário. Os pobres prestam os serviços primários na sociedade. Sem os pobres não haveria pirâmides, nem demagogos. Sem os pobres, os remediados e os ricos não sobem ao reino celestial. Falta a quem fazer caridade. Os pobres são necessários para justificar a riqueza das instituições beneficentes civis e religiosas.

- Realmente – Leopoldo encaminha o consenso – ao dignificar a pobreza com a promessa do reino divino, Jesus admitiu sua impotência para curar essa doença social aqui na Terra. A cura cabe a Cezar, ou seja, ao governo do Estado, com a colaboração dos segmentos civil e religioso da sociedade. Os indivíduos praticam assistência social quando pagam tributos, depositam moedas nas súplices mãos dos mendigos, prestam serviço voluntário e ajudam financeiramente instituições beneficentes. No entanto, os pobres continuam pobres.

- A missão de Jesus não era a de acabar com a pobreza, tarefa que cabe ao Estado e à Sociedade – defende Dorotéia. A missão de Jesus era a de consolar e valorizar os pobres aos lhes dar esperança de uma vida melhor no reino celestial; incentivar a fraternidade resultante da paternidade divina; inspirar paz e amor à humanidade; profetizar o juízo final. O evangelho não tinha os pobres como destinatários exclusivos, embora fossem a maior clientela de Jesus. Incluía todos que cumprissem os mandamentos: ricos, remediados e pobres. As portas do reino divino abrem-se aos humildes, postura espiritual que não é apanágio dos pobres. Há pobres orgulhosos e de mau caráter. Há ricos humildes e de bom caráter. O reino celestial é franqueado aos humildes de coração e de pensamento, independente das posses terrenas. Realista, conhecendo a natureza humana, Jesus sabia que ricos dificilmente teriam acesso ao reino celestial. A experiência mostra que é mais fácil encontrar moeda de um centavo na areia da praia, do que encontrar um rico humilde.