sexta-feira, 15 de abril de 2011

RELIGIÃO

NOVO TESTAMENTO – VI.

O evangelho.

O vocábulo grego evangelho significa boa nova. Esse vocábulo é utilizado em diferentes acepções: (i) a novidade em si mesma (ii) o livro que a contém (iii) todo o NT. Na bíblia, a boa nova se refere à chegada do messias e à mensagem de salvação, amor e paz. No sentido de livro (rolo de pergaminho ou de papiro em que se escrevia) há vários evangelhos, ou seja, narrativas de diferentes autores sobre o mesmo assunto. O clero organizou o NT como unidade teológica e selecionou, além de outros textos, quatro narrativas para integrá-lo: de Mateus, Marcos, Lucas e João. Foram desprezadas narrativas como as de Tiago, Felipe, Judas Tadeu, Tomé e Maria Madalena. No que tange ao conteúdo, o evangelho consiste nos ensinamentos oralmente transmitidos por Jesus aos galileus, samaritanos e judeus nos anos 29 a 33, na Palestina. A partir dos anos 50, os ensinamentos passaram à forma escrita, mediante cartas e rolos (livros) de autoria dos apóstolos. Distintas culturas da Idade Antiga mencionam a vinda de messias. A novidade estava na chegada real de um deles no seio da sociedade hebraica. Jesus foi reconhecido como enviado de Deus apenas pela minoria do povo palestino (galileus + samaritanos + judeus). Da maioria, Jesus recebeu escárnio, incredulidade, agressões, tentativas de morte, acusações de blasfêmia e subversão, que acabaram por levá-lo à prisão e à crucifixão. Além desses acontecimentos, as narrativas incluem milagres, circulação pelo território palestino e os embates com a nobreza judaica.

A narrativa de Mateus.

Este livro foi redigido em aramaico e traduzido para o grego. O nome original do autor era Levi, coletor de impostos. O livro começa com a genealogia a partir de Abraão, passando por Davi até chegar a José, pai adotivo de Jesus: 14 gerações. Narra o nascimento de Jesus, cuja mãe era casada com o carpinteiro José. Antes de o casal transar sexualmente ela ficou grávida; concebeu do espírito santo. Um anjo apareceu ao inconformado José e o convenceu a manter o casamento. José e Maria não se relacionaram sexualmente até a criança nascer em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes Magno. O menino recebeu a visita dos magos (não diz quantos nem os nomes) em casa (não diz estrebaria nem manjedoura): Entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe; prostrando-se diante dele, o adoraram; depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe como presentes: ouro, incenso e mirra (Mateus 2: 11). O Anjo do Senhor apareceu em sonho a José e o instruiu a fugir para o Egito porque Herodes ia procurar e matar o menino, tendo em vista o anúncio do nascimento do rei dos judeus. Para não ver a sua dinastia ameaçada, Herodes mandou matar, em Belém e arredores, todas as crianças com menos de 2 anos de idade. Após a morte de Herodes, José retorna à Palestina, vai para a Galiléia e escolhe a cidade de Nazaré para morar e assim se cumprisse o que foi dito pelos profetas: será chamado Nazareno.

De acordo com a narrativa, José era da linhagem de Davi; casou com Maria, mas não a tocou; portanto, não era o pai biológico de Jesus; logo, Jesus não pertencia à linhagem de Davi. Estranha-se a falta de registro histórico do morticínio de crianças em Belém. Ademais, esta cidade localizava-se na Judéia, jurisdição do tetrarca romano que o tetrarca da Galiléia (Herodes) ou qualquer outro, não ousava desrespeitar. Invadir território sob jurisdição romana para matar crianças ou qualquer pessoa, equivalia desafiar a lei e o poder de Roma; as autoridades judias estavam proibidas de decretar a morte de pessoas. Lucas, no seu evangelho, conta o nascimento de Jesus de modo diferente: menciona a manjedoura, os visitantes não eram magos e sim pastores que se encontravam na vizinhança. Lucas, Marcos e João não mencionam em seus respectivos evangelhos fuga de José e Maria para o Egito. Marcos e João nada falam sobre o nascimento de Jesus. Há dúvida sobre a existência de uma cidade ou aldeia com o nome de Nazaré no território palestino, no tempo dos pais de Jesus. Nazareno não significa naturalidade. Independente da cidade natal, o homem consagrado a Deus recebia a alcunha de nazareno. Lucas cita a lei mosaica (2: 23): Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor. Essa lei consta do AT (Êxodo 13:2) com redação diferente: Consagra-me todo primogênito; todo que abre a madre de sua mãe entre os filhos de Israel, assim de homens como de animais, é meu (bíblia da editora da Sociedade Bíblica do Brasil, RJ, s/d). Consagra-me todos os primogênitos, que abrem o útero de sua mãe entre os filhos de Israel, assim de homens como de animais, porque todos eles são meus (bíblia da editora Barsa, RJ, 1967). Consagrar-me-ás todo primogênito entre os israelitas, tanto homem como animal, ele é meu (bíblia da editora Ave Maria, SP, 1987).

Mateus refere-se: (i) à pregação de João Batista, precursor de Jesus e arauto do reino dos céus (ii) ao batismo de Jesus por João Batista (iii) à experiência extática de Jesus no deserto depois de jejuar 40 dias e 40 noites. Com a prisão de João Batista, inicia-se a pregação e o trabalho terapêutico de Jesus na Galiléia, onde recrutou os seus apóstolos. Para lá convergiam pessoas de outras localidades. Diante do povaréu, Jesus profere o sermão que contém sua doutrina.

Bem-aventurados: os que têm um coração de pobre, porque deles é o reino dos céus; os mansos, os que choram, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os limpos de coração, os pacíficos, os que padecem perseguição por amor da justiça; sois o sal da terra e a luz do mundo. Jesus se pronuncia sobre os mandamentos e os amolda à sua doutrina: Não vim para abolir a lei, mas para aperfeiçoá-la. (Lei = Pentateuco = cinco primeiros livros do AT). Recomenda servir ao próximo em silêncio e não agir como hipócrita, sob pena de perder a recompensa divina: Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens para serdes vistos por eles. Ensina a orar: pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu, o pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai-nos as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Aconselha: não ajunteis para vós tesouros na terra, a cada dia basta o seu cuidado, olhai como crescem os lírios do campo, não trabalham nem fiam, entretanto vos digo que o próprio Salomão no auge da sua glória não se vestiu como um deles; buscai em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo; não julgueis e não sereis julgados; não atireis aos porcos as vossas pérolas; tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles; entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição; guardai-vos dos falsos profetas, pelos seus frutos os conhecereis. Jesus conclui o discurso advertindo que não basta ouvir as palavras dele; há necessidade de colocá-las em prática.

Ficar no deserto por 40 dias e 40 noites era uma provação que santificava. Jejuar todo esse tempo sem morrer de fome, de sede ou sem ser atacado por animal faminto, parece impossível sob critério natural. Certamente, trata-se de número esotérico (40 = tempo indeterminado). A localização da montanha onde Jesus proferiu o sermão é desconhecida; talvez, ao Norte da Galiléia, alguma elevação montanhosa próxima a Cafarnaum, ou ao Sul da Galiléia, no Monte Tabor, posto que, o sermão antecedeu o ministério na Judéia.

A igreja católica adotava a oração “Pai Nosso” como está acima (e na bíblia protestante), porém, na segunda metade do século XX, visto que ninguém estava disposto a abrir mão dos seus créditos junto aos devedores, mesclou-a com o “Pai Nosso” mais breve de Lucas, na passagem que fala das dívidas: perdoai-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos aqueles que nos ofenderam (Lucas 11: 4). João e Marcos não mencionam essa oração.

Seguem: (i) a narrativa de diversas atividades de Jesus, como o episódio da barca em que ele acalma a tempestade pelo vigor da sua voz (ii) a discussão com fariseus e com discípulos de João Batista que praticavam o jejum e por isso censuravam Jesus por compartilhar a mesa de publicanos e pecadores (iii) as instruções e outorga de poderes aos 12 apóstolos (iv) as discussões com escribas (v) as parábolas (vi) a mensagem e a morte de João Batista (vii) a multiplicação dos pães (viii) a transfiguração na presença de três apóstolos (ix) os anúncios da paixão (x) a formação de igrejas: onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.

Mateus narra o ministério de Jesus na Judéia: a entrada em Jerusalém no lombo de um jumento; a expulsão dos mercadores do templo; o tributo a César; as discussões com escribas e fariseus; o resumo da lei nos dois maiores mandamentos: amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda tua alma e de todo teu espírito; amarás teu próximo como a ti mesmo; a profecia sobre a destruição de Jerusalém e o juízo final. Na sexta parte do livro, Mateus relata: (i) a conspiração dos sacerdotes (ii) o episódio em que sob os protestos dos discípulos, certa mulher (sem identificação) derrama perfume caro na cabeça de Jesus (outro apóstolo diz que foi nos pés e a mulher era irmã de Lázaro) (iii) a traição de Judas (iv) a última ceia (v) a angústia no Getsêmani (vi) a prisão e os julgamentos sucessivos perante o Sinédrio, Herodes e Pilatos (vii) o suicídio de Judas Iscariotes (viii) a ajuda prestada a Jesus por Simão de Cirene para carregar a cruz (ix) a crucifixão, sepultura e ressurreição (x) a aparição de Jesus a Maria Madalena e aos apóstolos (xi) a outorga aos apóstolos da missão de ensinar a doutrina a todas as nações e batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

terça-feira, 12 de abril de 2011

RELIGIÃO

NOVO TESTAMENTO – V.

Paulo escreve à igreja de Corinto, por volta do ano 65, solicitando que os crentes acabem com os abusos e as disputas internas. Diz que foi enviado por Cristo, não para batizar e sim para pregar o evangelho (menosprezo a João Batista); para os crentes, Cristo se tornou sabedoria, justiça, santificação e redenção; Cristo é o único fundamento do edifício de Deus; cada um receberá o louvor que merece de Deus quando o tempo chegar. Paulo conjura os crentes a imitá-lo; refuta os que o denigrem; recrimina a igreja de Corinto pela luxúria. Os crentes devem submeter suas desavenças à irmandade, sem recorrer aos tribunais infiéis. Quem se ajunta a uma prostituta torna-se um só corpo com ela; o corpo do crente é o templo do espírito santo; o corpo da mulher pertence ao marido e o do marido à esposa. Os solteiros e as viúvas, se não puderem se conter, devem casar, pois melhor casar do que se abrasar. Cada um permaneça como estava quando Deus o chamou: circunciso ou incircunciso, solteiro, casado ou viúvo. O celibato convém a quem se dedica ao Senhor. Por seu trabalho espiritual, os missionários têm direito a colher bens materiais dos crentes.

Outras prescrições: (i) os crentes não devem comer alimento oriundo do sacrifício a ídolos (ii) as mulheres devem orar com a cabeça coberta e os homens com a cabeça descoberta (iii) nas assembléias, os irmãos devem se comportar bem, um esperando o outro, e as mulheres devem permanecer caladas e submissas (iv) na ceia, todos devem comer com moderação, pois quem tiver fome, coma em casa (v) diversos são os dons, mas o espírito é um só; preferir o dom da profecia ao dom das línguas (vi) quem não acredita na ressurreição de Cristo está em pecado. Jesus morreu por nossos pecados, foi sepultado, ressurgiu no terceiro dia, apareceu sucessivamente a Pedro, aos doze apóstolos, a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, a Tiago, novamente aos apóstolos e por último, a ele, Paulo, como a um abortivo que, por ser o menor dos apóstolos, não se considera digno de ser chamado de apóstolo, pois perseguiu a igreja de Deus (modéstia desmentida por suas próprias epístolas; ademais, Jesus nunca apareceu a Paulo; Madalena, a quem Jesus aparecera por primeiro, não foi mencionada por Paulo, cuja aversão às mulheres é epidérmica). Carne e sangue não participam do reino de Deus, diz ele, dissipando a lenda sobre a ascensão em carne e sangue de Enoc, Moisés, Elias e Jesus. Diz mais: quando soar a trombeta, os mortos ressuscitarão incorruptíveis e os vivos serão transformados. Ele instrui os coríntios sobre a coleta em benefício dos santos (ajuda à igreja de Jerusalém); promete visitá-los depois de passar pela Macedônia; solicita bom tratamento e consideração a Timóteo, à família de Estéfanas e a outros discípulos.

Na segunda missiva aos coríntios, Paulo segue no mesmo diapasão. Fala do consolo dos angustiados, da tribulação que sofreu na Ásia, da sua sinceridade pessoal; defende-se da acusação de ser leviano, alude à dificuldade que encontra no seu ministério e à confiança na morada espiritual. Pede aos crentes que se reconciliem com Deus, pois não pode haver acordo entre a luz e as trevas. Faz referência à carta anterior que causou sofrimento aos crentes pelas reprimendas. Mostra-se grato pela coleta em favor da igreja de Jerusalém. Exorta os crentes à mansidão, à bondade e ao respeito à sua autoridade, da qual confessa se orgulhar. Justifica o seu sustento pessoal pelas igrejas. Esclarece que não é louco. Apelou a Deus para que o apartasse de Satanás e obteve a seguinte resposta: Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que se revela toda a minha força. (Esta é mais uma passagem em que Paulo tenta se nivelar a Jesus e impressionar os crentes, porque Jesus também fora tentado por Satanás). Fala de um homem que há 14 anos atrás (por volta do ano 50) foi arrebatado ao paraíso – com ou sem o corpo, não sabe dizer – e lá ouviu palavras inefáveis que não é permitido a um homem repetir. Paulo deixa subentendido, em subliminal falsa modéstia, que esse homem é ele próprio. O objetivo é sempre o mesmo: nivelar-se a Jesus, que também fora arrebatado, para impressionar e convencer os crentes. Diz que foi insensato ao elogiar a si próprio; que às igrejas cabia elogiá-lo, porque ele em nada era inferior aos apóstolos (pedir para ser elogiado ou elogiar a si próprio é expediente solerte e de mau tom). Avisa que visitará a igreja de Corinto, ouvirá testemunhas e desta vez não haverá perdão pelas faltas apuradas; que os crentes não devem exigir, como vêm exigindo, prova de que é Cristo que fala por ele (o que indica a desconfiança dos crentes em relação a Paulo e sua apregoada autoridade).

Por volta dos anos 60/62, quando estava preso, Paulo escreve para os efésios, filipenses, colossenses e a Filêmon. Aos efésios, ele repete a ladainha da salvação por Jesus Cristo, da união de circuncidados e incircuncisos na comunidade cristã, das virtudes dos crentes, da saída das trevas para a luz, dos deveres dos servos, dos patrões, da família (submissão da mulher ao marido, honrar pai e mãe). Recomenda que os crentes revistam-se da armadura de Deus para resistir às ciladas do demônio. Informa que está enviando Tiquico, ministro do Senhor, para levar notícias e confortar o coração dos fiéis. À igreja de Filipos, Paulo fala das suas orações em favor da igreja, tal qual nas epístolas anteriores, em que faz referência aos seus padecimentos por amor a Cristo, na visível intenção de comover os crentes. Pede união e perseverança. Repete isto a todas as igrejas, o que indica laços frouxos entre os fiéis. Fala de si mesmo, da sua vida farisaica e da sua vida cristã e pede aos crentes que o imitem (pedido que já fizera alhures e continuaria a fazer, como se imitado devesse ser ele e não Jesus). Agradece a ajuda que recebe da igreja. Na epístola à igreja de Colossos, Paulo faz as saudações e os agradecimentos de praxe em nome de Jesus Cristo. Consola os crentes pelas tribulações sofridas, contando os seus próprios padecimentos por anunciar o evangelho. Paulo glorifica a si próprio ao falar da missão evangélica. A essa igreja, a mesma advertência que faz às outras: cautela contra as falsas doutrinas, os falsos profetas, o falso ascetismo; fala do sacrifício de Jesus pelos pecadores. Paulo repete as recomendações e pede que esta e as outras epístolas circulem pelas igrejas. A Filêmon, cristão rico, Paulo escreve pedindo que recebesse e perdoasse o escravo fugitivo de nome Onésimo, que ele convertera à fé cristã; que Onésimo fosse recebido não mais como escravo e sim como irmão de fé. Diz que podia usar da sua autoridade em Cristo para prescrever o que era da obrigação de Filêmon, porém, prefere apenas fazer um apelo à sua caridade. Compromete-se a pagar qualquer prejuízo que Onésimo tenha causado. Paulo solicita pouso na casa de Filêmon, pois espera sair da prisão em breve.

Ao escrever a Timóteo, a Tito e aos hebreus, Paulo já estava fora da prisão. Timóteo e Tito foram colocados à frente das igrejas de Éfeso e Creta, como bispos. Paulo alinha vários conselhos e regras de conduta aos homens, mulheres, anciãos, viúvas, escravos, diáconos e bispos. Expõe a hierarquia eclesiástica e a organização da igreja. Qualifica o episcopado de função sublime. O bispo deve ser irrepreensível, prudente, sóbrio, hospitaleiro, regrado no seu proceder, capaz de ensinar, casado uma só vez, governar bem a sua casa, educar os seus filhos na obediência e na castidade. Os bispos devem perseverar na sua missão, apesar das dificuldades do ministério, e não se enredar em controvérsias. O diácono também há de ser virtuoso. Orienta o ministério dos bispos, a especial atenção que devem dar aos idosos e às viúvas. Paulo dita normas aplicáveis aos presbíteros: merecem dupla remuneração quando dedicados à pregação e ao ensino; são necessárias duas testemunhas, no mínimo, para ser recebida acusação contra eles; ao faltarem às suas obrigações, devem ser repreendidos diante de todos, para que os demais se atemorizem; cautela ao impor as mãos, para não se tornarem cúmplices dos pecados alheios. Coloca o amor ao dinheiro na raiz de todos os males. Recomenda que a piedade seja distribuída sem qualquer interesse pecuniário. O homem de Deus combate o bom combate da fé. Exorta os ricos a abdicarem do orgulho e a não depositarem na riqueza as suas esperanças; que pratiquem o bem e façam boas obras; que sejam generosos e comunicativos. Paulo informa que só Lucas está com ele e pede a Timóteo que traga Marcos para auxiliá-lo e os pertences que deixou em Éfeso. Reclama que foi maltratado pelo ferreiro Alexandre, opositor ferrenho do trabalho apostólico; diz que ficou desamparado. Pede a Tito preparar a viagem do jurista Zenas e do discípulo Apolo e recomenda que nada lhes falte. (Paulo não dispensou a assistência de advogado, apesar da sua formação jurídica). Informa que está em Nicópolis, onde pretende passar o inverno.

No que tange à epístola aos hebreus, o propósito era o de consolar os convertidos que se afastaram do templo e das sinagogas. A carta expõe a magnificência de Jesus, a sua condição de filho de Deus, fato que o sobrepõe aos anjos, aos profetas e aos sacerdotes. (Paulo diviniza Jesus, no que foi imitado por alguns apóstolos, inclusive João). Censura aqueles que saíram do Egito, conduzidos por Moisés, por se revoltarem contra a pregação de Jesus (certamente, a censura era dirigida aos descendentes dos hebreus do êxodo). Lembra que Jesus esteve indignado com os judeus durante 40 anos (ou Jesus tinha mais de 33 anos quando foi crucificado, ou Paulo errou na conta, ou o número 40 é esotérico = “por muito tempo”). O sacrifício de Jesus esvaziou de importância os sacrifícios do culto hebraico. Na opinião de Paulo, os personagens do AT não obtiveram o cumprimento de todas as promessas feitas pela divindade, enquanto que os do NT vê-las-ão todas cumpridas. Pede que os crentes se cuidem para não ser excluídos da companhia de Deus, como foram os judeus.

Na carta, Paulo solicita atenção à mensagem trazida por Jesus, pontífice eterno segundo a ordem de Melquisedec (e não segundo a ordem hebraica de Aarão). Rei de Salém (Rei da Paz, significado do seu título), Melquisedec também era o Rei da Justiça (significado do seu nome). A esse rei estrangeiro, sem genealogia, sem pai, sem mãe, cuja vida não tem começo nem fim, Abraão foi prestar tributo de vassalagem, pagar o dízimo e pedir as bênçãos. Argumento de Paulo: se a perfeição tivesse sido realizada pelo sacerdócio levítico (porque é sobre este que se funda a legislação dada ao povo) que necessidade havia ainda de que surgisse outro sacerdote segundo a ordem de Melquisedec e não segundo a ordem de Aarão? Pois, transferido o sacerdócio, forçoso é que se faça também a mudança da lei. Segundo Paulo, a antiga lei está revogada por sua ineficácia e inutilidade; a igreja cristã tem um Sumo Sacerdote (Cristo) que está sentado à direita da majestade divina, cujo tabernáculo está localizado no próprio céu e não foi construído por mãos humanas; Cristo é o mediador do NT e a sua morte expiou os pecados cometidos na vigência do AT. Paulo exorta os crentes à fidelidade, à perseverança, à assistência mútua. Aos apóstatas está reservado o fogo ardente. O fundamento da esperança é a fé, certeza a respeito do que não se vê; o mundo formou-se pela palavra de Deus; as coisas visíveis se originaram do invisível. Pela fé, Enoc foi arrebatado sem ter conhecido a morte. Os que claudicam, tornem ao bom caminho e não se desviem. Paulo repete as virtudes e as recomendações (hospitalidade, benemerência, liberalidade, obediência, fidelidade conjugal, viver sem avareza, fortificar a alma pela graça). Informa que Timóteo saiu da prisão. Roga a todos que, de boa mente, recebam as exortações.

domingo, 10 de abril de 2011

RELIGIÃO

NOVO TESTAMENTO – IV.

Paulo superou os apóstolos em número de cartas e de viagens. O intuito de Paulo era evidente: deixar por escrito as regras de organização da igreja e, ao mesmo tempo, afirmar a sua autoridade e independência em relação ao colégio de apóstolos. Das suas epístolas constata-se que Paulo outorgou a si próprio o título de apóstolo de Cristo. Afirma, falsamente, ter recebido o título diretamente de Jesus (matéria de artigo neste blog). Após a crucificação de Jesus, competia ao colégio apostólico a escolha dos novos apóstolos mediante escrutínio. Paulo não se submeteu. Na carta aos gálatas, gaba-se da sua independência em relação aos apóstolos e da sua própria autoridade outorgada por Deus e Jesus Cristo. Na Palestina, os cristãos eram vistos como um bando de vagabundos, anarquistas de uma nova seita. Intelectual, doutor na lei, fariseu, Paulo certamente achou um despropósito submeter o seu nome a um grupo com aquela fama e que ele aterrorizara tempos atrás.

Embora deficientes em cultura geral, os apóstolos receberam lições de Jesus durante três anos; adquiriram cultura religiosa, além da sabedoria advinda tanto da experiência comum como da experiência extática. Analfabetos, sim (condição geral dos palestinos); ignorantes, não. Entre os discípulos, Jesus escolheu 12 para o círculo interno da escola e os investiu de autoridade. A eles cabia escolher os novos apóstolos e discípulos na ausência definitiva de Jesus.

Paulo conta que viajou para a Arábia depois de ter visto Jesus, e que ficou no deserto por 40 dias. Não há prova dessa quarentena. Paulo tenta se nivelar a Jesus para impressionar o seu público (Jesus permanecera por 40 dias e 40 noites no deserto). Decorridos três anos, ele vai a Damasco anunciar o evangelho. Ameaçado de morte pelos judeus daquela cidade, foge para Jerusalém, onde conhece Pedro e Tiago, que lhe apertaram a mão e concordaram em dividir as tarefas: Paulo anunciaria o evangelho aos povos da Ásia (acabou incluindo cidades da Europa). Ele volta para Tarso, sua cidade natal, onde permanece por três anos. A seguir, convidado por Barnabé, muda-se para a igreja de Antioquia e de lá empreende viagens missionárias (como narrado no livro “Atos dos Apóstolos”) sempre em companhia de um apóstolo (Barnabé) ou discípulo (Marcos, Silvano, Timóteo, Lucas). Na segunda viagem, quando se encontrava em Corinto, escreve as duas primeiras epístolas à igreja da Tessalônica. Na terceira viagem, quando estava em Éfeso, escreve às igrejas da Galácia (uma epístola), de Roma (uma) e de Corinto (duas). Viaja então a Jerusalém, onde é detido por oficial romano como garantia de vida, pois os judeus tentaram matá-lo no templo. Ele conta que, escoltado por soldados romanos, foi enviado a Cesaréia e de lá removido para Roma por ter apelado ao imperador, onde ficou preso por dois anos. Durante esse período, escreve cartas aos efésios, colossenses, filipenses e a Filêmon. Obtida a liberdade, escreve duas epístolas a Timóteo (bispo de Éfeso), uma para Tito (bispo de Creta) e outra para os hebreus (propriamente aos judeus, pois não há notícia dos israelitas).

Das epístolas, depreende-se que Paulo estava ressentido pelo fato de não pertencer ao colégio apostólico organizado por Jesus. Ele desertara da corporação policial da Judéia e abandonara a missão, que lhe fora confiada pelo Sinédrio, de buscar e prender cristãos. Se voltasse a Jerusalém, seria preso como desertor e traidor. Portanto, deixou passar alguns anos para voltar. Se Paulo apostou no esquecimento, enganou-se. Foi chamado à responsabilidade pelos judeus. Ele apelou ao imperador. Após obter liberdade em Roma, Paulo visita as igrejas do Oriente. Ao retornar da viagem, foi preso e decapitado no dia em que Pedro foi crucificado. Os dois foram executados por ordem da autoridade romana. A lei romana reservava a crucifixão aos estrangeiros (Pedro) e a decapitação aos cidadãos romanos (Paulo). A prisão e a execução da pena de morte resultaram da perseguição aos cristãos iniciada após o incêndio da cidade de Roma (ano 64). Sobre os cristãos pesava a suspeita da autoria da ação incendiária, em virtude da fama de serem cidadãos desleais, perigosos, subversivos, pois não prestavam juramento nos pretórios romanos e se negavam a participar da religião cívica. Além disto, pregavam humildade e paz, censuravam os ricos e, segundo os seus acusadores, mantinham reuniões secretas.

Aos tessalônicos, por volta do ano 50, Paulo diz que o evangelho chegou aos crentes não só por palavras, mas, sobretudo, pelo espírito santo (coloca em segundo plano as palavras ditas por Jesus); elogia aqueles que abandonaram os ídolos; menciona as suas próprias dificuldades e sofrimentos por anunciar o evangelho; defende-se das acusações de usar linguagem bajuladora, de intuitos gananciosos e de exigir contribuição financeira dos crentes para a sua glorificação pessoal; dá graças pela compreensão recebida dos tessalônicos e por sofrerem as mesmas dores do que ele [(?) discurso bajulador]; lamenta que os judeus, não contentes em matar Jesus e os profetas, ainda perseguem os apóstolos e os impedem de falar aos gentios (= pagãos, estrangeiros); alegra-se com as boas notícias trazidas por Timóteo; dita prescrições morais, tais como: a mulher deve ser tomada por esposa, não pela lascívia e sim em santificação e honra; refere-se à morte como sono, do qual os fiéis serão despertados por Deus; vivos e mortos serão arrebatados entre nuvens ao encontro do Senhor nos ares; exorta os crentes à mútua consolação e a se manterem vigilantes, pois repentina será a vinda do Senhor; os crentes devem admoestar os insubmissos, consolar os desanimados, amparar os fracos, ser magnânimos com todos, sem retribuir o mal com o mal, dar graças por tudo, reter o que for bom em todas as coisas. Paulo formula votos para que Deus santifique a todos os crentes, que o espírito, a alma e o corpo (?) de cada um se mantenham íntegros ante a vinda de Jesus Cristo; fala da vingança de Deus, em chama de fogo contra quem desobedece ao evangelho; que Deus matará o iníquo com o sopro da sua boca. (Ele coloca no Pai Celestial de Jesus, a veia homicida, sinistra e cruel de Javé/Jeová, deus dos hebreus). Paulo pede obediência à sua epístola; que o pão seja pago por quem o come; todos trabalhem para não ser peso a ninguém: quem não trabalha, não come.

Na epístola aos gálatas, por volta do ano 56, após glorificar a si próprio, se dizendo apóstolo escolhido diretamente por Deus e por Jesus Cristo, Paulo alerta-os de que não existem dois evangelhos. Rebate os comentários de que a sua pregação era insuficiente à salvação e que a circuncisão era necessária. Ele se defende da acusação de oportunista porque mandara seu discípulo Timóteo circuncidar-se para agradar os judeus convertidos e depois se colocou contra a circuncisão para agradar os pagãos convertidos. Defende, ainda, a sua autoridade e a sua liderança ao afirmar que o seu evangelho vem de fonte divina e não humana. Rememora seu passado farisaico, sua conversão, sua independência em relação ao colégio apostólico e a qualquer apóstolo, as viagens missionárias por iniciativa própria, sem depender da autorização de ninguém. Põe-se no mesmo nível de Pedro em importância e autoridade: aquele que fez de Pedro o apóstolo dos circuncisos, fez também de mim o dos pagãos (falseou a verdade em benefício próprio). Informa que Pedro, Tiago e João, considerados as colunas do edifício cristão, deram a mão a ele e a Barnabé em sinal de acordo: aqueles três cuidariam dos circuncisos e estes dois cuidariam dos pagãos, especialmente dos pobres. Paulo gaba-se da censura que fez a Pedro durante a assembléia (episódio comentado em artigo publicado neste blog). Sem modéstia alguma, afirma sua unidade com Jesus (Cristo vive em mim); censura aqueles que retornaram ao paganismo: só quem tem fé pode ser filho de Abraão. Este é mais um trecho em que Paulo manifesta o seu judaísmo e, ainda, acrescenta: a lei que veio 430 anos depois (mensagem de Jesus) não pode anular o testamento feito por deus e a promessa feita a Abraão e à sua descendência (mensagem de Moisés). (O cristão autêntico certamente prefere ser filho do Pai Celestial de Jesus, do que ser descendente de um proxeneta).

Paulo reclama da perda de entusiasmo dos gálatas para com a pessoa dele e se declara enviado de Deus. Sem amparo na realidade, mas tão só para fins de convencimento dos crentes, Paulo diz que Ismael, filho da natureza (= da mãe escrava egípcia) perseguia Isaac, filho da liberdade (= da mãe judia) e que ele e os crentes são filhos da liberdade. Este sofisma ampara os judeus (= Isaac) que se dizem vítimas dos árabes (= Ismael). Segundo a opinião de Paulo, liberdade não significa entregar-se às obras da carne: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, superstição, inimizades, briga, ciúme, discórdia, ódio, ambição, inveja, bebedeira, orgia. A obra do espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança. O crente não deve ser ávido de vangloria; no seio da comunidade não há lugar para provocações e inveja; quem for surpreendido em falta deve ser admoestado com mansidão; todos devem se cuidar para não cair em tentação; ajudar um ao outro, porém, cada um carrega o seu próprio fardo; quem recebe a catequese deve repartir todos os seus bens com aquele que o instrui (o que se mostrou de grande valia ao tesouro do clero); o que o homem semeia isso mesmo colherá. Ao encerrar a missiva, Paulo diz que a escreveu de próprio punho e torna a condenar a circuncisão.

Por volta do ano 57, Paulo escreve à igreja de Roma (anciãos + bispos + presbíteros + diáconos + crentes). O intróito é o mesmo das epístolas anteriores. Embora a Ásia fosse a sua jurisdição, Paulo visitava cidades européias por serem pagãs. Percebe-se nele, o desejo de dividir com Pedro a proeza de catequizar os habitantes da capital do Império Romano. Essa ambição custou-lhe a vida. À igreja de Roma ele diz que o evangelho é uma força vinda de Deus para salvar os crentes; que Deus se manifesta do céu contra a impiedade e a perversidade dos homens que, pela injustiça, aprisionam a verdade. Paulo dá conselhos e dita preceitos éticos; critica a depravação de homens e mulheres e cita os vícios; as bênçãos cabem aos judeus em primeiro lugar e depois aos estrangeiros, embora não deva existir distinção entre as pessoas; justos são os que praticam a lei, pois não basta ouvi-la; censura quem ensina o bem e pratica o mal; a verdadeira circuncisão é a do coração, segundo o espírito da lei e não a letra; a incredulidade de Israel serviu para salvar os pagãos que receberam o evangelho; a injustiça humana realça a justiça divina; há um só Deus para judeus e pagãos. Paulo informa que levará o dinheiro coletado na Acaia e na Macedônia aos irmãos de Jerusalém que se acham na pobreza; depois, passará por Roma a caminho da Espanha. Finaliza dizendo que o Deus da paz não tardará a esmagar Satanás sob os pés dos crentes.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

RELIGIÃO

NOVO TESTAMENTO - III

Epístolas.

As cartas de autoria dos apóstolos são os primeiros documentos escritos sobre Jesus, sua doutrina e respectiva difusão. Os apóstolos utilizaram secretários para a redação, uns por serem analfabetos (como Pedro) e outros por comodidade (como Paulo). O conteúdo essencial dessas cartas é reproduzido nos evangelhos posteriormente escritos. Pedro, Tiago, Judas Tadeu e João, apóstolos da primeira hora, e Paulo, apóstolo da segunda hora, são os seus autores. Os apóstolos da primeira hora citam os ensinamentos e as recomendações que receberam diretamente de Jesus. Suas cartas são apelidadas de católicas (= universais) porque dirigidas às comunidades ou igrejas cristãs, salvo a segunda e a terceira de João, destinadas a determinadas pessoas. Entre as epístolas de Paulo umas são gerais e outras individuais. Há um padrão nas cartas devido à unidade de doutrina e ao propósito comum de fortalecer e expandir a comunidade cristã. De um modo geral, exortam o crente a: (i) perseverar na fé em Deus e em Jesus (ii) viver no amor e na luz de Deus; (iii) observar os mandamentos: amar a Deus sobre todas as coisas, amar ao próximo como a si mesmo e a se amarem reciprocamente; (iv) obedecer às autoridades; (v) comprometer-se com a verdade, com a justiça, com a bondade; (vi) praticar caridade; (vii) acautelar-se contra falsos profetas, homens ímpios que se introduzem nas comunidades cristãs e espalham a maldade; (viii) afastar-se dos prazeres carnais, da cobiça, da corrupção, da concupiscência.

Quanto ao prometido retorno de Jesus, os missivistas pedem paciência e que os crentes mantenham a esperança, pois esse dia chegará. Os crentes não devem prestar juramento; devem rezar quando estiverem tristes e cantar quando estiverem alegres; confessar seus pecados entre si; curar os enfermos pela unção com óleo e oração fervorosa; orar uns pelos outros. Os apóstolos enaltecem o reino espiritual e abjuram o mundo terreno, a riqueza material e a soberba dos ricos; qualificam o mundo terreno de reino do demônio; falam da alegria de receber notícias sobre a fé e a dedicação dos crentes à causa de Jesus Cristo.

A primeira epístola de Pedro é destinada às igrejas da Ásia (anciãos + presbíteros + crentes). Fala em misericórdia e ressurreição de Jesus. Exorta os fiéis à santidade, ao amor fraterno e sincero. Alerta-os para não se contaminarem com a inveja, maledicência, astúcia, fingimento. Usa a imagem do edifício espiritual: Jesus é a pedra angular e os crentes, o material, a comunidade eleita. Cita os deveres: (1) servir a Deus; (2) seguir o exemplo de Jesus; (3) obedecer às autoridades; (4) cumprir as obrigações com a família e com os patrões; (5) repudiar a luxúria, bebedeira, orgia, idolatria; (6) praticar a hospitalidade; (7) vigiar, orar, aplicar os dons em benefício alheio; (8) exercer o ministério com força divina.

Na segunda epístola, Pedro menciona a dificuldade de entender as cartas de Paulo. Há implícita censura nesta observação, fruto da desconfiança dos apóstolos da primeira hora quanto às reais intenções de Paulo, que parecia querer imprimir rumo à igreja cristã ao seu talante (o que de fato aconteceu). Pedro exorta os crentes a se unirem na fé, a vincular a fé à virtude, a virtude à ciência, a ciência à temperança, a temperança à paciência, a paciência à piedade, a piedade ao amor fraterno, o amor fraterno à caridade. Segundo Pedro, tal proceder abre as portas do reino de Cristo. Ele pede aos crentes que perseverem nesse proceder e dá o seu testemunho pessoal da majestade de Jesus. Na opinião dele, toda profecia da escritura deriva do espírito santo, não da vontade humana, e por isso, não comporta interpretação pessoal. Pedro qualifica os falsos profetas de imundos, cobiçosos, corruptos, libertinos, pervertidos, fontes sem água, filhos do Maligno. Compara aqueles que estiveram no caminho de Cristo e retornaram ao paganismo a uma porca lavada que volta ao lamaçal; um cão que volta ao seu vômito: tal é o louco que reitera suas loucuras (Provérbios, 26: 11).

Tiago, irmão de Jesus, presidiu ao primeiro concílio da igreja primitiva no ano 49. Bispo em Jerusalém, ele escreve para as 12 tribos da dispersão. Trata-se de homenagem retroativa ao povo hebreu expulso da Palestina nos séculos VI e V a.C. Tiago pretendia angariar a simpatia dos descendentes dos judeus que retornaram do exílio babilônico. Na sua epístola, com algumas expressões sem nexo e outras confusas (aliás, deficiência que se nota também nas outras epístolas e nos evangelhos) Tiago se dirige, na verdade, aos seus contemporâneos. Adverte-os das provações pelas quais passarão (ele próprio as vivenciou e foi morto por ordem de Herodes). Aconselha-os a ter paciência, fortaleza na fé e a suplicarem sabedoria a Deus, sem vacilar. Adota o discurso a favor da pobreza e contra a riqueza, típico da mensagem de Jesus (doutrina dos essênios).

Tiago ensina o caminho para ser feliz: meditar sobre a lei perfeita da liberdade. Censura os excessos da linguagem: quem não refreia a sua língua e engana o seu coração não pode ser piedoso. Diz que a língua inflamada pelo inferno incendeia o curso da nossa vida; que a língua é um mal irrequieto cheio de veneno mortífero; com ela abençoamos e amaldiçoamos; o gosto pelas contendas recheadas de mentiras é sabedoria terrena, humana, diabólica. Onde há ciúme e contenda há perturbação, diz ele. A religião pura e sem mácula inclui visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições e purificar-se da corrupção do mundo. O bom tratamento dado aos ricos dar-se-á aos pobres, porque Deus escolheu os pobres deste mundo para que fossem ricos na fé e herdeiros do reino celestial. Fé sem obras é morta em si mesma. O fruto da justiça semeia-se na paz para aqueles que praticam a paz sem fingimento, sem parcialidade. Quem é amigo do mundo é inimigo de Deus.

Tiago cita Provérbios 3: 34: Se ele (o Senhor) escarnece dos zombadores, concede a graça aos humildes, porém, um pouco modificado: Deus resiste aos soberbos, mas dá sua graça aos humildes. Ao citarem de memória passagens do AT, os apóstolos às vezes se enganam. Ele diz mais: que os crentes devem se purificar; recrimina a maledicência e a falta de virtudes nos homens. Na opinião dele, quem pode fazer o bem e não o faz, comete pecado. Censura os ricos que fraudam os salários dos trabalhadores; acusa-os de haver matado o justo que nenhuma resistência oferecera. (Os membros do Sinédrio, tribunal que julgou e condenou Jesus, eram pessoas abastadas). Segundo Tiago, a oração do justo tem grande eficiência. O crente deve orar e obrar para o retorno ao bom caminho de quem dele se afastou.

Judas Tadeu, irmão de Jesus e de Tiago, escreve aos fiéis incentivando-os a pelejarem pela fé. Rememora episódios da história do povo hebreu: êxodo, Sodoma e Gomorra, discussão entre o arcanjo Miguel e o demônio pela posse do corpo de Moisés. (Tradição judaica não documentada refere-se à ascensão de Moisés de corpo e alma. Em torno disto houve a tal discussão. O arcanjo submeteu o caso a Deus. O demônio foi repreendido). O NT menciona ascensão celestial de Jesus, tal qual o AT menciona a de Elias, ecoando a disputa entre judeus e cristãos. Judas Tadeu pede aos crentes que se edifiquem mutuamente fundados na fé, que orem no espírito santo e se conservem no amor de Deus.

João, em sua primeira epístola, diz que pretende completar a alegria dos fiéis para que não pequem e para que eles permaneçam na verdade e na justiça. Diz que os pecados dos fiéis já foram perdoados em nome de Deus e que eles venceram o Maligno. Aconselha-os a não amar as coisas do mundo. Segundo João, Deus é luz e amor. Quem odeia o seu irmão está nas trevas. Quem anda nas trevas não está em comunhão com Deus. O sangue de Jesus purifica os nossos pecados. Negar que somos pecadores é nos enganarmos. Jesus Cristo expia os pecados do mundo (em conseqüência, o holocausto é abolido e se poupa a vida dos cordeiros). Quem nega Jesus é anticristo. Há anticristos que saíram da comunhão. Quem permanece na comunhão tem a unção do espírito santo. Somos filhos de Deus por causa do amor de Deus por nós. Pecar é transgredir a lei. Jesus Cristo é o filho de Deus que se manifestou para destruir as obras do demônio. João explica: os crentes devem amar uns aos outros, mas não com palavras e sim com atos e em verdade. João garante: ninguém jamais viu Deus (logo, a divindade vista por Moisés era subalterna); nós estamos em Deus e Deus está em nós pelo vínculo do amor; quem nasce de Deus vence o mundo que jaz sob o Maligno.

A segunda epístola de João é endereçada a uma senhora e seus filhos. O apóstolo se alegra ao saber que essas pessoas andam na verdade. Adverte-as sobre o anticristo. Roga que persistam na doutrina. A terceira epístola de João é endereçada a um indivíduo chamado Gaio. O apóstolo felicita Gaio por andar na verdade e pelas obras. Censura a conduta de Diótrefes, por não receber bem os irmãos na sua comunidade e espalhar coisas ruins. João mostra simpatia por uma pessoa de nome Demétrio, possivelmente, seu discípulo.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

RELIGIÃO

NOVO TESTAMENTO – II.

Atos dos apóstolos.

Lucas é o autor desta narrativa iniciada como se fora uma carta dirigida à pessoa de nome Teófilo a quem, antes, ele já havia endereçado o evangelho que escrevera. No evangelho, Lucas trata essa pessoa como excelentíssimo, tratamento este que se defere a alguém de elevada posição na sociedade, ou, por qualquer título, merecedor de alta consideração. Ainda no prefácio, Lucas diz que a primeira narração (evangelho) referia-se aos ensinamentos e às ações de Jesus e que esta segunda narração referia-se aos acontecimentos posteriores à ascensão de Jesus ao céu.

A narrativa se divide em duas partes. Na primeira, Lucas relata o comportamento dos apóstolos durante e depois da ascensão de Jesus. Em assembléia, os 11 apóstolos escolhem Matias para ser o 12º e ocupar o lugar de Judas Iscariotes no colégio apostólico. No dia de Pentecostes (50º dia depois da páscoa) o espírito santo desce sobre a assembléia formada de 120 pessoas. Nesse número incluíam-se homens e mulheres fiéis, discípulos e apóstolos. Os membros da assembléia passam a conversar em diferentes línguas. Pedro faz um discurso de autenticação: declara Jesus o Senhor e o Cristo. Pedro consegue as primeiras conversões dos judeus ao cristianismo. Prega a união dos fiéis em comunidade: um só coração, uma só alma, um só patrimônio. Apóstolos e discípulos eram considerados nazarenos, porque consagravam sua vida a Deus; eram vistos como nova seita religiosa. Os que eram proprietários de terras e casas vendiam-nas e entregavam o produto da venda ao colégio apostólico. Os bens eram repartidos entre os membros da comunidade, segundo a necessidade de cada um. A administração dos bens da comunidade foi confiada a diáconos eleitos entre os membros da assembléia (mais ampla do que o colégio apostólico).

Lucas narra: (1) os milagres dos apóstolos; (2) a prisão de Pedro e João por ensinarem em nome de Jesus; (3) a prisão e a morte do diácono Estevão sob acusação de blasfêmia contra a lei de Moisés e contra o lugar santo (templo); (4) a dispersão dos membros da comunidade cristã de Jerusalém pelas diferentes regiões da Palestina, a fim de escapar da perseguição dos judeus; (5) a conversão de Saulo de Tarso no caminho de Damasco e o seu batismo por Ananias; (6) as pregações de Saulo (Paulo) em Damasco e a sua fuga para a cidade de Tarso a fim de não ser morto pelos judeus de fala grega; (7) a participação de Paulo (Saulo) na assembléia de Jerusalém; (8) a visão de Pedro e a sua atividade como apóstolo. Lucas narra, ainda, o episódio na casa de Cornélio, em Cesaréia, quando Pedro expõe o conceito universal de Deus: que não faz distinção de pessoas, mas em toda nação lhe é agradável quem o temer e fizer o que é justo. Em Jerusalém, Pedro é censurado pelos fiéis circuncisos por comungar com pessoas incircuncisas. Pedro os convence de que fizera a vontade de Deus e que a mensagem de Jesus não se destinava apenas aos judeus, mas incluía os pagãos. Lucas ainda menciona: (1) a fundação da igreja na Antioquia pelo apóstolo Barnabé e a conversão de muitos pagãos; (2) a morte de Tiago; (3) a prisão de Pedro por ordem de Herodes Antipas, a milagrosa libertação por um anjo e a morte do rei.

A segunda parte da narrativa é dedicada à difusão dos ensinamentos cristãos fora da Palestina, pela Ásia Menor e Europa. Lucas relata: (1) as atividades missionárias de Barnabé e de Saulo, que passa a se chamar Paulo; (2) a controvérsia no concílio dos apóstolos em Jerusalém sobre os requisitos a serem preenchidos pelos novos adeptos, inclusive sobre o valor da circuncisão, quando ficou decidido que: (i) dos novos adeptos devia ser exigida apenas a abstenção de carnes sacrificadas aos ídolos, do sangue, da carne sufocada e da impureza (ii) a circuncisão não era obrigatória; (3) a delegação dada a Paulo, Barnabé, Judas e Silas, para que levassem a decisão do concílio às igrejas da Antioquia, Síria e Cilícia; (4) a discussão e a separação entre Paulo e Barnabé por causa de Marcos (Barnabé queria levar Marcos na viagem e Paulo se opunha – Barnabé seguiu para um lado e Paulo para outro); (5) o convite que Paulo faz a Timóteo, discípulo de ótima reputação junto à comunidade cristã de Listra e Icônio; (6) a prisão de Paulo e Silas, sob acusação de amotinarem a cidade; (7) o encontro de Paulo com os discípulos de João Batista em Éfeso (os discípulos fiéis a João Batista não se misturavam com os discípulos fiéis a Jesus); (8) as viagens posteriores à Macedônia, Grécia, Mileto, Tiro, Cesaréia e Jerusalém; (9) a prisão e o julgamento de Paulo nesta última cidade, sob acusação de blasfêmia contra o templo e a lei de Moisés; Paulo afirma ser judeu convertido ao cristianismo; o povo judeu não se convence e pede a morte de Paulo; o tribuno (autoridade pública) determina o recolhimento de Paulo com açoites; Paulo se declara romano de nascimento e cita a norma que vedava açoitar um romano; ele é libertado, mas o tribuno ordena o seu comparecimento perante o Grande Conselho judaico; no julgamento, Paulo se declara fariseu, filho de fariseus e que fora preso por causa da sua crença na ressurreição, o que dividiu o tribunal: de um lado, os juízes fariseus que acreditavam na ressurreição dos justos; de outro, os juízes saduceus que não acreditavam; os ânimos se exaltaram; a autoridade romana afasta Paulo e o recolhe na cidadela, sem uma sentença; (10) a manifesta intenção de um grupo de judeus de acabar com a vida de Paulo; por cautela, o tribuno o despacha para Cesaréia, onde ele foi entregue ao governador; (11) o julgamento em Cesaréia, sob acusação de pertencer à seita dos nazarenos, de ser uma peste que fomentava a discórdia entre os judeus no mundo inteiro; Paulo nega as acusações; o governador suspende o processo e mantém Paulo recluso, porém, permite a assistência de companheiros; (12) o novo julgamento, após o decurso de 2 anos, perante outro governador; Paulo invoca a cidadania romana e apela para César; o governador o despacha para Roma; (13) o acidente durante a viagem: o barco enfrenta forte tempestade e se desvia para a ilha de Malta, onde os navegantes foram bem recebidos; Paulo cura o pai do chefe da ilha, seu hospedeiro; (14) a partida de Malta, após 3 meses, a recepção de Paulo em Roma por membros da comunidade cristã; a licença para morar em casa própria, embora vigiado por um soldado; a prisão domiciliar que durou 2 anos. Neste ponto, termina a narrativa de Lucas.

Comentário. Os judeus convertidos eram poucos. A maioria dos judeus permaneceu fiel a Moisés, tanto os que residiam na Palestina, como os que viviam em cidades de outros países. Os judeus e pagãos convertidos ao cristianismo eram perseguidos pelos judeus e pagãos não convertidos. Paulo mostrou-se hábil argumentador e se valeu da sua cultura geral e jurídica. Invocava com pertinência tanto a lei hebraica como a lei romana, sempre que essas leis lhe fossem favoráveis. Confundiu os tribunais da Palestina. Em Roma, viveu em liberdade por alguns anos até ser preso e sentenciado à morte por delito contra o Estado romano.

domingo, 3 de abril de 2011

RELIGIÃO

NOVO TESTAMENTO – I.

Encerrado o resumo dos livros do Antigo Testamento (AT), passo a resumir os livros do Novo Testamento (NT), tarefa com término previsto para a véspera da semana santa.

Enquanto o fio condutor do AT é a aliança entre o deus Javé, o líder Moisés e o povo hebreu (particularidade), o fio condutor do NT é a doutrina de Jesus, a sua fonte divina, tendo como destinatários judeus e pagãos (universalidade). Os escritores do NT procuram imitar os escritores do AT (continuum da cultura religiosa hebraica). O caráter ficcional do AT prossegue no NT. Tanto lá como cá, a divindade é antropomórfica e assume posições próprias do mundo terreno: senta em um trono (realeza), tem uma direita e uma esquerda, ambas poderosas, a dar inveja ao Mike Tysson.

Simpatia e antipatia, fanatismo e moderação, realidade e fantasia, mesclam-se nas escrituras. Personagens são enaltecidos ou denegridos conforme a bílis do escritor. O engodo é o mesmo no AT e no NT: afirmar que se trata da palavra de Deus, ou da inspiração do espírito santo, quando, na verdade, trata-se de obra humana, literatura direcionada à doutrinação, onde a história e o bom senso ocupam espaço pequeno. Os cultores da bíblia, espertos para enganar, servem-se do falacioso argumento: o campo é da fé e não da razão. Esses indivíduos (papas, sacerdotes, pastores, rabinos) apostam na debilidade mental e emocional do crente, na fé cega, como se a fé lúcida fosse impossível ou pecaminosa. Todavia, o ser humano não deve abdicar da razão, seja qual for o assunto. A razão humana reflete a divina, posto que Deus é Luz (razão, inteligência, sabedoria) e os humanos são suas criaturas.

O NT compõe-se: (i) de quatro livros (evangelhos segundo Mateus, Marcos, Lucas e João); (ii) da narrativa dos atos dos apóstolos feita por Lucas; (iii) das cartas dos apóstolos Pedro (2), Tiago (1), João (3), Judas Tadeu (1), Paulo (14); (iv) do livro profético de João: Apocalypse. Os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas são chamados sinóticos porque é possível perceber a semelhança entre eles num lance de olhar. Apóstolo era o discípulo de Jesus investido de autoridade para ensinar a doutrina, curar enfermos, fundar e organizar igrejas. Apóstolos da primeira hora eram aqueles que conviveram com Jesus e o acompanharam desde o nascimento da comunidade cristã. Apóstolos da segunda hora eram os novos adeptos que não conheceram Jesus, como Paulo, Marcos, Lucas. O NT constitui-se de escritos apostólicos do século I, anos 50 (epístolas), 60/70 (evangelhos + atos), 80/100 (João + Apocalypse). O intervalo de tempo entre a crucifixão e as escrituras deu azo a distorções e mitos.

Essas escrituras tentam reproduzir os ensinamentos transmitidos oralmente, os debates com adversários, os óbices à catequese, as atividades terapêuticas e outros aspectos da vida de Jesus. Narram os acontecimentos que precederam o nascimento de Jesus, as circunstâncias do nascimento dele e do primo João; a pregação de João, o ritual de batismo (daí o apelido João Batista), a morte de João Batista; a pregação de Jesus, tentações, milagres, curas, êxtase, padecimentos, crucifixão, ressurreição e ascensão celestial; os testemunhos e as atividades dos apóstolos; a difusão da nova doutrina pelas cidades da Ásia Menor e Europa no século I (anos 01/100); o parto da igreja cristã primitiva e a presença do espírito santo.

Naquela época, os essênios, pessoas de hábitos simples e higiênicos, dedicadas à vida mística, formavam comunidades no Egito, Síria, Palestina. Jesus pertencia à comunidade da Palestina; trajava-se e comportava-se como nazareno, inclusive na aparência física (cabelo e barba compridos). Por motivos não relatados, Jesus fundou a sua própria escola e comunidade, que refletiam a organização, os costumes e a doutrina dos essênios. Jesus era tratado como profeta e mestre (rabi) por seus contemporâneos, salvo a gente da sua cidade natal. A igreja cristã primitiva não se confunde com a igreja católica organizada a partir do concílio de Nicéia (ano 364). A igreja católica se considera herdeira de Jesus, ou noiva de Cristo.

Por determinação de César Augusto, imperador romano ao tempo dos pais de Jesus, a Palestina foi dividida em quatro regiões, cada qual governada por um tetrarca. A região da Galiléia (Norte da Palestina) coube a um príncipe judeu de nome Herodes Magno. Jesus nasceu durante o governo desse príncipe. A região da Judéia (Sul da Palestina) foi confiada a um procurador romano. Na época de Jesus adulto, o procurador era o general romano Pôncio Pilatos; o governador (rei) da Galiléia era o príncipe judeu Herodes Antipas, neto de Herodes Magno. Grupos de judeus planejavam repetir a façanha de Judas Macabeu: expulsar os estrangeiros da Palestina. Sob a justificativa de que o seu reino não era deste mundo, Jesus negou-se a liderar esse movimento ou dele participar. Provavelmente, ele percebeu a disparidade de forças entre judeus de um lado e romanos de outro. Profetizar a derrota dos judeus rebeldes foi tarefa sem embaraço.

Apesar desse distanciamento político, Jesus foi injustamente acusado, julgado e condenado à morte pelo Sinédrio (tribunal dos judeus) por blasfêmia (intitular-se filho de Deus) e por subverter a ordem ao instilar no povo o vírus da revolta e proibir o pagamento de imposto a Roma (intitular-se rei). Tanto o príncipe judeu Herodes, como o procurador romano Pilatos, não reconheceram culpa alguma em Jesus. Simplesmente, não o levaram a sério. No entanto, os sacerdotes, os escribas, os anciãos e o populacho de Jerusalém, convocados por Pilatos para o julgamento, reunidos no pátio do pretório, não se contentaram com as chibatadas aplicadas em Jesus; insistiam na aplicação da pena de morte aos gritos: “crucifica”. Em derradeira tentativa de livrar Jesus, Pilatos disse que soltaria quem o povo escolhesse: Jesus ou Barrabás (preso por homicídio). Incitado pela maioria dos sacerdotes, escribas e anciãos, o populacho escolheu Barrabás. Disto resultou a crucifixão de Jesus.

No direito romano, a pena de morte era executada mediante crucifixão, para o estrangeiro e decapitação, para o cidadão romano. Depois da crucifixão de Jesus, estourou a revolta armada (ano 66). As tropas romanas sufocaram-na e destruíram Jerusalém (ano 70); do templo, não sobrou pedra sobre pedra. Fecha-se a cortina da história dos hebreus, cujos descendentes (judeus e israelitas) dispersaram-se pelo mundo.

sábado, 2 de abril de 2011

RELIGIÃO

ANTIGO TESTAMENTO – FINAL.

Eclesiastes.

Eclesiastes significa assembléia ou aquele que comanda uma assembléia. Este livro é uma coletânea de meditações sobre a vida humana atribuídas ao personagem de nome Eclesiastes, que seria o próprio Salomão, como se deduz do cabeçalho do livro: Palavras do Eclesiastes, filho de Davi, rei de Jerusalém. No prólogo, a mais conhecida das máximas: Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade. Vaidade da sabedoria: o acúmulo de sabedoria é vento que passa; quem aumenta a ciência, aumenta a dor. Vaidade dos prazeres: ao pecador Deus incumbe acumular bens que depois passará a quem lhe agradar; isto, ainda, é vaidade e vento que passa. Vaidade das riquezas: aquele que ama o dinheiro nunca se fartará; aquele que ama a riqueza não tira dela proveito; também isso é vaidade. Diz o sábio: há tempo para tudo, para cada coisa há um momento, debaixo dos céus: tempo para nascer, tempo para morrer, tempo para plantar, tempo para colher. O livro faz referência: (i) às injustiças do mundo: o destino dos racionais é o mesmo dos irracionais: a morte; nada há de melhor para o homem do que se alegrar com os frutos do seu trabalho; (ii) aos tormentos da vida humana; (iii) aos conselhos de piedade; (iv) às máximas de sabedoria: Deus criou o homem reto, mas é o homem que procura os extravios; (v) à submissão ao rei: juramento de fidelidade tendo Deus como testemunha; (vi) ao igual destino dos homens: tudo que tua mão encontra para fazer, faze-o com todas as tuas faculdades, pois que na região dos mortos, para onde vais, não há mais trabalho, nem ciência, nem inteligência, nem sabedoria; quem observa o vento não semeia e quem examina as nuvens não sega (não ceifa, não corta). No epílogo, o autor sintetiza: teme a Deus e observa os seus preceitos; é este o dever de todo o homem.

Comentário. A sabedoria não é vento que passa; perdura enquanto o sábio vive e aproveita à posteridade (tradição cultural). Quem ama a riqueza e é rico, dela tira proveito na vida terrena. Muito conveniente ao soberano poeta incluir entre os preceitos éticos a fidelidade dos súditos. Nenhuma certeza há quanto à região dos mortos, salvo a localizada na Terra (sepultura, cremação). Se a sabedoria provém de Deus e se Deus dita leis, então, há inteligência no mundo espiritual. Preceitos são formulados pelos humanos e não por Deus.

Eclesiástico.

Este livro foi escrito por volta do ano 200 a.C., no período em que a Palestina era disputada pela Síria e pelo Egito. O autor chama-se Jesus (xará do Cristo). Trata dos aspectos da vida humana relacionados com os mandamentos divinos e à fidelidade ao Senhor. A primeira parte é dedicada à origem da sabedoria, amor à sabedoria, felicidade do sábio, temor ao Senhor, justiça humana e divina, piedade filial, médicos e terapias, cautela nas relações sociais, disciplina da língua, riqueza e pobreza, distribuição de bens, liberdade do homem, juízos temerários, autodomínio, moderação, mansidão, bondade, humildade, amizade, prudência, mulheres, mesquinhez, inveja, hipocrisia, insensatez, governo, negócios, orações, exortações e outros tópicos. Eis alguns: toda sabedoria vem do Senhor Deus; como é infame aquele que abandona seu pai, como é amaldiçoado por Deus aquele que irrita sua mãe; tua mão não seja aberta para receber e fechada para dar; faças justiça tanto para o pequeno como para o grande; feliz o homem que persevera na sabedoria e que se exercita na prática da justiça; antes de julgar, procura ser justo; antes de falar, aprenda; a boa palavra multiplica os amigos e apazigua os inimigos; o amigo não se conhece durante a prosperidade; não abandones um velho amigo, pois o novo não o valerá; quem revela o segredo de um amigo perde a sua confiança; estende a mão para o pobre; não avalies um homem pela sua aparência; não tragas um homem qualquer à tua casa; o olhar do invejoso é mau; não há cólera que vença a da mulher; o homem sensato crê na lei de Deus; doce é a vida do operário que se basta a si próprio.

Na segunda parte do livro, o autor louva a Deus e aos antepassados; fala da grandeza de Deus na criação e elogia vultos da história do povo hebreu. Na terceira parte, há um apêndice em que o autor se refere aos filisteus e aos samaritanos de modo pejorativo; autentica o seu livro; lança uma oração e exorta todos à busca da sabedoria.

Daniel.

Este livro se divide em três partes. A primeira relata o recrutamento de Daniel e outros jovens bem dotados do ponto de vista físico e intelectual para o serviço do rei da Babilônia (Nabucodonosor II). Ao fim de três anos de estudos sob orientação dos magos, os jovens se apresentaram ao rei, foram entrevistados e se tornaram conselheiros. Chamados para adivinhar e interpretar o sonho do rei, os escribas e feiticeiros acharam a tarefa impossível. O rei mandou mata-los. Daniel solicitou um prazo para executar a tarefa e impedir o morticínio. Orou ao seu deus e obteve a resposta. O rei sonhara com uma estátua com cabeça de ouro, corpo de prata, pernas de bronze e pés de barro. Daniel interpretou o sonho. O rei ficou agradecido, deu-lhe muitos presentes e o nomeou governador da província da Babilônia, chefe dos escribas e dos magos. Companheiros de Daniel descumpriram as ordens do rei e não se prostraram perante a estátua de ouro que ele mandara construir, motivo pelo qual foram jogados em uma fornalha. Além de não se queimarem, eles passeavam pelo fogo orando ao Senhor. O rei glorifica o deus dos judeus. Durante o governo de Baltazar, filho e sucessor de Nabucodonosor II, Daniel, vítima de intrigas palacianas, foi jogado na cova dos leões. No dia seguinte, o rei foi à cova e chamou por Daniel. O profeta respondeu, dizendo-se protegido do Senhor: os leões ficaram com a boca fechada. Daniel foi retirado da cova e nela o rei mandou jogar os acusadores com as respectivas famílias; um banquete para os leões.

Na segunda parte do livro, narram-se visões proféticas, oração de Daniel, destino do povo judeu, disputa dos reis pelo domínio dos povos e a profecia contra Antíoco IV (175/163 a.C.) descrito como homem vil, sem dignidade real, da dinastia selêucida que governava a Palestina e a Síria. Essa parte do livro termina com um ser antropomórfico que apareceu a Daniel e lhe revelou o futuro; menciona os tempos messiânicos e anuncia a morte do profeta.

A terceira parte (apêndices) contém três pequenas histórias: a de Suzana, a do ídolo Bel e a do dragão. Suzana era mulher bela e piedosa, casada e educada na lei de Moisés. Dois juizes se apaixonaram por ela. Frustrados por não obter os favores sexuais da bela mulher, os juizes a denunciaram perante a assembléia dos anciãos e prestaram falso testemunho. Suzana foi condenada à morte por adultério. Presente à sessão de julgamento, Daniel protestou, certo da injustiça. Acusou os juízes de mentirosos. Daniel pediu que os acusadores fossem ouvidos em separado. Os juizes acusadores deram respostas diferentes à mesma pergunta. A sentença de Suzana foi cancelada. Os acusadores foram condenados à morte. Quanto a Bel, ídolo da Babilônia, Daniel se recusou a lhe prestar culto; disse que já cultuava um deus vivo e aquele era um deus morto. O rei contestou: morto era o deus de Daniel; o deus babilônico comia e bebia as oferendas. Daniel replicou: isto era impossível, porque o deus era de barro por dentro e de bronze por fora. Para verificar de que lado estava a verdade, o rei depositou oferendas ao ídolo e evacuou o recinto. Antes do trancamento da porta, cinzas foram espalhadas por todo o chão, a pedido de Daniel. Na manhã do dia seguinte, o rei verificou que as portas ainda estavam lacradas. Ao abri-las, viu que as oferendas tinham sido consumidas. Daniel, então, chamou-lhe a atenção para o piso, todo marcado por pés de adultos e crianças. Os sacerdotes, esposas e filhos, entravam por uma porta secreta embaixo da mesa de oferendas e as consumiam. O rei mandou matar a todos e entregou o ídolo a Daniel, que o destruiu. Quanto ao dragão, deus vivo que come e bebe, Daniel também se recusou a adorá-lo. Afirmou que mataria aquele dragão sem arma alguma. O rei permitiu que Daniel provasse o que afirmava. Daniel preparou um cozido. Ao comê-lo, o dragão morreu. Os sacerdotes se enfureceram. Daniel foi novamente lançado na cova dos leões, mas não foi devorado. O rei libertou-o no 7º dia e lançou seus detratores na cova. Parece que Daniel hipnotizava os leões. Enquanto ficou na cova, Daniel se alimentava do que o profeta Habacuc lhe trazia da Judéia, nas asas do Anjo do Senhor. Linha aérea Judéia-Babilônia-Judéia. Angel Airways Co. Vôos diários. Teve imitador no Brasil: “Voe pelas asas da Panair”.

Macabeus I e II.

Estes livros foram escritos por volta de 100 a.C. No primeiro, o autor conta que Alexandre Magno, antes de morrer, ainda jovem, repartiu o império entre cortesãos e amigos. Narra a conquista do Egito por Antioco IV, o assalto a Jerusalém, o edito do rei para a união dos povos sob sua jurisdição, impondo a religião pagã a todos e proibindo os ritos judaicos. Aos desobedientes aplicar-se-ia a pena de morte. Matatias, líder judeu, rebela-se contra o real decreto e contra os judeus que aderiram à idolatria; convida os fiéis à divindade para segui-lo; abandonou seus bens e foi para o deserto. Alguns seguidores foram mortos pelos guerreiros da Síria. Isto levou os fiéis a se organizarem sob o comando de Matatias, a enfrentar os sírios, a massacrar os judeus prevaricadores e traidores, a circuncidar crianças à força, e a viver sob as próprias leis. Judas Macabeu, filho de Matatias, o sucedeu no comando e promoveu incursões por todo o território judeu, expulsando os ímpios. Ele, seus irmãos e exército, venceram os sírios invasores, entraram em Jerusalém, purificaram o templo, atacaram os vizinhos hostis à Judéia, derrotaram forças inimigas e celebraram aliança com Roma. Judas morre em combate e é sucedido por seu irmão Jônatas. Com a prisão de Jônatas, outro irmão, Simão, assume o comando e renova a aliança com Roma e Esparta. Desfrutaram a independência por 100 anos.

O segundo livro começa com as cartas aos judeus do Egito e a Aristóbolo, conselheiro de Ptolomeu, rei daquele país. Há um prólogo em que o autor diz que resumiu o conteúdo de 5 livros escritos por Jasão de Cirene, sobre os acontecimentos no tempo de Judas Macabeu e de seus irmãos: a purificação do templo, as guerras sustentadas contra Antioco Epifanes e seu filho, as manifestações celestiais em favor dos bravos que pelejaram pelo judaísmo, que se tornaram senhores do país, que puseram em fuga as hordas bárbaras, que recobraram a posse do templo, que livraram a cidade e restabeleceram as leis. A seguir, relata perseguições religiosas, a revolta e a vitória de Judas Macabeu e repete os temas do primeiro livro.

Fim do resumo dos livros do Antigo Testamento.