domingo, 13 de março de 2011

RELIGIÃO

RESUMO DOS LIVROS BÍBLICOS

Considerando a senda religiosa, mística e filosófica aberta com os artigos publicados neste blog; considerando que a compreensão desses artigos pode ser aumentada com a leitura dos textos religiosos e místicos; considerando a eventual dificuldade de acesso aos referidos textos por alguns leitores; considerando a dinâmica social moderna adversa à leitura; considerando o período propício à reflexão sobre assuntos espirituais (quaresma posterior ao carnaval e anterior à páscoa dos católicos); resolvi apresentar este resumo da Bíblia acompanhado de esporádicos e breves comentários.

A Bíblia se divide em duas grandes partes: (I) Antigo Testamento, sobre a história do povo hebreu (idéias, crenças, nomadismo, organização social) que influiu no cristianismo; (II) Novo Testamento, sobre a vida e doutrina de Jesus e a catequese de judeus e pagãos.

Do ponto de vista gramatical e semântico, a Bíblia publicada pela editora Ave Maria, São Paulo/SP, 58ª edição, 1987, apresenta grau de excelência. Foi com base nessa edição que procedi ao resumo. Ali, os organizadores seguiram a ordem lógica por assunto. Aqui, seguirei a ordem cronológica dos livros históricos, sapienciais e proféticos.

ANTIGO TESTAMENTO - I.

Essa parte da Bíblia se compõe de vários livros que o clero católico organizou em quatro grupos: - cinco primeiros livros conhecidos como Pentateuco ou como o Livro da Lei: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio; - 16 livros históricos: Josué, Juízes, Rute, Samuel (I e II), Reis (I e II), Crônicas (I e II), Esdras (I e II-Neemias), Tobias, Judite, Ester, Macabeus (I e II); - 7 livros sapienciais: Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cânticos, Sabedoria, Eclesiástico; - 18 livros proféticos: Isaías, Jeremias, Lamentações, Baruc, Ezequiel, Daniel, Oséias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias.

Todos ou pelo menos alguns dos livros do Pentateuco foram escritos depois da morte de Moisés, conforme a arguta observação de Thomas Hobbes (Leviatã, terceira parte, capítulo 33). Esses livros contêm leis cuja autoria é atribuída a Moisés.

Números esotéricos (3, 7, 12, 40) se destacam na Bíblia. Exemplo: 12 são as tribos de Israel; 12 são os signos do Zodíaco; 12 são os apóstolos do círculo interno da comunidade de Jesus.

Gênesis.

Este livro trata: (i) da criação (gênese) do mundo, do primeiro homem (Adão) e da primeira mulher (Eva); (ii) da expulsão desse primeiro casal do paraíso porque desobedeceram à ordem da divindade ao comerem o fruto da árvore da ciência do bem e do mal plantada no meio do Jardim do Éden; (iii) do descaminho da humanidade e da punição pelo dilúvio; (iv) da geração da nova raça humana a partir de Noé e seus familiares e da aliança da divindade com Noé; (v) da conversão do caldeu Abrão, depois Abraão, ao culto do deus único e sem nome, formação do povo hebreu na linhagem de Abraão, sua aliança com esse deus, que terá como sinal a circuncisão (o deus promete prosperidade ao povo e o povo promete fidelidade ao deus). O primogênito de Abraão foi Ismael, nascido de Agar, escrava egípcia de Sara, estéril esposa do patriarca. O segundo filho de Abraão, Isaac, nasceu de Sara, cuja esterilidade foi curada aos 90 anos de idade por benção divina. Ismael e Agar foram afastados da tribo e abandonados no deserto por ordem divina (Ismael sobreviveu e gerou a nação árabe). Abraão teve mais filhos com a concubina Cetura. Abraão presenteou esses filhos e os despachou para o Oriente Médio. Abraão nomeou Isaac seu sucessor. Jacó, filho e sucessor de Isaac, celebra nova aliança com o deus de Abraão. Esse deus promete especial segurança a Jacó e à sua descendência e o batiza com o nome de Israel. Jacó (Israel) teve 12 filhos (6 com Lia, 2 com Raquel, 2 com Bala, escrava de Raquel, e 2 com Zelfa, escrava de Lia). A cada filho de Jacó corresponde uma tribo (12 tribos de Israel). José, filho de Raquel, foi vendido por seus irmãos, pelo preço de 20 moedas de prata, a uma caravana de ismaelitas que passava no lugar onde eles apascentavam o rebanho. No Egito, José foi revendido a um eunuco da corte do faraó. Por interpretar sonhos, José caiu nas graças do faraó e se tornou ministro. Jacó (Israel) e seu pequeno clã, que passavam agruras na Palestina (Canaã) se mudaram para o Egito, sob a proteção de José e lá permaneceram por 450 anos.

Observações. A versão hebraica da criação do mundo e do dilúvio deve-se a outras culturas da Antiguidade. A ciência contemporânea desmente a versão bíblica, quer no que tange à cronologia, quer no que tange ao processo criativo. Israel, novo nome de Jacó, resulta da combinação dos nomes das divindades egípcias: Isis = lua + Ra = sol + El = sagrado. A autoria deste livro é atribuída a um príncipe e sacerdote egípcio (Moisés). Ismaelitas eram os descendentes de Ismael, que constituíram a nação árabe.

Êxodo

Este livro narra, no estilo épico, a saída do povo hebreu do Egito. Depois da morte de José, os hebreus perdem as regalias e a especial atenção dos faraós. Moisés, príncipe egípcio, sacerdote de RA, assume a tarefa de libertar o povo hebreu por determinação de um deus. Afirma estar exilado em Madiã (região situada no lado asiático do Mar Vermelho) quando esse deus se manifestou em uma sarça ardente que não se consumia com o fogo. A divindade se identificou como sendo o deus de Abraão, Isaac e Jacó e explicou que ocultara o seu nome a esses patriarcas, mas que agora o revelava: Javé. Com esse nome, a divindade se proclama deus do povo hebreu; promete aos hebreus uma terra fértil da qual mana leite e mel, espaçosa, habitada pelos cananeus, hiteus, amorreus, ferezeus, heveus e jabuzeus. Moisés já se afastava quando a divindade o chama e lhe dá a missão libertadora, assegurando que o faraó seria convencido à força. Na disputa de prodígios com os magos do faraó, Moisés e seu irmão Aarão saíram vitoriosos. Fizeram prodígios com suas varas mágicas transformando-as em serpentes, tingindo de sangue as águas, provocando pragas de rãs, mosquitos, moscas, gafanhotos, chuva de granizos, escuridão no céu, tumores e úlceras, mortandade de animais e de primogênitos egípcios, até o faraó permitir o êxodo. Autorizados pela divindade, os hebreus, ao partirem, despojaram egípcios do ouro, prata e vestidos. Moisés conduz os hebreus para fora do Egito, separa as águas do Mar Vermelho e atravessa o leito seco. Quando os egípcios tentam fazer o mesmo, morrem afogados. No deserto, Moisés sobe o Monte Sinai, celebra aliança com Javé e recebe os 10 mandamentos que constituem o direito fundamental do povo hebreu. Moisés dita normas sobre escravatura, propriedade, homicídio, lesões corporais, além de outras normas sobre moral e religião (costumes, rituais, festas). Enquanto Moisés, na montanha, se entrevistava com Javé por 40 dias e 40 noites, os hebreus, na planície, retornaram ao paganismo, fizeram um bezerro de ouro e passaram a adorá-lo. Moisés fica furioso, quebra as tábuas da lei, mata mais de 3 mil hebreus a golpe de espada, retorna ao Monte Sinai, pede perdão a Javé, grava novamente os 10 mandamentos e restabelece o monoteísmo. Manda construir uma arca onde as tábuas da lei são guardadas, que se denominou Arca da Aliança, símbolo da presença da divindade no seio do povo.

Observações. Se perseguição houve, certamente foi porque os hebreus estavam levando o ouro e a prata dos egípcios da vizinhança onde moravam. O condicional “se” é necessário porque há muita fantasia nessa história. Faltam dados históricos confiáveis e razoabilidade. A intimidade de Moisés com o deus Javé beira ao ridículo. Os dois conversam, o egípcio se afasta, o deus o chama de volta: “Moisés, Moisés, vem cá meu filho, preciso terminar a conversa”; o deus exibe a sua parte traseira a Moisés (o que dispensa o escritor de descrever o rosto de Javé). Se a saída do Egito era desejada pelos hebreus, então não havia motivo para Javé criar dificuldade e endurecer o coração do faraó. O contrário seria de esperar, ou seja, que esse deus amolecesse o coração do faraó. Para cessar as supostas desgraças provocadas pela magia de Moisés e Aarão, bastava ao faraó prender os dois e executa-los, pois dispunha de inteligência, força e poder para esta singela solução bem adequada aos costumes da época. Tampouco havia fortes razões para o faraó exigir a permanência dos hebreus em solo egípcio. Não há prova alguma da escravização dos hebreus pelos egípcios. Há notícia de uma tribo que não acompanhou Abrão e seguiu direto da Caldéia para o Egito sem que fosse escravizada. Do ponto de vista político, aquela gente citada no livro era egípcia, porque nascida no Egito, onde vivia há quatro séculos e meio (450 anos). No mundo atual, por exemplo, há judeus de nacionalidade brasileira, argentina, inglesa. Se esses judeus quiserem migrar para Israel, certamente não haverá estorvo algum da parte dos governos do Brasil, da Argentina e da Inglaterra (salvo se houver contas a prestar à Justiça). Ainda que conservasse costumes hebreus, aquela gente mencionada no livro estava sob as leis do Egito. O deus identificado como Javé, confessa que a sua intenção era a de mostrar o seu poder ao faraó. Muito estranha, para um deus, essa necessidade de exibir poder perante uma autoridade humana. Se o poder da mente divina foi suficiente para criar o mundo, muito mais o seria para, sem qualquer esforço físico, dissuadir o faraó ou qualquer ser humano. Por aí se vê que o poder desse deus era limitado e seu caráter censurável. O escritor hebreu pretende colocar vestes de herói em Moisés e elevar o povo hebreu ao nível de impérios majestosos como o egípcio, babilônio, assírio, caldeu, persa, quando, na verdade, os hebreus situavam-se em nível bem modesto, como o dos cretenses e sumerianos. Os egípcios eram da raça negróide, diferentes dos artistas caucasianos dos filmes de Hollywood sobre aquela admirável civilização. Sendo egípcio, Moisés pertencia à raça negróide. O escritor hebreu comete ato falho ao relatar o episódio da fuga para Madiã: “Um egípcio nos protegeu contra alguns pastores e, além disso, tirou água ele mesmo e deu de beber aos animais.” (Êxodo 2: 18/19). As filhas do sacerdote não identificam Moisés como hebreu, caldeu, árabe, e sim como egípcio. A raça não era discriminada em sua própria terra e arredores. O povo hebreu nunca assimilou inteiramente o monoteísmo. O povo resiste ao que é imposto à força. Moisés trouxe o monoteísmo da escola de mistérios formada pela nobreza egípcia e o enfiou na goela dos hebreus. Segundo versão complementar, Javé era divindade dos kenitas, povo do deserto que vivia próximo ao Monte Sinai. Moisés lhes tomou a divindade por empréstimo. Volta e meia, os hebreus recaíam no animismo e no politeísmo consoante tradição sua e dos povos daquela época. Essas recaídas acabaram por dividir o povo hebreu (930 a.C.): os monoteístas ortodoxos, de um lado (reino de Judá = duas tribos); os flexíveis e adoradores de deuses estrangeiros, de outro (reino de Israel = dez tribos). O decálogo do Êxodo é de época posterior a de Moisés, certamente introduzido por Esdras no século IV a.C. (400/301). Não há certeza histórica se houve um decálogo anterior, recebido por Moisés no Monte Sinai.

sexta-feira, 11 de março de 2011

RELIGIÃO

MINHAS CONCLUSÕES

Na rede de computadores, lista do Grupo Reconstrução, exclusiva dos juízes do Estado do Rio de Janeiro, travou-se debate, no segundo semestre de 2009, sobre “Davi e sua vocação” e “Nem Jeová nem Javé”, comigo de um lado e três desembargadores de outro, todos mais novos do que eu na carreira. (Nota para quem não é da área: “desembargador” é o título que se dá ao juiz de direito que exerce a judicatura no tribunal de justiça). Dois desembargadores, um da ativa e outro aposentado, eram pastores protestantes e o terceiro, católico apostólico romano. Rememorar o episódio se me afigura interessante porque alguns leitores da série “Cura pela razão e pela fé”, publicada neste blog (fevereiro/2011) poderão fazer a mesma indagação com a qual fui interpelado. A certa altura daquele debate, o pastor desembargador aposentado interpelou-me: “de onde você tira as tuas conclusões?” De imediato, lembrei-me da interpelação feita a Jesus pelo grupo de sacerdotes, escribas e anciãos, no templo de Jerusalém: “Com que direito fazes isso? Quem te deu essa autoridade?” Os interpelantes menosprezavam ciência alheia. Colocavam-se como donos exclusivos da verdade e intérpretes fiéis das escrituras. Jesus contra-atacou formulando outra pergunta: “O batismo de João era do céu ou dos homens?” Aquelas autoridades responderam que não sabiam. Jesus replicou: “Nem eu vos direi com que direito faço estas coisas”. (Lucas 20: 2/8; Marcos 11: 28/33).
A hebraica, a cristã e a islâmica não são as únicas religiões do mundo, embora cada qual se considere a melhor. Além de religiões, há filosofias de vida como as de Lao Tse, Kong-fu-Tse e Sidarta, que orientam a conduta de povos. No seio da mesma comunidade, há povos com peculiaridades culturais. Exemplos: (i) com a implosão da União Soviética realçaram-se características culturais dos países que a compunham; (ii) a revolução na Tunísia produziu efeito dominó e colocou à mostra semelhanças e diferenças entre os povos do Oriente Médio e do Norte da África; concepções de mundo variam tanto em nível individual como em nível coletivo; (iii) cada região do Brasil apresenta aspectos culturais próprios. Concordei com o colega católico quando afirmou que as escrituras rotuladas de sagradas resultam do obrar humano e que os obreiros se dizem inspirados pela divindade. O deus do meu coração, justo e bondoso, não me nega inspiração, como o deus de Moisés não a negou aos obreiros judeus e o deus de Jesus não a negou aos apóstolos. Além da Bíblia e do Corão, outras escrituras qualificadas de sagradas existem no mundo. O ser humano é quem qualifica de sagrada às escrituras, segundo o seu pensamento, as suas crenças e os seus propósitos.
Respondi aos meus colegas que, além da fonte divina, eu tiro minhas conclusões das fontes naturais e humanas externas, no exercício da minha faculdade racional. Abasteço a minha mente com dados extraídos: (I) do estudo da Bíblia e de outros textos religiosos e místicos; (II) do estudo de História, Sociologia, Economia, Direito, Ciências Naturais, Filosofia, inclusive com título universitário; (III) da experiência institucional (família, escola, igreja, judiciário) e da experiência comum das ruas; (IV) da TV (entrevistas, reportagens, filmes documentários); (V) do patrimônio existencial acumulado ao longo da vida, mediante os processos de seleção, assimilação e maturação (reflexão e meditação).
Das pesquisas para o romance “O Evangelho da Irmandade”, para o referido debate e para os artigos publicados neste blog, constam, entre outras, as seguintes obras: (1) Bíblia (Centro Bíblico Católico, São Paulo. Editora Ave Maria, 1987); (2) La Vida Mística de Jesús (Lewis, H. Spencer. Califórnia. Amorc, 1967); (3) O Cristo Cósmico e os Essênios (Rohden, Huberto. São Paulo. Martin Claret, 1991); (4) A Doutrina Mística (Blavatski, Helena P. São Paulo. Hemus, 1981); (5) O Livro dos Espíritos (Kardec, Allan. São Paulo, Editora Pensamento, 1994); (6) Tao Te King (Lao Tse. São Paulo, Martin Claret, 12ª edição, s/d); (7) O Fenômeno Humano (Chardin, Pierre Teilhard. Porto. Tavares Martins, 1970); (8) O Homem Eterno (Pauwels, Jacques Bergier e Louis. São Paulo. Divisão Européia do Livro, 1971); (9) Leviatán (Hobbes, Thomas. Madri. Nacional, 1979); (10) Para compreender os manuscritos do Mar Morto (Shanks, Hershel. Organizador. Rio. Imago, 1993); (11) O Santo Graal e a Linhagem Sagrada (Baigent, Michael e/os. Rio. Nova Fronteira, 1993); (12) O Código Da Vinci (Brown, Dan. Rio, Sextante, 2004); (13) Quebrando o Código Da Vinci (Bock, Darrell L. Osasco. Novo Século, 2004); (14) Decodificando Da Vinci (Welborn, Amy. São Paulo. Cultrix, 2004); (15) Maria Madalena (George, Margaret. São Paulo, Geração Editorial, 2002); (16) Operação Cavalo de Troia (Benítez, J. J. São Paulo. Mercuryo, 1987); (17) Admirável Mundo Novo (Huxley, Aldous. São Paulo. Victor Civita, 1980); (18) Nem Marx nem Jesus (Revel, Jean-François. Rio, Artenova, 1973); (19) Tratado Sobre a Tolerância (Voltaire, François-Marie Arouet. São Paulo, Martins Fontes, 2000); (20) Pequena História da Maçonaria (C.W. Leadbeater. São Paulo. Pensamento, 1968); (21) Manual Rosacruz (Grande Loja do Brasil. Curitiba, 1964); (22) História da Civilização Ocidental (Burns, Edward Mcnall. Rio/SP/Porto Alegre. Globo, 1955).
Na busca do conhecimento mediante fontes naturais e humanas, coloco a fé no cabide e me sirvo da razão, plagiando Lavoisier. Enquanto os meus opositores lêem a Bíblia com as lentes da fé religiosa, eu a leio com as lentes da razão. Entendemos de modo diferente o mesmo texto. Ilustro o que digo, com a mensagem contida na lista do Grupo Reconstrução, em que o evangélico, o católico e um terceiro desembargador (meu colega de concurso) qualificam de lindo o salmo 51, afinados na mesma interpretação. Pois bem. Naquele texto eu não vejo beleza alguma. Vejo maldade. Passo à análise. Fundo histórico: o rei Saul acusa Davi de traidor. Davi e família fogem e descansam em diferentes lugares. Na cidade sacerdotal de Nobe, Davi é recebido pelo sacerdote Aquimelec, que lhe fornece provisões e entrega a espada que pertenceu a Golias. O edomita Doeg leva esse fato ao conhecimento de Saul que mata Aquimelec, 85 sacerdotes e respectivas famílias e toda a população da cidade: homens, mulheres, meninos, meninas, crianças de peito e animais. Carnificina (Samuel I, 22: 9/20).
O salmo 51 refere-se a esse episódio. O texto verte ódio; não há beleza ou nobreza. Ao atribuir ao rei, língua pérfida, afiada como navalha, o salmista exibe fraqueza ante a retórica régia. As palavras do salmista, inferiorizado ante a verve do destinatário, vêm calcadas em sentimento de vingança e no ânimo violento. Daí, o expresso desejo do salmista de que o seu adversário seja destruído, expulso da tenda e extirpado da terra dos vivos. Deseja, ainda, no distorcido conceito de justiça, que os justos zombem do adversário. Os justos cultivam a ironia com elegância e respeitam os mortos; não zombam nem tripudiam de cadáveres. O salmista, impotente para a criminosa tarefa, sente-se feliz em transferi-la à divindade. O salmo supõe o caráter satânico do deus Javé, em sintonia com a cultura hebréia; reflete os atributos do povo hebreu na Antiguidade, iguais aos daquele deus: genocida, homicida, materialista, vingativo, violento. Identificar esse deus com o Deus de Jesus, como faz a igreja de Paulo (católica e protestante) chega às raias do sacrilégio. Justificar os atributos satânicos de Javé com a hobbesiana tese de todos contra todos, equivale a esconder o sol com a peneira. Deus é invariável na sua natureza, sempre o mesmo, desde a criação do mundo, para todos os povos, indistintamente. Esse Deus que Jesus tanto amava é o Deus da luz (razão, inteligência, sabedoria), Deus da vida (física, moral, espiritual) e Deus do amor (incondicional, ilimitado, infinito). O Pai Celestial de Jesus não mandaria matar homens, mulheres, meninos, meninas, crianças do peito e exterminar todo um povo, na Antiguidade ou em qualquer outra época, como ordenou o deus de Moisés (Samuel I, 15: 1-4).
Pelo exposto, ao contrário dos meus opositores que acham lindo o salmo 51, eu o qualifico de horrível. Questão de ponto de vista. Cultura fiduciária versus cultura racional.

segunda-feira, 7 de março de 2011

VIAGEM3

VIAGEM A CAMPINAS – Final.

Lothar, de bom humor, referiu-se algumas vezes ao seguinte episódio: em uma festa da TM (= Turma de Merda) em Curitiba, quando éramos jovens e solteiros, com algumas cervejas no caco, eu dissera que ele podia casar com a namorada (hoje, sua esposa), pois eu acabara de lhe dar uma baita cantada e ela resistira. A primeira parte da narrativa provavelmente ocorreu. Creio que ao inventar a cantada, eu testava a reação do Lothar. A segunda parte da narrativa me parece improvável por motivos óbvios: (i) eu jamais cantei mulher alguma, pois eu era avesso a esse tipo de conduta; (ii) cantar ou namorar irmãs ou namoradas dos meus amigos nunca fez parte dos meus costumes; (iii) eu era tímido.
Em pleno carnaval (1958) na sede do Coritiba FC, eu brinquei com uma garota que há muito tempo admirava. Ela morava no bairro vizinho ao meu. Sentamos na escadaria. Seria o nosso primeiro diálogo. Eu não acreditava que ela estivesse ali, ao meu lado. Ela quieta e eu sem saber o que falar. Abordei o assunto mais inadequado para a ocasião: esoterismo. Perdi a chance. Eu devia ficar calado. O silêncio é de ouro. A timidez me derrotou.
Certa vez (1964) em reunião com outra turma de amigos, todos conversavam ao mesmo tempo, quando Marisa levantou-se da poltrona, arregalou os olhos, abriu os braços e exclamou em voz alta: “o Antoninho é tímido; pessoal, o Antoninho é tíiiimido!” Aquilo me constrangeu. Ela descobrira – não sei como, talvez por eu enrubescer – um traço do meu caráter que a alegria, a boemia e as serestas escondiam. Apesar de aparentar o contrário, eu era tímido, especialmente com mulheres. Nunca mandei flores, presentes, nem fiz gesto ou tomei atitude alguma com o propósito de conquistar mulher, inclusive a minha esposa (e eu já estava com 31 anos de idade quando a namorei). O relacionamento acontecia naturalmente: vencida a timidez inicial, ambos os lados se entendiam.
Em São Paulo, quando eu cursava filosofia do direito (pós-graduação) recorri às artes marciais para vencer a timidez no campo profissional. Tentei não sucumbir diante dos desafios daquela metrópole (1968/1970). Tímido, pobre, moreno e modesto, eu seria engolido pelo desvario daquela cidade se não adquirisse agressividade. Praticando caratê fiquei agressivo e confiante.
Esse perfil me leva a duvidar da existência real daquela cantada a que o Lothar se refere. Não me lembro do ato, nem do relato. Provavelmente, o relato existiu, pois o Lothar nele insiste com firmeza, mas, certamente, o conteúdo do relato terá saído da minha imaginação a título de troça jovial.
Lothar referiu-se a mim como rei do cavaquinho. Contudo, poucas vezes toquei cavaquinho, assim mesmo, por simples divertimento. O meu instrumento sempre foi o violão. Isto lembra um dos maiores vultos da música popular brasileira: tocou cavaquinho, mas seu instrumento principal e preferencial era o violão. No entanto, ficou o apelido: “Nelson do Cavaquinho”. O rei do cavaquinho era Waldir Azevedo; o rei do bandolim era Jacó. Atualmente, existem exímios tocadores de violão, cavaquinho e bandolim.
Fim de noite. Despedidas, promessa de nos reunirmos em Guaratuba. Lina e Janete nos levaram ao hotel. Entreguei a Lina três exemplares do livro “O Evangelho da Irmandade” da minha autoria, para presentear pessoas que gostem do tema. Eu já presenteara Lina e Lothar com um exemplar no dia do aniversário, além do presente trazido pela Jussara.
Sábado. 19/02/2011. 09,00 horas. Lanchamos no hotel. O moço da portaria nos explicou o itinerário até a rodovia Pedro I. Abastecemos o carro no posto da Avenida Moreira Sales e seguimos reto, passamos pelo parque ecológico até a placa indicativa da rodovia. Com a nossa chegada, os cachorros (Pretinho, Bóris, Brigitte e Laika) ficaram alegres e fizeram festa. Voltamos à rotina.

domingo, 6 de março de 2011

VIAGEM2

VIAGEM A CAMPINAS – II.

Na festa realizada na sociedade hípica, conhecemos as filhas, genros, netos e amigos do Lothar. Conversamos mais tempo com uns do que com outros. O Lothar referiu-se a mim como juiz federal. Na verdade, eu sempre fui juiz de direito estadual: primeiro, do Estado do Paraná (1970/1973); depois, do Estado da Guanabara (1973/1975) e por fim, do novo Estado do Rio de Janeiro (1975/1990). Tanto na magistratura do Paraná como na da Guanabara ingressei por aprovação em concurso público. Inscrevi-me no concurso para juiz federal, porém, o concurso da Guanabara saiu antes e eu lhe dei preferência. A confusão do Lothar deve-se a essa minha mobilidade em diferentes Estados da federação.
Aliás, colegas do Paraná afirmavam que eu havia passado em 1° lugar no concurso da Guanabara, sem que eu jamais falasse a respeito. Eles imaginavam e torciam por essa colocação, mas, na verdade, eu passei em 40º lugar. Eu ficaria feliz até com o último lugar, pois centenas de juízes, procuradores, promotores de justiça, defensores públicos e advogados vieram de vários Estados do Brasil, como RS, SP, RJ (antigo), MG, ES, AM, AC, disputar vagas no Estado da Guanabara. Foram aprovados 45. A maioria ficou nas provas escritas. Outros foram eliminados nas provas orais. A magistratura da Guanabara era bem conceituada no país. O Estado era rico e pagava muito bem os juízes. Entrei como juiz substituto ganhando três vezes mais do que ganhava como juiz substituto no Paraná. A banca examinadora era rigorosa e composta de juristas de escol (Ebert Chamoun, Hélio Tornaghi, Oscar Tenório).
A reunião estava animada. Uísque, cerveja, refrigerante, água mineral, à beça. Misturei tudo. Gosto de bebida gelada. A garganta que já não estava boa começou a dar sinais de agravamento. O alimento descia apertado. Jantar muito bom. Exposição de fotografias pelo laptop e projeção em tela, com fundo musical. Foi emocionante. Eu guardo boa lembrança do Lothar, da sua irmã, dos seus pais e da casa deles em Curitiba (apareceram nas fotos). Eles moravam perto da casa da minha irmã Adília. Paralelo às fotos na tela, o filme da minha juventude rodou na superfície da minha mente, projetado do fundo da memória. Imagens de pessoas queridas, vivas e mortas, recordação de episódios, alguns alegres, outros dolorosos, horas difíceis e horas felizes. Um sentimento misto de saudade e tristeza acompanhou a lembrança. Chorei. Jussara me socorreu, gentil e maternamente, preocupada com a minha saúde. Depois, Lothar e eu em pé, lado a lado, ambos com os olhos lacrimejados, ele segurando o copo de uísque, pousa o outro braço no meu ombro. Naquele instante, veio-me a sensação de que éramos dois sobreviventes no oceano da vida.
Impulsivamente, fiz um breve discurso em homenagem ao aniversariante. Era a despedida sem anúncio prévio. Saí da festa à francesa, como disse Larissa, simpática e educada filha do Lothar, no almoço do dia seguinte.
Sexta feira, 18/02/2011. 10,00 horas. Jussara e eu saímos a passear / hora e meia, calmos a folgar / fotografia dela tirei / na praça do coreto e chafariz / atrás o hotel Ibis em que fiquei / à frente o largo da eclesiástica matriz. Versejar também é preciso, meu caro Pessoa. Conhecemos a catedral, abóbada altíssima, altares emoldurados com madeira de lei escura e desenhos entalhados, que produz uma atmosfera pesada no interior da igreja. Lá se encontravam pessoas descansando e orando, idosos a maioria. Tiramos fotografia do exterior. Reserva-se o entorno aos pedestres. Intenso movimento. Entramos no mercado municipal. Transitamos por algum tempo. Retornamos ao hotel, pegamos o violão, alugamos um taxi e fomos para a casa do Lothar. Almoçamos costela bovina, alcatra, salada, sobremesa, vinho, cerveja, refrigerante, água mineral. Conversamos e cantamos (Waldir, Marília, Janete, Jussara, Lina, Lothar). Apesar da garganta adoentada e do rescaldo emocional do dia anterior, consegui cantar músicas da época de solteiro (1955/1970). Depois, assistimos, em DVD, ao excelente espetáculo do violinista holandês André(s) Rieu. Na janta, o mesmo cardápio do almoço (“queima de ossos”) sob a zombaria do Waldir, cujo repertório de piadas é imenso. Foram momentos de descontração, riso e alegria.

sábado, 5 de março de 2011

VIAGEM

VIAGEM A CAMPINAS – I.

Quinta feira. 17/02/2011. 08,10 horas. Manhã ensolarada. Convidados para o aniversário do Lothar (70 anos) Jussara e eu saímos com destino a Campinas. Chegamos por volta das 12,30 horas. Regressamos no dia 19/02/2011, sábado de sol e brancas nuvens. Saímos de Campinas às 10,00 horas e chegamos a Penedo às 14,20 horas. Na ida viajamos pela rodovia Dutra até Jacareí, onde entramos na rodovia Pedro I. Voltamos por essa mesma rodovia, entramos na Carvalho Pinto e fomos até aonde bifurca: à esquerda, Campos do Jordão; à direita, Taubaté, por onde ingressamos na Dutra e prosseguimos até Itatiaia/RJ.
Em Campinas, demoramos um pouco para chegar ao centro da cidade. Aos olhos do adventício, o trânsito é confuso, cheio de entroncamentos e curvas o que torna difícil a orientação, ainda mais quando há campineiro que não sabe informar onde fica o centro da cidade! Hotel bom, com ar condicionado geral, suíte pequena, ducha muito boa com água quente e fria, frigobar abastecido pelo próprio hóspede, serviços gerais satisfatórios, café da manhã padrão (frutas, cereais, queijos, manteiga, geléias, bolos, pães, sucos, café, leite, chocolate). A moça da portaria do hotel nos deu dois cartões eletrônicos para abrirmos a porta do apartamento. Duas diárias de casal, café da manhã, consumo do bar, estacionamento, somaram R$372,00. Não desembolsamos dinheiro. Bastou apresentar um cartão de plástico. Como é bom viver na era tecnológica!
Mal entramos no apartamento, toca o telefone. Era o Lothar. “Dentro de 15 minutos estarei aí para levá-los à minha casa”. Caramba! Ducha rápida. Descemos ao andar térreo no momento em que Lothar passava pela porta do hotel. A porta é mágica. Tão logo a gente se aproxima, ela se abre. Nem precisa dizer “abre-te Sésamo”. Abraçamo-nos, trocamos algumas palavras, entramos no carro dele e partimos. Ao chegarmos, um cachorro pastor alemão, bonito e brabo, veio nos receber. O Lothar o manteve a distância e os latidos cessaram. O cachorro é amestrado e obediente. Gostei dele. Lembrei do Bóris. À porta da sala, a esposa do Lothar nos recebeu com um largo e simpático sorriso. Sentimos que éramos bem-vindos ao lar dos nossos amigos. Lá estavam Larissa (filha do casal) Waldir (amigo de juventude do Lothar), a esposa Marília e a comadre Janete. Almoçamos bacalhau e salada e tomamos vinho, cerveja, refrigerante e água mineral. Sobremesa: torta de morango. Tudo delicioso! Ao entardecer, Jussara e eu voltamos para o hotel. Lothar nos levou. Passamos em frente ao hotel e o perdemos de vista. Mágica do Lothar. Ele colocou disco para ouvirmos música enquanto entrava e saía de ruas e avenidas, subia e descia ladeiras. Quase chegamos a Atibaia. Depois de 600 horas de vôo, ele conseguiu aterrissar em frente ao hotel. Comemoração dos 70 anos!
19,30 horas. A moça da portaria do hotel chamou taxi. Rumamos para a sociedade hípica (a Jussara e eu; a moça ficou no hotel). Começou a chover forte, uma tempestade de vento, raio e trovoada que nos reteve dentro do taxi. Passados alguns minutos, saímos correndo. A chuva não parava e se intensificou novamente. A senhora do restaurante nos emprestou uma barraca de mesa externa a guisa de guarda-chuva para chegarmos ao local da festa, onde ficamos até as 23,00 horas quando, chamado por Jussara, o taxi nos foi buscar.

quinta-feira, 3 de março de 2011

TERAPEUTICA

Cura pela razão e pela fé – Capítulo final.

Vozes recriminadoras e moralizadoras pronunciam o discurso da degradação humana desde os primórdios da civilização. No Médio Império do Egito (2100/1800 a.C.) já se ouvia a censura: o país está mergulhado em um pântano de depravação, corrupção, desonestidade e cobiça. Na Palestina (875/405 a.C.) profetas vituperavam o povo hebreu e seus governantes. Invectivas pelos opróbrios foram lançadas contra pessoas e instituições nas idades Clássica (Grécia e Roma), Média (Europa) e Moderna (Europa e América). O ceticismo, a amargura, a desilusão, o fanatismo, motivam e provocam esse tipo de discurso. Quando saudosista, o discurso considera o passado melhor do que o presente.

Alguns avatares, como Aquenaton, Zaratustra, Sidarta, Lao Tse, Jesus, Maomé, Gandhi, ensinaram fórmulas para a cura dos males denunciados. A fórmula de Jesus alicerça-se no amor: (i) “Amarás o senhor teu deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo teu espírito.” (ii) “Amarás teu próximo como a ti mesmo”. (Mateus 22: 37,39 + Marcos 12: 30,31). Se a pessoa for incapaz desse amor a Deus e a si mesma, será incapaz de amar a natureza e o próximo. Conviverá lastreada exclusivamente nos apetites e no interesse privado, óbice à harmonização e à cura espiritual. Apesar dos milênios da civilização, permanece o dissenso a respeito da imagem e do conceito de Deus. A divergência gerou inimizades, conflitos, perseguições, torturas, prisões, mortes. Diante dessa realidade, cada qual cultuar Deus em seu coração afigura-se mais importante do que buscar um consenso inatingível. Pouco importa se a imagem e o conceito que José faz de Deus seja igual ao de Maria. Importa amar a Deus sincera e profundamente, orar com fervor e se manter vigilante todas as horas. Isto levará à comunhão com Deus. Disto resultará a vacina contra todos os males. Do amor sincero ao próximo pode resultar o saneamento dos distúrbios sociais e individuais. Ama ao próximo como tu mesmo e ambos serão unos em Deus.

Os indivíduos recorrem à medicina alopática e homeopática, psicanálise, fisioterapia, acupuntura, mediunidade espírita, magia indígena, receitas caseiras, na busca de cura para as moléstias físicas e psíquicas. Quanto a debelar as moléstias sociais, a disposição de animo parece menor. Os povos conservam as matrizes da dominação e da agressividade. Há forte resistência, mesmo na cultura tribal, à troca dessas matrizes por outras de espiritualidade lúcida e de convivência fraterna. A doutrina de Jesus, por exemplo, permaneceu no limbo. No solo religioso ocidental floresceu a doutrina de Paulo, gerada naquelas matrizes. Espantoso como um livro, a Bíblia Hebraica (ou Antigo Testamento, na terminologia da igreja “cristã”), que brotou da imaginação de um escritor judeu (Esdras) no século IV a.C (400/301) influiu na civilização ocidental tanto quanto a herança cultural transmitida pelos egípcios, caldeus, gregos e romanos!

A influência desse livro seria menor se Jesus não o tivesse citado, se não houvesse referência nas epístolas e nos evangelhos. O histórico fato indica a inclinação dos povos à fantasia. Diante das asperezas da vida, refugiam-se na ilusão. O medo, a ignorância, a tradição, o comodismo, a via do menor esforço, a preguiça mental, a ausência de crítica, são válvulas de fuga. Os véus do engodo substituem a crua realidade. Justificativa comum: “não gosto de política e religião não se discute”. Essa cômoda abstenção favorece aos profissionais da política e da religião que, assim, encontram o terreno lavrado para as sementes do autoritarismo e da exploração. Nesse contexto, o povo é nivelado a rebanho. Os brasileiros têm uma expressão jocosa para essa passiva disposição de espírito: “me engana que eu gosto”.

Parcela da humanidade mostra-se ora renitente, ora reticente, dominada pelos donos do poder espiritual (padres, pastores, missionários, rabinos, aiatolás, gurus) e pelos donos do poder secular (industriais, comerciantes, agropecuaristas, políticos) interessados em conservar as matrizes que os beneficiam. No Ocidente, outra parcela da humanidade reagiu nos anos 60 e seguintes do século XX: emancipação da mulher, do negro, dos indígenas e dos homossexuais; quebra de tabus, liberação sexual, consumo de drogas, rechaço aos costumes das gerações anteriores; arte popular valorizada (teatro, música, folclore); modelo consensual na família e na escola (alternativa ao modelo patriarcal e autocrático); recusa dos jovens de participar da guerra; pacifismo de Jesus e Gandhi (paz e amor nas relações humanas, solução pacífica das controvérsias nacionais e internacionais, fim da guerra fria); esforços conjuntos na conquista espacial em lugar da disputa por hegemonia; união dos países europeus historicamente inimigos; ecumenismo, cooperação entre os povos visando: (i) progresso da humanidade (ii) erradicar a fome (iii) socorrer flagelados (iv) reduzir desigualdades (v) defender o planeta contra a poluição (buscar fontes de energia limpa, executar medidas preservacionistas).

O que parecia utópico verificou-se factível: mudança de paradigma no mundo. Esse processo ainda enfrenta pesados entraves. A conferência mundial para defesa do clima no planeta realizada no Japão (Kyoto, 1997) colocou a descoberto o desinteresse de algumas nações pela cura das doenças coletivas. A redução das fontes de poluição não interessa aos países industrializados. A distribuição equitativa dos recursos naturais não interessa a algumas nações. A paz não interessa à indústria de material bélico. A cura pela raiz não interessa à indústria farmacêutica. Há governos interessados em provocar conflitos, invadir e controlar outros países. Há governantes empenhados em abarrotar de dinheiro os seus cofres particulares sem se importarem com a penúria do povo. Há padres, pastores, missionários, rabinos, aiatolás, gurus, que buscam o seu próprio enriquecimento e lesam a boa fé dos crentes com as falsidades da tradição, do milagre, das promessas de salvação e outras fraudes ensejadas pelas escrituras “sagradas”.

Abrir as portas do coração a Deus, sem intermediários, sem idéias vãs, sem crenças ilusórias, sem procedimentos coercitivos, possibilita entendimento e fraterna convivência quer entre pessoas, quer entre nações.

terça-feira, 1 de março de 2011

TERAPEUTICA

Cura pela razão e pela fé – X.

A cura dos males da humanidade exige mudança da ótica mecanicista para a holística, o que já vem acontecendo graças à expansão da consciência ecológica. Até o século XVI (1501/1600) a economia não estava isolada da estrutura da vida social e política, nem havia sistema nacional de mercado. A corrente iluminista e a revolução científica abriram caminho à economia moderna: empirismo + materialismo + individualismo + pragmatismo + raciocínio crítico. No atual século XXI (2001/2100) parcela da humanidade reage a esse modelo que se mostrou insalubre, inconveniente, gerou graves distúrbios ecológicos, biológicos, psíquicos e sociais em todo o orbe.

Agir efetivamente após essa tomada de consciência implica substituir gradualmente o modelo competitivo por cooperativo, o cartesiano pelo holístico. A cura dos males sociais e individuais depende dos recursos da ciência e da espiritualidade aplicados segundo uma visão holística. O modo de vida gerado por um sistema social e econômico tem reflexos na saúde do povo. Poluição, droga, crime, violência, corrupção, prostituição, licenciosidade, miséria, fome, são distúrbios decorrentes do sistema. Na esfera individual, o sistema gera doenças somáticas e psíquicas; alguns remédios têm efeitos colaterais mais nocivos do que a doença que combatem; à indústria farmacêutica só interessa o lucro e o crescimento do mercado consumidor. Se a geratriz dos distúrbios não mudar, o estado mórbido persistirá.

Vida saudável implica harmonia entre: (i) as partes internas do corpo; (ii) a mente e o corpo; (iii) o organismo e o ambiente natural; (iv) os membros da comunidade nacional; (v) as nações do mundo; (vi) a humanidade e a dimensão espiritual do universo.

Essa harmonia implica efetiva preservação da dignidade humana. Não haverá harmonia, paz, fraternidade, enquanto: (i) os direitos fundamentais do ser humano não forem reconhecidos e respeitados; (ii) as potencialidades físicas, intelectuais e espirituais do ser humano não puderem ser atualizadas; (iii) houver nacionalismos exacerbados e governantes tirânicos ou desonestos (iv) a força e a violência forem os meios empregados para solucionar divergências ou submeter pessoas e nações; (v) a natalidade continuar sem controle; (vi) o risco de uma hecatombe nuclear não for eliminado; (vii) as fontes de energia não forem acessíveis a todos os povos; (viii) os benefícios da civilização não forem distribuídos equitativamente a toda a humanidade; (ix) a espiritualidade estiver ausente das relações humanas; (x) a competição prevalecer sobre a compaixão.

No que concerne à harmonização espiritual, a cura dos males depende da fé que desloca montanha (Marcos 11: 22/23 + Lucas 17: 6). Nesse estágio, a fonte curadora é a mente divina presente em cada ser da natureza. Fé intensa libera substâncias regeneradoras no organismo. A pessoa pode ignorar esse mecanismo e assim mesmo a cura se realizar. Isto significa que a importância maior para a cura é a crença inabalável em Deus, no governo do universo pela mente divina, no poder regenerador dessa mente.

Na busca da pedra fundamental da matéria, a ciência mergulhou no átomo, encontrou o elétron e o núcleo. No interior do núcleo encontrou elementos, uns gerando os outros, ora como partículas, ora como ondas. As causas não foram identificadas, inclusive a do salto do elétron de uma órbita a outra no interior do átomo. Segundo uma das teorias dos físicos contemporâneos, esses elementos se organizam de modo autônomo e inteligente. Nesse universo microscópico o caos aparente oculta certa ordem (ou certos padrões). Não há pedra fundamental e sim processos ordenadores de energia. Os místicos aí identificarão a incidência da mente divina, presente e atuante em cada átomo, molécula, célula, tecido e órgão do corpo. Colocar-se em harmonia com essa mente é elevar-se a um estado de consciência incomum. Deixando-se absorver na mente divina o paciente se mantém vivo e se livra da doença, ainda que a ciência a considere incurável. Para a mente divina, nenhum mal é incurável. “O que é impossível aos homens é possível a Deus” (Lucas 18: 27).

Dir-se-á que esse poder da mente divina traria vida eterna ao ser humano. Hipótese atraente, mas irreal. Esse poder traz vida longa, mas não eterna. O que no mundo natural nasce no mundo natural perece. Essa é a lei. Todo corpo físico se desgasta, muda de forma até se tornar energia incorpórea, variando apenas a duração. Ninguém sobe aos céus com o corpo, nem Elias, nem Jesus, ou qualquer outro, salvo em aeronave. A cura divina permite que a vida humana, no estrito significado biológico, termine – não por doença – e sim por desgaste do corpo decorrente do seu ininterrupto funcionamento.

Sem livrar-se das fantasias contidas nos textos religiosos, sem escapar do estelionato praticado por rabinos, aiatolás, gurus, padres, pastores, missionários, sem desvelar a propaganda enganosa, sem resistir à coação moral imposta pelas instituições religiosas, sem encarar a realidade social e a hipocrisia política, a civilização ocidental continuará vítima dos males resultantes dessa omissão.

A liberdade de pensamento desconforta os profissionais da exploração religiosa. O exame das escrituras fora do clero é visto como heresia. Os profissionais da fé religiosa incutem medo no espírito dos fiéis. Estes são ameaçados com a ira divina e castigos imaginados pelos espertos escritores dos textos religiosos que se dizem inspirados por Deus. Desvirtuam a religiosidade e mantêm o rebanho na ignorância. Rabinos, aiatolás, gurus, padres, pastores, missionários, passaram à categoria de estelionatários e os crentes à categoria de otários. A cega fé dos otários favorece a safadeza dos estelionatários.

A asfixia da voz de Cristo, a que aludiu o papa Bento XVI, não ocorreu agora, na sociedade contemporânea. Começou com Paulo, na aurora do movimento cristão e prosseguiu nos concílios. Ao se institucionalizar, a igreja calou a voz de Cristo. A igreja ecoa a voz farisaica de Paulo e não a voz cristã de Jesus.