segunda-feira, 7 de março de 2011

VIAGEM3

VIAGEM A CAMPINAS – Final.

Lothar, de bom humor, referiu-se algumas vezes ao seguinte episódio: em uma festa da TM (= Turma de Merda) em Curitiba, quando éramos jovens e solteiros, com algumas cervejas no caco, eu dissera que ele podia casar com a namorada (hoje, sua esposa), pois eu acabara de lhe dar uma baita cantada e ela resistira. A primeira parte da narrativa provavelmente ocorreu. Creio que ao inventar a cantada, eu testava a reação do Lothar. A segunda parte da narrativa me parece improvável por motivos óbvios: (i) eu jamais cantei mulher alguma, pois eu era avesso a esse tipo de conduta; (ii) cantar ou namorar irmãs ou namoradas dos meus amigos nunca fez parte dos meus costumes; (iii) eu era tímido.
Em pleno carnaval (1958) na sede do Coritiba FC, eu brinquei com uma garota que há muito tempo admirava. Ela morava no bairro vizinho ao meu. Sentamos na escadaria. Seria o nosso primeiro diálogo. Eu não acreditava que ela estivesse ali, ao meu lado. Ela quieta e eu sem saber o que falar. Abordei o assunto mais inadequado para a ocasião: esoterismo. Perdi a chance. Eu devia ficar calado. O silêncio é de ouro. A timidez me derrotou.
Certa vez (1964) em reunião com outra turma de amigos, todos conversavam ao mesmo tempo, quando Marisa levantou-se da poltrona, arregalou os olhos, abriu os braços e exclamou em voz alta: “o Antoninho é tímido; pessoal, o Antoninho é tíiiimido!” Aquilo me constrangeu. Ela descobrira – não sei como, talvez por eu enrubescer – um traço do meu caráter que a alegria, a boemia e as serestas escondiam. Apesar de aparentar o contrário, eu era tímido, especialmente com mulheres. Nunca mandei flores, presentes, nem fiz gesto ou tomei atitude alguma com o propósito de conquistar mulher, inclusive a minha esposa (e eu já estava com 31 anos de idade quando a namorei). O relacionamento acontecia naturalmente: vencida a timidez inicial, ambos os lados se entendiam.
Em São Paulo, quando eu cursava filosofia do direito (pós-graduação) recorri às artes marciais para vencer a timidez no campo profissional. Tentei não sucumbir diante dos desafios daquela metrópole (1968/1970). Tímido, pobre, moreno e modesto, eu seria engolido pelo desvario daquela cidade se não adquirisse agressividade. Praticando caratê fiquei agressivo e confiante.
Esse perfil me leva a duvidar da existência real daquela cantada a que o Lothar se refere. Não me lembro do ato, nem do relato. Provavelmente, o relato existiu, pois o Lothar nele insiste com firmeza, mas, certamente, o conteúdo do relato terá saído da minha imaginação a título de troça jovial.
Lothar referiu-se a mim como rei do cavaquinho. Contudo, poucas vezes toquei cavaquinho, assim mesmo, por simples divertimento. O meu instrumento sempre foi o violão. Isto lembra um dos maiores vultos da música popular brasileira: tocou cavaquinho, mas seu instrumento principal e preferencial era o violão. No entanto, ficou o apelido: “Nelson do Cavaquinho”. O rei do cavaquinho era Waldir Azevedo; o rei do bandolim era Jacó. Atualmente, existem exímios tocadores de violão, cavaquinho e bandolim.
Fim de noite. Despedidas, promessa de nos reunirmos em Guaratuba. Lina e Janete nos levaram ao hotel. Entreguei a Lina três exemplares do livro “O Evangelho da Irmandade” da minha autoria, para presentear pessoas que gostem do tema. Eu já presenteara Lina e Lothar com um exemplar no dia do aniversário, além do presente trazido pela Jussara.
Sábado. 19/02/2011. 09,00 horas. Lanchamos no hotel. O moço da portaria nos explicou o itinerário até a rodovia Pedro I. Abastecemos o carro no posto da Avenida Moreira Sales e seguimos reto, passamos pelo parque ecológico até a placa indicativa da rodovia. Com a nossa chegada, os cachorros (Pretinho, Bóris, Brigitte e Laika) ficaram alegres e fizeram festa. Voltamos à rotina.

domingo, 6 de março de 2011

VIAGEM2

VIAGEM A CAMPINAS – II.

Na festa realizada na sociedade hípica, conhecemos as filhas, genros, netos e amigos do Lothar. Conversamos mais tempo com uns do que com outros. O Lothar referiu-se a mim como juiz federal. Na verdade, eu sempre fui juiz de direito estadual: primeiro, do Estado do Paraná (1970/1973); depois, do Estado da Guanabara (1973/1975) e por fim, do novo Estado do Rio de Janeiro (1975/1990). Tanto na magistratura do Paraná como na da Guanabara ingressei por aprovação em concurso público. Inscrevi-me no concurso para juiz federal, porém, o concurso da Guanabara saiu antes e eu lhe dei preferência. A confusão do Lothar deve-se a essa minha mobilidade em diferentes Estados da federação.
Aliás, colegas do Paraná afirmavam que eu havia passado em 1° lugar no concurso da Guanabara, sem que eu jamais falasse a respeito. Eles imaginavam e torciam por essa colocação, mas, na verdade, eu passei em 40º lugar. Eu ficaria feliz até com o último lugar, pois centenas de juízes, procuradores, promotores de justiça, defensores públicos e advogados vieram de vários Estados do Brasil, como RS, SP, RJ (antigo), MG, ES, AM, AC, disputar vagas no Estado da Guanabara. Foram aprovados 45. A maioria ficou nas provas escritas. Outros foram eliminados nas provas orais. A magistratura da Guanabara era bem conceituada no país. O Estado era rico e pagava muito bem os juízes. Entrei como juiz substituto ganhando três vezes mais do que ganhava como juiz substituto no Paraná. A banca examinadora era rigorosa e composta de juristas de escol (Ebert Chamoun, Hélio Tornaghi, Oscar Tenório).
A reunião estava animada. Uísque, cerveja, refrigerante, água mineral, à beça. Misturei tudo. Gosto de bebida gelada. A garganta que já não estava boa começou a dar sinais de agravamento. O alimento descia apertado. Jantar muito bom. Exposição de fotografias pelo laptop e projeção em tela, com fundo musical. Foi emocionante. Eu guardo boa lembrança do Lothar, da sua irmã, dos seus pais e da casa deles em Curitiba (apareceram nas fotos). Eles moravam perto da casa da minha irmã Adília. Paralelo às fotos na tela, o filme da minha juventude rodou na superfície da minha mente, projetado do fundo da memória. Imagens de pessoas queridas, vivas e mortas, recordação de episódios, alguns alegres, outros dolorosos, horas difíceis e horas felizes. Um sentimento misto de saudade e tristeza acompanhou a lembrança. Chorei. Jussara me socorreu, gentil e maternamente, preocupada com a minha saúde. Depois, Lothar e eu em pé, lado a lado, ambos com os olhos lacrimejados, ele segurando o copo de uísque, pousa o outro braço no meu ombro. Naquele instante, veio-me a sensação de que éramos dois sobreviventes no oceano da vida.
Impulsivamente, fiz um breve discurso em homenagem ao aniversariante. Era a despedida sem anúncio prévio. Saí da festa à francesa, como disse Larissa, simpática e educada filha do Lothar, no almoço do dia seguinte.
Sexta feira, 18/02/2011. 10,00 horas. Jussara e eu saímos a passear / hora e meia, calmos a folgar / fotografia dela tirei / na praça do coreto e chafariz / atrás o hotel Ibis em que fiquei / à frente o largo da eclesiástica matriz. Versejar também é preciso, meu caro Pessoa. Conhecemos a catedral, abóbada altíssima, altares emoldurados com madeira de lei escura e desenhos entalhados, que produz uma atmosfera pesada no interior da igreja. Lá se encontravam pessoas descansando e orando, idosos a maioria. Tiramos fotografia do exterior. Reserva-se o entorno aos pedestres. Intenso movimento. Entramos no mercado municipal. Transitamos por algum tempo. Retornamos ao hotel, pegamos o violão, alugamos um taxi e fomos para a casa do Lothar. Almoçamos costela bovina, alcatra, salada, sobremesa, vinho, cerveja, refrigerante, água mineral. Conversamos e cantamos (Waldir, Marília, Janete, Jussara, Lina, Lothar). Apesar da garganta adoentada e do rescaldo emocional do dia anterior, consegui cantar músicas da época de solteiro (1955/1970). Depois, assistimos, em DVD, ao excelente espetáculo do violinista holandês André(s) Rieu. Na janta, o mesmo cardápio do almoço (“queima de ossos”) sob a zombaria do Waldir, cujo repertório de piadas é imenso. Foram momentos de descontração, riso e alegria.

sábado, 5 de março de 2011

VIAGEM

VIAGEM A CAMPINAS – I.

Quinta feira. 17/02/2011. 08,10 horas. Manhã ensolarada. Convidados para o aniversário do Lothar (70 anos) Jussara e eu saímos com destino a Campinas. Chegamos por volta das 12,30 horas. Regressamos no dia 19/02/2011, sábado de sol e brancas nuvens. Saímos de Campinas às 10,00 horas e chegamos a Penedo às 14,20 horas. Na ida viajamos pela rodovia Dutra até Jacareí, onde entramos na rodovia Pedro I. Voltamos por essa mesma rodovia, entramos na Carvalho Pinto e fomos até aonde bifurca: à esquerda, Campos do Jordão; à direita, Taubaté, por onde ingressamos na Dutra e prosseguimos até Itatiaia/RJ.
Em Campinas, demoramos um pouco para chegar ao centro da cidade. Aos olhos do adventício, o trânsito é confuso, cheio de entroncamentos e curvas o que torna difícil a orientação, ainda mais quando há campineiro que não sabe informar onde fica o centro da cidade! Hotel bom, com ar condicionado geral, suíte pequena, ducha muito boa com água quente e fria, frigobar abastecido pelo próprio hóspede, serviços gerais satisfatórios, café da manhã padrão (frutas, cereais, queijos, manteiga, geléias, bolos, pães, sucos, café, leite, chocolate). A moça da portaria do hotel nos deu dois cartões eletrônicos para abrirmos a porta do apartamento. Duas diárias de casal, café da manhã, consumo do bar, estacionamento, somaram R$372,00. Não desembolsamos dinheiro. Bastou apresentar um cartão de plástico. Como é bom viver na era tecnológica!
Mal entramos no apartamento, toca o telefone. Era o Lothar. “Dentro de 15 minutos estarei aí para levá-los à minha casa”. Caramba! Ducha rápida. Descemos ao andar térreo no momento em que Lothar passava pela porta do hotel. A porta é mágica. Tão logo a gente se aproxima, ela se abre. Nem precisa dizer “abre-te Sésamo”. Abraçamo-nos, trocamos algumas palavras, entramos no carro dele e partimos. Ao chegarmos, um cachorro pastor alemão, bonito e brabo, veio nos receber. O Lothar o manteve a distância e os latidos cessaram. O cachorro é amestrado e obediente. Gostei dele. Lembrei do Bóris. À porta da sala, a esposa do Lothar nos recebeu com um largo e simpático sorriso. Sentimos que éramos bem-vindos ao lar dos nossos amigos. Lá estavam Larissa (filha do casal) Waldir (amigo de juventude do Lothar), a esposa Marília e a comadre Janete. Almoçamos bacalhau e salada e tomamos vinho, cerveja, refrigerante e água mineral. Sobremesa: torta de morango. Tudo delicioso! Ao entardecer, Jussara e eu voltamos para o hotel. Lothar nos levou. Passamos em frente ao hotel e o perdemos de vista. Mágica do Lothar. Ele colocou disco para ouvirmos música enquanto entrava e saía de ruas e avenidas, subia e descia ladeiras. Quase chegamos a Atibaia. Depois de 600 horas de vôo, ele conseguiu aterrissar em frente ao hotel. Comemoração dos 70 anos!
19,30 horas. A moça da portaria do hotel chamou taxi. Rumamos para a sociedade hípica (a Jussara e eu; a moça ficou no hotel). Começou a chover forte, uma tempestade de vento, raio e trovoada que nos reteve dentro do taxi. Passados alguns minutos, saímos correndo. A chuva não parava e se intensificou novamente. A senhora do restaurante nos emprestou uma barraca de mesa externa a guisa de guarda-chuva para chegarmos ao local da festa, onde ficamos até as 23,00 horas quando, chamado por Jussara, o taxi nos foi buscar.

quinta-feira, 3 de março de 2011

TERAPEUTICA

Cura pela razão e pela fé – Capítulo final.

Vozes recriminadoras e moralizadoras pronunciam o discurso da degradação humana desde os primórdios da civilização. No Médio Império do Egito (2100/1800 a.C.) já se ouvia a censura: o país está mergulhado em um pântano de depravação, corrupção, desonestidade e cobiça. Na Palestina (875/405 a.C.) profetas vituperavam o povo hebreu e seus governantes. Invectivas pelos opróbrios foram lançadas contra pessoas e instituições nas idades Clássica (Grécia e Roma), Média (Europa) e Moderna (Europa e América). O ceticismo, a amargura, a desilusão, o fanatismo, motivam e provocam esse tipo de discurso. Quando saudosista, o discurso considera o passado melhor do que o presente.

Alguns avatares, como Aquenaton, Zaratustra, Sidarta, Lao Tse, Jesus, Maomé, Gandhi, ensinaram fórmulas para a cura dos males denunciados. A fórmula de Jesus alicerça-se no amor: (i) “Amarás o senhor teu deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo teu espírito.” (ii) “Amarás teu próximo como a ti mesmo”. (Mateus 22: 37,39 + Marcos 12: 30,31). Se a pessoa for incapaz desse amor a Deus e a si mesma, será incapaz de amar a natureza e o próximo. Conviverá lastreada exclusivamente nos apetites e no interesse privado, óbice à harmonização e à cura espiritual. Apesar dos milênios da civilização, permanece o dissenso a respeito da imagem e do conceito de Deus. A divergência gerou inimizades, conflitos, perseguições, torturas, prisões, mortes. Diante dessa realidade, cada qual cultuar Deus em seu coração afigura-se mais importante do que buscar um consenso inatingível. Pouco importa se a imagem e o conceito que José faz de Deus seja igual ao de Maria. Importa amar a Deus sincera e profundamente, orar com fervor e se manter vigilante todas as horas. Isto levará à comunhão com Deus. Disto resultará a vacina contra todos os males. Do amor sincero ao próximo pode resultar o saneamento dos distúrbios sociais e individuais. Ama ao próximo como tu mesmo e ambos serão unos em Deus.

Os indivíduos recorrem à medicina alopática e homeopática, psicanálise, fisioterapia, acupuntura, mediunidade espírita, magia indígena, receitas caseiras, na busca de cura para as moléstias físicas e psíquicas. Quanto a debelar as moléstias sociais, a disposição de animo parece menor. Os povos conservam as matrizes da dominação e da agressividade. Há forte resistência, mesmo na cultura tribal, à troca dessas matrizes por outras de espiritualidade lúcida e de convivência fraterna. A doutrina de Jesus, por exemplo, permaneceu no limbo. No solo religioso ocidental floresceu a doutrina de Paulo, gerada naquelas matrizes. Espantoso como um livro, a Bíblia Hebraica (ou Antigo Testamento, na terminologia da igreja “cristã”), que brotou da imaginação de um escritor judeu (Esdras) no século IV a.C (400/301) influiu na civilização ocidental tanto quanto a herança cultural transmitida pelos egípcios, caldeus, gregos e romanos!

A influência desse livro seria menor se Jesus não o tivesse citado, se não houvesse referência nas epístolas e nos evangelhos. O histórico fato indica a inclinação dos povos à fantasia. Diante das asperezas da vida, refugiam-se na ilusão. O medo, a ignorância, a tradição, o comodismo, a via do menor esforço, a preguiça mental, a ausência de crítica, são válvulas de fuga. Os véus do engodo substituem a crua realidade. Justificativa comum: “não gosto de política e religião não se discute”. Essa cômoda abstenção favorece aos profissionais da política e da religião que, assim, encontram o terreno lavrado para as sementes do autoritarismo e da exploração. Nesse contexto, o povo é nivelado a rebanho. Os brasileiros têm uma expressão jocosa para essa passiva disposição de espírito: “me engana que eu gosto”.

Parcela da humanidade mostra-se ora renitente, ora reticente, dominada pelos donos do poder espiritual (padres, pastores, missionários, rabinos, aiatolás, gurus) e pelos donos do poder secular (industriais, comerciantes, agropecuaristas, políticos) interessados em conservar as matrizes que os beneficiam. No Ocidente, outra parcela da humanidade reagiu nos anos 60 e seguintes do século XX: emancipação da mulher, do negro, dos indígenas e dos homossexuais; quebra de tabus, liberação sexual, consumo de drogas, rechaço aos costumes das gerações anteriores; arte popular valorizada (teatro, música, folclore); modelo consensual na família e na escola (alternativa ao modelo patriarcal e autocrático); recusa dos jovens de participar da guerra; pacifismo de Jesus e Gandhi (paz e amor nas relações humanas, solução pacífica das controvérsias nacionais e internacionais, fim da guerra fria); esforços conjuntos na conquista espacial em lugar da disputa por hegemonia; união dos países europeus historicamente inimigos; ecumenismo, cooperação entre os povos visando: (i) progresso da humanidade (ii) erradicar a fome (iii) socorrer flagelados (iv) reduzir desigualdades (v) defender o planeta contra a poluição (buscar fontes de energia limpa, executar medidas preservacionistas).

O que parecia utópico verificou-se factível: mudança de paradigma no mundo. Esse processo ainda enfrenta pesados entraves. A conferência mundial para defesa do clima no planeta realizada no Japão (Kyoto, 1997) colocou a descoberto o desinteresse de algumas nações pela cura das doenças coletivas. A redução das fontes de poluição não interessa aos países industrializados. A distribuição equitativa dos recursos naturais não interessa a algumas nações. A paz não interessa à indústria de material bélico. A cura pela raiz não interessa à indústria farmacêutica. Há governos interessados em provocar conflitos, invadir e controlar outros países. Há governantes empenhados em abarrotar de dinheiro os seus cofres particulares sem se importarem com a penúria do povo. Há padres, pastores, missionários, rabinos, aiatolás, gurus, que buscam o seu próprio enriquecimento e lesam a boa fé dos crentes com as falsidades da tradição, do milagre, das promessas de salvação e outras fraudes ensejadas pelas escrituras “sagradas”.

Abrir as portas do coração a Deus, sem intermediários, sem idéias vãs, sem crenças ilusórias, sem procedimentos coercitivos, possibilita entendimento e fraterna convivência quer entre pessoas, quer entre nações.

terça-feira, 1 de março de 2011

TERAPEUTICA

Cura pela razão e pela fé – X.

A cura dos males da humanidade exige mudança da ótica mecanicista para a holística, o que já vem acontecendo graças à expansão da consciência ecológica. Até o século XVI (1501/1600) a economia não estava isolada da estrutura da vida social e política, nem havia sistema nacional de mercado. A corrente iluminista e a revolução científica abriram caminho à economia moderna: empirismo + materialismo + individualismo + pragmatismo + raciocínio crítico. No atual século XXI (2001/2100) parcela da humanidade reage a esse modelo que se mostrou insalubre, inconveniente, gerou graves distúrbios ecológicos, biológicos, psíquicos e sociais em todo o orbe.

Agir efetivamente após essa tomada de consciência implica substituir gradualmente o modelo competitivo por cooperativo, o cartesiano pelo holístico. A cura dos males sociais e individuais depende dos recursos da ciência e da espiritualidade aplicados segundo uma visão holística. O modo de vida gerado por um sistema social e econômico tem reflexos na saúde do povo. Poluição, droga, crime, violência, corrupção, prostituição, licenciosidade, miséria, fome, são distúrbios decorrentes do sistema. Na esfera individual, o sistema gera doenças somáticas e psíquicas; alguns remédios têm efeitos colaterais mais nocivos do que a doença que combatem; à indústria farmacêutica só interessa o lucro e o crescimento do mercado consumidor. Se a geratriz dos distúrbios não mudar, o estado mórbido persistirá.

Vida saudável implica harmonia entre: (i) as partes internas do corpo; (ii) a mente e o corpo; (iii) o organismo e o ambiente natural; (iv) os membros da comunidade nacional; (v) as nações do mundo; (vi) a humanidade e a dimensão espiritual do universo.

Essa harmonia implica efetiva preservação da dignidade humana. Não haverá harmonia, paz, fraternidade, enquanto: (i) os direitos fundamentais do ser humano não forem reconhecidos e respeitados; (ii) as potencialidades físicas, intelectuais e espirituais do ser humano não puderem ser atualizadas; (iii) houver nacionalismos exacerbados e governantes tirânicos ou desonestos (iv) a força e a violência forem os meios empregados para solucionar divergências ou submeter pessoas e nações; (v) a natalidade continuar sem controle; (vi) o risco de uma hecatombe nuclear não for eliminado; (vii) as fontes de energia não forem acessíveis a todos os povos; (viii) os benefícios da civilização não forem distribuídos equitativamente a toda a humanidade; (ix) a espiritualidade estiver ausente das relações humanas; (x) a competição prevalecer sobre a compaixão.

No que concerne à harmonização espiritual, a cura dos males depende da fé que desloca montanha (Marcos 11: 22/23 + Lucas 17: 6). Nesse estágio, a fonte curadora é a mente divina presente em cada ser da natureza. Fé intensa libera substâncias regeneradoras no organismo. A pessoa pode ignorar esse mecanismo e assim mesmo a cura se realizar. Isto significa que a importância maior para a cura é a crença inabalável em Deus, no governo do universo pela mente divina, no poder regenerador dessa mente.

Na busca da pedra fundamental da matéria, a ciência mergulhou no átomo, encontrou o elétron e o núcleo. No interior do núcleo encontrou elementos, uns gerando os outros, ora como partículas, ora como ondas. As causas não foram identificadas, inclusive a do salto do elétron de uma órbita a outra no interior do átomo. Segundo uma das teorias dos físicos contemporâneos, esses elementos se organizam de modo autônomo e inteligente. Nesse universo microscópico o caos aparente oculta certa ordem (ou certos padrões). Não há pedra fundamental e sim processos ordenadores de energia. Os místicos aí identificarão a incidência da mente divina, presente e atuante em cada átomo, molécula, célula, tecido e órgão do corpo. Colocar-se em harmonia com essa mente é elevar-se a um estado de consciência incomum. Deixando-se absorver na mente divina o paciente se mantém vivo e se livra da doença, ainda que a ciência a considere incurável. Para a mente divina, nenhum mal é incurável. “O que é impossível aos homens é possível a Deus” (Lucas 18: 27).

Dir-se-á que esse poder da mente divina traria vida eterna ao ser humano. Hipótese atraente, mas irreal. Esse poder traz vida longa, mas não eterna. O que no mundo natural nasce no mundo natural perece. Essa é a lei. Todo corpo físico se desgasta, muda de forma até se tornar energia incorpórea, variando apenas a duração. Ninguém sobe aos céus com o corpo, nem Elias, nem Jesus, ou qualquer outro, salvo em aeronave. A cura divina permite que a vida humana, no estrito significado biológico, termine – não por doença – e sim por desgaste do corpo decorrente do seu ininterrupto funcionamento.

Sem livrar-se das fantasias contidas nos textos religiosos, sem escapar do estelionato praticado por rabinos, aiatolás, gurus, padres, pastores, missionários, sem desvelar a propaganda enganosa, sem resistir à coação moral imposta pelas instituições religiosas, sem encarar a realidade social e a hipocrisia política, a civilização ocidental continuará vítima dos males resultantes dessa omissão.

A liberdade de pensamento desconforta os profissionais da exploração religiosa. O exame das escrituras fora do clero é visto como heresia. Os profissionais da fé religiosa incutem medo no espírito dos fiéis. Estes são ameaçados com a ira divina e castigos imaginados pelos espertos escritores dos textos religiosos que se dizem inspirados por Deus. Desvirtuam a religiosidade e mantêm o rebanho na ignorância. Rabinos, aiatolás, gurus, padres, pastores, missionários, passaram à categoria de estelionatários e os crentes à categoria de otários. A cega fé dos otários favorece a safadeza dos estelionatários.

A asfixia da voz de Cristo, a que aludiu o papa Bento XVI, não ocorreu agora, na sociedade contemporânea. Começou com Paulo, na aurora do movimento cristão e prosseguiu nos concílios. Ao se institucionalizar, a igreja calou a voz de Cristo. A igreja ecoa a voz farisaica de Paulo e não a voz cristã de Jesus.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

TERAPEUTICA

Cura pela razão e pela fé – IX.

O sítio do “Le Monde”, na rede mundial de computadores, divulgou a síntese da encíclica Fides et Ratio, do papa João Paulo II (final de 2008 ou início de 2009). O sumo pontífice manifestava a esperança de reaproximar da religião católica, a filosofia e a ciência, sem prejuízo das respectivas autonomias. O papa se opunha ao positivismo, pragmatismo, historicismo e ao niilismo filosófico e científico, por incompatíveis com a crença em valores universais, absolutos e perenes. Revelava preocupação com a dissolução dos costumes e com todos os males da civilização gerados pelo moderno e equivocado divórcio entre a fé e a razão. A mensagem do papa enseja algumas ponderações.

A separação entre fé e razão constitui problema religioso e filosófico na civilização ocidental cristã. Os povos orientais (salvo os islamitas) influenciados pelo hinduísmo e pelo budismo tiram lições de vida observando a natureza e utilizando vias racionais e emocionais. Os indivíduos consideram-se parte de uma unidade transcendental e vivem a comunhão social como reflexo da lei divina. Isto ajuda a fortalecer a coesão na família e na sociedade; facilita a disciplina social e a realização dos objetivos do Estado. Os povos ocidentais, influenciados pelo judaísmo cristão ou cristianismo judeu, criado por Paulo e sua igreja, colocam ênfase no valor da pessoa natural (primazia do macho) com destino singular no mundo. Essa atitude propicia o individualismo e a separação entre fé e razão, entre igreja e comunidade científica.

A filosofia perene, substrato dos ensinamentos das escolas de mistérios antigas e modernas (rosacruzes, maçons, pitagóricos) com raízes egípcias, caldéias, babilônicas, hebraicas e gregas, coloca em plena harmonia as dimensões instintiva, emocional e racional do ser humano. Para os adeptos dessas escolas, a separação entre fé e razão não chega a ser um problema. Acreditam na existência de um ser divino a quem denominam Deus, Absoluto, Grande Arquiteto do Universo. A razão é a base e o ponto de partida para a busca das verdades espirituais. Cultivando-a, os adeptos procuram conhecer a si próprios e ao mundo em que vivem. Em sintonia com a natureza, aceitam o seu corpo sem desprezá-lo, e os instintos, sem pervertê-los. Servem-se do método racional. Vencida a etapa racional, garimpam novas respostas através da oração, da meditação, da harmonização com o divino, pelos caminhos da fé, certos de que trilharão a senda espiritual e alcançarão a luz maior se houver merecimento, sincero e persistente esforço para a compreensão de si mesmos e do mundo.

Segundo a lenda, Lavoisier costumava, antes de entrar no laboratório, depositar a bíblia no vestíbulo, artifício para não misturar a sua fé religiosa à sua fé na ciência. Norbert Wiener afirma que a ciência repousa na fé, embora fé não religiosa (“Sociedade e Cibernética”). Em abono à sua tese, o renomado cientista diz que não se pode demonstrar cientificamente: (i) que a probabilidade seja uma noção válida; (ii) que a natureza esteja submetida a leis. Diz, ainda, que podemos nos servir da lógica indutiva de Francis Bacon, porém, não podemos provar indutivamente as suas leis. Agir com base nessa lógica, constitui ato de fé. E arremata: “A ciência é um modo de vida que só pode florescer quando os homens têm liberdade de ter fé”.

A modernidade e seu estilo de vida a partir do século XVII (1601/1700), na Europa, trouxeram doenças sociais e individuais. A tomada de consciência é passo importante para a cura. A fé religiosa, a fé mística e a fé laica contribuem poderosamente para o processo de cura. Fé em Deus, nos santos, nas leis da natureza, na medicina, no terapeuta, em si mesmo, na capacidade humana para resolver problemas e enfrentar desafios, produz bons frutos, consoante lições da experiência comum. Todavia, a terapia continuará a ser paliativa se não houver mudança de paradigma. André Stéphane adverte: “não pode haver revolução fundada numa recusa da realidade” (citado por Jean-François Revel no seu livro “Nem Marx, nem Jesus”). Revolução pacífica e silenciosa. O mundo há de ser visto com realismo, sem fantasia, sem ilusão, a fim de se curar dos males que o afligem. Encarando a realidade é possível alterá-la de modo eficaz e adequado. “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João 8: 32).

Atuar nas causas mediatas e não apenas nos sintomas e nas causas imediatas é o caminho seguro para a cura plena. Tomar consciência da unidade fundamental: Deus + Natureza (+ ser humano). O separatismo cartesiano contribuiu para os males da civilização ocidental. Para arredá-lo é necessário tomar consciência: (i) da conexão entre todos os fenômenos da natureza; (ii) da interdependência de todos os povos do planeta; (iii) de que pertencemos, concomitantemente, ao mundo natural (criado por Deus) e ao mundo cultural (criado pelo homem); (iv) de que o mundo cultural não existiria sem o mundo da natureza, inaplicável a recíproca, eis que o mundo da natureza pode subsistir sem o mundo da cultura; (v) de que o homem, como ser da natureza, comunga as leis divinas com todos os seres do universo (vi) de que as leis do mundo cultural são flexíveis, mudam com o vento e perecem com as civilizações; (vii) de que a solidariedade natural torna-se mais valiosa sob o signo da honestidade e da fraternidade.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

TERAPEUTICA

Cura pela razão e pela fé – VIII.

Paulo criou um judaísmo cristianizado e um cristianismo judaizado. Discriminou as mulheres seguindo a tradição hebraica. “Penso que seria bom ao homem não tocar mulher alguma. Todavia, para evitar incontinência, cada homem tenha sua mulher e cada mulher o seu marido”. “Mas quero que saibais que senhor de todo homem é Cristo, senhor da mulher é o homem”. “Como em todas as igrejas dos santos, as mulheres estejam caladas nas assembléias: não lhes é permitido falar, mas devem estar submissas como também ordena a lei; se querem aprender alguma coisa, perguntem-na em casa aos seus maridos” (Coríntios, 7: 1,2; 11: 1,3; 14: 34,35). “Esposas, sede submissas ao próprio marido, como convém ao Senhor” (Colossenses 3: 18).

Paulo desprezou o exemplo do grande mestre. Jesus acolhia homens e mulheres, adultos e crianças. No apostolado havia mulheres. Elas o acompanharam e apoiaram nas jornadas pelo território palestino (Galiléia + Samária + Judéia). Ele se casou com uma delas. A ceia do cordeiro (pascal) era na sexta-feira. Por algum motivo Jesus a realizou na quinta-feira com os seus discípulos e não só com os 12 apóstolos, circunstância que inclui as mulheres. (João 13:1; Mateus 26: 17/19; Marcos 14: 12/17; Lucas 22: 7/20). Lá estavam elas em frente ao palácio de Pilatos. Seguiram Jesus por toda a via crucis. Verônica enxugou-lhe o suor e o sangue do rosto cuja imagem ficou estampada no pano (ou véu) utilizado. (Essa passagem talvez seja lenda, pois não consta do NT; talvez seja real, mencionada em livro não incluído no NT, como o evangelho de Felipe e o evangelho de Maria Madalena. O pano ou véu, falso ou verdadeiro, estaria entre as relíquias de São Pedro, em Roma, por volta do ano 700). Os marmanjos que diziam amar Jesus debandaram com medo de represálias (salvo João). As mulheres retiraram Jesus da cruz, envolveram-no em lençol de linho e o colocaram no sepulcro. José de Arimatéia e Nicodemus, que não eram apóstolos e sim príncipes judeus admiradores de Jesus, prestaram auxílio. Embora a crucifixão e o sepultamento tenham ocorrido na sexta-feira, Madalena e outras mulheres só voltaram ao sepulcro no domingo, com os perfumes para ungi-lo, porque a lei mosaica, imposta a todos os palestinos, proibia atividades no sábado. Jesus não estava mais lá.

Palavras de Jesus aos apóstolos, ignoradas por Paulo: “Sabeis que os chefes das nações as subjugam e que os grandes as governam com autoridade. Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, se faça vosso servo. E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, se faça vosso escravo” (Mateus 20: 25/27; Marcos 10: 42/44; Lucas 22: 25/26). Visando a harmonia no seio da congregação, Jesus adverte: “Nisto todos conhecerão que vós sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (João 13: 34/35); “não vos façais chamar rabi, porque um só é vosso preceptor e vós sois todos irmãos” (Mateus 23: 8). Para evitar o “primus inter pares”, Jesus constituiu o colégio com um numero par de apóstolos: 12. Obediência “interna corporis” por reverência e não por subordinação.

Contrariando a organização e os fins preconizados por Jesus, a igreja se hierarquizou. Passo a passo, foi reduzindo a liberdade inicial. Primeiro passo: anciãos e sacerdotes se constituíram em colégios; o culto e o ensino passaram dos lares para prédio exclusivo, realizados na forma eclesiástica. Segundo passo: quem rejeitasse total ou parcialmente a doutrina elaborada pelo colégio de presbíteros (anciãos + sacerdotes) era expulso da comunidade (excomunhão). Terceiro passo: os presbíteros da cidade principal de uma região ou de uma província tomam o nome de bispos metropolitanos e se revestem de autoridade sobre os presbíteros das paróquias. (Tiago, irmão de sangue de Jesus, tornou-se bispo de Jerusalém). Quarto passo: os bispos das comunidades maiores e mais importantes como Constantinopla, Antioquia, Alexandria e Roma tomam o nome de patriarcas e se revestem de autoridade sobre o clero das suas respectivas circunscrições no século V (401/500). Quinto passo: o patriarca de Roma, apoiado no decreto do ano 455, expedido pelo imperador Valentiniano III, revestiu-se de autoridade universal sobre toda a comunidade cristã, adotou o título de “Pontifex Maximus” e se declarou sucessor do apóstolo Pedro. O Concílio do Vaticano acrescentou o dogma da infalibilidade no que tange à doutrina sobre fé e moral (1870).

Impostura e incoerência. Ainda que sucessão houvesse – apesar de decorridos 370 anos entre a morte de Pedro e a criação do papado – o sucedido seria Paulo, o fundador da igreja, e não Pedro, o apóstolo de Cristo. O poder pontifical se estendeu sobre reis e reinos. No período da história européia entre os séculos V e XIII (401/1300) o papado preencheu o vazio deixado pela queda do império romano. Com a extinção do regime feudal e a conquista da soberania laica pelos monarcas europeus, o império secular da igreja católica desmorona. O império espiritual (unidade católica) também ruiu com o advento do protestantismo no século XVI (1501/1600) seguido, nos séculos posteriores, da expansão do islamismo e da invasão das doutrinas e práticas orientais no Ocidente (hinduísmo, budismo, ópio). Antes disto, houve reação aos desvios éticos e ao formalismo da igreja, movimentos religiosos de retorno ao cristianismo simples de Jesus. Exemplos: (i) os “Pobres de Lião” (ou Valdenses, por causa do nome do seu fundador Pedro Valdo), no final do século XII (1101/1200) no sul da França, de origem tradicional nos apóstolos de Cristo; (ii) os “Irmãos da Vida Comum”, no século XV (1401/1500), nos países baixos e na Alemanha, cuja doutrina foi exposta por Thomas Kempis no livro “Imitação de Cristo” (1453).