quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

TERAPEUTICA

Cura pela razão e pela fé – VII.

Intelectualmente mais preparado do que os apóstolos, doutor nas escrituras judaicas, aguerrido e ambicioso, Paulo assumiu a liderança após superar a resistência da comunidade cristã. A resistência deveu-se aos sofrimentos que Paulo havia causado aos cristãos somados ao fato de ele ser adventício. Os membros da congregação desconfiavam da sinceridade de Paulo. Ele teve a petulância de censurar Pedro, apóstolo da primeira hora e presidente do colégio apostólico, na presença dos demais apóstolos e seguidores: “Se tu, que és judeu, vives como os gentios e não como os judeus, com que direito obrigas os pagãos convertidos a viver como os judeus?” (Epístola aos Gálatas 2: 11/14).

Censura equivocada e injusta, além de petulante e subversiva. Pedro a ninguém obrigava, porque a lição de Jesus era a de não obrigar pessoa alguma. Pedro deixava a cada pagão convertido a opção de se circuncidar ou não. Quanto à naturalidade, Pedro, tal como Jesus, era galileu (natural da Galiléia); ambos nunca foram judeus (naturais da Judéia). No episódio do Sinédrio, Pedro foi ameaçado e Jesus insultado porque ambos eram gentios, ou seja, estrangeiros em relação à Judéia e ao judaísmo (Mateus 26: 69,73; Marcos 14: 70; Lucas 22: 59). Antes desse episódio, Jesus, por ser gentio, quase foi apedrejado pelos judeus: “Responderam então os judeus: Não dizemos com razão, que és samaritano e estás possesso de um demônio?” (João 8: 48). Jesus só negou estar possesso.

Vil e oportunista, Paulo serviu-se daquela censura para mostrar à comunidade cristã que a sua autoridade era maior do que a de Pedro. Conseguiu. Suas epístolas, escritas entre os anos 50 e 60, precederam os livros de Mateus, Marcos, Lucas e João. Percebe-se notável influência das doutrinas contidas nas epístolas de Paulo sobre o espírito dos evangelistas. A igreja selecionou aqueles quatro livros para compor o Novo Testamento. Isto ocorreu no século IV (301/400) durante os concílios africanos de Hipona e Cartago. A seleção foi confirmada nos concílios europeus de Florença, no século XV (1401/1500) e de Trento, no século XVI (1501/1600). Dezenas de livros (rolos) – inclusive de autoria atribuída a outros apóstolos – não foram incluídos nesse testamento. Entraram apenas os rolos (livros) que convinham ao clero.

Paulo ditou regras incompatíveis com a mensagem de Jesus. Soa falsa a narrativa das curas que ele afirma ter feito. Transparece a intenção de se mostrar igual a Jesus em poder espiritual e autoridade moral, de exibir superioridade em relação aos demais membros do apostolado e de se substituir a Jesus no coração e na mente dos seguidores. Em ato falho, Paulo revela aquela intenção quando diz: “Isto aparecerá claramente no dia em que segundo o MEU evangelho, Deus julgar as ações secretas dos homens, por Jesus Cristo.” (Epístola aos Romanos 2: 16). A palavra “evangelho” significa “boa nova”. Examinada a sua aplicação no texto do Novo Testamento, ver-se-á que a novidade a que se referia era a chegada do messias, encarnado por Jesus. Isto, para os judeus, significava o fim de uma longa espera, o advento da nova doutrina trazida por Jesus e a sua missão terapêutica e redentora (libertá-los das suas misérias e cegueira física, mental e espiritual). A doutrina era divulgada oralmente por Jesus e apóstolos. Após a morte de Jesus, houve divulgação também por escrito a partir do ano 50, primeiro pelas cartas dos apóstolos e depois pelos relatos em rolos (livros) denominados “evangelho segundo fulano, segundo beltrano ou cicrano”, nem sempre escritos pelo próprio apóstolo. Esses livros, além da doutrina e das curas, narravam momentos da vida e da morte de Jesus e de João Batista. A missão terapêutica e redentora era exercida mediante a palavra, o exemplo e a ação direta de Jesus e seus apóstolos. Sem fé, não havia cura nem redenção.

Paulo atribui a si próprio a missão de anunciar o “evangelho de Deus” (e não de Jesus). Falsamente, afirma ter sido escolhido apóstolo por Jesus e o coloca na linhagem real de Davi (Epístola aos Romanos 1: 1/3). A mentalidade farisaica de Paulo emerge inúmeras vezes.
Exemplo: dizendo-se portador do espírito santo, Paulo provoca cegueira no mago Élimas. O pecado do mago foi argumentar contra as razões expostas por Paulo no debate diante do proconsul Sérgio Paulo, em Chipre (Atos dos Apóstolos 13: 8/11). Sem argumentos para a réplica, Paulo recorreu à maldade. Este episódio, ainda que se inclua no rol das mentiras de Paulo, revela a sua distância do espírito cristão. Paulo teria agido como agiria Jeová, o cruel e vingativo deus hebreu, e como agiam os judeus em sintonia com a sanguinária lei de Moisés. O perfil de Jesus e do Pai Celestial desenhado pelos evangelistas não se encaixa naquele perverso modo de agir. Na altercação com os judeus, Jesus evidencia a distinção entre o seu Deus e o deus dos hebreus: “Vós sois filhos do diabo e quereis cumprir o desejo do vosso pai; ele era homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade porque a verdade não está nele”. “Meu Pai é que me glorifica, aquele que vós dizeis ser o vosso deus e, entretanto, vós não o tendes conhecido, mas eu o conheço” (João 8: 44, 54, 55).
Outro exemplo: Barnabé, apóstolo de Cristo, fundador da igreja em Antioquia, preparava-se para uma viagem supervisora às igrejas de várias cidades e pretendia levar João Marcos com ele. Paulo se opôs tenazmente, porque o seu escolhido era Silas. Discutiram acidamente. Separaram-se. Barnabé e João Marcos partiram para Chipre; Paulo e Silas para a Síria (Atos dos Apóstolos 15: 36/40). Em mais de uma ocasião, Paulo revelou esse temperamento ditatorial e arreliento. Por causa disto, ele foi surrado e expulso de algumas cidades. Essa reação de judeus e pagãos não era motivada pela exposição da nova e deturpada doutrina, mas sim pelo modo agressivo e ofensivo pelo qual Paulo a pregava.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

TERAPEUTICA

Cura pela razão e pela fé – VI.

O papa Urbano II convoca um concílio e exorta os senhores feudais a guerrear os turcos e tomar Jerusalém (século XI – 1001/1100). Começam as cruzadas, a mortandade e os saques. A igreja patrocinou direta e indiretamente este e outros episódios contrários ao espírito cristão, tais como: as batalhas contra os mouros na Espanha, os horrores da inquisição, as nebulosas relações do Vaticano com o governo nazista da Alemanha. Fizeram da igreja um Estado soberano com sede em pequena área da cidade de Roma (Vaticano) desprezando a lição de Jesus sobre o divórcio entre política e religião: dar a César, o que é de César e a Deus, o que é de Deus (Mateus 22: 21; Marcos 12: 17; Lucas 20: 25).

Ao contrário da política da igreja, a doutrina de Jesus é pacifista e amorosa. Jesus tomou como sua própria, a piedosa missão descrita pelo profeta Isaías: anunciar a boa nova aos humildes, a redenção aos cativos, a restauração da vista aos cegos e curar os corações doloridos (Lucas 4: 18; Isaías 61: 1). Os ditames da lei de Jesus distinguem-se dos ditames da lei de Moisés. Ao contrário deste, o grande mestre diz: “Não resistais ao mau; se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra. Se alguém te citar em justiça para tirar-te a túnica, cede-lhe também a capa. Amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem” (Mateus 5: 38/44). Jesus rejeitou a lei mosaica de amar o amigo e odiar o inimigo, do olho por olho, dente por dente (lei do talião inscrita no código de Hamurabi).

Em nível existencial, católicos e protestantes são judeus. Alicerçam-se no Antigo Testamento e cultuam a Jeová. O evangelho de Jesus é figura decorativa para salvar aparências. Paulo de Tarso deu contornos judaicos à igreja e fundou um falso cristianismo. Nascido romano, na cidade de Tarso, no seio de família de judeus fariseus, Paulo teve Gamaliel como preceptor, notável doutor da lei mosaica. Fariseu, iniciado na doutrina judaica desde a juventude, perseguidor de cristãos, Paulo, em certo momento, resolveu mudar de lado. Inventou o encontro na estrada de Damasco e que ficara cego com a luz que emanava de Jesus. Paulo não conheceu Jesus em vida. Inventou a cegueira para evitar o risco de descrever Jesus aos apóstolos e se ver desmascarado. Havia apóstolos ainda vivos, como Pedro e João, que conheceram Jesus pessoalmente e poderiam desmascarar Paulo se a descrição não fosse correta. A aparência de Jesus antes da crucifixão era a de um nazareno; depois da crucifixão era a de uma pessoa comum. O episódio inventado por Paulo teria ocorrido de 6 a 10 anos depois da crucifixão, entre os anos 36 e 40 da era cristã.

Jesus nunca cegaria pessoa alguma, bem ao contrário, curava a cegueira física e mental. A luz que emanava de Jesus era espiritual e não física; ao invés de cegar, iluminava a personalidade anímica de cada ser humano. Na mentira contada por Paulo, influiu a sua formação judaica. Na cultura judia imagina-se a divindade cruel, raivosa, vingativa, que fere e mata. Traído por sua arquitetura mental e seu berço cultural, Paulo atribuiu a Jesus características da divindade judia. Entretanto, conforme se extrai das narrativas do Novo Testamento, outros eram os atributos da personalidade de Jesus: sabedoria, humildade, sinceridade, fortaleza, tolerância, bondade, fé inabalável no Pai Celestial (e não em Jeová). A expulsão dos mercadores que negociavam no templo foi um ato de indignação que não implicou violência contra pessoas e sim contra mercadorias e moedas expostas. As demais agressões contra pessoas e cidades foram verbais. Exemplo: Jesus chamava de hipócritas os sacerdotes e escribas judeus que não praticavam o que ensinavam; praguejava contra Corozaim, Besaida e Cafarnaum, por considerá-las cidades impenitentes (Mateus 11: 20/24 + 23: 13/29).

sábado, 19 de fevereiro de 2011

TERAPEUTICA

Cura pela razão e pela fé – V.

Paz, humildade e desapego aos bens materiais são inerentes ao espírito cristão, conforme se depreende das várias passagens do evangelho: “Não podeis servir a Deus e à riqueza”. “Não leveis nem ouro, nem prata, nem dinheiro em vossos cintos, nem mochila para a viagem, nem duas túnicas, nem calçados, nem bastão, pois o operário merece o seu sustento”. “Vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me”. “É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus”. “Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furtam e roubam. Ajuntai para vós tesouros no céu, onde não os consomem as traças nem a ferrugem e os ladrões não furtam nem roubam. Porque onde está o teu tesouro está teu coração” (Mateus 6: 19/21, 24 + 10: 9/10 + 19: 21/24; Marcos 6: 7/9 + 10: 21/25; Lucas 18: 22/25).

O apego da igreja “cristã” (católica e protestante) à riqueza material, ao poder secular, à falsificação paulina, colide com a moral cristã. Sacerdotes, pastores e missionários servem-se das emissoras de TV para angariar dinheiro e conquistar novos crentes; ensinam aos crentes como preencher cheques e fazer remessas bancárias; exibem pessoas para testemunhar sucesso nos negócios e ganhos patrimoniais depois que se filiaram à igreja evangélica; movimentam-se diante das câmeras como artistas profissionais, com gestual e discurso bem estudados e treinados. As igrejas disputam entre si o mercado da fé mediante fraude, engodo, estelionato, indiferentes às palavras do evangelho: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (João 14: 6).
O caminho: Jesus como exemplo a ser seguido. Esse homem vestia apenas uma túnica, andava de sandálias, vivia cada dia sem vãs preocupações, sem domicílio certo, centrando-se no essencial: pregar os ensinamentos que recebia do Pai Celestial. “Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça” (Mateus 6: 33; Lucas 12: 31).
A verdade: Jesus como depositário da sabedoria que lhe veio da harmonização com o Pai Celestial. “Eu e o Pai somos um; as palavras que vos digo não as digo de mim mesmo; o Pai que está em mim realiza as suas próprias obras”. (João 10: 30; 14: 10).
A vida: Jesus como portador da energia física, mental e espiritual em nível cósmico. “Dei-lhes a glória que me deste para que sejam um, como nós somos um, eu neles e tu em mim para que sejam perfeitos na unidade” (João 17: 22/23).

A voz de Cristo foi emudecida pelo ouro e pelo luxo nos palácios da igreja e nas vestes do papa e dos cardeais; pelo dinheiro nos cofres de sacerdotes, pastores e missionários. Ostentação, opulência, narcisismo, pedofilia, ambição, ausência de espiritualidade, entre outros vícios, pululam nas igrejas “cristãs”. Outra seria a sociedade contemporânea se a igreja fosse realmente cristã.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

TERAPEUTICA

Cura pela razão e pela fé – IV.

Na rede mundial de computadores, em 10.02.2011, a página Yahoo traz notícia da mensagem para o 48º Dia Mundial de Rezas para as Vocações, em que o papa Bento XVI manifesta preocupação com o abandono da fé católica. Diz que a sociedade contemporânea asfixiou a voz de Cristo. O papa conclama os sacerdotes ao trabalho de recrutamento de novos fiéis.

“Hoje que as posições religiosas diferem mais do que nunca, nada se admitiu com maior unanimidade e segurança, por todos que se ocupam da religião de um modo inteligente, do que isto: que a origem da religião no espírito humano é radical e essencialmente distinta da filosofia e da metafísica; que os fundadores das religiões, os grandes “homines religiosi”, têm sido tipos do espírito humano, completamente distintos dos metafísicos e dos filósofos; e que as grandes transformações históricas devidas a eles nunca, em parte alguma, tiveram lugar por virtude de uma nova metafísica, mas sim de uma forma completamente diferente” (Scheler, in “Do Eterno no Homem”).

O princípio da causalidade de que se servem os defensores da teologia natural não tem o caráter lógico e epistemológico que deveria ter para atingir o fim que se propõe, ou seja, chegar ao divino, objeto da religião. A religião é uma esfera de valor autônoma, descansa em bases próprias, independentemente de qualquer outra esfera de valor. O seu fundamento de validade repousa nela própria, na certeza imediata peculiar ao conhecimento religioso. A desconfiança no poder próprio da consciência religiosa decorre da confusão entre a objetividade e a validade universal. Um juízo pode ter objetividade sem ter validade universal. O intelectualismo religioso derivado da confusão entre religião e filosofia pode causar o abandono da fé religiosa.

Outra causa do abandono da fé religiosa está no aumento do volume e da velocidade dos meios de comunicação de massa, informando, esclarecendo, derrubando tabus, com audiência de centenas de milhões de pessoas, reduzindo o campo da ignorância ao expor de maneira ampla e livre os mais diversos tópicos: costumes, técnica, arte, ciência, filosofia, religião, misticismo.

Fé em Deus e na doutrina de Jesus é uma coisa; fé na igreja e nos seus representantes é coisa bem diferente. Como virtude, a fé compara-se a jóia preciosa: devemos reservá-la às ocasiões especiais. Como confiança, a fé deve ser depositada em pessoas de caráter sem jaça. Como crença religiosa, a fé deve ser reservada a Deus. Podemos refletir sobre teorias e doutrinas, admirar e louvar os seus autores, porém, fé religiosa somente em Deus havemos de colocar. A sociedade contemporânea guarda reservas quanto à igreja e aos seus representantes (padres, pastores, missionários). Apesar disto, ainda é numerosa a parcela da humanidade que se atemoriza pelas ameaças de castigo no outro mundo. Cobrem-na as nuvens da ignorância. Missa católica aos domingos, culto evangélico aos sábados, celebrações diárias pelas emissoras de rádio e TV, páginas na rede de computadores, refletem esforços para contrabalançar as mensagens leigas passadas por esses veículos de comunicação de massa (noticiários, documentários, entrevistas, filmes). As religiões institucionalizadas se mantêm graças a essa ignorância e ao medo que daí decorre.

Assiste razão ao papa quando diz que é árduo ser cristão. Isto explica o fato de ele e sua igreja jamais terem sido cristãos. Católicos, sim; cristãos, nunca. Não basta seguir objetiva e mecanicamente mandamentos e rituais. Isto os fariseus também faziam.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

TERAPEUTICA

Cura pela razão e pela fé – III.

Jeová ou Javé, deus de um povo, de Abraão, Isaac e Jacó (Exodus 3: 6). Esse deus não se confunde com o bondoso e misericordioso Pai Celestial de Jesus, nem com o Deus de luz, vida e amor dos místicos. As promessas de Javé a Abraão circunscrevem-se a bens e interesses mundanos; nada de elevação espiritual (Gênesis 12: 1/3). Promessas semelhantes foram feitas a Jesus por esse mesmo deus. Jesus o rechaçou e lhe deu outro nome: Satanás (Mateus 4: 3/10; Lucas 4: 3/12). Na concepção mística, Deus não faz promessa, não celebra contrato ou pacto. Sendo onipotente e onisciente, Deus não depende da concordância ou discordância, da fidelidade ou infidelidade dos seres humanos. Sendo bondoso e misericordioso, Deus não ordena a matança de homens, mulheres, crianças e meninos de peito, bois, ovelhas, camelos e jumentos como faz esse deus Javé (Samuel – I – 15: 2/3). O Pai Celestial de Jesus e o Deus dos místicos não exigem, de pessoa alguma, o pagamento dos dízimos ao tesouro do templo, como exigiu a divindade hebréia (Malaquias 3: 10).

Da leitura do Gênesis vem a indagação: se o homem ainda não fora criado, quem ouviu esse deus falar? Com quem esse deus falava? Em que idioma? Depois de dois milênios do nascimento de Adão (indivíduo que só existiu na cabeça do escritor hebreu) Jeová certamente conversou com o sacerdote Esdras em aramaico e entre um copo e outro de vinho contou o que fizera e dissera ao criar o mundo. Esdras deve ter gravado a conversa em fita magnética para nada esquecer e não filmou Javé a pedido da divindade. Depois do porre, escreveu tudo, reuniu o povo em praça pública e procedeu à leitura (Neemias 8: 1/8).

Além de investigar e explicar os fenômenos naturais, de procurar as causas das doenças, de elaborar processos de cura, a razão avança até a esfera metafísica para chegar a uma visão filosófica, mística e religiosa do universo físico e espiritual. Segundo Kant, a metafísica exige uma lógica especial quando se refere aos juízos “a priori” e não à experiência sensível. Denominou-a “Lógica Transcendental”. A fé religiosa também inclui uma interpretação do universo físico e espiritual. Em face disto, uns defendem a identidade essencial entre a filosofia e a religião, enquanto outros defendem a diferença essencial.

Para o primeiro grupo, a filosofia e a religião buscam a gnose, sob o mesmo impulso cognoscitivo. A religião é um grau inferior do conhecimento filosófico; este cuida de conceitos abstratos; aquela cuida de representações concretas. Segundo Johannes Hessen (“Teoria do Conhecimento”) entram nessa corrente o budismo, o neoplatonismo e o gnosticismo, na idade antiga; Spinoza, Fichte, Schelling, Hegel e Hartmann, na idade moderna. Para outros membros desse grupo como De Maistre, De Bonald e Lamennais, a filosofia é que se integra à religião. Há variantes, como a de Tomás de Aquino, que defende a identidade parcial entre filosofia e religião, porque ambas têm uma esfera comum, que é a teologia natural (escolástica) ou a teologia racional (iluminismo). Essa teologia busca demonstrar a existência de Deus e definir a sua essência mediante as forças naturais da razão. Nesta hipótese, a fé repousa no saber racional.

No segundo grupo, que defende a diferença essencial entre filosofia e religião, encontram-se os dualistas radicais e os dualistas moderados. Os radicais, liderados por Kant, separam completamente as duas esferas: a do saber, o mundo fenomênico; a da fé, o mundo metafísico. A metafísica é impossível como ciência. Os moderados, como Scheler, aceitam um ponto comum entre as duas esferas: a idéia do absoluto. A metafísica é possível como ciência a nos conduzir ao absoluto e ao princípio do universo. A filosofia aborda esse ponto sob a ótica cosmológica racional, fundada na idéia de um princípio espiritual do universo, enquanto a religião do livro (torá, evangelho, alcorão) o aborda sob o ponto de vista moral, fundada na idéia de um deus pessoal.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

TERAPEUTICA

Cura pela razão e pela fé – II.

A cultura humana produz benefícios e malefícios. Entre os males do mundo da cultura estão o genocídio, o terrorismo, o racismo, o narcisismo, o fanatismo ideológico e religioso, a intolerância, a violência, o preconceito, a frouxidão dos costumes (consumo de drogas, prostituição, tráfico de mulheres e crianças, libertinagem, corrupção, deterioração dos laços da família, precária e seletiva transmissão do conhecimento, caráter mal formado, ausência de espírito fraterno), as moléstias derivadas da competição desenfreada (depressão, hipertensão, diabetes), o materialismo, o consumismo, as desigualdades sociais e econômicas (desemprego, miséria, fome), a poluição ambiental, conflitos internos e externos, rebaixamento da dignidade humana.

Desde os primórdios da civilização há uso de alucinógenos, sensualismo, cobiça, inveja, orgulho, insensatez, mentira, traição, perversidade, difamação, fraude, saques, assassinatos, guerras, ações predatórias. Processos mentais configuram o egocentrismo, o nacionalismo exacerbado, a disputa por riqueza, poder, fama, honrarias. Distintos interesses separam pessoas e nações. O Jardim do Éden nunca existiu e nem o homem ali foi criado há seis mil anos. Cuida-se de lenda, como a de Shangri-lá e Atlântida. Francis Bacon sugere que a Atlântida de Platão pode ser o continente americano, desconhecido naquela época. O paraíso e a queda do homem são crenças infantis. Não houve degradação alguma e sim evolução física e mental da espécie humana através de milhões de anos.

Todos os males biológicos e psíquicos que afligem a humanidade decorrem dos equívocos na dieta, no comportamento individual e social, na medicina, na ciência, na filosofia e na religião. Há excesso de população e seitas que se opõem ao controle da natalidade. Entre alguns povos a produção de alimentos é insuficiente para atender a demanda. A fome desespera, enfraquece e mata. Nos países capitalistas os ganhos na economia formal ficam restritos a uma parcela da população. A probabilidade de perder o emprego ou de a empresa falir por causa das crises periódicas gera tensão e ansiedade nas pessoas. O desemprego e a falta de recursos desesperam e deprimem. Os excluídos moram na periferia das cidades, em locais insalubres e inseguros, sujeitos a infecções, inundações, perda de vidas e de bens. A competição para galgar boas posições no Estado, na empresa, na profissão, na sociedade, provoca exaustão física e mental. As religiões disputam o recrutamento de crentes, ambicionam a hegemonia espiritual e o crescimento patrimonial; despertam ódios e criam um clima desfavorável à fraternidade universal. A competição entre as nações pelas riquezas naturais do planeta e pelo desenvolvimento econômico ilimitado causa angústia, guerra, morte e destruição.

Se a raça humana fosse extinta, nenhuma falta faria a Deus e à natureza. O ser humano está longe, muito longe de gozar qualquer privilégio divino e de ser a imagem e semelhança de Deus. O escritor hebreu referia-se ao deus hebreu quando lançou a seguinte inversão que colou na civilização ocidental: “Então deus disse: façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gênesis I: 26,27). A verdade que se extrai ao longo do Antigo Testamento está na forma contrária: o escritor hebreu criou esse deus à imagem e semelhança do homem hebreu e o chamou de Javé (ou Jeová): genocida, cruel, exclusivista, materialista, invasor, belicoso. O deus hebreu e o homem, mais do que semelhantes, são iguais.


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

TERAPEUTICA

Cura pela razão e pela fé – I.

Cura significa estabelecimento ou restabelecimento de um bom estado de saúde. O processo da cura tem por destinatário um sujeito singular (homem, mulher, adulto, criança) ou um sujeito coletivo (comunidade, humanidade) e comporta duas vias: racional e irracional. A via racional compreende a medicina convencional e a medicina alternativa (utilizam-se produtos químicos e fitoterápicos, cirurgia, aparelhos, agulhas). A via irracional compreende as artes fundadas na fé (harmonização espiritual, passes mediúnicos, cromoterapia, magia indígena, orações, exorcismos, chás e outras beberagens). Quanto ao estabelecimento da saúde do sujeito coletivo, a tarefa cabe aos profetas, gurus, santos, líderes, cientistas, filósofos e, de um modo geral, ao Estado e à Sociedade (leis, programas, ações, medidas preventivas e repressivas, atividades educativas e esportivas, tudo com o propósito de debelar os males sociais).

A fonte primária de todos os males está no ser humano como espécie do reino animal. No entanto, há fontes telúricas que independem do pensamento e da ação humana: tempestades, raios, inundações, terremotos, maremotos. Além dessas, há outras fontes naturais como as epidemias e as pragas. Essas forças da natureza atuariam mesmo que no planeta não houvesse vida humana. Matam e ferem vegetais e animais, causam danos, indiferente se a vida é humana, se as pessoas e os bichos são pecadores ou inocentes, se as casas, móveis e veículos são de ricos ou de pobres. As forças da natureza são cegas aos valores éticos e religiosos da humanidade. No sentido amplo, vida é a energia fundamental que gerou o universo e o mantém em movimento. Vida biológica é conceito restrito aos seres vivos. A vida biológica terminará em nosso planeta quando o Sol se apagar, o que está previsto para daqui a milhões de anos. Antes mesmo da escuridão, a baixa temperatura extinguirá espécies, inclusive a humana. O Sol será mais uma estrela a se converter em buraco negro, como tantas outras observadas pelos astrônomos. Diante dessa realidade, caem por terra as ridículas e pretensiosas fantasias das escrituras religiosas (hebraica, cristã, muçulmana).

Perante Deus, não há diferença entre o nosso planeta e qualquer outro astro do universo; entre o ser humano e qualquer outro ser vivo do universo. A vida biológica pode surgir e desaparecer em qualquer parte do universo, desde que presentes as condições ambientais de nascimento e morte. Se houvesse predileção divina pelos humanos não haveria morte e destruição decorrentes das leis naturais (que são leis inflexíveis promulgadas por Deus). Os fenômenos telúricos acontecem na Terra, no sistema solar, na Via Láctea e em qualquer outra galáxia. Não se trata, pois, de castigo. A mente doentia, contaminada por falsos axiomas e dogmas, invadida pelo medo, vê nos fatos naturais “castigo de Deus por causa dos nossos pecados”. Essa visão deformada permeia a bíblia. A praga de gafanhotos serve de exemplo (Joel, capítulos 1 e 2). Não há pecado algum responsável por esses fenômenos. Os danos por eles causados devem ser debitados ao determinismo da natureza e/ou à incúria humana, conforme o caso. Exemplo: ao construir, morar ou exercer atividades ao nível do mar, às margens dos rios, ao pé de montanhas nevadas, nos morros, cavernas e minas, os seres humanos cavam a própria sepultura.

Deus, Adão e Eva nada têm a ver com isso. Aliás, esse casal inventado pelo escritor hebreu nunca existiu. Trata-se de um conto da carochinha para crianças, como dizia o cientista Albert Einstein (Sec. XX – 1901/2000). A bíblia é uma fraude colossal, afirmava o filósofo Baruch Spinoza (Sec. XVII – 1601/1700). Em conseqüência da sua crítica racional, Spinoza foi expulso da sinagoga e da comunidade judia na Holanda. A fraude é útil para manter os judeus unidos, a versão de que eles são eleitos de Deus e introdutores do monoteísmo. Ambos, cientista e filósofo, eram judeus, portanto, insuspeitos ao emitirem tais juízos de valor sobre a escritura religiosa do seu povo. Thomas Hobbes (Sec. XVII – 1601/1700) filósofo inglês, ao tratar do Estado Cristão na terceira parte do seu livro Leviatã, já informava que o Antigo Testamento (AT) fora escrito no século IV a.C. (400/301) por um judeu chamado Esdras que se dizia inspirado por Deus. Verifica-se, pois, que o AT saiu da cabeça desse sacerdote qualificado de erudito. Hobbes transcreve os versículos 21, 22 e 45, do capítulo 14, do segundo livro de Esdras, onde o escritor judeu confessa a autoria da falsidade ideológica. Faço meus estudos em duas bíblias católicas e uma protestante. Em nenhuma delas encontrei o capítulo 14, do segundo livro de Esdras, mencionado e transcrito por Hobbes. O capítulo sumiu da bíblia após a publicação do Leviatã. Adições e exclusões nas escrituras “sagradas” são constantes para afeiçoá-las à doutrina e aos interesses eclesiásticos. Livros, doutrinas, escolas, inspirados na escritura hebraica e cristã, desde Santo Agostinho, passando pela escolástica até os nossos dias, não merecem fé alguma. Caracterizam-se pelo engodo, pela enxurrada de palavras vazias sobre idéias falsas, fantasiosas, distantes da realidade. E pensar que alguns dos pilares da civilização ocidental assentam-se nesse terreno falso!