sábado, 19 de fevereiro de 2011

TERAPEUTICA

Cura pela razão e pela fé – V.

Paz, humildade e desapego aos bens materiais são inerentes ao espírito cristão, conforme se depreende das várias passagens do evangelho: “Não podeis servir a Deus e à riqueza”. “Não leveis nem ouro, nem prata, nem dinheiro em vossos cintos, nem mochila para a viagem, nem duas túnicas, nem calçados, nem bastão, pois o operário merece o seu sustento”. “Vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me”. “É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus”. “Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furtam e roubam. Ajuntai para vós tesouros no céu, onde não os consomem as traças nem a ferrugem e os ladrões não furtam nem roubam. Porque onde está o teu tesouro está teu coração” (Mateus 6: 19/21, 24 + 10: 9/10 + 19: 21/24; Marcos 6: 7/9 + 10: 21/25; Lucas 18: 22/25).

O apego da igreja “cristã” (católica e protestante) à riqueza material, ao poder secular, à falsificação paulina, colide com a moral cristã. Sacerdotes, pastores e missionários servem-se das emissoras de TV para angariar dinheiro e conquistar novos crentes; ensinam aos crentes como preencher cheques e fazer remessas bancárias; exibem pessoas para testemunhar sucesso nos negócios e ganhos patrimoniais depois que se filiaram à igreja evangélica; movimentam-se diante das câmeras como artistas profissionais, com gestual e discurso bem estudados e treinados. As igrejas disputam entre si o mercado da fé mediante fraude, engodo, estelionato, indiferentes às palavras do evangelho: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (João 14: 6).
O caminho: Jesus como exemplo a ser seguido. Esse homem vestia apenas uma túnica, andava de sandálias, vivia cada dia sem vãs preocupações, sem domicílio certo, centrando-se no essencial: pregar os ensinamentos que recebia do Pai Celestial. “Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça” (Mateus 6: 33; Lucas 12: 31).
A verdade: Jesus como depositário da sabedoria que lhe veio da harmonização com o Pai Celestial. “Eu e o Pai somos um; as palavras que vos digo não as digo de mim mesmo; o Pai que está em mim realiza as suas próprias obras”. (João 10: 30; 14: 10).
A vida: Jesus como portador da energia física, mental e espiritual em nível cósmico. “Dei-lhes a glória que me deste para que sejam um, como nós somos um, eu neles e tu em mim para que sejam perfeitos na unidade” (João 17: 22/23).

A voz de Cristo foi emudecida pelo ouro e pelo luxo nos palácios da igreja e nas vestes do papa e dos cardeais; pelo dinheiro nos cofres de sacerdotes, pastores e missionários. Ostentação, opulência, narcisismo, pedofilia, ambição, ausência de espiritualidade, entre outros vícios, pululam nas igrejas “cristãs”. Outra seria a sociedade contemporânea se a igreja fosse realmente cristã.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

TERAPEUTICA

Cura pela razão e pela fé – IV.

Na rede mundial de computadores, em 10.02.2011, a página Yahoo traz notícia da mensagem para o 48º Dia Mundial de Rezas para as Vocações, em que o papa Bento XVI manifesta preocupação com o abandono da fé católica. Diz que a sociedade contemporânea asfixiou a voz de Cristo. O papa conclama os sacerdotes ao trabalho de recrutamento de novos fiéis.

“Hoje que as posições religiosas diferem mais do que nunca, nada se admitiu com maior unanimidade e segurança, por todos que se ocupam da religião de um modo inteligente, do que isto: que a origem da religião no espírito humano é radical e essencialmente distinta da filosofia e da metafísica; que os fundadores das religiões, os grandes “homines religiosi”, têm sido tipos do espírito humano, completamente distintos dos metafísicos e dos filósofos; e que as grandes transformações históricas devidas a eles nunca, em parte alguma, tiveram lugar por virtude de uma nova metafísica, mas sim de uma forma completamente diferente” (Scheler, in “Do Eterno no Homem”).

O princípio da causalidade de que se servem os defensores da teologia natural não tem o caráter lógico e epistemológico que deveria ter para atingir o fim que se propõe, ou seja, chegar ao divino, objeto da religião. A religião é uma esfera de valor autônoma, descansa em bases próprias, independentemente de qualquer outra esfera de valor. O seu fundamento de validade repousa nela própria, na certeza imediata peculiar ao conhecimento religioso. A desconfiança no poder próprio da consciência religiosa decorre da confusão entre a objetividade e a validade universal. Um juízo pode ter objetividade sem ter validade universal. O intelectualismo religioso derivado da confusão entre religião e filosofia pode causar o abandono da fé religiosa.

Outra causa do abandono da fé religiosa está no aumento do volume e da velocidade dos meios de comunicação de massa, informando, esclarecendo, derrubando tabus, com audiência de centenas de milhões de pessoas, reduzindo o campo da ignorância ao expor de maneira ampla e livre os mais diversos tópicos: costumes, técnica, arte, ciência, filosofia, religião, misticismo.

Fé em Deus e na doutrina de Jesus é uma coisa; fé na igreja e nos seus representantes é coisa bem diferente. Como virtude, a fé compara-se a jóia preciosa: devemos reservá-la às ocasiões especiais. Como confiança, a fé deve ser depositada em pessoas de caráter sem jaça. Como crença religiosa, a fé deve ser reservada a Deus. Podemos refletir sobre teorias e doutrinas, admirar e louvar os seus autores, porém, fé religiosa somente em Deus havemos de colocar. A sociedade contemporânea guarda reservas quanto à igreja e aos seus representantes (padres, pastores, missionários). Apesar disto, ainda é numerosa a parcela da humanidade que se atemoriza pelas ameaças de castigo no outro mundo. Cobrem-na as nuvens da ignorância. Missa católica aos domingos, culto evangélico aos sábados, celebrações diárias pelas emissoras de rádio e TV, páginas na rede de computadores, refletem esforços para contrabalançar as mensagens leigas passadas por esses veículos de comunicação de massa (noticiários, documentários, entrevistas, filmes). As religiões institucionalizadas se mantêm graças a essa ignorância e ao medo que daí decorre.

Assiste razão ao papa quando diz que é árduo ser cristão. Isto explica o fato de ele e sua igreja jamais terem sido cristãos. Católicos, sim; cristãos, nunca. Não basta seguir objetiva e mecanicamente mandamentos e rituais. Isto os fariseus também faziam.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

TERAPEUTICA

Cura pela razão e pela fé – III.

Jeová ou Javé, deus de um povo, de Abraão, Isaac e Jacó (Exodus 3: 6). Esse deus não se confunde com o bondoso e misericordioso Pai Celestial de Jesus, nem com o Deus de luz, vida e amor dos místicos. As promessas de Javé a Abraão circunscrevem-se a bens e interesses mundanos; nada de elevação espiritual (Gênesis 12: 1/3). Promessas semelhantes foram feitas a Jesus por esse mesmo deus. Jesus o rechaçou e lhe deu outro nome: Satanás (Mateus 4: 3/10; Lucas 4: 3/12). Na concepção mística, Deus não faz promessa, não celebra contrato ou pacto. Sendo onipotente e onisciente, Deus não depende da concordância ou discordância, da fidelidade ou infidelidade dos seres humanos. Sendo bondoso e misericordioso, Deus não ordena a matança de homens, mulheres, crianças e meninos de peito, bois, ovelhas, camelos e jumentos como faz esse deus Javé (Samuel – I – 15: 2/3). O Pai Celestial de Jesus e o Deus dos místicos não exigem, de pessoa alguma, o pagamento dos dízimos ao tesouro do templo, como exigiu a divindade hebréia (Malaquias 3: 10).

Da leitura do Gênesis vem a indagação: se o homem ainda não fora criado, quem ouviu esse deus falar? Com quem esse deus falava? Em que idioma? Depois de dois milênios do nascimento de Adão (indivíduo que só existiu na cabeça do escritor hebreu) Jeová certamente conversou com o sacerdote Esdras em aramaico e entre um copo e outro de vinho contou o que fizera e dissera ao criar o mundo. Esdras deve ter gravado a conversa em fita magnética para nada esquecer e não filmou Javé a pedido da divindade. Depois do porre, escreveu tudo, reuniu o povo em praça pública e procedeu à leitura (Neemias 8: 1/8).

Além de investigar e explicar os fenômenos naturais, de procurar as causas das doenças, de elaborar processos de cura, a razão avança até a esfera metafísica para chegar a uma visão filosófica, mística e religiosa do universo físico e espiritual. Segundo Kant, a metafísica exige uma lógica especial quando se refere aos juízos “a priori” e não à experiência sensível. Denominou-a “Lógica Transcendental”. A fé religiosa também inclui uma interpretação do universo físico e espiritual. Em face disto, uns defendem a identidade essencial entre a filosofia e a religião, enquanto outros defendem a diferença essencial.

Para o primeiro grupo, a filosofia e a religião buscam a gnose, sob o mesmo impulso cognoscitivo. A religião é um grau inferior do conhecimento filosófico; este cuida de conceitos abstratos; aquela cuida de representações concretas. Segundo Johannes Hessen (“Teoria do Conhecimento”) entram nessa corrente o budismo, o neoplatonismo e o gnosticismo, na idade antiga; Spinoza, Fichte, Schelling, Hegel e Hartmann, na idade moderna. Para outros membros desse grupo como De Maistre, De Bonald e Lamennais, a filosofia é que se integra à religião. Há variantes, como a de Tomás de Aquino, que defende a identidade parcial entre filosofia e religião, porque ambas têm uma esfera comum, que é a teologia natural (escolástica) ou a teologia racional (iluminismo). Essa teologia busca demonstrar a existência de Deus e definir a sua essência mediante as forças naturais da razão. Nesta hipótese, a fé repousa no saber racional.

No segundo grupo, que defende a diferença essencial entre filosofia e religião, encontram-se os dualistas radicais e os dualistas moderados. Os radicais, liderados por Kant, separam completamente as duas esferas: a do saber, o mundo fenomênico; a da fé, o mundo metafísico. A metafísica é impossível como ciência. Os moderados, como Scheler, aceitam um ponto comum entre as duas esferas: a idéia do absoluto. A metafísica é possível como ciência a nos conduzir ao absoluto e ao princípio do universo. A filosofia aborda esse ponto sob a ótica cosmológica racional, fundada na idéia de um princípio espiritual do universo, enquanto a religião do livro (torá, evangelho, alcorão) o aborda sob o ponto de vista moral, fundada na idéia de um deus pessoal.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

TERAPEUTICA

Cura pela razão e pela fé – II.

A cultura humana produz benefícios e malefícios. Entre os males do mundo da cultura estão o genocídio, o terrorismo, o racismo, o narcisismo, o fanatismo ideológico e religioso, a intolerância, a violência, o preconceito, a frouxidão dos costumes (consumo de drogas, prostituição, tráfico de mulheres e crianças, libertinagem, corrupção, deterioração dos laços da família, precária e seletiva transmissão do conhecimento, caráter mal formado, ausência de espírito fraterno), as moléstias derivadas da competição desenfreada (depressão, hipertensão, diabetes), o materialismo, o consumismo, as desigualdades sociais e econômicas (desemprego, miséria, fome), a poluição ambiental, conflitos internos e externos, rebaixamento da dignidade humana.

Desde os primórdios da civilização há uso de alucinógenos, sensualismo, cobiça, inveja, orgulho, insensatez, mentira, traição, perversidade, difamação, fraude, saques, assassinatos, guerras, ações predatórias. Processos mentais configuram o egocentrismo, o nacionalismo exacerbado, a disputa por riqueza, poder, fama, honrarias. Distintos interesses separam pessoas e nações. O Jardim do Éden nunca existiu e nem o homem ali foi criado há seis mil anos. Cuida-se de lenda, como a de Shangri-lá e Atlântida. Francis Bacon sugere que a Atlântida de Platão pode ser o continente americano, desconhecido naquela época. O paraíso e a queda do homem são crenças infantis. Não houve degradação alguma e sim evolução física e mental da espécie humana através de milhões de anos.

Todos os males biológicos e psíquicos que afligem a humanidade decorrem dos equívocos na dieta, no comportamento individual e social, na medicina, na ciência, na filosofia e na religião. Há excesso de população e seitas que se opõem ao controle da natalidade. Entre alguns povos a produção de alimentos é insuficiente para atender a demanda. A fome desespera, enfraquece e mata. Nos países capitalistas os ganhos na economia formal ficam restritos a uma parcela da população. A probabilidade de perder o emprego ou de a empresa falir por causa das crises periódicas gera tensão e ansiedade nas pessoas. O desemprego e a falta de recursos desesperam e deprimem. Os excluídos moram na periferia das cidades, em locais insalubres e inseguros, sujeitos a infecções, inundações, perda de vidas e de bens. A competição para galgar boas posições no Estado, na empresa, na profissão, na sociedade, provoca exaustão física e mental. As religiões disputam o recrutamento de crentes, ambicionam a hegemonia espiritual e o crescimento patrimonial; despertam ódios e criam um clima desfavorável à fraternidade universal. A competição entre as nações pelas riquezas naturais do planeta e pelo desenvolvimento econômico ilimitado causa angústia, guerra, morte e destruição.

Se a raça humana fosse extinta, nenhuma falta faria a Deus e à natureza. O ser humano está longe, muito longe de gozar qualquer privilégio divino e de ser a imagem e semelhança de Deus. O escritor hebreu referia-se ao deus hebreu quando lançou a seguinte inversão que colou na civilização ocidental: “Então deus disse: façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gênesis I: 26,27). A verdade que se extrai ao longo do Antigo Testamento está na forma contrária: o escritor hebreu criou esse deus à imagem e semelhança do homem hebreu e o chamou de Javé (ou Jeová): genocida, cruel, exclusivista, materialista, invasor, belicoso. O deus hebreu e o homem, mais do que semelhantes, são iguais.


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

TERAPEUTICA

Cura pela razão e pela fé – I.

Cura significa estabelecimento ou restabelecimento de um bom estado de saúde. O processo da cura tem por destinatário um sujeito singular (homem, mulher, adulto, criança) ou um sujeito coletivo (comunidade, humanidade) e comporta duas vias: racional e irracional. A via racional compreende a medicina convencional e a medicina alternativa (utilizam-se produtos químicos e fitoterápicos, cirurgia, aparelhos, agulhas). A via irracional compreende as artes fundadas na fé (harmonização espiritual, passes mediúnicos, cromoterapia, magia indígena, orações, exorcismos, chás e outras beberagens). Quanto ao estabelecimento da saúde do sujeito coletivo, a tarefa cabe aos profetas, gurus, santos, líderes, cientistas, filósofos e, de um modo geral, ao Estado e à Sociedade (leis, programas, ações, medidas preventivas e repressivas, atividades educativas e esportivas, tudo com o propósito de debelar os males sociais).

A fonte primária de todos os males está no ser humano como espécie do reino animal. No entanto, há fontes telúricas que independem do pensamento e da ação humana: tempestades, raios, inundações, terremotos, maremotos. Além dessas, há outras fontes naturais como as epidemias e as pragas. Essas forças da natureza atuariam mesmo que no planeta não houvesse vida humana. Matam e ferem vegetais e animais, causam danos, indiferente se a vida é humana, se as pessoas e os bichos são pecadores ou inocentes, se as casas, móveis e veículos são de ricos ou de pobres. As forças da natureza são cegas aos valores éticos e religiosos da humanidade. No sentido amplo, vida é a energia fundamental que gerou o universo e o mantém em movimento. Vida biológica é conceito restrito aos seres vivos. A vida biológica terminará em nosso planeta quando o Sol se apagar, o que está previsto para daqui a milhões de anos. Antes mesmo da escuridão, a baixa temperatura extinguirá espécies, inclusive a humana. O Sol será mais uma estrela a se converter em buraco negro, como tantas outras observadas pelos astrônomos. Diante dessa realidade, caem por terra as ridículas e pretensiosas fantasias das escrituras religiosas (hebraica, cristã, muçulmana).

Perante Deus, não há diferença entre o nosso planeta e qualquer outro astro do universo; entre o ser humano e qualquer outro ser vivo do universo. A vida biológica pode surgir e desaparecer em qualquer parte do universo, desde que presentes as condições ambientais de nascimento e morte. Se houvesse predileção divina pelos humanos não haveria morte e destruição decorrentes das leis naturais (que são leis inflexíveis promulgadas por Deus). Os fenômenos telúricos acontecem na Terra, no sistema solar, na Via Láctea e em qualquer outra galáxia. Não se trata, pois, de castigo. A mente doentia, contaminada por falsos axiomas e dogmas, invadida pelo medo, vê nos fatos naturais “castigo de Deus por causa dos nossos pecados”. Essa visão deformada permeia a bíblia. A praga de gafanhotos serve de exemplo (Joel, capítulos 1 e 2). Não há pecado algum responsável por esses fenômenos. Os danos por eles causados devem ser debitados ao determinismo da natureza e/ou à incúria humana, conforme o caso. Exemplo: ao construir, morar ou exercer atividades ao nível do mar, às margens dos rios, ao pé de montanhas nevadas, nos morros, cavernas e minas, os seres humanos cavam a própria sepultura.

Deus, Adão e Eva nada têm a ver com isso. Aliás, esse casal inventado pelo escritor hebreu nunca existiu. Trata-se de um conto da carochinha para crianças, como dizia o cientista Albert Einstein (Sec. XX – 1901/2000). A bíblia é uma fraude colossal, afirmava o filósofo Baruch Spinoza (Sec. XVII – 1601/1700). Em conseqüência da sua crítica racional, Spinoza foi expulso da sinagoga e da comunidade judia na Holanda. A fraude é útil para manter os judeus unidos, a versão de que eles são eleitos de Deus e introdutores do monoteísmo. Ambos, cientista e filósofo, eram judeus, portanto, insuspeitos ao emitirem tais juízos de valor sobre a escritura religiosa do seu povo. Thomas Hobbes (Sec. XVII – 1601/1700) filósofo inglês, ao tratar do Estado Cristão na terceira parte do seu livro Leviatã, já informava que o Antigo Testamento (AT) fora escrito no século IV a.C. (400/301) por um judeu chamado Esdras que se dizia inspirado por Deus. Verifica-se, pois, que o AT saiu da cabeça desse sacerdote qualificado de erudito. Hobbes transcreve os versículos 21, 22 e 45, do capítulo 14, do segundo livro de Esdras, onde o escritor judeu confessa a autoria da falsidade ideológica. Faço meus estudos em duas bíblias católicas e uma protestante. Em nenhuma delas encontrei o capítulo 14, do segundo livro de Esdras, mencionado e transcrito por Hobbes. O capítulo sumiu da bíblia após a publicação do Leviatã. Adições e exclusões nas escrituras “sagradas” são constantes para afeiçoá-las à doutrina e aos interesses eclesiásticos. Livros, doutrinas, escolas, inspirados na escritura hebraica e cristã, desde Santo Agostinho, passando pela escolástica até os nossos dias, não merecem fé alguma. Caracterizam-se pelo engodo, pela enxurrada de palavras vazias sobre idéias falsas, fantasiosas, distantes da realidade. E pensar que alguns dos pilares da civilização ocidental assentam-se nesse terreno falso!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

POLÍTICA

Autoridade x Liberdade.

A tensão entre poder e direito acompanha a civilização ocidental. Essa tensão fica mais evidente diante da autonomia do direito em relação à filosofia, à moral e à religião, a partir da produção jurídica romana. Chega ao ápice no século XVIII (1701/1800) quando a autoridade pública sufoca a liberdade do povo, avança nos bens da burguesia, abusa do poder de tributar, prender, torturar e matar pessoas. A opressão gerou revolta no povo, capitaneada por intelectuais, comerciantes e produtores. Na América do Norte, 13 colônias, com luta, derramamento de sangue e ajuda francesa, romperam o vínculo político com a Inglaterra. Na França, revolução sangrenta derrubou a monarquia (restaurada posteriormente). O mérito maior dessa revolução foi parir a declaração dos direitos do homem e do cidadão que se espraiou pelo mundo. Esses movimentos políticos e as idéias que os inspiravam chegaram à América Portuguesa. Habitantes da colônia estavam descontentes com a cobrança de tributos sobre a exportação do açúcar e do algodão e sobre a produção do ouro. Pequena parcela do povo se rebelou contra o monopólio da metrópole (proibição de atividades comerciais, industriais e de informação). Intelectuais e membros ricos e remediados da colônia conspiraram contra o poder real. Foram descobertos, presos e deportados. O mais pobre deles, de poucas letras, humilde alferes, foi enforcado e esquartejado. No século seguinte (1801/1900) a colônia obteve independência com apoio de um príncipe português.

Forte era a presença do imperador na monarquia constitucional instaurada em território brasileiro. Legislativo e Judiciário adequaram-se ao autoritarismo. O povo submeteu-se. Direitos contra o Estado, nem pensar. Na primeira república federativa democrática (1889/1930) o panorama pouco mudou: à parcela maior da população, os deveres; à elite governante, os direitos. No interregno autocrático civil (1930/1945) os direitos dos trabalhadores foram reconhecidos em lei; justiça específica e administrativa foi criada. Na segunda república federativa democrática (1945/1964) as desigualdades sociais e econômicas permaneceram; liberdade e igualdade jurídica foram asseguradas, porém, no plano dos fatos, de pouca valia para os desafortunados. Os trabalhadores se fortaleceram mediante organização e atividade sindical, mas encontraram forte resistência da classe produtora e da classe média aliadas à igreja católica e aos militares a serviço dos interesses do governo dos EUA (guerra fria). No período autocrático militar (1964/1985) a população sentiu o aumento da tributação e de outros encargos, além da perda da liberdade. Esta última foi mais sentida pela imprensa e pelos ativistas políticos contrários ao regime em vigor.

Descoberta a mina (o bolso do povo) os governos da terceira república federativa democrática (1985/2010) prosseguem no abuso: servem-se do Estado de Direito como biombo; a opressão vem com a capa da lei; tributação em níveis altíssimos; manipulação e elevação artificial dos juros; extrema elasticidade dada à função social da propriedade e à desapropriação por interesse social; direitos humanos esterilizados; poder governamental excessivo, corrupção desenfreada. Aumentou a parcela da população brasileira colocada à margem dos benefícios da produção econômica e cultural nos diversos momentos da história republicana. Somente no segundo governo de Luiz Inácio (2007/2010) a situação dessa gente começou a melhorar. Para atender aos interesses de privilegiados setores internos e externos (reais donos do poder) o congresso nacional remendou mais de sessenta vezes a Constituição de 1988, em afronto e desrespeito à soberania da Assembléia Nacional Constituinte.

A relação entre liberdade e autoridade é pendular, ora para lá, ora para cá, segundo o contexto político. Indiferente ao regime em vigor, se autocrático ou democrático, a prática autoritária no Brasil tem superado a prática liberal. O mecanismo social compensa as polaridades no tempo, sem equilibrá-las. Em determinados contextos sociais e econômicos, os trabalhadores concordam em reduzir salários para preservar empregos; o governo reduz o campo da sua autoridade, ainda que em distensão lenta e gradual, de modo a evitar confrontos e revoltas. No governo democrático a vontade popular deve prevalecer, mas, na realidade, prevalece a vontade dos donos do poder (elite política e econômica distinta da elite social e moral). Apesar disto, projetos de iniciativa popular são recebidos, debatidos e votados no congresso nacional e sancionados pelo chefe de governo. Esses projetos versam matéria que os legisladores e chefes de governo gostariam de engavetar. A matéria interessa ao povo, mas não aos seus representantes. A lei da ficha limpa não constaria do ordenamento jurídico se não houvesse iniciativa popular. As concessionárias de obras e serviços públicos cobram tarifas exorbitantes com o beneplácito das agências do governo. Servem de exemplo: (i) o aumento contínuo e exorbitante do pedágio nas rodovias federais, em detrimento do patrimônio e da liberdade de ir e vir dos usuários; (ii) cobrança de assinatura em contas de telefonia; (iii) serviços públicos prestados de modo deficiente e negligente.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

PILULAS

APAGÃO.

Vários Estados nordestinos ficaram sem energia elétrica no início de fevereiro do corrente ano (2011). Em anos anteriores, outras regiões brasileiras sofreram interrupção do fornecimento de energia elétrica. O Ministro das Minas e Energia, politiqueiro e mau administrador, afirma que o sistema brasileiro de distribuição de energia elétrica é o melhor do mundo. Explica as falhas no sistema como sendo comuns e acontecerem em outros países, principalmente pela intervenção de fatores naturais, como neve, tempestade e raios. Explica, mas não convence. Estruturalmente, o sistema brasileiro pode ser bom, com material de boa qualidade e conexões bem articuladas. Funcionalmente, porém, há deficiência no sistema, falhas na utilização e conservação daquele material, na fiscalização e manutenção das conexões, bem como, na administração do serviço de um modo geral. Menosprezando a inteligência do povo brasileiro, o politiqueiro Ministro julga que fala a mentecaptos ao negar o apagão e afirmar que houve apenas falha temporária no fornecimento da energia. Meras palavras para enganar o consumidor. Temporária sempre será a falta de força e luz, porque o prestador de serviço – Estado ou empresa concessionária – restabelecerá o fornecimento. Aqui, não se há de confundir tempo e espaço. O tempo no restabelecimento será curto ou longo, dependendo dos fatores naturais e técnicos, da disponibilidade mediata ou imediata de meios e da eficiência administrativa. O espaço no escuro terá maior ou menor extensão territorial. Se a interrupção do fornecimento for geral o povo diz que houve “apagão”, quer tenha ocorrido no bairro, na cidade, na região metropolitana, no Estado ou em vários Estados. No sul fluminense, por exemplo, a concessionária Ampla mostra-se ineficiente. As interrupções no fornecimento de energia elétrica são freqüentes no Município de Itatiaia, mormente no distrito turístico de Penedo, com os notórios prejuízos aos consumidores (aparelhos eletrônicos e produtos naturais que se estragam, solução de continuidade na atividade dos setores comercial e turístico). Respondendo a reclamação formal e escrita sobre essa deficiência, a Agencia Nacional de Eletricidade diz que a empresa concessionária tem direito a certo número de interrupções e, por isso mesmo, ser impossível revogar a concessão ou aplicar qualquer outra punição. Essa cláusula liberando as concessionárias de responderem por suas falhas e que lhes permite ganhos sem risco, ainda que conste do contrato ou de ato ministerial, não perde o seu caráter imoral e antijurídico. A estapafúrdia resposta da Agência sugere conivência. A tolerância com a ineficiência traz consigo a certeza de que os agentes públicos recebem propinas das empresas concessionárias para amortecer o impacto das falhas na prestação do serviço ou na realização das obras públicas. Considerando o alto nível de corrupção no Brasil, a conivência não é de se estranhar e nem se pode enquadrá-la nas exceções, posto haver alcançado foro de regra geral.