sábado, 12 de fevereiro de 2011

TERAPEUTICA

Cura pela razão e pela fé – II.

A cultura humana produz benefícios e malefícios. Entre os males do mundo da cultura estão o genocídio, o terrorismo, o racismo, o narcisismo, o fanatismo ideológico e religioso, a intolerância, a violência, o preconceito, a frouxidão dos costumes (consumo de drogas, prostituição, tráfico de mulheres e crianças, libertinagem, corrupção, deterioração dos laços da família, precária e seletiva transmissão do conhecimento, caráter mal formado, ausência de espírito fraterno), as moléstias derivadas da competição desenfreada (depressão, hipertensão, diabetes), o materialismo, o consumismo, as desigualdades sociais e econômicas (desemprego, miséria, fome), a poluição ambiental, conflitos internos e externos, rebaixamento da dignidade humana.

Desde os primórdios da civilização há uso de alucinógenos, sensualismo, cobiça, inveja, orgulho, insensatez, mentira, traição, perversidade, difamação, fraude, saques, assassinatos, guerras, ações predatórias. Processos mentais configuram o egocentrismo, o nacionalismo exacerbado, a disputa por riqueza, poder, fama, honrarias. Distintos interesses separam pessoas e nações. O Jardim do Éden nunca existiu e nem o homem ali foi criado há seis mil anos. Cuida-se de lenda, como a de Shangri-lá e Atlântida. Francis Bacon sugere que a Atlântida de Platão pode ser o continente americano, desconhecido naquela época. O paraíso e a queda do homem são crenças infantis. Não houve degradação alguma e sim evolução física e mental da espécie humana através de milhões de anos.

Todos os males biológicos e psíquicos que afligem a humanidade decorrem dos equívocos na dieta, no comportamento individual e social, na medicina, na ciência, na filosofia e na religião. Há excesso de população e seitas que se opõem ao controle da natalidade. Entre alguns povos a produção de alimentos é insuficiente para atender a demanda. A fome desespera, enfraquece e mata. Nos países capitalistas os ganhos na economia formal ficam restritos a uma parcela da população. A probabilidade de perder o emprego ou de a empresa falir por causa das crises periódicas gera tensão e ansiedade nas pessoas. O desemprego e a falta de recursos desesperam e deprimem. Os excluídos moram na periferia das cidades, em locais insalubres e inseguros, sujeitos a infecções, inundações, perda de vidas e de bens. A competição para galgar boas posições no Estado, na empresa, na profissão, na sociedade, provoca exaustão física e mental. As religiões disputam o recrutamento de crentes, ambicionam a hegemonia espiritual e o crescimento patrimonial; despertam ódios e criam um clima desfavorável à fraternidade universal. A competição entre as nações pelas riquezas naturais do planeta e pelo desenvolvimento econômico ilimitado causa angústia, guerra, morte e destruição.

Se a raça humana fosse extinta, nenhuma falta faria a Deus e à natureza. O ser humano está longe, muito longe de gozar qualquer privilégio divino e de ser a imagem e semelhança de Deus. O escritor hebreu referia-se ao deus hebreu quando lançou a seguinte inversão que colou na civilização ocidental: “Então deus disse: façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gênesis I: 26,27). A verdade que se extrai ao longo do Antigo Testamento está na forma contrária: o escritor hebreu criou esse deus à imagem e semelhança do homem hebreu e o chamou de Javé (ou Jeová): genocida, cruel, exclusivista, materialista, invasor, belicoso. O deus hebreu e o homem, mais do que semelhantes, são iguais.


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

TERAPEUTICA

Cura pela razão e pela fé – I.

Cura significa estabelecimento ou restabelecimento de um bom estado de saúde. O processo da cura tem por destinatário um sujeito singular (homem, mulher, adulto, criança) ou um sujeito coletivo (comunidade, humanidade) e comporta duas vias: racional e irracional. A via racional compreende a medicina convencional e a medicina alternativa (utilizam-se produtos químicos e fitoterápicos, cirurgia, aparelhos, agulhas). A via irracional compreende as artes fundadas na fé (harmonização espiritual, passes mediúnicos, cromoterapia, magia indígena, orações, exorcismos, chás e outras beberagens). Quanto ao estabelecimento da saúde do sujeito coletivo, a tarefa cabe aos profetas, gurus, santos, líderes, cientistas, filósofos e, de um modo geral, ao Estado e à Sociedade (leis, programas, ações, medidas preventivas e repressivas, atividades educativas e esportivas, tudo com o propósito de debelar os males sociais).

A fonte primária de todos os males está no ser humano como espécie do reino animal. No entanto, há fontes telúricas que independem do pensamento e da ação humana: tempestades, raios, inundações, terremotos, maremotos. Além dessas, há outras fontes naturais como as epidemias e as pragas. Essas forças da natureza atuariam mesmo que no planeta não houvesse vida humana. Matam e ferem vegetais e animais, causam danos, indiferente se a vida é humana, se as pessoas e os bichos são pecadores ou inocentes, se as casas, móveis e veículos são de ricos ou de pobres. As forças da natureza são cegas aos valores éticos e religiosos da humanidade. No sentido amplo, vida é a energia fundamental que gerou o universo e o mantém em movimento. Vida biológica é conceito restrito aos seres vivos. A vida biológica terminará em nosso planeta quando o Sol se apagar, o que está previsto para daqui a milhões de anos. Antes mesmo da escuridão, a baixa temperatura extinguirá espécies, inclusive a humana. O Sol será mais uma estrela a se converter em buraco negro, como tantas outras observadas pelos astrônomos. Diante dessa realidade, caem por terra as ridículas e pretensiosas fantasias das escrituras religiosas (hebraica, cristã, muçulmana).

Perante Deus, não há diferença entre o nosso planeta e qualquer outro astro do universo; entre o ser humano e qualquer outro ser vivo do universo. A vida biológica pode surgir e desaparecer em qualquer parte do universo, desde que presentes as condições ambientais de nascimento e morte. Se houvesse predileção divina pelos humanos não haveria morte e destruição decorrentes das leis naturais (que são leis inflexíveis promulgadas por Deus). Os fenômenos telúricos acontecem na Terra, no sistema solar, na Via Láctea e em qualquer outra galáxia. Não se trata, pois, de castigo. A mente doentia, contaminada por falsos axiomas e dogmas, invadida pelo medo, vê nos fatos naturais “castigo de Deus por causa dos nossos pecados”. Essa visão deformada permeia a bíblia. A praga de gafanhotos serve de exemplo (Joel, capítulos 1 e 2). Não há pecado algum responsável por esses fenômenos. Os danos por eles causados devem ser debitados ao determinismo da natureza e/ou à incúria humana, conforme o caso. Exemplo: ao construir, morar ou exercer atividades ao nível do mar, às margens dos rios, ao pé de montanhas nevadas, nos morros, cavernas e minas, os seres humanos cavam a própria sepultura.

Deus, Adão e Eva nada têm a ver com isso. Aliás, esse casal inventado pelo escritor hebreu nunca existiu. Trata-se de um conto da carochinha para crianças, como dizia o cientista Albert Einstein (Sec. XX – 1901/2000). A bíblia é uma fraude colossal, afirmava o filósofo Baruch Spinoza (Sec. XVII – 1601/1700). Em conseqüência da sua crítica racional, Spinoza foi expulso da sinagoga e da comunidade judia na Holanda. A fraude é útil para manter os judeus unidos, a versão de que eles são eleitos de Deus e introdutores do monoteísmo. Ambos, cientista e filósofo, eram judeus, portanto, insuspeitos ao emitirem tais juízos de valor sobre a escritura religiosa do seu povo. Thomas Hobbes (Sec. XVII – 1601/1700) filósofo inglês, ao tratar do Estado Cristão na terceira parte do seu livro Leviatã, já informava que o Antigo Testamento (AT) fora escrito no século IV a.C. (400/301) por um judeu chamado Esdras que se dizia inspirado por Deus. Verifica-se, pois, que o AT saiu da cabeça desse sacerdote qualificado de erudito. Hobbes transcreve os versículos 21, 22 e 45, do capítulo 14, do segundo livro de Esdras, onde o escritor judeu confessa a autoria da falsidade ideológica. Faço meus estudos em duas bíblias católicas e uma protestante. Em nenhuma delas encontrei o capítulo 14, do segundo livro de Esdras, mencionado e transcrito por Hobbes. O capítulo sumiu da bíblia após a publicação do Leviatã. Adições e exclusões nas escrituras “sagradas” são constantes para afeiçoá-las à doutrina e aos interesses eclesiásticos. Livros, doutrinas, escolas, inspirados na escritura hebraica e cristã, desde Santo Agostinho, passando pela escolástica até os nossos dias, não merecem fé alguma. Caracterizam-se pelo engodo, pela enxurrada de palavras vazias sobre idéias falsas, fantasiosas, distantes da realidade. E pensar que alguns dos pilares da civilização ocidental assentam-se nesse terreno falso!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

POLÍTICA

Autoridade x Liberdade.

A tensão entre poder e direito acompanha a civilização ocidental. Essa tensão fica mais evidente diante da autonomia do direito em relação à filosofia, à moral e à religião, a partir da produção jurídica romana. Chega ao ápice no século XVIII (1701/1800) quando a autoridade pública sufoca a liberdade do povo, avança nos bens da burguesia, abusa do poder de tributar, prender, torturar e matar pessoas. A opressão gerou revolta no povo, capitaneada por intelectuais, comerciantes e produtores. Na América do Norte, 13 colônias, com luta, derramamento de sangue e ajuda francesa, romperam o vínculo político com a Inglaterra. Na França, revolução sangrenta derrubou a monarquia (restaurada posteriormente). O mérito maior dessa revolução foi parir a declaração dos direitos do homem e do cidadão que se espraiou pelo mundo. Esses movimentos políticos e as idéias que os inspiravam chegaram à América Portuguesa. Habitantes da colônia estavam descontentes com a cobrança de tributos sobre a exportação do açúcar e do algodão e sobre a produção do ouro. Pequena parcela do povo se rebelou contra o monopólio da metrópole (proibição de atividades comerciais, industriais e de informação). Intelectuais e membros ricos e remediados da colônia conspiraram contra o poder real. Foram descobertos, presos e deportados. O mais pobre deles, de poucas letras, humilde alferes, foi enforcado e esquartejado. No século seguinte (1801/1900) a colônia obteve independência com apoio de um príncipe português.

Forte era a presença do imperador na monarquia constitucional instaurada em território brasileiro. Legislativo e Judiciário adequaram-se ao autoritarismo. O povo submeteu-se. Direitos contra o Estado, nem pensar. Na primeira república federativa democrática (1889/1930) o panorama pouco mudou: à parcela maior da população, os deveres; à elite governante, os direitos. No interregno autocrático civil (1930/1945) os direitos dos trabalhadores foram reconhecidos em lei; justiça específica e administrativa foi criada. Na segunda república federativa democrática (1945/1964) as desigualdades sociais e econômicas permaneceram; liberdade e igualdade jurídica foram asseguradas, porém, no plano dos fatos, de pouca valia para os desafortunados. Os trabalhadores se fortaleceram mediante organização e atividade sindical, mas encontraram forte resistência da classe produtora e da classe média aliadas à igreja católica e aos militares a serviço dos interesses do governo dos EUA (guerra fria). No período autocrático militar (1964/1985) a população sentiu o aumento da tributação e de outros encargos, além da perda da liberdade. Esta última foi mais sentida pela imprensa e pelos ativistas políticos contrários ao regime em vigor.

Descoberta a mina (o bolso do povo) os governos da terceira república federativa democrática (1985/2010) prosseguem no abuso: servem-se do Estado de Direito como biombo; a opressão vem com a capa da lei; tributação em níveis altíssimos; manipulação e elevação artificial dos juros; extrema elasticidade dada à função social da propriedade e à desapropriação por interesse social; direitos humanos esterilizados; poder governamental excessivo, corrupção desenfreada. Aumentou a parcela da população brasileira colocada à margem dos benefícios da produção econômica e cultural nos diversos momentos da história republicana. Somente no segundo governo de Luiz Inácio (2007/2010) a situação dessa gente começou a melhorar. Para atender aos interesses de privilegiados setores internos e externos (reais donos do poder) o congresso nacional remendou mais de sessenta vezes a Constituição de 1988, em afronto e desrespeito à soberania da Assembléia Nacional Constituinte.

A relação entre liberdade e autoridade é pendular, ora para lá, ora para cá, segundo o contexto político. Indiferente ao regime em vigor, se autocrático ou democrático, a prática autoritária no Brasil tem superado a prática liberal. O mecanismo social compensa as polaridades no tempo, sem equilibrá-las. Em determinados contextos sociais e econômicos, os trabalhadores concordam em reduzir salários para preservar empregos; o governo reduz o campo da sua autoridade, ainda que em distensão lenta e gradual, de modo a evitar confrontos e revoltas. No governo democrático a vontade popular deve prevalecer, mas, na realidade, prevalece a vontade dos donos do poder (elite política e econômica distinta da elite social e moral). Apesar disto, projetos de iniciativa popular são recebidos, debatidos e votados no congresso nacional e sancionados pelo chefe de governo. Esses projetos versam matéria que os legisladores e chefes de governo gostariam de engavetar. A matéria interessa ao povo, mas não aos seus representantes. A lei da ficha limpa não constaria do ordenamento jurídico se não houvesse iniciativa popular. As concessionárias de obras e serviços públicos cobram tarifas exorbitantes com o beneplácito das agências do governo. Servem de exemplo: (i) o aumento contínuo e exorbitante do pedágio nas rodovias federais, em detrimento do patrimônio e da liberdade de ir e vir dos usuários; (ii) cobrança de assinatura em contas de telefonia; (iii) serviços públicos prestados de modo deficiente e negligente.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

PILULAS

APAGÃO.

Vários Estados nordestinos ficaram sem energia elétrica no início de fevereiro do corrente ano (2011). Em anos anteriores, outras regiões brasileiras sofreram interrupção do fornecimento de energia elétrica. O Ministro das Minas e Energia, politiqueiro e mau administrador, afirma que o sistema brasileiro de distribuição de energia elétrica é o melhor do mundo. Explica as falhas no sistema como sendo comuns e acontecerem em outros países, principalmente pela intervenção de fatores naturais, como neve, tempestade e raios. Explica, mas não convence. Estruturalmente, o sistema brasileiro pode ser bom, com material de boa qualidade e conexões bem articuladas. Funcionalmente, porém, há deficiência no sistema, falhas na utilização e conservação daquele material, na fiscalização e manutenção das conexões, bem como, na administração do serviço de um modo geral. Menosprezando a inteligência do povo brasileiro, o politiqueiro Ministro julga que fala a mentecaptos ao negar o apagão e afirmar que houve apenas falha temporária no fornecimento da energia. Meras palavras para enganar o consumidor. Temporária sempre será a falta de força e luz, porque o prestador de serviço – Estado ou empresa concessionária – restabelecerá o fornecimento. Aqui, não se há de confundir tempo e espaço. O tempo no restabelecimento será curto ou longo, dependendo dos fatores naturais e técnicos, da disponibilidade mediata ou imediata de meios e da eficiência administrativa. O espaço no escuro terá maior ou menor extensão territorial. Se a interrupção do fornecimento for geral o povo diz que houve “apagão”, quer tenha ocorrido no bairro, na cidade, na região metropolitana, no Estado ou em vários Estados. No sul fluminense, por exemplo, a concessionária Ampla mostra-se ineficiente. As interrupções no fornecimento de energia elétrica são freqüentes no Município de Itatiaia, mormente no distrito turístico de Penedo, com os notórios prejuízos aos consumidores (aparelhos eletrônicos e produtos naturais que se estragam, solução de continuidade na atividade dos setores comercial e turístico). Respondendo a reclamação formal e escrita sobre essa deficiência, a Agencia Nacional de Eletricidade diz que a empresa concessionária tem direito a certo número de interrupções e, por isso mesmo, ser impossível revogar a concessão ou aplicar qualquer outra punição. Essa cláusula liberando as concessionárias de responderem por suas falhas e que lhes permite ganhos sem risco, ainda que conste do contrato ou de ato ministerial, não perde o seu caráter imoral e antijurídico. A estapafúrdia resposta da Agência sugere conivência. A tolerância com a ineficiência traz consigo a certeza de que os agentes públicos recebem propinas das empresas concessionárias para amortecer o impacto das falhas na prestação do serviço ou na realização das obras públicas. Considerando o alto nível de corrupção no Brasil, a conivência não é de se estranhar e nem se pode enquadrá-la nas exceções, posto haver alcançado foro de regra geral.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

PILULAS

Atividade da presidenta.

No final de janeiro (2011) em sua primeira viagem internacional, a Presidente da República Federativa do Brasil visitou a presidenta da Argentina. Isto parece indicar preferência brasileira à valorização do relacionamento com os países da América Latina e às organizações regionais. Pode-se ver nessa atitude, implícito recado ao governo dos EUA: podemos continuar parceiros, mas a política externa brasileira admite e cultiva outras parcerias. Há notícia de que o presidente dos EUA visitará o Brasil no primeiro semestre deste ano (2011). Estratégia, talvez, para reanimar as relações entre os dois países e desculpar a ausência daquele presidente à posse da presidenta. Diferença de estilo: (1) Luiz Inácio, mesmo antes de tomar posse no cargo de Presidente da República, correu aos EUA lamber as botas texanas de Bush; (2) Dilma Rousseff só viajou após tomar posse no cargo. Foi abraçar carinhosa e fraternalmente a sua colega argentina que recentemente perdera o marido. Gentil e apropriadamente, em atenção ao luto da argentina, a brasileira apresentou-se com vestido escuro.

No começo de fevereiro de 2011 (02/02/11), a presidenta compareceu à abertura da 54ª Legislatura do Brasil. Traje claro, simples e elegante. Mudou a praxe. Regularmente, a mensagem presidencial era lida pelo chefe do gabinete civil da presidência da República. Dilma revelou senso político e autonomia em relação ao cerimonial. Com o seu gesto, cativou eleitores e eleitos, além de prestigiar o Congresso Nacional como instituição legislativa. No seu discurso escrito, como convém à solenidade, tratou genericamente das metas do seu governo nos diferentes setores da administração pública. Leitura tranqüila, serena, em tom moderado. Diferença de estilo: (1) Luiz Inácio discursava de maneira espalhafatosa e vulgar, como se estivesse em palanque eleitoral; (2) Dilma Rousseff discursa de maneira recatada, como se estivesse no recinto de uma academia de letras. Presentes os parlamentares da nova legislatura, os presidentes do Supremo Tribunal Federal (STF), do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e outras autoridades, em cerimônia de forte simbolismo cívico. O presidente do STF leu a mensagem do Poder Judiciário. Outra boa inovação, pelo seu significado político institucional, foi dar voz, na cerimônia, ao presidente do TSE que, de modo objetivo, relatou o processo eleitoral de 2010.

Revolução no Egito.

O povo egípcio cansou da autocracia. Seguramente, não é o mesmo povo que suportou a monarquia teocrática dos faraós por três mil e duzentos anos até a queda da sua civilização no alvorecer da era cristã. O governo de Hosni Mubarak dura, apenas, 30 anos. Esse militar se manteve no poder graças à aura de libertador, a permanente propaganda em torno da sua pessoa e à continuidade da aliança com os EUA e Israel. Em nome de Deus e da democracia o governo estadunidense invade países e desrespeita valores culturais de outras nações. No entanto, apóia ditaduras civis e militares em qualquer país, desde que os interesses econômicos e estratégicos dos EUA estejam atendidos.

Assim foi na América Latina, durante a guerra fria: o governo estadunidense deu apoio doutrinário e logístico a ditaduras em todos os países para impedir governos socialistas. Havia escola nos EUA para doutrinar – como de fato doutrinava – os militares latino-americanos para instituírem ditaduras. Salvador Allende, presidente eleito pelo povo chileno, foi uma das inúmeras vítimas da trama política engendrada pelo governo estadunidense. Tentaram acabar com Fidel Castro e o regime cubano, mas não conseguiram. No Brasil, sob os auspícios do governo estadunidense, com o objetivo de implantar e assegurar regime ditatorial, foram afastados do poder e eliminados líderes políticos como João Goulart e Juscelino Kubitschek.

No Iraque, depois de apoiar o ditador Saddam Hussein por longos anos, o governo estadunidense providenciou a sua morte. Aquela ditadura já não lhe servia mais. Agora, o citado governo pretende se descartar de outra ditadura que recebeu seu apoio durante 30 anos: a de Mubarak, no Egito. O assassinato do ditador poderá entrar na pauta dos assuntos internacionais dos EUA. Diante da forte determinação de parcela significativa do povo egípcio de afastar o ditador e votar nova Constituição, o governo dos EUA tenta um modo engenhoso de transição a fim de evitar que o poder egípcio caia em mãos muçulmanas. Os governos dos EUA e Israel querem manter um títere no Egito que não se alie ao governo do Irã ou a qualquer outro que não esteja afinado com os interesses daqueles dois países. O governo dos EUA pretende conservar as atuais e ganhar novas posições no tabuleiro do Oriente Médio e do norte da África. A situação política no Egito pode frustrar essa pretensão.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

POESIAS

O vaso azul destas verbenas / partiu-o um leque que o tocou: / golpe sutil, roçou-o apenas / pois nem um ruído revelou. / Mas a ferida persistente / mordendo-o sempre e sem sinal / fez, firme e imperceptivelmente / a volta toda do cristal. / A água fugiu calada e fria / a seiva toda se esgotou / ninguém de nada desconfia / não toquem, não, que se quebrou. / Assim, a mão de alguém, roçando / num coração, enche-o de dor / e ele se vai, calmo, quebrando / e morre a flor do seu amor; / embora intacto ao olhar do mundo / sente, na sua solidão / crescer seu mal fino e profundo / já se quebrou: não toquem, não. (“O Vaso Partido” – René François Armand Prudhomme).

De Palos – como a errar, longe do azul natal / os gerifaltos vão – em chusmas, audaciosos / ávidos capitães, pilotos cobiçosos / partiram navegando empós de estranho ideal... / vão conquistar além, das minas do metal / que Cipango entesoura, os veios fabulosos; / sonham, boiando em luz países misteriosos / praias, climas, regiões do mundo ocidental... / sulcam assim, mar alto, infatigavelmente / miragens tropicais, longe, enganosamente / esboçam construções e torres de ouro no ar... / e eles à proa vão das alvas caravelas / vendo só, despenhado em turbilhões de estrelas / todo o infinito céu sobre o infinito mar.../ (“Os Argonautas” – José Maria de Heredia).

De repente uns desejos fúteis / tivestes, de escutar um pouco / as várias músicas inúteis / das minhas flautas de som rouco. / Esta canção que eu comecei / ante a paisagem, frio e grave / ficou melhor quando a cessei / para olhar vosso olhar suave. / Sim, este vão sopro que expulso / até meu último limite / (meus dedos, hirtos movo a pulso) / falha se imita, embora imite / o vosso claro, natural / riso infantil e matinal. (“Folha de Álbum” – Stephane Mallarmé.)

“Para os puros tudo é puro” – assim fala o povo. / Mas eu vos digo: para os porcos tudo é porco! / Por isso os fanáticos e os que curvam a cerviz que também têm o coração inclinado / predicam desta forma: “o próprio mundo é um monstro lamacento!” / Por que todos esses têm o espírito sujo, especialmente os que se não dão paz nem sossego / enquanto não vêem o mundo por detrás: são os crentes do mundo posterior. / A esses lhes digo eu na cara conquanto não soe muito bem: o mundo parece-se com o homem por ter traseiro também; isto é uma verdade! / Há no mundo muita lama; isto é grande verdade! / Mas, nem por isso, o mundo é um monstro lamacento! / É sensato haver no mundo muitas coisas que cheirem mal; o próprio asco cria asas e forças que pressentem mananciais! / Até nos melhores há qualquer coisa repugnante / e até o melhor é coisa que se deve superar! / Oh! Meus irmãos! É sensato haver muita lama no mundo! (Trecho de “Assim Falou Zaratustra” – poema bíblico em prosa de Friedrich Wilhelm Nietzche).

domingo, 30 de janeiro de 2011

POESIAS

Olha amigo: este mar, que era tão manso / bateu, como um aríete, um dia, sem descanso / os promontórios; foi aos saltos em cachões / escalando, subindo as rochas e sobre elas / estendeu, a bramir, no fragor das procelas / o espumoso lençol dos negros vagalhões. (...) Meu coração é como esse mar que, tranqüilo / beija as praias agora em doce murmurilo. / Também chorou, rugiu como ele, sem descanso / contra as rochas lançou-se em tremendos embates / todo um dia cruel de insânia e de combates. / Vês, agora reflui apaziguado e manso / sem desejo ou temor de nova tempestade. / À carícia do sol a voz mal se lhe escuta / mas o gênio, a esperança, a força, a mocidade / ei-los mortos na espuma e no sangue da luta. (Trecho de “Sonhos Mortos” - Charles Marie René Leconte de Lisle).

Bem-vindo sejas, irmão brasileiro! – teu amplo lugar está pronto / um sorriso te enviamos do norte – mãos afetuosas – uma urgente saudação cheia de sol! / ( Que o futuro se haja sozinho, onde quer que surjam transtornos e obstáculos. / Nossas, nossas as agruras do presente, o fim democrático, a aceitação e a fé) / para ti, neste dia, nossos braços se estende, nosso rosto se volta / sobre ti nosso olhar paira esperançoso./ Tu, livre aglomerado de estrelas! Tu, constelação rutilante! / Tu que tão bem compreendeste / o exemplo verdadeiro de uma nação cuja luz fulgia no céu / (mais resplandecente do que a Cruz, mais do que a Coroa) / o vértice que é preciso atingir para chegar à suprema humanidade. (“Saudação de Natal” – Walt Whitmann).
OBS. Esse poeta estadunidense morreu em 1892. O Brasil tornara-se república democrática federativa em 1889 e adotara o modelo da Constituição dos EUA. O Brasil separou-se da religião (cruz) tornando-se um Estado laico e rejeitou a monarquia (coroa) tornando-se um Estado democrático.

Nunca vi um campo de urzes. / Também nunca vi o mar. / No entanto, sei a urze como é / posso a onda imaginar. / Nunca estive no céu / nem vi Deus, todavia / conheço o sítio como se / tivesse em mãos um guia. (“Nunca vi um campo de urzes”. – Emily Dickinson).

Às vezes, por prazer, os homens de equipagem / pegam um albatroz, enorme ave marinha / que segue, companheiro indolente de viagem / o navio que sobre os abismos caminha. / Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas / esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado / deixa doridamente as grandes e alvas asas / como remos a cair e arrastar-se a seu lado. / Que sem graça é o viajor alado sem seu nimbo! / Ave tão bela como está cômica e feia! / Um o irrita chegando ao seu bico um cachimbo / outro se põe a imitar o enfermo que coxeia! / O poeta é semelhante ao príncipe da altura / que busca a tempestade e ri da flecha no ar / exilado no chão, em meio à corja impura / as asas de gigante impedem-no de andar. (“O Albatroz” – Pierre Charles Baudelaire).