terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

POLÍTICA

Autoridade x Liberdade.

A tensão entre poder e direito acompanha a civilização ocidental. Essa tensão fica mais evidente diante da autonomia do direito em relação à filosofia, à moral e à religião, a partir da produção jurídica romana. Chega ao ápice no século XVIII (1701/1800) quando a autoridade pública sufoca a liberdade do povo, avança nos bens da burguesia, abusa do poder de tributar, prender, torturar e matar pessoas. A opressão gerou revolta no povo, capitaneada por intelectuais, comerciantes e produtores. Na América do Norte, 13 colônias, com luta, derramamento de sangue e ajuda francesa, romperam o vínculo político com a Inglaterra. Na França, revolução sangrenta derrubou a monarquia (restaurada posteriormente). O mérito maior dessa revolução foi parir a declaração dos direitos do homem e do cidadão que se espraiou pelo mundo. Esses movimentos políticos e as idéias que os inspiravam chegaram à América Portuguesa. Habitantes da colônia estavam descontentes com a cobrança de tributos sobre a exportação do açúcar e do algodão e sobre a produção do ouro. Pequena parcela do povo se rebelou contra o monopólio da metrópole (proibição de atividades comerciais, industriais e de informação). Intelectuais e membros ricos e remediados da colônia conspiraram contra o poder real. Foram descobertos, presos e deportados. O mais pobre deles, de poucas letras, humilde alferes, foi enforcado e esquartejado. No século seguinte (1801/1900) a colônia obteve independência com apoio de um príncipe português.

Forte era a presença do imperador na monarquia constitucional instaurada em território brasileiro. Legislativo e Judiciário adequaram-se ao autoritarismo. O povo submeteu-se. Direitos contra o Estado, nem pensar. Na primeira república federativa democrática (1889/1930) o panorama pouco mudou: à parcela maior da população, os deveres; à elite governante, os direitos. No interregno autocrático civil (1930/1945) os direitos dos trabalhadores foram reconhecidos em lei; justiça específica e administrativa foi criada. Na segunda república federativa democrática (1945/1964) as desigualdades sociais e econômicas permaneceram; liberdade e igualdade jurídica foram asseguradas, porém, no plano dos fatos, de pouca valia para os desafortunados. Os trabalhadores se fortaleceram mediante organização e atividade sindical, mas encontraram forte resistência da classe produtora e da classe média aliadas à igreja católica e aos militares a serviço dos interesses do governo dos EUA (guerra fria). No período autocrático militar (1964/1985) a população sentiu o aumento da tributação e de outros encargos, além da perda da liberdade. Esta última foi mais sentida pela imprensa e pelos ativistas políticos contrários ao regime em vigor.

Descoberta a mina (o bolso do povo) os governos da terceira república federativa democrática (1985/2010) prosseguem no abuso: servem-se do Estado de Direito como biombo; a opressão vem com a capa da lei; tributação em níveis altíssimos; manipulação e elevação artificial dos juros; extrema elasticidade dada à função social da propriedade e à desapropriação por interesse social; direitos humanos esterilizados; poder governamental excessivo, corrupção desenfreada. Aumentou a parcela da população brasileira colocada à margem dos benefícios da produção econômica e cultural nos diversos momentos da história republicana. Somente no segundo governo de Luiz Inácio (2007/2010) a situação dessa gente começou a melhorar. Para atender aos interesses de privilegiados setores internos e externos (reais donos do poder) o congresso nacional remendou mais de sessenta vezes a Constituição de 1988, em afronto e desrespeito à soberania da Assembléia Nacional Constituinte.

A relação entre liberdade e autoridade é pendular, ora para lá, ora para cá, segundo o contexto político. Indiferente ao regime em vigor, se autocrático ou democrático, a prática autoritária no Brasil tem superado a prática liberal. O mecanismo social compensa as polaridades no tempo, sem equilibrá-las. Em determinados contextos sociais e econômicos, os trabalhadores concordam em reduzir salários para preservar empregos; o governo reduz o campo da sua autoridade, ainda que em distensão lenta e gradual, de modo a evitar confrontos e revoltas. No governo democrático a vontade popular deve prevalecer, mas, na realidade, prevalece a vontade dos donos do poder (elite política e econômica distinta da elite social e moral). Apesar disto, projetos de iniciativa popular são recebidos, debatidos e votados no congresso nacional e sancionados pelo chefe de governo. Esses projetos versam matéria que os legisladores e chefes de governo gostariam de engavetar. A matéria interessa ao povo, mas não aos seus representantes. A lei da ficha limpa não constaria do ordenamento jurídico se não houvesse iniciativa popular. As concessionárias de obras e serviços públicos cobram tarifas exorbitantes com o beneplácito das agências do governo. Servem de exemplo: (i) o aumento contínuo e exorbitante do pedágio nas rodovias federais, em detrimento do patrimônio e da liberdade de ir e vir dos usuários; (ii) cobrança de assinatura em contas de telefonia; (iii) serviços públicos prestados de modo deficiente e negligente.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

PILULAS

APAGÃO.

Vários Estados nordestinos ficaram sem energia elétrica no início de fevereiro do corrente ano (2011). Em anos anteriores, outras regiões brasileiras sofreram interrupção do fornecimento de energia elétrica. O Ministro das Minas e Energia, politiqueiro e mau administrador, afirma que o sistema brasileiro de distribuição de energia elétrica é o melhor do mundo. Explica as falhas no sistema como sendo comuns e acontecerem em outros países, principalmente pela intervenção de fatores naturais, como neve, tempestade e raios. Explica, mas não convence. Estruturalmente, o sistema brasileiro pode ser bom, com material de boa qualidade e conexões bem articuladas. Funcionalmente, porém, há deficiência no sistema, falhas na utilização e conservação daquele material, na fiscalização e manutenção das conexões, bem como, na administração do serviço de um modo geral. Menosprezando a inteligência do povo brasileiro, o politiqueiro Ministro julga que fala a mentecaptos ao negar o apagão e afirmar que houve apenas falha temporária no fornecimento da energia. Meras palavras para enganar o consumidor. Temporária sempre será a falta de força e luz, porque o prestador de serviço – Estado ou empresa concessionária – restabelecerá o fornecimento. Aqui, não se há de confundir tempo e espaço. O tempo no restabelecimento será curto ou longo, dependendo dos fatores naturais e técnicos, da disponibilidade mediata ou imediata de meios e da eficiência administrativa. O espaço no escuro terá maior ou menor extensão territorial. Se a interrupção do fornecimento for geral o povo diz que houve “apagão”, quer tenha ocorrido no bairro, na cidade, na região metropolitana, no Estado ou em vários Estados. No sul fluminense, por exemplo, a concessionária Ampla mostra-se ineficiente. As interrupções no fornecimento de energia elétrica são freqüentes no Município de Itatiaia, mormente no distrito turístico de Penedo, com os notórios prejuízos aos consumidores (aparelhos eletrônicos e produtos naturais que se estragam, solução de continuidade na atividade dos setores comercial e turístico). Respondendo a reclamação formal e escrita sobre essa deficiência, a Agencia Nacional de Eletricidade diz que a empresa concessionária tem direito a certo número de interrupções e, por isso mesmo, ser impossível revogar a concessão ou aplicar qualquer outra punição. Essa cláusula liberando as concessionárias de responderem por suas falhas e que lhes permite ganhos sem risco, ainda que conste do contrato ou de ato ministerial, não perde o seu caráter imoral e antijurídico. A estapafúrdia resposta da Agência sugere conivência. A tolerância com a ineficiência traz consigo a certeza de que os agentes públicos recebem propinas das empresas concessionárias para amortecer o impacto das falhas na prestação do serviço ou na realização das obras públicas. Considerando o alto nível de corrupção no Brasil, a conivência não é de se estranhar e nem se pode enquadrá-la nas exceções, posto haver alcançado foro de regra geral.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

PILULAS

Atividade da presidenta.

No final de janeiro (2011) em sua primeira viagem internacional, a Presidente da República Federativa do Brasil visitou a presidenta da Argentina. Isto parece indicar preferência brasileira à valorização do relacionamento com os países da América Latina e às organizações regionais. Pode-se ver nessa atitude, implícito recado ao governo dos EUA: podemos continuar parceiros, mas a política externa brasileira admite e cultiva outras parcerias. Há notícia de que o presidente dos EUA visitará o Brasil no primeiro semestre deste ano (2011). Estratégia, talvez, para reanimar as relações entre os dois países e desculpar a ausência daquele presidente à posse da presidenta. Diferença de estilo: (1) Luiz Inácio, mesmo antes de tomar posse no cargo de Presidente da República, correu aos EUA lamber as botas texanas de Bush; (2) Dilma Rousseff só viajou após tomar posse no cargo. Foi abraçar carinhosa e fraternalmente a sua colega argentina que recentemente perdera o marido. Gentil e apropriadamente, em atenção ao luto da argentina, a brasileira apresentou-se com vestido escuro.

No começo de fevereiro de 2011 (02/02/11), a presidenta compareceu à abertura da 54ª Legislatura do Brasil. Traje claro, simples e elegante. Mudou a praxe. Regularmente, a mensagem presidencial era lida pelo chefe do gabinete civil da presidência da República. Dilma revelou senso político e autonomia em relação ao cerimonial. Com o seu gesto, cativou eleitores e eleitos, além de prestigiar o Congresso Nacional como instituição legislativa. No seu discurso escrito, como convém à solenidade, tratou genericamente das metas do seu governo nos diferentes setores da administração pública. Leitura tranqüila, serena, em tom moderado. Diferença de estilo: (1) Luiz Inácio discursava de maneira espalhafatosa e vulgar, como se estivesse em palanque eleitoral; (2) Dilma Rousseff discursa de maneira recatada, como se estivesse no recinto de uma academia de letras. Presentes os parlamentares da nova legislatura, os presidentes do Supremo Tribunal Federal (STF), do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e outras autoridades, em cerimônia de forte simbolismo cívico. O presidente do STF leu a mensagem do Poder Judiciário. Outra boa inovação, pelo seu significado político institucional, foi dar voz, na cerimônia, ao presidente do TSE que, de modo objetivo, relatou o processo eleitoral de 2010.

Revolução no Egito.

O povo egípcio cansou da autocracia. Seguramente, não é o mesmo povo que suportou a monarquia teocrática dos faraós por três mil e duzentos anos até a queda da sua civilização no alvorecer da era cristã. O governo de Hosni Mubarak dura, apenas, 30 anos. Esse militar se manteve no poder graças à aura de libertador, a permanente propaganda em torno da sua pessoa e à continuidade da aliança com os EUA e Israel. Em nome de Deus e da democracia o governo estadunidense invade países e desrespeita valores culturais de outras nações. No entanto, apóia ditaduras civis e militares em qualquer país, desde que os interesses econômicos e estratégicos dos EUA estejam atendidos.

Assim foi na América Latina, durante a guerra fria: o governo estadunidense deu apoio doutrinário e logístico a ditaduras em todos os países para impedir governos socialistas. Havia escola nos EUA para doutrinar – como de fato doutrinava – os militares latino-americanos para instituírem ditaduras. Salvador Allende, presidente eleito pelo povo chileno, foi uma das inúmeras vítimas da trama política engendrada pelo governo estadunidense. Tentaram acabar com Fidel Castro e o regime cubano, mas não conseguiram. No Brasil, sob os auspícios do governo estadunidense, com o objetivo de implantar e assegurar regime ditatorial, foram afastados do poder e eliminados líderes políticos como João Goulart e Juscelino Kubitschek.

No Iraque, depois de apoiar o ditador Saddam Hussein por longos anos, o governo estadunidense providenciou a sua morte. Aquela ditadura já não lhe servia mais. Agora, o citado governo pretende se descartar de outra ditadura que recebeu seu apoio durante 30 anos: a de Mubarak, no Egito. O assassinato do ditador poderá entrar na pauta dos assuntos internacionais dos EUA. Diante da forte determinação de parcela significativa do povo egípcio de afastar o ditador e votar nova Constituição, o governo dos EUA tenta um modo engenhoso de transição a fim de evitar que o poder egípcio caia em mãos muçulmanas. Os governos dos EUA e Israel querem manter um títere no Egito que não se alie ao governo do Irã ou a qualquer outro que não esteja afinado com os interesses daqueles dois países. O governo dos EUA pretende conservar as atuais e ganhar novas posições no tabuleiro do Oriente Médio e do norte da África. A situação política no Egito pode frustrar essa pretensão.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

POESIAS

O vaso azul destas verbenas / partiu-o um leque que o tocou: / golpe sutil, roçou-o apenas / pois nem um ruído revelou. / Mas a ferida persistente / mordendo-o sempre e sem sinal / fez, firme e imperceptivelmente / a volta toda do cristal. / A água fugiu calada e fria / a seiva toda se esgotou / ninguém de nada desconfia / não toquem, não, que se quebrou. / Assim, a mão de alguém, roçando / num coração, enche-o de dor / e ele se vai, calmo, quebrando / e morre a flor do seu amor; / embora intacto ao olhar do mundo / sente, na sua solidão / crescer seu mal fino e profundo / já se quebrou: não toquem, não. (“O Vaso Partido” – René François Armand Prudhomme).

De Palos – como a errar, longe do azul natal / os gerifaltos vão – em chusmas, audaciosos / ávidos capitães, pilotos cobiçosos / partiram navegando empós de estranho ideal... / vão conquistar além, das minas do metal / que Cipango entesoura, os veios fabulosos; / sonham, boiando em luz países misteriosos / praias, climas, regiões do mundo ocidental... / sulcam assim, mar alto, infatigavelmente / miragens tropicais, longe, enganosamente / esboçam construções e torres de ouro no ar... / e eles à proa vão das alvas caravelas / vendo só, despenhado em turbilhões de estrelas / todo o infinito céu sobre o infinito mar.../ (“Os Argonautas” – José Maria de Heredia).

De repente uns desejos fúteis / tivestes, de escutar um pouco / as várias músicas inúteis / das minhas flautas de som rouco. / Esta canção que eu comecei / ante a paisagem, frio e grave / ficou melhor quando a cessei / para olhar vosso olhar suave. / Sim, este vão sopro que expulso / até meu último limite / (meus dedos, hirtos movo a pulso) / falha se imita, embora imite / o vosso claro, natural / riso infantil e matinal. (“Folha de Álbum” – Stephane Mallarmé.)

“Para os puros tudo é puro” – assim fala o povo. / Mas eu vos digo: para os porcos tudo é porco! / Por isso os fanáticos e os que curvam a cerviz que também têm o coração inclinado / predicam desta forma: “o próprio mundo é um monstro lamacento!” / Por que todos esses têm o espírito sujo, especialmente os que se não dão paz nem sossego / enquanto não vêem o mundo por detrás: são os crentes do mundo posterior. / A esses lhes digo eu na cara conquanto não soe muito bem: o mundo parece-se com o homem por ter traseiro também; isto é uma verdade! / Há no mundo muita lama; isto é grande verdade! / Mas, nem por isso, o mundo é um monstro lamacento! / É sensato haver no mundo muitas coisas que cheirem mal; o próprio asco cria asas e forças que pressentem mananciais! / Até nos melhores há qualquer coisa repugnante / e até o melhor é coisa que se deve superar! / Oh! Meus irmãos! É sensato haver muita lama no mundo! (Trecho de “Assim Falou Zaratustra” – poema bíblico em prosa de Friedrich Wilhelm Nietzche).

domingo, 30 de janeiro de 2011

POESIAS

Olha amigo: este mar, que era tão manso / bateu, como um aríete, um dia, sem descanso / os promontórios; foi aos saltos em cachões / escalando, subindo as rochas e sobre elas / estendeu, a bramir, no fragor das procelas / o espumoso lençol dos negros vagalhões. (...) Meu coração é como esse mar que, tranqüilo / beija as praias agora em doce murmurilo. / Também chorou, rugiu como ele, sem descanso / contra as rochas lançou-se em tremendos embates / todo um dia cruel de insânia e de combates. / Vês, agora reflui apaziguado e manso / sem desejo ou temor de nova tempestade. / À carícia do sol a voz mal se lhe escuta / mas o gênio, a esperança, a força, a mocidade / ei-los mortos na espuma e no sangue da luta. (Trecho de “Sonhos Mortos” - Charles Marie René Leconte de Lisle).

Bem-vindo sejas, irmão brasileiro! – teu amplo lugar está pronto / um sorriso te enviamos do norte – mãos afetuosas – uma urgente saudação cheia de sol! / ( Que o futuro se haja sozinho, onde quer que surjam transtornos e obstáculos. / Nossas, nossas as agruras do presente, o fim democrático, a aceitação e a fé) / para ti, neste dia, nossos braços se estende, nosso rosto se volta / sobre ti nosso olhar paira esperançoso./ Tu, livre aglomerado de estrelas! Tu, constelação rutilante! / Tu que tão bem compreendeste / o exemplo verdadeiro de uma nação cuja luz fulgia no céu / (mais resplandecente do que a Cruz, mais do que a Coroa) / o vértice que é preciso atingir para chegar à suprema humanidade. (“Saudação de Natal” – Walt Whitmann).
OBS. Esse poeta estadunidense morreu em 1892. O Brasil tornara-se república democrática federativa em 1889 e adotara o modelo da Constituição dos EUA. O Brasil separou-se da religião (cruz) tornando-se um Estado laico e rejeitou a monarquia (coroa) tornando-se um Estado democrático.

Nunca vi um campo de urzes. / Também nunca vi o mar. / No entanto, sei a urze como é / posso a onda imaginar. / Nunca estive no céu / nem vi Deus, todavia / conheço o sítio como se / tivesse em mãos um guia. (“Nunca vi um campo de urzes”. – Emily Dickinson).

Às vezes, por prazer, os homens de equipagem / pegam um albatroz, enorme ave marinha / que segue, companheiro indolente de viagem / o navio que sobre os abismos caminha. / Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas / esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado / deixa doridamente as grandes e alvas asas / como remos a cair e arrastar-se a seu lado. / Que sem graça é o viajor alado sem seu nimbo! / Ave tão bela como está cômica e feia! / Um o irrita chegando ao seu bico um cachimbo / outro se põe a imitar o enfermo que coxeia! / O poeta é semelhante ao príncipe da altura / que busca a tempestade e ri da flecha no ar / exilado no chão, em meio à corja impura / as asas de gigante impedem-no de andar. (“O Albatroz” – Pierre Charles Baudelaire).

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

COSTUMES

SAQUEADORES.

2008. Tragédia no Estado de Santa Catarina: chuvas, inundações, desmoronamentos, perdas de vidas e de bens materiais em novembro e dezembro. Como ajuda e a fundo perdido (dispensa prestação de contas) a União Federal destinou 1 bilhão e 49 milhões de reais ao Estado de Santa Catarina. Em programa de TV, um experiente engenheiro, especialista nesse tipo de catástrofe, questionado sobre a falta de medidas preventivas, incluiu na resposta a probabilidade de omissão intencional dos governantes. O propósito da omissão seria obter polpuda receita extra para os municípios e para o Estado, a cada catástrofe. Do ser humano, tudo se espera, de bom e de ruim, tendo em vista a sua mista natureza angelical e demoníaca. Prevenção e visão de futuro nacional e internacional são moedas raras na administração pública brasileira: favelas cada vez mais numerosas, excesso de veículos e falta de vias de trânsito para suportá-lo, calçadas obstruídas, excesso de população em algumas cidades, poluição ambiental em todas as modalidades, perda de recursos naturais, falta de recursos artificiais, fronteiras ameaçadas, governantes politiqueiros, governados lenientes e assim por diante. Evitar calamidades previsíveis de maneira plena e definitiva reclama gente honesta, inteligente, solidária, operosa, com senso de responsabilidade e espírito público.

2011. Nova tragédia gerada pelos mesmos fatores naturais no Estado de Santa Catarina atingindo mais a camada pobre da população. Aqueles bilhão e milhões de reais não resolveram o problema social, mas é bem provável que tenham resolvido o problema dos espertalhões. Governantes e políticos catarinenses querem mais dinheiro este ano.

2011. Na região serrana do Estado do Rio de Janeiro outros ingredientes foram adicionados à falta de vergonha dos aproveitadores do infortúnio alheio, conforme notícia circulada na rede de computadores, no jornal Estado de São Paulo e no jornal O Globo. Na Granja Florestal, localizada no bairro Posse, na cidade de Teresópolis, eram recolhidos donativos endereçados à Cruz Vermelha. Médicos e outros voluntários ali trabalhavam para distribuí-los aos flagelados. Conforme relato do médico Martius de Oliveira, cedido à Cruz Vermelha pelo Tribunal Regional Eleitoral do Estado do Rio de Janeiro, o local foi invadido por funcionários da prefeitura de Teresópolis com cobertura de soldados armados de fuzis. Todos que ali trabalhavam foram expulsos e os donativos removidos. Afirma-se que o prefeito é evangélico e pretende que a distribuição dos donativos se faça através das igrejas evangélicas. Disputa por prestígio político e rivalidade entre católicos e protestantes ativaram a violência.

1822/2011. Pessoas naturais e jurídicas enviam ajuda em dinheiro, jóias, metais preciosos e outras coisas (artigos de higiene, remédios, água potável, mobiliário, eletrodomésticos, alimentos, roupas, calçados, brinquedos) em períodos de crise financeira nacional ou de calamidade pública. Esses bens não são contabilizados; ficam sujeitos a entesouramento e armazenamento para uso futuro e inescrupuloso de políticos e de lideranças comunitárias e religiosas. Monta-se a indústria da desgraça coletiva. Isto explica a existência de problemas crônicos nas diversas regiões do país, cujos dirigentes solicitam verbas públicas e ajuda humanitária da população. Por diversas vezes, parcela do povo brasileiro se mostrou generosa, sensível ao sofrimento dos seus irmãos de pátria. Casais doaram até as alianças de casamento para abastecer de ouro o Brasil. Milhares de brasileiros prestam serviços gratuitamente e enviam dinheiro e bens materiais para socorrer flagelados. Campanhas por jornais, rádio e TV solicitam auxílio e arrecadam dinheiro e bens. Missas e cultos são realizados pedindo ajuda a Deus e aos fiéis. Em todas essas ocasiões agiram os oportunistas e aproveitadores. O direito penal considera circunstância agravante o fato de o agente praticar crimes aproveitando-se da ocasião de incêndio, naufrágio, inundação ou qualquer calamidade pública.

Em outros países também há saques e desvios quando pessoas liberam instintos e afrouxam os freios éticos. Isto acontece em movimentos de protesto nas ruas, ou durante calamidades públicas. Recursos obtidos em campanhas humanitárias também são desviados. Milhões de dólares arrecadados por organismo internacional para o combate à AIDS foram desviados para cofres particulares, como noticiado na imprensa recentemente. A crise financeira mundial de 2008, fruto da desonestidade, também serviu à safadeza posterior. O capitalismo moderado adotado nos EUA, a partir de 1930, camuflou o capitalismo amoral e o capitalista imoral. O governo dos EUA se comprometia a atenuar os efeitos das flutuações econômicas e a manter a economia em expansão com o máximo de emprego, de produção e de poder de compra (Employment Act/1946). Se houvesse turbulência, retirar-se-iam recursos do tesouro dos EUA. Os donos do capital privado e do crédito foram se soltando, paulatinamente, criaram uma bolha e a inflaram até estourar em 2008. Os agentes financeiros foram prontamente atendidos pelo governo estadunidense. O mesmo ocorreu na Europa. Os trabalhadores amargaram demissões em massa e férias coletivas. As empresas usam os trabalhadores como aríete contra o Estado, a fim de obterem bilhões de dólares de ajuda. No Brasil, alguns se aproveitaram do pessimismo, ansiedade e insegurança gerados pela crise, para forjar situação semelhante à das empresas e estabelecimentos bancários do hemisfério norte. Alegaram queda na produção e despediram empregados para coagir o governo. Desse modo, arrancaram dinheiro dos cofres públicos (bancos estatais e caixa econômica). Na véspera, os balanços das empresas e dos bancos privados apresentavam lucros extraordinários. Lá e cá, a democracia continua a ser um regime de proprietários e de vigaristas.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

COSTUMES

AMIZADE.

Benefício da rede de computadores: sem que tivéssemos contacto há mais de 25 anos, Lina e Lothar encontraram este blog. Trocamos endereços, telefones e mensagens. Lothar, amigo da saudável boemia dos anos 60, convidou-nos, Jussara e eu, para seu aniversário. Viajaremos alguns quilômetros de Penedo/RJ a Campinas/SP.

No pequeno e primoroso livro “Longe é um lugar que não existe”, o autor, Richard Bach, faz o beija-flor perguntar ao personagem narrador (não identificado no texto): “Podem os quilômetros separar-nos realmente dos amigos? Se quer estar com Rae já não está lá”? O personagem narrador dizia ao beija-flor que estava indo à festa de aniversário da pequena Rae (personagem misteriosa e também não identificada).

Certamente, o personagem se referia à dimensão espiritual da vida. Em espírito, estamos onde estiverem o nosso pensamento e o nosso sentimento. Como diz os versos da canção: o pensamento parece coisa à toa/ mas como a gente voa/ quando começa a pensar/ (Lupicínio Rodrigues). O corpo pode estar presente e a personalidade anímica ausente. Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, ali estarei entre eles, afirmava Jesus, um dos grandes mestres da humanidade. Nós, também, estamos entre aqueles que, afetuosamente e com saudade, nos mantêm na lembrança.

Nas relações humanas, a amizade, ligação afetiva entre pessoas, é uma das expressões do amor universal. A simpatia, a dedicação, o espontâneo respeito, são espécies de amor que ensejam laços de amizade. O amor é o lado afetivo da energia fundamental do universo. Por isso mesmo, manifesta-se de vários modos: atração dos corpos, aglutinação das partículas atômicas, coesão dos átomos, moléculas e células, união e solidariedade dos membros da família, da tribo, da cidade, da nação.

Charles de Gaulle e Harry Truman, quiçá influenciados pelo clima da segunda guerra mundial, afirmavam que entre nações não há amizade, mas apenas interesses. Com a política externa de Truman (1945/1953) começa a guerra (fria e quente) contra o comunismo em todo o orbe. Na história da humanidade, tribos e nações travam guerras, mas também celebram acordos e coexistem pacificamente. O interesse aproxima os povos, inaugura a amizade ou a fortalece. Chefes de Estado apertam as mãos uns dos outros. Flores são colocadas pela nação visitante em monumentos da nação visitada. Em olimpíadas e torneios esportivos as nações se confraternizam. O interesse econômico pode gerar tanto a amizade como a inimizade.

Entre as pessoas naturais não é diferente. Há entre elas amizade e inimizade, mesmo que sejam parentes. A inimizade pode resultar das diferenças que se reputam inconciliáveis nas crenças religiosas, nas ideologias políticas, nos valores morais, na particular visão de mundo. A ruptura da amizade decorre eventualmente da rejeição a crítica construtiva ou destrutiva, do comentário desairoso, da ofensa imperdoável, da humilhação imposta, da atitude indecorosa ou preconceituosa, do vício adquirido. A amizade esmaece pelo distanciamento ou pela falta de reciprocidade na estima, na dedicação e no respeito. Como o suave sopro reaviva a brasa encoberta pela cinza, assim também, um toque delicado e atencioso desperta a amizade adormecida. Ao contrário do amor universal, incondicional e infinito, a amizade é relação afetiva bilateral, condicionada no tempo e no espaço. Com a morte, cessa a amizade. Em vida, a amizade se esvai por cortes nas artérias sociais e psicológicas. Ascensão social ou declínio social do indivíduo pode arrefecer amizades antigas. A inveja, a falsidade, o rancor, são agentes corrosivos da amizade. Apesar disto, o reconhecimento de virtudes no invejoso, no hipócrita, no rancoroso, pode manter a amizade no limite do suportável.

No curso da minha existência experimentei distanciamentos. Se, com saudade e afeição, ainda lembro das pessoas, é sinal que continuo a estimá-las. Passei pela vida de milhares de pessoas: esposa, filhos, irmãos, mãe, pai, parentes, vizinhos, colegas, jurisdicionados, clientes, alunos, leitores e tantas outras que sentiram os efeitos do meu temperamento, das minhas idéias, crenças, ações, omissões e decisões. Obtive o assentimento e a tolerância de algumas dessas pessoas; de outras, não. Pela minha vida, muitas pessoas passaram, mas nem todas deixaram marcas doces ou amargas. Tive amigos de ambos os sexos, mais velhos, mais novos e da mesma faixa etária. Credite-se à malícia o aforismo de que não pode existir amizade entre homem e mulher. Embora poucas, tive duradouras e sinceras amizades com meninas, moças e mulheres adultas, desde a minha infância até a maturidade, sem apelo à sensualidade; poucas, também, foram amizades sinceras e duradouras com meninos, moços e homens adultos. Relações amistosas predominaram no meu viver, próprias da fraternidade e da harmonia desejável na família, na comunidade, na escola, na atividade profissional, na sociedade. Quanto às relações sociais rotineiras, pousam na memória ou repousam no inconsciente, sem relevo na alma.