quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

PILULAS

Atividade da presidenta.

No final de janeiro (2011) em sua primeira viagem internacional, a Presidente da República Federativa do Brasil visitou a presidenta da Argentina. Isto parece indicar preferência brasileira à valorização do relacionamento com os países da América Latina e às organizações regionais. Pode-se ver nessa atitude, implícito recado ao governo dos EUA: podemos continuar parceiros, mas a política externa brasileira admite e cultiva outras parcerias. Há notícia de que o presidente dos EUA visitará o Brasil no primeiro semestre deste ano (2011). Estratégia, talvez, para reanimar as relações entre os dois países e desculpar a ausência daquele presidente à posse da presidenta. Diferença de estilo: (1) Luiz Inácio, mesmo antes de tomar posse no cargo de Presidente da República, correu aos EUA lamber as botas texanas de Bush; (2) Dilma Rousseff só viajou após tomar posse no cargo. Foi abraçar carinhosa e fraternalmente a sua colega argentina que recentemente perdera o marido. Gentil e apropriadamente, em atenção ao luto da argentina, a brasileira apresentou-se com vestido escuro.

No começo de fevereiro de 2011 (02/02/11), a presidenta compareceu à abertura da 54ª Legislatura do Brasil. Traje claro, simples e elegante. Mudou a praxe. Regularmente, a mensagem presidencial era lida pelo chefe do gabinete civil da presidência da República. Dilma revelou senso político e autonomia em relação ao cerimonial. Com o seu gesto, cativou eleitores e eleitos, além de prestigiar o Congresso Nacional como instituição legislativa. No seu discurso escrito, como convém à solenidade, tratou genericamente das metas do seu governo nos diferentes setores da administração pública. Leitura tranqüila, serena, em tom moderado. Diferença de estilo: (1) Luiz Inácio discursava de maneira espalhafatosa e vulgar, como se estivesse em palanque eleitoral; (2) Dilma Rousseff discursa de maneira recatada, como se estivesse no recinto de uma academia de letras. Presentes os parlamentares da nova legislatura, os presidentes do Supremo Tribunal Federal (STF), do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e outras autoridades, em cerimônia de forte simbolismo cívico. O presidente do STF leu a mensagem do Poder Judiciário. Outra boa inovação, pelo seu significado político institucional, foi dar voz, na cerimônia, ao presidente do TSE que, de modo objetivo, relatou o processo eleitoral de 2010.

Revolução no Egito.

O povo egípcio cansou da autocracia. Seguramente, não é o mesmo povo que suportou a monarquia teocrática dos faraós por três mil e duzentos anos até a queda da sua civilização no alvorecer da era cristã. O governo de Hosni Mubarak dura, apenas, 30 anos. Esse militar se manteve no poder graças à aura de libertador, a permanente propaganda em torno da sua pessoa e à continuidade da aliança com os EUA e Israel. Em nome de Deus e da democracia o governo estadunidense invade países e desrespeita valores culturais de outras nações. No entanto, apóia ditaduras civis e militares em qualquer país, desde que os interesses econômicos e estratégicos dos EUA estejam atendidos.

Assim foi na América Latina, durante a guerra fria: o governo estadunidense deu apoio doutrinário e logístico a ditaduras em todos os países para impedir governos socialistas. Havia escola nos EUA para doutrinar – como de fato doutrinava – os militares latino-americanos para instituírem ditaduras. Salvador Allende, presidente eleito pelo povo chileno, foi uma das inúmeras vítimas da trama política engendrada pelo governo estadunidense. Tentaram acabar com Fidel Castro e o regime cubano, mas não conseguiram. No Brasil, sob os auspícios do governo estadunidense, com o objetivo de implantar e assegurar regime ditatorial, foram afastados do poder e eliminados líderes políticos como João Goulart e Juscelino Kubitschek.

No Iraque, depois de apoiar o ditador Saddam Hussein por longos anos, o governo estadunidense providenciou a sua morte. Aquela ditadura já não lhe servia mais. Agora, o citado governo pretende se descartar de outra ditadura que recebeu seu apoio durante 30 anos: a de Mubarak, no Egito. O assassinato do ditador poderá entrar na pauta dos assuntos internacionais dos EUA. Diante da forte determinação de parcela significativa do povo egípcio de afastar o ditador e votar nova Constituição, o governo dos EUA tenta um modo engenhoso de transição a fim de evitar que o poder egípcio caia em mãos muçulmanas. Os governos dos EUA e Israel querem manter um títere no Egito que não se alie ao governo do Irã ou a qualquer outro que não esteja afinado com os interesses daqueles dois países. O governo dos EUA pretende conservar as atuais e ganhar novas posições no tabuleiro do Oriente Médio e do norte da África. A situação política no Egito pode frustrar essa pretensão.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

POESIAS

O vaso azul destas verbenas / partiu-o um leque que o tocou: / golpe sutil, roçou-o apenas / pois nem um ruído revelou. / Mas a ferida persistente / mordendo-o sempre e sem sinal / fez, firme e imperceptivelmente / a volta toda do cristal. / A água fugiu calada e fria / a seiva toda se esgotou / ninguém de nada desconfia / não toquem, não, que se quebrou. / Assim, a mão de alguém, roçando / num coração, enche-o de dor / e ele se vai, calmo, quebrando / e morre a flor do seu amor; / embora intacto ao olhar do mundo / sente, na sua solidão / crescer seu mal fino e profundo / já se quebrou: não toquem, não. (“O Vaso Partido” – René François Armand Prudhomme).

De Palos – como a errar, longe do azul natal / os gerifaltos vão – em chusmas, audaciosos / ávidos capitães, pilotos cobiçosos / partiram navegando empós de estranho ideal... / vão conquistar além, das minas do metal / que Cipango entesoura, os veios fabulosos; / sonham, boiando em luz países misteriosos / praias, climas, regiões do mundo ocidental... / sulcam assim, mar alto, infatigavelmente / miragens tropicais, longe, enganosamente / esboçam construções e torres de ouro no ar... / e eles à proa vão das alvas caravelas / vendo só, despenhado em turbilhões de estrelas / todo o infinito céu sobre o infinito mar.../ (“Os Argonautas” – José Maria de Heredia).

De repente uns desejos fúteis / tivestes, de escutar um pouco / as várias músicas inúteis / das minhas flautas de som rouco. / Esta canção que eu comecei / ante a paisagem, frio e grave / ficou melhor quando a cessei / para olhar vosso olhar suave. / Sim, este vão sopro que expulso / até meu último limite / (meus dedos, hirtos movo a pulso) / falha se imita, embora imite / o vosso claro, natural / riso infantil e matinal. (“Folha de Álbum” – Stephane Mallarmé.)

“Para os puros tudo é puro” – assim fala o povo. / Mas eu vos digo: para os porcos tudo é porco! / Por isso os fanáticos e os que curvam a cerviz que também têm o coração inclinado / predicam desta forma: “o próprio mundo é um monstro lamacento!” / Por que todos esses têm o espírito sujo, especialmente os que se não dão paz nem sossego / enquanto não vêem o mundo por detrás: são os crentes do mundo posterior. / A esses lhes digo eu na cara conquanto não soe muito bem: o mundo parece-se com o homem por ter traseiro também; isto é uma verdade! / Há no mundo muita lama; isto é grande verdade! / Mas, nem por isso, o mundo é um monstro lamacento! / É sensato haver no mundo muitas coisas que cheirem mal; o próprio asco cria asas e forças que pressentem mananciais! / Até nos melhores há qualquer coisa repugnante / e até o melhor é coisa que se deve superar! / Oh! Meus irmãos! É sensato haver muita lama no mundo! (Trecho de “Assim Falou Zaratustra” – poema bíblico em prosa de Friedrich Wilhelm Nietzche).

domingo, 30 de janeiro de 2011

POESIAS

Olha amigo: este mar, que era tão manso / bateu, como um aríete, um dia, sem descanso / os promontórios; foi aos saltos em cachões / escalando, subindo as rochas e sobre elas / estendeu, a bramir, no fragor das procelas / o espumoso lençol dos negros vagalhões. (...) Meu coração é como esse mar que, tranqüilo / beija as praias agora em doce murmurilo. / Também chorou, rugiu como ele, sem descanso / contra as rochas lançou-se em tremendos embates / todo um dia cruel de insânia e de combates. / Vês, agora reflui apaziguado e manso / sem desejo ou temor de nova tempestade. / À carícia do sol a voz mal se lhe escuta / mas o gênio, a esperança, a força, a mocidade / ei-los mortos na espuma e no sangue da luta. (Trecho de “Sonhos Mortos” - Charles Marie René Leconte de Lisle).

Bem-vindo sejas, irmão brasileiro! – teu amplo lugar está pronto / um sorriso te enviamos do norte – mãos afetuosas – uma urgente saudação cheia de sol! / ( Que o futuro se haja sozinho, onde quer que surjam transtornos e obstáculos. / Nossas, nossas as agruras do presente, o fim democrático, a aceitação e a fé) / para ti, neste dia, nossos braços se estende, nosso rosto se volta / sobre ti nosso olhar paira esperançoso./ Tu, livre aglomerado de estrelas! Tu, constelação rutilante! / Tu que tão bem compreendeste / o exemplo verdadeiro de uma nação cuja luz fulgia no céu / (mais resplandecente do que a Cruz, mais do que a Coroa) / o vértice que é preciso atingir para chegar à suprema humanidade. (“Saudação de Natal” – Walt Whitmann).
OBS. Esse poeta estadunidense morreu em 1892. O Brasil tornara-se república democrática federativa em 1889 e adotara o modelo da Constituição dos EUA. O Brasil separou-se da religião (cruz) tornando-se um Estado laico e rejeitou a monarquia (coroa) tornando-se um Estado democrático.

Nunca vi um campo de urzes. / Também nunca vi o mar. / No entanto, sei a urze como é / posso a onda imaginar. / Nunca estive no céu / nem vi Deus, todavia / conheço o sítio como se / tivesse em mãos um guia. (“Nunca vi um campo de urzes”. – Emily Dickinson).

Às vezes, por prazer, os homens de equipagem / pegam um albatroz, enorme ave marinha / que segue, companheiro indolente de viagem / o navio que sobre os abismos caminha. / Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas / esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado / deixa doridamente as grandes e alvas asas / como remos a cair e arrastar-se a seu lado. / Que sem graça é o viajor alado sem seu nimbo! / Ave tão bela como está cômica e feia! / Um o irrita chegando ao seu bico um cachimbo / outro se põe a imitar o enfermo que coxeia! / O poeta é semelhante ao príncipe da altura / que busca a tempestade e ri da flecha no ar / exilado no chão, em meio à corja impura / as asas de gigante impedem-no de andar. (“O Albatroz” – Pierre Charles Baudelaire).

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

COSTUMES

SAQUEADORES.

2008. Tragédia no Estado de Santa Catarina: chuvas, inundações, desmoronamentos, perdas de vidas e de bens materiais em novembro e dezembro. Como ajuda e a fundo perdido (dispensa prestação de contas) a União Federal destinou 1 bilhão e 49 milhões de reais ao Estado de Santa Catarina. Em programa de TV, um experiente engenheiro, especialista nesse tipo de catástrofe, questionado sobre a falta de medidas preventivas, incluiu na resposta a probabilidade de omissão intencional dos governantes. O propósito da omissão seria obter polpuda receita extra para os municípios e para o Estado, a cada catástrofe. Do ser humano, tudo se espera, de bom e de ruim, tendo em vista a sua mista natureza angelical e demoníaca. Prevenção e visão de futuro nacional e internacional são moedas raras na administração pública brasileira: favelas cada vez mais numerosas, excesso de veículos e falta de vias de trânsito para suportá-lo, calçadas obstruídas, excesso de população em algumas cidades, poluição ambiental em todas as modalidades, perda de recursos naturais, falta de recursos artificiais, fronteiras ameaçadas, governantes politiqueiros, governados lenientes e assim por diante. Evitar calamidades previsíveis de maneira plena e definitiva reclama gente honesta, inteligente, solidária, operosa, com senso de responsabilidade e espírito público.

2011. Nova tragédia gerada pelos mesmos fatores naturais no Estado de Santa Catarina atingindo mais a camada pobre da população. Aqueles bilhão e milhões de reais não resolveram o problema social, mas é bem provável que tenham resolvido o problema dos espertalhões. Governantes e políticos catarinenses querem mais dinheiro este ano.

2011. Na região serrana do Estado do Rio de Janeiro outros ingredientes foram adicionados à falta de vergonha dos aproveitadores do infortúnio alheio, conforme notícia circulada na rede de computadores, no jornal Estado de São Paulo e no jornal O Globo. Na Granja Florestal, localizada no bairro Posse, na cidade de Teresópolis, eram recolhidos donativos endereçados à Cruz Vermelha. Médicos e outros voluntários ali trabalhavam para distribuí-los aos flagelados. Conforme relato do médico Martius de Oliveira, cedido à Cruz Vermelha pelo Tribunal Regional Eleitoral do Estado do Rio de Janeiro, o local foi invadido por funcionários da prefeitura de Teresópolis com cobertura de soldados armados de fuzis. Todos que ali trabalhavam foram expulsos e os donativos removidos. Afirma-se que o prefeito é evangélico e pretende que a distribuição dos donativos se faça através das igrejas evangélicas. Disputa por prestígio político e rivalidade entre católicos e protestantes ativaram a violência.

1822/2011. Pessoas naturais e jurídicas enviam ajuda em dinheiro, jóias, metais preciosos e outras coisas (artigos de higiene, remédios, água potável, mobiliário, eletrodomésticos, alimentos, roupas, calçados, brinquedos) em períodos de crise financeira nacional ou de calamidade pública. Esses bens não são contabilizados; ficam sujeitos a entesouramento e armazenamento para uso futuro e inescrupuloso de políticos e de lideranças comunitárias e religiosas. Monta-se a indústria da desgraça coletiva. Isto explica a existência de problemas crônicos nas diversas regiões do país, cujos dirigentes solicitam verbas públicas e ajuda humanitária da população. Por diversas vezes, parcela do povo brasileiro se mostrou generosa, sensível ao sofrimento dos seus irmãos de pátria. Casais doaram até as alianças de casamento para abastecer de ouro o Brasil. Milhares de brasileiros prestam serviços gratuitamente e enviam dinheiro e bens materiais para socorrer flagelados. Campanhas por jornais, rádio e TV solicitam auxílio e arrecadam dinheiro e bens. Missas e cultos são realizados pedindo ajuda a Deus e aos fiéis. Em todas essas ocasiões agiram os oportunistas e aproveitadores. O direito penal considera circunstância agravante o fato de o agente praticar crimes aproveitando-se da ocasião de incêndio, naufrágio, inundação ou qualquer calamidade pública.

Em outros países também há saques e desvios quando pessoas liberam instintos e afrouxam os freios éticos. Isto acontece em movimentos de protesto nas ruas, ou durante calamidades públicas. Recursos obtidos em campanhas humanitárias também são desviados. Milhões de dólares arrecadados por organismo internacional para o combate à AIDS foram desviados para cofres particulares, como noticiado na imprensa recentemente. A crise financeira mundial de 2008, fruto da desonestidade, também serviu à safadeza posterior. O capitalismo moderado adotado nos EUA, a partir de 1930, camuflou o capitalismo amoral e o capitalista imoral. O governo dos EUA se comprometia a atenuar os efeitos das flutuações econômicas e a manter a economia em expansão com o máximo de emprego, de produção e de poder de compra (Employment Act/1946). Se houvesse turbulência, retirar-se-iam recursos do tesouro dos EUA. Os donos do capital privado e do crédito foram se soltando, paulatinamente, criaram uma bolha e a inflaram até estourar em 2008. Os agentes financeiros foram prontamente atendidos pelo governo estadunidense. O mesmo ocorreu na Europa. Os trabalhadores amargaram demissões em massa e férias coletivas. As empresas usam os trabalhadores como aríete contra o Estado, a fim de obterem bilhões de dólares de ajuda. No Brasil, alguns se aproveitaram do pessimismo, ansiedade e insegurança gerados pela crise, para forjar situação semelhante à das empresas e estabelecimentos bancários do hemisfério norte. Alegaram queda na produção e despediram empregados para coagir o governo. Desse modo, arrancaram dinheiro dos cofres públicos (bancos estatais e caixa econômica). Na véspera, os balanços das empresas e dos bancos privados apresentavam lucros extraordinários. Lá e cá, a democracia continua a ser um regime de proprietários e de vigaristas.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

COSTUMES

AMIZADE.

Benefício da rede de computadores: sem que tivéssemos contacto há mais de 25 anos, Lina e Lothar encontraram este blog. Trocamos endereços, telefones e mensagens. Lothar, amigo da saudável boemia dos anos 60, convidou-nos, Jussara e eu, para seu aniversário. Viajaremos alguns quilômetros de Penedo/RJ a Campinas/SP.

No pequeno e primoroso livro “Longe é um lugar que não existe”, o autor, Richard Bach, faz o beija-flor perguntar ao personagem narrador (não identificado no texto): “Podem os quilômetros separar-nos realmente dos amigos? Se quer estar com Rae já não está lá”? O personagem narrador dizia ao beija-flor que estava indo à festa de aniversário da pequena Rae (personagem misteriosa e também não identificada).

Certamente, o personagem se referia à dimensão espiritual da vida. Em espírito, estamos onde estiverem o nosso pensamento e o nosso sentimento. Como diz os versos da canção: o pensamento parece coisa à toa/ mas como a gente voa/ quando começa a pensar/ (Lupicínio Rodrigues). O corpo pode estar presente e a personalidade anímica ausente. Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, ali estarei entre eles, afirmava Jesus, um dos grandes mestres da humanidade. Nós, também, estamos entre aqueles que, afetuosamente e com saudade, nos mantêm na lembrança.

Nas relações humanas, a amizade, ligação afetiva entre pessoas, é uma das expressões do amor universal. A simpatia, a dedicação, o espontâneo respeito, são espécies de amor que ensejam laços de amizade. O amor é o lado afetivo da energia fundamental do universo. Por isso mesmo, manifesta-se de vários modos: atração dos corpos, aglutinação das partículas atômicas, coesão dos átomos, moléculas e células, união e solidariedade dos membros da família, da tribo, da cidade, da nação.

Charles de Gaulle e Harry Truman, quiçá influenciados pelo clima da segunda guerra mundial, afirmavam que entre nações não há amizade, mas apenas interesses. Com a política externa de Truman (1945/1953) começa a guerra (fria e quente) contra o comunismo em todo o orbe. Na história da humanidade, tribos e nações travam guerras, mas também celebram acordos e coexistem pacificamente. O interesse aproxima os povos, inaugura a amizade ou a fortalece. Chefes de Estado apertam as mãos uns dos outros. Flores são colocadas pela nação visitante em monumentos da nação visitada. Em olimpíadas e torneios esportivos as nações se confraternizam. O interesse econômico pode gerar tanto a amizade como a inimizade.

Entre as pessoas naturais não é diferente. Há entre elas amizade e inimizade, mesmo que sejam parentes. A inimizade pode resultar das diferenças que se reputam inconciliáveis nas crenças religiosas, nas ideologias políticas, nos valores morais, na particular visão de mundo. A ruptura da amizade decorre eventualmente da rejeição a crítica construtiva ou destrutiva, do comentário desairoso, da ofensa imperdoável, da humilhação imposta, da atitude indecorosa ou preconceituosa, do vício adquirido. A amizade esmaece pelo distanciamento ou pela falta de reciprocidade na estima, na dedicação e no respeito. Como o suave sopro reaviva a brasa encoberta pela cinza, assim também, um toque delicado e atencioso desperta a amizade adormecida. Ao contrário do amor universal, incondicional e infinito, a amizade é relação afetiva bilateral, condicionada no tempo e no espaço. Com a morte, cessa a amizade. Em vida, a amizade se esvai por cortes nas artérias sociais e psicológicas. Ascensão social ou declínio social do indivíduo pode arrefecer amizades antigas. A inveja, a falsidade, o rancor, são agentes corrosivos da amizade. Apesar disto, o reconhecimento de virtudes no invejoso, no hipócrita, no rancoroso, pode manter a amizade no limite do suportável.

No curso da minha existência experimentei distanciamentos. Se, com saudade e afeição, ainda lembro das pessoas, é sinal que continuo a estimá-las. Passei pela vida de milhares de pessoas: esposa, filhos, irmãos, mãe, pai, parentes, vizinhos, colegas, jurisdicionados, clientes, alunos, leitores e tantas outras que sentiram os efeitos do meu temperamento, das minhas idéias, crenças, ações, omissões e decisões. Obtive o assentimento e a tolerância de algumas dessas pessoas; de outras, não. Pela minha vida, muitas pessoas passaram, mas nem todas deixaram marcas doces ou amargas. Tive amigos de ambos os sexos, mais velhos, mais novos e da mesma faixa etária. Credite-se à malícia o aforismo de que não pode existir amizade entre homem e mulher. Embora poucas, tive duradouras e sinceras amizades com meninas, moças e mulheres adultas, desde a minha infância até a maturidade, sem apelo à sensualidade; poucas, também, foram amizades sinceras e duradouras com meninos, moços e homens adultos. Relações amistosas predominaram no meu viver, próprias da fraternidade e da harmonia desejável na família, na comunidade, na escola, na atividade profissional, na sociedade. Quanto às relações sociais rotineiras, pousam na memória ou repousam no inconsciente, sem relevo na alma.

sábado, 22 de janeiro de 2011

COSTUMES

EXPLORAÇÃO DO INFORTÚNIO.

Os danos provocados por fatores naturais são constantes no planeta. Organismos internacionais intercedem nos casos calamitosos e ajudam as pessoas e as regiões afetadas, como aconteceu recentemente no Haiti. Montam esquemas de fiscalização e controle para que chegue ao destino a ajuda em dinheiro, remédio, material de higiene, alimento, roupa, calçado, material de construção, obras e serviços de saneamento. Sempre há pessoas que desviam os donativos. Baby Doc, o milionário e corrupto ex-ditador do Haiti, voltou ao país para “ajudar” a reconstrução; ele conhece o caminho das pedras; sabe como canalizar para contas particulares em bancos de países estrangeiros os milhões de dólares destinados a socorrer o país mais pobre da América.

No Brasil, a seca da região nordeste foi um sumidouro de recursos públicos por dezenas de anos sem que o problema fosse resolvido. Políticos e coronéis enriqueceram enquanto os flagelados permaneceram na miséria. A chuva é outro sumidouro. As torrentes e os estragos são periódicos: mortes, ferimentos, casas destruídas, bens perdidos ou inutilizados, desespero e sofrimento das pessoas atingidas. Geralmente, essas pessoas moram na periferia das cidades e pertencem à camada pobre da população. Governadores, prefeitos, vereadores, deputados, senadores, correm ao presidente da república suplicando por verbas: centenas de milhões de reais. Todos melhoram de vida, menos os flagelados. A solução do problema não interessa a essa oligarquia porque acabaria com o ilícito enriquecimento. Aguarda-se a repetição da estiagem ou das chuvas para engordar a poupança dos estelionatários. Não há o cuidado de apresentar dados concretos e fidedignos sobre os danos pessoais e materiais honestamente avaliados e incluídos em planos de viável execução. Sob argumento de urgência, a cautela necessária e moralizadora é dispensada. O argumento favorece aos espertalhões.

Os trágicos acontecimentos na região serrana fluminense (Petrópolis, Teresópolis, Nova Friburgo) em janeiro de 2011, motivaram os mais diversos comentários em jornais impressos, emissoras de rádio e televisão. Aqui mesmo no blog, abordei essa matéria no final do relato da viagem a Curitiba. Alguns daqueles comentários referiam-se à negligência do poder público, à imprudência da população ao construir e morar em área de risco, ao oportunismo de pessoas do setor público e do setor privado para aumentar o seu particular patrimônio. Como noticiado na imprensa, o governador do Rio de Janeiro passou para os cofres da Rede Globo, no ano passado, cerca de 24 milhões de reais retirados da verba destinada às catástrofes. Não há notícia, até o momento, de providência alguma para apurar a responsabilidade política e criminal do governador. A emissora de TV alardeia a tragédia, aumenta artificialmente a gravidade dos fatos; desse modo, ajuda o governador a obter mais verbas da União Federal. Ao invés de resolver o repetitivo problema, o governo federal reserva bilhões de reais para distribuir no momento das tragédias.

Ilustre engenheiro repassou-me artigo de Aurélio Paiva, publicado na rede de computadores em 14.01.2011. O articulista cita catástrofes acontecidas no país maiores do que a da região serrana fluminense. A imprensa falseou a verdade ao qualificar a tragédia de janeiro de 2011, como a maior de todos os tempos no Brasil. Segundo informa o digno articulista, o infortúnio maior ocorreu na Serra das Araras, Rodovia Dutra, em janeiro de 1967. Morreram cerca de 1.700 pessoas. Na região serrana fluminense, somadas todas as cidades atingidas neste ano, ainda que desconsiderada eventual manipulação da imprensa, informa-se que o número de mortos não chega a 800. Nota-se ansiosa expectativa nos jornais da TV para que esse número cresça. A imprensa sentir-se-ia gratificada. Colossal volume de águas no episódio da Serra da Araras (275 mm em 03 horas; enquanto em Teresópolis foi de 145 mm em 24 horas) provocou deslizamento de terras e pedras, abrindo enorme cratera, engolindo ônibus, caminhões, automóveis. O artigo vem ilustrado com depoimentos de uma sobrevivente e de um advogado que providenciou socorro naquela ocasião. O artigo menciona, ainda, a catástrofe de Caraguatatuba, em março de 1967, com 400 mortos, aproximadamente. O balneário turístico de 17 mil habitantes foi arrasado por uma avalanche de lama, árvores, troncos, pedras, provocada por fortes chuvas (580 mm em 02 dias, enquanto em Teresópolis foi de 366 mm em 12 dias). Sensacionalismo e interesses de duvidosa legitimidade possivelmente motivaram o silêncio da imprensa sobre os episódios de 1967. O importante era realçar a tragédia atual, exagerar as suas dimensões, fazer alarde, tirar o maior proveito possível da catástrofe, principalmente em verbas públicas, em vendas dos produtos dos patrocinadores de programas de TV e em renda às emissoras derivada dos patrocínios. Aliás, programa noticioso é utilidade pública, por isso mesmo, o intervalo é indevido. A propaganda há de vir antes e/ou depois do programa. Emissoras de TV, concessionárias do serviço público, abusam da propaganda, inserindo-a nos noticiosos.

No setor privado, a exploração do infortúnio não se limita às empresas de comunicação de massa. Comerciantes e prestadores de serviços também a praticam. Circulou pela rede de computadores artigo de um economista denunciando a esperteza de um apresentador de programa de TV que, para aumentar a venda de cupons da empresa da qual é sócio, afirmava pela mídia que a compra ajudaria as vítimas da tragédia. Se a intenção fosse realmente a de ajudar sem interesse algum, bastaria indicar a conta do Banco do Brasil já existente para esse fim, ou fornecer o telefone de entidades oficiais prestadoras de socorro. Afirmou-se que a safadeza explicava-se por ser judeu o apresentador. O povo judeu tem fama de colocar o dinheiro acima de tudo, sem travas morais. Enquanto a pobreza é exaltada por Jesus e pela igreja católica e os ricos censurados, a riqueza é considerada bênção divina pelos judeus e pelos protestantes cristãos. Na primeira metade do século XX, durante a crise econômica da Alemanha, judeus se aproveitaram da desgraça nacional para enriquecer. Parcela do povo alemão, especialmente o grupo nazista, reagiu e generalizou: atribuiu a todos os judeus a censurável conduta de alguns ambiciosos. Isto aliado ao ódio aos judeus decorrente da perseguição e crucificação de Jesus, contribuiu para o holocausto. Essa repulsa aos judeus vem reforçada por outra generalização. Segundo consta da Bíblia (Antigo Testamento, Gênesis, capítulos 12 e 20), Abraão, patriarca dos hebreus (israelitas + judeus) cedia a sua formosa esposa, Sara, à lascívia de monarcas de diferentes reinos por onde passava, em troca de segurança, amizade e bens materiais. Estéril, Sara não engravidava. Graças ao proxenetismo, Abraão enriqueceu. Isto não significa que todos os judeus sejam proxenetas e usem esposas e filhas para ganhar dinheiro intermediando relações sexuais com gente rica e poderosa. Assim também, a falta de bom caráter do judeu da TV não quer dizer que todo judeu seja mau caráter. A prática de ilícitos jurídicos, morais e religiosos não é apanágio dos judeus, nem dos protestantes cristãos. A conduta contrária aos códigos jurídicos, éticos e religiosos, no mundo civilizado, ocorre em todas as épocas, no seio de todos os povos e em todas as camadas sociais.

domingo, 16 de janeiro de 2011

VIAGEM3

Domingo (02/01/2011). Dona Isaura, Jussara e eu, para não escapar ao hábito, fomos almoçar no restaurante Madalosso, em Santa Felicidade, bairro turístico de Curitiba. Na volta, fizemos rápida passagem pelo centro da cidade e logo retornamos à casa da sogra, porque Jussara ainda não estava bem. Ainda sentia o cansaço da viagem e a indisposição da gripe.

Segunda feira (03/01/2011). Jussara amanheceu melhor e me acompanhou na caminhada matinal. À tarde, visitamos o casal Lucinyr/Marco e seus filhos Tiago e Stephany, dois universitários às vésperas de viagem ao velho continente, jovens inteligentes, bem educados, que buscam ampliar o horizonte profissional e cultural. A casa localiza-se no bairro chamado Barreirinha, em um recanto silencioso, densa área verde, pássaros em profusão cantando a liberdade. Chegamos às 17,00 horas. Segundo nossos cálculos, a visita seria breve, porém a hospitalidade, a simpatia e a atenção desses nossos queridos amigos dobraram o tempo previsto. Lá estiveram, também, Elizabeth e Antonio, pais de Marco. A reunião foi agradável, alegre e descontraída; primeiro, na área externa, depois, na sala interna. Lanche delicioso. Mesa bem arrumada, copos, xícaras, talheres, refrigerante, café, leite, variedade de pães, queijo, manteiga, doces, salgados (inclusive tipo italiano do forno saído). Talvez, eles nos visitem este ano. Lunyr e Luciano, pais de Lucinyr, moram no litoral catarinense; no segundo semestre de 2010 eles nos visitaram aqui em Penedo; conheço-os desde o tempo em que éramos solteiros e vizinhos no Juvevê (bairro de Curitiba). Naquele tempo, eu e Lecy, irmão mais velho de Luciano, éramos companheiros de boemia; tínhamos quase a mesma idade, com diferença de alguns meses. Elisabeth perguntou sobre o violão. Ela gosta de ouvir e cantar. Fato inédito: esqueci o violão em Penedo; coloquei-o na capa, mas não no automóvel, o que deve ser debitado à ânsia de colocar o pé na estrada (e também à idade). Por volta das 21,30 horas, despedimo-nos com fraternais abraços. A saudade, essa intrometida, chegou antes da hora. Partimos com vontade de ficar (royalties para Vinicius de Moraes).

Terça feira (04/01/2011). Manhã rotineira. No início da tarde, Jussara saiu às compras com a Leda, sua amiga dos tempos da escola primária. Cumprindo promessa que eu fizera ao casal Leda/Arms, entreguei-lhes três exemplares do romance da minha autoria intitulado “O Evangelho da Irmandade”, um deles autografado com dedicatória. Caso os dois pretendessem ler o romance ao mesmo tempo, haveria exemplares de sobra. Além disso, se eles gostassem do texto, poderiam presentear os dois filhos, Klaus e Camila, ambos com formação acadêmica na área médica e exercendo a profissão: o moço, anestesista e a moça odontóloga; ou poderiam presentear amigos com os exemplares. O livro está fora do circuito comercial e se destina à distribuição gratuita a pessoas que gostam de assuntos esotéricos.

Arms perguntou se o livro fora antecedido de pesquisa. Dois professores já haviam formulado essa pergunta; por coincidência, um deles também era doutor em disciplina odontológica, tal como Arms. Respondi que sim. Cacoete do magistério: certificar-se das fontes. Por brevidade, cito apenas algumas: (1) Bíblia (Centro Bíblico Católico, São Paulo. Editora Ave Maria, 1987); (2) La Vida Mística de Jesús (Lewis, H. Spencer. Califórnia. Amorc, 1967); (3) O Cristo Cósmico e os Essênios (Rohden, Huberto. São Paulo. Martin Claret, 1991); (4) A Doutrina Mística (Blavatski, Helena P. São Paulo. Hemus, 1981); (5) O Fenômeno Humano (Chardin, Pierre Teilhard. Porto. Tavares Martins, 1970); (6) O Homem Eterno (Pauwels, Jacques Bergier e Louis. São Paulo. Divisão Européia do Livro, 1971); (7) Leviatán (Hobbes, Thomas. Madri. Nacional, 1979); (8) Para compreender os manuscritos do Mar Morto (Shanks, Hershel. Organizador. Rio. Imago, 1993); (9) O Santo Graal e a Linhagem Sagrada (Baigent, Michael e/os. Rio. Nova Fronteira, 1993); (10) O Código Da Vinci (Brown, Dan. Rio, Sextante, 2004); (11) Quebrando o Código Da Vinci (Bock, Darrell L. Osasco. Novo Século, 2004); (12) Decodificando Da Vinci (Welborn, Amy. São Paulo. Cultrix, 2004); (13) Operação Cavalo de Troia (Benítez, J.J. São Paulo. Mercuryo, 1987); (14) Pequena História da Maçonaria (C.W. Leadbeater. São Paulo. Pensamento, 1968); (15) Manual Rosacruz (Grande Loja do Brasil. Curitiba, 1964); (16) Admirável Mundo Novo (Huxley, Aldous. São Paulo. Victor Civita, 1980); (17) História da Civilização Ocidental (Burns, Edward Mcnall. Rio/SP/Porto Alegre. Globo, 1955); tudo acoplado a filmes documentários, à minha formação jurídica, filosófica e mística e à minha experiência de vida. Apesar do tema universal, do fundo histórico, da sintonia com a natureza, da original e inédita abordagem, o livro é um romance, onde há licença artística, criatividade, por isso mesmo, não contém bibliografia.

Cheguei à residência do casal às 16,30 horas. Jussara e Leda chegaram logo depois, felizes com as compras. Conversamos animadamente. Lanche delicioso: refrigerante, café, leite, diferentes tipos de pão, mel, manteiga, queijo, salgado, doce. Da sala passamos para a cozinha, sem arrefecer a conversa e sem reduzir os assuntos. No Paraná, inobstante azáfama da modernidade, ainda se conserva, em alguns lares, o costume de reunir na cozinha as pessoas que gozam da confiança e da intimidade dos donos da casa. Ali a prosa vem molhada no chimarrão, no cafezinho, no refresco, reforçada com algum petisco; os donos da casa caminham para lá e para cá a fim de atender aos visitantes; depois, tornam a sentar. Passamos ao quintal. Arms, cultor de um pé de café, nos presenteou com muda. Odontólogo e professor universitário, ele ainda encontra tempo para estudar piano e lidar com plantas. Agradecidos, eu e Jussara nos despedimos dos prezados amigos.

Quarta feira (05/01/2011). Visitamos nossos primos Emerson, Cristina e João Gilberto. Cristina e Gilberto são primos da Jussara na linha paterna (o pai deles é irmão do pai dela) e são meus primos na linha materna (a mãe deles é irmã da minha mãe). Lá chegamos às 17,00 horas. Colocamos alguns assuntos em dia. Ficamos sabendo que os dois filhos do casal residem fora (Ricardo, membro ativo da Opus Dei e Isabelle, estudando nos EUA). Além das suas ocupações como engenheiro, Emerson se dedica a um programa social na área da educação (www.forja.org.br). Autografei com dedicatória um exemplar do livro para o casal e outro para o João Gilberto. Lanchamos. Mesa farta e variada. Pães, salgados e doces, refrigerante, café, licor. Os primos são alegres e hospitaleiros. Os dois rolinhos de algodão, pai e filho, gostaram do nosso colo; perceberam que nós também temos cães. Programada para ser breve, a visita durou cinco horas. O retorno previsto para o dia seguinte foi adiado para sexta feira. Ainda bem, pois nos livramos de um baita temporal em São Paulo.

Ao chegarmos à nossa casa, os cachorros fizeram festa (Pretinho, Bóris, Brigitte e Laika, na ordem decrescente de idade). Manoel, o zelador, cuidava deles e do quintal. Recolhia as mangas espalhadas pelo chão, desprendidas das quatro mangueiras. A safra deste ano foi boa em quantidade, mas ruim em qualidade. Aproveitamos as mangas boas para fazer suco (comemos algumas). Vamos plantar a muda de café que Leda e Arms nos deram.

Chove muito. A grama está encharcada. As folhagens e as flores não se ressentiram. Moramos em lugar alto e o volume das chuvas não constitui ameaça. Estamos no sul do Estado do Rio de Janeiro. A região serrana, onde ocorreu tragédia noticiada pela TV (uma das maiores do mundo resultante de fatores naturais) fica no oeste do Estado: Petrópolis, Teresópolis, Nova Friburgo. O aristocrata serrano teve seu dia de plebeu. Os veículos de comunicação social se aproveitam da desgraça coletiva para fazer sensacionalismo; torcem para que sejam milhares os mortos e, assim, o Brasil conquiste mais este recorde; os apresentadores de TV indagam ansiosamente se foram encontrados mais cadáveres. Alguns repórteres aproveitam a ocasião para se exibirem como heróis da imprensa nos locais da tragédia. O governo estadual se aproveita para receber do governo federal vultosa quantia em dinheiro de cuja aplicação o povo fica alheio. Entidades oficiais e extra-oficiais se aproveitam para pedir e receber donativos que nem sempre são entregues aos flagelados. Governantes omissos, irresponsáveis e desonestos não executam medidas de prevenção, tais como: fiscalização dos terrenos e encostas, remoção de famílias, proibição de construção e moradia em áreas de risco, obras de contenção, efetivação dos planos diretores municipais. Os administradores públicos aguardam a tragédia acontecer. Isto rende ensejo de manipular recursos do erário. Esses burocratas, habituados à política rasteira, são especialistas em maquiagem, engodo e ladroagem. Diante da tragédia, os políticos aparentam tristeza e preocupação, porém, no íntimo, pouco se importam com o infortúnio alheio. Tiram proveito da situação. No entender da canalha, o número de mortos nada significa diante do excesso de gente nesta terra, posto que, em economia, só o escasso tem valor; quanto aos sobreviventes da camada pobre da população, podem recuperar o perdido e modesto patrimônio através do crediário das casas Bahia.