sábado, 18 de setembro de 2010

ROSACRUZES3

Quarta parte.

Na tarde do dia 05/09, os expositores da 2ª mesa redonda foram dois professores universitários, membros da AMORC: um pernambucano, bacharel em letras, outro mineiro/carioca, bacharel em História, Direito e Museologia. Dividiram bem o tempo e deram o seu recado. Foi lembrada a fundação da URCI na jurisdição de língua portuguesa, no ano 2000, época em que o voluntariado se valorizava no mundo e se constituía em um dos pilares da AMORC. O professor Aluísio Ferreira Gomes parte da constatação de que os valores humanos como solidariedade, caridade e compaixão estão cada vez mais esquecidos. Entende que o trabalho voluntário contribui para o fomento de uma sociedade justa e igualitária; que voluntariado é toda atividade desempenhada no uso e gozo da autonomia do prestador de serviço, sem recebimento de qualquer contraprestação que importe remuneração ou lucro. Cita como exemplos históricos as casas católicas de misericórdia e os hospitais islâmicos. Informa que aproximadamente 1/5 da população brasileira é de voluntários. Menciona o ano 2001 eleito pela ONU ano internacional do voluntariado. Refere-se ao código rosacruz de vida estribado no dever de servir em silêncio e nos limites da capacidade do servidor, dentro e fora dos organismos afiliados. O professor Paulo Roberto Paranhos Silva desenvolve o tema “a URCI como agente de transformação”. Propugna o modelo corporativo de ensino, a integração e valorização do ser humano como “homem total” invocando o passado. Faz um relato da origem e evolução da universidade desde a Idade Clássica até a Idade Moderna. Diz que a proposta educacional da URCI é a de: (i) pesquisar novos conhecimentos e de ser campo fértil à sua disseminação; (ii) oferecer estudos para complementar a cultura e formação intelectual dos rosacruzes voluntários que desejam realizar ou aprofundar trabalhos sobre temas específicos relacionados com a filosofia, o misticismo e os ensinamentos da AMORC; (iii) diferenciar-se da universidade convencional, retornando ao modelo do século XII, abarcando as diversas áreas do conhecimento numa prática universal. O questionamento desta última proposta pelo auditório provocou em mim a lembrança da aula magna que proferi em março/2009, na Universidade Estácio de Sá, campus de Resende/RJ, porém, preferi não intervir. Transcrevo abaixo, trecho daquela aula, compatível com a douta exposição do professor Paranhos. Desse modo, acredito contribuir positivamente para o debate.

Universidade significa: (i) a qualidade daquilo que é universal (ii) o conjunto de pessoas ou coisas reunidas sob certa ordem para fins determinados. Expressa a idéia do múltiplo no uno, própria do vocábulo universo. Na área educacional, compreende-se por universidade a reunião, sob as mesmas regras e sob comando central, de várias escolas de ensino superior relativas a diferentes ramos do saber. Deve-se à Europa, a criação das universidades. Inicialmente, na Idade Média, a universidade tomou a forma de corporação organizada para preparar e licenciar professores. Posteriormente, concentrou escolas de artes e profissões tais como as de teologia, direito e medicina. As universidades mais antigas foram as de Salerno, Bolonha e Paris, fundadas, a primeira, no século X (anos 901 a 1000) e as duas outras, no século XII (anos 1101 a 1200). A essas três, seguiram-se as de Oxford, Cambridge, Montpellier, Salamanca, Roma e Nápoles. No final do século XIV (anos 1301 a 1400) criaram-se as universidades de Praga, Viena, Heidelberg e Colônia. A universidade de Bolonha serviu de padrão para as universidades do sul da Europa e a universidade de Paris serviu de padrão para as universidades do norte da Europa. O grau de bacharel era obtido após 4 ou 5 anos de estudos no trivium composto das seguintes disciplinas: gramática, retórica e lógica. O grau de mestre exigia de 3 a 4 anos de estudos no quadrivium composto de aritmética, geometria, astronomia e música. O grau de doutor era obtido após 4 ou 5 anos de estudos especializados em teologia, direito ou medicina. O doutorando devia ter a idade mínima de 35 anos. Mestre e doutor eram títulos exclusivos da docência. Doutor, por exemplo, era o professor de medicina e não o médico, embora as duas qualificações pudessem conviver na mesma pessoa. Todo professor de medicina era médico, mas nem todo médico era professor de medicina.

Na Idade Moderna, que se inicia em 1789, com a revolução francesa e termina em 1914, sob o troar dos canhões da primeira guerra mundial, a universidade, provida de pessoal e de recursos materiais para bem realizar as suas finalidades, concentra estudos e pesquisas diversificados e se compõe de várias faculdades segundo a área científica, artística, filosófica, religiosa, objeto do ensino e da aprendizagem. A estrutura e o funcionamento dessas faculdades estavam disciplinados em um ordenamento comum. Os três graus de formação acadêmica estabelecidos na Idade Média foram mantidos: bacharelado, mestrado e doutorado. Além disso, nos dias atuais, há cursos de especialização em níveis de pós-graduação e de pós-doutorado. Por seu relevante papel no desenvolvimento da nação, a universidade merece o apreço de todos, especialmente de quem ali trabalha e estuda. Dignificando a universidade, dignificaremos o diploma e o seu portador. Até o século XVII (anos 1601 a 1700) o conhecimento científico se abrigava sob o manto da filosofia natural. O título de filósofo natural representava autoridade intelectual no seu grau mais elevado. Galileu, Descartes, Newton, eram reconhecidos como filósofos naturais e não como cientistas, pois o termo ciência ainda não estava em uso. No século XVII houve mudanças decorrentes da introdução do método experimental e da análise matemática no estudo da natureza. O racionalismo cartesiano fez escola. Essas mudanças caracterizaram a revolução científica, que pode ser colocada no bojo da mais ampla revolução cultural que se inicia na segunda fase da Idade Média (801 a 1300) e se estende até a Renascença (1301 a 1700).
Com a crescente autonomia dos diferentes ramos do saber (matemática, física, química, biologia) o termo ciência entra em voga na Europa. Em 1666, foi criada em Paris, a Academia Real de Ciências. A ramificação do saber até o incrível número de especialidades que hoje testemunhamos, refletiu-se no ensino. Faculdades foram criadas para as áreas do conhecimento assim especializado. O reflexo dessa multiplicidade se fez sentir, inclusive, no planejamento educacional e curricular. No Brasil, o curso de direito do século XXI apresenta um número bem maior de disciplinas do que havia nos anos 50, do século XX. O currículo atual parece uma enciclopédia, o que pode gerar um aprendizado superficial. A quantidade está prejudicando a qualidade, o que exige um planejamento que redistribua disciplinas entre a graduação e a pós-graduação, visando a um ensino eficiente e a profissionais capacitados. Essa mudança dependerá da política governamental na área da educação.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

ROSACRUZES2

Terceira parte.

Abertura do Congresso.
No dia 05/09/2010, às 8,00 horas, iniciaram-se os trabalhos. A abertura cerimonial foi precedida em duas horas pela exposição de mais de uma dezena de pôsteres no saguão do auditório. Os pôsteres versavam medicina e saúde, psicologia e análise do comportamento, música e literatura, ciências exatas (matemática, física, química, astronomia) e educação. Textos bem elaborados e ilustrados em material de boa qualidade seguiam a um padrão: palavras chaves, introdução, objetivos, justificativa, metodologia e resultados. Os autores permaneciam ao lado dos seus pôsteres para eventuais esclarecimentos solicitados pelo público. A esse aperitivo, sucedeu a cerimônia de abertura, por volta das 11,00 horas. Ao ser executado o Hino Nacional, as pessoas, em pé, mantiveram atitude séria. Exibiram educação cívica. Apesar da índole internacional da organização, os rosacruzes mostram respeito aos símbolos nacionais. O reitor da Universidade Rosacruz Internacional – URCI (Grande Mestre da Ordem R+C, Jurisdição de Língua Portuguesa) saudou os congressistas. O frater Raul Passos proporcionou momento de sublime enlevo ao executar peças clássicas ao piano. O emocionado auditório o aplaudiu de pé por vários minutos. Nesse dia (05/09) e no seguinte (06/09) os trabalhos obedeceram à mesma seqüência: abertura, conferência, mesas redondas, com intervalos para café e almoço. O último dia (07/09) foi dedicado aos grupos de trabalho, cada qual com uma cor e um coordenador, tendo por tema “construindo a URCI”.
A primeira conferência coube ao professor Ubiratan D´Ambrósio, notável matemático, cujo valor é reconhecido internacionalmente. Idade avançada, alguma dificuldade de locomoção, porém com mente lúcida, em plena atividade intelectual. Expressando-se muito bem, o professor desenvolveu o tema da transdisciplinaridade e sua importância para o diálogo com as tradições e a sustentabilidade do planeta. Valeu-se das modernas técnicas expositivas, com recursos audiovisuais e irradiante simpatia. Foi muito aplaudido. Apesar de não ser filiado à Ordem R+C, o professor expôs conceitos compatíveis com os ensinamentos rosacruzes.
Em síntese, o ilustre conferencista afirmou que as tradições e a sustentabilidade dependem da relação entre o homem e a natureza; que a essência da vida está no processo físico/químico das substancias ingeridas pelo ser vivo; que as tradições tendem a manter modelos de conhecimento e comportamento; que a harmonia com a natureza (e não o domínio sobre ela) significa sustentabilidade; que a busca de compreensão do mundo na sua integralidade exige que sobrevivência e transcendência se complementem; que a complexidade dos fenômenos sociais e naturais exigiu tratamento multidisciplinar e interdisciplinar (transferência e combinação de resultados e de métodos de várias disciplinas); que a transdisciplinaridade leva o indivíduo a tomar consciência do outro e da sua inserção na realidade; que a grande transformação pela qual passa a humanidade é o encontro da ciência com a consciência; que os alicerces da busca pelo conhecimento transdisciplinar consistem no respeito, solidariedade, cooperação e integração; que os mitos, religiões e sistemas de conhecimento são bem-vindos; que agressividade desmesurada contra a natureza põe em risco a continuidade da espécie; que as violações à dignidade humana tornam duvidosa a viabilidade de uma sociedade equitativa. O nobre conferencista critica, ainda, a dicotomia entre saber e fazer, comum ao pensamento ocidental, responsável pelo processo de exclusão e hierarquização, onde se valoriza mais o saber e se interpreta o fazer como ato de obediência. Para ilustrar a sua concepção do fenômeno da vida, o professor apresenta o triângulo primordial: indivíduo, natureza e sociedade e suas interações. Segundo ele, o comportamento humano responde a pulsões de sobrevivência e de transcendência e obedece a um sistema de valores. O processo transdisciplinar supõe a evolução do conhecimento, a constante mudança do saber e da certeza convencional, o ajuste dos valores a essa mudança, a exigir humildade do buscador.
Findo o intervalo do almoço, seguiram-se duas mesas redondas. O tema da primeira foi Tradição & Inovação: interfaces possíveis; o da segunda foi Assumindo um Posicionamento: a URCI e o voluntariado, contribuições para o presente e o futuro. Os expositores da primeira mesa redonda foram dois médicos paulistas, membros da AMORC: ela nissei, agitada; ele tranqüilo, parecia indiano pela tez e pela fisionomia; ambos mais fortes no conhecimento do que na exposição. Salientaram a importância da medicina silvícola, da medicina popular e da medicina oriental, do tratamento sem medicamentos, bem como, o caráter complementar dessas medicinas em relação à medicina ocidental e científica (convencional). Defendem a noção integral de saúde. Referiram-se especialmente: (i) à terapêutica rosacruz, à modalidade de cura presencial e à distância e ao seu caráter transdiciplinar; (ii) à compatibilidade entre a terapêutica científica e a terapêutica mística; (iii) aos rituais e seus efeitos positivos na saúde. O Dr. Moacir Fernandes de Godoy deu conotação específica ao vocábulo “caos”, advertindo que se refere aos processos de cura e manutenção da saúde do organismo humano, um sistema complexo supondo manifestações em vários níveis de realidade em permanente interação. Nesse contexto, entende por caos “o processo onde existe uma ordem altamente complexa e não-linear, com sensível dependência das condições iniciais e com baixa ou nula previsibilidade em longo prazo”. Isto lembra o que foi dito pelo professor Goffredo Telles Jr, no livro já citado (Direito Quântico): a aparente desordem no universo é certamente uma ordem que desconhecemos.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

ROSACRUZES

Segunda parte.

Atividades acadêmicas.
No dia 04/09/2010, das 14,30 às 18,30 horas, participei do curso intensivo sobre mecânica quântica promovido pela URCI, ministrado de modo competente e descontraído pelo cientista e professor Carlos Alberto Ferrari. No curso científico do Colégio Estadual do Paraná, nos anos 50, entrei em contacto com a Física, cujo professor era excelente, entusiasmado pela disciplina que lecionava (1955). Na década seguinte tornei a estudar a estrutura da matéria através das monografias da Ordem Rosacruz, agora com enfoque místico (1965). Concluído o estudo das monografias de todos os graus da Ordem R+C, voltei à Física, assistindo aos filmes documentários de Carl Sagan, astrofísico da Cornell University Ithaca NY, e lendo alguns livros como “O Direito Quântico” (São Paulo, Max Limonad, 1980), de Goffredo Telles Junior, professor catedrático da Universidade de São Paulo, que me colocou novamente face a face com a mecânica quântica e sua influência no campo jurídico, “Uma Breve História do Tempo” (Rio de Janeiro, Rocco, 1988) e “O Universo em uma Casca de Noz” (São Paulo, Arx, 2001) do cientista inglês Stephen Hawking, “O Universo Elegante” (São Paulo, Companhia das Letras, 2001) do cientista estadunidense Brian Greene. Apesar dessa bibliografia, eu estava curioso para ouvir, de corpo presente, a exposição de um cientista sobre a mecânica quântica. O ensejo me foi aberto pela URCI neste Congresso do mês de setembro de 2010. O professor Ferrari exibiu conhecimento profundo da matéria e demonstrou apreço pela Física e pela Ordem R+C, da qual é membro ativo. Mencionou a forma intuitiva pela qual foi apreendido o modelo do átomo pelos cientistas, semelhante ao sistema solar com as ondulatórias órbitas dos elétrons. Isto me lembrou o estado contemplativo que possibilitou a alguns cientistas o acesso a novo conhecimento. Ao imprevisto deve ser creditada a descoberta de algumas leis da natureza (admitida a crença na existência dessas leis e de que elas não são produtos da imaginação de filósofos e cientistas). A descoberta da lei dos líquidos, por exemplo, deve-se ao mergulho de Arquimedes na banheira (Eureka! Exclamou eufórico). A da lei da gravidade deve-se às urgentes necessidades fisiológicas de Isaac Newton; enquanto as satisfazia sob a macieira, o fruto lhe cai sobre a cabeça; o notável cientista associou as duas coisas. Nota: episódio interpretado por este narrador, pois Newton, pudicamente, afirmou apenas que estava sentado em estado contemplativo quando a maçã caiu.

Houve questionamentos. Manifestei-me em alguns. Sobre a transposição dos princípios da Física para a Ética, por exemplo, expressei as minhas reservas, pois as duas disciplinas obedecem a lógicas distintas: aquela, à lógica do ser e esta à lógica do dever-ser; as leis físicas, ditadas pela natureza, são neutras ao valor; as leis morais, ditadas pelos seres humanos, vêm informadas em valores eleitos pela inteligência (justiça, verdade, bondade). A relatividade no âmbito do universo macroscópico e a incerteza no âmbito do universo microscópico quando transpostas para o mundo moral geram o relativismo aniquilador dos valores e abre caminho à libertinagem que assistimos nos dias atuais. As decisões e atitudes das autoridades saltam em qualquer direção; não há freios nem regularidade; os interesses individuais e de ocasião dirigem os negócios públicos; a honestidade e a desonestidade, o lícito e o ilícito, passam a ter o mesmo peso. A artificiosa e cerebrina distinção entre Moral e Ética (para justificar a inoportuna transposição) é insubsistente. As duas palavras referem-se ao mesmo fenômeno axiológico: o regramento da conduta humana segundo determinados valores. A única diferença está no idioma de origem: ética, do grego ethos, moral, do latim mores. Quer provenham do DNA dos seres vivos, da experiência social, da consciência coletiva ou da alma, as exigências morais são formalizadas pela inteligência humana em princípios e regras que visam a uma convivência digna e pacífica. Por isso mesmo, o debate sobre o caráter absoluto ou relativo dessa normatividade não tem cabimento. As normas éticas são necessárias à vida em sociedade, visam ao interesse coletivo e exercem coerção sobre a conduta humana, declarando direitos e impondo deveres. As normas éticas valem – não por serem absolutas ou relativas – e sim por serem fundamentais ao convívio humano.

A consciência foi outro tema que entrou no debate. Algumas colocações partiam da concepção da consciência como um ser localizado no mundo material ou no mundo espiritual. Resolvi, então, colocar o meu ponto de vista que, salvo engano, coincide com o de Ralph M. Lewis, antigo Imperator da Ordem R+C: a consciência não é uma substância e sim uma função orgânica mediante a qual os seres vivos – desde a ameba até os organismos mais complexos – percebem o meio em que vivem e se comportam de acordo com essa percepção. No organismo humano essa função cognitiva é mais ampla do que nos animais irracionais. Além do ambiente exterior, o ser humano percebe a si próprio, as suas funções orgânicas (respiratória, cardíaca, digestiva, reprodutora, cognitiva), a sua estrutura física e mental, ou seja: o animal racional tem autoconsciência. Contudo, o que é percebido nem sempre é compreendido. A pessoa ao tomar consciência de um objeto pode não entender o seu significado. O alcance da consciência também não é o mesmo para todos os indivíduos. Há coisas das quais não estamos cônscios. A consciência humana adquire amplitude cósmica ao abarcar o mundo material e o mundo espiritual. Essa amplitude capacita a pessoa a aumentar o seu conhecimento (luz maior). O vocábulo consciência também é empregado para significar sensibilidade ética, capacidade do ser humano para perceber, compreender e seguir os preceitos morais. A alguém cruel, por exemplo, se diz que não tem consciência. Apela-se à consciência de alguém para se obter uma conduta desejada, e assim por diante. O termo consciência também é empregado para significar estado de vigília (estar consciente) ou ausência desse estado (perder a consciência).

Abordou-se a modificação de paradigma. Segundo o professor Ferrari, o salto quântico surpreendeu os cientistas pela ausência de causa. Para eles, o que ocorre no universo microscópico muda o paradigma do pensamento científico e revoga o princípio da causalidade e o determinismo. Creio que o entusiasmo dos cientistas conduz a esses extremos. A falta de explicação e de compreensão de um fenômeno não significa estarmos diante de um fenômeno sem causa ou sem motivo. Todo efeito tem sua causa. Ao ser humano falta ciência e poder para revogar essa e qualquer outra lei natural (uma vez aceito o postulado da existência de leis naturais). A probabilidade não é apanágio do espaço microscópico. Por ser instrumento operacional da inteligência humana (o cálculo é atividade mental comum) a probabilidade é aplicável tanto no universo microscópico quanto no universo macroscópico. Convive, pois, com o determinismo. Colherás o que plantares; com a medida que julgares, serás julgado; o homem é o artífice do seu destino; estes são preceitos da lei do carma e essa lei tem assento na causalidade e no determinismo. Por experiência própria e/ou alheia, os rosacruzes sabem que essa lei funciona e com base nela procedem a práticas de criação mental e operam com o mecanismo cósmico para obter determinados resultados. Na produção agrícola, nem sempre o lavrador colhe o que planta (probabilidade). As intempéries frustram a colheita. Caso nada frustre o plantio, se ele plantar arroz colherá arroz (determinismo). A probabilidade não afasta o determinismo. A incerteza e a ignorância não afastam a causalidade. Nos universos quânticos contidos em apenas um dos poros da pele do meu corpo, os elétrons podem saltar à vontade, pois em nada alteram o meu organismo, não intervêm na minha vida doméstica, social e profissional, tampouco perturbam a dinâmica da comunidade nacional e internacional.

sábado, 11 de setembro de 2010

I CONGRESSO DA UNIVERSIDADE ROSACRUZ INTERNACIONAL.
(5 a 7 de setembro de 2010 – Curitiba – Paraná).

RELATÓRIO E REFLEXÕES DE UM PARTICIPANTE.

Primeira parte.

A viagem.
Eu e Jussara saímos de automóvel, de nossa casa em Penedo, Itatiaia/RJ, por volta das 8,30 horas do dia 02/09/2010. Trafegamos pela Rodovia Dutra até chegarmos a Taubaté/SP, quando enveredamos para as rodovias Carvalho Pinto e Ayrton Senna. Desembocamos na via marginal da cidade de São Paulo, ingressamos no rodoanel e saímos na Rodovia Régis Bittencourt, rumo a Curitiba. Chegamos às 17,30 horas. Fizemos duas paradas para abastecer o automóvel e também o nosso estômago, além de atender as demais exigências do nosso organismo. Regressamos pelo mesmo percurso, sentido inverso (salvo o rodoanel, pois ao chegarmos a São Paulo optamos pelo trajeto antigo). No dia 09/09/2010, saímos de Curitiba às 7,15 horas e chegamos a Penedo às 16,15 horas, com duas paradas para aqueles mesmos fins. Na ida e na última metade da volta, o tempo estava bom, céu azul, poucas nuvens, visibilidade ótima. Na primeira metade da volta fazia frio e chovia.

Atividades sociais.
Hospedamo-nos na casa da sogra, dona Isaura, mãe da Jussara, que completou 86 anos de idade no dia 03/09/2010. Providenciamos bolo, docinhos, salgadinhos, cervejas, refrigerantes, pães, frios, café e leite quentes. Vieram as seis amigas. Alegres, sorridentes, bem dispostas, animadas para a comemoração. Somadas as idades, inclusive a minha, da Jussara e do Juarez (irmão da Jussara), resultavam mais de 800 anos. Nos dias 5 e 6 de setembro, eu saí de casa às 7,30 horas e regressei depois das 18,00 horas. Nesse período, permaneci nos prédios da Grande Loja da Ordem Rosacruz, no bairro do Bacacheri, participando das atividades do primeiro congresso da URCI – Universidade Rosacruz Internacional, cujo tema foi “a visão rosacruz do conhecimento rumo à transdisciplinaridade”. No dia 07/09/2010, por volta das 13,30 horas, encerrou-se o congresso. Então, dona Isaura, Jussara e eu fomos almoçar no Restaurante Madalozzo, no bairro de Santa Felicidade. A seguir, fizemos um breve e saudosista passeio pelas ruas e praças de Curitiba. No dia 08/09/2010, data da padroeira da cidade de Curitiba, Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, Jussara e Leda (amigas desde a adolescência) visitaram o Shopping da Água Verde, andaram, olharam e compraram. Depois, foram visitar minha irmã mais velha, Adília, no bairro Tarumã, onde eu as esperava. Lanche de dar água na boca. Café, leite, bolo, pão fresco, queijo, manteiga, frios. Conversa animada. Colocados os assuntos em dia, despedimo-nos e fomos para a casa de Leda, no mesmo bairro. O marido dela me ensinou a navegar no Google Earth. Vou fazer turismo pela rede de computadores. Lanchamos novamente (o pessoal de Curitiba gosta de mesa farta nos lanches, de churrasco e comida italiana nas outras refeições). Conversamos alegremente. Leda e o marido são pessoas educadas, agradáveis e hospitaleiras. Jussara e eu gostamos muito deles. Na casa da sogra, arrumamos a bagagem para o retorno. Aumentou o volume da carga. Na manhã seguinte, acenos de despedida.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

POLÍTICA

PESQUISA E MÍDIA: AS DUAS PROSTITUTAS.

Com o título acima, publiquei artigo no jornal Tribuna da Imprensa, do Rio de Janeiro, no ano eleitoral de 1998. Durante vinte anos, aproximadamente, até o seu fechamento em 2008, eu enviei a esse jornal artigos sobre política, direito, misticismo, esporte, costumes, todos publicados sem cortes, porque Hélio Fernandes, dono do jornal, tinha ojeriza à censura. Como simples colaborador, eu enviava os artigos semanal, quinzenal ou mensalmente. No referido artigo abordei matéria sobre a qual pairava silêncio absoluto: a credibilidade das pesquisas. Os jornais e as emissoras de TV não a questionavam. Tabu superado, a Justiça Eleitoral regulamenta a matéria, porém a margem de manobra continuou enorme. Isto vem confirmado por recente mensagem que circula na rede de computadores. Eu acreditava na seriedade e na ética do Partido dos Trabalhadores – PT, na sinceridade e na honestidade dos seus membros e diretores. Daí a simpatia que lhe devotei no citado artigo adiante reproduzido. A partir das eleições de 2006 inclusive, deixei de votar em candidatos do PT. No período do seu governo em nível federal (2003/2006), os intestinos do PT foram expostos e verteram podridão cujo fedor espalhou-se pelo país. Luis Inácio saiu do casulo. Lula, o metalúrgico, deixou de existir. Entrou em cena Luis Inácio, o mentiroso, o corrupto, o chefe da quadrilha que atuou com a mesma ilicitude que criticava no governo Fernando Henrique. Houve rodízio de quadrilhas: saiu a do PSDB e entrou a do PT. A bandalheira prosseguiu com maior furor e impunidade. A caterva petista, sedenta de benesses, ocupou todos os espaços, estratégicos ou não, da administração pública direta e indireta. Aí vai o texto que, mutatis mutandi, mostra-se bem atual, para infelicidade da nação.

O dinheiro e o interesse econômico não prostituíram apenas os esportes, mas, também, a mídia e os institutos de pesquisa. O método científico é desvirtuado para servir aos que pagam pelas pesquisas. A indução apressada e insuficiente introduz no mercado remédios que colocam em perigo a saúde e a vida dos consumidores; ou apresenta conclusões científicas sensacionalistas para depois serem desmentidas. No processo eleitoral, o método indutivo é utilizado com essa mesma leviandade. O objeto da pesquisa (opinião dos eleitores) é inconstante, incerto e facilmente manipulável. Não se presta, pois, ao rigor científico. Os eleitores nem sempre revelam o seu voto com sinceridade. A pesquisa, inobstante seu tratamento legal, atenta contra o sigilo do voto, pilar da democracia brasileira; é um meio para a propaganda subliminar. Os agentes da pesquisa podem escolher setores que favoreçam o cliente. Na região do ABC paulista, por exemplo, a pesquisa favorecerá Luis Inácio; na região dos Jardins, Fernando Henrique. A revista Época, de 21.09.1998, Editora Globo, por exemplo, enaltece a figura de FH e exibe, à página 74, uma pesquisa que agride a inteligência do leitor. Em todos os itens, o vencedor é FH, obviamente; Lula, Ciro e Enéas são os perdedores. FH é considerado: (1) o mais leal ao partido (só se for ao PFL); (2) personalidade forte que não se sujeita a controle (exceto ao de Sérgio Mota, Antonio Carlos Magalhães, Mendonça de Barros, FMI, etc.); (3) firme nos seus pontos de vista (de hoje, porque de ontem, ele pede que esqueçam); (4) pessoalmente honesto (apenas muda de idéia de acordo com os seus interesses e propósitos pessoais, utiliza propaganda enganosa, favorece os interesses de banqueiros, usineiros, empreiteiros, mega empresários, aproveita-se do cargo para se promover politicamente mudando as normas constitucionais e legais em seu benefício, vende o patrimônio público sem ouvir o povo); (5) leal aos interesses daqueles que o apóiam (sem comentário); (6) melhor serviu no passado aos interesses do povo brasileiro (sim, baixando o porrete nos sem-terra e nos flagelados do Nordeste, criando o maior contingente de desempregados e de miseráveis e a maior dívida externa de todos os tempos e liderando o governo mais corrupto e plutocrático da história do Brasil, como se vê do ranking publicado pela organização alemã citada na “Folha de São Paulo”, além da notoriedade internacional desse fato); (7) capaz de prestar no futuro bons serviços ao Brasil (com esse passado?); (8) mais agrada às massas populares brasileiras (à macarronada e à pizza, certamente); (9) mais merece o apoio dos nacionalistas (dos EUA, com certeza). A pesquisa em tela, publicada na citada revista, foi realizada provavelmente nos Jardins e no Palácio do Planalto e o agente que colheu as informações deve ser o maior bajulador do planeta. Basta ter mediana inteligência, psicologia comum (resultante da experiência de vida) e estar bem informado sobre os assuntos brasileiros, para perceber que a situação verdadeira e correta é a seguinte: (1) com exceção do item 5, nos demais Lula deixa FH na rabeira; (2) com exceção dos itens 5 e 8, nos demais Enéas bate FH de 10 a 0; (3) com exceção dos itens 5, 8 e 9, nos demais Ciro é bem superior a FH. Apesar dessa evidência, a pesquisa pode surtir efeito tendo em vista o aspecto irracional de uma eleição. Nota-se, efetivamente, que uma parcela do eleitorado brasileiro move-se pelo preconceito, pela aparência, pela simpatia, pela gratidão, pela ajuda financeira, pela promessa de benefícios pessoais ou locais e pelo volume de informação (e não pelo seu conteúdo, cuja análise dispensa). Além disso, existem eleitores que votam visando assegurar as vantagens e os privilégios de que desfrutam sob o atual governo. A mídia brasileira apóia o governo e a reeleição de forma escancarada e debochada, porque recebe muito bem para isso. A diferença de tempo nas emissoras de rádio e de televisão entre os candidatos é um acinte que se não compadece com a isonomia própria do regime democrático. O tempo há de ser distribuído de modo equitativo em razão da importância e da relevância do cargo em disputa e não proporcionalmente às cadeiras dos partidos no Congresso Nacional, como disciplinado na lei em vigor. Urge adequar a legislação eleitoral à democracia declarada na vigente Constituição.

Doze anos depois da publicação desse artigo, a legislação eleitoral mudou, mas os costumes continuam os mesmos. Os institutos de pesquisas continuam a escolher as cidades e os redutos da sua clientela e a manipular os dados obtidos junto a um público minúsculo. Depois, enviam relatório à Justiça Eleitoral para satisfazer formalidade burocrática. Na esfera federal, os partidos inverteram as posições: o PT passou para a situação; o PSDB para a oposição. Ambos com o rabo preso. Nenhum apura a roubalheira do outro. O problema da corrupção na administração pública resta intocável. Os corruptos eleitos recebem o aval do eleitorado. O voto popular os absolve e os libera para novo ciclo de ladroagem.

sábado, 28 de agosto de 2010

VIAGEM2

II
De Ubá, vieram Ângela e Kênya e de Visconde, Ione, vizinha e irmã de Roberto. Todas se reúnem com Vânia e Jussara na cozinha. Conferência culinária de muita conversa e muito riso. Roberto e eu estávamos na sala a conversar quando se aproxima Kênya, que se desculpa pela interrupção e menciona o fato de Roberto e eu sermos rosacruzes o que, na opinião dela, nos faz aptos a ver coisas. Solicita, então, que disséssemos o que víamos nela. Roberto respondeu que não via, mas sentia e foi logo dizendo: desde a primeira vez em que te vi lá (não me lembro em que lugar) senti e percebi... Depois do discurso do Roberto, ela me dirigiu olhar inquiridor tipo “e você, o que viu?”. O meu primeiro impulso foi dizer-lhe que vi mulher bonita, esbelta, na faixa dos 30 anos de idade, balzaqueana retratada no samba cantado por Miltinho, postura altiva, olhos sonhadores, cabelos negros, compridos e pele morena semelhante à “índia mescla bella de diósa y pantera” da canção paraguaia. Todavia, contive o impulso, pois as coisas que ela queria que nós víssemos eram mais profundas a exigir outro tipo de visão no exercício da arte de adivinhar. Limitei-me a observações ligeiras como aconselhava o ambiente festivo. Falei que ela tinha suave e agradável presença (como a tranqüila superfície de um lago) e se preocupava com as suas escolhas e o sentido da sua vida (como turbilhão no fundo do lago) quando isso está fora das cogitações das pessoas em geral. Por falha mnemônica deixo de reproduzir com exatidão as palavras usadas, porém as idéias são as mesmas. Ela manifestou interesse pela Ordem Rosacruz, afirmando crer em Deus e na reencarnação. Forneci breves dados históricos e esclareci que não se tratava de religião e sim de uma filosofia de vida, com exercícios físicos e espirituais, cujo propósito era o de ajudar a pessoa a conhecer a si própria, a melhor compreender o mundo em que vive e a se elevar espiritualmente. O Roberto prometeu entregar a ela material informativo sobre a Ordem R+C. Quanto à reencarnação, doutrina adotada pela Ordem R+C, pelo budismo e pelo espiritismo, eu disse que tinha opinião própria sobre tal assunto, fundada na razão – e não na fé. Expliquei brevemente o meu entendimento quanto à polaridade positiva e negativa do ser humano e da dualidade de cada pólo: o angelical construtivo, amando o mundo espiritual e elevando-se a Deus; o angelical destrutivo, desprezando o corpo e o flagelando para se purificar; o demoníaco construtivo, amando a natureza e o corpo, alertando-o dos perigos; o demoníaco destrutivo, desprezando a alma e advogando a supremacia da matéria e dos instintos. De modo sensato e compatível com o assunto, Roberto declarou sua adesão à atitude socrática: “tudo o que sei é que nada sei”. O filósofo grego cunhou essa frase no intuito pedagógico de expressar humildade na busca do conhecimento. Sócrates serviu-se de técnica semelhante à que Descartes utilizaria dois mil anos depois (dúvida metódica). Evidente que ele sabia muita coisa, como a seqüência das fases da lua e das estações do ano, os instintos animais, as tendências humanas, a conduta de governantes e governados, as leis da natureza e as leis dos homens. Ao utilizar aquela expressão, Sócrates sabia das limitações do ser humano e tinha na mente a metafísica, o mundo espiritual, cujos assuntos não permitem certeza alguma, território onde a fé reina soberana. Daí ser a fé o cadafalso da razão e o emblema da ignorância. A crença em Deus não é exclusiva da fé religiosa; a razão iluminada pode nos conduzir à sabedoria e a Deus.
Mais tarde, chegaram Stella, Gracinha e Francisco, vindos de Ubá com os componentes do prato principal. Os netos de Ione chegaram depois, trazidos pelo filho dela. O alvoroço na cozinha aumentou. Roberto, Francisco e eu, na sala, conversávamos e bebíamos cerveja e refrigerante. Quando a tarde ia ao meio, foi servida a comida que os japoneses (craques em copiar a invenção dos outros) chamam de ya-ki-soba, que em português significa “ó-que-sopa!” imitação da comida chinesa denominada chou-li-tso, cujo significado é “nada se perde, tudo se transforma”, saboroso cozido de legumes, com o indefectível pimentão verde, pedaços de frango e de presunto, macarrão “y otras cositas más”. Pequenas tigelas foram distribuídas aos convivas. Garfos de metal substituíram os pauzinhos orientais. Repeti a porção, moderadamente. Sobremesa deliciosa. Sabendo do sopor que me invade após o almoço, Vânia recomendou-me o repouso, fechou as cortinas para escurecer o quarto e a porta para que não me incomodasse o ruído das conversas e risadas. Diante de tanta gentileza, aceitei a recomendação. Quiçá pela ressaca da viagem, pelas poucas horas que dormi no hotel e pelos copos de cerveja que bebi, peguei no sono e não ouvi mais nada. Quando acordei, o pessoal já havia regressado a Ubá, o que impossibilitou despedida direta e individual daquelas pessoas agradáveis e atenciosas. Deixaram-me abraços confiados à Jussara, que gostou da companhia de Stella, Ângela, Kênya, Gracinha e Francisco. Depois daquele almoço, não tínhamos vontade de jantar. Lanchamos, apenas. Mesa farta, café capuccino. Como sempre, conversamos e rimos. Chuveirada rápida antes de se deitar. Vânia relatou o seguinte episódio de uma conferência: indagado se 5 minutos bastam à duração do banho, a fim de não prejudicar a oleosidade natural e protetora da pele, um dermatologista alemão respondeu: 3 minutos. A partir desse relato, meu banho não ultrapassa 3 minutos, o que representa economia de água e energia, além de fazer bem à saúde. Vou adotar o banho único semanal com essa duração. Esta será a minha contribuição ecológica. Jussara e eu dormimos bem. Alva roupa de cama, colchão macio, suíte aconchegante, arrumada com capricho, bem decorada e equipada.
Retorno. Visconde – Penedo. Segunda feira, 23/08/2010 – 08,00 horas.
Acordei às 06,00 horas, procedi à higiene matinal e, autorizado na véspera pela dona da casa, preparei o café tal qual faço em minha casa todos os dias. A hospitalidade e a amizade de Roberto e Vânia me permitiram essa liberdade. Roberto sentiu o cheiro do café e desceu para sorvê-lo com pão, manteiga, queijo e geléia de amora. Jussara acordou e se juntou a nós. A seguir, Vânia faz o mesmo. 07,00 horas. Os quatro reunidos em torno da mesa encerram o café matinal. Roberto e eu fomos até a casa da família tirar o carro da garagem. 07,30 horas. Bagagem arrumada, todos deixam o apartamento. Roberto e Vânia seguem à frente, mostrando o caminho até o posto de gasolina, na periferia da cidade, onde paramos para abastecer. O moço do posto limpa os vidros do automóvel e ganha gorjeta. Jussara e eu nos despedimos de Roberto e Vânia com abraços apertados, agradecidos pela boa e fraternal acolhida. 08,00 horas. Jussara e eu saímos pela estrada que leva a Ubá; Roberto e Vânia pelas ruas de Visconde que levam ao prédio onde moram. Sentimos um quê de nostalgia.
Mudei o trajeto do retorno. Ângela estranhara a nossa demora e dissera que do Rio a Ubá ela gastava quatro horas. Ora, do Rio a Penedo eu gastava duas horas. A soma dava seis horas, ou seja, 30 minutos a menos do que eu gastara no trajeto da ida. Logo, ainda que a distância fosse um pouco maior, era interessante voltar pela BR-040 (Juiz-Rio) duas pistas bem pavimentadas e bonita paisagem, sem o embaraço de entrar nas cidades. Desembocamos na Linha Vermelha, passamos por uma blitz da polícia militar e em poucos minutos estávamos na Rodovia Dutra a caminho de casa. Nesta altura da viagem, Jussara lembrou-se do queijo e da goiabada, presentes da Ângela, depositados na geladeira do apartamento de Vânia. Felizmente, eu não esqueci o presente da Stella (cocadas) e o presente da Vânia (garrafa de cachaça mineira da boa e que tomo antes do almoço como aperitivo). 12,30 horas. Passamos pela estação do pedágio, paramos no posto, no alto daquele trecho da rodovia, completamos o tanque de gasolina e lanchamos no MacDonald´s. Prosseguimos viagem, subimos a Serra das Araras e passamos ao largo de Volta Redonda, Barra Mansa e Resende. 14,00 horas. Chegamos a Penedo. Os cães estavam soltos e nos fizeram festa. Saudades mútuas. Preparei e tomei o café sem acompanhamento. A seguir, Jussara telefonou para Vânia e eu para Roberto comunicando a nossa chegada e a boa viagem que fizemos. Voltamos à rotina doméstica. Os dias continuam ensolarados e as noites enluaradas.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

VIAGEM

DIÁRIO DE VIAGEM
I
Penedo/RJ – Sábado, 21/08/2010 - 08,30 horas.
Com o nosso EcoSport preto, hidramático, Jussara e eu fomos a Minas Gerais visitar nossos amigos, os irmãos Roberto Amin e Vânia Amin, que moram em Visconde do Rio Branco (creio que a cidade recebeu esse nome quando o barão ainda era visconde) e nossa amiga Stella, que mora em Ubá. Dias ensolarados, com poucas nuvens. Noites enluaradas, céu límpido e estrelado. A viagem de ida foi demorada: Resende – Volta Redonda – Juiz de Fora - Ubá. A estrada passava por dentro de algumas cidades e tínhamos de atravessá-las de ponta a ponta. Lentidão no trânsito devido aos semáforos, às lombadas, à travessia de gente e de outros bichos. Em Volta Redonda havia obras nas ruas que impediam o livre trânsito de veículos. Em município que não lembro o nome, chegamos a um entroncamento em que havia duas placas: uma indicava Juiz de Fora e outra, Três Rios, Salvador e Belo Horizonte. Enveredamos pela primeira, pista única, estreita, mal pavimentada e sem acostamento. Se fosse escolhida a segunda, possivelmente entraríamos logo na BR-040 (Rio de Janeiro-Belo Horizonte) com duas pistas e chegaríamos mais rápido a Ubá. Durante todo o percurso, a partir de Volta Redonda até a BR-040, passamos por muitos bairros pobres, casebres, gente mal alimentada, descalça e mal vestida. Creio que esse itinerário foi projetado para mostrar ao turista o lado miserável da população do interior do Brasil. Finalmente atingimos a rodovia federal, a 30 minutos de Juiz de Fora. No trajeto de Juiz a Visconde, o cenário melhorou um pouco. Na travessia de Juiz, passamos pelo centro da cidade e testemunhamos a sua modernidade e aparente riqueza, o intenso movimento de veículos e de pedestres nas ruas e lojas. Em Ubá e Visconde também notamos, em momentânea e proporcional avaliação, trânsito intenso de carros, motocicletas e pedestres. Chegamos à conclusão de que mineiro gosta não só de política, queijo e marmelada, mas também de movimento. O mineiro sossegado, picando fumo para enrolar na palha ao mesmo tempo de um dedinho de prosa com o compadre, restou no folclore. O cotidiano é outro. O fumo já vem enrolado em papel dentro de carteiras de cigarros adquiridas na banca da esquina. O cigarro não é aceso no tição retirado do fogão a lenha e sim na chama do fogão a gás ou com ajuda do isqueiro e do palito de fósforo. O dedinho de prosa é muita conversa animada em que se misturam assuntos religiosos e profanos, alegres e tristes, coisas da cozinha, da sala e do quarto, da família, da cidade e do mundo. Os produtos da mais recente tecnologia, de uso doméstico, coletivo e individual estão nas vitrines das lojas, nas mãos, nas bolsas e nas casas da classe média do interior do Estado.
Ubá/MG – Sábado, 21/08/2010 - 15,00 horas.
No posto Uirapuru, na entrada de Ubá, aguardamos Vânia que lá nos foi encontrar acompanhada de Kênya, sua amiga. Feita a apresentação e abraços trocados ali mesmo no posto de gasolina, rumamos para a casa de Stella. Todos já tinham almoçado. Eu calculara o tempo da viagem em 4 horas e gastei mais de 6 horas (trajeto ingrato!). Chegamos na hora do café da tarde. Lá se encontravam Stella, sua amiga Ângela, seus hóspedes e amigos residentes na Europa, Gracinha e Francisco (ela brasileira e ele espanhol), a cozinheira com suas filhas e netos, e o jardineiro. A todos fomos apresentados: muito prazer daqui, muito prazer dali e sorriso autêntico e simpático em todos os rostos. Havia duas cadelinhas que não estranharam a nossa presença, quiçá porque sentiram que também mimávamos Pretinho, Bóris, Brigitte e Laika, os cachorros e cachorras da nossa casa. Por volta das 10,00 horas desse dia, na lanchonete de um posto de gasolina onde paramos para abastecer o automóvel, Jussara e eu tomamos café com leite; ela comeu roscas de polvilho e eu coxinha de galinha. Quer por esse desjejum, quer pelo cansaço da viagem, estávamos sem disposição para almoçar quando chegamos a Ubá. Para não fazer desfeita à gentil anfitriã, enganamos o estômago com um bife delicioso regado com uma taça de vinho tinto. A sobremesa aprontada por Stella (cocada) e Kênya (pudim) estava divina; o estômago aceitou-a com satisfação. Passamos uma tarde agradabilíssima. Vistoriamos o bem cuidado quintal da casa de Stella. Hóspedes e anfitriã combinaram que todos almoçariam no dia seguinte em Visconde.
Visconde do Rio Branco/MG – Sábado, 21/08/2010 – 18,00 horas.
Antes do anoitecer, fomos para Visconde. Há muitos anos deixei de dirigir automóvel à noite por causa da minha vista. Apesar dos óculos com lentes de graus adequados, a minha visão ofusca-se com a luz dos faróis dos outros veículos; também sinto dificuldade em distinguir as margens da pista. Por medida de segurança, prefiro dirigir com a claridade do dia. Vânia seguiu à frente com o seu EcoSport preto. Trajeto de 17 km. Escurecia quando chegamos. Fomos direto ao hotel, na Praça 28 de Setembro, centro da cidade. A meu pedido, Roberto reservara apartamento para um pernoite. Na portaria preenchemos as fichas, vistoriamos o apartamento 210, deixamos a nossa bagagem e fomos para o prédio onde eles moram. O apartamento do Roberto fica acima ao da Vânia. Trocamos forte e saudoso abraço. Vânia aproveitou o vão de luminosidade e ventilação do prédio para ali colocar mesa de tampo circular de vidro, com quatro cadeiras, como permite o térreo apartamento. Disse-me que aquele ambiente era próprio para tomar cerveja e conversar, pois ficava ao lado da cozinha e os petiscos podiam ser passados pela janela interna. Manifestei a vontade de experimentá-lo. Ali tomei cerveja e degustei pedacinhos de queijo. O Roberto me acompanhou. Por causa da sua dieta, tomou refrigerante. Conversamos muito e múltiplas piadas foram contadas. Lembramos muito da alegria e da vivacidade do Mauro, irmão deles já falecido. Eles sugeriram que ficássemos mais um dia em Visconde e ocupássemos o aposento preparado pela Vânia. Aceitamos a sugestão. No telefonema do dia anterior, entendi que Vânia hospedava um casal que veio da Europa. Destarte, incomodaríamos menos se nos hospedássemos no hotel. No entanto, o casal hospedara-se em Ubá, na casa da Stella. Constatado o equívoco, mudamos então, no dia seguinte, de mala e cuia para o apartamento da Vânia.
Visconde do Rio Branco/MG – Domingo, 22/08/2010.
Na manhã de domingo, tomamos café no hotel e saímos a passear pela cidade. Começamos pela igreja matriz e caminhamos pelas ruas do centro até a periferia e voltamos. Como a cidade é grande, gastamos bem uns 15 ou 20 minutos para conhecê-la. Depois, sentamos em um banco de madeira, na praça em frente à igreja matriz, à sombra de uma árvore e jogamos conversa fora por meia hora, aproximadamente, enquanto apreciávamos o movimento. No banco ao lado sentou-se um casal de idosos. Cumprimentamo-nos e trocamos sorrisos de simpatia. Em torno da praça, empertigada, peito estufado, nádegas empinadas, caminhava uma senhora de 78 anos e 6 meses de idade. Percorria o mesmo trajeto várias vezes a passos curtos e rápidos, de tênis e roupa esportiva colada ao corpo. Mais desfilava do que se exercitava. Pela postura, deve ter sido Miss Visconde em 1950. Fui à agência do Banco Itaú ali perto. Tentei retirar dinheiro, mas não consegui, porque a máquina teimava em informar que a minha senha estava errada, quando na verdade estava certa. Acho que banco mineiro não reconhece cartão de banco fluminense.
Quando acondicionávamos nossas coisas nas bolsas, toca o telefone do apartamento. Era o Roberto na portaria do hotel. Viera nos buscar enquanto Vânia fazia compras no supermercado localizado logo acima, na mesma rua. Como um bom menino de 59 anos de idade, amigo jovial, ele nos ajudou a descer com a bagagem e a colocá-la no automóvel estacionado na garagem do hotel. Paguei as despesas com o cartão de crédito. Na rua, em frente ao hotel, aguardamos o regresso da Vânia com as compras. Depois, seguimos em direção ao apartamento dela. Pouco antes de lá chegar, paramos em frente à casa do patriarca da família Amin, onde Roberto e Vânia nasceram e se criaram. Paredes altas, cômodos espaçosos, alguns com teto de madeira artisticamente trabalhada, bonito assoalho de boa madeira, havia na casa vibração que lembrava o encanto das antigas fazendas agropecuárias. Deixamos o carro estacionado na garagem da casa e seguimos andando até o apartamento. Ficamos inteiramente à vontade, graças aos cuidados e à fina educação de Vânia e Roberto. Jussara, eu e Roberto subimos para conhecer o apartamento dele, onde há um canário belga tratado com carinho. O passarinho imita o assobio de Roberto e passa a cantar maravilhosamente. Tanto no apartamento de Vânia como no de Roberto haviam bem cuidadas e decorativas relíquias da família.