sexta-feira, 20 de agosto de 2010

POLÍTICA

IV
A necessidade de defender e preservar o meio ambiente ecologicamente equilibrado, essencial à sadia qualidade de vida, assomou à consciência das nações (admitindo-se aqui o postulado da existência de uma consciência coletiva). Essa defesa, de reconhecida importância para o futuro da humanidade, pode ser realizada de diversos modos. Algumas pessoas entendem que a vida no planeta está irremediavelmente condenada à extinção, cabendo apenas medidas paliativas; outras entendem que há salvação. Entre as esperançosas, algumas afirmam a urgência do combate à poluição, enquanto outras afirmam que medidas adequadas podem ser tomadas ao médio prazo, sem motivo para desespero. A maioria parece concordar sobre mudança de hábitos e de mentalidade dos povos no que tange à atividade humana e seus efeitos sobre o ar, a água, a fauna e a flora. A tarefa pedagógica cabe à sociedade civil e aos governos. Ainda que falte consenso quanto aos métodos a serem aplicados, importa mais a ação de elaborar e executar programas na área ambiental. A essa tarefa se dedicam com afinco alguns governos (como da Alemanha) e organizações internacionais (como a Green Peace).
No Brasil, a preservação do meio ambiente tem servido de pretexto para dar à função social da propriedade uma exagerada elasticidade. Nos termos da Constituição (artigos 182, §2º e 186 e incisos), cumpre sua função social: (i) a propriedade urbana, quando atende as exigências fundamentais da ordenação da cidade expressas no plano diretor; (ii) a propriedade rural, quando aproveitada de modo racional, utiliza adequadamente os recursos naturais, preserva o meio ambiente, cumpre as normas reguladoras das relações de trabalho e favorece o bem-estar dos proprietários e trabalhadores. Os agentes da administração pública direta e indireta não respeitam parâmetros. Essa política agressiva e abusiva, de coloração marxista e stalinista, elaborada pelo atual governo federal (2003/2010) e aplicada em diversas regiões do país por agentes da autarquia federal Instituto Chico Mendes, foi denunciada na semana de 26 a 30 de abril de 2010, da tribuna do Senado Federal, pelos senadores Jefferson Praia e Artur Virgílio. Beligerância proposital e arbitrariedade dos agentes do governo para afastar cidadãos brasileiros das propriedades localizadas em florestas e áreas de valor paisagístico e turístico. O senador Virgílio narrou o seguinte episódio: no interior do Amazonas, um cidadão foi atacado por uma onça e a matou; o agente do governo o prendeu; todo arranhado, o cidadão disse que se não matasse a onça, ela o mataria; o agente respondeu: a onça está em extinção e não o homem. Eis o lema ambientalista: viva a onça; morra o homem.
Da observação dos fatos, verifica-se a atuação de três tipos de ambientalista: o moderado, o paranóico e o espertalhão. Constata-se, também, motivação ideológica e financeira.
Em Itatiaia, município do Estado do Rio de Janeiro, o Instituto Chico Mendes pretende dissolver centenária comunidade situada na parte baixa da Serra da Mantiqueira. Em 1908, nessa área, o governo federal comprou sete fazendas do herdeiro do Barão de Mauá num total de 48.000 hectares. Desse total, destinou: (i) 12.000 hectares à reserva florestal, transformada sucessivamente em estação biológica e parque nacional; (ii) 8.000 hectares à colonização, loteados e assim distribuídos: 2.000 hectares para o núcleo colonial Itatiaia e 6.000 hectares para o núcleo colonial Visconde de Mauá. Os lotes foram vendidos a europeus e brasileiros. Quanto aos 28.000 hectares restantes, ficaram sem destinação.
Em 1916, o governo federal emancipou os núcleos. Extinto o vínculo de subordinação ao governo, os donos desmembraram lotes e os venderam, iniciando a circulação econômica da terra e o turismo na região. Isto aumentou em mais de uma centena o número de casas, hotéis e pousadas. A comunidade cresceu e se urbanizou. Em 1982, o governo federal pretendeu incorporar os emancipados e urbanizados núcleos coloniais ao parque nacional mediante decreto de ampliação, mas não providenciou a desapropriação dos imóveis. Em conseqüência, a incorporação não se efetivou e o núcleo colonial continuou emancipado, sob jurisdição municipal, em área distinta da área do parque. Os proprietários contribuem para os cofres municipais mediante o pagamento de taxas e do imposto predial e territorial urbano (IPTU). Por seu turno, a prefeitura municipal presta os serviços públicos ao núcleo colonial. Sem respeitar esse fato e afrontando a autonomia municipal, a autarquia federal (Instituto Chico Mendes) indevida e abusivamente impõe restrições ao direito de propriedade e à liberdade de ir e vir no interior do núcleo colonial com o declarado propósito de dissolver a comunidade e de substituí-la por um mega projeto turístico de enorme impacto ambiental.
Em 2010, frustradas as vias amigáveis, a Associação dos Amigos do Itatiaia (fundada em 1951) propôs ação civil pública em defesa dos direitos dos associados e da comunidade, denunciando a autarquia federal (Instituto Chico Mendes) por sua negligência quanto à preservação do meio ambiente, por sua prepotência quanto ao modo de tratar proprietários e moradores, violando direitos assegurados na Constituição, e por seu escuso interesse na implantação do projeto turístico. O juiz federal de Resende alijou do processo a questão fundiária sem lhe resolver o mérito. O juiz entendeu que faltava à Associação, legitimidade para defender direitos individuais. A Associação recorreu da equivocada decisão (por semelhantes equívocos os magistrados perdem prestígio e são recriminados pela sociedade civil). Como haverá demora na apreciação do recurso pelo tribunal federal, alguns associados pretendem propor nova ação, agora em nome deles próprios. Por enquanto, a ação proposta em Resende, pela Associação, ficará adstrita à questão ambiental.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

POLÍTICA

III
Repercutiram no mundo, as mudanças no Leste europeu ocorridas nas últimas décadas do século XX. Mikhail Gorbachev iniciou a reestruturação política e econômica da URSS (perestroika, 1985) como semente da paz mundial. Encerrou a guerra fria (URSS x EUA) e ensejou a unificação da Alemanha (queda do muro de Berlim, 1989), a independência de várias nações da Europa Oriental (1989/1991) e a dissolução da federação soviética (1991). Na América Latina, a esquerda abandonou o propósito de implantar o socialismo à força e de substituir, num só golpe, o tipo capitalista pelo tipo comunista de sociedade. Decidiu implantá-lo paulatinamente, minando o modelo liberal de Estado com os mecanismos da democracia social e abusando do poder de emendar a Constituição. Pobreza e estratificação social continuam a motivar o projeto socialista fundado na igualdade e no nivelamento.
No Brasil, a esquerda afinou estratégia e discurso: ascensão dos pobres à classe média através da elaboração e execução de projetos sociais; elasticidade à função social da propriedade, organizando movimentos invasores na cidade e no campo; greve nos serviços essenciais à população como arma para o trabalhador obter melhoria salarial; pesada carga tributária como instrumento da justiça distributiva; acesso de todos à propriedade privada com crédito facilitado aos pobres e incremento da construção de casas populares providas de água encanada, energia elétrica, saneamento básico; distribuição gratuita de remédios genéricos, assistência médica domiciliar e hospitalar e acesso ao mercado e bens de consumo aos pobres e necessitados; pequenos produtores rurais organizados em cooperativas; apoio e incentivo à pequena empresa; extensa regulamentação da produção e circulação de bens e serviços; participação da sociedade civil nos órgãos da administração pública direta e indireta (simulacro de democracia onde prevalecem as decisões dos agentes do governo).
O eleitor brasileiro aguarda o período posterior à eleição: gestão da coisa pública. O candidato à presidência da república deve, então, indicar e explicar os procedimentos efetivos para evitar a corrupção e os delitos do colarinho branco, especialmente no que tange a: cartões corporativos, verbas para organizações civis, aparelhamento partidário da administração pública, funcionários fantasmas, excesso de viagens ao exterior, benefício a países devedores mediante renúncia a créditos brasileiros, licitações fraudulentas, desvio de verbas e de material, obras maquiadas, serviços mal prestados ou nem prestados apesar de pagos. Além disso, o candidato deve informar com clareza: (i) como reduzirá tarifas abusivas cobradas pelas concessionárias e autorizadas pelas agências reguladoras; (ii) as medidas preventivas e os recursos disponíveis em relação às estiagens e às inundações nas diferentes regiões do país; (iii) a percentagem da receita pública que caberá (1) à propaganda do governo, (2) à saúde, (3) à educação, (4) à ajuda a outros países e (5) à ajuda aos brasileiros flagelados.
Parcela dos eleitores espera honestidade e eficiência do gestor da coisa pública; outra parcela espera favores, indiferente à moralidade e à eficiência. Há candidato que coloca a máscara da honestidade para contentar a primeira parcela e abre a cornucópia à segunda. A hipocrisia é a alma da politicagem. Nas entrevistas com os candidatos à presidência da república realizadas pela rede Globo de TV, na semana de 09/08 a 14/08/2010, durante o Jornal Nacional, os jornalistas mostraram-se agressivos e inoportunos com Dilma e Marina. Reduziram o tempo das candidatas com interrupções impertinentes. Em elegante estilo e boa educação, sem sorrisos artificiais e enganosos, Marina expôs suas idéias com clareza, exibiu segurança e pensamento ancorado no estudo, na reflexão e na experiência de vida, inclusive como parlamentar e ministra de Estado. Serra e Dilma estavam mais preocupados com a receita dos marqueteiros. Faltou-lhes autenticidade e sinceridade, o que sobrou em Marina.

domingo, 15 de agosto de 2010

POLÍTICA

II
O eleitor deve ser informado da importância da política para a sua vida individual e social. A escola, o partido, o governo, devem esclarecer o cidadão sobre a dinâmica política que condiciona os mecanismos sociais. O cidadão deve perceber a extensão da influência do parlamentar e do chefe de governo no seu destino pessoal e coletivo. Não basta, pois, a Justiça Eleitoral informar as atribuições constitucionais dos parlamentares e dos chefes de governo, até porque a experiência mostra que o respectivo exercício deixa muito a desejar quanto à eficiência e à moralidade. Tampouco basta pedir ao eleitor para não vender o voto. A tentação é forte, as necessidades múltiplas e a miséria dramática.
Esperar do eleitor brasileiro médio, pobre e miserável, um voto racional e moralmente valioso é alimentar ilusão. Nas eleições funciona o aparelho digestivo do corpo eleitoral. O eleitor costuma escolher os piores candidatos. Basta olhar a escória humana com assento nas câmaras de vereadores, nas assembléias legislativas e no congresso nacional. Nas eleições de 2006, dos quatro mais representativos candidatos à presidência da república, havia dois excelentes (Cristovam Buarque e Heloisa Helena). O eleitorado escolheu o pior de todos, cujo mandato anterior fora inundado por um mar de ilicitudes administrativas e criminais.
Os fatos, portanto, desmentem a afirmação de que a voz do povo é a voz de Deus (“Vox populi, Vox Dei”). A sacrílega expressão serve ao propósito político de justificar a soberania popular e de retirar da Igreja o monopólio da interpretação da vontade divina. Da garganta do povo – e não da garganta de Deus – sai o grito de guerra e de ódio contra outro povo, a ordem de extermínio dos povos rivais, a determinação de explorar, pela força ou pela astúcia, as riquezas alheias, não só em solo estrangeiro como também no solo da própria comunidade nacional. O povo também tem a sua face demoníaca, tal qual a pessoa humana.
A “sabedoria popular” é um disparate. Servem-se dessa expressão os demagogos para bajular o povo. O avanço da civilização deve-se às elites formadas de técnicos, artistas, cientistas e filósofos. Contemplamos as pirâmides do Egito graças ao conhecimento técnico e matemático da elite egípcia. O faraó ordenou e a massa de operários assentou as pedras. Escutamos música graças aos compositores, à execução dos instrumentistas e à interpretação dos cantores. O trabalho dos inventores, arquitetos, engenheiros, matemáticos, físicos, químicos, biólogos, trouxe conhecimento e melhores condições de vida à humanidade. Filósofos, psicólogos, sociólogos, ajudam os seres humanos a se conhecerem e a compreenderem o mundo em que vivem. A massa beneficia-se da sabedoria das elites, segue lideranças, absorve mensagens, adota condutas padronizadas, decide intuitiva e emocionalmente, erra muito e acerta pouco. Embora a Igreja negue beatificação a certa pessoa, o povo a santifica, presta-lhe culto, faz romarias e súplicas. Exemplos dessa fé e credulidade são as venerações ao Padre Cícero, em Juazeiro/Ceará, e à milagrosa Maria Bueno, em Curitiba/Paraná.
No Brasil, os partidos contribuem para o atraso político ao apresentarem candidatos imorais e amorais, oportunistas cujo propósito é o de se apropriar do dinheiro público, fazer negociatas, construir ou aumentar o patrimônio próprio e do grupo que os apóia. Apetites, ambições, paixões, insatisfação, integram a dinâmica política. Todavia, do ponto de vista pedagógico, sempre é válido estimular a consciência e o senso de responsabilidade do eleitor pelos destinos da sua família e do seu país. O eleitor brasileiro há de perceber, algum dia, o seu papel de artífice do próprio destino e de como o seu voto é determinante.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

POLÍTICA

Pólis, palavra grega que significa cidade, está na origem da palavra política, arte de governar a cidade. Por extensão, o termo é empregado para significar a arte de governar a casa (economia). No sentido amplo, casa pode ser entendida como lar, empresa, sindicato e outras instituições civis, militares e religiosas. Daí falar-se em política da empresa, política do sindicato, política de defesa nacional, política do Vaticano, e assim por diante. Essa arte tem uma finalidade ética: a realização do bem da comunidade. Esse bem inclui a conservação da casa e a prosperidade dos seus membros. Sob o ângulo estático, a política envolve a promessa de um bem, a esperança de uma situação melhor no futuro. Sob o aspecto dinâmico, implica procedimentos adequados à realização dos objetivos da comunidade, disciplinados por princípios e regras técnicas, morais, jurídicas e religiosas.
A política governamental do Estado tem sido definida como “arte do possível”. Essa definição é demagógica, decorativa, genérica em demasia, aplicável a qualquer atividade humana. Na verdade, serve para camuflar a incompetência e a esperteza de quem governa. O fim ético do Estado tem sido esquecido muitas vezes pelos governantes no curso da história. Em monarquias e ditaduras, o Estado tem sido tratado como propriedade particular e exclusiva do governante, de uma família ou de um grupo dominante. Nas repúblicas democráticas não tem sido diferente, principalmente nos países da América Latina, onde o patrimônio público é tratado pelos governantes como coisa privada e o povo é massa passiva, gente resignada e manobrável pelos meios de comunicação e pelo discurso enganoso.
No que tange ao governo da república democrática, os procedimentos, princípios e regras fundamentais estão previstos na Constituição. Os governantes estão moral e juridicamente obrigados a defender e cumprir a Constituição e a promover o bem comum. No Brasil, isto significa que o governante deverá zelar pelos fundamentos da república: soberania popular (todo poder emana do povo), cidadania (direito de eleger e ser eleito), dignidade da pessoa humana (vida, liberdade, igualdade, propriedade, segurança), valores sociais do trabalho e da livre iniciativa (justiça social e desenvolvimento), pluralismo político (democracia). Significa, ainda, que todo programa de partido, de candidato ou de governo, deverá incluir os objetivos fundamentais da república brasileira: (i) construir uma sociedade livre, justa e solidária; (ii) garantir o desenvolvimento nacional; (iii) erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; (iv) promover o bem de todos, sem preconceito de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
Destarte, o candidato ao cargo de presidente da república tem o dever de expor os meios e os modos pelos quais pretende cumprir esses objetivos fundamentais da república. Além disso, deve apresentar soluções para problemas concretos e específicos da atualidade. Os candidatos costumam vaguear, tergiversar, ignorar o programa básico estabelecido na Constituição, sem esclarecer devidamente o eleitor.

sábado, 7 de agosto de 2010

LAMENTO

AZARES DE UM DESCONHECIDO
Olhos castanhos sedutores / muitos foram seus amores / pousam sobre o seu rosto / com ternura e suave gosto / Mas, oh! Que amargura / Lívido, sou tomado de tontura / amigos dela de mãos dadas / a me quebrarem de pauladas.
Batatinha quando nasce / esparrama pelo chão /mãezinha quando dorme / põe a mão no coração / outra mão sob a coberta / se agita bem esperta. / Do trabalho bem cansado / papaizinho dorme ao lado / depois do meu olhar farto / me mandou sair do quarto.
Os belos versos são de autor desconhecido. O pouco que se sabe é que ele teria nascido na cidade de Ponta Grossa, no Estado do Paraná, no século passado, em casa vizinha a uma padaria. Chamava-se Antonio, tinha mancha de nascença no cotovelo direito. Já moço, 1,63 de altura, pesando 63 kg., começou a escrever poesias. Gostava muito da poesia. Respirava a poesia, dormia com a poesia, comia a poesia e teve filhos.
Acusaram-no de plagiar poetas como Camões, Fernando Pessoa, Gonçalves Dias, Vinicius de Morais. Muito aborrecido com essas calúnias, mas sem disposição de ânimo para processar os caluniadores, o poeta saiu pelo mundo sem deixar rastro. Há noticias vagas de que estivera pelas bandas do Rio de Janeiro, no Brasil. Ninguém soube explicar se eram bandas de música, bandas largas ou bandalhas.
Comenta-se que ele andava pelas areias da praia de Ipanema, às vezes entrava no mar, ficava poucas horas sob o sol, acabrunhado, censurando a exposição de corpos daquelas moças desavergonhadas, com pedacinhos de fazenda que mal cobriam a genitália, todas muito feias, até que um dia achou uma delas bonitinha e resolveu fazer os seguintes versos:
“Olhe, que coisa mais linda / mais cheia de graça/ é ela menina / que vem e que passa / ao ritmo do amor / Moça do corpo doirado / do sol de Ipanema / o seu rebolado / é mais que um poema / é a coisa mais linda / que já vi passar”.
Dizem que o poeta paranaense não publicou esses versos. Algum cretino poderia acusá-lo de plágio e ele estava cansado de sofrer injustiças. Dizem, também, as línguas indiscretas, que ele está compondo uma “Oração de São Francisco” e um poema intitulado “Se” que ainda nem foi publicado e já o acusam de plagiar Kypling! Sofrida essa vida de poeta!

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

POESIA

Meu Senhor tende piedade dos que andam de bonde / e sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos / mas tende piedade também dos que andam de automóvel / quando enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos na direção. / Tende piedade das pequenas famílias suburbanas / e em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos / mas tende mais piedade de dois elegantes que passam / e sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina./ (...) / Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres / que ninguém mais merece tanto amor e amizade / que ninguém mais deseja tanta poesia e sinceridade / que ninguém mais precisa tanto de alegria e serenidade. / (...) / Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas / a vida fere mais fundo e mais fecundo / e o sexo está nelas, e o mundo está nelas / e a loucura reside nesse mundo. / Tende piedade, Senhor, das santas mulheres / dos meninos velhos, dos homens humilhados – sede enfim / piedoso com todos, que tudo merece piedade / e se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim! (“O Desespero da Piedade” – Vinicius de Moraes).
“O homem que diz sou – não é, porque quem é mesmo – não diz...” (canção popular – Vinicius de Moraes).
Ai! A lua que no céu surgiu / não é a mesma que te viu / nascer dos braços meus./ Cai a noite sobre o nosso amor / e agora só restou a dor / de uma palavra: adeus! / Oh! Mulher, estrela a refulgir / parte, mas antes de partir/ rasga o meu coração. / Crava as garras no meu peito em dor / e esvai em sangue todo o amor / toda desilusão. / Ai! Vontade de ficar / mas, tenho de ir embora. / Ai! Se amar / é ir morrendo pelo mundo afora / é ver na lágrima um momento breve / de uma estrela pura / cuja luz morreu / numa noite escura / triste como eu. (“Canção do adeus” – Vinicius de Moraes).

Tenho nesta vida um só desejo / é encontrar uma razão de ser / procuro em tudo porém em nada vejo / e não acho um motivo de viver. / Não sei se sou desiludida / não sei se sou muito exigente / sei porém que não me atrai a vida / sei e estou disso bem consciente. / Busco na música e na natureza / nas pequeninas coisas que acontece / não nego vejo da criação toda beleza / porém nada disso o coração me aquece. / Caminho indiferente pela vida afora / sentindo em meu ser um turbilhão / às vezes em desalento minh´alma chora / por não saber aplacar essa paixão. / Só uma certeza me mantém feliz / é saber que tudo passa nesta vida / são coisas que sentimos e ninguém diz / coisas que a nossa alma traz guarida. (“Desalento” – Terezinha de Jesus Fonseca).
Colhe-se hoje aqui amanhã acolá / pequenos flocos de amor / pequenos flocos de dor / com o tempo nenhum deles ficará. / Os sonhos são sempre assim / às vezes lindos e coloridos / às vezes negros e doridos / com o tempo eles terão um fim. / Sonhos coloridos flocos de amor / na roda da vida só trazem a dor / o tempo célere sempre continuará / sem fim a roda girará. / Cada volta da roda negra ou colorida / cada sonho bom ou pesadelo / é sinal de alerta é apelo / para acordarmos e sentirmos a vida. (“Flocos” – Terezinha de Jesus Fonseca).
Quanta ternura no ar / quanta ventura a sonhar / é a paz que sempre quis / hoje em mim vejo habitar. / Nas manhãs de sol eu canto / um canto para louvar / e vejo a Terra florir / e quero a tudo amar. / Neste imenso amor que sinto / comungo com todo meu ser / caminhando da Terra ao infinito / sou feliz nada mais posso querer. (“Realização” – Terezinha de Jesus Fonseca).

quinta-feira, 29 de julho de 2010

POESIA

E agora José? / A festa acabou / a luz apagou / o povo sumiu / a noite esfriou / e agora José? / e agora, Joaquim? / e agora, você? / Você que é sem nome / que zomba dos outros / você que faz versos / que ama, protesta? / e agora, José? / Está sem mulher / está sem discurso / está sem carinho / já não pode beber / já não pode fumar / cuspir já não pode / a noite esfriou / o dia não veio / o bonde não veio / o riso não veio / não veio a utopia / e tudo acabou / e tudo fugiu / e tudo mofou / e agora, José? / Sua doce palavra / seu instante de febre / sua gula e jejum / sua biblioteca / sua lavra de ouro / seu terno de vidro / sua incoerência / seu ódio – e agora? / Com a chave na mão / quer abrir a porta / não existe porta / quer morrer no mar / mas o mar secou / quer ir para Minas / Minas não há mais! / José, e agora? / Se você gritasse / se você gemesse / se você tocasse / a valsa vienense / se você dormisse / se você cansasse / se você morresse / mas você não morre / você é duro, José! / Sozinho no escuro / qual bicho do mato / sem teogonia / sem parede nua / para se encostar / sem cavalo preto / que fuja a galope / você segue, José! / José, para onde? / (“José” – Carlos Drummond de Andrade).

Homem que vens de humanas desventuras / que te prendes à vida e te enamoras / que tudo sabes e que tudo ignoras / vencido herói de todas as loucuras: / que te debruças pálido nas horas / das tuas infinitas amarguras / e na ambição das coisas mais impuras / és grande simplesmente quando choras; / que prometes cumprir e que te esqueces / que te dás à virtude e ao pecado / que te exaltas e cantas e aborreces / arquiteto do sonho e da ilusão/ ridículo fantoche articulado / - eu sou teu camarada e teu irmão. / (“Soneto” - Antônio Thomaz Botto).

Sensação de fraude / me persegue, fina / sensação de fraude. / Semelhante a um galgo / de aguçado faro / desgarrado, esquerdo. / Dizem logo: verde! / Mas na rama espessa / frutos escasseiam. / Vida que promete / vasto pano verde / que promete falso. / Mas fugiu a sorte / com seus pés caprinos? / Quero ver a sorte / quero ver os dados / pelos lados todos / quero ver meu número. / Eu aposto: é a sorte / quem prepara o molde / de seus próprios blocos / e quem arma o salto / dos quadrados soltos / no trapézio verde. / Mas jogar incauto / contra tantos riscos / e malabarismos? / Veja quem tem olhos / veja os algarismos / no seu breve giro. / Veja, veja o golpe / desses dedos ágeis / - mãos de pitonisa / sonegando fraude. / Veja a sorte, veja-a / com seus pés caprinos / com seus pés fugindo / sem deixar vestígios. / Sem deixar vestígios / sobre o pano verde. / (“Fraude” – Henriqueta Lisboa).

Se queres que outros creiam, crê primeiro. / Faze-te Boa Nova e acende-a em ti. Só terás gestos e aura de pioneiro / se tua alma for surto e frenesi. / Quem deseja arrastar ao seu outeiro / tribos sem deus precisa ser Davi / ter uma harpa, ter juntas de guerreiro / saber cantar e combater por si. / Sê mais tu, mais alguém, mais punho rude / o sem par, o sozinho, o último, o herói / o que põe no melhor toda a virtude. / Torna-te exemplo... o exemplo é que constrói! / Finge até que o teu sonho não te ilude / e que a tua amargura não te dói. (“O Modelo” – José Oiticica).

Como canção maior do amor perdido / em mim renasce a prolongada dor. / Curvo-me pleno de um mistério vão / e enquanto em ti a minha dor procura/ do corpo arfante a pálida visão / que instrumento não fosse de loucura / ouço esta voz que me faz soluçar / junto a prados cobertos de rosais. / Teu corpo nu, perdida, me sacode / em posses feitas para nunca mais. / ... / (“Ode e Elegia” – Ledo Ivo).

Sinto que sou feliz por não ter sido nada./ Sinto que posso seguir porque nada me prende / porque o amor que tanto esperei nunca chegou / porque a fortuna que eu quis passou de longe / a glória que sonhei nem sequer me sorriu./ Sinto que estou sozinho e pobre como a noite / sinto que estou pobre e que darei sem remorso tudo que me resta. / A solidão é o meu conforto e o meu consolo. / Estou mais perto de Deus! (“Descanso” – Augusto Frederico Schmidt).
Ele tinha uns ombros estreitos e a sua voz era tímida / voz de um homem perdido no mundo / voz de quem foi abandonado pelas esperanças / voz que não manda nunca / voz que não pergunta / voz que não chama / voz de obediência e de resposta / voz de queixa nascida das amarguras íntimas / dos sonhos desfeitos e das pobrezas escondidas. / Há vozes que aclaram o ser / macias ou ásperas, vozes de paixão e de domínio / vozes de sonho de maldição e de doçura./ Os ombros eram estreitos / ombros humildes que não conhecem as horas de fogo do amor inconfundível. / Ombros de que não sabe caminhar / ombro de que não desdenha nem luta / ombros de pobre, de quem se esconde / ombros tristes como os cabelos de uma criança morta / ombros sem sol, sem força, ombros tímidos / de quem teme a estrada e o destino / de quem não triunfará na luta inútil do mundo / ombros nascidos para o descanso das tábuas de um caixão / ombros de quem é sempre um desconhecido / de quem não tem casa, nem Natal, nem festas / ombros de reza de condenado / e de quem ama, na tristeza, a sombra das madrugadas / ombros cuja contemplação provoca as últimas lágrimas (...) (“Retrato do Desconhecido” – A. F. Schmidt).