terça-feira, 17 de agosto de 2010

POLÍTICA

III
Repercutiram no mundo, as mudanças no Leste europeu ocorridas nas últimas décadas do século XX. Mikhail Gorbachev iniciou a reestruturação política e econômica da URSS (perestroika, 1985) como semente da paz mundial. Encerrou a guerra fria (URSS x EUA) e ensejou a unificação da Alemanha (queda do muro de Berlim, 1989), a independência de várias nações da Europa Oriental (1989/1991) e a dissolução da federação soviética (1991). Na América Latina, a esquerda abandonou o propósito de implantar o socialismo à força e de substituir, num só golpe, o tipo capitalista pelo tipo comunista de sociedade. Decidiu implantá-lo paulatinamente, minando o modelo liberal de Estado com os mecanismos da democracia social e abusando do poder de emendar a Constituição. Pobreza e estratificação social continuam a motivar o projeto socialista fundado na igualdade e no nivelamento.
No Brasil, a esquerda afinou estratégia e discurso: ascensão dos pobres à classe média através da elaboração e execução de projetos sociais; elasticidade à função social da propriedade, organizando movimentos invasores na cidade e no campo; greve nos serviços essenciais à população como arma para o trabalhador obter melhoria salarial; pesada carga tributária como instrumento da justiça distributiva; acesso de todos à propriedade privada com crédito facilitado aos pobres e incremento da construção de casas populares providas de água encanada, energia elétrica, saneamento básico; distribuição gratuita de remédios genéricos, assistência médica domiciliar e hospitalar e acesso ao mercado e bens de consumo aos pobres e necessitados; pequenos produtores rurais organizados em cooperativas; apoio e incentivo à pequena empresa; extensa regulamentação da produção e circulação de bens e serviços; participação da sociedade civil nos órgãos da administração pública direta e indireta (simulacro de democracia onde prevalecem as decisões dos agentes do governo).
O eleitor brasileiro aguarda o período posterior à eleição: gestão da coisa pública. O candidato à presidência da república deve, então, indicar e explicar os procedimentos efetivos para evitar a corrupção e os delitos do colarinho branco, especialmente no que tange a: cartões corporativos, verbas para organizações civis, aparelhamento partidário da administração pública, funcionários fantasmas, excesso de viagens ao exterior, benefício a países devedores mediante renúncia a créditos brasileiros, licitações fraudulentas, desvio de verbas e de material, obras maquiadas, serviços mal prestados ou nem prestados apesar de pagos. Além disso, o candidato deve informar com clareza: (i) como reduzirá tarifas abusivas cobradas pelas concessionárias e autorizadas pelas agências reguladoras; (ii) as medidas preventivas e os recursos disponíveis em relação às estiagens e às inundações nas diferentes regiões do país; (iii) a percentagem da receita pública que caberá (1) à propaganda do governo, (2) à saúde, (3) à educação, (4) à ajuda a outros países e (5) à ajuda aos brasileiros flagelados.
Parcela dos eleitores espera honestidade e eficiência do gestor da coisa pública; outra parcela espera favores, indiferente à moralidade e à eficiência. Há candidato que coloca a máscara da honestidade para contentar a primeira parcela e abre a cornucópia à segunda. A hipocrisia é a alma da politicagem. Nas entrevistas com os candidatos à presidência da república realizadas pela rede Globo de TV, na semana de 09/08 a 14/08/2010, durante o Jornal Nacional, os jornalistas mostraram-se agressivos e inoportunos com Dilma e Marina. Reduziram o tempo das candidatas com interrupções impertinentes. Em elegante estilo e boa educação, sem sorrisos artificiais e enganosos, Marina expôs suas idéias com clareza, exibiu segurança e pensamento ancorado no estudo, na reflexão e na experiência de vida, inclusive como parlamentar e ministra de Estado. Serra e Dilma estavam mais preocupados com a receita dos marqueteiros. Faltou-lhes autenticidade e sinceridade, o que sobrou em Marina.

domingo, 15 de agosto de 2010

POLÍTICA

II
O eleitor deve ser informado da importância da política para a sua vida individual e social. A escola, o partido, o governo, devem esclarecer o cidadão sobre a dinâmica política que condiciona os mecanismos sociais. O cidadão deve perceber a extensão da influência do parlamentar e do chefe de governo no seu destino pessoal e coletivo. Não basta, pois, a Justiça Eleitoral informar as atribuições constitucionais dos parlamentares e dos chefes de governo, até porque a experiência mostra que o respectivo exercício deixa muito a desejar quanto à eficiência e à moralidade. Tampouco basta pedir ao eleitor para não vender o voto. A tentação é forte, as necessidades múltiplas e a miséria dramática.
Esperar do eleitor brasileiro médio, pobre e miserável, um voto racional e moralmente valioso é alimentar ilusão. Nas eleições funciona o aparelho digestivo do corpo eleitoral. O eleitor costuma escolher os piores candidatos. Basta olhar a escória humana com assento nas câmaras de vereadores, nas assembléias legislativas e no congresso nacional. Nas eleições de 2006, dos quatro mais representativos candidatos à presidência da república, havia dois excelentes (Cristovam Buarque e Heloisa Helena). O eleitorado escolheu o pior de todos, cujo mandato anterior fora inundado por um mar de ilicitudes administrativas e criminais.
Os fatos, portanto, desmentem a afirmação de que a voz do povo é a voz de Deus (“Vox populi, Vox Dei”). A sacrílega expressão serve ao propósito político de justificar a soberania popular e de retirar da Igreja o monopólio da interpretação da vontade divina. Da garganta do povo – e não da garganta de Deus – sai o grito de guerra e de ódio contra outro povo, a ordem de extermínio dos povos rivais, a determinação de explorar, pela força ou pela astúcia, as riquezas alheias, não só em solo estrangeiro como também no solo da própria comunidade nacional. O povo também tem a sua face demoníaca, tal qual a pessoa humana.
A “sabedoria popular” é um disparate. Servem-se dessa expressão os demagogos para bajular o povo. O avanço da civilização deve-se às elites formadas de técnicos, artistas, cientistas e filósofos. Contemplamos as pirâmides do Egito graças ao conhecimento técnico e matemático da elite egípcia. O faraó ordenou e a massa de operários assentou as pedras. Escutamos música graças aos compositores, à execução dos instrumentistas e à interpretação dos cantores. O trabalho dos inventores, arquitetos, engenheiros, matemáticos, físicos, químicos, biólogos, trouxe conhecimento e melhores condições de vida à humanidade. Filósofos, psicólogos, sociólogos, ajudam os seres humanos a se conhecerem e a compreenderem o mundo em que vivem. A massa beneficia-se da sabedoria das elites, segue lideranças, absorve mensagens, adota condutas padronizadas, decide intuitiva e emocionalmente, erra muito e acerta pouco. Embora a Igreja negue beatificação a certa pessoa, o povo a santifica, presta-lhe culto, faz romarias e súplicas. Exemplos dessa fé e credulidade são as venerações ao Padre Cícero, em Juazeiro/Ceará, e à milagrosa Maria Bueno, em Curitiba/Paraná.
No Brasil, os partidos contribuem para o atraso político ao apresentarem candidatos imorais e amorais, oportunistas cujo propósito é o de se apropriar do dinheiro público, fazer negociatas, construir ou aumentar o patrimônio próprio e do grupo que os apóia. Apetites, ambições, paixões, insatisfação, integram a dinâmica política. Todavia, do ponto de vista pedagógico, sempre é válido estimular a consciência e o senso de responsabilidade do eleitor pelos destinos da sua família e do seu país. O eleitor brasileiro há de perceber, algum dia, o seu papel de artífice do próprio destino e de como o seu voto é determinante.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

POLÍTICA

Pólis, palavra grega que significa cidade, está na origem da palavra política, arte de governar a cidade. Por extensão, o termo é empregado para significar a arte de governar a casa (economia). No sentido amplo, casa pode ser entendida como lar, empresa, sindicato e outras instituições civis, militares e religiosas. Daí falar-se em política da empresa, política do sindicato, política de defesa nacional, política do Vaticano, e assim por diante. Essa arte tem uma finalidade ética: a realização do bem da comunidade. Esse bem inclui a conservação da casa e a prosperidade dos seus membros. Sob o ângulo estático, a política envolve a promessa de um bem, a esperança de uma situação melhor no futuro. Sob o aspecto dinâmico, implica procedimentos adequados à realização dos objetivos da comunidade, disciplinados por princípios e regras técnicas, morais, jurídicas e religiosas.
A política governamental do Estado tem sido definida como “arte do possível”. Essa definição é demagógica, decorativa, genérica em demasia, aplicável a qualquer atividade humana. Na verdade, serve para camuflar a incompetência e a esperteza de quem governa. O fim ético do Estado tem sido esquecido muitas vezes pelos governantes no curso da história. Em monarquias e ditaduras, o Estado tem sido tratado como propriedade particular e exclusiva do governante, de uma família ou de um grupo dominante. Nas repúblicas democráticas não tem sido diferente, principalmente nos países da América Latina, onde o patrimônio público é tratado pelos governantes como coisa privada e o povo é massa passiva, gente resignada e manobrável pelos meios de comunicação e pelo discurso enganoso.
No que tange ao governo da república democrática, os procedimentos, princípios e regras fundamentais estão previstos na Constituição. Os governantes estão moral e juridicamente obrigados a defender e cumprir a Constituição e a promover o bem comum. No Brasil, isto significa que o governante deverá zelar pelos fundamentos da república: soberania popular (todo poder emana do povo), cidadania (direito de eleger e ser eleito), dignidade da pessoa humana (vida, liberdade, igualdade, propriedade, segurança), valores sociais do trabalho e da livre iniciativa (justiça social e desenvolvimento), pluralismo político (democracia). Significa, ainda, que todo programa de partido, de candidato ou de governo, deverá incluir os objetivos fundamentais da república brasileira: (i) construir uma sociedade livre, justa e solidária; (ii) garantir o desenvolvimento nacional; (iii) erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; (iv) promover o bem de todos, sem preconceito de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
Destarte, o candidato ao cargo de presidente da república tem o dever de expor os meios e os modos pelos quais pretende cumprir esses objetivos fundamentais da república. Além disso, deve apresentar soluções para problemas concretos e específicos da atualidade. Os candidatos costumam vaguear, tergiversar, ignorar o programa básico estabelecido na Constituição, sem esclarecer devidamente o eleitor.

sábado, 7 de agosto de 2010

LAMENTO

AZARES DE UM DESCONHECIDO
Olhos castanhos sedutores / muitos foram seus amores / pousam sobre o seu rosto / com ternura e suave gosto / Mas, oh! Que amargura / Lívido, sou tomado de tontura / amigos dela de mãos dadas / a me quebrarem de pauladas.
Batatinha quando nasce / esparrama pelo chão /mãezinha quando dorme / põe a mão no coração / outra mão sob a coberta / se agita bem esperta. / Do trabalho bem cansado / papaizinho dorme ao lado / depois do meu olhar farto / me mandou sair do quarto.
Os belos versos são de autor desconhecido. O pouco que se sabe é que ele teria nascido na cidade de Ponta Grossa, no Estado do Paraná, no século passado, em casa vizinha a uma padaria. Chamava-se Antonio, tinha mancha de nascença no cotovelo direito. Já moço, 1,63 de altura, pesando 63 kg., começou a escrever poesias. Gostava muito da poesia. Respirava a poesia, dormia com a poesia, comia a poesia e teve filhos.
Acusaram-no de plagiar poetas como Camões, Fernando Pessoa, Gonçalves Dias, Vinicius de Morais. Muito aborrecido com essas calúnias, mas sem disposição de ânimo para processar os caluniadores, o poeta saiu pelo mundo sem deixar rastro. Há noticias vagas de que estivera pelas bandas do Rio de Janeiro, no Brasil. Ninguém soube explicar se eram bandas de música, bandas largas ou bandalhas.
Comenta-se que ele andava pelas areias da praia de Ipanema, às vezes entrava no mar, ficava poucas horas sob o sol, acabrunhado, censurando a exposição de corpos daquelas moças desavergonhadas, com pedacinhos de fazenda que mal cobriam a genitália, todas muito feias, até que um dia achou uma delas bonitinha e resolveu fazer os seguintes versos:
“Olhe, que coisa mais linda / mais cheia de graça/ é ela menina / que vem e que passa / ao ritmo do amor / Moça do corpo doirado / do sol de Ipanema / o seu rebolado / é mais que um poema / é a coisa mais linda / que já vi passar”.
Dizem que o poeta paranaense não publicou esses versos. Algum cretino poderia acusá-lo de plágio e ele estava cansado de sofrer injustiças. Dizem, também, as línguas indiscretas, que ele está compondo uma “Oração de São Francisco” e um poema intitulado “Se” que ainda nem foi publicado e já o acusam de plagiar Kypling! Sofrida essa vida de poeta!

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

POESIA

Meu Senhor tende piedade dos que andam de bonde / e sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos / mas tende piedade também dos que andam de automóvel / quando enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos na direção. / Tende piedade das pequenas famílias suburbanas / e em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos / mas tende mais piedade de dois elegantes que passam / e sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina./ (...) / Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres / que ninguém mais merece tanto amor e amizade / que ninguém mais deseja tanta poesia e sinceridade / que ninguém mais precisa tanto de alegria e serenidade. / (...) / Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas / a vida fere mais fundo e mais fecundo / e o sexo está nelas, e o mundo está nelas / e a loucura reside nesse mundo. / Tende piedade, Senhor, das santas mulheres / dos meninos velhos, dos homens humilhados – sede enfim / piedoso com todos, que tudo merece piedade / e se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim! (“O Desespero da Piedade” – Vinicius de Moraes).
“O homem que diz sou – não é, porque quem é mesmo – não diz...” (canção popular – Vinicius de Moraes).
Ai! A lua que no céu surgiu / não é a mesma que te viu / nascer dos braços meus./ Cai a noite sobre o nosso amor / e agora só restou a dor / de uma palavra: adeus! / Oh! Mulher, estrela a refulgir / parte, mas antes de partir/ rasga o meu coração. / Crava as garras no meu peito em dor / e esvai em sangue todo o amor / toda desilusão. / Ai! Vontade de ficar / mas, tenho de ir embora. / Ai! Se amar / é ir morrendo pelo mundo afora / é ver na lágrima um momento breve / de uma estrela pura / cuja luz morreu / numa noite escura / triste como eu. (“Canção do adeus” – Vinicius de Moraes).

Tenho nesta vida um só desejo / é encontrar uma razão de ser / procuro em tudo porém em nada vejo / e não acho um motivo de viver. / Não sei se sou desiludida / não sei se sou muito exigente / sei porém que não me atrai a vida / sei e estou disso bem consciente. / Busco na música e na natureza / nas pequeninas coisas que acontece / não nego vejo da criação toda beleza / porém nada disso o coração me aquece. / Caminho indiferente pela vida afora / sentindo em meu ser um turbilhão / às vezes em desalento minh´alma chora / por não saber aplacar essa paixão. / Só uma certeza me mantém feliz / é saber que tudo passa nesta vida / são coisas que sentimos e ninguém diz / coisas que a nossa alma traz guarida. (“Desalento” – Terezinha de Jesus Fonseca).
Colhe-se hoje aqui amanhã acolá / pequenos flocos de amor / pequenos flocos de dor / com o tempo nenhum deles ficará. / Os sonhos são sempre assim / às vezes lindos e coloridos / às vezes negros e doridos / com o tempo eles terão um fim. / Sonhos coloridos flocos de amor / na roda da vida só trazem a dor / o tempo célere sempre continuará / sem fim a roda girará. / Cada volta da roda negra ou colorida / cada sonho bom ou pesadelo / é sinal de alerta é apelo / para acordarmos e sentirmos a vida. (“Flocos” – Terezinha de Jesus Fonseca).
Quanta ternura no ar / quanta ventura a sonhar / é a paz que sempre quis / hoje em mim vejo habitar. / Nas manhãs de sol eu canto / um canto para louvar / e vejo a Terra florir / e quero a tudo amar. / Neste imenso amor que sinto / comungo com todo meu ser / caminhando da Terra ao infinito / sou feliz nada mais posso querer. (“Realização” – Terezinha de Jesus Fonseca).

quinta-feira, 29 de julho de 2010

POESIA

E agora José? / A festa acabou / a luz apagou / o povo sumiu / a noite esfriou / e agora José? / e agora, Joaquim? / e agora, você? / Você que é sem nome / que zomba dos outros / você que faz versos / que ama, protesta? / e agora, José? / Está sem mulher / está sem discurso / está sem carinho / já não pode beber / já não pode fumar / cuspir já não pode / a noite esfriou / o dia não veio / o bonde não veio / o riso não veio / não veio a utopia / e tudo acabou / e tudo fugiu / e tudo mofou / e agora, José? / Sua doce palavra / seu instante de febre / sua gula e jejum / sua biblioteca / sua lavra de ouro / seu terno de vidro / sua incoerência / seu ódio – e agora? / Com a chave na mão / quer abrir a porta / não existe porta / quer morrer no mar / mas o mar secou / quer ir para Minas / Minas não há mais! / José, e agora? / Se você gritasse / se você gemesse / se você tocasse / a valsa vienense / se você dormisse / se você cansasse / se você morresse / mas você não morre / você é duro, José! / Sozinho no escuro / qual bicho do mato / sem teogonia / sem parede nua / para se encostar / sem cavalo preto / que fuja a galope / você segue, José! / José, para onde? / (“José” – Carlos Drummond de Andrade).

Homem que vens de humanas desventuras / que te prendes à vida e te enamoras / que tudo sabes e que tudo ignoras / vencido herói de todas as loucuras: / que te debruças pálido nas horas / das tuas infinitas amarguras / e na ambição das coisas mais impuras / és grande simplesmente quando choras; / que prometes cumprir e que te esqueces / que te dás à virtude e ao pecado / que te exaltas e cantas e aborreces / arquiteto do sonho e da ilusão/ ridículo fantoche articulado / - eu sou teu camarada e teu irmão. / (“Soneto” - Antônio Thomaz Botto).

Sensação de fraude / me persegue, fina / sensação de fraude. / Semelhante a um galgo / de aguçado faro / desgarrado, esquerdo. / Dizem logo: verde! / Mas na rama espessa / frutos escasseiam. / Vida que promete / vasto pano verde / que promete falso. / Mas fugiu a sorte / com seus pés caprinos? / Quero ver a sorte / quero ver os dados / pelos lados todos / quero ver meu número. / Eu aposto: é a sorte / quem prepara o molde / de seus próprios blocos / e quem arma o salto / dos quadrados soltos / no trapézio verde. / Mas jogar incauto / contra tantos riscos / e malabarismos? / Veja quem tem olhos / veja os algarismos / no seu breve giro. / Veja, veja o golpe / desses dedos ágeis / - mãos de pitonisa / sonegando fraude. / Veja a sorte, veja-a / com seus pés caprinos / com seus pés fugindo / sem deixar vestígios. / Sem deixar vestígios / sobre o pano verde. / (“Fraude” – Henriqueta Lisboa).

Se queres que outros creiam, crê primeiro. / Faze-te Boa Nova e acende-a em ti. Só terás gestos e aura de pioneiro / se tua alma for surto e frenesi. / Quem deseja arrastar ao seu outeiro / tribos sem deus precisa ser Davi / ter uma harpa, ter juntas de guerreiro / saber cantar e combater por si. / Sê mais tu, mais alguém, mais punho rude / o sem par, o sozinho, o último, o herói / o que põe no melhor toda a virtude. / Torna-te exemplo... o exemplo é que constrói! / Finge até que o teu sonho não te ilude / e que a tua amargura não te dói. (“O Modelo” – José Oiticica).

Como canção maior do amor perdido / em mim renasce a prolongada dor. / Curvo-me pleno de um mistério vão / e enquanto em ti a minha dor procura/ do corpo arfante a pálida visão / que instrumento não fosse de loucura / ouço esta voz que me faz soluçar / junto a prados cobertos de rosais. / Teu corpo nu, perdida, me sacode / em posses feitas para nunca mais. / ... / (“Ode e Elegia” – Ledo Ivo).

Sinto que sou feliz por não ter sido nada./ Sinto que posso seguir porque nada me prende / porque o amor que tanto esperei nunca chegou / porque a fortuna que eu quis passou de longe / a glória que sonhei nem sequer me sorriu./ Sinto que estou sozinho e pobre como a noite / sinto que estou pobre e que darei sem remorso tudo que me resta. / A solidão é o meu conforto e o meu consolo. / Estou mais perto de Deus! (“Descanso” – Augusto Frederico Schmidt).
Ele tinha uns ombros estreitos e a sua voz era tímida / voz de um homem perdido no mundo / voz de quem foi abandonado pelas esperanças / voz que não manda nunca / voz que não pergunta / voz que não chama / voz de obediência e de resposta / voz de queixa nascida das amarguras íntimas / dos sonhos desfeitos e das pobrezas escondidas. / Há vozes que aclaram o ser / macias ou ásperas, vozes de paixão e de domínio / vozes de sonho de maldição e de doçura./ Os ombros eram estreitos / ombros humildes que não conhecem as horas de fogo do amor inconfundível. / Ombros de que não sabe caminhar / ombro de que não desdenha nem luta / ombros de pobre, de quem se esconde / ombros tristes como os cabelos de uma criança morta / ombros sem sol, sem força, ombros tímidos / de quem teme a estrada e o destino / de quem não triunfará na luta inútil do mundo / ombros nascidos para o descanso das tábuas de um caixão / ombros de quem é sempre um desconhecido / de quem não tem casa, nem Natal, nem festas / ombros de reza de condenado / e de quem ama, na tristeza, a sombra das madrugadas / ombros cuja contemplação provoca as últimas lágrimas (...) (“Retrato do Desconhecido” – A. F. Schmidt).

segunda-feira, 26 de julho de 2010

EU2

Segunda Parte

O EU tem capacidade para controlar e selecionar sentimentos e pensamentos. O discernimento confere-lhe identidade lógica e psicológica que tanto o assemelha como o distingue dos demais EUS. Ao formar um juízo de si próprio, a pessoa adota perfil psicológico que influirá nos rumos da sua vida. Tal juízo sintetiza virtudes e vícios, reflete o aspecto angelical e demoníaco, traça imagem agradável ou desagradável. O sujeito pode se amar ou se odiar conforme a imagem que faz de si mesmo. A imparcialidade do indivíduo para consigo mesmo é ilusória: o parcial arroga-se imparcialidade; a capela pretende conter a catedral. Nem só anjo, nem só demônio; o EU é ambas as coisas.
Quanto mais profunda a autoconsciência, maior a probabilidade de controlar a dupla face da personalidade. Pessoas experientes ou especializadas, como pais, mestres, psicanalistas, ou instituições científicas, religiosas e místicas podem ajudar na busca do autoconhecimento. Essas vias externas facilitam um juízo de si mesmo mais próximo da realidade. O receio de encarar a imagem assim espelhada dificulta a iluminação espiritual. Concordemos nisso: dose de coragem é necessária para aceitar os aspectos diabólicos do EU. A vaidade e o temor à opinião alheia levam o indivíduo a mascarar ou minimizar defeitos e paixões.
O misticismo oriental separa corpo e alma; valoriza a alma como manifestação divina. Há místicos que desprezam e flagelam o corpo. Platão – e com ele o misticismo oriental – vê o mundo como ilusão e o eu exterior como prisão da qual o eu interior anseia por se libertar. Aristóteles não vê real separação entre o corpo e a alma e sim o corpo animado e comandado pela alma. Os cristãos acreditam na individualidade da alma: após a morte do corpo, a alma vai para o inferno, purgatório, ou paraíso, segundo o merecimento; no final dos séculos, os mortos ressuscitarão e Jesus, filho de Deus, julgá-los-á.
O misticismo ocidentalizado pelos rosacruzes também separa corpo e alma; afirma que ao nascer, o corpo se liga à alma e dessa ligação surge um elemento híbrido: a personalidade alma, que possui atributos da alma e do corpo. Após a morte do corpo, a personalidade volta ao seio da alma cósmica, sem perder a sua identidade, reencarnará e prosseguirá nos ciclos evolutivos. Da primeira ligação do corpo com a alma surge uma personalidade nova. Consideram-se jovens as personalidades que reencarnaram poucas vezes e velhas as que reencarnaram muitas vezes. A conduta da pessoa, tanto nas horas atribuladas como nas horas de bonança, revelará se a personalidade é nova, jovem ou velha.
Na reencarnação, o elo com a alma universal é indireto: o corpo se liga a uma personalidade nela existente. Quanto ao juízo final a ser proferido por Jesus no fim dos séculos, a doutrina da reencarnação o faz impossível. Segundo essa doutrina, a mesma e única personalidade ocupa muitos e diferentes corpos no decorrer dos séculos. Com a ressurreição, sobrariam corpos e faltariam personalidades. Ainda que descontados os cremados e queimados, muitos corpos ficariam sem almas. A doutrina do juízo final também não resiste a uma análise lógica. As provações da alma no inferno e no purgatório e a ascensão ao paraíso já implicam julgamento. O juízo final seria um bis in idem, excrescência divina.
Na verdade, ao nascer, o EU pode entrar em sintonia com personalidades desencarnadas o que gera a ilusão de que as está reencarnando. No decorrer dos anos, o EU forma a sua própria personalidade, única e insubstituível.
O idealismo aceita a parte invisível, imaterial, do ser humano, como única realidade. Em a natureza tudo é fugaz; o corpo é aparência e contingência. A alma e o mundo espiritual são reais e permanentes, contêm o saber, o poder e o amor.
O materialismo se opõe à existência da alma e do mundo espiritual. Segundo essa filosofia, as funções volitiva, emocional e intelectual são inerentes ao corpo. Ainda que Deus exista, a natureza é o que é: um permanente vir a ser. O que neste mundo nasce neste mundo morre. A religião cria ilusões. A religião é o ópio do povo, sentenciava Karl Marx. Nessa linha de pensamento, poder-se-ia afirmar que o misticismo é uma ilusão caridosa e suave que atenua a dureza da proposição materialista de que não há vida espiritual após a morte física.
O meio termo aristotélico concilia as posições extremadas. O eu exterior é existência, temporal, finito. O eu interior é essência, espiritual, eterno. Ambos, eu exterior e eu interior, integram uma só e mesma realidade no plano existencial. Ao findar a existência, permanece a essência. O acidental e contingente se desvanece, volta ao estado de energia primária. Sem coesão, as partículas atômicas do corpo retornam à vadiagem anárquica. Daí, ser impossível a ressurreição do corpo, ainda que embalsamado, guardado em caixão e sepultado. Ao contrário dos seres humanos, Deus não revoga as suas próprias leis. O corpo pertence à natureza. A Terra é o seu lugar. A alma tem sua morada no mundo espiritual.
O EU compõe-se do eu interior (alma) e do eu exterior (corpo). A sua essência anímica, afetiva, ética e inteligente configura o mestre interior. A sua consciência pode se expandir, tanto na direção do mundo material como na direção do mundo espiritual, até o ponto de se tornar cósmica. Cuida-se de função que permite ao EU perceber a si mesmo e ao mundo, bem como, pesar a conduta própria e alheia segundo valores morais, jurídicos e religiosos.