sexta-feira, 12 de março de 2010

LUZ4

Quarta parte.

A verdade há de ser dita perante juiz ou tribunal. Em alguns sistemas jurídicos, porém, são dispensados de dizê-la: os pais em relação aos filhos e vice-versa; o esposo em relação à esposa e vice-versa; o réu contra si mesmo. Os deveres decorrentes dos laços de família, como fidelidade e mútua assistência, bem como os vínculos afetivos e religiosos, desobrigam a pessoa de prestar depoimento que possa prejudicar o cônjuge ou os parentes. No que tange ao réu, o fulcro da norma é a idéia de que não se deve constranger pessoa alguma a acusar a si própria. Todavia, como o direito de calar não gera direito de mentir, se o réu opta por falar, deverá dizer a verdade.

No sistema judicial dos EUA, todos são obrigados a dizer a verdade, jurando com a mão sobre a bíblia: partes, parentes, cônjuges, amigos. No sistema judicial brasileiro não há juramento e sim compromisso. Há pessoas que não podem prestá-lo por incapacidade, impedimento ou suspeição. Incapazes, são os menores de 16 anos, o doente mental, o cego e o surdo no que tange a fatos que dependem dos sentidos que lhes faltam. Impedidos, são os cônjuges e parentes das partes. Suspeitos, são o amigo íntimo ou o inimigo capital da parte, a pessoa que tiver interesse no litígio e o indivíduo de maus costumes ou que foi condenado por falso testemunho. Se violar o compromisso de dizer a verdade, a pessoa ficará sujeita a processo criminal por falso testemunho.

A condescendência é um traço cultural brasileiro. Raramente, o mentiroso é processado por falso testemunho. Criminosos do colarinho branco são tratados com benevolência. Mesmo condenado em primeiro grau, após usufruir de todas as garantias do devido processo legal, esse tipo de criminoso fica em liberdade até a sentença transitar em julgado, o que pode demorar dezenas de anos. A demora enseja a prescrição. Operada a prescrição, a sentença condenatória perde seus efeitos. A liberdade desse tipo de criminoso ficou assegurada por decisão do Supremo Tribunal Federal ao interpretar equivocadamente norma constitucional.

De acordo com o código de processo penal, mesmo sem transitar em julgado, a sentença condenatória produz efeitos imediatos: a prisão do condenado e o lançamento do seu nome no rol dos culpados (art. 393). O precedente de 2008, criado pelo Supremo Tribunal no rumoroso caso Daniel Dantas, retirou a eficácia desse dispositivo legal, o que beneficiou outros tipos de criminosos: os que estavam presos, foram soltos; os que estavam soltos, não foram presos. As pessoas de bem e de posses, cercam de muros e grades as suas casas; ao saírem às ruas, se fazem acompanhar de seguranças particulares porque a polícia, em algumas cidades, além de desestimulada, mal equipada, mal paga e parcialmente corrupta, não dá conta do serviço. Lucram as empresas de segurança. Quem não pode contratá-las, recorre à proteção divina e, em alguns casos, aos traficantes da área.

Raciocínio especioso no processo judicial distingue verdade formal e verdade material. A primeira corresponde à prova dos autos do processo; a segunda, aos fatos reais. Essa distinção serve para justificar sentença contrária à realidade social. Como nem sempre as duas verdades coincidem no julgamento, o senso de justiça da população se manifesta e a magistratura sofre o desgaste. O sofisma é evidente. Não há duas verdades relativas à mesma coisa: esta é ou não é. Ser ou não ser, eis a questão, notória frase de Shakespeare, inspirada nos princípios lógicos de identidade, de não contradição e do terceiro excluído.

A verdade é ontológica. Formal é a ordem das proposições colocada pela inteligência no argumento ou na demonstração; é o conjunto de regras utilizado para atingir um fim. Do processo judicial, o fim social é pacificar, o fim ético é justiça, o fim lógico é coerência, o fim político é tornar efetiva a ordem jurídica, declarar o direito e aplicá-lo ao caso concreto segundo a prova produzida. A sentença, total ou parcialmente, acolhe ou rejeita a pretensão deduzida em juízo. Ao fazê-lo, há de cumprir aqueles fins. A sentença vale como imperativo jurídico; vale e é acatada por ser expressão da autoridade do Estado e resultar do devido processo legal – e não por exprimir esta ou aquela verdade.

Apesar disso, quanto maior a sintonia da sentença com a realidade social, mais respeitada será pelos jurisdicionados; maior será a probabilidade de a sentença estar ajustada ao bem comum. No processo judicial, a razoabilidade e a proporcionalidade são critérios fundamentais da sentença. A reforma da sentença de primeiro grau não significa que o juiz faltou com a verdade e sim que, na opinião do tribunal, o juiz não declarou e/ou não aplicou bem o direito ao caso concreto. A opinião do tribunal se impõe em face da hierarquia jurisdicional e não porque seja mais verdadeira ou melhor do que a sentença reformada. Na história judiciária há casos em que censurável foi a reforma. Como se diz em literatura: saiu pior a emenda do que o soneto. Os tribunais estão mais sujeitos ao tráfico de influência; no colegiado, a responsabilidade se dilui.

A presunção de inocência e de boa fé, acolhida pelo direito positivo, tem motivado graves equívocos na distribuição da justiça. Coloca-se o processo judicial numa redoma: o que não está nos autos, não está no mundo! Acontece que o juiz, os jurisdicionados e o processo estão no mundo. O que se passa na sociedade não pode ser ignorado. A realidade social pode inverter a presunção de inocência. Em cidade aonde os motoristas costumam dirigir ônibus em alta velocidade, sem atender à sinalização e às regras de trânsito e da boa educação, milita contra eles a presunção de culpa em caso de atropelamento. Falar-se, nesse caso, em presunção de inocência do motorista é fugir da realidade, é distribuir justiça para os livros e não para o povo.

No Brasil, a corrupção é endêmica, nacional e internacionalmente notória. Se a corrupção está enraizada no país, tanto no setor privado como no setor público, se a corrupção é um dos traços da civilização brasileira, ainda que herdado da civilização lusa, então não pode haver presunção de inocência dos envolvidos nesse tipo de ilícito. Até prova em contrário, a presunção é de culpa dos agentes políticos, administrativos e demais envolvidos em casos de corrupção e lavagem de dinheiro.

Destarte, sendo a corrupção um traço da cultura brasileira, aplicar presunção de inocência aos corruptos é homenagear os livros e a doutrina estrangeira e distanciar-se da realidade nacional, frustrando aquela parcela da população que ainda cultiva os valores morais e crê no direito. Melhor seria que o legislador, atendendo aos maus costumes da maioria da população brasileira, excluísse a corrupção do código penal, ao invés de elaborar normas capciosas sob medida para proteger a ele próprio e aos demais corruptos. O efeito dessas normas capciosas, ditadas pela esperteza enganosa combinada com a sociologia livresca, é o de alargar o campo da impunidade, desmoralizar a magistratura e desacreditar o direito. Outra solução é colocar aquela maioria nos trilhos da moralidade, o que exige processo de educação contínuo e persistente por algumas gerações. Para tanto, vontade política é necessária, o que não se vê no horizonte da pátria brasileira.

quarta-feira, 10 de março de 2010

LUZ3

Terceira parte.

O ato de conhecer supõe inteligência. Deus, seres espirituais, fenômenos naturais, são fontes aonde a inteligência humana vai se abeberar. No ato de conhecer, a pessoa é sujeito; no fato de ser investigada e conhecida, a pessoa é objeto. A inteligência natural manifesta-se no mundo físico como lei: agrupa partículas de energia em átomos, diversifica-os e os organiza de diferentes modos em moléculas, dando origem à matéria. Essa inteligência subjaz na gênese e no desenvolvimento do ser vivo: faz o vegetal produzir a semente que o renovará; orienta o animal em direção ao alimento, à água, ao acasalamento, ao abrigo, compondo os instintos. A organização das formigas e das abelhas evidencia tal inteligência, inclusive com engenhosos expedientes para enfrentar e transpor obstáculos. Em laboratório, ratos e macacos mostram capacidade de aprender.

Documentários exibidos na televisão mostram a dinâmica dessa inteligência natural. Um deles exibe cenas em que animais irracionais celebram acordo tácito. A zebra, à morte por exaustão, foi atacada por hienas. A leoa, seguida dos filhotes, aproximou-se do banquete mansamente. As hienas afastaram-se raivosas e se mantiveram a curta distância. A leoa tomou assento em uma das extremidades da zebra já morta e começou a refeição junto com os filhotes. Cautelosamente, as hienas se aproximaram e tomaram assento na extremidade oposta. Cada qual no seu lado, apesar de inimigos, leões e hienas participaram do banquete sem se molestarem reciprocamente.

Observando e estudando a natureza e a si próprio, o ser humano aprende, armazena e transmite o que aprendeu servindo-se dos sentidos e das faculdades mentais. Do pensamento e da ação do ser humano surge o mundo da cultura. Como espécie animal produtora de cultura, o ser humano é fonte de todos os valores; como buscador da luz, ele dispõe da natureza, do acervo cultural da humanidade e da sua própria experiência de vida.

Do ponto de vista místico e por analogia com o campo de gravitação dos astros e com a aura humana é possível imaginar um campo vibratório em torno do planeta onde se acha arquivado o conhecimento acumulado pela humanidade. Nessa auréola planetária encontrar-se-iam os arquétipos de que falava Platão. À semelhança dessa imagem, outras se criam: um grupo de pessoas que se reúne regularmente forma atmosfera impregnada de idéias, sentimentos e propósitos denominada consciência coletiva. Na esfera espiritual, a aura dos mestres propicia conhecimento e inspiração às pessoas que com ela entram em contacto. O canal de acesso a essa esfera pode se abrir ao acaso, num momento de intenso sofrimento e de necessidade extrema, que coloca a pessoa em estado de momentâneo merecimento. Abrir-se-á, também, pelo preparo do buscador: reflexão, meditação, dedicação constante e regular aos assuntos divinos e às práticas místicas. Esse caminho requer paciência, perseverança e uma atitude de fé e desprendimento.

Entre os objetivos do ser humano está o de conhecer a estrutura e o funcionamento do mundo espiritual, do mundo natural e do mundo cultural. Nessa atividade cognoscitiva ele especula sobre a existência, forma, substância e poder de Deus; sobre a existência do mundo espiritual, o perfil dos seus habitantes e a hierarquia entre eles; sobre os arquétipos e os vínculos com o mundo natural e cultural; estuda e procura explicar os fenômenos da natureza, os princípios e leis que os regem; estuda e procura compreender a si próprio, seus órgãos e funções, as operações da inteligência, as ações externas e sua organização social, política e econômica. O ser humano questiona até a sua capacidade para conhecer e chegar à verdade; tomado pelo ceticismo, coloca em dúvida o seu saber.

O conhecimento obtido pode ser falso ou verdadeiro. A verdade não é algo substancial, não é uma coisa em si; trata-se de uma relação entre o sujeito cognoscente e o objeto cognoscível. Na base de muitas divergências no âmbito da ciência, da filosofia, da religião e do misticismo, está o equívoco de considerar a verdade como substância. Do ponto de vista ontológico, todas as coisas materiais são verdadeiras, tal como enuncia o princípio da identidade: o que é, é; as coisas são o que são e ponto final. Um anel de vidro é um anel de vidro; se alguém disser que é de diamante, a falsidade estará na afirmação e não no anel; se alguém o fabricar para que seja tomado por diamante, a falsidade estará no fabricante e não no anel; por mera força de expressão se diz que o anel é falso. Verdade e falsidade são relações lógicas: o pensamento verdadeiro corresponde exatamente ao objeto tal qual é; o pensamento falso escapa a essa correspondência.

Diz-se falsa, a palavra que não corresponde ao pensamento. No campo da falsidade encontram-se: o mentiroso, aquele que sabendo a verdade afirma o contrário; o hipócrita, aquele que finge sentir e pensar algo que não sente e nem pensa; o estelionatário, aquele que induz o outro em erro mediante artifício ou ardil, a fim de obter vantagem. A verdade, pois, além de ser um problema gnosiológico é também um problema ético e jurídico, uma vez que a falsidade pode ser voluntária. Nas suas relações e experiência de vida comunal, os seres humanos percebem a necessidade da verdade e a utilidade da falsidade.

A verdade figura como valor fundamental ao lado da justiça, da bondade, da beleza e da santidade. Ser veraz é dever moral, prova de honestidade. Louva-se a verdade e condena-se a falsidade voluntária, a mentira, a hipocrisia, o estelionato. Entretanto, na vida em sociedade nem sempre há lugar para a verdade. Há situações em que tem lugar a mentira piedosa, como no caso de doença letal ou de acidente grave, quando o dever de caridade prepondera sobre o dever de veracidade. Tolera-se, também, a mentira brejeira, como a contada em reunião social para divertir e não se exige rigor lógico nem se questiona a honestidade do contador. Bem conhecidas, no Brasil, as lorotas de pescador.

segunda-feira, 8 de março de 2010

LUZ2

Segunda parte.

Além do medo e da pulsão inata ao saber, concorre para a busca de maior luz a aspiração ao poder, ao domínio do outro ou da sociedade. Parcela da humanidade percebeu que o saber pode propiciar poder, fama e riqueza; que o domínio da ciência e da técnica é fundamental na competição entre os povos; que a informação tem valor estratégico e econômico. Emissoras de rádio e televisão, rede de computadores, telefones comuns e celulares, telégrafo, correios aéreos, terrestres e fluviais com veloz capacidade de entrega, levam informações às zonas urbanas e rurais, a regiões próximas e distantes, dentro e fora do território nacional, por todo o orbe. Na voragem da conquista de corações e mentes, as empresas de comunicação social disputam audiência, manipulam notícias, constroem e destroem reputações, sustentam e derrubam regimes políticos.

A mentalidade mercantil no mundo contemporâneo estendeu-se aos mais variados setores da sociedade; sufocou o humanismo no campo da política, da economia, da religião, do trabalho, da educação, da saúde, da moradia, da arte, da ciência, da tecnologia, dos esportes, do meio ambiente. O planeta não se tornou apenas uma aldeia global como dissera, no século XX, o teórico da comunicação, Herbert McLuhan; o planeta se tornou também uma colossal feira livre. Independentemente da distância, compra-se e vende-se instantaneamente, pela rede de computadores, produtos oferecidos em suas páginas; por telefone, produtos anunciados na TV; utilizam-se cartões de crédito e de débito; transações bancárias se concluem por via eletrônica. A moeda ocupa lugar central nas relações entre pessoas e povos. Nos mais diversos assuntos, a moeda se insinua. O poder econômico engolfou o poder político. Governantes e governados se corrompem. A moeda esteriliza a ética. Legisladores buscam inteirar-se das novas situações e demandas junto à comunidade e às corporações, a fim de lhes dar solução normativa. Enquanto não sobrevém legislação específica, magistrados tentam adaptar à ordem jurídica vigente, as relações decorrentes das mudanças na sociedade, submetidas à apreciação judicial no devido processo. Na construção jurisprudencial resultante do esforço hermenêutico, os princípios fundamentais do direito exercem papel relevante.

A trajetória do raio de luz é retilínea, mas se torna curvilínea ao passar por um campo de gravitação. Isto foi observado durante o eclipse do sol, em 1919, e comprovou a teoria de Einstein sobre tal curvatura. A retidão moral também encontra campo de gravitação que desvia o comportamento humano: diante do lucro, cedem os valores éticos e religiosos.

O conhecimento astrofísico, a criação de novas técnicas e equipamentos para perscrutar o universo, os computadores, os satélites artificiais, a navegação espacial, as estações espaciais, ensejaram novos produtos de consumo para a sociedade. A pesquisa do átomo e das suas partículas, a técnica para utilização da energia nuclear, a biologia molecular e celular, tornaram-se elementos do poder militar e econômico. A cibernética contribuiu para a robotização da indústria e avanço da informática, onde a programação (software) e as respectivas máquinas (hardware) são valorizadas comercialmente. Fortunas se acumularam nas mãos de uns poucos detentores desse tipo de conhecimento.

À vetusta anatomia veio agregar-se a melindrosa fisiologia no mundo moderno. Após a descoberta da circulação do sangue, por William Harvey, na Europa do século XVII, e os estudos das funções do organismo humano, a fisiologia se enriqueceu com a bioenergética, a endocrinologia e a neurofisiologia. O calor do corpo humano foi explicado pelo funcionamento dos sistemas respiratório e circulatório. Das secreções glandulares, passou-se ao exame da estrutura e do funcionamento das células e das moléculas. A medicina molecular entra no circuito terapêutico. O genoma foi decifrado. O cérebro humano ficou mais conhecido após o estudo dos neurônios e a localização de áreas específicas para cada sentido, o que ajudou na prevenção e no combate de doenças e gerou nova postura diante das anomalias mentais. A cibernética surge do casamento entre a engenharia de sistemas e a neurofisiologia. O conhecimento das redes neurais aplicado a máquinas e a organizações enseja sistemas de comunicação e a denominada “inteligência artificial”.

Ao ajudar o ser humano a conhecer a si mesmo, a ciência foi além da estrutura e do funcionamento do organismo humano: invadiu a psique – a alma personalizada – a fim de lhe desvendar os mistérios. A psicanálise revolucionou a ciência. O médico austríaco Sigmund Freud, na última década do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, inaugurou essa técnica terapêutica e a divulgou no mundo científico. Na teoria psicanalítica divergem os estudiosos, como soe acontecer no mundo das idéias. Estados de consciência, subconsciência e inconsciência foram identificados. A ciência se debruçou sobre os fatores endógenos e exógenos que determinam a conduta e a visão de mundo da pessoa. Os estudos de Pavlov sobre os reflexos condicionados lançaram luz sobre o comportamento humano. A hipnose auxiliou na investigação dos mecanismos da mente e do poder da sugestão.

sábado, 6 de março de 2010

LUZ

Primeira parte.

Fiat lux! Ordem emanada do ser divino, ao criar o mundo, para afastar as trevas, segundo o relato do indivíduo ou do grupo de indivíduos que escreveu o Gênesis, primeiro livro da bíblia. Eis a seqüência: no princípio, deus criou os céus e a terra; a terra estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo; o espírito de deus pairava sobre as águas. Então, deus disse: faça-se a luz! E a luz foi feita. À luz, deus chamou dia; às trevas, chamou noite.

Esse livro é hebreu, como os demais livros do Antigo Testamento. Os povos da Idade Antiga eram politeístas; cada povo tinha vários deuses. O povo hebreu não era exceção: por 400 anos, afeiçoou-se bem ao politeísmo egípcio; também se afeiçoou a deuses de outros povos. O deus citado no Gênesis é Javé ou Jeová, criado por Moisés e imposto aos hebreus a golpes de espada. A história contada nesse livro teria sido escrita ou ditada por Moisés, porém o rolo que a continha queimou-se. O sacerdote Esdras, sozinho ou ajudado por outros sacerdotes judeus, o escreveu novamente, por volta do século V a.C. Foi essa versão, escrita por Esdras e não por Moisés, que chegou até a Idade Contemporânea, depois de revisada no século II d.C.

Ao narrar a criação do mundo, o escritor do Gênesis citou a terra à parte. Desse modo, fez do nosso planeta o centro da atenção divina, como se a terra estivesse fixa no espaço e separada dos céus (cosmos, universo). A teoria geocêntrica de Ptolomeu recebeu as bênçãos do Papa tendo em vista se harmonizar com essa narrativa do livro hebraico, além de encontrar apoio filosófico no conhecido sofisma de Aristóteles: “as coisas pesadas tendem a cair para o centro do universo; ora, as coisas pesadas tendem a cair para o centro da terra; logo, o centro da terra é o centro do universo”. Ninguém se lembrou de perguntar a Aristóteles, de onde ele sacou a premissa maior; onde estava a prova de que o universo tinha um centro. A sua autoridade intelectual era o quanto bastava. A igreja católica aceitou o sofisma de bom grado e abriu os braços a Aristóteles, trazido para o seio da doutrina pelas mãos de Tomaz de Aquino. Ao surgir, a teoria heliocêntrica, de Copérnico, foi considerada herética.

O abismo referido no texto bíblico está como sinônimo de vórtice, caos, pois seria incongruente como sinônimo de precipício. Estranho: o espírito divino pairava sobre as águas e não sobre o mundo criado. O que ele fazia ali concentrado? Parece que ele estava na dúvida se mergulhava ou se planava.

Na opinião do escritor do citado livro, deus falava, mas ninguém sabe ao certo em que idioma, se no edênico, hebraico, grego ou latim, até porque naquele momento solene ainda não havia auditório com pessoas e holofotes. O primeiro homem só foi criado no sexto dia. Javé emitira aquela ordem no primeiro dia e não se mostrava apressado. De acordo com o escritor, Jeová viu a uva – perdão – Jeová viu que a luz era boa e a separou das trevas. Essa afirmativa revela o receio desse deus de criar coisa ruim. Ao emitir o divino juízo, Jeová parecia aliviado: “Ufa! Criei coisa boa!” O escritor lançava no mencionado livro, os seus temores, as suas incertezas, as suas crenças, as suas angústias, a sua ignorância, como se fossem de Jeová.

Em termos bíblicos, pois, luz significa ausência das trevas; claridade que torna as coisas visíveis. Em termos científicos, luz é explicada como radiação eletromagnética produzida por uma fonte natural, como as estrelas, ou por uma fonte artificial, como a lâmpada elétrica. Essa radiação se propaga em ondas à velocidade de quase 300 milhões de metros por segundo e resulta da liberação de elétrons pela ação do calor ou da descarga elétrica em corpos sólidos ou gasosos.

No sentido figurado e por analogia com a claridade, aplica-se o vocábulo luz ao entendimento humano, ao pensamento claro, à compreensão plena, à evidência do conhecimento adquirido mediante processo racional ou irracional. Daí falar-se em luz da razão, pessoa iluminada, pessoa intuitiva. Mediante operação analógica, a inteligência relaciona luz ao saber e trevas à ignorância. A luz que no plano sensorial permite ver (com os olhos do corpo) simboliza a inteligência que no plano racional permite conhecer (com os olhos da alma). Ver com clareza, no sentido físico, significa bem distinguir as coisas captadas pelo órgão da visão; no sentido cognoscitivo, significa apreender e compreender plenamente o objeto visado. Assim como a luz física (natural ou artificial) não se confunde com a coisa ou o ambiente iluminado, a luz intelectual também não se confunde com a coisa apreendida e compreendida. A inteligência é função da vida para o ato de conhecer. No ser humano, a inteligência atende a uma curiosidade inata, a um desejo de conhecer e compreender.

Nas trevas, o ser humano fica impossibilitado de enxergar o que está à sua volta, de se orientar ou de se defender de eventual perigo. O medo e a necessidade incitam o ser humano a buscar a claridade, seja a solar, a lunar, a produzida por uma fogueira ou por uma lâmpada. A busca do conhecimento, a busca da luz do saber pode ser provocada pela tomada de consciência dos males advindos da ignorância. Na escuridão mental, a pessoa corre o risco de ficar privada dos seus bens, da sua liberdade, dos seus meios de defesa e das oportunidades de progresso.

O temor de sofrer males derivados da ignorância agrava a fragilidade e o desamparo da pessoa e intensifica a necessidade de segurança. Enxergando e conhecendo o terreno em que pisa, a pessoa se movimenta com segurança, toma decisões acertadas, questiona e responde corretamente nas diferentes situações em que se encontra na vida, tais como: entrevistas, exame de aptidões técnicas e intelectuais, viagem de trabalho e de lazer, escolha de parceiro e de profissão e assim por diante. Quanto mais informação tiver sobre o alvo do seu interesse e sobre os atributos e recursos dos concorrentes, maior será a chance de a pessoa bem avaliar a situação e estabelecer estratégias adequadas.

quinta-feira, 4 de março de 2010

POESIAS

Que importa do nauta o berço / donde é filho, qual seu lar?/ Ama a cadência do verso / que lhe ensina o velho mar!/ Cantai! Que a morte é divina! / Resvala o brigue à bolina / como golfinho veloz / presa ao mastro da mezena / saudosa bandeira acena / as vagas que deixa após. / (...) / Desce o espaço imenso, ó águia do oceano! / desce mais... ainda mais... não pode olhar humano / como o teu mergulhar no brigue voador! / Mas que vejo eu aí... que quadros d´amarguras! / É canto funeral!... Que tétricas figuras!... / Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror! / Era um sonho dantesco... o tombadilho / que das luzernas avermelha o brilho / em sangue a se banhar. / Tinir de ferros... estalar de açoite... / Legiões de homens negros como a noite / horrendos a dançar... / (...) / Quem são estes desgraçados / que não encontram em vós / mais que o rir calmo da turba / que excita a fúria do algoz? / Quem são? Se a estrela se cala / se a vaga opressa resvala / como um cúmplice fugaz / perante a noite confusa... / Dize-o tu, severa Musa / Musa libérrima, audaz!... / São os filhos do deserto / onde a terra esposa a luz. / Onde vive em campo aberto / a tribo dos homens nus... / São os guerreiros ousados / que com os tigres mosqueados / combatem na solidão. / Ontem simples, fortes, bravos... / Hoje míseros escravos / sem luz, sem ar, sem razão.../ Auriverde pendão de minha terra / que a brisa do Brasil beija e balança / estandarte que a luz do sol encerra / e as promessas divinas da esperança... / Tu que da liberdade após a guerra/ foste hasteado dos heróis na lança / antes te houvessem roto na batalha / que servires a um povo de mortalha! / (...) / (“O navio negreiro” – Castro Alves).
Não sabes, criança? Estou louco de amores.../ Prendi meus afetos, formosa Pepita./ Mas, onde? No templo, no espaço, nas névoas?/ Não rias, prendi-me num laço de fita./ Na selva sombria de tuas madeixas / nos negros cabelos da moça bonita / fingindo a serpente qu´enlaça a folhagem / formoso enroscava-me o laço de fita./ Meu ser, que voava nas luzes da festa / qual pássaro bravo, que os ares agita / eu vi de repente cativo, submisso / rolar prisioneiro num laço de fita./ (...) / (“O laço de fita” – Castro Alves).

É noite! As sombras correm nebulosas./ Vão três pálidas virgens silenciosas / através da procela irrequieta./ Vão três pálidas virgens...vão sombrias / rindo colar num beijo as bocas frias.../ na fronte cismadora do Poeta./ “Saúde, irmão! Eu sou a Indiferença. / Sou eu quem te sepulta a idéia imensa / que no teu nome a escuridão projeta.../ Fui eu que te vesti do meu sudário.../ Que vais fazer tão triste e solitário?...”/ “Eu lutarei”, responde-lhe o Poeta./ “Saúde, meu irmão! Eu sou a Fome./ Sou eu quem o teu negro pão consome.../ o teu mísero pão, mísero atleta!/ Hoje, amanhã, depois...depois (qu´importa?) / virei sempre sentar-me à tua porta...”/ “Eu sofrerei”, responde-lhe o Poeta./ “Saúde, meu irmão! Eu sou a Morte./ Suspende em meio o hino augusto e forte./ Marquei-te a fronte, mísero profeta!/ Volve ao nada! Não sentes neste enleio / teu cântico gelar-se no meu seio?” / “Eu cantarei no céu”, diz-lhe o Poeta! (“As três irmãs do poeta” – Castro Alves).

Oh! Eu quero viver, beber perfumes / na flor silvestre, que embalsama os ares;/ ver minh´alma adejar pelo infinito / qual branca vela n´amplidão dos mares./ No seio da mulher há tanto aroma.../ nos seus beijos de fogo há tanta vida.../ Árabe errante, vou dormir à tarde / à sombra fresca da palmeira erguida./ Mas uma voz responde-me sombria:/ terás o sono sob a lájea fria./ Morrer...quando este mundo é um paraíso / e a alma um cisne de douradas plumas:/ não, o seio da amante é um lago virgem.../ quero boiar à tona das espumas./ Vem! Formosa mulher – camélia pálida / que banharam de prantos as alvoradas./ Minh´alma é a borboleta, que espaneja / o pó das asas lívidas, douradas.../ e a mesma voz repete-me terrível / com gargalhar sarcástico: - Impossível! / (...) / (“Mocidade e morte” – Castro Alves).

Ser palmeira! Existir num píncaro azulado / vendo as nuvens mais perto e as estrelas em bando / dar ao sopro do mar o seio perfumado / ora os leques abrindo, ora os leques fechando / Só do meu cimo, só de meu trono, os rumores / do dia ouvir, nascendo o primeiro arrebol / e no azul dialogar com o espírito das flores / que invisível ascende e vai falar ao sol / Sentir romper do vale e a meus pés, rumorosa / dilatar-se e cantar a alma sonora e quente / das árvores, que em flor abre a manhã cheirosa / dos rios, onde luz todo o esplendor do Oriente / (...) / Que bom dizer então bem alto ao firmamento / o que outrora jamais – homem – dizer não pude / da menor sensação ao máximo tormento / quanto passa através minha existência rude! / (...) / E isto que aqui não digo então dizer: - que te amo / mãe natureza! Mas de modo tal que o entendas / como entendes a voz do pássaro no ramo / e o eco que têm no oceano as borrascas tremendas / (...) / (“Aspiração” – Alberto de Oliveira).

Vai-se a primeira pomba despertada... / vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas / de pombas vão-se dos pombais, apenas / raia sangüínea e fresca a madrugada... / E à tarde, quando a rígida nortada / sopra, aos pombais de novo elas, serenas / ruflando as asas, sacudindo as penas / voltam todas em bando e em revoada... / Também dos corações onde abotoam / os sonhos, um por um, céleres voam / como voam as pombas dos pombais / no azul da adolescência as asas soltam / fogem ... mas aos pombais as pombas voltam / e eles aos corações não voltam mais... / (“As pombas” – Raymundo Correia).
Se a cólera que espuma, a dor que mora / n´alma, e destrói cada ilusão que nasce / tudo o que punge, tudo o que devora / o coração, no rosto se estampasse / se pudesse, o espírito que chora / ver através da máscara da face / quanta gente, talvez, que inveja agora / nos causa, então piedade nos causasse! / Quanta gente que ri, talvez, consigo / guarda um atroz, recôndito inimigo / como invisível chaga cancerosa! / Quanta gente que ri, talvez existe / cuja ventura única consiste / em parecer aos outros venturosa! (“Mal secreto” – idem).

Alta, a frescura da magnólia fresca / da cor nupcial da flor da laranjeira / doces tons d´ouro de mulher tudesca / na veludosa e flava cabeleira. / (...)/ Radiava nela a incomparável messe / da saúde brotando vigorosa / como o sol que entre névoas resplandece / por entre a fina pele cor de rosa. / Era assim luminosa e delicada / tão nobre sempre de beleza e graça / que recordava pompas de alvorada / sonoridades de cristais de taça. / Mas, pouco a pouco, a ideal delicadeza / daquele corpo virginal e fino / sacrário da mais límpida beleza / perdeu a graça e o brilho diamantino. / Tísica e branca, esbelta, frígida e alta / e fraca e magra e transparente e esguia / tem agora a feição de ave pernalta / de um pássaro alto de aparência fria. / Mãos liriais e diáfanas, de neve / rosto onde um sonho aéreo e polar flutua / ela apresenta a fluidez, a leve / Ondulação da vaporosa lua. / (...) / (“Tuberculosa” – Cruz e Souza).
Ah! Plangentes violões dormentes, mornos / soluços ao luar, choros ao vento... / tristes perfis, os mais vagos contornos / bocas murmurejantes de lamento. / Noites de além, remotas, que eu recordo/ noites da solidão, noites remotas / que nos azuis da fantasia bordo / vou constelando de visões ignotas. / Sutis palpitações à luz da lua / anseios dos momentos mais saudosos / quando lá choram, na deserta rua / as cordas vivas dos violões chorosos. / (...) / Harmonias que pungem, que laceram / dedos ágeis e nervosos que percorrem / cordas e um mundo de dolência geram / gemidos, prantos que no espaço morrem... / (...) / Vozes veladas, veludosas vozes / volúpias dos violões, vozes veladas / vagam nos velhos vórtices velozes / dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas. / Tudo nas cordas dos violões ecoa / e vibra e se contorce no ar, convulso... / Tudo na noite, tudo clama e voa / sob a febril agitação de um pulso. / Que esses violões nevoentos e tristonhos / são ilhas de degredo atroz, funéreo / para onde vão, fatigadas do sonho / almas que se abismaram no mistério./ (...) / Tipos intonsos, esgrouviados, tortos / das luas tardas sob o beijo níveo / para os enterros dos seus sonhos mortos / nas queixas dos violões buscando alívio. / (...) / Veteranos de todas as campanhas / enrugados por fundas cicatrizes / procuram nos violões horas estranhas / vagos aromas, cândidos, felizes. / Ébrios antigos, vagabundos velhos / torvos despojos da miséria humana / têm nos violões secretos evangelhos / toda a bíblia fatal da dor insana. / (...) (“Violões que choram” – Cruz e Souza).

terça-feira, 2 de março de 2010

VIDA3

A história do ser humano tem sido a da ação predatória desde os primórdios da sua vida neste planeta. No século XX, a reação encorpa-se. No século XXI, a política de preservação tende a prevalecer. A defesa do meio ambiente e o desenvolvimento sustentável ganham terreno. A consciência ecológica se expande em nível planetário. Chegou-se a uma concepção holística da vida. Foram percebidos nexos biológicos que unem em rede todas as formas de vida. O conhecimento da interdependência dos seres vivos e das suas relações com o ar, a água e o solo, ultrapassou os muros dos laboratórios, das universidades, das escolas de mistérios e ganhou a praça pública graças à divulgação dos estudos e pesquisas realizados.

A atitude do ser humano civilizado está se encaminhando para uma relação harmônica e racional com a natureza. Instituições civis se organizam em defesa da qualidade de vida no planeta. Esforços internacionais têm sido desenvolvidos para atingir esse objetivo; realizam-se conferências e celebram-se acordos. A resistência de algumas nações, fundada em razões econômicas, retarda a execução desses acordos, como aconteceu com o de Kyoto. Políticas de cunho pacifista têm sido engendradas para suprimir armas nucleares e bacteriológicas e proscrever a sua produção e circulação. Acordos contrários à guerra química e à proliferação das citadas armas atestam o avanço. Organizações civis combatem a caça e a pesca predatórias. Organizações governamentais cogitam medidas preventivas contra colisões de corpos celestes na superfície da Terra cujos efeitos poderiam ser fatais aos seres vivos.

A expansão da consciência humana em nível planetário já faz sentir um efetivo espírito de fraternidade entre os povos. Desde a geração dos anos 60, os jovens parecem ostentar amor à natureza, à vida saudável, à cultura do corpo, ao esporte, à música, à liberdade, ao cosmopolitismo, como se esse amor estivesse gravado no código genético. O misticismo oriental invadiu o Ocidente como refluxo do racionalismo ocidental que invadira o Oriente no século XIX. A invasão mística mais se fortaleceu com a adesão dos Beatles, ícones daquela juventude que iniciou o movimento hippie. Verificou-se a necessidade de duradoura ação solidária a fim de levar a todas as nações os bens da natureza e os bens da civilização. Anuncia-se a almejada concórdia universal.

Do ângulo lógico e psicológico, a vida pode ser vista como fenômeno intelectual, volitivo e emotivo; manifesta-se em moções e emoções geradoras de idéias, desejos e sentimentos; possui faculdades racionais, memória e consciência. A vida racional pode elaborar conceitos radicais de espiritualidade que conduzem ao desprezo do corpo e elaborar conceitos radicais de materialidade que conduzem ao desprezo da alma. Na filosofia, na religião e no misticismo há, nessa matéria, posições extremadas e posições intermediárias ou ecléticas, desde as civilizações antigas até a contemporânea. A reflexão filosófica assenta-se principalmente nos processos racionais, enquanto a religião e o misticismo assentam-se principalmente nos processos irracionais, todos alicerçados na mesma base: a natureza física, emocional e intelectual do ser humano.

A vida é movimento contínuo. Na linha evolutiva, à vida sensitiva seguiu-se a vida intelectiva. A fase posterior da evolução não elimina a anterior. Convivem no tempo e no espaço os vegetais, os animais irracionais e os racionais. Os animais racionais têm vida sensitiva e vida intelectiva, ambas importantes em suas respectivas funções. A vida intelectiva não é a única a produzir conhecimento. A vida sensitiva guarda lições de grande valia à existência do ser humano; através da emoção e da intuição, rompe os grilhões da lógica e adentra o mundo espiritual. A alma personalizada pode sintonizar-se com o mundo espiritual, porém, se nele permanecer, desligar-se-á do corpo e só regressará ao mundo físico mediante reencarnação, conforme crença oriental encampada pelo espiritismo de Alan Kardec.

Há vida interior quando o sujeito relaciona-se consigo mesmo, cogita, trava monólogos, reza, medita, emociona-se, extasia-se. Há vida exterior, quando o sujeito trava diálogos, se relaciona com familiares e outras pessoas na sua comunidade ou fora dela, no seu país ou fora dele, com os mais diversos propósitos (trabalho, lazer, arte, estudo, pesquisa, oração comunal, tratamento de saúde, protesto, eleição, guerra).

No que concerne à vida humana individual, as necessidades do corpo reclamam satisfação. O mundo secular e o mundo espiritual são aspectos distintos de uma única realidade e ambos merecem atenção. Para se harmonizar com o mundo espiritual, desnecessário morrer para o mundo secular, isolar-se em mosteiro ou em cavernas, flagelar o corpo ou definhar em penitências. Basta um lugar tranqüilo no lar, no templo, ao ar livre, na cidade, no campo, na estação espacial, onde seja possível meditar, orar fervorosamente, entrar em comunhão com as hostes cósmicas. A plenitude da vida humana abrange os dois mundos. Para alcançá-la é necessário determinação da vontade; desejo sincero e forte; trabalho manual, técnico ou intelectual regular, lícito, construtivo; dieta saudável, exercícios físicos moderados, disciplina, vigilância e oração.

Chama-se vida, também, ao modo de ser e de estar no mundo. Daí falar-se em vida familial, vida social, vida cultural, vida de artista, vida religiosa, vida monástica, vida mística, vida de asceta e assim por diante. A um ambiente movimentado, diz-se que tem vida. A um ambiente incolor, estagnado, deserto, diz-se que está sem vida. Na terra ou na água onde a vida vegetal ou animal não vinga, diz-se que é um lugar morto ou estéril. Em tal sentido, morte significa ausência de vida. No que tange ao ser humano, considerando a dupla dimensão do mundo, a morte significa passagem de uma dimensão (atual/material) a outra (potencial/espiritual); a alma personalizada passa a viver em outra dimensão; o corpo se desintegra e a energia que o mantinha íntegro volta ao estado imaterial (tu és pó e ao pó retornarás); a respectiva personalidade anímica decalca-se na alma universal (a casa do meu pai tem muitas moradas).

Após uma taça de poesia, o próximo tema será LUZ.
Que a paz e o amor estejam com todos. Assim seja!

domingo, 28 de fevereiro de 2010

VIDA2

Segunda parte.

Para suprir demanda dos bens necessários à conservação da vida, ante a provável exaustão das fontes usuais de abastecimento e o crescimento da população mundial, buscam-se fontes alternativas de energia: eólica, solar, nuclear, vegetal (cana de açúcar, milho, beterraba). A engenharia genética contribui para que a probabilidade de faltar alimento seja reduzida. Sob técnicas adequadas e condições apropriadas são plantados vegetais transgênicos, criam-se frangos e peixes com rações vitaminadas, melhora-se a qualidade do gado pela inseminação artificial e pastos apropriados. A indústria diversifica a produção de alimentos, remédios, vitaminas e equipamentos para preservar a saúde e a vida.

O filme italiano Mundo Cão, da segunda metade do século XX, retratava a miséria moral e econômica das pessoas. Calcula-se que, atualmente, mais da metade da população mundial passa fome. Alimentos são queimados ou destruídos, às toneladas, por não obter bom preço no mercado. À falta de poder aquisitivo, milhões de pessoas ficam sem acesso aos alimentos postos à venda nas feiras, armazéns e supermercados. Diante da escassez de água, buscam-se soluções racionais à sua utilização, de modo a evitar o desperdício, preservar os mananciais e a flora que os circunda. Abrem-se canais para irrigação da terra e transposição das águas de rios a fim de abastecer regiões assoladas pela seca. Cogita-se a dessalinização da água do mar.

Na Europa do século XIX, teve larga repercussão a teoria de Thomas Malthus, publicada em 1803: a população mundial se multiplica em progressão geométrica, enquanto os recursos para alimentá-la crescem em progressão aritmética; a catástrofe será certa, se não houver controle. No século XX, ao findar a primeira guerra mundial, a França adotou política de incentivo à natalidade. O cenário mudou na segunda metade do século. O Japão adotou política de controle da natalidade. Países desenvolvidos seguiram o exemplo japonês. Onde o controle ficou mais restrito à camada rica e remediada, a população aumentou, como na América do Sul e África. O controle da natalidade na China tem caráter obrigatório: o governo estabelece o número máximo de filhos que o casal pode gerar; ultrapassado o limite, sobrevém punição aplicada pelo Estado. A imigração intervém negativamente na política de controle de natalidade do país hospedeiro. Além disso, os imigrantes concorrem com os nacionais no mercado de trabalho, o que tem gerado descontentamento e conflitos em países europeus e reacendido a chama do racismo. Nos EUA o governo faz severa fiscalização na fronteira com o México, para evitar a imigração ilegal.

As técnicas de controle da natalidade variam: relação sexual programada, pílulas anticoncepcionais, diafragma, vasectomia, laqueadura, aborto cirúrgico. A igreja cristã discorda do controle; apóia-se no mandamento bíblico: crescei e multiplicai. Opõe-se, igual e tenazmente, à interrupção da gravidez; apóia-se em outro mandamento bíblico: não matarás. Qualifica o aborto de assassinato, como se o embrião fosse pessoa. Assim procedendo, a igreja coloca-se contra o direito posto pelo Estado e faz terrorismo moral e religioso, esquecida de que ela própria torturou e matou – na fogueira, no cadafalso, no óleo fervendo – pessoas consideradas hereges. Por não tirar o chapéu à passagem de uma procissão, Jean Barre foi supliciado até a morte, em 1618, na França. No direito brasileiro, o nascimento com vida gera a personalidade civil. Considera-se com vida o ser que respira pela primeira vez fora do útero. Se não houver respiração, não haverá pessoa nem o respectivo direito hereditário.

A ex-ministra da saúde da Finlândia, Dra. Rauni Kilde, através de entrevista divulgada pela rede de computadores em 2009/2010, denunciou a técnica de redução demográfica por envenenamento coletivo. Crianças e mulheres grávidas são os alvos principais da aplicação dessa técnica que obedece a uma estratégia cuja autoria é atribuída a Henry Kissinger, ex-secretário de estado dos EUA. O suposto projeto tem por objetivo eliminar 2/3 da população mundial e, concomitantemente, aumentar os lucros da indústria farmacêutica, com o beneplácito da Organização Mundial da Saúde. A indústria produz vacinas que intoxicam o organismo humano e causam a morte dos pacientes. Servindo-se dos veículos de comunicação social, a indústria faz alarde de doenças, como a gripe suína e a gripe do frango, qualificando-as de altamente danosas à saúde. Induz os governos a baixarem leis declarando a vacina obrigatória. Vende vacinas a todos os países do mundo para consumo de milhões de pessoas, embora seja pequeno o número de doentes proporcionalmente ao de habitantes.

Suspeita-se que o vírus da AIDS resultou de projeto semelhante, cuja execução teve início no continente africano. Em direção aparentemente oposta a esse projeto, a pesquisa científica, as técnicas alopáticas e homeopáticas, orientais e ocidentais, permitiram a cura e a prevenção de várias doenças, prolongando a expectativa de vida do ser humano. Continua a luta contra o câncer, a AIDS e o diabetes. Embora sem o propósito específico, esse progresso pode camuflar aquele projeto de extinção parcial da humanidade. Realmente, apenas 1/3 da população mundial, aproximadamente, usufrui do avanço da medicina. A maior parcela está excluída. O continente africano oferece o mais dramático exemplo dessa exclusão. No continente americano, o terremoto no Haiti, em 2009, com milhares de mortos, revelou ao mundo um povo na miséria, excluído do progresso trazido pela civilização. O infortúnio talvez proporcione melhores dias, refletindo a passagem bíblica: depois da tempestade, a bonança. Algumas nações se solidarizaram com os haitianos; o povo recebeu ajuda internacional que poderá se estender por uma década, em atenção ao pleito dos seus líderes. Por outro lado, na Europa e na América, o crescente número de idosos e de desempregados preocupa os governos. Os recursos da previdência social estão no limite, segundo afirmam. A eliminação dessa parcela da população mundial seria bem vista por esses pragmáticos que valorizam mais o dinheiro do que a vida.