segunda-feira, 8 de março de 2010

LUZ2

Segunda parte.

Além do medo e da pulsão inata ao saber, concorre para a busca de maior luz a aspiração ao poder, ao domínio do outro ou da sociedade. Parcela da humanidade percebeu que o saber pode propiciar poder, fama e riqueza; que o domínio da ciência e da técnica é fundamental na competição entre os povos; que a informação tem valor estratégico e econômico. Emissoras de rádio e televisão, rede de computadores, telefones comuns e celulares, telégrafo, correios aéreos, terrestres e fluviais com veloz capacidade de entrega, levam informações às zonas urbanas e rurais, a regiões próximas e distantes, dentro e fora do território nacional, por todo o orbe. Na voragem da conquista de corações e mentes, as empresas de comunicação social disputam audiência, manipulam notícias, constroem e destroem reputações, sustentam e derrubam regimes políticos.

A mentalidade mercantil no mundo contemporâneo estendeu-se aos mais variados setores da sociedade; sufocou o humanismo no campo da política, da economia, da religião, do trabalho, da educação, da saúde, da moradia, da arte, da ciência, da tecnologia, dos esportes, do meio ambiente. O planeta não se tornou apenas uma aldeia global como dissera, no século XX, o teórico da comunicação, Herbert McLuhan; o planeta se tornou também uma colossal feira livre. Independentemente da distância, compra-se e vende-se instantaneamente, pela rede de computadores, produtos oferecidos em suas páginas; por telefone, produtos anunciados na TV; utilizam-se cartões de crédito e de débito; transações bancárias se concluem por via eletrônica. A moeda ocupa lugar central nas relações entre pessoas e povos. Nos mais diversos assuntos, a moeda se insinua. O poder econômico engolfou o poder político. Governantes e governados se corrompem. A moeda esteriliza a ética. Legisladores buscam inteirar-se das novas situações e demandas junto à comunidade e às corporações, a fim de lhes dar solução normativa. Enquanto não sobrevém legislação específica, magistrados tentam adaptar à ordem jurídica vigente, as relações decorrentes das mudanças na sociedade, submetidas à apreciação judicial no devido processo. Na construção jurisprudencial resultante do esforço hermenêutico, os princípios fundamentais do direito exercem papel relevante.

A trajetória do raio de luz é retilínea, mas se torna curvilínea ao passar por um campo de gravitação. Isto foi observado durante o eclipse do sol, em 1919, e comprovou a teoria de Einstein sobre tal curvatura. A retidão moral também encontra campo de gravitação que desvia o comportamento humano: diante do lucro, cedem os valores éticos e religiosos.

O conhecimento astrofísico, a criação de novas técnicas e equipamentos para perscrutar o universo, os computadores, os satélites artificiais, a navegação espacial, as estações espaciais, ensejaram novos produtos de consumo para a sociedade. A pesquisa do átomo e das suas partículas, a técnica para utilização da energia nuclear, a biologia molecular e celular, tornaram-se elementos do poder militar e econômico. A cibernética contribuiu para a robotização da indústria e avanço da informática, onde a programação (software) e as respectivas máquinas (hardware) são valorizadas comercialmente. Fortunas se acumularam nas mãos de uns poucos detentores desse tipo de conhecimento.

À vetusta anatomia veio agregar-se a melindrosa fisiologia no mundo moderno. Após a descoberta da circulação do sangue, por William Harvey, na Europa do século XVII, e os estudos das funções do organismo humano, a fisiologia se enriqueceu com a bioenergética, a endocrinologia e a neurofisiologia. O calor do corpo humano foi explicado pelo funcionamento dos sistemas respiratório e circulatório. Das secreções glandulares, passou-se ao exame da estrutura e do funcionamento das células e das moléculas. A medicina molecular entra no circuito terapêutico. O genoma foi decifrado. O cérebro humano ficou mais conhecido após o estudo dos neurônios e a localização de áreas específicas para cada sentido, o que ajudou na prevenção e no combate de doenças e gerou nova postura diante das anomalias mentais. A cibernética surge do casamento entre a engenharia de sistemas e a neurofisiologia. O conhecimento das redes neurais aplicado a máquinas e a organizações enseja sistemas de comunicação e a denominada “inteligência artificial”.

Ao ajudar o ser humano a conhecer a si mesmo, a ciência foi além da estrutura e do funcionamento do organismo humano: invadiu a psique – a alma personalizada – a fim de lhe desvendar os mistérios. A psicanálise revolucionou a ciência. O médico austríaco Sigmund Freud, na última década do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, inaugurou essa técnica terapêutica e a divulgou no mundo científico. Na teoria psicanalítica divergem os estudiosos, como soe acontecer no mundo das idéias. Estados de consciência, subconsciência e inconsciência foram identificados. A ciência se debruçou sobre os fatores endógenos e exógenos que determinam a conduta e a visão de mundo da pessoa. Os estudos de Pavlov sobre os reflexos condicionados lançaram luz sobre o comportamento humano. A hipnose auxiliou na investigação dos mecanismos da mente e do poder da sugestão.

sábado, 6 de março de 2010

LUZ

Primeira parte.

Fiat lux! Ordem emanada do ser divino, ao criar o mundo, para afastar as trevas, segundo o relato do indivíduo ou do grupo de indivíduos que escreveu o Gênesis, primeiro livro da bíblia. Eis a seqüência: no princípio, deus criou os céus e a terra; a terra estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo; o espírito de deus pairava sobre as águas. Então, deus disse: faça-se a luz! E a luz foi feita. À luz, deus chamou dia; às trevas, chamou noite.

Esse livro é hebreu, como os demais livros do Antigo Testamento. Os povos da Idade Antiga eram politeístas; cada povo tinha vários deuses. O povo hebreu não era exceção: por 400 anos, afeiçoou-se bem ao politeísmo egípcio; também se afeiçoou a deuses de outros povos. O deus citado no Gênesis é Javé ou Jeová, criado por Moisés e imposto aos hebreus a golpes de espada. A história contada nesse livro teria sido escrita ou ditada por Moisés, porém o rolo que a continha queimou-se. O sacerdote Esdras, sozinho ou ajudado por outros sacerdotes judeus, o escreveu novamente, por volta do século V a.C. Foi essa versão, escrita por Esdras e não por Moisés, que chegou até a Idade Contemporânea, depois de revisada no século II d.C.

Ao narrar a criação do mundo, o escritor do Gênesis citou a terra à parte. Desse modo, fez do nosso planeta o centro da atenção divina, como se a terra estivesse fixa no espaço e separada dos céus (cosmos, universo). A teoria geocêntrica de Ptolomeu recebeu as bênçãos do Papa tendo em vista se harmonizar com essa narrativa do livro hebraico, além de encontrar apoio filosófico no conhecido sofisma de Aristóteles: “as coisas pesadas tendem a cair para o centro do universo; ora, as coisas pesadas tendem a cair para o centro da terra; logo, o centro da terra é o centro do universo”. Ninguém se lembrou de perguntar a Aristóteles, de onde ele sacou a premissa maior; onde estava a prova de que o universo tinha um centro. A sua autoridade intelectual era o quanto bastava. A igreja católica aceitou o sofisma de bom grado e abriu os braços a Aristóteles, trazido para o seio da doutrina pelas mãos de Tomaz de Aquino. Ao surgir, a teoria heliocêntrica, de Copérnico, foi considerada herética.

O abismo referido no texto bíblico está como sinônimo de vórtice, caos, pois seria incongruente como sinônimo de precipício. Estranho: o espírito divino pairava sobre as águas e não sobre o mundo criado. O que ele fazia ali concentrado? Parece que ele estava na dúvida se mergulhava ou se planava.

Na opinião do escritor do citado livro, deus falava, mas ninguém sabe ao certo em que idioma, se no edênico, hebraico, grego ou latim, até porque naquele momento solene ainda não havia auditório com pessoas e holofotes. O primeiro homem só foi criado no sexto dia. Javé emitira aquela ordem no primeiro dia e não se mostrava apressado. De acordo com o escritor, Jeová viu a uva – perdão – Jeová viu que a luz era boa e a separou das trevas. Essa afirmativa revela o receio desse deus de criar coisa ruim. Ao emitir o divino juízo, Jeová parecia aliviado: “Ufa! Criei coisa boa!” O escritor lançava no mencionado livro, os seus temores, as suas incertezas, as suas crenças, as suas angústias, a sua ignorância, como se fossem de Jeová.

Em termos bíblicos, pois, luz significa ausência das trevas; claridade que torna as coisas visíveis. Em termos científicos, luz é explicada como radiação eletromagnética produzida por uma fonte natural, como as estrelas, ou por uma fonte artificial, como a lâmpada elétrica. Essa radiação se propaga em ondas à velocidade de quase 300 milhões de metros por segundo e resulta da liberação de elétrons pela ação do calor ou da descarga elétrica em corpos sólidos ou gasosos.

No sentido figurado e por analogia com a claridade, aplica-se o vocábulo luz ao entendimento humano, ao pensamento claro, à compreensão plena, à evidência do conhecimento adquirido mediante processo racional ou irracional. Daí falar-se em luz da razão, pessoa iluminada, pessoa intuitiva. Mediante operação analógica, a inteligência relaciona luz ao saber e trevas à ignorância. A luz que no plano sensorial permite ver (com os olhos do corpo) simboliza a inteligência que no plano racional permite conhecer (com os olhos da alma). Ver com clareza, no sentido físico, significa bem distinguir as coisas captadas pelo órgão da visão; no sentido cognoscitivo, significa apreender e compreender plenamente o objeto visado. Assim como a luz física (natural ou artificial) não se confunde com a coisa ou o ambiente iluminado, a luz intelectual também não se confunde com a coisa apreendida e compreendida. A inteligência é função da vida para o ato de conhecer. No ser humano, a inteligência atende a uma curiosidade inata, a um desejo de conhecer e compreender.

Nas trevas, o ser humano fica impossibilitado de enxergar o que está à sua volta, de se orientar ou de se defender de eventual perigo. O medo e a necessidade incitam o ser humano a buscar a claridade, seja a solar, a lunar, a produzida por uma fogueira ou por uma lâmpada. A busca do conhecimento, a busca da luz do saber pode ser provocada pela tomada de consciência dos males advindos da ignorância. Na escuridão mental, a pessoa corre o risco de ficar privada dos seus bens, da sua liberdade, dos seus meios de defesa e das oportunidades de progresso.

O temor de sofrer males derivados da ignorância agrava a fragilidade e o desamparo da pessoa e intensifica a necessidade de segurança. Enxergando e conhecendo o terreno em que pisa, a pessoa se movimenta com segurança, toma decisões acertadas, questiona e responde corretamente nas diferentes situações em que se encontra na vida, tais como: entrevistas, exame de aptidões técnicas e intelectuais, viagem de trabalho e de lazer, escolha de parceiro e de profissão e assim por diante. Quanto mais informação tiver sobre o alvo do seu interesse e sobre os atributos e recursos dos concorrentes, maior será a chance de a pessoa bem avaliar a situação e estabelecer estratégias adequadas.

quinta-feira, 4 de março de 2010

POESIAS

Que importa do nauta o berço / donde é filho, qual seu lar?/ Ama a cadência do verso / que lhe ensina o velho mar!/ Cantai! Que a morte é divina! / Resvala o brigue à bolina / como golfinho veloz / presa ao mastro da mezena / saudosa bandeira acena / as vagas que deixa após. / (...) / Desce o espaço imenso, ó águia do oceano! / desce mais... ainda mais... não pode olhar humano / como o teu mergulhar no brigue voador! / Mas que vejo eu aí... que quadros d´amarguras! / É canto funeral!... Que tétricas figuras!... / Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror! / Era um sonho dantesco... o tombadilho / que das luzernas avermelha o brilho / em sangue a se banhar. / Tinir de ferros... estalar de açoite... / Legiões de homens negros como a noite / horrendos a dançar... / (...) / Quem são estes desgraçados / que não encontram em vós / mais que o rir calmo da turba / que excita a fúria do algoz? / Quem são? Se a estrela se cala / se a vaga opressa resvala / como um cúmplice fugaz / perante a noite confusa... / Dize-o tu, severa Musa / Musa libérrima, audaz!... / São os filhos do deserto / onde a terra esposa a luz. / Onde vive em campo aberto / a tribo dos homens nus... / São os guerreiros ousados / que com os tigres mosqueados / combatem na solidão. / Ontem simples, fortes, bravos... / Hoje míseros escravos / sem luz, sem ar, sem razão.../ Auriverde pendão de minha terra / que a brisa do Brasil beija e balança / estandarte que a luz do sol encerra / e as promessas divinas da esperança... / Tu que da liberdade após a guerra/ foste hasteado dos heróis na lança / antes te houvessem roto na batalha / que servires a um povo de mortalha! / (...) / (“O navio negreiro” – Castro Alves).
Não sabes, criança? Estou louco de amores.../ Prendi meus afetos, formosa Pepita./ Mas, onde? No templo, no espaço, nas névoas?/ Não rias, prendi-me num laço de fita./ Na selva sombria de tuas madeixas / nos negros cabelos da moça bonita / fingindo a serpente qu´enlaça a folhagem / formoso enroscava-me o laço de fita./ Meu ser, que voava nas luzes da festa / qual pássaro bravo, que os ares agita / eu vi de repente cativo, submisso / rolar prisioneiro num laço de fita./ (...) / (“O laço de fita” – Castro Alves).

É noite! As sombras correm nebulosas./ Vão três pálidas virgens silenciosas / através da procela irrequieta./ Vão três pálidas virgens...vão sombrias / rindo colar num beijo as bocas frias.../ na fronte cismadora do Poeta./ “Saúde, irmão! Eu sou a Indiferença. / Sou eu quem te sepulta a idéia imensa / que no teu nome a escuridão projeta.../ Fui eu que te vesti do meu sudário.../ Que vais fazer tão triste e solitário?...”/ “Eu lutarei”, responde-lhe o Poeta./ “Saúde, meu irmão! Eu sou a Fome./ Sou eu quem o teu negro pão consome.../ o teu mísero pão, mísero atleta!/ Hoje, amanhã, depois...depois (qu´importa?) / virei sempre sentar-me à tua porta...”/ “Eu sofrerei”, responde-lhe o Poeta./ “Saúde, meu irmão! Eu sou a Morte./ Suspende em meio o hino augusto e forte./ Marquei-te a fronte, mísero profeta!/ Volve ao nada! Não sentes neste enleio / teu cântico gelar-se no meu seio?” / “Eu cantarei no céu”, diz-lhe o Poeta! (“As três irmãs do poeta” – Castro Alves).

Oh! Eu quero viver, beber perfumes / na flor silvestre, que embalsama os ares;/ ver minh´alma adejar pelo infinito / qual branca vela n´amplidão dos mares./ No seio da mulher há tanto aroma.../ nos seus beijos de fogo há tanta vida.../ Árabe errante, vou dormir à tarde / à sombra fresca da palmeira erguida./ Mas uma voz responde-me sombria:/ terás o sono sob a lájea fria./ Morrer...quando este mundo é um paraíso / e a alma um cisne de douradas plumas:/ não, o seio da amante é um lago virgem.../ quero boiar à tona das espumas./ Vem! Formosa mulher – camélia pálida / que banharam de prantos as alvoradas./ Minh´alma é a borboleta, que espaneja / o pó das asas lívidas, douradas.../ e a mesma voz repete-me terrível / com gargalhar sarcástico: - Impossível! / (...) / (“Mocidade e morte” – Castro Alves).

Ser palmeira! Existir num píncaro azulado / vendo as nuvens mais perto e as estrelas em bando / dar ao sopro do mar o seio perfumado / ora os leques abrindo, ora os leques fechando / Só do meu cimo, só de meu trono, os rumores / do dia ouvir, nascendo o primeiro arrebol / e no azul dialogar com o espírito das flores / que invisível ascende e vai falar ao sol / Sentir romper do vale e a meus pés, rumorosa / dilatar-se e cantar a alma sonora e quente / das árvores, que em flor abre a manhã cheirosa / dos rios, onde luz todo o esplendor do Oriente / (...) / Que bom dizer então bem alto ao firmamento / o que outrora jamais – homem – dizer não pude / da menor sensação ao máximo tormento / quanto passa através minha existência rude! / (...) / E isto que aqui não digo então dizer: - que te amo / mãe natureza! Mas de modo tal que o entendas / como entendes a voz do pássaro no ramo / e o eco que têm no oceano as borrascas tremendas / (...) / (“Aspiração” – Alberto de Oliveira).

Vai-se a primeira pomba despertada... / vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas / de pombas vão-se dos pombais, apenas / raia sangüínea e fresca a madrugada... / E à tarde, quando a rígida nortada / sopra, aos pombais de novo elas, serenas / ruflando as asas, sacudindo as penas / voltam todas em bando e em revoada... / Também dos corações onde abotoam / os sonhos, um por um, céleres voam / como voam as pombas dos pombais / no azul da adolescência as asas soltam / fogem ... mas aos pombais as pombas voltam / e eles aos corações não voltam mais... / (“As pombas” – Raymundo Correia).
Se a cólera que espuma, a dor que mora / n´alma, e destrói cada ilusão que nasce / tudo o que punge, tudo o que devora / o coração, no rosto se estampasse / se pudesse, o espírito que chora / ver através da máscara da face / quanta gente, talvez, que inveja agora / nos causa, então piedade nos causasse! / Quanta gente que ri, talvez, consigo / guarda um atroz, recôndito inimigo / como invisível chaga cancerosa! / Quanta gente que ri, talvez existe / cuja ventura única consiste / em parecer aos outros venturosa! (“Mal secreto” – idem).

Alta, a frescura da magnólia fresca / da cor nupcial da flor da laranjeira / doces tons d´ouro de mulher tudesca / na veludosa e flava cabeleira. / (...)/ Radiava nela a incomparável messe / da saúde brotando vigorosa / como o sol que entre névoas resplandece / por entre a fina pele cor de rosa. / Era assim luminosa e delicada / tão nobre sempre de beleza e graça / que recordava pompas de alvorada / sonoridades de cristais de taça. / Mas, pouco a pouco, a ideal delicadeza / daquele corpo virginal e fino / sacrário da mais límpida beleza / perdeu a graça e o brilho diamantino. / Tísica e branca, esbelta, frígida e alta / e fraca e magra e transparente e esguia / tem agora a feição de ave pernalta / de um pássaro alto de aparência fria. / Mãos liriais e diáfanas, de neve / rosto onde um sonho aéreo e polar flutua / ela apresenta a fluidez, a leve / Ondulação da vaporosa lua. / (...) / (“Tuberculosa” – Cruz e Souza).
Ah! Plangentes violões dormentes, mornos / soluços ao luar, choros ao vento... / tristes perfis, os mais vagos contornos / bocas murmurejantes de lamento. / Noites de além, remotas, que eu recordo/ noites da solidão, noites remotas / que nos azuis da fantasia bordo / vou constelando de visões ignotas. / Sutis palpitações à luz da lua / anseios dos momentos mais saudosos / quando lá choram, na deserta rua / as cordas vivas dos violões chorosos. / (...) / Harmonias que pungem, que laceram / dedos ágeis e nervosos que percorrem / cordas e um mundo de dolência geram / gemidos, prantos que no espaço morrem... / (...) / Vozes veladas, veludosas vozes / volúpias dos violões, vozes veladas / vagam nos velhos vórtices velozes / dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas. / Tudo nas cordas dos violões ecoa / e vibra e se contorce no ar, convulso... / Tudo na noite, tudo clama e voa / sob a febril agitação de um pulso. / Que esses violões nevoentos e tristonhos / são ilhas de degredo atroz, funéreo / para onde vão, fatigadas do sonho / almas que se abismaram no mistério./ (...) / Tipos intonsos, esgrouviados, tortos / das luas tardas sob o beijo níveo / para os enterros dos seus sonhos mortos / nas queixas dos violões buscando alívio. / (...) / Veteranos de todas as campanhas / enrugados por fundas cicatrizes / procuram nos violões horas estranhas / vagos aromas, cândidos, felizes. / Ébrios antigos, vagabundos velhos / torvos despojos da miséria humana / têm nos violões secretos evangelhos / toda a bíblia fatal da dor insana. / (...) (“Violões que choram” – Cruz e Souza).

terça-feira, 2 de março de 2010

VIDA3

A história do ser humano tem sido a da ação predatória desde os primórdios da sua vida neste planeta. No século XX, a reação encorpa-se. No século XXI, a política de preservação tende a prevalecer. A defesa do meio ambiente e o desenvolvimento sustentável ganham terreno. A consciência ecológica se expande em nível planetário. Chegou-se a uma concepção holística da vida. Foram percebidos nexos biológicos que unem em rede todas as formas de vida. O conhecimento da interdependência dos seres vivos e das suas relações com o ar, a água e o solo, ultrapassou os muros dos laboratórios, das universidades, das escolas de mistérios e ganhou a praça pública graças à divulgação dos estudos e pesquisas realizados.

A atitude do ser humano civilizado está se encaminhando para uma relação harmônica e racional com a natureza. Instituições civis se organizam em defesa da qualidade de vida no planeta. Esforços internacionais têm sido desenvolvidos para atingir esse objetivo; realizam-se conferências e celebram-se acordos. A resistência de algumas nações, fundada em razões econômicas, retarda a execução desses acordos, como aconteceu com o de Kyoto. Políticas de cunho pacifista têm sido engendradas para suprimir armas nucleares e bacteriológicas e proscrever a sua produção e circulação. Acordos contrários à guerra química e à proliferação das citadas armas atestam o avanço. Organizações civis combatem a caça e a pesca predatórias. Organizações governamentais cogitam medidas preventivas contra colisões de corpos celestes na superfície da Terra cujos efeitos poderiam ser fatais aos seres vivos.

A expansão da consciência humana em nível planetário já faz sentir um efetivo espírito de fraternidade entre os povos. Desde a geração dos anos 60, os jovens parecem ostentar amor à natureza, à vida saudável, à cultura do corpo, ao esporte, à música, à liberdade, ao cosmopolitismo, como se esse amor estivesse gravado no código genético. O misticismo oriental invadiu o Ocidente como refluxo do racionalismo ocidental que invadira o Oriente no século XIX. A invasão mística mais se fortaleceu com a adesão dos Beatles, ícones daquela juventude que iniciou o movimento hippie. Verificou-se a necessidade de duradoura ação solidária a fim de levar a todas as nações os bens da natureza e os bens da civilização. Anuncia-se a almejada concórdia universal.

Do ângulo lógico e psicológico, a vida pode ser vista como fenômeno intelectual, volitivo e emotivo; manifesta-se em moções e emoções geradoras de idéias, desejos e sentimentos; possui faculdades racionais, memória e consciência. A vida racional pode elaborar conceitos radicais de espiritualidade que conduzem ao desprezo do corpo e elaborar conceitos radicais de materialidade que conduzem ao desprezo da alma. Na filosofia, na religião e no misticismo há, nessa matéria, posições extremadas e posições intermediárias ou ecléticas, desde as civilizações antigas até a contemporânea. A reflexão filosófica assenta-se principalmente nos processos racionais, enquanto a religião e o misticismo assentam-se principalmente nos processos irracionais, todos alicerçados na mesma base: a natureza física, emocional e intelectual do ser humano.

A vida é movimento contínuo. Na linha evolutiva, à vida sensitiva seguiu-se a vida intelectiva. A fase posterior da evolução não elimina a anterior. Convivem no tempo e no espaço os vegetais, os animais irracionais e os racionais. Os animais racionais têm vida sensitiva e vida intelectiva, ambas importantes em suas respectivas funções. A vida intelectiva não é a única a produzir conhecimento. A vida sensitiva guarda lições de grande valia à existência do ser humano; através da emoção e da intuição, rompe os grilhões da lógica e adentra o mundo espiritual. A alma personalizada pode sintonizar-se com o mundo espiritual, porém, se nele permanecer, desligar-se-á do corpo e só regressará ao mundo físico mediante reencarnação, conforme crença oriental encampada pelo espiritismo de Alan Kardec.

Há vida interior quando o sujeito relaciona-se consigo mesmo, cogita, trava monólogos, reza, medita, emociona-se, extasia-se. Há vida exterior, quando o sujeito trava diálogos, se relaciona com familiares e outras pessoas na sua comunidade ou fora dela, no seu país ou fora dele, com os mais diversos propósitos (trabalho, lazer, arte, estudo, pesquisa, oração comunal, tratamento de saúde, protesto, eleição, guerra).

No que concerne à vida humana individual, as necessidades do corpo reclamam satisfação. O mundo secular e o mundo espiritual são aspectos distintos de uma única realidade e ambos merecem atenção. Para se harmonizar com o mundo espiritual, desnecessário morrer para o mundo secular, isolar-se em mosteiro ou em cavernas, flagelar o corpo ou definhar em penitências. Basta um lugar tranqüilo no lar, no templo, ao ar livre, na cidade, no campo, na estação espacial, onde seja possível meditar, orar fervorosamente, entrar em comunhão com as hostes cósmicas. A plenitude da vida humana abrange os dois mundos. Para alcançá-la é necessário determinação da vontade; desejo sincero e forte; trabalho manual, técnico ou intelectual regular, lícito, construtivo; dieta saudável, exercícios físicos moderados, disciplina, vigilância e oração.

Chama-se vida, também, ao modo de ser e de estar no mundo. Daí falar-se em vida familial, vida social, vida cultural, vida de artista, vida religiosa, vida monástica, vida mística, vida de asceta e assim por diante. A um ambiente movimentado, diz-se que tem vida. A um ambiente incolor, estagnado, deserto, diz-se que está sem vida. Na terra ou na água onde a vida vegetal ou animal não vinga, diz-se que é um lugar morto ou estéril. Em tal sentido, morte significa ausência de vida. No que tange ao ser humano, considerando a dupla dimensão do mundo, a morte significa passagem de uma dimensão (atual/material) a outra (potencial/espiritual); a alma personalizada passa a viver em outra dimensão; o corpo se desintegra e a energia que o mantinha íntegro volta ao estado imaterial (tu és pó e ao pó retornarás); a respectiva personalidade anímica decalca-se na alma universal (a casa do meu pai tem muitas moradas).

Após uma taça de poesia, o próximo tema será LUZ.
Que a paz e o amor estejam com todos. Assim seja!

domingo, 28 de fevereiro de 2010

VIDA2

Segunda parte.

Para suprir demanda dos bens necessários à conservação da vida, ante a provável exaustão das fontes usuais de abastecimento e o crescimento da população mundial, buscam-se fontes alternativas de energia: eólica, solar, nuclear, vegetal (cana de açúcar, milho, beterraba). A engenharia genética contribui para que a probabilidade de faltar alimento seja reduzida. Sob técnicas adequadas e condições apropriadas são plantados vegetais transgênicos, criam-se frangos e peixes com rações vitaminadas, melhora-se a qualidade do gado pela inseminação artificial e pastos apropriados. A indústria diversifica a produção de alimentos, remédios, vitaminas e equipamentos para preservar a saúde e a vida.

O filme italiano Mundo Cão, da segunda metade do século XX, retratava a miséria moral e econômica das pessoas. Calcula-se que, atualmente, mais da metade da população mundial passa fome. Alimentos são queimados ou destruídos, às toneladas, por não obter bom preço no mercado. À falta de poder aquisitivo, milhões de pessoas ficam sem acesso aos alimentos postos à venda nas feiras, armazéns e supermercados. Diante da escassez de água, buscam-se soluções racionais à sua utilização, de modo a evitar o desperdício, preservar os mananciais e a flora que os circunda. Abrem-se canais para irrigação da terra e transposição das águas de rios a fim de abastecer regiões assoladas pela seca. Cogita-se a dessalinização da água do mar.

Na Europa do século XIX, teve larga repercussão a teoria de Thomas Malthus, publicada em 1803: a população mundial se multiplica em progressão geométrica, enquanto os recursos para alimentá-la crescem em progressão aritmética; a catástrofe será certa, se não houver controle. No século XX, ao findar a primeira guerra mundial, a França adotou política de incentivo à natalidade. O cenário mudou na segunda metade do século. O Japão adotou política de controle da natalidade. Países desenvolvidos seguiram o exemplo japonês. Onde o controle ficou mais restrito à camada rica e remediada, a população aumentou, como na América do Sul e África. O controle da natalidade na China tem caráter obrigatório: o governo estabelece o número máximo de filhos que o casal pode gerar; ultrapassado o limite, sobrevém punição aplicada pelo Estado. A imigração intervém negativamente na política de controle de natalidade do país hospedeiro. Além disso, os imigrantes concorrem com os nacionais no mercado de trabalho, o que tem gerado descontentamento e conflitos em países europeus e reacendido a chama do racismo. Nos EUA o governo faz severa fiscalização na fronteira com o México, para evitar a imigração ilegal.

As técnicas de controle da natalidade variam: relação sexual programada, pílulas anticoncepcionais, diafragma, vasectomia, laqueadura, aborto cirúrgico. A igreja cristã discorda do controle; apóia-se no mandamento bíblico: crescei e multiplicai. Opõe-se, igual e tenazmente, à interrupção da gravidez; apóia-se em outro mandamento bíblico: não matarás. Qualifica o aborto de assassinato, como se o embrião fosse pessoa. Assim procedendo, a igreja coloca-se contra o direito posto pelo Estado e faz terrorismo moral e religioso, esquecida de que ela própria torturou e matou – na fogueira, no cadafalso, no óleo fervendo – pessoas consideradas hereges. Por não tirar o chapéu à passagem de uma procissão, Jean Barre foi supliciado até a morte, em 1618, na França. No direito brasileiro, o nascimento com vida gera a personalidade civil. Considera-se com vida o ser que respira pela primeira vez fora do útero. Se não houver respiração, não haverá pessoa nem o respectivo direito hereditário.

A ex-ministra da saúde da Finlândia, Dra. Rauni Kilde, através de entrevista divulgada pela rede de computadores em 2009/2010, denunciou a técnica de redução demográfica por envenenamento coletivo. Crianças e mulheres grávidas são os alvos principais da aplicação dessa técnica que obedece a uma estratégia cuja autoria é atribuída a Henry Kissinger, ex-secretário de estado dos EUA. O suposto projeto tem por objetivo eliminar 2/3 da população mundial e, concomitantemente, aumentar os lucros da indústria farmacêutica, com o beneplácito da Organização Mundial da Saúde. A indústria produz vacinas que intoxicam o organismo humano e causam a morte dos pacientes. Servindo-se dos veículos de comunicação social, a indústria faz alarde de doenças, como a gripe suína e a gripe do frango, qualificando-as de altamente danosas à saúde. Induz os governos a baixarem leis declarando a vacina obrigatória. Vende vacinas a todos os países do mundo para consumo de milhões de pessoas, embora seja pequeno o número de doentes proporcionalmente ao de habitantes.

Suspeita-se que o vírus da AIDS resultou de projeto semelhante, cuja execução teve início no continente africano. Em direção aparentemente oposta a esse projeto, a pesquisa científica, as técnicas alopáticas e homeopáticas, orientais e ocidentais, permitiram a cura e a prevenção de várias doenças, prolongando a expectativa de vida do ser humano. Continua a luta contra o câncer, a AIDS e o diabetes. Embora sem o propósito específico, esse progresso pode camuflar aquele projeto de extinção parcial da humanidade. Realmente, apenas 1/3 da população mundial, aproximadamente, usufrui do avanço da medicina. A maior parcela está excluída. O continente africano oferece o mais dramático exemplo dessa exclusão. No continente americano, o terremoto no Haiti, em 2009, com milhares de mortos, revelou ao mundo um povo na miséria, excluído do progresso trazido pela civilização. O infortúnio talvez proporcione melhores dias, refletindo a passagem bíblica: depois da tempestade, a bonança. Algumas nações se solidarizaram com os haitianos; o povo recebeu ajuda internacional que poderá se estender por uma década, em atenção ao pleito dos seus líderes. Por outro lado, na Europa e na América, o crescente número de idosos e de desempregados preocupa os governos. Os recursos da previdência social estão no limite, segundo afirmam. A eliminação dessa parcela da população mundial seria bem vista por esses pragmáticos que valorizam mais o dinheiro do que a vida.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

VIDA

Primeira parte.

Vida é alma, energia fundamental genetriz e motor do universo. Quem diz alma, diz vida; quem diz vida, diz energia; quem diz energia, diz movimento; quem diz movimento, diz espaço e tempo. As galáxias não existiriam sem vida; o cosmos se desintegraria se perdesse vida. Alma universal, a vida cria a matéria, dá forma aos minerais, vegetais e animais e imprime movimento ao mundo. Do ponto de vista ontológico, a vida se manifesta como totalidade do ser: estrutura o mundo e o mantém em funcionamento contínuo. Essa manifestação obedece a padrões inteligentes, a uma lógica interna, que a mente humana apreende como leis da natureza. Se essas leis realmente existem fora da mente humana, não há certeza, como pondera Norbert Wiener (“Cibernética e Sociedade”): sua existência é mero postulado sobre o qual repousa o trabalho científico.

Como os seres humanos criaram e organizaram o seu próprio universo – o mundo da cultura – mediante leis ditadas por sua inteligência, deduziram daí que o mundo da natureza também foi criado e organizado segundo leis inerentes à vida, ditadas por uma inteligência superior. Einstein acreditava nessa inteligência (“Como eu vejo o mundo”). A teoria da grande explosão, sobre a origem do universo, se harmoniza com a equação de Einstein: matéria é energia. Essa teoria supõe um evolucionismo que coloca à margem a teoria criacionista, segundo a qual o mundo foi criado num só ímpeto e diretamente pela divindade. Para os povos que adotam a bíblia como livro sagrado, o mundo e tudo que nele se contém foram criados pelo deus Javé ou Jeová, em seis dias consecutivos. Esfalfado, apesar de onipotente, o deus descansou no sétimo dia.

Evolucionismo e criacionismo divergem quanto ao modo como surgiu o universo, porém ambos são compatíveis com a existência divina. Quanto à forma e substância de Deus, reina o desacordo tanto entre os evolucionistas como entre os criacionistas. A divergência é extrema entre materialistas e espiritualistas. Os primeiros entendem que nada existe além da matéria; não há mundo espiritual; tudo inicia e acaba no mundo da natureza. Os últimos defendem a existência do mundo divino, paralelo ou acima do mundo da natureza; após a morte física, a vida continua nesse mundo espiritual.

No planeta Terra, minúsculo ponto do sistema solar localizado na extremidade da galáxia denominada Via Láctea, reuniram-se condições ambientais que tornaram possível a manifestação da vida vegetal e animal. A ciência reserva aos vegetais e animais o tratamento de seres vivos em função do princípio vital específico que lhes dá existência. Nesta restrita noção biológica, o princípio vital proporciona aos seres vivos atributos ausentes do reino mineral, tais como: sensibilidade, duração, capacidade de reprodução, nutrição e defesa, pulsão na linha evolutiva desde as espécies germinais mais simples até os organismos mais complexos. Os seres vivos percebem e reagem ao meio ambiente; movimentam mecanismos de defesa própria e de conservação da espécie; cumprem o ciclo natural: nascimento, crescimento, maturidade, envelhecimento e morte. Os animais buscam instintivamente, alimento adequado, abrigo e acasalamento. Há saltos decorrentes de fatos internos (disfunções, processos degenerativos) e de fatos externos (terremotos, maremotos) quando o animal morre antes de envelhecer; às vezes, logo ao nascer. No que concerne ao animal racional, além dos fatos internos e externos retro mencionados, a vida pode ser abreviada por atos voluntários ou involuntários, de modo coletivo ou individual, de que são exemplos: a guerra, os conflitos armados no interior da nação, acidentes com veículos em terra, ar ou água, hábitos nocivos, pena de morte, suicídio, infanticídio, homicídio, genocídio.

Cientistas buscam sinais de vida vegetal e animal em outros pontos do universo. A presença, na Terra, de seres de outros planetas, vivos e inteligentes, bem como de objetos voadores não identificados, estaria registrada em arquivos militares dos EUA. Presente a hipótese de blefe americano ao tempo da guerra fria e da corrida espacial com os soviéticos. Há narrativas de pilotos de avião sobre esses objetos; algumas pessoas mostram fotografias pouco nítidas; outras se dizem abduzidas. A nebulosidade em torno dessa matéria gera incerteza. A falta de evidência deixa o assunto no terreno da crença e da fantasia, o que rende bilhões de dólares à indústria cinematográfica e às editoras de livros de ficção científica e esoterismo.

O excesso de população na Terra preocupa as lideranças mundiais diante da probabilidade de esgotamento dos recursos naturais. Especula-se em torno da emigração de seres humanos para outros planetas. As viagens espaciais ensaiam a possibilidade de encontrar planetas que ofereçam condições para vida vegetal e animal. Na hipótese de hecatombe na Terra, a emigração permitiria a continuidade da vida humana em outro planeta. A implantação de colônias em planetas situados fora do sistema solar seria uma solução para reduzir o número de habitantes na Terra. O que parecia fantasia no século XIX, mostra-se possibilidade no século XX, probabilidade no século XXI e poderá ser realidade no século XXII. As fronteiras da técnica e da ciência se deslocam na medida em que se expande a mente, se fortalece a coragem, cresce a ousadia e se amplia a liberdade do ser humano.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

POESIAS

Como da pira extinta a labareda / ainda o rescaldo crepitante fica / assim o ardente moço a mente acesa / na desusada luta que a excitara / ainda alerta e escaldada se revolve! / De um lado e de outro balanceia o corpo / como após da tormenta o mar banzeiro / alma e corpo repouso achar não podem./ Debalde os olhos cerra; a igreja, as casas / a vila, tudo ante ele se apresenta. / (...) / Mas a noite declina e branda aragem / começa a refrescar. Do céu os lumes / perdem a nitidez desfalecendo. / Assim já frouxo o pensamento do índio / entre a vigília e o sono vagueando / pouco a pouco se olvida e dorme e sonha. / (...) / Ele sonha... Alto moço se lhe antolha / de belo e santo aspecto, parecido / co´uma imagem que vira atada a um tronco / e de setas o corpo traspassado / num altar desse templo, onde estivera / e que tanto na mente lhe ficara. / - “Vem!” Lhe diz; e ambos vão pelos ares / mais rápidos que o raio luminoso / vibrado pelo sol no veloz giro / e vão pousar no alcantilado monte / que curvado domina o Guanabara. / (...) / (“A Confederação dos Tamoios” – Gonçalves de Magalhães).

São uns olhos verdes, verdes / uns olhos de verde-mar / quando o tempo vai bonança / uns olhos cor de esperança / uns olhos por que morri / Ai de mi! / Nem já sei qual fiquei sendo / depois que os vi! / Como duas esmeraldas / Iguais na forma e na cor / têm luz mais branda e mais forte / diz uma – vida, outra – morte / uma – loucura, outra – amor. / Mas, ai de mi! / Nem já sei qual fiquei sendo / depois que os vi! / São verdes da cor do prado / exprimem qualquer paixão / tão facilmente se inflamam / tão meigamente derramam / fogo e luz no coração / Mas, ai de mi! / Nem já sei qual fiquei sendo / depois que os vi! / São uns olhos verdes, verdes / que podem também brilhar / não são de um verde embaçado / mas verdes da cor do prado / mas verdes da cor do mar / Mas, ai de mi! / Nem já sei qual fiquei sendo / depois que os vi! / Como se lê num espelho / pude ler nos olhos seus! / Os olhos mostram a alma / que as ondas postas em calma/ também refletem os céus / Mas, ai de mi! / Nem já sei qual fiquei sendo / depois que os vi! / Dizei vós, ó meus amigos / se vos perguntam por mi / que eu vivo só da lembrança / de uns olhos cor de esperança / de uns olhos verdes que vi! Que, ai de mi! / Nem já sei qual fiquei sendo / depois que os vi! / Dizei vós: “Triste do bardo! / Deixou-se de amor finar! / Viu uns olhos verdes, verdes / uns olhos da cor do mar / eram verdes sem esp´rança / davam amor sem amar!” / Dizei-o vós, meus amigos / que ai de mi! / Não pertenço mais à vida / depois que os vi! (“Olhos Verdes” – Gonçalves Dias).

Quando em meu peito rebentar-se a fibra / que o espírito enlaça à dor vivente / não derramem por mim nem uma lágrima / em pálpebra demente/ e nem desfolhem na matéria impura / a flor do vale que adormece ao vento:/ Não quero que uma nota de alegria / se cale por meu triste passamento. / Deixo a vida como deixa o tédio / do deserto, o poente caminheiro / - Como as horas de um longo pesadelo / que se desfaz ao dobre de um sineiro:/ Como um desterro da minh´alma errante / onde o fogo insensato a consumia:/ Só levo uma saudade – é desses tempos / que amorosa ilusão embelecia./ Só levo uma saudade – é dessas sombras / que eu sentia velar nas noites minhas.../ De ti, ó minha mãe, pobre coitada / que por minha tristeza te definhas!/ Do meu pai... de meus únicos amigos / poucos – bem poucos – e que não zombavam / quando, em noites de febre endoudecido / minhas pálidas crenças duvidavam. / Se uma lágrima as pálpebras me inunda / se um suspiro nos seios treme ainda / é pela virgem que sonhei... que nunca / aos lábios me encostou a face linda!/ Só tu à mocidade sonhadora / do pálido poeta deste flores.../ se viveu, foi por ti! E de esperança / de na vida gozar de teus amores./ Beijarei a verdade santa e nua / verei cristalizar-se o sonho amigo.../ ó minha virgem dos errantes sonhos / filha do céu, eu vou amar contigo!/ Descansem o meu leito solitário / na floresta dos homens esquecida / à sombra de uma cruz, e escrevam nela:/ Foi poeta – sonhou – e amou na vida./ (...) / (“Lembrança de morrer” – Álvares de Azevedo).

Minh`alma é triste como a rôla aflita / que o bosque acorda desde o olhar da aurora / e em doce arrulo que o soluço imita / o morto esposo gemedora chora./ E como a rôla que perdeu o esposo / minh´alma chora as ilusões perdidas / e no seu livro de fanado gozo / relê as folhas que já foram lidas./ (...) / Às vezes louca, num cismar perdida / minh´alma triste vai vagando à toa / bem como a folha que do sul batida / bóia nas águas de gentil lagoa!/ (...) / E como a flor que solitária pende / sem ter carícias no voar da brisa / minh´alma murcha, mas ninguém entende / que a pobrezinha só de amor precisa. / Amei outrora com amor bem santo / os negros olhos de gentil donzela / mas dessa fronte de sublime encanto / outro tirou a virginal capela./ Oh! Quantas vezes a prendi nos braços / que o diga e fale o laranjal florido!/ Se mão de ferro espedaçou dois laços / ambos choramos as num só gemido!/ (...) Minh´alma é triste como o grito agudo / das arapongas no sertão deserto / e como o nauta sobre o mar sanhudo / longe da praia que julgou tão perto!/ A mocidade no sonhar florida / Em mim foi beijo de lasciva virgem / - Pulava o sangue e me fervia a vida / ardendo a fronte em bacanal vertigem./ (...) / Dizem que há gozos no correr da vida.../ só eu não sei que o prazer consiste!/ - No amor, nas glórias, na mundana lida / foram-se as flores – a minh´alma é triste! (“Minh´alma é triste” – Casimiro de Abreu).

Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:/ - “Quem me dera que fosse aquela loura estrela / que arde no eterno azul, como uma eterna vela!”/ Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:/ - “Pudesse eu copiar o transparente lume / que, de grega coluna à gótica janela / contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!” / Mas a lua, fitando o sol, com azedume:/ - “Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela / claridade imortal, que toda a luz resume!” / Mas o sol, inclinando a rútila capela:/ - “Pesa-me esta brilhante auréola de nume.../ enfara-me esta azul e desmedida umbela.../ Por que não nasci eu um simples vagalume?”. (Círculo vicioso” – Machado de Assis).

Eu passava na vida errante e vago / como o nauta perdido em noute escura/ mas tu te ergueste peregrina e pura / como o cisne inspirado em manso lago./ Beijava a onda num soluço mago / das moles plumas a brilhante alvura / e a voz ungida de eternal doçura / roçava as nuvens em divino afago./ Vi-te, e nas chamas de fervor profundo / a teus pés afoguei a mocidade / esquecido de mim, de Deus, do mundo!/ Mas, ai! Cedo fugiste!...da soidade / Hoje te imploro desse amor tão fundo / uma idéia, uma queixa, uma saudade! (“Soneto” – Fagundes Varela).

O que eu adoro em ti não são teus olhos / teus lindos olhos cheios de mistérios / por cujo brilho os homens deixariam / da terra inteira o mais soberbo império./ O que eu adoro em ti não são teus lábios / onde perpétua juventude mora / e encerram mais perfume do que os vales / por entre as pompas festivais d´aurora./ O que eu adoro em ti não é teu rosto / perante o qual o mármor descorara / e ao contemplar a esplêndida harmonia / Fídias, o mestre, seu cinzel quebrara/ (...) / O que eu adoro em ti, ouve, é tu´alma / pura como o sorriso de uma criança / alheia ao mundo, alheia aos preconceitos / rica de crenças, rica de esperança./ São as palavras de bondade infinda / que sabes murmurar aos que padecem / os carinhos ingênuos de teus olhos / onde celestes gozos transparecem / (...)/ (“Estâncias” – Fagundes Varela)