segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

TU4

Quarta parte.

A relação eu-tu, nós-eles, implica ordem e sistema, mesmo entre anarquistas. A organização atômica da matéria e o sistema solar como enclave de ordem na galáxia condicionam e determinam o ser vivo. A admirável organização do corpo reflete-se na arquitetura mental e na conduta do ser humano. Respondendo a essa pulsão ordenadora o tu e o eu, o nós e o eles, estabelecem convenções, costumes, leis; celebram pactos e contratos sob o pálio dessas ordenações, criando regras específicas. A Sociedade se desintegrará à falta de obediência a esse ordenamento de inarredável força coercitiva. A consciência da importância e da necessidade dessa ordem, seja do tipo monocrático, aristocrático ou democrático, leva os seres humanos a cumprirem-na espontaneamente.

Apesar da importância da ordem para a vida em sociedade, constante é a violação das convenções sociais e das normas éticas, jurídicas e religiosas. A desobediência provém do aspecto libertário da conduta humana. A desobediência civil pode mudar o regime político e gerar nova ordem em substituição à anterior. A desobediência a certas convenções sociais acarreta mudança, como acontece na moda, no sexo e hábitos comportamentais coletivos – às vezes com escândalo inicial, como no festival de Woodstock, nos EUA, ou a exposição da barriga de grávida por Leila Diniz, na praia de Ipanema. No oceano da desobediência navega o barco da liberação feminina. O poder matriarcal, na casa ou no palácio, vem de longe, ora às claras, ora camuflado pela sedução. Sócrates, filósofo heróico, submetia-se à autoridade e à impertinência de Xantipa, sua esposa. Herodíades manobrava Herodes Antipas; colocou sua filha, Salomé, a dançar sensualmente para o rei judeu e obteve a cabeça de João Batista. Os varões italianos são apegados e submissos à “mama” e à “nona”; os anglo-saxões às suas “momi”, inclusive os da América do Norte. No filme “Juventude Transviada”, estrelado por James Dean, ícone dos anos 50, o jovem norte-americano revolta-se ao ver o seu pai de avental, lavando a louça e limpando a cozinha, submisso à esposa.

As regras sociais nas esferas judaica, cristã e islâmica oprimem a mulher. No Ocidente, a desobediência da mulher a libertou. Costumes, moda e outras convenções mudaram ou se extinguiram. No calor, pouca roupa, pernas, seios e calcinhas à mostra; sutiã dispensado; virgindade desvalorizada, relação sexual pela simples atração física, sem pecado e sem amor; exercício de qualquer profissão; acesso às escolas e universidades; atividade política, inclusive chefias de Estado e de Governo; atividade econômica como empresária e empreendedora; atividade social evangelizadora e/ou de socorro aos doentes e carentes; atividade cultural como artista, escritora, professora, organizadora de eventos, museus e bibliotecas. Eis a mulher ocidental.

Há penas privativas de liberdade e penas pecuniárias aplicáveis a quem desobedece às leis. Medidas preventivas e repressivas são tomadas para coibir a desobediência. A necessidade de preservar a ordem justifica essas medidas. Açoite, mutilação, fogueira, empalação, apedrejamento, são algumas das penas cruéis proscritas da civilização ocidental, substituídas por outras consideradas menos afrontosas à dignidade da pessoa humana, tais como: enforcamento, fuzilamento, cadeira elétrica, injeção letal, prisão perpétua, prisão temporária, multa, prestação de serviços à comunidade.

As liberdades do eu e do tu se limitam reciprocamente. A luta pelo reconhecimento pessoal e pelo direito, em nível social, corresponde à darwiniana luta pela sobrevivência, em nível biológico. Para Thomas Hobbes, o ser humano é mau por natureza; a guerra de todos contra todos só foi refreada com a passagem da vida selvagem e anárquica à bem ordenada vida civilizada. Para Jean-Jacques Rousseau, o ser humano é bom por natureza; a sua degradação começa com o pacto social, na passagem da vida selvagem à vida civilizada.

À semelhança de Hobbes, Jean-Paul Sartre considera a beligerância uma característica marcante do ser humano; afirma que o inferno são os outros; o conflito é o sentido original do ser-para-outro; o amor é a vontade de possuir o outro; masoquismo, sadismo e desejo sexual governam as ações humanas; na maioria dos casos, o altruísmo é enganoso. Em posição oposta coloca-se Emmanuel Lévinas, para quem o paraíso é o outro; a relação entre o eu e o outro não é de confronto, mas sim de reencontro que ultrapassa o visível; a visualização desse reencontro é um infinito insondável de que cada outro é portador como tal; a religião é a estrutura derradeira, no sentido etimológico de vínculo irredutível que liga o eu e o tu a uma realidade superior; a relação com o outro obriga o eu a se abrir para o infinito e a se superar em uma transcendência; o eu se constitui pelo outro; graças ao tu, o eu se eleva às alturas; a civilidade, a hospitalidade, o pudor, o sacrifício, caracterizam as ações humanas.

Na senda traçada por Lévinas, tudo que o eu é, deve ao tu, à existência do outro eu; um eu é tributário de outro eu, que por sua vez é tributário de outro eu, e assim por diante, numa relação bilateral extensa e intensa. A perícia do eu pode salvar a vida do tu. A arte do tu desperta a admiração do eu e lhe causa prazer. O nós compartilha alegrias, tristezas, vitórias, derrotas, idéias, sentimentos, crenças e hábitos. Eles devem a nós tudo o que são; nós devemos a eles, tudo o que somos; o que uma geração é, deve à geração anterior.

Tanto Hobbes como Sartre não desconheciam os aspectos altruístas do eu, porém classificam-nos como secundários e enganosos; fundamentais são os aspectos egoístas. Rousseau e Lévinas não desconheciam os aspectos egoístas do eu, porém classificam-nos como secundários; fundamentais são os aspectos altruístas. Lá, privilegia-se o aspecto demoníaco do ser humano; cá, o aspecto angelical. O meio termo aristotélico parece via segura: equilíbrio entre o egoísmo e o altruísmo, entre o demônio e o anjo. A plena harmonia entre o eu e o tu, na vida terrena, afigura-se utópica, tendo em vista a acirrada competição por bens e posição de domínio no interior da família, da comunidade, da escola, da igreja, da empresa, do Estado. O egocentrismo prevalece. Há intervalos de altruísmo e solidariedade, como no século XVIII, quando o mundo ocidental proclamou a primazia da tríade liberdade, igualdade e fraternidade, ou no século XX, quando reconheceu direitos do trabalhador, do consumidor, do deficiente físico, da mulher, da criança, do adolescente, do idoso, do índio e houve liberação dos costumes, queda de tabus, amplo combate às doenças e defesa do meio ambiente.

Nas relações amistosas a escolha certa do tu é fundamental a uma vida feliz. O acerto na escolha compara-se ao acerto na loteria, tantos são os desacertos. Fechar-se em si mesmo de modo prolongado e como estilo de vida, causa depressão e infelicita o eu. Cuida-se de atitude contrária à natural sociabilidade humana. Meditação e oração ajudam a sair desse estado mórbido. Tal como as bênçãos divinas, os bens da natureza devem ser usufruídos por todos os seres humanos. Quando a humanidade colocar-se em sintonia com a lei cósmica, egoísmo e altruísmo encontrarão seu ponto de equilíbrio; demônio e anjo celebrarão a paz; o homem deixará de ser o lobo do homem.

Após um cálice de poesia, o próximo tema será VIDA.
Que a paz e o amor estejam com todos. Assim seja!

domingo, 21 de fevereiro de 2010

TU3

Terceira parte.

O eu usa o tu como cobaia e bem de consumo, força de trabalho e instrumento da sua vontade, saco de pancadas e alvo de torturas físicas e mentais. Essa coisificação e degradação do tu pelo eu – ainda quando inconsciente e imperceptível em virtude da sua prática habitual no cotidiano – afronta a dignidade humana e evidencia atraso espiritual.

A existência do tu é imprescindível à do eu e vice-versa. Nas suas múltiplas relações, o tu e o eu podem ter conduta caridosa, solidária, valiosa do ponto de vista moral e religioso, que eleva a personalidade às cercanias de Deus. Quando não houver mais pobreza destinatária da bondade do eu, o campo da caridade ficará reduzido aos doentes, portadores de deficiência física e/ou mental. Um sorriso fraterno ou um abraço de compaixão a quem estiver sofrendo emocionalmente constitui ato de caridade mais sincero e significativo do que o frio lançamento da moeda na mão que o mendigo estende em súplica. O infortúnio do tu ou do eles, desperta a solidariedade no eu ou em nós. A ação solidária pode ser coletivamente organizada em corporações de defesa civil, de assistência social, de previdência social, em sociedades de beneficência e cooperativas de auxílio mútuo, visando ao socorro das vítimas, dos doentes, dos associados, da população carente. As vítimas dos fatos da Natureza como terremotos, maremotos, tempestades, estiagens, epidemias, pandemias, são as destinatárias do socorro humanitário que enobrece aqueles que o prestam. A ação predatória e poluidora do tu enseja ao eu, defensor do meio ambiente, o reconhecimento da comunidade.

O tu pode ser amigo ou inimigo do eu. A amizade constitui um vínculo afetivo que implica reciprocidade, dever de lealdade e de apoio moral. Tu és responsável por aquele que cativas, diz Saint-Exupéry no Pequeno Príncipe. A amizade contribui para a paz e facilita o convívio ameno e construtivo. A existência de amizade entre as nações foi negada, em momentos distintos, por De Gaulle, presidente da França, e Truman, presidente dos EUA. Na opinião deles, somente interesses guiavam as relações internacionais. Realisticamente, o estadista italiano Nicolau Maquiavel expôs essa verdade já no século XVI. Na trilha ética, todavia, essa verdade perde valor. Assim como os indivíduos, as nações devem cultivar amizade. As divergências devem ser solucionadas pela via pacífica. O Brasil adota essa doutrina, conforme princípios fundamentais enunciados na Constituição. Amigos divergem, mas buscam soluções pacíficas. Quando não chegam ao consenso, guardam suas posições sem violência, num clima de mútuo respeito. Nem sempre é assim, mas deve ser assim. A ética o exige. Há valores éticos absolutos, tais como justiça, honestidade, lealdade, veracidade, vigentes em nações civilizadas e respeitados por pessoas de bom caráter.

No seu microcosmo, ao tomar consciência do tu, o eu sente ameaçada a sua posição central. Sol do seu próprio universo, o eu percebe que é satélite no universo do outro. Essa percepção abala o egocentrismo. A atitude de defesa e de auto-afirmação é a reação básica e primitiva do eu ao se defrontar com o tu. Se não houver entendimento tácito ou expresso, instaura-se o conflito.

Quando o eu e o tu desejam o mesmo bem, em sendo este bem indivisível e insuscetível de usufruto conjunto, haverá disputa se um não ceder em favor do outro. A solução pacífica advém do consenso. A uma nação interessa, por exemplo, a passagem de oleoduto através do território da outra. Se esta negar passagem, ou estabelecer condições inaceitáveis para permiti-la, os interesses conflitantes colocam a guerra como alternativa, caso a nação interessada não se conforme com a negativa.

Tanto no plano individual como no coletivo, há relações de dependência entre o eu e o tu, entre o nós e o eles. Robinson Crusoé, solitário em sua ilha, livre das leis e da autoridade do Estado, serviu-se de bens produzidos pela civilização, aproveitados do naufrágio. Depois, o tu surgiu na pessoa do nativo, afastando a solidão e gerando normas de convivência. O branco civilizado batizou o nativo: deu-lhe o nome de Sexta-Feira. Arraigado à sua cultura, o branco solitário sentia necessidade do batismo e do calendário. A dependência é um estado natural desde o nascimento até a morte do ser vivo. Em nível singular, a dependência do ser humano é física, emocional e intelectual. Em nível coletivo, a dependência é social e econômica, seja o outro conhecido ou desconhecido, nacional ou estrangeiro, esteja próximo ou distante. Bens, costumes, conhecimentos, técnicas, circulam de um povo a outro, passam de uma geração a outra. Da sucessão e reprodução dessa cultura surge um tipo de civilização.

Sobra pouco espaço à independência e à liberdade do eu e do tu. Determinados pelas leis da Natureza, da Sociedade e do Estado, ambos sofrem o condicionamento do meio ambiente em que vivem e da cultura a que pertencem. Dir-se-á que as leis da Sociedade e do Estado e os valores que as informam resultam da autonomia do ser humano. Isto é verdadeiro enquanto se tomar a vontade e a razão como gênese das leis e dos valores. Afinal, como afirmava Protágoras, o homem é a medida de todas as coisas. Do poder normativo difuso na sociedade nascem costumes que disciplinam historicamente as relações entre o eu e o tu. Do poder normativo de um chefe de Estado ou de uma assembléia brotam leis escritas carregadas de intenções nem sempre voltadas ao bem da coletividade. Leis fundamentais do Estado garantem os interesses do grupo dominante na Sociedade. Cuida-se da dimensão social e civilizada dessa lei natural e selvagem: sobrevivência do mais apto e prevalência do mais forte.

Apesar da sua independência política em face do outro, o Estado contemporâneo está vinculado a normas provenientes de pactos, de contratos e de organismos internacionais. Há intercâmbio cultural entre os povos, mesmo diante de pretensões hegemônicas. O grande desenvolvimento da mídia nos dias atuais facilita esse intercâmbio e mostra essa realidade. O comércio internacional evidencia a interdependência. A escassez de bens e serviços confere poder de troca à nação que os possui.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

TU2

Segunda parte.

Os 10 mandamentos bíblicos disciplinam as relações entre o eu e o tu, o nós e o eles. Valem tanto para quem esteja vinculado à religião que os adota, como para todo aquele que os acate por dever de consciência. O crente que os contraria deve fazer penitência neste mundo e cumprir pena no outro mundo, segundo os preceitos religiosos e os anátemas dos profetas.

O tu pode ser Deus, a quem o eu deve amar. Esse dever religioso supõe a crença na existência e no poder de Deus. Tal crença leva o eu a construir a imagem do ser divino. A imagem pode ser a de um homem forte, idoso, poderoso, como a pintada por Miguel Ângelo no teto da Capela Sistina. Essa imagem antropomórfica é a mais comum; está mais próxima dos sentidos. No Antigo Testamento consta que Moisés viu as costas de Javé. Os astros também servem à imaginação. O Sol era símbolo de Aton, no antigo Egito, sob o reinado do faraó Aquenaton. A imaginação do eu não se detém na forma. Vai além. Atribui boas e más qualidades ao ser divino: justo, bondoso, misericordioso, rancoroso, vaidoso, intervencionista, exclusivista, genocida.

A imagem mais elaborada apresenta Deus como um ser amorfo, substância inefável, pura energia cósmica dotada de vontade e inteligência. A arquitetura da mente humana é forma delineada pela categoria de espaço e suas dimensões: altura, largura, comprimento. Essa arquitetura torna difícil à mente humana imaginar matéria sem forma; imaginar Deus como substância amorfa ou pura energia. Treinada, a mente poderá romper esse limite sem o risco de adentrar o terreno da insanidade. Entretanto, o eu dessa façanha fica sujeito à incredulidade e a ser visto como demente. O êxtase é personalíssimo. A transmissão da experiência extática a terceiros exige afinidade, sinceridade, confiança e boa fé entre o emissor e o receptor, sob pena de se frustrar.

O tu pode ser o próximo, a quem o eu deve amar como a si mesmo, consoante mandamento bíblico. Próximo opõe-se a distante. Tal oposição indica, prima facie, que o eu deve amar o tu que estiver perto, portanto, desobrigado de amar o tu que estiver longe. A dimensão psicológica, entretanto, dispensa a noção espacial: próximo é o tu membro da família e do círculo das relações fraternas e amigáveis do eu, ainda que do ponto de vista geográfico haja distância. Longe dos olhos, mas perto do coração, na poética expressão popular. A noção de distante aplica-se ao estranho, ao estrangeiro, a todo aquele que esteja fora da família, do círculo de amizade e de interesses do eu, embora possa estar ao lado, fisicamente. Ainda que estejas perto, sinto que não estás comigo, diz a canção romântica.

Amar a Deus, ao próximo e ao distante não se arrola como dever. Ninguém ama obrigado ou coagido. Como sentimento, o amor é livre, espontâneo e involuntário. O habitat do amor é o coração, via pela qual chegamos a Deus, segundo Blaise Pascal. O amor rebela-se contra a prisão ética; não se sujeita a regras; expande-se na liberdade estética. Ama-se a quem traz suavidade e meiguice ao nosso olhar e ternura ao nosso coração. O dever de amar gera hipocrisia e falsidade. Respeitar os pais e ampará-los é dever dos filhos; amá-los, cabe ao coração decidir.

Do ponto de vista biológico, próximo é o indivíduo que pertence à mesma espécie ou ao mesmo gênero. Nesta acepção e de acordo com o mandamento, o eu deve amar a todos os seres humanos ou a todos os animais. Francisco de Assis ilustra bem o eu que experimenta essa união mística. O santo católico sentia-se unido não só aos animais racionais e irracionais, como também, a todo o universo, tratando os astros fraternalmente (irmão Sol, irmã Lua). Ante a comunhão anímica do tu e do eu, o mandamento bíblico pode ser lido assim: ama ao próximo como tu mesmo. Isto implica extinguir a separação entre o tu e o eu, em nível espiritual. Aqui não se cuida de amar a si próprio e de amar ao próximo, mas sim de amar simultaneamente, como se o tu e o eu fossem uma só pessoa, unidade mística das personalidades no amor universal.

A unidade essencial do universo (múltiplo no uno) faz aparente e ilusória a separação do tu e do eu. A separação é física e contingente no plano da existência terrena. Como produtos da Natureza, o eu, o tu, o nós, o eles, nela se integram em rede de nexos físicos, emocionais, morais, espirituais. Os nexos permitem a telepatia, a comunicação por gestos, atitudes, ondas cerebrais. Súplica, humildade, conforto, amor, ódio, desprezo, arrogância, podem ser transmitidos através de um olhar, sem palavras. A clareza da mensagem é maior quando o receptor priva da intimidade do emissor. Mediante postura conveniente, no ambiente adequado e no momento propício, o eu se harmoniza com a Natureza, com outras mentes, com a alma cósmica, recebendo preciosas lições ou produzindo determinados efeitos.

Segundo as normas da moral, do direito e da religião, o tu deve ser respeitado em sua vida natural (não matarás), em seu casamento (não praticarás adultério) em sua família (não cobiçarás a mulher do próximo), em sua autoridade (honrarás ao teu pai e à tua mãe), em seu patrimônio (não furtarás), em sua vida social (não levantarás falso testemunho nem jurareis em nome de Deus; não semearás a discórdia no seio do povo, mas te ajustarás às leis; não oprimirás o próximo; não favorecerás o pobre nem terás complacência com o rico, mas julgarás segundo a justiça). Das relações intersubjetivas que se travam na vida social brotam regras de conduta cuja violação acarreta punições aos transgressores. As regras religiosas, éticas e jurídicas estabelecem deveres do eu para consigo mesmo, para com o próximo, para com Deus, para com a Natureza, a Sociedade e o Estado; declaram direitos à propriedade, à liberdade, à igualdade e à segurança. Aquele que transgredir os mandamentos religiosos sofrerá castigos no Inferno e no Purgatório. Quem violar as normas éticas ficará sujeito ao repúdio da Sociedade. A violação das normas jurídicas acarretará privação da propriedade e da liberdade, imposta pelo Estado ao transgressor.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

TU

Primeira parte.

O drama humano condensa-se na relação entre dois EUS situados simultaneamente no mundo da natureza e no mundo da cultura. TU, sujeito periférico, distinto do EU, sujeito central da relação, pode ser uma pessoa, um grupo, uma nação. O tu exclui o eu, assim como o eles exclui o nós. Eis a separação primordial. Eles são os parentes, amigos, inimigos, vizinhos, estrangeiros, tendo o eu como centro de referência. Quando estranho à mesma família, o eles pode integrar o nós da mesma cidade. Embora pertencendo a diferentes cidades, o eles integra o nós da nação; sendo de nações diferentes, o eles integra o nós da humanidade. Conforme muda o centro de referência individual ou social, muda o eles em nós e vice-versa; fronteiras, cercas e muros deslocam-se.

Ego e alter assemelham-se na essência. Ambos sentem, querem, pensam e agem; comungam tempo e espaço; relacionam-se na família, na escola, na empresa, na igreja, no clube, no quartel, no partido político, na associação civil; aproximam-se por afinidade de interesses, aspirações, crenças, idéias, coordenando ou subordinando vontades.

Na conquista de objetivos comuns, ego e alter somam esforços e trilham a mesma senda. Na consecução do bem comum, governados e governantes associam-se na instituição estatal. Onde vigora o princípio democrático, os partidos políticos submetem nomes à escolha do corpo eleitoral. Os eleitores se fiam na indicação e confiam esperançosamente na honestidade e competência dos candidatos. A liberdade e o acesso à educação e à informação permitem ao eleitor o voto consciente e lúcido. Estados associam-se para fins estratégicos e econômicos constituindo o nós no plano internacional, hipótese em que o eles são os Estados não associados. A cooperação entre o eu e o tu, o nós e o eles, ocorre mediante instituições civis, militares, religiosas, místicas. O propósito cooperativo visa, entre outras coisas, a assistência mútua, o modo compartilhado de produção, circulação e consumo de bens, a preservação da boa qualidade de vida no planeta, a transmissão de conhecimentos e de valores morais e espirituais, a paz no seio da humanidade.

A relação de subordinação entre o eu e o tu, o nós e o eles, supõe hierarquia na sociedade, como acontece na família, entre pai e filho; na escola, entre mestre e discípulo; na empresa, entre patrão e empregado; no quartel, entre o militar mais graduado e o menos graduado; na igreja entre o papa e os cardeais. No exercício dessa hierarquia verifica-se desvirtuamento quando o genitor mantém relações sexuais com a prole, abusa nos castigos, ou abandona-a materialmente; o professor sonega conhecimentos ou os transmite aos alunos tendenciosamente com tintas ideológicas; o patrão, sem justa causa, demite o empregado ou lhe paga baixo salário; o instrutor submete o soldado a exercícios exagerados que lhe causam a morte; o abade exige, do noviço, práticas ascéticas que lhe debilitam a saúde; o governante oprime os governados e comanda sob o signo do arbítrio e da desonestidade.

O eu se relaciona com o tu, ora em plano de igualdade, ora em plano de desigualdade. A igualdade pode ser formal (ética e jurídica) ou material (social e econômica). Direitos iguais não significam patrimônios iguais. No plano empírico, a desigualdade econômica e social ocorre tanto nos países democráticos como nos países autocráticos, tanto no sistema capitalista como no sistema socialista. A realidade histórica dos séculos XX e XXI dá esse testemunho. O igual acesso de todos aos produtos úteis e necessários da civilização permanece no terreno utópico. A materialização desse princípio aguarda mais avançada evolução espiritual da humanidade. A pureza da teoria e da doutrina no campo da ciência, da filosofia e da religião choca-se com a miscelânea dos fatos e a contradição dos atos no mundo real. Tal pureza exercita o raciocínio, serve à propaganda e ao discurso suasório daqueles que disputam posições de mando na sociedade. Passados dois mil anos, a doutrina de Jesus ainda espera quem a pratique em sua pureza. A teoria pura do direito, exposta pelo jurista tcheco Hans Kelsen, invejável no seu rigor lógico, mostra-se insuficiente na visão cultural do fenômeno jurídico. Pontes de Miranda, notável jurista brasileiro, afirmava que o liberalismo absoluto e o socialismo apriorístico eram formas abstratas com as quais os ideólogos pretendiam moldar a matéria social.

Entre o ego e o alter, a igualdade reside na essência e a desigualdade na existência. No plano existencial, mesmo entre irmãos gêmeos, sempre haverá diferenças de natureza: (a) física, como as linhas do polegar; (b) psicológica, como a vocação; (c) lógica, como o grau de inteligência. A mesma experiência pode ser assimilada de modo diferente pelo eu e pelo tu.

A individualidade do tu acentua a individualidade do eu. Há, entre ambos, sociabilidade, afetos, satisfação dos apetites, permuta de bens, transmissão de conhecimento vulgar, técnico ou científico. Em relação ao eu, o tu pode se mostrar benéfico, maléfico, indiferente, agradável, desagradável, providencial, inoportuno, útil, nocivo, vantajoso, prejudicial, alegre, triste. Próximos no espaço, o eu e o tu podem estar distantes no tempo, por ausência de interesse, de vínculo afetivo, de comunicação. Distantes no espaço, ambos podem estar próximos no tempo, graças à memória, à saudade e aos meios de comunicação.

A inimizade entre o eu e o tu, entre o nós e o eles, surge da inveja, do ciúme, da competitividade. Atitudes que afrontam o interesse, a moral, o direito, o credo religioso, geram inimizade e litígios. Às vezes, sem intenção de ferir, violar ou magoar, o indivíduo causa ao outro, dano patrimonial ou moral; avilta o outro por palavras, gestos ou atitudes. Em concursos públicos de provas e títulos, em jogos entre duas equipes opostas, em eleições para cargos públicos ou para diretoria de associações e sociedades civis, o eu e o tu são adversários sem que haja inimizade. Estar no pólo oposto não significa ser inimigo necessariamente. Confronto de aptidões técnicas e intelectuais faz parte do processo de seleção dos mais capazes a determinada função ou tarefa.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

POESIAS

O Cura, a quem toca a cura/ de curar esta cidade/ cheia a tem de enfermidade/ tão mortal que não tem cura: / dizem que a si só se cura/ de uma natural sezão / que lhe dá na ocasião/ de ver as moças no eirado/ com que o Cura é o curado/ e as moças seu cura são./ Desta meizinha se argúi/ que o tal Cura assezoado/ mais lhe rende o ser curado/ que o Curado que possui/ grande virtude lhe influi/ o curado exterior/ mas o vício interior/ amor curá-lo procura/ porque amor todo loucura/ se a cura é de louco amor./ Disto cura o nosso Cura/ porque é curador maldito/ mas ao mal de ser cabrito/ nunca pode dar-lhe cura:/ É verdade que a tonsura/ meteu o Cabra na Sé/ e quando vai dizer “Te/ Deum laudamus” aos doentes/ se lhe resvela entre dentes/ e em lugar de Te diz me./ Como ser douto cobiça/ a qualquer moça de jeito/ onde pôs o seu direito/ logo acha que tem justiça:/ a dar-lhe favor se atiça/ e para o fazer com arte/ não só favorece a parte/ mas toda a prosápia má/ se justiça lhe não dá/ lhe dá direito que farte. / Porque o demo lhe procura/ tecer laços e urdir teias/ não cura de almas alheias/ e só do seu corpo cura: / debaixo da capa escura/ de um beato capuchinho/ é beato tão maligno/ o cura que por seu mal/ com calva sacerdotal/ é sacerdote calvino./ Em um tempo é tão velhaco/ tão dissimulado e tanto/ que só por parecer santo/ canoniza em santo um caco:/ se conforme o adágio fraco/ ninguém pode dar senão/ aquilo que tem na mão/ claro esta que no seu tanto/ não faria um ladrão santo/ senão um santo ladrão./ Estou em crer que hoje em dia/ já os cânones sagrados/ não reputam por pecados/ pecados de simonia:/ os que vêem tanta ousadia/ com que comprados estão/ os curados mão por mão/ devem crer como já creram/ que ou os cânones morreram/ ou então a santa unção. (“O Cura da Sé” – Gregório de Matos).

Pequei Senhor, mas não porque hei pecado/ Da vossa piedade me despido/ Porque quanto mais tenho delinqüido/ Vos tenho a perdoar mais empenhado./ Se basta a vos irar tanto um pecado/ A abrandar-vos sobeja um só gemido/ Que a mesma culpa que vos há ofendido/ Vos tem para o perdão lisonjeado./ Se uma ovelha perdida e já cobrada/ Glória tal e prazer tão repentino/ Vos deu como afirmais na sacra história:/ Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada. / Cobrai-a e não queirais, Pastor Divino/ Perder na vossa ovelha a vossa glória. (“Pequei” – Gregório de Matos).

Não te vás, esperança presumida/ A remontar a tão sublime esfera/ Que são as dilações dessa quimera/ Remora para o passo desta vida./ Num desengano acaba reduzida/ A larga propensão do que se espera/ E se na vida o adquirir te altera/ Para penar na morte te convida./ Mas voa inda que breve te discorres/ Pois se adoro um desdém que é teu motivo/ Quando te precipitais me discorres/ Que me obriga meu fado mais esquivo/ Que se eu vivo da causa de que morres/ Que morras tu da causa de que vivo. (“Esperança” – Gregório de Matos).

Nise, vossa formosura/ queixosa de certo agravo/ me dá hoje uma no cravo/ e a outra na ferradura/ uma verde outra madura/ achei no vosso craveiro/ que o cravo é favor inteiro/ mas cravo com queixa ao pé/ é o mesmo que dizer que/ o gosto não mas o cheiro. / Que mal fica ao meu intento/ que o cheiro me queiras dar?/ dai-mo vós sempre a cheirar/ que que co cheiro me contento:/ quando um roçagante vento/ passa de uma em outra rosa/ e de cada flor cheirosa/ lhe leva a fragrância inteira/ se assim por seu modo a cheira/ também por seu modo a goza. (“Nise e o cravo” – Gregório de Matos).

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

POESIAS


(I) Não chores, meu filho;/ Não chores, que a vida/ É luta renhida:/ Viver é lutar./ A vida é combate,/ Que os fracos abate,/ Que os fortes, os bravos,/ Só pode exaltar.
(II) Um dia vivemos!/ O homem, que é forte/ Não teme da morte;/ Só teme fugir;/ No arco que entesa/ Tem certa uma prêsa,/ Quer seja tapuia,/ Condor ou tapir.
(III) O forte, o cobarde/ Seus feitos inveja/ De o ver na peleja/ Garboso e feroz;/ E os tímidos velhos/ Nos graves conselhos,/ Curvadas as frontes,/ Escutam-lhe a voz!
(IV) Domina, se vive;/ Se morre, descansa/ Dos seus na lembrança,/ Na voz do porvir./ Não cures da vida!/ Sê bravo, sê forte!/ Não fujas da morte,/ Que a morte há de vir!
(“Canção do Tamoio” – Gonçalves Dias)

Minha terra tem palmeiras,/ Onde canta o sabiá;/ As aves que aqui gorjeiam,/ não gorjeiam como lá./ Nosso céu tem mais estrelas,/ Nossas várzeas têm mais flores,/ Nossos bosques têm mais vida,/ Nossa vida mais amores./ Em cismar, sozinho, à noite,/ Mais prazer encontro eu lá;/ Minha terra tem palmeiras,/ Onde canta o sabiá./ Minha terra tem primores,/ Que tais, não encontro eu cá;/ Em cismar, sozinho, à noite,/ Mais prazer encontro eu lá;/ Minha terra tem palmeiras,/ Onde canta o sabiá./ Não permita Deus que eu morra,/ Sem que eu volte para lá;/ Sem que desfrute os primores/ Que não encontro por cá;/ Sem qu´inda aviste as palmeiras,/ Onde canta o sabiá.
(“Canção do Exílio” – Gonçalves Dias)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

AURA

AURA HUMANA
Em termos de energia, o ser vivo assemelha-se a um dínamo em torno do qual se irradia um campo de força denominado aura. Cada ser humano tem a sua aura.
O uso das palavras requer algum cuidado. A mesma palavra pode encerrar distintos significados. Os místicos cuidam da pronúncia das palavras, em atenção aos efeitos vibratórios dos sons vocálicos no interior do corpo e no ambiente externo.
O vocábulo aura admite mais de um significado. Vento brando e aprazível, aragem, brisa, na acepção física. Aplicado socialmente, esse vocábulo significa popularidade, rumor, fama quando, por exemplo, citamos a aura popular de uma pessoa que é alvo da admiração, do aplauso ou do favor do povo. Na área da saúde, aura significa a sensação que produz sobre o corpo o desprendimento de eletricidade. Usa-se a expressão aura vital para o alento, a respiração, o hálito. Na acepção mística, aura é a emanação ao redor do ser vivo, como se fora uma fosforescência, produzida pela energia vital. A esse campo de força que circunda o corpo humano, denominamos aura humana.
A semelhança entre aura e auréola pode gerar confusão. Convém, pois, distinguir os dois conceitos. Auréola significa o círculo de luz em volta da cabeça dos santos da igreja católica. Usa-se, também, esse vocábulo, na acepção de diadema, glória, prestígio, brilho ou esplendor moral. Auréola acidental é o nome que se dá ao conjunto de cores luminosas que se notam, algumas vezes, nos contornos de um objeto quando o fitamos de modo firme e concentrado.
O conceito de aura humana prescinde da idéia de círculo que supõe um espaço entre o centro e a circunferência. Embora contorne o corpo humano, a aura é um campo magnético contínuo de cor uniforme. A cada estado físico, mental ou emocional da pessoa corresponde determinada cor. A fonte energética da aura é interna, procede do corpo e da alma do ser vivo. A fonte da auréola pode ser externa como, por exemplo, a que se forma em torno da lua em certas noites. As cores que vemos em torno de objetos quando os olhamos fixamente, podem se formar no cérebro, como efeito dos estímulos sobre nossos olhos e refração dos raios luminosos na retina. Trata-se de fenômeno ótico.
Como emanação da energia vital do corpo humano, a aura pode ser notada sob determinadas condições de luminosidade do ambiente. A luz fraca, a semi-escuridão, permitirá o contraste necessário à visibilidade da aura humana. A intensidade vibratória da aura varia de acordo com o estado físico, mental ou emocional da pessoa. Assim, por exemplo, a aura colada ao corpo e quase imperceptível indica que o seu portador está fortemente ligado a assuntos materiais e às funções do organismo.
Há exercícios criados pelos místicos que fortalecem a aura e aumentam a sua extensão, o que permite e facilita a projeção da personalidade anímica no mundo físico e no mundo espiritual. Quanto mais forte e extensa a aura, maior será a facilidade para projetar a personalidade e expandir a consciência. Alimentação balanceada, forma adequada de respirar, exercícios físicos e mentais freqüentes e regulares, regime de trabalho bem organizado, repouso e lazer, tudo sob o signo da moderação, contribuem para o fortalecimento e expansão da aura humana. Servem a esse desiderato, por exemplo, a pausada concentração da mente em todas as células do corpo ou segurar o copo com água à altura do plexo solar por alguns minutos, num ambiente tranqüilo, pouco iluminado e com música suave.
O contato da nossa aura com a de outras pessoas pode gerar simpatia ou antipatia, atração ou repulsão. Pela reação da aura tomamos consciência dos pensamentos e sentimentos das outras pessoas, ainda que de modo imperfeito ou pouco nítido. O mesmo acontece em relação ao ambiente em que nos encontramos. A aura reage às vibrações do ambiente, produzindo sensação de conforto ou desconforto. O ambiente pode ser atraente ou repulsivo à aura. Conforme a reação da aura pode advir, ao seu portador, o ímpeto de mudança de lugar, de fazer ou deixar de fazer alguma coisa.
Mediante sons vocálicos, concentração nos centros psíquicos, preces, harmonização cósmica e outras técnicas, os místicos provocam alteração na aura e nas vibrações do ambiente. Pelo que percebem através da aura da outra pessoa, podem tomar precauções, tais como: desviar o rumo de uma conversa, alterar o pensamento e a conduta, evitar acontecimentos desagradáveis e assim por diante. Pela coloração da aura é possível diagnosticar o estado geral da pessoa.
A aura, pois, se constitui em rica fonte de informação sobre a pessoa e sobre o que há de invisível no ambiente externo; permite a leitura do pensamento do outro; percebe ocultas intenções. Por meio da aura, o indivíduo toma conhecimento antecipado de coisas prestes a acontecer em seu redor.
O tema do nosso próximo encontro será o EU.
A paz esteja com todos. Assim seja!