terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

TU

Primeira parte.

O drama humano condensa-se na relação entre dois EUS situados simultaneamente no mundo da natureza e no mundo da cultura. TU, sujeito periférico, distinto do EU, sujeito central da relação, pode ser uma pessoa, um grupo, uma nação. O tu exclui o eu, assim como o eles exclui o nós. Eis a separação primordial. Eles são os parentes, amigos, inimigos, vizinhos, estrangeiros, tendo o eu como centro de referência. Quando estranho à mesma família, o eles pode integrar o nós da mesma cidade. Embora pertencendo a diferentes cidades, o eles integra o nós da nação; sendo de nações diferentes, o eles integra o nós da humanidade. Conforme muda o centro de referência individual ou social, muda o eles em nós e vice-versa; fronteiras, cercas e muros deslocam-se.

Ego e alter assemelham-se na essência. Ambos sentem, querem, pensam e agem; comungam tempo e espaço; relacionam-se na família, na escola, na empresa, na igreja, no clube, no quartel, no partido político, na associação civil; aproximam-se por afinidade de interesses, aspirações, crenças, idéias, coordenando ou subordinando vontades.

Na conquista de objetivos comuns, ego e alter somam esforços e trilham a mesma senda. Na consecução do bem comum, governados e governantes associam-se na instituição estatal. Onde vigora o princípio democrático, os partidos políticos submetem nomes à escolha do corpo eleitoral. Os eleitores se fiam na indicação e confiam esperançosamente na honestidade e competência dos candidatos. A liberdade e o acesso à educação e à informação permitem ao eleitor o voto consciente e lúcido. Estados associam-se para fins estratégicos e econômicos constituindo o nós no plano internacional, hipótese em que o eles são os Estados não associados. A cooperação entre o eu e o tu, o nós e o eles, ocorre mediante instituições civis, militares, religiosas, místicas. O propósito cooperativo visa, entre outras coisas, a assistência mútua, o modo compartilhado de produção, circulação e consumo de bens, a preservação da boa qualidade de vida no planeta, a transmissão de conhecimentos e de valores morais e espirituais, a paz no seio da humanidade.

A relação de subordinação entre o eu e o tu, o nós e o eles, supõe hierarquia na sociedade, como acontece na família, entre pai e filho; na escola, entre mestre e discípulo; na empresa, entre patrão e empregado; no quartel, entre o militar mais graduado e o menos graduado; na igreja entre o papa e os cardeais. No exercício dessa hierarquia verifica-se desvirtuamento quando o genitor mantém relações sexuais com a prole, abusa nos castigos, ou abandona-a materialmente; o professor sonega conhecimentos ou os transmite aos alunos tendenciosamente com tintas ideológicas; o patrão, sem justa causa, demite o empregado ou lhe paga baixo salário; o instrutor submete o soldado a exercícios exagerados que lhe causam a morte; o abade exige, do noviço, práticas ascéticas que lhe debilitam a saúde; o governante oprime os governados e comanda sob o signo do arbítrio e da desonestidade.

O eu se relaciona com o tu, ora em plano de igualdade, ora em plano de desigualdade. A igualdade pode ser formal (ética e jurídica) ou material (social e econômica). Direitos iguais não significam patrimônios iguais. No plano empírico, a desigualdade econômica e social ocorre tanto nos países democráticos como nos países autocráticos, tanto no sistema capitalista como no sistema socialista. A realidade histórica dos séculos XX e XXI dá esse testemunho. O igual acesso de todos aos produtos úteis e necessários da civilização permanece no terreno utópico. A materialização desse princípio aguarda mais avançada evolução espiritual da humanidade. A pureza da teoria e da doutrina no campo da ciência, da filosofia e da religião choca-se com a miscelânea dos fatos e a contradição dos atos no mundo real. Tal pureza exercita o raciocínio, serve à propaganda e ao discurso suasório daqueles que disputam posições de mando na sociedade. Passados dois mil anos, a doutrina de Jesus ainda espera quem a pratique em sua pureza. A teoria pura do direito, exposta pelo jurista tcheco Hans Kelsen, invejável no seu rigor lógico, mostra-se insuficiente na visão cultural do fenômeno jurídico. Pontes de Miranda, notável jurista brasileiro, afirmava que o liberalismo absoluto e o socialismo apriorístico eram formas abstratas com as quais os ideólogos pretendiam moldar a matéria social.

Entre o ego e o alter, a igualdade reside na essência e a desigualdade na existência. No plano existencial, mesmo entre irmãos gêmeos, sempre haverá diferenças de natureza: (a) física, como as linhas do polegar; (b) psicológica, como a vocação; (c) lógica, como o grau de inteligência. A mesma experiência pode ser assimilada de modo diferente pelo eu e pelo tu.

A individualidade do tu acentua a individualidade do eu. Há, entre ambos, sociabilidade, afetos, satisfação dos apetites, permuta de bens, transmissão de conhecimento vulgar, técnico ou científico. Em relação ao eu, o tu pode se mostrar benéfico, maléfico, indiferente, agradável, desagradável, providencial, inoportuno, útil, nocivo, vantajoso, prejudicial, alegre, triste. Próximos no espaço, o eu e o tu podem estar distantes no tempo, por ausência de interesse, de vínculo afetivo, de comunicação. Distantes no espaço, ambos podem estar próximos no tempo, graças à memória, à saudade e aos meios de comunicação.

A inimizade entre o eu e o tu, entre o nós e o eles, surge da inveja, do ciúme, da competitividade. Atitudes que afrontam o interesse, a moral, o direito, o credo religioso, geram inimizade e litígios. Às vezes, sem intenção de ferir, violar ou magoar, o indivíduo causa ao outro, dano patrimonial ou moral; avilta o outro por palavras, gestos ou atitudes. Em concursos públicos de provas e títulos, em jogos entre duas equipes opostas, em eleições para cargos públicos ou para diretoria de associações e sociedades civis, o eu e o tu são adversários sem que haja inimizade. Estar no pólo oposto não significa ser inimigo necessariamente. Confronto de aptidões técnicas e intelectuais faz parte do processo de seleção dos mais capazes a determinada função ou tarefa.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

POESIAS

O Cura, a quem toca a cura/ de curar esta cidade/ cheia a tem de enfermidade/ tão mortal que não tem cura: / dizem que a si só se cura/ de uma natural sezão / que lhe dá na ocasião/ de ver as moças no eirado/ com que o Cura é o curado/ e as moças seu cura são./ Desta meizinha se argúi/ que o tal Cura assezoado/ mais lhe rende o ser curado/ que o Curado que possui/ grande virtude lhe influi/ o curado exterior/ mas o vício interior/ amor curá-lo procura/ porque amor todo loucura/ se a cura é de louco amor./ Disto cura o nosso Cura/ porque é curador maldito/ mas ao mal de ser cabrito/ nunca pode dar-lhe cura:/ É verdade que a tonsura/ meteu o Cabra na Sé/ e quando vai dizer “Te/ Deum laudamus” aos doentes/ se lhe resvela entre dentes/ e em lugar de Te diz me./ Como ser douto cobiça/ a qualquer moça de jeito/ onde pôs o seu direito/ logo acha que tem justiça:/ a dar-lhe favor se atiça/ e para o fazer com arte/ não só favorece a parte/ mas toda a prosápia má/ se justiça lhe não dá/ lhe dá direito que farte. / Porque o demo lhe procura/ tecer laços e urdir teias/ não cura de almas alheias/ e só do seu corpo cura: / debaixo da capa escura/ de um beato capuchinho/ é beato tão maligno/ o cura que por seu mal/ com calva sacerdotal/ é sacerdote calvino./ Em um tempo é tão velhaco/ tão dissimulado e tanto/ que só por parecer santo/ canoniza em santo um caco:/ se conforme o adágio fraco/ ninguém pode dar senão/ aquilo que tem na mão/ claro esta que no seu tanto/ não faria um ladrão santo/ senão um santo ladrão./ Estou em crer que hoje em dia/ já os cânones sagrados/ não reputam por pecados/ pecados de simonia:/ os que vêem tanta ousadia/ com que comprados estão/ os curados mão por mão/ devem crer como já creram/ que ou os cânones morreram/ ou então a santa unção. (“O Cura da Sé” – Gregório de Matos).

Pequei Senhor, mas não porque hei pecado/ Da vossa piedade me despido/ Porque quanto mais tenho delinqüido/ Vos tenho a perdoar mais empenhado./ Se basta a vos irar tanto um pecado/ A abrandar-vos sobeja um só gemido/ Que a mesma culpa que vos há ofendido/ Vos tem para o perdão lisonjeado./ Se uma ovelha perdida e já cobrada/ Glória tal e prazer tão repentino/ Vos deu como afirmais na sacra história:/ Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada. / Cobrai-a e não queirais, Pastor Divino/ Perder na vossa ovelha a vossa glória. (“Pequei” – Gregório de Matos).

Não te vás, esperança presumida/ A remontar a tão sublime esfera/ Que são as dilações dessa quimera/ Remora para o passo desta vida./ Num desengano acaba reduzida/ A larga propensão do que se espera/ E se na vida o adquirir te altera/ Para penar na morte te convida./ Mas voa inda que breve te discorres/ Pois se adoro um desdém que é teu motivo/ Quando te precipitais me discorres/ Que me obriga meu fado mais esquivo/ Que se eu vivo da causa de que morres/ Que morras tu da causa de que vivo. (“Esperança” – Gregório de Matos).

Nise, vossa formosura/ queixosa de certo agravo/ me dá hoje uma no cravo/ e a outra na ferradura/ uma verde outra madura/ achei no vosso craveiro/ que o cravo é favor inteiro/ mas cravo com queixa ao pé/ é o mesmo que dizer que/ o gosto não mas o cheiro. / Que mal fica ao meu intento/ que o cheiro me queiras dar?/ dai-mo vós sempre a cheirar/ que que co cheiro me contento:/ quando um roçagante vento/ passa de uma em outra rosa/ e de cada flor cheirosa/ lhe leva a fragrância inteira/ se assim por seu modo a cheira/ também por seu modo a goza. (“Nise e o cravo” – Gregório de Matos).

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

POESIAS


(I) Não chores, meu filho;/ Não chores, que a vida/ É luta renhida:/ Viver é lutar./ A vida é combate,/ Que os fracos abate,/ Que os fortes, os bravos,/ Só pode exaltar.
(II) Um dia vivemos!/ O homem, que é forte/ Não teme da morte;/ Só teme fugir;/ No arco que entesa/ Tem certa uma prêsa,/ Quer seja tapuia,/ Condor ou tapir.
(III) O forte, o cobarde/ Seus feitos inveja/ De o ver na peleja/ Garboso e feroz;/ E os tímidos velhos/ Nos graves conselhos,/ Curvadas as frontes,/ Escutam-lhe a voz!
(IV) Domina, se vive;/ Se morre, descansa/ Dos seus na lembrança,/ Na voz do porvir./ Não cures da vida!/ Sê bravo, sê forte!/ Não fujas da morte,/ Que a morte há de vir!
(“Canção do Tamoio” – Gonçalves Dias)

Minha terra tem palmeiras,/ Onde canta o sabiá;/ As aves que aqui gorjeiam,/ não gorjeiam como lá./ Nosso céu tem mais estrelas,/ Nossas várzeas têm mais flores,/ Nossos bosques têm mais vida,/ Nossa vida mais amores./ Em cismar, sozinho, à noite,/ Mais prazer encontro eu lá;/ Minha terra tem palmeiras,/ Onde canta o sabiá./ Minha terra tem primores,/ Que tais, não encontro eu cá;/ Em cismar, sozinho, à noite,/ Mais prazer encontro eu lá;/ Minha terra tem palmeiras,/ Onde canta o sabiá./ Não permita Deus que eu morra,/ Sem que eu volte para lá;/ Sem que desfrute os primores/ Que não encontro por cá;/ Sem qu´inda aviste as palmeiras,/ Onde canta o sabiá.
(“Canção do Exílio” – Gonçalves Dias)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

AURA

AURA HUMANA
Em termos de energia, o ser vivo assemelha-se a um dínamo em torno do qual se irradia um campo de força denominado aura. Cada ser humano tem a sua aura.
O uso das palavras requer algum cuidado. A mesma palavra pode encerrar distintos significados. Os místicos cuidam da pronúncia das palavras, em atenção aos efeitos vibratórios dos sons vocálicos no interior do corpo e no ambiente externo.
O vocábulo aura admite mais de um significado. Vento brando e aprazível, aragem, brisa, na acepção física. Aplicado socialmente, esse vocábulo significa popularidade, rumor, fama quando, por exemplo, citamos a aura popular de uma pessoa que é alvo da admiração, do aplauso ou do favor do povo. Na área da saúde, aura significa a sensação que produz sobre o corpo o desprendimento de eletricidade. Usa-se a expressão aura vital para o alento, a respiração, o hálito. Na acepção mística, aura é a emanação ao redor do ser vivo, como se fora uma fosforescência, produzida pela energia vital. A esse campo de força que circunda o corpo humano, denominamos aura humana.
A semelhança entre aura e auréola pode gerar confusão. Convém, pois, distinguir os dois conceitos. Auréola significa o círculo de luz em volta da cabeça dos santos da igreja católica. Usa-se, também, esse vocábulo, na acepção de diadema, glória, prestígio, brilho ou esplendor moral. Auréola acidental é o nome que se dá ao conjunto de cores luminosas que se notam, algumas vezes, nos contornos de um objeto quando o fitamos de modo firme e concentrado.
O conceito de aura humana prescinde da idéia de círculo que supõe um espaço entre o centro e a circunferência. Embora contorne o corpo humano, a aura é um campo magnético contínuo de cor uniforme. A cada estado físico, mental ou emocional da pessoa corresponde determinada cor. A fonte energética da aura é interna, procede do corpo e da alma do ser vivo. A fonte da auréola pode ser externa como, por exemplo, a que se forma em torno da lua em certas noites. As cores que vemos em torno de objetos quando os olhamos fixamente, podem se formar no cérebro, como efeito dos estímulos sobre nossos olhos e refração dos raios luminosos na retina. Trata-se de fenômeno ótico.
Como emanação da energia vital do corpo humano, a aura pode ser notada sob determinadas condições de luminosidade do ambiente. A luz fraca, a semi-escuridão, permitirá o contraste necessário à visibilidade da aura humana. A intensidade vibratória da aura varia de acordo com o estado físico, mental ou emocional da pessoa. Assim, por exemplo, a aura colada ao corpo e quase imperceptível indica que o seu portador está fortemente ligado a assuntos materiais e às funções do organismo.
Há exercícios criados pelos místicos que fortalecem a aura e aumentam a sua extensão, o que permite e facilita a projeção da personalidade anímica no mundo físico e no mundo espiritual. Quanto mais forte e extensa a aura, maior será a facilidade para projetar a personalidade e expandir a consciência. Alimentação balanceada, forma adequada de respirar, exercícios físicos e mentais freqüentes e regulares, regime de trabalho bem organizado, repouso e lazer, tudo sob o signo da moderação, contribuem para o fortalecimento e expansão da aura humana. Servem a esse desiderato, por exemplo, a pausada concentração da mente em todas as células do corpo ou segurar o copo com água à altura do plexo solar por alguns minutos, num ambiente tranqüilo, pouco iluminado e com música suave.
O contato da nossa aura com a de outras pessoas pode gerar simpatia ou antipatia, atração ou repulsão. Pela reação da aura tomamos consciência dos pensamentos e sentimentos das outras pessoas, ainda que de modo imperfeito ou pouco nítido. O mesmo acontece em relação ao ambiente em que nos encontramos. A aura reage às vibrações do ambiente, produzindo sensação de conforto ou desconforto. O ambiente pode ser atraente ou repulsivo à aura. Conforme a reação da aura pode advir, ao seu portador, o ímpeto de mudança de lugar, de fazer ou deixar de fazer alguma coisa.
Mediante sons vocálicos, concentração nos centros psíquicos, preces, harmonização cósmica e outras técnicas, os místicos provocam alteração na aura e nas vibrações do ambiente. Pelo que percebem através da aura da outra pessoa, podem tomar precauções, tais como: desviar o rumo de uma conversa, alterar o pensamento e a conduta, evitar acontecimentos desagradáveis e assim por diante. Pela coloração da aura é possível diagnosticar o estado geral da pessoa.
A aura, pois, se constitui em rica fonte de informação sobre a pessoa e sobre o que há de invisível no ambiente externo; permite a leitura do pensamento do outro; percebe ocultas intenções. Por meio da aura, o indivíduo toma conhecimento antecipado de coisas prestes a acontecer em seu redor.
O tema do nosso próximo encontro será o EU.
A paz esteja com todos. Assim seja!

domingo, 31 de janeiro de 2010

POESIAS

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo/ Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto/ Que, para ouvi-las, muita vez desperto/ E abro as janelas, pálido de espanto.../ E conversamos toda a noite, enquanto/ a via láctea, como um pálio aberto/ cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,/ inda as procuro pelo céu deserto./ Direis agora: “Tresloucado amigo,/ que conversas com elas? Que sentido/ tem o que dizem, quanto estão contigo?”/ E eu vos direi: “Amai para entendê-las!/ Pois só quem ama pode ter ouvido/ capaz de ouvir e de entender estrelas.” (Via Láctea – Olavo Bilac).
Última flor do Lácio, inculta e bela,/ és, a um tempo, esplendor e sepultura/ ouro nativo, que na ganga impura/ a bruta mina entre os cascalhos vela.../ Amo-te assim, desconhecida e obscura,/ tuba de alto clangor, lira singela,/ que tens o trom e o silvo da procela,/ e o arrolo da saudade e da ternura!/ Amo o teu viço agreste e o teu aroma/ de vargens e de oceano largo!/ Amo-te, ó rude e doloroso idioma,/ em que da voz materna ouvi: “meu filho!”/ e em que Camões chorou, no exílio amargo/ o gênio sem ventura e o amor sem brilho! (Língua Portuguesa – Olavo Bilac)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

PALESTRA3

O EVANGELHO DA IRMANDADE
III
A semelhança sugerida por um advogado de Curitiba, meu colega de faculdade, entre o romance O Evangelho da Irmandade de minha autoria e o livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo do escritor português José Saramago, esvai-se ante o que acabei de expor. Adquiri e li o citado livro. Verifiquei que a semelhança limita-se ao título (evangelho) e ao tema (a vida de Jesus). A narrativa é diferente. Exemplos: (i) Saramago associa o sêmen humano ao sêmen divino no momento da concepção de Jesus, enquanto eu digo que ela ocorreu no ritual místico; (ii) Saramago encerra a vida de Jesus na cruz enquanto eu mostro a continuidade (iii) ele mantém a linha religiosa tradicional enquanto eu sigo a linha profana, histórica e mística, incluindo os rituais e ensinamentos da escola de mistérios.
Duas pessoas, também de Curitiba, confessaram-se chocadas com a primeira parte do romance. Entenderam inconveniente a abordagem sensual. No âmbito acadêmico da odontologia, no Rio de Janeiro, um doutor e um mestre nada objetaram, pediram mais exemplares e os distribuíram aos seus colegas e familiares. Disseram que o livro os ajudara a fazer conexões de sentido e a entender a história de Jesus e a religião cristã. Magistrado do Rio de Janeiro, meu colega de toga e de concurso, agradou-se da nova abordagem da vida de Jesus e disse estar lendo o livro pela segunda vez.
Leitores do Rio de Janeiro e do Paraná também afirmaram estar lendo o romance mais de uma vez. No gabinete da presidência do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro encontrei-me casualmente com desembargadora a quem eu enviara o livro. Fomos colegas de toga no primeiro grau (juízes de direito). Com expressão grave no rosto, ela disse que a versão contida no livro era mais provável do que a versão contida nos evangelhos. Leitor septuagenário, ex-jesuíta, gostou mais da terceira parte, que versa sobre os seminários dos adeptos, profetas e iluminados, três diferentes graus dos ensinamentos da Irmandade mística (sêmen = semente; seminário = plantação de sementes). Leitora carioca, filiada à ordem rosacruz, disse que alguns trechos do livro lembravam a sua experiência de vida. Leitor mineiro disse que depois de ler o romance decidira reativar sua filiação à ordem rosacruz; relatou, também, o entusiasmo do amigo maçom a quem emprestara o livro.
Segundo a narrativa contida no romance, Jesus ingressa na Irmandade secreta devido às circunstâncias da sua concepção. Jesus ficou internado ali por alguns anos, desde a adolescência até a maturidade, quando completou o seu aprendizado prático e teórico. Dos portões da Irmandade, ele saiu para cumprir missão definida. Nada foi por acaso. Jesus não surgiu na Palestina aos 30 anos de idade, sem passado e sem propósito. Tudo foi planejado e preparado com antecedência. Ele não estava sozinho. Epilético, portador de doença cerebral degenerativa, segundo alguns autores, Jesus dispunha do apoio moral e logístico da Irmandade (Jules Soury, Jesus e os Evangelhos, apud Wilson Martins “in” História da Inteligência Brasileira, SP, T.A.Queiroz Editor, vol. IV, 1996, p. 238). Os seus ensinamentos refletem a filosofia perene, referida por Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo), produzida e reproduzida nas escolas de mistérios a partir do antigo Egito. Fruto dessa filosofia, a doutrina monoteísta tornou-se pública inicialmente no Egito, com o faraó Aquenaton, que mudou a sede do governo e afastou os sacerdotes politeístas (+/-1250 a.C.). Depois, essa doutrina foi imposta aos hebreus por Moisés, príncipe e sacerdote egípcio; exposta aos palestinos por Jesus; divulgada ao mundo pagão pelos apóstolos; e vulgarizada pela igreja católica. Após a reforma religiosa na Europa (século XVI), a doutrina tornou-se propósito missionário também da igreja protestante.
As técnicas terapêuticas eram desenvolvidas nas escolas de mistérios e transmitidas aos discípulos. Obtido o grau de maestria, esses discípulos saíam pelo mundo com o objetivo de colocar em prática os ensinamentos. Assim aconteceu com Jesus; percorreu a Palestina doutrinando, praticando arte medicinal e exibindo poderes miraculosos aos olhos do povo. Em sintonia com a Irmandade secreta, tal qual fizera o seu primo João Batista, Jesus formou a sua própria escola, reunindo apóstolos e discípulos.
Jesus passa pela experiência da crucifixão. Segundo o evangelista Mateus, Jesus dissera aos discípulos: “o filho do homem deve ser entregue às mãos dos homens; matá-lo-ão, mas ao terceiro dia ressuscitará” – Mt 17:21/22. Segundo o evangelista João, Jesus se referia ao próprio corpo quando desafiou os judeus: “destruí vós este templo e eu o reerguerei em 3 dias” – Jo 2:19. Não é demais lembrar que os evangelistas escreveram tais profecias depois dos acontecimentos. Profecias retroativas encontram-se, também, no Antigo Testamento. O valor dessas profecias é meramente fiduciário e catequético, sem compromisso com a autenticidade.
Depois da ressurreição arquitetada pela Irmandade secreta e encenada por Jesus, necessária à evolução do movimento revolucionário, ele transmite instruções finais aos apóstolos, pilares da igreja primitiva, de modo a garantir a expansão da doutrina. Então, retira-se para o templo da Irmandade, onde é celebrado o seu casamento com Maria Madalena. Os dois geram filhos e fixam na Gália o domicílio dos seus últimos dias.
Estas são as linhas gerais do romance. Muito se escreveu sobre a vida de Jesus. Para escapar ao mito, impõe-se a revisão de conceitos tendo presentes novas descobertas arqueológicas, como a dos manuscritos do Mar Morto nos anos de 1947, 1952 a1956, as pesquisas científicas e aos estudos interdisciplinares da Idade Contemporânea.
A maioria dos manuscritos do Mar Morto até agora traduzida e divulgada é de época anterior à de Jesus; refere-se à bíblia hebraica e aos essênios da comunidade de Qumran. Pode ser que os fragmentos ainda não traduzidos mencionem algo da seita cristã. Os propósitos e as ações de Jesus e do seu pequeno grupo, a baderna no templo e o julgamento no tribunal de Pilatos, foram ignorados pelos historiadores daquela época, como Flavius Josephus, Caio Plínio Segundo e Philo Judaeus. Talvez o assunto lhes tenha parecido sem importância ou, então, desconheciam aqueles episódios. Falta, pois, registro histórico daqueles acontecimentos. Em conseqüência, a crítica racional chega a negá-los, atribuindo-os à invenção dos escritores bíblicos.
Sem abandonar o campo da crítica racional, podemos considerar, com boa vontade, o Antigo Testamento e o Novo Testamento como registros de alguns fatos históricos ao lado de cartas, epopéias, romances, poemas, cantos de amor e de vitória, orações, sermões, profecias, filosofia e misticismo, contidos nos seus livros. Cumpre lembrar, entretanto, que um bom escritor ou um colegiado de escribas faz epopéia de um episódio banal; de um povo pequeno e medíocre, pinta em prosa e verso uma grande e heróica nação; enaltece mitos prodigiosos guardados na memória e avivados na consciência coletiva. O véu do mistério aguça a imaginação e ajuda a perpetuar dogmas.
À medida que a ciência, a arte e a técnica se desenvolvem, aumenta a necessidade de liberdade de pensamento. A liberdade amplia a consciência. A expansão da consciência pode colocar em xeque dogmas da ciência e da religião, estremecer as bases científicas, religiosas, econômicas, políticas e ideológicas da civilização.
Do ponto de vista da conduta religiosa cristã, Jesus foi único. Francisco de Assis, entre os homens, foi provavelmente o que dele mais se aproximou. Os seguidores mostram-se cristãos institucionalmente, por integrarem uma comunidade ou uma igreja. Na essência moral que orienta a conduta, os seguidores ainda estão longe do grande mestre. Na seara de outros credos, também há grandes vultos, como Sidarta Gautama e Mahatma Gandhi.
A desigualdade nas relações humanas permanece: riqueza de poucos e pobreza de muitos; liberdade da elite, servidão da massa; exploração do homem pelo homem. O que dizia Hobbes no século XVII continua atual: o homem é o lobo do homem. A competição entre países, entre empresas, entre grupos e entre indivíduos reveste um caráter selvagem. Por motivos econômicos, nações se negam a assinar e cumprir acordo sobre conservação e proteção do meio ambiente; 2/3 da população mundial estão na miséria. Doenças, epidemias, infortúnios naturais e sociais assolam a humanidade.
Cabe às instituições místicas, neste milênio, de modo pacífico e persistente, ajudar a substituir as bases da civilização, o que exigirá reordenação de sentimentos e de idéias, revisão de ensinamentos e de métodos. Crises financeiras, catástrofes naturais, conflitos bélicos, desastres sociais provocados pela incúria dos governantes e pela ação predadora e poluidora do ser humano, têm sido fatores de ocasional solidariedade entre os povos e do despertar de uma consciência planetária, a indicar a presença de uma energia cósmica de natureza espiritual. Pela dor e pelo sofrimento a humanidade parece estar, finalmente, aproximando-se de Deus.
A paz e o amor estejam com todos. Assim seja!

domingo, 24 de janeiro de 2010

PALESTRA2

O EVANGELHO DA IRMANDADE
II
Na América Latina, desde o México até a Argentina, do século XVI ao XIX, os espanhóis e os portugueses implantaram uma cultura católica impermeável a outras religiões. Dessa cultura faz parte a imagem de Jesus como um ser divino, filho de Deus, milagreiro que tira os pecados do mundo. A mãe de Jesus é santificada. Os atributos humanos de mãe e filho não são mencionados. A versão que nega a divindade de Jesus e a virgindade de Maria, conhecida na Europa e na Ásia, defendida pelos arianos, nestorianos e ebionitas, não transitou de modo influente pela América.
No Brasil, o catolicismo foi religião oficial desde a colonização, passando pelo império, até a implantação da república (1889). O protestantismo, o judaísmo e o islamismo eram admitidos apenas como culto de família, vedada a sua prática social. O espiritismo não era reconhecido como religião. A maçonaria foi aceita e dela eram membros figuras ilustres do Império. Na sua maioria, os maçons eram católicos. Os rosacruzes brasileiros eram membros de sanctum, filiados à Grande Loja da Califórnia, até organizarem os primeiros corpos afiliados. Em fins dos anos 50 do século XX, foi criada a Grande Loja do Brasil, na cidade de Curitiba, capital do Estado do Paraná, mais tarde renomeada Grande Loja da Jurisdição de Língua Portuguesa.
Sem dispensar a imaginação, a experiência de vida e os conhecimentos gerais, guiei-me pela razão e pela intuição na elaboração do romance O Evangelho da Irmandade. Para as cerimônias nele descritas inspirei-me nos rituais rosacruzes e maçônicos. Apesar das restrições que faço à Bíblia, nela mergulhei para ilustrar a versão do livro. Os episódios de sensualidade narrados no livro, envolvendo Jesus, a serva, os pais de Jesus, a tia, o diácono e Maria Madalena, combinam história, realidade, racionalidade e imaginação. A mãe de Jesus perde a virgindade no momento da concepção, em ritual no templo da Irmandade. O romance não trata dos milagres, porém considera-os leis da natureza cujo mecanismo é conhecido pelos magos e desconhecido pela massa popular.
No capítulo sobre a república cristã, do livro Leviatán, o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679) transcreve trecho da Bíblia em que Esdras (sacerdote e erudito judeu) lamenta o estado de ignorância da sua gente. Segundo Esdras (398 a.C) o seu povo caiu na dissolução dos costumes porque o livro da lei fora queimado. Entende-se por “livro da lei” o conjunto dos cinco primeiros livros do Antigo Testamento, denominado Pentateuco e que os judeus chamam Torá (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio). Esdras pede ajuda a Deus para escrever tudo novamente. O texto do Antigo Testamento que chegou até nós resulta desse trabalho, recomposto depois por Hilel (filósofo judeu) e pelos rabinos da era cristã.
Antes disso, não havia hebraica veritas, um cânon imutável ditado por Deus em pessoa. Entende-se por “cânon” as regras contidas nos diferentes livros que compõem a Bíblia. Esses livros eram rolos de pergaminhos, como os mencionados por Lucas (4:17,20) e aqueles outros acidentalmente encontrados nas cavernas de Qumran no século XX. Os rolos que continham a lei (Torá), anteriormente ao século IV a.C., foram consumidos pelo fogo, como informa Esdras (não discuto aqui se esses livros existiam realmente; lembro apenas que a tradição oral prevalecia sobre a escrita). Durante os séculos I e II, da era cristã, rabinos prosseguiram na prática de incluir e excluir textos na escritura, até chegarem à forma literária de consenso denominada Bíblia Hebraica.
Destarte, o Antigo Testamento foi sendo elaborado a partir do século IV a.C. A Bíblia foi impressa em papel por Johannes Gutemberg no século XV (1401/1500). O capítulo 14, do livro de Esdras, citado por Hobbes, sumiu da Bíblia, provavelmente a partir da divulgação da obra desse filósofo no século XVIII (1701/1800).
O Novo Testamento menciona os pais e os irmãos de Jesus. Aos olhos dos seus conterrâneos, Jesus era homem comum, filho do carpinteiro José, que percorria a região com um pequeno grupo de vagabundos. Isto levou Jesus a dizer que um profeta só é desprezado na sua pátria, entre os seus parentes e na sua própria casa (Mt 13:57; Mc 6:4; Lc 4:24). Ao dizer isso, Jesus qualifica de profeta a si mesmo. A autoridade judaica o qualifica de gentio da Galiléia e o acusa de impostor e blasfemo; não o reconhece como judeu, nem como o messias descendente do rei Davi. A autoridade romana o enquadrou na lei penal romana como subversivo. Os seus seguidores consideravam-no mestre religioso (rabi). O apóstolo João tratava Jesus como um ser divino, filho de Deus, pão caído do céu, o bom pastor.
Por ser filho adotivo de um carpinteiro não significa que Jesus fosse pobre e ignorante. Há indícios de que ele pertencia a uma família remediada, ligada à visão de mundo dos essênios, seita mística cujos membros se espalhavam pela Síria, Palestina e Egito. Um grupo de essênios organizou a comunidade de Qumran, às margens do Mar Morto, no ano 200 a.C., aproximadamente, e ali permaneceu até o ano 68 d.C. O objetivo do grupo era o de viver separado da sociedade judaica, cumprir suas próprias leis, seguir a sua própria doutrina e executar seus próprios rituais. Os essênios de Qumran se consideravam os verdadeiros filhos de Israel, comunidade de santos e sacerdotes. Declaravam ilegítimos os fariseus e os saduceus. O apelido de nazareno e o visual correspondente (semelhante ao dos essênios) indicam que Jesus pertencia à seita nazarita. A utopia de Jesus assemelha-se à dos nazarenos e à dos essênios: a santidade e o sacerdócio como modus vivendi da humanidade.
A inspiração divina dos escritores dos livros bíblicos é matéria de fé e ingenuidade, por isso mesmo, assunto inadequado ao debate racional. Qualquer escritor pode se declarar divinamente inspirado para dar força e credibilidade à sua obra. Fé e razão costumam se digladiar nessa arena. Após a segunda guerra mundial, os ingleses desistiram do protetorado sobre a Palestina, porque árabes e judeus mantinham as divergências no plano da fé e não no plano da razão, o que tornava o conflito insolúvel.
O lado racional da natureza humana é tão importante quanto o lado emocional e instintivo. A fé tem valor quando lúcida. A fé cega nega valor à razão e enseja conflitos entre indivíduos, grupos e nações. O fanatismo ocupa o lugar da sensatez. O ódio ocupa o lugar do amor. A guerra ocupa o lugar da paz. O ser humano é instintivo, emotivo, intuitivo e racional. Desvalorizar a natureza racional equivale a amputar o ser humano.
O mundo em que vivemos apresenta dupla face: material e espiritual. Podemos ilustrar essa duplicidade com a mitologia (as duas faces de Jano) ou com a economia (as duas faces da moeda). Na teoria política temos o exemplo do bom selvagem de Jean-Jacques Rousseau e do feroz selvagem de Thomas Hobbes, as duas faces do ser humano. Rousseau prendeu-se à face angelical; Hobbes, à face demoníaca. Anjo e demônio compõem o ser humano.
O lado angelical do ser humano é positivo quando desperta a bondade e as virtudes; é negativo quando sufoca os aspectos terrenos da vida. Daí, pessoas que, na busca da beatitude, afastam-se da vida em sociedade, como os anacoretas e toda a gama de indivíduos que se mortificam, renunciam aos apetites e aos cuidados do próprio corpo.
O lado demoníaco do ser humano é positivo quando defende a natureza e orienta os instintos e inclinações para obter o melhor à sua sobrevivência e à satisfação das suas necessidades; é negativo quando sufoca o aspecto angelical da vida humana, desperta a maldade e os vícios no ser humano. Daí, o mergulho no materialismo, a negligência da vida espiritual, como acontece com os ateus, os amorais, os criminosos habituais e aquela parcela da humanidade que menospreza as virtudes.
Apesar da dupla face, o universo é um só, como o próprio nome diz: o múltiplo no uno. Há dimensões diferentes. Algumas são percebidas apenas quando expressamos a um grau elevado as nossas potencialidades físicas e mentais, quando exploramos os nossos instintos e os nossos sentidos, quando desenvolvemos as nossas faculdades intelectuais.
A Física moderna chegou à concepção holística do universo, ou seja, a de que todas as partes do universo estão relacionadas. A filosofia perene diz: assim como em cima, é embaixo. A crescente e aparente desordem do universo a que chamamos entropia acontece em nível macroscópico e em nível microscópico; lá, a partir do enclave organizado do nosso sistema planetário em direção aos diversos pontos da galáxia; cá, no mundo subatômico da matéria.
A linguagem matemática de Einstein e a linguagem esotérica dos místicos expressam a mesma coisa: a matéria é energia concentrada e organizada, o que supõe uma inteligência dinâmica e transcendental. Cientistas contemporâneos como Hawking e Greene, especulam sobre os limites do universo e as suas partes componentes. Afirmam que a matéria com estrutura atômica compõe a parte menor do universo; a matéria escura de consistência desconhecida compõe a parte de extensão média; o plasma, substância delgada de natureza misteriosa, compõe a parte maior do universo. Esse plasma pode ser a fonte de formação e sustentação das outras partes, equivalente racional daquele princípio espiritual que os místicos chamam de alma universal.