domingo, 1 de março de 2026

ORDEM

Os seres humanos vivem, desde a Idade Antiga até a Idade Contemporânea, sob o comando de princípios e regras que estruturam uma ordem em três níveis: divino, natural e cultural. 
O nível divino supõe espiritualidade. Temerosos e ignaros, os humanos sempre se voltaram para o sobrenatural, o invisível, o misterioso, o metafísico. Acreditam: I - na existência de três ou mais deuses (hinduísmo), de dois deuses (mazdeísmo) e de um só deus (cristianismo); II - no governo divino composto de entidades incorpóreas hierarquizadas. Na doutrina mística, serafins, querubins, anjos, arcanjos, integram a hierarquia celestial (hieros = sagrado + arquia = governo). No cristianismo, o governo sagrado é visto como a divina razão de ordem que dirige todas as coisas. Tomás de Aquino, teólogo cristão, chamou-a de lei eterna.
A ordem divina, nessa perspectiva teológica, reflete-se no mundo natural e no mundo cultural. Neste último, o governo do estado, quando estabelecido em nome de deus, assume caráter sagrado. Se admitida a existência dessa ordem divina, será difícil prová-la com o instrumental científico. A via emocional tem sido a mais utilizada para acessá-la. Cabe, neste ponto, a sensata advertência de Bertrand Russell: “O credo metafísico é uma consequência equivocada das emoções, embora a emoção, colorindo e informando todos os outros pensamentos e sentimentos, inspire o que há de melhor no homem”.
O estudo científico da natureza revelou certa ordem constituída de regularidades batizadas de leis naturais. Sob o império dessas leis irrevogáveis, os seres vivos cumprem o ciclo: nascimento-vida-morte. “Em a natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” (Lavoisier). Ao expor as especulações da Física sobre a origem do universo, Norbert Wiener põe em relevo a teoria da contingência de Gibbs: (i) no universo sujeito à entropia, cuja maior parte é caótica, a ordem é um enclave na menor parte (ii) a vida só é possível onde houver ordem. Na opinião de Goffredo Telles Jr., seguindo a linha newtoniana, a desordem não existe. Toda existência tem por condição a estrutura como realidade estável e permanente, desde a atômica até a astronômica. Entende-se por estrutura certa disposição de seres conexos denominada ordem. Todo ser existente compõe-se de seres conectados em certa ordem. O universo é um todo organizado. Nele, a desordem não é ausência de ordem e sim a ausência de uma determinada ordem que não compreendemos e nem desejamos. 
Contingente ou não, em expansão ou não, o universo parece dar o seguinte recado: sem ordem não há vida. Ainda que nele seja exceção, a ordem impressiona tanto, que dá azo a explicações do mundo cultural como extensão das leis que determinam o mundo natural. Karl Marx, por exemplo, sucumbiu a esse fascínio quando faz comparações entre o valor e a célula e trata o desenvolvimento social em termos de evolucionismo biológico. Diz: “aunque una sociedad haya encontrado el rastro de la ley natural com arreglo a la qual se mueve...jamás podrá saltar ni descartar por decreto, las fases naturales de su desarrollo”.
Os humanos criaram o mundo cultural no seio do mundo natural quando: (i) pela primeira vez utilizaram o fogo (ii) fabricaram utensílios e instrumentos de trabalho (iii) cultivaram o solo (iv) construíram abrigos e canoas (v) produziram o que era útil e necessário às suas vidas. Em seu conjunto, as regras criadas e os critérios utilizados pelos homens nesse mister, constituem a ordem cultural. A característica marcante dessa ordem é a existência de fins estabelecidos pelos homens no intuito: (i) de prover a sua subsistência e a sua segurança (ii) de satisfazer as suas apetências físicas, emocionais e intelectuais (iii) de pautar o seu desenvolvimento. Sobre o aspecto finalístico, Miguel Reale assim se coloca: “Se a ação humana se subordina a um fim, ou a um alvo, há uma direção, uma pauta assinalando a via ou a linha de desenvolvimento do ato. A expressão dessa pauta de comportamento é o que nós chamamos de norma ou regra”.  
Os humanos sofrem o influxo do determinismo que rege a natureza. Daí, o gregário instinto para viver em comum com os seres da sua espécie na ordem que lhes é própria. A esse respeito, diz Alessandro Groppali: “A organização da convivência humana pode ser estudada a partir das formas de convivência dos animais, como abelhas e formigas, porém, com as mesmas não se confunde”.
Diferentes dos demais seres vivos, graças à sua racionalidade e à sua capacidade de se propor fins, os humanos imprimem à sua convivência tipos de organização que variam no tempo conforme as suas necessidades, conveniências e vicissitudes. O instinto gregário leva-os a viver em comunidade, porém, não a um só tipo. A humanidade vivenciou diferentes tipos de organização social, do comunismo primitivo ao socialismo moderno, da escravatura dos primórdios ao trabalho livre hodierno, da autocracia dos faraós à democracia das repúblicas americanas. Nada é perene no mundo cultural. Há retornos e avanços. À desordem, segue-se a restauração (mesma ordem) ou a renovação (outra ordem). O expansionismo territorial e cultural dos séculos XV e seguintes, e o nazifascismo da primeira metade do século XX, retornaram na segunda década deste século XXI com enganosas vestes liberais.     
A ordem cultural distingue-se das ordens divina e natural por ser criada pelo homem segundo critérios e fins humanos. Ao mundo cultural pertencem instituições como família, escola, hospital, igreja, exército, empresa (industrial, comercial, agrária). O estado moderno titular do poder político e zelador da ordem jurídica é instituição humana de máxima relevância. 

Bíblia. Antigo Testamento. Deuteronômio 16: 18 + 17: 14. 
Breve Historia de las Religiones. Francisco Diez de Velasco. Madrid. Alianza Editorial. 2008. P. 133/137.  
Des Lois. Tomás de Aquino. Paris. Egloff. 1946. P. 23 + 48. 
Lógica e Misticismo. Bertrand Russell. Rio. Zahar. 1977. P. 19.
Cibernética e Sociedade. Norbert Wiener. SP. Cultrix. 1968. P. 9/15.
O Direito Quântico. Goffredo Telles Jr. SP. Max Limonad. 1980. P. 233/247.
O Capital. Karl Marx. México. Fondo de Cultura Económica. 1966. Prefácio. 
A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Friedrich Engels. Rio. Civilização Brasileira. 1980. P. 22/23.
A Família, Origem e Evolução. Claude Lévi-Strauss + outros. Porto Alegre. Villa Martha. 1980. P. 16. 
Filosofia do Direito. Miguel Reale. SP. Saraiva. Vol. II. 1972. P. 334/340. 
Doutrina do Estado. Alessandro Groppali. SP. Saraiva. 1953. P. 27/29.
             

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