quarta-feira, 9 de julho de 2014

FILOSOFIA XIII - 3



EUROPA (1600 a 1800). Continuação.

Na Inglaterra, o protestantismo foi implantado de cima para baixo pelo rei Henrique VIII depois de ver frustradas suas tentativas de obter o apoio do papa às suas pretensões matrimoniais {divorciar-se de Catarina de Aragão para casar-se com Ana Bolena, sua amante}. Revoltado, o rei exige para si e o Parlamento lhe concede a chefia da igreja na Inglaterra. Então, o rei se desvincula das obrigações para com o papa e se apropria dos bens da igreja de Roma situados em solo inglês (1531). A rainha Maria {filha dele com Catarina de Aragão} tenta restabelecer o culto católico, mas não consegue. A sucessora, rainha Elizabeth {filha dele com Ana Bolena} protelou a questão religiosa por algum tempo, mas acabou preferindo uma igreja da Inglaterra independente da igreja de Roma. Elizabeth exigiu e obteve do Parlamento um Ato de Supremacia declarando o soberano inglês chefe supremo da igreja anglicana. Essa igreja faz algumas concessões ao rito católico. Aqueles que se colocaram contra essa flexibilidade formaram a facção puritana. O pietismo caracteriza-se pelo rigor da disciplina religiosa e moral. Foi tema central do protestantismo ao lado da predestinação. O puritanismo é a corrente protestante que quer a religião purificada de todo e qualquer resquício do catolicismo. Segundo a ética puritana, o lazer e o esporte afastam o crente do trabalho e da devoção a deus. O gozo da existência relacionado ao que ela tem de prazeroso e alegre é visto como pecaminoso. A ambição por riqueza como exclusiva finalidade da vida também é pecaminosa. Abençoada é a riqueza fruto do trabalho em alguma profissão. Asseio, conforto e solidez no lar, sem luxo, é o ideal puritano burguês. Para uns, a salvação seria conseqüência do perdão dos pecados; para outros, a salvação seria conseqüência da santificação prática (vocação profissional). Salvação já – aqui e agora – e não no outro mundo. [A doutrina salvacionista pressupõe um estado original pecaminoso do ser humano do qual ele tem de ser libertado para não perecer no inferno]. A ação com vistas para o futuro demanda alguma racionalização. O presente é mais importante. Não vos preocupeis com o dia de amanhã; a cada dia basta o seu cuidado (Bíblia, NT, Mateus 6: 34).

O ramo escocês da igreja católica era considerado corrupto (século XVI). Isto provocou a revolta chefiada por João Knox, pregador rebelde que eliminou da Escócia todos os vestígios do catolicismo e instalou a igreja presbiteriana de base calvinista radical (1557 a 1559). Knox assestou baterias contra Maria Tudor, rainha da Inglaterra e contra Maria de Lorena, regente da Escócia (mãe da rainha Maria Stuart que assumira o trono ainda criança em 1542). A inglesa e a escocesa eram acusadas de papistas por serem católicas. Knox considerava um escândalo o Estado ser governado por mulheres. Na sua religiosa opinião, a mulher fora criada para servir e obedecer ao homem e não o contrário. Todos os idólatras merecem punição, sejam nobres ou plebeus, reis ou súditos. Governantes ímpios não merecem a obediência do povo. Knox organizou a assembléia de ministros e de veneráveis com o nome de Presbitério para governar a igreja. O presbiterianismo foi proclamado religião oficial da Escócia logo depois da morte da regente católica (1560). Da resistência passiva aconselhada pelos reformadores originais, os calvinistas evoluíram para a resistência ativa e implacável. A jovem e católica rainha Maria Stuart é derrotada e expulsa da Escócia.

Na França, os protestantes receberam dos católicos a alcunha pejorativa de huguenotes. Eles adotaram o apelido como distinção honrosa para frustrar os ofensores. Instigado por Catarina de Medicis, o rei Carlos IX promoveu a matança dos huguenotes no trágico episódio conhecido como “Noite de São Bartolomeu”, em 24 de agosto de 1572. [Agosto, mês do desgosto, na trova popular. Em igual dia e mês do ano de 1954, Getúlio Vargas, presidente do Brasil, suicidava-se]. Após o morticínio surgiram panfletos incentivando a vingança e obras de autores calvinistas defendendo a resistência ativa, o direito de se rebelar e matar o rei. Ao excluir a resistência ativa em sua doutrina, Calvino abriu duas exceções para possibilitar a defesa do povo religioso contra a tirania: (1) intervenção positiva dos magistrados inferiores; (2) intervenção de um herói de excepcional vocação. Segundo a literatura monarcômaca, as duas exceções acopladas às idéias de supremacia do povo e da lei, de contrato entre o rei e o povo e de legitimidade da resistência ao tirano, justificavam a ação bélica dos huguenotes e a ação judicial dos magistrados inferiores. Condestável, Marechal, Par e Senhor, eram magistrados que tinham poder sobre todo o reino. Duque, Marquês e Conde eram magistrados que tinham poder sobre suas respectivas províncias. Prefeito, Cônsul e Juiz eram magistrados que tinham poder sobre as cidades. Os magistrados situavam-se entre o rei e o povo. Na lição de Calvino, a eles competia aplicar as penas cabíveis no caso de o monarca violar o pacto divino ou o contrato social. Os magistrados poderiam recorrer às armas se fosse necessário à eficácia das suas decisões.

Etienne de la Boétie, jovem humanista, escreve “Discurso sobre a Voluntária Servidão”, em defesa da liberdade contra o poder monocrático de um único indivíduo que muitas vezes é o mais desprezível da nação (1550). Na opinião dele, a servidão do povo é puramente voluntária; basta o povo recusá-la para ser livre novamente. François Hotman, professor de direito, escreveu “Franco-Gallia”, sobre a origem da monarquia francesa, mas com intenções religiosas (1573). Ele aconselha a eleição no lugar da hereditariedade para o governo do Estado. A lei, o contrato social, as decisões dos Estados Gerais (nobreza + clero + povo) estão acima do monarca. A assembléia dos Estados Gerais, titular da soberania nacional, tem o direito de depor o tirano e eleger novo governante. Eusébio Filadelfo Cosmopolita escreve “O Despertar dos Franceses e dos seus Vizinhos”, onde aconselha os súditos a recorrerem à assembléia dos Estados Gerais quando o rei violar os seus deveres (1574). Embora inferiores ao rei, os magistrados componentes da assembléia lhe são superiores neste caso e momento específicos. Théodore de Bèze, teólogo, sucessor de Calvino em Genebra, escreve “Direito dos Magistrados sobre os seus Súditos”, enunciando como principal objetivo do Estado a glória do deus da “verdadeira religião” (1574). Destarte, no caso de perseguição por motivos religiosos, a defesa armada pode ser utilizada sem pesar na consciência. O príncipe tem o dever de proteger a verdadeira religião contra inimigos internos e externos. As principais leis são aquelas que estabelecem a pena de morte aos corruptores da verdadeira religião. Aos magistrados cabe zelar pela respectiva execução. Duplessis-Mornay e Hubert Languet, com pseudônimo de Junius Brutus, publicam as “Vindiciae contra Tyrannos”, articulando religião e política e harmonizando o espírito bíblico com o espírito jurídico (1579). Combatem o que eles chamam de falsas e perniciosas máximas de Maquiavel. Advogam dois limites à jurisdição real: (1) o pacto de obediência entre deus de um lado e o rei de outro, firmado no momento da investidura {o monarca promete obedecer a deus e zelar pela glória divina}; (2) o contrato entre o rei e o povo, em que o monarca promete atuar com justiça e na forma da lei e os súditos prometem obedecer às ordens justas dele emanadas. Caso o monarca descumpra suas obrigações, o povo ou a assembléia que o representa tem o direito de puni-lo. Se violar o pacto com deus, o monarca perde o direito à obediência dos súditos. Se violar o contrato com os súditos, o monarca perde o trono e a vida. 

domingo, 6 de julho de 2014

COPA 2014 - VI



A competição aproxima-se do grande final. As torcidas continuam a ser o maior espetáculo da copa. A parte brasileira torce pelas seleções dos países mais pobres. Generosa alma brasileira! Quanto aos jogos, repetiu-se o cardápio: disputas acirradas, defesas fortes, finalizações ruins, poucos gols, atacantes bons, artilheiros deficientes, vencedores alegres e sorridentes, vencidos tristes e chorosos. As partidas quartas-de-final começaram na sexta-feira (04/07) e terminaram no sábado (05/07). Classificaram-se para as semifinais: Alemanha e Brasil, que jogarão dia 08/07; Argentina e Holanda, que jogarão dia 09/07.

A seleção alemã venceu a francesa no tempo regulamentar (1x0). Os alemães têm preparo físico, vontade férrea de vencer, entrosamento coletivo, fidelidade ao esquema tático e velocidade. Contrariando as declarações de Breitner, o treinador alemão escalou jogadores veteranos e não apenas neófitos. O jovem Götze passa a maior parte do tempo no banco dos reservas. Quanto ao esperado 16º gol de Klose para superar o brasileiro Ronaldo, trata-se de expectativa artificialmente criada por uma ala carnavalesca do jornalismo esportivo brasileiro. Nem o alemão e nem o brasileiro são “os maiores artilheiros de todas as copas”. Estão longe disto. Para fazer 15 gols eles precisaram jogar 4 copas, do que resulta uma artilharia média de 3,7 gols por copa. No entanto, há jogadores com média bem superior a essa. Em uma só copa Just Fontaine fez 13 gols (1958); Sandor Kocsis fez 11 gols (1954); Ademir Meneses fez 9 gols (1950); Eusébio fez 9 gols (1966). Isto corresponde a médias três a quatro vezes superiores à média daqueles dois jogadores. Destarte, maior artilheiro de todas as copas é aquele que em uma única edição da copa faz 13 gols e não aquele que precisa participar de quatro edições para fazer 15 gols. A matemática é árida, mas não é mentirosa.    

O público cearense respeitou o hino da Colômbia e cantou com vigor o hino do Brasil. Bonita e exemplar a confraternização de brasileiros e colombianos ao final da partida. A seleção brasileira venceu a colombiana (2x1). Todos os gols de bola parada. Houve excesso de faltas e poucas advertências com cartão amarelo. No rigor da regra, o goleiro brasileiro devia ser expulso no lance do pênalti a favor da seleção da Colômbia no segundo tempo da partida. O árbitro só amarelou. Os árbitros também gostam do Fernandinho. Pelo volume de faltas que cometeu nas partidas, Fernandinho só deveria voltar a campo na próxima copa. O colombiano James foi advertido com cartão amarelo por uma única falta leve. Dois pesos e duas medidas.

No primeiro jogo da tarde de sábado (05/07), os argentinos venceram os belgas (1x0). Os belgas imprensaram os argentinos no segundo tempo, porém não conseguiram empatar. Os argentinos não abriram mão da tradicional catimba. A seleção argentina se postou bem na defesa, sem retranca, servindo-se das oportunidades de contra-atacar. A seleção argentina contou com a reza do papa Francisco e a bênção de Jesus. A seleção brasileira também contou com a reza dos pais-de-santo e as bênçãos dos orixás.

No segundo jogo daquela mesma tarde, a seleção da Holanda venceu a seleção da Costa Rica na decisão por pênaltis. No tempo regulamentar e na prorrogação as duas equipes empataram sem fazer um gol sequer (0x0). O treinador da Holanda escalou jogadores veteranos. Todos tiveram bom desempenho. Van Persie claudicou um pouco. No último minuto da prorrogação o treinador tirou uma carta da manga: substituiu o goleiro titular pelo goleiro reserva treinado para defender pênaltis. Alto, esguio e provocador, ele defendeu dois pênaltis e acertou o canto em todas as cobranças feitas pelos costarriquenhos. Os olhos do treinador holandês brilharam de satisfação. A arbitragem prejudicou a seleção da Costa Rica ao deixar de marcar falta cometida na área holandesa. A cobrança do pênalti poderia mudar o resultado da partida em favor da seleção americana. Depois, o árbitro marcou falta que não existiu próxima à área costarriquenha: bola que bateu nas costas do defensor ele “interpretou” como se tocasse no braço. Para sua decepção, o gol não saiu. Possivelmente, o fato de a Holanda ser do primeiro mundo, loira e rica, despertou a simpatia do árbitro.     

Coma ali, coma aqui, coma na granja, coma na cidade, mas coma para se manter vivo. A seleção brasileira estará desfalcada de dois titulares: um defensor (Thiago Silva) e um atacante (Neymar). Perder dois soldados não significa perder a batalha. Há substitutos à altura do que ambos vinham jogando. A seleção cresceu e amadureceu durante a competição e dá sinais de que pode evoluir mais ainda. Ficou mais confiante após duas sofridas vitórias. Enfrentará a mui motivada e preparada seleção alemã. Se a brasileira perder não será vergonha alguma. Afirmou-se dentro e fora do ambiente da seleção que os jogadores têm obrigação de vencer porque jogam em casa. A imprensa esportiva surfou nessa onda. Os jogadores foram indevidamente submetidos a tormentosa coação moral. A reação deles depois do jogo com a seleção chilena evidenciou a coação sofrida. Nunca se viu choradeira desse tipo por vencer um jogo difícil. Comum é chorar de alegria, mas não de desespero. A obrigação dos jogadores é apenas a de manter o espírito esportivo, oferecer a sua habilidade, a sua criatividade, a sua melhor técnica e a sua inteira dedicação a cada partida. Isto os jogadores brasileiros fizeram plenamente e até se superaram. Merecem o nosso aplauso e a nossa admiração, independente de ganhar a copa.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

FILOSOFIA XIII - 2



EUROPA (1600 a 1800). Continuação.

Camponeses e operários revoltaram-se contra o alto custo de vida, a concentração da propriedade da terra, o radicalismo luterano e a situação de desamparo gerada pelo advento do novo tipo de capitalismo. Esse movimento denominado Revolta dos Camponeses foi cruelmente sufocado pelo exército do príncipe (1523 a 1525). Martinho Lutero apoiou a força militar e proclamou o seu respeito pelo poder do príncipe: “O instrumento do governante não é o rosário, nem a flor, e sim a espada desembainhada. A guerra é necessária e útil para combater a injustiça e o mal. Cuida-se de ação divina. A mão que empunha a espada não é a mão do homem e sim a mão de deus”. Em razão do batismo, o príncipe cristão é sacerdote tal como os demais cristãos. Conferido por deus, o poder do príncipe deve ser exercido sobre qualquer pessoa {inclusive o papa} e ninguém tem o direito de resistir à sua autoridade. [Doutrina apoiada na epístola de Paulo aos romanos]. Martinho reconheceu expressamente a maldade dos príncipes: “maiores mentecaptos e piores patifes da Terra”. Apesar disto, considerou-os necessários como flagelo de deus [o mesmo epíteto de Átila, rei dos hunos]. Segundo Martinho, cabe a deus – e não ao povo – castigar o príncipe por seus excessos. O reino de deus é da graça e da misericórdia. O reino do mundo é da cólera e do castigo, governado segundo a lei e com o gládio [espada de dois gumes, símbolo da força] para coagir os maus e proteger os justos. O cristão reflete esses dois reinos: o espiritual e o material.
Ao exaltar o poder civil, Martinho retribui o apoio que lhe deram os príncipes alemães contra a igreja de Roma e os príncipes católicos. Ao contrário de Savonarola, desarmado governante e profeta de Florença, Martinho foi o armado profeta da Alemanha.    
A seita dos anabatistas freqüentada por camponeses e operários se caracterizava por: (1) exigir um segundo batismo quando a pessoa já fosse adulta [supõe o discernimento]; (2) dispensar clero por bastar o sacerdócio individual derivado do batismo; (3) considerar dever do crente se guiar por sua “luz interior” e seguir os ditames da sua consciência; (4) condenar o acúmulo de riqueza {os bens excedentes de cada um devem ser repartidos equitativamente entre todos os membros da comunidade}; (5) declarar a igualdade de todos perante deus; (6) ser contra o serviço militar e os juramentos; (7) negar tributos a governos beligerantes.
Assim como a anabatista, as seitas dos batistas, dos menonitas e dos quakers também portavam de modo autônomo a ascese protestante. Para os quakers, somente a “luz interior” (revelação contínua) conduz à compreensão de deus. Essa doutrina elimina a autocracia da Bíblia [mas não a sua validade] e desvaloriza todos os sacramentos. As mencionadas seitas tinham em comum o parcial divórcio do mundo, desencanto com as coisas deste mundo, prevalência do emocional sobre o racional.
Os pastores e camponeses dos cantões suíços se rebelaram contra o domínio austríaco e o Santo Império Romano (1499). Obtiveram sua independência. Em 1528, quase todo o povo suíço já se tornara protestante em conseqüência da revolta religiosa promovida por Ulrich Zwinglio, inspirada na reforma promovida por Martinho na Alemanha. João Calvino (1509 a 1564) francês, bacharel em direito, latinista, convertido ao protestantismo, foge da França, vive brevemente em algumas cidades e por fim se domicilia em Genebra. Encontrou o terreno aplainado por Zwinglio. Faz pregação com o fim de socorrer aqueles que receberam de deus uma luz fraca e que poderão aprender a encontrar na santa escritura a “suma do que deus quis transmitir por sua palavra”. Calvino presumia que, assim como os humanos, deus também tinha vontade e que esta era conhecida dos redatores da Bíblia. Ele conquista o poder político local e impõe as suas regras. Pretende fazer da sua cidade-igreja (Genebra) um “fanal em que todas as igrejas erigidas na reforma cristã possam buscar exemplo”. As suas idéias assemelham-se às de Santo Agostinho e foram expostas nas suas “Instituições da Religião Cristã” publicadas em 1536: (1) o universo depende da vontade de deus; (2) todos os homens são naturalmente pecadores devido à transgressão de Adão [Calvino pressupõe a real existência desse personagem bíblico]; (3) alguns homens são eleitos de deus para a salvação eterna e os demais perecem no inferno; (4) os predestinados têm moral elevada e devem auxiliar os fracos para maior glória de deus.
O reino espiritual refere-se à alma e o reino temporal às coisas humanas; ambos se completam. Independente da forma de governo (monarquia, aristocracia, democracia) o poder civil deve se submeter à palavra de deus. O espírito é mais importante do que a forma [isto lembra a lição de Paulo: a verdadeira circuncisão é a do coração, segundo o espírito e não a letra da lei]. O Estado deve tomar consciência do seu valor espiritual. Os governantes devem ser escolhidos pelo povo. A resistência do povo só se justifica diante de uma ordem do monarca contrária à lei divina. A resistência deve ser passiva, sem violência. O dever de obediência é a regra. Ao governo civil compete administrar e proteger a religião. A autoridade do magistrado provém de deus. O magistrado é o vigário de deus, ministro da justiça divina, providência, amparo, bondade, ternura e imagem de deus. Como guardião, o magistrado deve agir em sintonia com a lei e aplicá-la com rigor. O povo deve obedecer ao magistrado e ser governado de acordo com a lei.
O serviço exterior a deus deve ser prestado e a doutrina {calvinista} preservada. [Provavelmente, Calvino se refere ao trabalho mundano ao imaginar algo exterior a deus como se deus não fosse onipresente]. Os ministros da palavra divina (pastores) são dotados de consciência superior derivada do seu ofício o que os autoriza a dirigir e censurar a conduta de governantes e governados (Estado e povo). O Estado Cristão [sobre o qual Thomas Hobbes dissertaria mais tarde em seu “Leviatã” (1651)] deve assegurar a obediência do indivíduo ao verbo divino por todos os meios {inclusive a fogueira}. Idolatria e blasfêmia devem ser combatidas. Na sociedade civil deve reinar a equidade, a justiça, a tranqüilidade pública. A liberdade do povo deve ser conservada e respeitada pelo governante. A livre consciência do cristão não afasta a sua submissão à lei humana. Cada um deve dispor livremente do que é seu. Decoração no templo, ritual e qualquer prática da igreja católica são inadmissíveis. O sábado deve ser rigorosamente respeitado nos moldes judaicos.
A doutrina de Calvino ajustou-se aos propósitos do novo capitalismo e foi aceita pela grande burguesia européia. Aprofundou o individualismo possessivo. O crente foi liberado para ampla atividade econômica. A riqueza e o sucesso no trabalho são bênçãos divinas. A cobrança de juros e o lucro no comércio são moralmente lícitos. O trabalho útil é o modo único de agradar a deus. O fato de haver pessoas e povos eleitos de deus justifica: (1) as desigualdades sociais e econômicas entre pessoas e entre povos; (2) a superioridade de uns e a inferioridade de outros {aristocracia dos santos e predestinados}.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

COPA 2014 - V



Na seqüência dos jogos desta copa, a esperteza burra e a tática suicida aconteceram novamente. A seleção mexicana vencia a holandesa (1x0). No segundo tempo, para garantir a vitória, o técnico mexicano substituiu por um defensor o atacante que marcara o gol. Abdicou do ataque. Próximo do final da partida, ele colocou sua equipe na retranca. Nos acréscimos ao tempo regulamentar, a seleção holandesa marcou dois gols, o segundo por pênalti no minuto final do jogo, virou o placar a seu favor e se classificou para a fase seguinte.

Pretender com retranca assegurar um placar magro diante de uma equipe adversária de bom nível coletivo e de bons valores individuais equivale ao anseio por suicídio. Técnicos excessivamente cautelosos que se valem dessa tática têm gerado derrotas para as suas equipes. Isto acontece com freqüência em jogos nacionais e internacionais. Serve de exemplo a recente decisão do campeonato europeu entre os clubes Atlético de Madri e Real Madri (24/05/2014).

A seleção da Costa Rica também foi vítima da esperteza burra e da tática suicida. Vencia a seleção da Grécia (1x0). No segundo tempo recuou para garantir o resultado. Nos acréscimos ao tempo regulamentar os gregos empataram (1x1). Houve prorrogação em que a seleção da América Central se viu em palpos de aranha. Persistiu o empate. Na decisão por pênaltis a vitória coube aos costarriquenhos para alívio do seu treinador que teve mais sorte do que juízo. Tal comportamento ainda poderá se repetir até o final da copa. Em alguns treinadores, parece que o medo de perder suplanta a coragem de vencer.  

A seleção francesa venceu a nigeriana (2x0). A seleção africana mostrou-se melhor na maior parte do tempo. Sofreu pelo fato de ser uma seleção de negros do terceiro mundo a competir com uma seleção do primeiro mundo em um jogo arbitrado por um branco cidadão dos EUA. A seleção da Nigéria lutou contra uma adversária mediana: a seleção francesa; e contra outra adversária poderosa: a arbitragem. Teve anulado um gol legítimo. Além disto, o árbitro ignorou um pênalti escandaloso na área francesa. Duas covardes agressões contra jogadores africanos foram toleradas: (1) Cotovelada desferida por Giroud no rosto do africano fora da disputa por bola no primeiro tempo do jogo. O árbitro limitou-se a advertência verbal quando o caso era de expulsão. (2) Solada violenta de Matuidi que tirou o adversário africano da partida no segundo tempo. O árbitro limitou-se a advertência com cartão amarelo quando o caso era de expulsão (cartão vermelho). Próximo do final da partida a seleção francesa fez um gol a favor e a africana fez um gol contra. O segundo jogo da tarde desse mesmo dia (30/06) foi da seleção da Alemanha contra a seleção da Argélia. O empate no tempo regulamentar refletiu bem o equilíbrio entre as duas equipes (0x0). A seleção alemã venceu na prorrogação (2x1). No início da tarde do dia seguinte (1º/07) jogaram a seleção da Argentina e a seleção da Suíça. Houve empate no tempo regulamentar (0x0). Na prorrogação, venceu a platina com um só gol na bacia das almas (1x0). A reação suíça foi insuficiente para mudar o resultado. No final da tarde, jogaram as seleções da Bélgica e dos EUA, quiçá a partida mais descontraída. Empataram no tempo regulamentar (0x0). Os belgas forçaram os americanos a ficar na defensiva. Na prorrogação, venceu a européia (2x1). A americana perdia de 2x0. Reagiu mas não conseguiu inverter o placar a seu favor. 

A fase das partidas oitavas-de-final chegou ao fim. No jogo da seleção brasileira, a fisionomia do treinador era a de quem olha a vaca a se encaminhar para o brejo. Como se esperava, todas as partidas foram bem disputadas e os gols foram poucos. Continuou o festival de finalizações ruins. Inúmeras oportunidades de gol perdidas. Bons atacantes, porém maus artilheiros. Em jogo de várzea talvez não se erre tanto e de modo tão bisonho. Por outro lado, as equipes mostram-se fortes no sistema defensivo. Nervos à flor da pele. Fortes emoções. A atuação de alguns jogadores não correspondeu à fama. Restaram apenas os seus nomes como placas luminosas anunciando produto de validade vencida. A copa do mundo mostra a real dimensão de cada jogador sem a lente de aumento da propaganda, do clube dos bajuladores, dos agenciadores de compra e venda de atletas e daquela parcela da imprensa esportiva sensacionalista, deformadora e enganadora. Os famosos decepcionam em campo ao se apresentarem em tamanho natural, em preto e branco, sem artifícios. Destacaram-se alguns jogadores ainda não glorificados. O afunilamento no curso da competição torna os jogos cada vez mais difíceis para as equipes. A ânsia pela vitória e a preocupação com a classificação para a fase seguinte obscurecem o aspecto técnico e artístico do espetáculo. O aspecto estratégico e coletivo assume relevância maior e divide a responsabilidade entre todos os jogadores. O efeito paradoxal disto é que o resultado favorável fica na dependência do desempenho individual de alguns jogadores. Serve de exemplo o jogo entre Argentina e Suíça. Durante todo o tempo regulamentar as duas seleções atuaram bem e de forma aguerrida, mas não conseguiram converter em gols os seus esforços. Messi novamente mostrou suas deficiências e insuficiências. Faltou-lhe habilidade para escapar da marcação. Ele exibiu um futebol ordinário ao nível de qualquer jogador comum. Nos minutos finais da prorrogação, faz um passe normal ao seu companheiro Di Maria que marca o único gol da partida. Os mentecaptos atribuirão a vitória ao “passe maravilhoso” de Messi, tal como qualificam de “fantástico e extraordinário” o gol que ele faz ao cobrar pênalti. A vitória foi da garra argentina.

Para as quartas-de-final classificaram-se: Brasil x Colômbia; Holanda x Costa Rica; França x Alemanha e Argentina x Bélgica. Como se vê: 4 seleções americanas e 4 européias, a sugerir certo equilíbrio entre o futebol praticado na América e o praticado na Europa. Há que se considerar, entretanto: (1) a primeira fase em que seleções de todos os continentes estavam presentes; (2) a quantidade maior de seleções européias. Verificar-se-á, então, em termos proporcionais, a supremacia do futebol americano.




domingo, 29 de junho de 2014

COPA 2014 - IV



A fase de grupos encerrou-se (26/06/2014). Seleções não tradicionais progrediram. Para as partidas oitavas-de-final classificaram-se: 8 seleções americanas (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, EUA, México e Uruguai); 6 seleções européias (Alemanha, Bélgica, França, Grécia, Holanda e Suíça); 2 seleções africanas (Argélia e Nigéria). A nova fase com dois jogos por dia começou em 28/06 e terminará em 1º/07: Brasil x Chile; Colômbia x Uruguai; Holanda x México; Costa Rica x Grécia; França x Nigéria; Bélgica x EUA; Alemanha x Argélia; Argentina x Suíça. As seleções vencedoras disputarão as quartas-de-final. No primeiro jogo da nova fase a seleção brasileira empatou com a chilena: 1x1. Na decisão por pênaltis, a vitória coube à seleção brasileira. No entardecer do mesmo dia a seleção da Colômbia venceu a do Uruguai (2x0) em um jogo aguerrido onde se destacaram: James Rodriguez como artilheiro e Juan Cuadrado como o melhor e mais completo jogador colombiano até o momento. Fantástico o cabeceio dele de olhos abertos junto à trave do gol adversário para o interior da área em direção aos pés de James que marcou o segundo gol. A seleção colombiana lembrou a brasileira de outrora, ágil, confiante, alegre, eficaz, sem preocupação exagerada e sem medo de ser feliz.
A cada fase aumenta a dificuldade. Na disputa acirrada pela posse da bola jogadores agridem os adversários usando mãos, cotovelos e até os dentes. O jogador uruguaio Luis Suárez mordeu o ombro de um adversário italiano durante a partida. Lembrou a mordida que Mike Tysson aplicou na orelha de Evander Holyfield na luta de boxe em que os dois disputavam o cinturão dos pesos-pesados (1997). A FIFA excluiu Suárez do certame. Esse jogador é reincidente. Doravante será conhecido como “El Mordedor”.
Nota-se, nesta copa, certa padronização na prática do esporte decorrente do acúmulo de lições aprendidas e reproduzidas nos últimos 80 anos. Contribuem para essa reprodução: (1) os jogadores e treinadores contratados por clubes estrangeiros; (2) os clubes nacionais que circulam por países de diversos continentes para jogos oficiais ou amistosos; (3) os torneios internacionais; (4) as emissoras de televisão que transmitem jogos nacionais e internacionais. O público aprendiz aumentou em progressão geométrica a partir da segunda metade do século XX. Os ingleses inventaram o jogo de bola e as respectivas regras, praticado com os pés em terreno retangular de dimensões específicas, com duração limitada e número certo de jogadores. Enquanto a base do esporte foi criada pelos britânicos, a arte de jogar futebol foi criada e ensinada por mestres brasileiros. Quem são eles? Até agora, são apenas doze: Friedenreich, Petronilho, Leônidas, Domingos, Zizinho, Didi, Garrincha, Pelé, Gerson, Sócrates, Juninho Pernambucano e Robinho (ordem aproximada de antiguidade). Eles criaram e ensinaram: desarme seguro e sem falta; drible com e sem bola (curto, longo, elástico, meia-lua, corta-luz, finta de corpo; giro do corpo com a bola sob a sola da chuteira); pedalada, lençol (chapéu); passe de longa distância; troca rápida e progressiva de passes curtos em tabela; passe no espaço vazio para chegada do companheiro; toque de calcanhar eficaz como drible e como passe; cobrança de faltas com efeito especial; gol de bicicleta e de calcanhar.
Certamente por modéstia ou por não estarem cônscios do seu magistério, os citados jogadores nunca se consideraram mestres apesar das suas habilidades e criatividade. No entanto, eles ensinaram mediante o exemplo em campo tendo o público nacional e estrangeiro como testemunha e como corpo discente. O estádio era a escola. Ensino prático não premeditado e nem intencional. Jogadores nacionais e estrangeiros copiaram aquelas especiais habilidades e técnicas de execução e alguns atingiram o nível de excelência. No entanto, em sendo minoria, jogadores de excelente nível técnico nem sempre garantem vitória para sua equipe. Por diversos fatores próprios da condição humana, os jogadores têm desempenhos irregulares. Até as máquinas funcionam mal esporadicamente.
A imitação faz o costume e o costume pereniza o modelo. Imitar significa seguir o modelo que nos agrada ou interessa; reproduzir por semelhança. Cuida-se de procedimento comum responsável pela padronização de determinados tipos de conduta que caracterizam a moda, o estilo, o método, a profissão. Este significado positivo do verbo imitar não se confunde com o seu significado negativo: o de falsificar com o propósito de enganar, de imitar dolosamente em proveito próprio ou alheio. Imitar nem sempre é falsificar, mas falsificar é sempre imitar. Exemplos: (1) O comediante imita um político para divertir o público. Até aí, o artista atua legitimamente. Então, ele resolve adicionar injúria na sua representação. A partir daí, o artista ingressa na ilicitude: comete crime contra a honra do representado. (2) Pintor imita um quadro de Rembrandt para se convencer de que é tão bom quanto ele. Até aí, conduta legítima do artista e sua vaidade. Então, ele resolve vender o quadro falsificado como sendo original. A partir daí, o copista ingressa na senda do crime.
A imitação dos expoentes faz parte do processo de reprodução técnica e artística. A elegância, por exemplo, entendida como harmonia e distinção de maneiras, é imitada socialmente e supõe um modelo. Possivelmente, Ademir da Guia imitou Didi que por sua vez imitou a elegância e a eficiência de Friedenreich. A elegância prende-se à estética enquanto a eficiência prende-se à técnica. O grau de eficiência varia de um jogador para outro. Não há contradição alguma quando um jogador elegante e eficiente comete falta violenta, pois tal ação censurável se prende à ética. O senso estético, a capacidade técnica e a conduta ética nem sempre se conjugam na mesma pessoa ao mesmo tempo e no mesmo lugar. Jogadores como Beckenbauer, Falcão, Geovani, Pirlo, Riquelme, Rivaldo, Valderrama, Zidane, podem ter tomado Didi e Ademir da Guia por modelo, ainda que remota e indiretamente. São hipóteses de alta probabilidade porque derivam da observação dos fatos e da comparação dos dados através dos anos que evidenciam a semelhança de estilo. Após o nosso planeta ter se tornado uma aldeia global, os fatos e as análises tornaram-se acessíveis a bilhões de pessoas nos séculos XX e XXI.
O estilo elegante e eficiente não agrada à maioria dos brasileiros, embora se mantenha vivo como bem ilustra a maneira de atuar de jogadores como Oscar (Chelsea), Paulo Henrique (São Paulo) e Zé Roberto (Grêmio). A maioria dos brasileiros aprecia e valoriza mais o estilo impetuoso e rompedor de Leônidas, imitado por atacantes nacionais e estrangeiros como Ademir Menezes, Balotelli, Careca, Eusébio, Hulk, Jairzinho, Maradona, Messi, Neymar, Pelé, Rivelino, Romário, Ronaldo, Vavá e Zico (ordem alfabética). Esse estilo desperta no torcedor o garanhão que ele gostaria de ser. Montaria do sistema político e econômico, esse tipo de torcedor espera a sua vez de ser o cavaleiro.    

sexta-feira, 27 de junho de 2014

FILOSOFIA XIII


EUROPA (1600 a 1800).

Martinho Lutero, alemão, monge agostiniano, professor de teologia, rebela-se contra os abusos da igreja católica (1453 a 1546). Insurge-se contra as vendas de indulgências. Afirmava que necessária à salvação era a expiação pelos pecados cometidos e não a fácil absolvição obtida por compra de indulgências. Martinho se opõe às vendas de cargos na hierarquia eclesiástica, à veneração de relíquias, à escandalosa vida dos clérigos e à exploração de tabernas e casas de jogos pelos monges. Considera tudo isto contrário à verdadeira religião. Apoiado nas epístolas de Paulo e na doutrina de Agostinho, ele publica noventa e cinco teses em documento que afixou na porta da igreja do castelo de Wittemberg na Saxônia (1517). Sobre esse pilar ergueu a doutrina da justificação pela fé, que negava qualquer valor ao jejum, às peregrinações e aos sacramentos. Na doutrina desse monge, a fé está acima das boas ações, a razão é a prostituta do diabo e só a revelação traz a verdade. A justificação pela fé – pedra angular da construção luterana – se opõe à salvação pelo ritual e pelos milagres da igreja católica. Por melhor que seja a pessoa, se ela não tiver fé, não terá salvação. Martinho condena: (1) a teoria do sacerdócio, do vigário de Cristo, da intermediação dos padres entre deus e os crentes; (2) os sacramentos; (3) os aditamentos medievais à fé cristã tais como: o culto à Maria, a crença no purgatório, a invocação dos santos, a veneração de relíquias e o celibato do clero. Ele foi excomungado porque se recusou a abandonar essas idéias. Alijado da igreja católica, Martinho funda a igreja alemã independente cujo rito inclui o idioma alemão. Neste idioma ele escreve o Novo Testamento tornando-o acessível a todos que soubessem ler. A todos reconhecia o direito de ler e interpretar a Bíblia. O objetivo era possibilitar aos alemães constatarem por si mesmos as discrepâncias entre os ensinamentos de Jesus e os ensinamentos e práticas da igreja católica. Martinho rejeita o sistema eclesiástico e a vida conventual. Aboliu o celibato e os sacramentos (manteve o batismo e a eucaristia). A doutrina da predestinação e as escrituras ganham autoridade suprema.
Na Alemanha havia descontentamento com Roma e interesse em passar para o domínio dos alemães as terras pertencentes à igreja. Príncipes apóiam a reforma luterana e desafiam o poder do papa. A reforma prega a liberdade de consciência e faz da religião indisfarçável tema político. Só governará o Estado quem pertencer à seita protestante. [Esta norma prevaleceu nos EUA até 1960 quando, pela primeira vez, foi eleito um presidente católico].    
A revolução protestante iniciada na Alemanha marcou uma nova fase da civilização européia. Até o século XVIII (1701 a 1800) havia só duas cidades na Europa com mais de 500 mil habitantes: Londres e Paris. Havia poucas cidades com mais de 100 mil habitantes. A maioria das cidades tinha de 2 a 20 mil habitantes, nas quais nasceram algumas celebridades como Robespierre, Babeuf e Napoleão. Predominava a vida rural. Na região nórdica (Escandinávia) e oriental (Bálcãs, Rússia) cerca de 90 a 95% da população vivia na zona rural. Na região ocidental cerca de 70 a 90% da população vivia na zona rural. A prosperidade vinha do campo. Nas cidades funcionavam as feiras e se localizavam os comerciantes e seus armarinhos (lojas de tecidos e miudezas), os negociantes dos produtos da agricultura e da pecuária, artesãos, financistas, advogados, tabeliães, nobres e clérigos.
As relações entre camponeses e proprietários das terras nem sempre eram pacíficas. Havia tensão permanente a nublar a cordialidade entre as duas classes. Os campônios produziam a riqueza enquanto os senhores da terra acumulavam-na. A pesada carga tributária também era motivo de insatisfação do campônio com o governo. O descontentamento com o alto clero católico era generalizado. Aquele momento histórico europeu foi propício à expansão do protestantismo. Milhares de pessoas perderam a liberdade e a vida em decorrência dos conflitos religiosos. Católicos e protestantes se julgavam donos da verdade; seus dogmas eram postos como certezas absolutas, sem espaço para a tolerância. Havia governos católicos (Espanha, Itália) e governos protestantes (Holanda, Inglaterra). Motivos religiosos, políticos e econômicos misturavam-se na eclosão das guerras e revoluções.
Os místicos e reformadores contribuíram para acelerar a revolução protestante. A maioria localizava-se na Alemanha e nos Países Baixos (Holanda + Bélgica). Nessa região setentrional da Europa, o misticismo se tornou uma das mais populares formas de expressão religiosa desde o século XIV (1301 a 1400). A corrente mística era contra os sacramentos, os milagres sacerdotais e a intermediação dos padres entre deus e os crentes. Os místicos entendiam suficientes: (1) a submissão a deus; (2) a extinção dos desejos egoístas. No final do século XIV, John Wycliffe antecipa-se a Martinho no ataque ao catolicismo. Do ponto de vista político, a reforma decorreu: (1) do desabrochar da consciência nacional na parte setentrional da Europa; (2) do aparecimento de governos despóticos. Os principais focos do nacionalismo e do absolutismo foram: Inglaterra, França e Alemanha. O absolutismo monárquico desafiava o poder do papa. Segundo a teoria de Wycliffe, o poder temporal do papa tinha de ser transferido para o monarca. Os príncipes europeus aspiravam ao domínio temporal e também espiritual, incluindo a riqueza da igreja. Pretendiam se compensar da tributação incidente sobre suas propriedades. Os tributos cobrados pelo papa provocavam descontentamento por canalizarem para a Itália, a riqueza dos países setentrionais. 

quarta-feira, 25 de junho de 2014

FILOSOFIA XII - 17



EUROPA (1000 a 1600). Final.

Francis Bacon introduziu o método experimental na pesquisa científica como indispensável ao conhecimento verdadeiro e sistemático. A natureza deve ser observada diretamente a fim de se descobrir as leis que a governam. A indução e a experimentação são as vias para este desiderato. Ao contrário da dedução, a indução tem caráter material e permite avançar no conhecimento. A partir de fatos pesquisados chega-se ao conhecimento sobre fatos não incluídos na pesquisa (generalização racional aceita).
A autoridade, a tradição e a lógica silogística devem ser evitadas. A fonte do conhecimento é sensorial e a sua base é racional. Os fenômenos naturais apresentam uma face estrutural, o esquematismo latente e também uma face dinâmica, o processo latente responsável pelas mudanças. As duas faces são conexas. “Os sentidos são como o sol que torna visível a face da terra, mas esconde a do céu. Para viajar ao reino da verdade celeste é necessário abandonar o barco da razão humana e se colocar a bordo do navio da igreja”.
Francis considera estéril a filosofia que o antecedeu por nada trazer de prático à vida dos homens. Os filósofos parecem aranhas que tecem teias maravilhosas, porém alheias à realidade. Francis tem sido mencionado como fundador da ciência moderna. A sua divisa era: “saber é poder”. Na opinião dele, a filosofia natural há de ser ativa e fecunda em resultados práticos, sendo de pouco valor o conhecimento puramente teórico ou contemplativo. [Mais tarde, Karl Marx navegaria nessas águas]. Esta opinião evidencia o caráter utilitário da filosofia de Francis. Para ele, as idéias de Aristóteles favoráveis à vida contemplativa são adequadas ao bem privado, ao prazer e à dignidade do indivíduo. Os homens, entretanto, devem saber que nesse teatro da vida humana apenas deus e os anjos podem ser espectadores.
Os ídolos e as noções falsas obstruem o intelecto humano. {A teoria dos ídolos contribuiu para os estudos sobre ideologia e comunicação}.
O ídolo da tribo é erro que decorre da natureza humana: (1) ao tomar como verdadeira a imagem produzida pelos sentidos e simplificar o complexo segundo a conveniência {inércia do espírito, oportunismo}; (2) ao ignorar os resultados negativos da adivinhação e se fixar nos resultados coincidentes com a esperança {astrologia, quiromancia}; (3) ao imaginar coisas que correspondam a necessidades numéricas {cabala, numerologia}; (4) ao tratar a ação da natureza de modo análogo à ação humana e ver simpatias e antipatias nos fenômenos {alquimia, magia}.
O ídolo da caverna é erro individual e não da espécie humana: “cada pessoa possui sua própria caverna particular; interpreta e distorce a luz da natureza”. O indivíduo vê as coisas sob a luz a que está acostumado. [Pode estar tão enfurnado na sua profissão técnica, científica, artística, religiosa, que tudo interpreta à luz dessa atividade].
O ídolo do foro é erro decorrente da ambigüidade das palavras utilizadas na comunicação entre pessoas. A mesma palavra utilizada com significados diferentes gera desentendimento entre as pessoas. “O homem crê que a razão governa as palavras, mas também é certo que as palavras atuam sobre o intelecto e é isso que torna sofística e ociosa a filosofia e a ciência”.
O ídolo do teatro é erro proveniente dos sistemas filosóficos fundados em invenções como as peças de teatro que não retratam fielmente os fatos. Francis refere-se a Platão como trocista que cometeu o maior dos erros ao confundir teologia com filosofia. Ele qualifica Aristóteles de “pior dos sofistas”.
O método indutivo proposto por Francis compreende as tábuas de investigação. A primeira é a tábua de presença onde são arroladas as características concordantes do objeto sob observação. A segunda é a tábua de ausência onde são arrolados os casos discordantes. A terceira é a tábua das graduações onde são anotados os graus de variação ocorridos no objeto da investigação com o fim de identificar possíveis correlações entre eventuais mudanças.
Além das tábuas, há procedimentos complementares tais como: prolongar, transferir, inverter, mudar condições. Há fatores que o filósofo denomina de instâncias prerrogativas que forçam a investigação a um sentido determinado. Francis arrola mais de vinte fatores entre os quais as instâncias: (1) solidárias, quando os corpos são iguais em tudo salvo uma única característica; (2) migrantes, quando a natureza se manifesta repentinamente; (3) ostensivas, quando certa característica é evidente; (4) analógicas, quando um fenômeno esclarece outro.