domingo, 10 de abril de 2011

RELIGIÃO

NOVO TESTAMENTO – IV.

Paulo superou os apóstolos em número de cartas e de viagens. O intuito de Paulo era evidente: deixar por escrito as regras de organização da igreja e, ao mesmo tempo, afirmar a sua autoridade e independência em relação ao colégio de apóstolos. Das suas epístolas constata-se que Paulo outorgou a si próprio o título de apóstolo de Cristo. Afirma, falsamente, ter recebido o título diretamente de Jesus (matéria de artigo neste blog). Após a crucificação de Jesus, competia ao colégio apostólico a escolha dos novos apóstolos mediante escrutínio. Paulo não se submeteu. Na carta aos gálatas, gaba-se da sua independência em relação aos apóstolos e da sua própria autoridade outorgada por Deus e Jesus Cristo. Na Palestina, os cristãos eram vistos como um bando de vagabundos, anarquistas de uma nova seita. Intelectual, doutor na lei, fariseu, Paulo certamente achou um despropósito submeter o seu nome a um grupo com aquela fama e que ele aterrorizara tempos atrás.

Embora deficientes em cultura geral, os apóstolos receberam lições de Jesus durante três anos; adquiriram cultura religiosa, além da sabedoria advinda tanto da experiência comum como da experiência extática. Analfabetos, sim (condição geral dos palestinos); ignorantes, não. Entre os discípulos, Jesus escolheu 12 para o círculo interno da escola e os investiu de autoridade. A eles cabia escolher os novos apóstolos e discípulos na ausência definitiva de Jesus.

Paulo conta que viajou para a Arábia depois de ter visto Jesus, e que ficou no deserto por 40 dias. Não há prova dessa quarentena. Paulo tenta se nivelar a Jesus para impressionar o seu público (Jesus permanecera por 40 dias e 40 noites no deserto). Decorridos três anos, ele vai a Damasco anunciar o evangelho. Ameaçado de morte pelos judeus daquela cidade, foge para Jerusalém, onde conhece Pedro e Tiago, que lhe apertaram a mão e concordaram em dividir as tarefas: Paulo anunciaria o evangelho aos povos da Ásia (acabou incluindo cidades da Europa). Ele volta para Tarso, sua cidade natal, onde permanece por três anos. A seguir, convidado por Barnabé, muda-se para a igreja de Antioquia e de lá empreende viagens missionárias (como narrado no livro “Atos dos Apóstolos”) sempre em companhia de um apóstolo (Barnabé) ou discípulo (Marcos, Silvano, Timóteo, Lucas). Na segunda viagem, quando se encontrava em Corinto, escreve as duas primeiras epístolas à igreja da Tessalônica. Na terceira viagem, quando estava em Éfeso, escreve às igrejas da Galácia (uma epístola), de Roma (uma) e de Corinto (duas). Viaja então a Jerusalém, onde é detido por oficial romano como garantia de vida, pois os judeus tentaram matá-lo no templo. Ele conta que, escoltado por soldados romanos, foi enviado a Cesaréia e de lá removido para Roma por ter apelado ao imperador, onde ficou preso por dois anos. Durante esse período, escreve cartas aos efésios, colossenses, filipenses e a Filêmon. Obtida a liberdade, escreve duas epístolas a Timóteo (bispo de Éfeso), uma para Tito (bispo de Creta) e outra para os hebreus (propriamente aos judeus, pois não há notícia dos israelitas).

Das epístolas, depreende-se que Paulo estava ressentido pelo fato de não pertencer ao colégio apostólico organizado por Jesus. Ele desertara da corporação policial da Judéia e abandonara a missão, que lhe fora confiada pelo Sinédrio, de buscar e prender cristãos. Se voltasse a Jerusalém, seria preso como desertor e traidor. Portanto, deixou passar alguns anos para voltar. Se Paulo apostou no esquecimento, enganou-se. Foi chamado à responsabilidade pelos judeus. Ele apelou ao imperador. Após obter liberdade em Roma, Paulo visita as igrejas do Oriente. Ao retornar da viagem, foi preso e decapitado no dia em que Pedro foi crucificado. Os dois foram executados por ordem da autoridade romana. A lei romana reservava a crucifixão aos estrangeiros (Pedro) e a decapitação aos cidadãos romanos (Paulo). A prisão e a execução da pena de morte resultaram da perseguição aos cristãos iniciada após o incêndio da cidade de Roma (ano 64). Sobre os cristãos pesava a suspeita da autoria da ação incendiária, em virtude da fama de serem cidadãos desleais, perigosos, subversivos, pois não prestavam juramento nos pretórios romanos e se negavam a participar da religião cívica. Além disto, pregavam humildade e paz, censuravam os ricos e, segundo os seus acusadores, mantinham reuniões secretas.

Aos tessalônicos, por volta do ano 50, Paulo diz que o evangelho chegou aos crentes não só por palavras, mas, sobretudo, pelo espírito santo (coloca em segundo plano as palavras ditas por Jesus); elogia aqueles que abandonaram os ídolos; menciona as suas próprias dificuldades e sofrimentos por anunciar o evangelho; defende-se das acusações de usar linguagem bajuladora, de intuitos gananciosos e de exigir contribuição financeira dos crentes para a sua glorificação pessoal; dá graças pela compreensão recebida dos tessalônicos e por sofrerem as mesmas dores do que ele [(?) discurso bajulador]; lamenta que os judeus, não contentes em matar Jesus e os profetas, ainda perseguem os apóstolos e os impedem de falar aos gentios (= pagãos, estrangeiros); alegra-se com as boas notícias trazidas por Timóteo; dita prescrições morais, tais como: a mulher deve ser tomada por esposa, não pela lascívia e sim em santificação e honra; refere-se à morte como sono, do qual os fiéis serão despertados por Deus; vivos e mortos serão arrebatados entre nuvens ao encontro do Senhor nos ares; exorta os crentes à mútua consolação e a se manterem vigilantes, pois repentina será a vinda do Senhor; os crentes devem admoestar os insubmissos, consolar os desanimados, amparar os fracos, ser magnânimos com todos, sem retribuir o mal com o mal, dar graças por tudo, reter o que for bom em todas as coisas. Paulo formula votos para que Deus santifique a todos os crentes, que o espírito, a alma e o corpo (?) de cada um se mantenham íntegros ante a vinda de Jesus Cristo; fala da vingança de Deus, em chama de fogo contra quem desobedece ao evangelho; que Deus matará o iníquo com o sopro da sua boca. (Ele coloca no Pai Celestial de Jesus, a veia homicida, sinistra e cruel de Javé/Jeová, deus dos hebreus). Paulo pede obediência à sua epístola; que o pão seja pago por quem o come; todos trabalhem para não ser peso a ninguém: quem não trabalha, não come.

Na epístola aos gálatas, por volta do ano 56, após glorificar a si próprio, se dizendo apóstolo escolhido diretamente por Deus e por Jesus Cristo, Paulo alerta-os de que não existem dois evangelhos. Rebate os comentários de que a sua pregação era insuficiente à salvação e que a circuncisão era necessária. Ele se defende da acusação de oportunista porque mandara seu discípulo Timóteo circuncidar-se para agradar os judeus convertidos e depois se colocou contra a circuncisão para agradar os pagãos convertidos. Defende, ainda, a sua autoridade e a sua liderança ao afirmar que o seu evangelho vem de fonte divina e não humana. Rememora seu passado farisaico, sua conversão, sua independência em relação ao colégio apostólico e a qualquer apóstolo, as viagens missionárias por iniciativa própria, sem depender da autorização de ninguém. Põe-se no mesmo nível de Pedro em importância e autoridade: aquele que fez de Pedro o apóstolo dos circuncisos, fez também de mim o dos pagãos (falseou a verdade em benefício próprio). Informa que Pedro, Tiago e João, considerados as colunas do edifício cristão, deram a mão a ele e a Barnabé em sinal de acordo: aqueles três cuidariam dos circuncisos e estes dois cuidariam dos pagãos, especialmente dos pobres. Paulo gaba-se da censura que fez a Pedro durante a assembléia (episódio comentado em artigo publicado neste blog). Sem modéstia alguma, afirma sua unidade com Jesus (Cristo vive em mim); censura aqueles que retornaram ao paganismo: só quem tem fé pode ser filho de Abraão. Este é mais um trecho em que Paulo manifesta o seu judaísmo e, ainda, acrescenta: a lei que veio 430 anos depois (mensagem de Jesus) não pode anular o testamento feito por deus e a promessa feita a Abraão e à sua descendência (mensagem de Moisés). (O cristão autêntico certamente prefere ser filho do Pai Celestial de Jesus, do que ser descendente de um proxeneta).

Paulo reclama da perda de entusiasmo dos gálatas para com a pessoa dele e se declara enviado de Deus. Sem amparo na realidade, mas tão só para fins de convencimento dos crentes, Paulo diz que Ismael, filho da natureza (= da mãe escrava egípcia) perseguia Isaac, filho da liberdade (= da mãe judia) e que ele e os crentes são filhos da liberdade. Este sofisma ampara os judeus (= Isaac) que se dizem vítimas dos árabes (= Ismael). Segundo a opinião de Paulo, liberdade não significa entregar-se às obras da carne: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, superstição, inimizades, briga, ciúme, discórdia, ódio, ambição, inveja, bebedeira, orgia. A obra do espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança. O crente não deve ser ávido de vangloria; no seio da comunidade não há lugar para provocações e inveja; quem for surpreendido em falta deve ser admoestado com mansidão; todos devem se cuidar para não cair em tentação; ajudar um ao outro, porém, cada um carrega o seu próprio fardo; quem recebe a catequese deve repartir todos os seus bens com aquele que o instrui (o que se mostrou de grande valia ao tesouro do clero); o que o homem semeia isso mesmo colherá. Ao encerrar a missiva, Paulo diz que a escreveu de próprio punho e torna a condenar a circuncisão.

Por volta do ano 57, Paulo escreve à igreja de Roma (anciãos + bispos + presbíteros + diáconos + crentes). O intróito é o mesmo das epístolas anteriores. Embora a Ásia fosse a sua jurisdição, Paulo visitava cidades européias por serem pagãs. Percebe-se nele, o desejo de dividir com Pedro a proeza de catequizar os habitantes da capital do Império Romano. Essa ambição custou-lhe a vida. À igreja de Roma ele diz que o evangelho é uma força vinda de Deus para salvar os crentes; que Deus se manifesta do céu contra a impiedade e a perversidade dos homens que, pela injustiça, aprisionam a verdade. Paulo dá conselhos e dita preceitos éticos; critica a depravação de homens e mulheres e cita os vícios; as bênçãos cabem aos judeus em primeiro lugar e depois aos estrangeiros, embora não deva existir distinção entre as pessoas; justos são os que praticam a lei, pois não basta ouvi-la; censura quem ensina o bem e pratica o mal; a verdadeira circuncisão é a do coração, segundo o espírito da lei e não a letra; a incredulidade de Israel serviu para salvar os pagãos que receberam o evangelho; a injustiça humana realça a justiça divina; há um só Deus para judeus e pagãos. Paulo informa que levará o dinheiro coletado na Acaia e na Macedônia aos irmãos de Jerusalém que se acham na pobreza; depois, passará por Roma a caminho da Espanha. Finaliza dizendo que o Deus da paz não tardará a esmagar Satanás sob os pés dos crentes.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

RELIGIÃO

NOVO TESTAMENTO - III

Epístolas.

As cartas de autoria dos apóstolos são os primeiros documentos escritos sobre Jesus, sua doutrina e respectiva difusão. Os apóstolos utilizaram secretários para a redação, uns por serem analfabetos (como Pedro) e outros por comodidade (como Paulo). O conteúdo essencial dessas cartas é reproduzido nos evangelhos posteriormente escritos. Pedro, Tiago, Judas Tadeu e João, apóstolos da primeira hora, e Paulo, apóstolo da segunda hora, são os seus autores. Os apóstolos da primeira hora citam os ensinamentos e as recomendações que receberam diretamente de Jesus. Suas cartas são apelidadas de católicas (= universais) porque dirigidas às comunidades ou igrejas cristãs, salvo a segunda e a terceira de João, destinadas a determinadas pessoas. Entre as epístolas de Paulo umas são gerais e outras individuais. Há um padrão nas cartas devido à unidade de doutrina e ao propósito comum de fortalecer e expandir a comunidade cristã. De um modo geral, exortam o crente a: (i) perseverar na fé em Deus e em Jesus (ii) viver no amor e na luz de Deus; (iii) observar os mandamentos: amar a Deus sobre todas as coisas, amar ao próximo como a si mesmo e a se amarem reciprocamente; (iv) obedecer às autoridades; (v) comprometer-se com a verdade, com a justiça, com a bondade; (vi) praticar caridade; (vii) acautelar-se contra falsos profetas, homens ímpios que se introduzem nas comunidades cristãs e espalham a maldade; (viii) afastar-se dos prazeres carnais, da cobiça, da corrupção, da concupiscência.

Quanto ao prometido retorno de Jesus, os missivistas pedem paciência e que os crentes mantenham a esperança, pois esse dia chegará. Os crentes não devem prestar juramento; devem rezar quando estiverem tristes e cantar quando estiverem alegres; confessar seus pecados entre si; curar os enfermos pela unção com óleo e oração fervorosa; orar uns pelos outros. Os apóstolos enaltecem o reino espiritual e abjuram o mundo terreno, a riqueza material e a soberba dos ricos; qualificam o mundo terreno de reino do demônio; falam da alegria de receber notícias sobre a fé e a dedicação dos crentes à causa de Jesus Cristo.

A primeira epístola de Pedro é destinada às igrejas da Ásia (anciãos + presbíteros + crentes). Fala em misericórdia e ressurreição de Jesus. Exorta os fiéis à santidade, ao amor fraterno e sincero. Alerta-os para não se contaminarem com a inveja, maledicência, astúcia, fingimento. Usa a imagem do edifício espiritual: Jesus é a pedra angular e os crentes, o material, a comunidade eleita. Cita os deveres: (1) servir a Deus; (2) seguir o exemplo de Jesus; (3) obedecer às autoridades; (4) cumprir as obrigações com a família e com os patrões; (5) repudiar a luxúria, bebedeira, orgia, idolatria; (6) praticar a hospitalidade; (7) vigiar, orar, aplicar os dons em benefício alheio; (8) exercer o ministério com força divina.

Na segunda epístola, Pedro menciona a dificuldade de entender as cartas de Paulo. Há implícita censura nesta observação, fruto da desconfiança dos apóstolos da primeira hora quanto às reais intenções de Paulo, que parecia querer imprimir rumo à igreja cristã ao seu talante (o que de fato aconteceu). Pedro exorta os crentes a se unirem na fé, a vincular a fé à virtude, a virtude à ciência, a ciência à temperança, a temperança à paciência, a paciência à piedade, a piedade ao amor fraterno, o amor fraterno à caridade. Segundo Pedro, tal proceder abre as portas do reino de Cristo. Ele pede aos crentes que perseverem nesse proceder e dá o seu testemunho pessoal da majestade de Jesus. Na opinião dele, toda profecia da escritura deriva do espírito santo, não da vontade humana, e por isso, não comporta interpretação pessoal. Pedro qualifica os falsos profetas de imundos, cobiçosos, corruptos, libertinos, pervertidos, fontes sem água, filhos do Maligno. Compara aqueles que estiveram no caminho de Cristo e retornaram ao paganismo a uma porca lavada que volta ao lamaçal; um cão que volta ao seu vômito: tal é o louco que reitera suas loucuras (Provérbios, 26: 11).

Tiago, irmão de Jesus, presidiu ao primeiro concílio da igreja primitiva no ano 49. Bispo em Jerusalém, ele escreve para as 12 tribos da dispersão. Trata-se de homenagem retroativa ao povo hebreu expulso da Palestina nos séculos VI e V a.C. Tiago pretendia angariar a simpatia dos descendentes dos judeus que retornaram do exílio babilônico. Na sua epístola, com algumas expressões sem nexo e outras confusas (aliás, deficiência que se nota também nas outras epístolas e nos evangelhos) Tiago se dirige, na verdade, aos seus contemporâneos. Adverte-os das provações pelas quais passarão (ele próprio as vivenciou e foi morto por ordem de Herodes). Aconselha-os a ter paciência, fortaleza na fé e a suplicarem sabedoria a Deus, sem vacilar. Adota o discurso a favor da pobreza e contra a riqueza, típico da mensagem de Jesus (doutrina dos essênios).

Tiago ensina o caminho para ser feliz: meditar sobre a lei perfeita da liberdade. Censura os excessos da linguagem: quem não refreia a sua língua e engana o seu coração não pode ser piedoso. Diz que a língua inflamada pelo inferno incendeia o curso da nossa vida; que a língua é um mal irrequieto cheio de veneno mortífero; com ela abençoamos e amaldiçoamos; o gosto pelas contendas recheadas de mentiras é sabedoria terrena, humana, diabólica. Onde há ciúme e contenda há perturbação, diz ele. A religião pura e sem mácula inclui visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições e purificar-se da corrupção do mundo. O bom tratamento dado aos ricos dar-se-á aos pobres, porque Deus escolheu os pobres deste mundo para que fossem ricos na fé e herdeiros do reino celestial. Fé sem obras é morta em si mesma. O fruto da justiça semeia-se na paz para aqueles que praticam a paz sem fingimento, sem parcialidade. Quem é amigo do mundo é inimigo de Deus.

Tiago cita Provérbios 3: 34: Se ele (o Senhor) escarnece dos zombadores, concede a graça aos humildes, porém, um pouco modificado: Deus resiste aos soberbos, mas dá sua graça aos humildes. Ao citarem de memória passagens do AT, os apóstolos às vezes se enganam. Ele diz mais: que os crentes devem se purificar; recrimina a maledicência e a falta de virtudes nos homens. Na opinião dele, quem pode fazer o bem e não o faz, comete pecado. Censura os ricos que fraudam os salários dos trabalhadores; acusa-os de haver matado o justo que nenhuma resistência oferecera. (Os membros do Sinédrio, tribunal que julgou e condenou Jesus, eram pessoas abastadas). Segundo Tiago, a oração do justo tem grande eficiência. O crente deve orar e obrar para o retorno ao bom caminho de quem dele se afastou.

Judas Tadeu, irmão de Jesus e de Tiago, escreve aos fiéis incentivando-os a pelejarem pela fé. Rememora episódios da história do povo hebreu: êxodo, Sodoma e Gomorra, discussão entre o arcanjo Miguel e o demônio pela posse do corpo de Moisés. (Tradição judaica não documentada refere-se à ascensão de Moisés de corpo e alma. Em torno disto houve a tal discussão. O arcanjo submeteu o caso a Deus. O demônio foi repreendido). O NT menciona ascensão celestial de Jesus, tal qual o AT menciona a de Elias, ecoando a disputa entre judeus e cristãos. Judas Tadeu pede aos crentes que se edifiquem mutuamente fundados na fé, que orem no espírito santo e se conservem no amor de Deus.

João, em sua primeira epístola, diz que pretende completar a alegria dos fiéis para que não pequem e para que eles permaneçam na verdade e na justiça. Diz que os pecados dos fiéis já foram perdoados em nome de Deus e que eles venceram o Maligno. Aconselha-os a não amar as coisas do mundo. Segundo João, Deus é luz e amor. Quem odeia o seu irmão está nas trevas. Quem anda nas trevas não está em comunhão com Deus. O sangue de Jesus purifica os nossos pecados. Negar que somos pecadores é nos enganarmos. Jesus Cristo expia os pecados do mundo (em conseqüência, o holocausto é abolido e se poupa a vida dos cordeiros). Quem nega Jesus é anticristo. Há anticristos que saíram da comunhão. Quem permanece na comunhão tem a unção do espírito santo. Somos filhos de Deus por causa do amor de Deus por nós. Pecar é transgredir a lei. Jesus Cristo é o filho de Deus que se manifestou para destruir as obras do demônio. João explica: os crentes devem amar uns aos outros, mas não com palavras e sim com atos e em verdade. João garante: ninguém jamais viu Deus (logo, a divindade vista por Moisés era subalterna); nós estamos em Deus e Deus está em nós pelo vínculo do amor; quem nasce de Deus vence o mundo que jaz sob o Maligno.

A segunda epístola de João é endereçada a uma senhora e seus filhos. O apóstolo se alegra ao saber que essas pessoas andam na verdade. Adverte-as sobre o anticristo. Roga que persistam na doutrina. A terceira epístola de João é endereçada a um indivíduo chamado Gaio. O apóstolo felicita Gaio por andar na verdade e pelas obras. Censura a conduta de Diótrefes, por não receber bem os irmãos na sua comunidade e espalhar coisas ruins. João mostra simpatia por uma pessoa de nome Demétrio, possivelmente, seu discípulo.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

RELIGIÃO

NOVO TESTAMENTO – II.

Atos dos apóstolos.

Lucas é o autor desta narrativa iniciada como se fora uma carta dirigida à pessoa de nome Teófilo a quem, antes, ele já havia endereçado o evangelho que escrevera. No evangelho, Lucas trata essa pessoa como excelentíssimo, tratamento este que se defere a alguém de elevada posição na sociedade, ou, por qualquer título, merecedor de alta consideração. Ainda no prefácio, Lucas diz que a primeira narração (evangelho) referia-se aos ensinamentos e às ações de Jesus e que esta segunda narração referia-se aos acontecimentos posteriores à ascensão de Jesus ao céu.

A narrativa se divide em duas partes. Na primeira, Lucas relata o comportamento dos apóstolos durante e depois da ascensão de Jesus. Em assembléia, os 11 apóstolos escolhem Matias para ser o 12º e ocupar o lugar de Judas Iscariotes no colégio apostólico. No dia de Pentecostes (50º dia depois da páscoa) o espírito santo desce sobre a assembléia formada de 120 pessoas. Nesse número incluíam-se homens e mulheres fiéis, discípulos e apóstolos. Os membros da assembléia passam a conversar em diferentes línguas. Pedro faz um discurso de autenticação: declara Jesus o Senhor e o Cristo. Pedro consegue as primeiras conversões dos judeus ao cristianismo. Prega a união dos fiéis em comunidade: um só coração, uma só alma, um só patrimônio. Apóstolos e discípulos eram considerados nazarenos, porque consagravam sua vida a Deus; eram vistos como nova seita religiosa. Os que eram proprietários de terras e casas vendiam-nas e entregavam o produto da venda ao colégio apostólico. Os bens eram repartidos entre os membros da comunidade, segundo a necessidade de cada um. A administração dos bens da comunidade foi confiada a diáconos eleitos entre os membros da assembléia (mais ampla do que o colégio apostólico).

Lucas narra: (1) os milagres dos apóstolos; (2) a prisão de Pedro e João por ensinarem em nome de Jesus; (3) a prisão e a morte do diácono Estevão sob acusação de blasfêmia contra a lei de Moisés e contra o lugar santo (templo); (4) a dispersão dos membros da comunidade cristã de Jerusalém pelas diferentes regiões da Palestina, a fim de escapar da perseguição dos judeus; (5) a conversão de Saulo de Tarso no caminho de Damasco e o seu batismo por Ananias; (6) as pregações de Saulo (Paulo) em Damasco e a sua fuga para a cidade de Tarso a fim de não ser morto pelos judeus de fala grega; (7) a participação de Paulo (Saulo) na assembléia de Jerusalém; (8) a visão de Pedro e a sua atividade como apóstolo. Lucas narra, ainda, o episódio na casa de Cornélio, em Cesaréia, quando Pedro expõe o conceito universal de Deus: que não faz distinção de pessoas, mas em toda nação lhe é agradável quem o temer e fizer o que é justo. Em Jerusalém, Pedro é censurado pelos fiéis circuncisos por comungar com pessoas incircuncisas. Pedro os convence de que fizera a vontade de Deus e que a mensagem de Jesus não se destinava apenas aos judeus, mas incluía os pagãos. Lucas ainda menciona: (1) a fundação da igreja na Antioquia pelo apóstolo Barnabé e a conversão de muitos pagãos; (2) a morte de Tiago; (3) a prisão de Pedro por ordem de Herodes Antipas, a milagrosa libertação por um anjo e a morte do rei.

A segunda parte da narrativa é dedicada à difusão dos ensinamentos cristãos fora da Palestina, pela Ásia Menor e Europa. Lucas relata: (1) as atividades missionárias de Barnabé e de Saulo, que passa a se chamar Paulo; (2) a controvérsia no concílio dos apóstolos em Jerusalém sobre os requisitos a serem preenchidos pelos novos adeptos, inclusive sobre o valor da circuncisão, quando ficou decidido que: (i) dos novos adeptos devia ser exigida apenas a abstenção de carnes sacrificadas aos ídolos, do sangue, da carne sufocada e da impureza (ii) a circuncisão não era obrigatória; (3) a delegação dada a Paulo, Barnabé, Judas e Silas, para que levassem a decisão do concílio às igrejas da Antioquia, Síria e Cilícia; (4) a discussão e a separação entre Paulo e Barnabé por causa de Marcos (Barnabé queria levar Marcos na viagem e Paulo se opunha – Barnabé seguiu para um lado e Paulo para outro); (5) o convite que Paulo faz a Timóteo, discípulo de ótima reputação junto à comunidade cristã de Listra e Icônio; (6) a prisão de Paulo e Silas, sob acusação de amotinarem a cidade; (7) o encontro de Paulo com os discípulos de João Batista em Éfeso (os discípulos fiéis a João Batista não se misturavam com os discípulos fiéis a Jesus); (8) as viagens posteriores à Macedônia, Grécia, Mileto, Tiro, Cesaréia e Jerusalém; (9) a prisão e o julgamento de Paulo nesta última cidade, sob acusação de blasfêmia contra o templo e a lei de Moisés; Paulo afirma ser judeu convertido ao cristianismo; o povo judeu não se convence e pede a morte de Paulo; o tribuno (autoridade pública) determina o recolhimento de Paulo com açoites; Paulo se declara romano de nascimento e cita a norma que vedava açoitar um romano; ele é libertado, mas o tribuno ordena o seu comparecimento perante o Grande Conselho judaico; no julgamento, Paulo se declara fariseu, filho de fariseus e que fora preso por causa da sua crença na ressurreição, o que dividiu o tribunal: de um lado, os juízes fariseus que acreditavam na ressurreição dos justos; de outro, os juízes saduceus que não acreditavam; os ânimos se exaltaram; a autoridade romana afasta Paulo e o recolhe na cidadela, sem uma sentença; (10) a manifesta intenção de um grupo de judeus de acabar com a vida de Paulo; por cautela, o tribuno o despacha para Cesaréia, onde ele foi entregue ao governador; (11) o julgamento em Cesaréia, sob acusação de pertencer à seita dos nazarenos, de ser uma peste que fomentava a discórdia entre os judeus no mundo inteiro; Paulo nega as acusações; o governador suspende o processo e mantém Paulo recluso, porém, permite a assistência de companheiros; (12) o novo julgamento, após o decurso de 2 anos, perante outro governador; Paulo invoca a cidadania romana e apela para César; o governador o despacha para Roma; (13) o acidente durante a viagem: o barco enfrenta forte tempestade e se desvia para a ilha de Malta, onde os navegantes foram bem recebidos; Paulo cura o pai do chefe da ilha, seu hospedeiro; (14) a partida de Malta, após 3 meses, a recepção de Paulo em Roma por membros da comunidade cristã; a licença para morar em casa própria, embora vigiado por um soldado; a prisão domiciliar que durou 2 anos. Neste ponto, termina a narrativa de Lucas.

Comentário. Os judeus convertidos eram poucos. A maioria dos judeus permaneceu fiel a Moisés, tanto os que residiam na Palestina, como os que viviam em cidades de outros países. Os judeus e pagãos convertidos ao cristianismo eram perseguidos pelos judeus e pagãos não convertidos. Paulo mostrou-se hábil argumentador e se valeu da sua cultura geral e jurídica. Invocava com pertinência tanto a lei hebraica como a lei romana, sempre que essas leis lhe fossem favoráveis. Confundiu os tribunais da Palestina. Em Roma, viveu em liberdade por alguns anos até ser preso e sentenciado à morte por delito contra o Estado romano.

domingo, 3 de abril de 2011

RELIGIÃO

NOVO TESTAMENTO – I.

Encerrado o resumo dos livros do Antigo Testamento (AT), passo a resumir os livros do Novo Testamento (NT), tarefa com término previsto para a véspera da semana santa.

Enquanto o fio condutor do AT é a aliança entre o deus Javé, o líder Moisés e o povo hebreu (particularidade), o fio condutor do NT é a doutrina de Jesus, a sua fonte divina, tendo como destinatários judeus e pagãos (universalidade). Os escritores do NT procuram imitar os escritores do AT (continuum da cultura religiosa hebraica). O caráter ficcional do AT prossegue no NT. Tanto lá como cá, a divindade é antropomórfica e assume posições próprias do mundo terreno: senta em um trono (realeza), tem uma direita e uma esquerda, ambas poderosas, a dar inveja ao Mike Tysson.

Simpatia e antipatia, fanatismo e moderação, realidade e fantasia, mesclam-se nas escrituras. Personagens são enaltecidos ou denegridos conforme a bílis do escritor. O engodo é o mesmo no AT e no NT: afirmar que se trata da palavra de Deus, ou da inspiração do espírito santo, quando, na verdade, trata-se de obra humana, literatura direcionada à doutrinação, onde a história e o bom senso ocupam espaço pequeno. Os cultores da bíblia, espertos para enganar, servem-se do falacioso argumento: o campo é da fé e não da razão. Esses indivíduos (papas, sacerdotes, pastores, rabinos) apostam na debilidade mental e emocional do crente, na fé cega, como se a fé lúcida fosse impossível ou pecaminosa. Todavia, o ser humano não deve abdicar da razão, seja qual for o assunto. A razão humana reflete a divina, posto que Deus é Luz (razão, inteligência, sabedoria) e os humanos são suas criaturas.

O NT compõe-se: (i) de quatro livros (evangelhos segundo Mateus, Marcos, Lucas e João); (ii) da narrativa dos atos dos apóstolos feita por Lucas; (iii) das cartas dos apóstolos Pedro (2), Tiago (1), João (3), Judas Tadeu (1), Paulo (14); (iv) do livro profético de João: Apocalypse. Os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas são chamados sinóticos porque é possível perceber a semelhança entre eles num lance de olhar. Apóstolo era o discípulo de Jesus investido de autoridade para ensinar a doutrina, curar enfermos, fundar e organizar igrejas. Apóstolos da primeira hora eram aqueles que conviveram com Jesus e o acompanharam desde o nascimento da comunidade cristã. Apóstolos da segunda hora eram os novos adeptos que não conheceram Jesus, como Paulo, Marcos, Lucas. O NT constitui-se de escritos apostólicos do século I, anos 50 (epístolas), 60/70 (evangelhos + atos), 80/100 (João + Apocalypse). O intervalo de tempo entre a crucifixão e as escrituras deu azo a distorções e mitos.

Essas escrituras tentam reproduzir os ensinamentos transmitidos oralmente, os debates com adversários, os óbices à catequese, as atividades terapêuticas e outros aspectos da vida de Jesus. Narram os acontecimentos que precederam o nascimento de Jesus, as circunstâncias do nascimento dele e do primo João; a pregação de João, o ritual de batismo (daí o apelido João Batista), a morte de João Batista; a pregação de Jesus, tentações, milagres, curas, êxtase, padecimentos, crucifixão, ressurreição e ascensão celestial; os testemunhos e as atividades dos apóstolos; a difusão da nova doutrina pelas cidades da Ásia Menor e Europa no século I (anos 01/100); o parto da igreja cristã primitiva e a presença do espírito santo.

Naquela época, os essênios, pessoas de hábitos simples e higiênicos, dedicadas à vida mística, formavam comunidades no Egito, Síria, Palestina. Jesus pertencia à comunidade da Palestina; trajava-se e comportava-se como nazareno, inclusive na aparência física (cabelo e barba compridos). Por motivos não relatados, Jesus fundou a sua própria escola e comunidade, que refletiam a organização, os costumes e a doutrina dos essênios. Jesus era tratado como profeta e mestre (rabi) por seus contemporâneos, salvo a gente da sua cidade natal. A igreja cristã primitiva não se confunde com a igreja católica organizada a partir do concílio de Nicéia (ano 364). A igreja católica se considera herdeira de Jesus, ou noiva de Cristo.

Por determinação de César Augusto, imperador romano ao tempo dos pais de Jesus, a Palestina foi dividida em quatro regiões, cada qual governada por um tetrarca. A região da Galiléia (Norte da Palestina) coube a um príncipe judeu de nome Herodes Magno. Jesus nasceu durante o governo desse príncipe. A região da Judéia (Sul da Palestina) foi confiada a um procurador romano. Na época de Jesus adulto, o procurador era o general romano Pôncio Pilatos; o governador (rei) da Galiléia era o príncipe judeu Herodes Antipas, neto de Herodes Magno. Grupos de judeus planejavam repetir a façanha de Judas Macabeu: expulsar os estrangeiros da Palestina. Sob a justificativa de que o seu reino não era deste mundo, Jesus negou-se a liderar esse movimento ou dele participar. Provavelmente, ele percebeu a disparidade de forças entre judeus de um lado e romanos de outro. Profetizar a derrota dos judeus rebeldes foi tarefa sem embaraço.

Apesar desse distanciamento político, Jesus foi injustamente acusado, julgado e condenado à morte pelo Sinédrio (tribunal dos judeus) por blasfêmia (intitular-se filho de Deus) e por subverter a ordem ao instilar no povo o vírus da revolta e proibir o pagamento de imposto a Roma (intitular-se rei). Tanto o príncipe judeu Herodes, como o procurador romano Pilatos, não reconheceram culpa alguma em Jesus. Simplesmente, não o levaram a sério. No entanto, os sacerdotes, os escribas, os anciãos e o populacho de Jerusalém, convocados por Pilatos para o julgamento, reunidos no pátio do pretório, não se contentaram com as chibatadas aplicadas em Jesus; insistiam na aplicação da pena de morte aos gritos: “crucifica”. Em derradeira tentativa de livrar Jesus, Pilatos disse que soltaria quem o povo escolhesse: Jesus ou Barrabás (preso por homicídio). Incitado pela maioria dos sacerdotes, escribas e anciãos, o populacho escolheu Barrabás. Disto resultou a crucifixão de Jesus.

No direito romano, a pena de morte era executada mediante crucifixão, para o estrangeiro e decapitação, para o cidadão romano. Depois da crucifixão de Jesus, estourou a revolta armada (ano 66). As tropas romanas sufocaram-na e destruíram Jerusalém (ano 70); do templo, não sobrou pedra sobre pedra. Fecha-se a cortina da história dos hebreus, cujos descendentes (judeus e israelitas) dispersaram-se pelo mundo.

sábado, 2 de abril de 2011

RELIGIÃO

ANTIGO TESTAMENTO – FINAL.

Eclesiastes.

Eclesiastes significa assembléia ou aquele que comanda uma assembléia. Este livro é uma coletânea de meditações sobre a vida humana atribuídas ao personagem de nome Eclesiastes, que seria o próprio Salomão, como se deduz do cabeçalho do livro: Palavras do Eclesiastes, filho de Davi, rei de Jerusalém. No prólogo, a mais conhecida das máximas: Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade. Vaidade da sabedoria: o acúmulo de sabedoria é vento que passa; quem aumenta a ciência, aumenta a dor. Vaidade dos prazeres: ao pecador Deus incumbe acumular bens que depois passará a quem lhe agradar; isto, ainda, é vaidade e vento que passa. Vaidade das riquezas: aquele que ama o dinheiro nunca se fartará; aquele que ama a riqueza não tira dela proveito; também isso é vaidade. Diz o sábio: há tempo para tudo, para cada coisa há um momento, debaixo dos céus: tempo para nascer, tempo para morrer, tempo para plantar, tempo para colher. O livro faz referência: (i) às injustiças do mundo: o destino dos racionais é o mesmo dos irracionais: a morte; nada há de melhor para o homem do que se alegrar com os frutos do seu trabalho; (ii) aos tormentos da vida humana; (iii) aos conselhos de piedade; (iv) às máximas de sabedoria: Deus criou o homem reto, mas é o homem que procura os extravios; (v) à submissão ao rei: juramento de fidelidade tendo Deus como testemunha; (vi) ao igual destino dos homens: tudo que tua mão encontra para fazer, faze-o com todas as tuas faculdades, pois que na região dos mortos, para onde vais, não há mais trabalho, nem ciência, nem inteligência, nem sabedoria; quem observa o vento não semeia e quem examina as nuvens não sega (não ceifa, não corta). No epílogo, o autor sintetiza: teme a Deus e observa os seus preceitos; é este o dever de todo o homem.

Comentário. A sabedoria não é vento que passa; perdura enquanto o sábio vive e aproveita à posteridade (tradição cultural). Quem ama a riqueza e é rico, dela tira proveito na vida terrena. Muito conveniente ao soberano poeta incluir entre os preceitos éticos a fidelidade dos súditos. Nenhuma certeza há quanto à região dos mortos, salvo a localizada na Terra (sepultura, cremação). Se a sabedoria provém de Deus e se Deus dita leis, então, há inteligência no mundo espiritual. Preceitos são formulados pelos humanos e não por Deus.

Eclesiástico.

Este livro foi escrito por volta do ano 200 a.C., no período em que a Palestina era disputada pela Síria e pelo Egito. O autor chama-se Jesus (xará do Cristo). Trata dos aspectos da vida humana relacionados com os mandamentos divinos e à fidelidade ao Senhor. A primeira parte é dedicada à origem da sabedoria, amor à sabedoria, felicidade do sábio, temor ao Senhor, justiça humana e divina, piedade filial, médicos e terapias, cautela nas relações sociais, disciplina da língua, riqueza e pobreza, distribuição de bens, liberdade do homem, juízos temerários, autodomínio, moderação, mansidão, bondade, humildade, amizade, prudência, mulheres, mesquinhez, inveja, hipocrisia, insensatez, governo, negócios, orações, exortações e outros tópicos. Eis alguns: toda sabedoria vem do Senhor Deus; como é infame aquele que abandona seu pai, como é amaldiçoado por Deus aquele que irrita sua mãe; tua mão não seja aberta para receber e fechada para dar; faças justiça tanto para o pequeno como para o grande; feliz o homem que persevera na sabedoria e que se exercita na prática da justiça; antes de julgar, procura ser justo; antes de falar, aprenda; a boa palavra multiplica os amigos e apazigua os inimigos; o amigo não se conhece durante a prosperidade; não abandones um velho amigo, pois o novo não o valerá; quem revela o segredo de um amigo perde a sua confiança; estende a mão para o pobre; não avalies um homem pela sua aparência; não tragas um homem qualquer à tua casa; o olhar do invejoso é mau; não há cólera que vença a da mulher; o homem sensato crê na lei de Deus; doce é a vida do operário que se basta a si próprio.

Na segunda parte do livro, o autor louva a Deus e aos antepassados; fala da grandeza de Deus na criação e elogia vultos da história do povo hebreu. Na terceira parte, há um apêndice em que o autor se refere aos filisteus e aos samaritanos de modo pejorativo; autentica o seu livro; lança uma oração e exorta todos à busca da sabedoria.

Daniel.

Este livro se divide em três partes. A primeira relata o recrutamento de Daniel e outros jovens bem dotados do ponto de vista físico e intelectual para o serviço do rei da Babilônia (Nabucodonosor II). Ao fim de três anos de estudos sob orientação dos magos, os jovens se apresentaram ao rei, foram entrevistados e se tornaram conselheiros. Chamados para adivinhar e interpretar o sonho do rei, os escribas e feiticeiros acharam a tarefa impossível. O rei mandou mata-los. Daniel solicitou um prazo para executar a tarefa e impedir o morticínio. Orou ao seu deus e obteve a resposta. O rei sonhara com uma estátua com cabeça de ouro, corpo de prata, pernas de bronze e pés de barro. Daniel interpretou o sonho. O rei ficou agradecido, deu-lhe muitos presentes e o nomeou governador da província da Babilônia, chefe dos escribas e dos magos. Companheiros de Daniel descumpriram as ordens do rei e não se prostraram perante a estátua de ouro que ele mandara construir, motivo pelo qual foram jogados em uma fornalha. Além de não se queimarem, eles passeavam pelo fogo orando ao Senhor. O rei glorifica o deus dos judeus. Durante o governo de Baltazar, filho e sucessor de Nabucodonosor II, Daniel, vítima de intrigas palacianas, foi jogado na cova dos leões. No dia seguinte, o rei foi à cova e chamou por Daniel. O profeta respondeu, dizendo-se protegido do Senhor: os leões ficaram com a boca fechada. Daniel foi retirado da cova e nela o rei mandou jogar os acusadores com as respectivas famílias; um banquete para os leões.

Na segunda parte do livro, narram-se visões proféticas, oração de Daniel, destino do povo judeu, disputa dos reis pelo domínio dos povos e a profecia contra Antíoco IV (175/163 a.C.) descrito como homem vil, sem dignidade real, da dinastia selêucida que governava a Palestina e a Síria. Essa parte do livro termina com um ser antropomórfico que apareceu a Daniel e lhe revelou o futuro; menciona os tempos messiânicos e anuncia a morte do profeta.

A terceira parte (apêndices) contém três pequenas histórias: a de Suzana, a do ídolo Bel e a do dragão. Suzana era mulher bela e piedosa, casada e educada na lei de Moisés. Dois juizes se apaixonaram por ela. Frustrados por não obter os favores sexuais da bela mulher, os juizes a denunciaram perante a assembléia dos anciãos e prestaram falso testemunho. Suzana foi condenada à morte por adultério. Presente à sessão de julgamento, Daniel protestou, certo da injustiça. Acusou os juízes de mentirosos. Daniel pediu que os acusadores fossem ouvidos em separado. Os juizes acusadores deram respostas diferentes à mesma pergunta. A sentença de Suzana foi cancelada. Os acusadores foram condenados à morte. Quanto a Bel, ídolo da Babilônia, Daniel se recusou a lhe prestar culto; disse que já cultuava um deus vivo e aquele era um deus morto. O rei contestou: morto era o deus de Daniel; o deus babilônico comia e bebia as oferendas. Daniel replicou: isto era impossível, porque o deus era de barro por dentro e de bronze por fora. Para verificar de que lado estava a verdade, o rei depositou oferendas ao ídolo e evacuou o recinto. Antes do trancamento da porta, cinzas foram espalhadas por todo o chão, a pedido de Daniel. Na manhã do dia seguinte, o rei verificou que as portas ainda estavam lacradas. Ao abri-las, viu que as oferendas tinham sido consumidas. Daniel, então, chamou-lhe a atenção para o piso, todo marcado por pés de adultos e crianças. Os sacerdotes, esposas e filhos, entravam por uma porta secreta embaixo da mesa de oferendas e as consumiam. O rei mandou matar a todos e entregou o ídolo a Daniel, que o destruiu. Quanto ao dragão, deus vivo que come e bebe, Daniel também se recusou a adorá-lo. Afirmou que mataria aquele dragão sem arma alguma. O rei permitiu que Daniel provasse o que afirmava. Daniel preparou um cozido. Ao comê-lo, o dragão morreu. Os sacerdotes se enfureceram. Daniel foi novamente lançado na cova dos leões, mas não foi devorado. O rei libertou-o no 7º dia e lançou seus detratores na cova. Parece que Daniel hipnotizava os leões. Enquanto ficou na cova, Daniel se alimentava do que o profeta Habacuc lhe trazia da Judéia, nas asas do Anjo do Senhor. Linha aérea Judéia-Babilônia-Judéia. Angel Airways Co. Vôos diários. Teve imitador no Brasil: “Voe pelas asas da Panair”.

Macabeus I e II.

Estes livros foram escritos por volta de 100 a.C. No primeiro, o autor conta que Alexandre Magno, antes de morrer, ainda jovem, repartiu o império entre cortesãos e amigos. Narra a conquista do Egito por Antioco IV, o assalto a Jerusalém, o edito do rei para a união dos povos sob sua jurisdição, impondo a religião pagã a todos e proibindo os ritos judaicos. Aos desobedientes aplicar-se-ia a pena de morte. Matatias, líder judeu, rebela-se contra o real decreto e contra os judeus que aderiram à idolatria; convida os fiéis à divindade para segui-lo; abandonou seus bens e foi para o deserto. Alguns seguidores foram mortos pelos guerreiros da Síria. Isto levou os fiéis a se organizarem sob o comando de Matatias, a enfrentar os sírios, a massacrar os judeus prevaricadores e traidores, a circuncidar crianças à força, e a viver sob as próprias leis. Judas Macabeu, filho de Matatias, o sucedeu no comando e promoveu incursões por todo o território judeu, expulsando os ímpios. Ele, seus irmãos e exército, venceram os sírios invasores, entraram em Jerusalém, purificaram o templo, atacaram os vizinhos hostis à Judéia, derrotaram forças inimigas e celebraram aliança com Roma. Judas morre em combate e é sucedido por seu irmão Jônatas. Com a prisão de Jônatas, outro irmão, Simão, assume o comando e renova a aliança com Roma e Esparta. Desfrutaram a independência por 100 anos.

O segundo livro começa com as cartas aos judeus do Egito e a Aristóbolo, conselheiro de Ptolomeu, rei daquele país. Há um prólogo em que o autor diz que resumiu o conteúdo de 5 livros escritos por Jasão de Cirene, sobre os acontecimentos no tempo de Judas Macabeu e de seus irmãos: a purificação do templo, as guerras sustentadas contra Antioco Epifanes e seu filho, as manifestações celestiais em favor dos bravos que pelejaram pelo judaísmo, que se tornaram senhores do país, que puseram em fuga as hordas bárbaras, que recobraram a posse do templo, que livraram a cidade e restabeleceram as leis. A seguir, relata perseguições religiosas, a revolta e a vitória de Judas Macabeu e repete os temas do primeiro livro.

Fim do resumo dos livros do Antigo Testamento.

quinta-feira, 31 de março de 2011

RELIGIÃO

ANTIGO TESTAMENTO - X.

Isaías – terceira parte (capítulos 56/66).

A terceira e última parte do livro de Isaías contém profecias relativas ao exílio dos judeus e à restauração. Entre os judeus havia facções que se rivalizavam. O Senhor exige do povo respeito ao direito e que se pratique justiça; acolhe o estrangeiro e o eunuco que observarem os sábados e se afeiçoarem à aliança; condena a indignidade das autoridades, a idolatria e os costumes imorais do povo; consola os aflitos. Isaías critica o convencional jejum, distante dos princípios essenciais; diz que o jejum que o Senhor aprecia é romper as cadeias injustas, livrar os oprimidos, repartir o alimento com o esfaimado, abrigar os desabrigados, vestir os maltrapilhos; os pecados do povo são obstáculos à felicidade, barreira entre os homens e a divindade. Há, no livro, o oráculo de glorificação de Jerusalém. Isaías se diz portador da boa nova aos humildes, com poderes para curar, anunciar aos cativos a redenção e a liberdade; que o Senhor fará germinar a justiça e a glória diante de todas as nações; exalta Sião; fala das ameaças e promessas do Senhor.

Malaquias.

Esse profeta foi precursor da reforma empreendida por Neemias. Fala do amor da divindade por seu povo, do pacto de vida e prosperidade, da violação da lei pelos sacerdotes, do desrespeito à santidade do matrimônio (casamentos com estrangeiros), da fraude no dízimo (sonegação aos cofres do clero). Malaquias fala em mensageiro que preparará o caminho do Senhor cuja presença purificará os filhos de Levi (tribo de sacerdotes). O Senhor virá para julgar mágicos, adúlteros, perjuros, os que retêm o salário do operário, os que oprimem a viúva e o órfão, os que maltratam o estrangeiro e os que afrontam e desafiam a divindade.

Comentário. Nota-se mudança no tratamento dado à divindade pelos profetas judeus a partir de Isaías e Miquéias. O nome Javé rareia; avulta o de Senhor, Senhor Deus, Senhor dos Exércitos. Verifica-se tendência a evoluir do deus nacional (hebreus) para o deus universal (humanidade), novo conceito que seria alcançado plenamente com a doutrina de Jesus. Quanto à profecia sobre o mensageiro que preparará a vinda do Senhor, há semelhança com a de Isaías; o preparo do terreno parece terraplanagem para pista de pouso de aeronaves.

Joel.

Este livro contém poema de Joel, profeta que nasceu e atuou em Jerusalém posteriormente ao exílio. Joel fala da devastação vegetal, da falta de alimento, apela para o jejum e para a penitência, promete fartura da terra por benção divina. Na segunda parte do livro, Joel fala do espírito divino, do julgamento das nações e da salvação definitiva.

Jonas.

Este livro conta a desventura do profeta Jonas. O Senhor lhe ordenara ir a Nínive e lá proferir oráculos, pois aquela cidade mergulhara na iniqüidade. Jonas desobedeceu e fugiu para Társis, cidade geograficamente oposta a Nínive. Durante a fuga, o mar ficou bravio e ameaçava a embarcação. Jonas confessou a sua culpa e foi jogado ao mar, engolido por um peixe muito grande em cuja barriga ficou por 3 dias. Jonas faz prece de arrependimento, foi vomitado pelo peixe e voltou à sua cidade para obedecer ao chamado divino. Vai a Nínive e profetiza a destruição da cidade. Sensibilizados, o rei e o povo da cidade jejuaram e se arrependeram dos pecados. O Senhor os perdoou. Isto irritou Jonas. Com a cidade salva, ele perderia credibilidade como profeta. O Senhor fala a Jonas, dando-lhe uma lição de tolerância e amor.

Jó.

Este livro trata essencialmente do sofrimento do personagem principal, que perde todos os seus filhos e todos os seus bens, fica doente, se acha injustiçado e atribui suas desgraças à vontade do Senhor. Jó passou por essas provações porque Satanás desafiara o Senhor, dizendo que Jó tinha boas qualidades porque era protegido pela divindade, mas tão logo retirada essa proteção, Jó amaldiçoaria o Senhor. Apesar das desgraças, Jó se mantém fiel ao Senhor, porém faz suas queixas. Os amigos o consolam. Ele responde com longos discursos; fala da origem da sabedoria: um véu a oculta de todos os viventes; a sabedoria vale mais do que as pérolas; não pode ser igualada ao topázio da Etiópia, nem equiparada ao mais puro ouro. Inconformado com o diálogo entre os mais velhos, o seu jovem amigo Eliu profere uma série de discursos recriminando Jó por se justificar: Deus está envolto numa majestade temível; não podemos atingir o todo-poderoso, eminente em força, em equidade e em justiça, não tem a dar contas a ninguém; que os homens, pois, o reverenciem; ele não olha aqueles que se julgam sábios. Segue-se a resposta: Então, do seio da tempestade, o Senhor deu a Jó esta resposta: Quem é aquele que obscurece assim a Providência com discursos sem inteligência?(...) Aquele que disputa com o todo-poderoso apresente suas críticas! Aquele que discute com Deus responda! O livro se encerra com uma admoestação do Senhor aos amigos de Jô, porque não souberam aconselhar e não falaram bem do Senhor. Jó é abençoado, recupera sua riqueza, tem 7 filhos e 3 filhas e vive mais 140 anos depois da benção.

Sabedoria.

Livro provavelmente dos anos 200 ou 100, a.C., dividido em 3 partes, além da introdução. O autor conclama as pessoas a amar a justiça, a ter sentimentos perfeitos com o Senhor e a procurá-lo na simplicidade do coração. Na primeira parte, trata da mentalidade e da diferente sorte dos ímpios e dos justos. Na segunda parte, fala como se fora o rei Salomão; a todos exorta a busca da sabedoria; expõe a doutrina e a oração de Salomão para obter a sabedoria. Na terceira parte, descreve o papel da sabedoria na história da humanidade, em geral, e na dos hebreus, em particular. Trata especialmente do Êxodo, da travessia do Mar Vermelho, da idolatria e da justiça divina: cada indivíduo recebe de Deus o que merece.

Provérbios.

Este livro é uma coletânea dos provérbios atribuídos ao rei Salomão e tem como fulcro o amor à sabedoria. Diz que o temor do Senhor é o princípio da sabedoria. Os insensatos desprezam a sabedoria e a instrução. Exortações do sábio: (i) fugir da companhia dos maus; (ii) utilidade da sabedoria (origem divina da sabedoria, da ciência e da prudência); (iii) prática da sabedoria; (iv) sabedoria e caridade (a glória será o prêmio do sábio; a ignomínia será a herança dos insensatos); (v) vantagens da sabedoria (examina o caminho onde colocas os pés; se na retidão, não te desvies nem para a direita nem para a esquerda e retira teu pé do mal); (vi) fugir da mulher leviana (por que hás de te enamorar de uma alheia e abraçar o seio de uma estranha?). Coisas que o Senhor abomina: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que maquina projetos perversos, pés pressurosos de correr ao mal, falso testemunho que profere mentiras e quem semeia discórdia entre irmãos. Banquete da sabedoria e da loucura: se tu és sábio, é para o teu bem que o és, mas se tu és mofador, só tu sofrerás as conseqüências; a senhora loucura é irrequieta, uma tola que nada sabe. Na segunda parte do livro arrolam-se vários provérbios também atribuídos a Salomão. Na terceira e quarta partes, palavras dos sábios e coleção de provérbios cuja autoria é desconhecida. Na quinta parte, mais provérbios de Salomão. Seguem-se palavras de autores conhecidos e as máximas numéricas. O livro se encerra com um poema sobre a mulher virtuosa: a graça é falaz e a beleza é vã; a mulher inteligente é a que se deve louvar.

Cântico dos Cânticos.

A autoria deste livro é atribuída a Salomão, embora ele aí conste como homenageado. Poemas selecionados; nata dos cânticos. O tema é o amor entre o homem e a mulher. Eis algumas passagens do livro: “Ah! Beija-me com os beijos da tua boca! Porque os teus amores são mais deliciosos que o vinho”. “Tuas carícias nos inebriarão mais que o vinho”. “A égua dos carros do Faraó eu te comparo, ó minha amiga; tuas faces são graciosas entre os brincos e o teu pescoço entre os colares de pérolas.” “Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém, pelas gazelas e corças dos campos, que não desperteis nem perturbeis o amor antes que ele o queira”. “Levanta-te, minha amiga, vem, formosa minha, eis que o inverno passou, cessaram e desapareceram as chuvas. Apareceram as flores na nossa terra, voltou o tempo das canções. Em nossas terras já se ouve a voz da rola.” “Tu és bela, minha querida, tu és formosa! Por detrás do teu véu os teus olhos são como pombas, teus cabelos são como um rebanho de cabras descendo impetuosas pela montanha de Galaad”. “O meu bem amado desceu ao seu jardim, aos canteiros perfumados, para apascentar em meu jardim e colher lírios”. “Desvia de mim os teus olhos, porque eles me fascinam”. “Como são graciosos os teus pés nas tuas sandálias, filha de príncipe! A curva de teus quadris assemelha-se a um colar, obra de mãos de artista, teu umbigo é uma taça redonda, cheia de vinho perfumado.” “Como és bela e graciosa, ó meu amor, ó minhas delícias.” “Eu sou para o meu amado o objeto de seus desejos”.

Comentário. Em alguns versos há erotismo. Intérpretes religiosos tentam amenizar a sensualidade dos poemas, qualificando-os de parábola sobre o amor entre a divindade e os crentes, ou entre Deus e a Igreja, na célebre imagem do noivado. Interpretação tendenciosa para mudar o humano em divino. Trata-se de obra poética, simplesmente, e nada mais.

terça-feira, 29 de março de 2011

RELIGIÃO

ANTIGO TESTAMENTO - IX.

Esdras e Neemias.

Estes dois livros compõem uma unidade. Cuidam do mesmo período histórico: o retorno à Judéia, por consentimento de Ciro, rei da Pérsia, dos judeus deportados (538 a 400 a.C.). Ao retornarem do exílio, os judeus formaram uma pequena comunidade religiosa em Jerusalém, sem autonomia política. Esdras, nascido na Babilônia, escriba, sacerdote, era considerado o fiscal e depositário da lei. Governou Jerusalém até a chegada de Neemias. Restabeleceu o império da lei mosaica, regulamentou o culto à divindade, incentivou a prática religiosa, vedou o casamento de judeus com pessoas de outra religião, revitalizou a aliança com o deus Javé. A classe sacerdotal adquiriu poder crescente. O culto exterior e a rigorosa obediência à lei religiosa tomaram vulto e geraram um formalismo exacerbado. Os fariseus prendiam-se a esse formalismo; tinham-se na conta de homens justos e santos porque cumpriam os ritos e seguiam a letra da lei. Além de textos de arquivos e outros documentos, estes livros contêm recordações pessoais, orações e a narrativa da reconstrução do templo.

O livro de Esdras começa recapitulando o regresso dos judeus à Judéia, graças ao edito de Ciro, prossegue com a lista dos repatriados, servos e animais, a reunião do povo judeu em Jerusalém para a reconstrução do templo e a reorganização do culto. Narra a chegada de Esdras a Jerusalém e transcreve a carta do rei persa Artaxerxes: (i) autorizando Esdras a inspecionar Judá e Jerusalém e verificar se estavam sendo bem cumpridas as obrigações para com a divindade; (ii) isentando de tributos e encargos os sacerdotes, levitas, cantores, porteiros e servos da Casa do Senhor; (iii) concedendo poderes a Esdras para nomear juízes e magistrados. O livro narra a viagem de Esdras e a reforma que ele implantou obrigando os judeus a se separarem das suas esposas estrangeiras e filhos.

O livro de Neemias também tem outro título: Esdras II. Neemias apresenta-se como copeiro do rei da Pérsia, Artaxerxes, de quem obteve autorização, salvo-conduto e escolta para retornar a Jerusalém e reconstruir a cidade. Relata os lances da reconstrução das muralhas e das portas da cidade e o recenseamento: 42.360 pessoas, 7.337 servos, 245 cantores e cantoras, 736 cavalos, 245 burros, 435 camelos, 6.720 jumentos. Menciona, ainda, a leitura da lei em praça pública trazida pelo sacerdote e escriba Esdras; a oração dos levitas; a lista dos sacerdotes e dos levitas; as reformas religiosas.

Comentários. As escrituras do AT foram postas na forma em que hoje as conhecemos por Esdras, enquanto ele ainda morava na Babilônia. Esdras é referido, no livro que leva o seu nome, como o escriba e sacerdote que liderou um grupo de judeus saído da Babilônia com destino a Jerusalém. Thomas Hobbes, filósofo inglês, no seu livro Leviatã, escrito em 1651, disserta sobre o Estado Cristão e transcreve o capítulo 14 do livro de Esdras. A intenção de Hobbes ao escrever o citado livro era a de chamar a atenção dos governantes ingleses e estrangeiros para as suas teses, com o cuidado de não ofender a religião cristã, da qual era seguidor. Confessa-se obediente à Igreja da Inglaterra. Aceita os cânones selecionados.

A Bíblia em que Hobbes se baseou continha o livro de Esdras II com o capítulo 14, versículos 21 e seguintes e versículo 45, que ele assim transcreveu: palavra do próprio Esdras ao dirigir-se a Deus: Tua lei foi queimada, portanto, ninguém conhece as coisas que fizeste, nem as obras que estão para começar. Mas, se encontre graça perante ti, envia o Espírito Santo até mim e escreverei tudo que foi feito no mundo, desde o início, todas as coisas que foram escritas na lei, para que os homens possam encontrar teu caminho e para que possam viver aqueles que irão viver nos dias mais longínquos (...) e veio a acontecer que depois de cumpridos os 40 dias, o Altíssimo falou e disse: o primeiro que escreveste publica-o abertamente para que os dignos e os indignos possam lê-lo, mas guarda os últimos 70 para que possas entregá-los apenas a aqueles de entre o povo que sejam sábios.

Tais capítulo e versículos não se encontram nas atuais bíblias católica e protestante. Sumiram. Os versículos transcritos por Hobbes combinam com o que se conhece da história: o incêndio e a destruição de Jerusalém, incluindo o templo, o que significa queima dos papiros lá existentes. Provavelmente, Esdras se baseou na tradição oral para refazer as escrituras. Segundo o dicionário prático da luxuosa bíblia editada pela Barsa (1967), a tradição fala de Esdras como restaurador dos livros sagrados, sendo que livros escritos após a sua época também foram admitidos como canônicos. Ao concluir o seu trabalho, Esdras reuniu o povo judeu em Jerusalém e procedeu à leitura. Durante horas, desde manhã, leitores se revezavam e o público ouvia (certamente, pouco assimilando depois da primeira hora). Esdras apresentou o longo texto como sendo a lei divina para o povo de Israel. Os demais povos do planeta estavam excluídos.

Esdras recebeu tratamento cerimonioso na carta do rei Artaxerxes, o que soa falso, pois esse tratamento era reservado à diplomacia, de soberano a soberano. Provavelmente, o escritor bíblico deu uma ajuda na redação para valorizar o personagem. Além disto, judeus prestavam serviços na corte persa e com algumas moedas podiam contar com a colaboração do escriba real: Artaxerxes, rei dos reis, a Esdras, sacerdote doutor eruditíssimo na lei de Deus do céu, saúde. Há dúvida se o título de doutor era usado naquela época. O rei e seu povo tinham religião própria e de antiga origem, que incluía a vinda de um messias, a ressurreição dos mortos, o juízo final, o paraíso aos eleitos. Essa doutrina se espalhou pela Ásia ocidental e influiu na religião de outros povos, inclusive dos hebreus. Essa religião espiritual e ética, fundada por Zaratustra, entranhava-se na cultura persa. Duas divindades regiam o universo: Ahura-Mazda, deus da luz, da verdade e da retidão; Ahriman, deus traidor, maligno, que presidia o reino das trevas. Aquele prólogo da carta de Artaxerxes não se ajusta à tradição persa, principalmente no que se refere ao “deus do céu”. O poderoso rei persa não se curvaria à lei de Moisés nem ao deus dos hebreus.

Esdras devia fiscalizar e controlar a Judéia e Jerusalém segundo a lei do teu Deus que está na tua mão, diz a carta. Em momento algum o rei se referiu ao deus Javé como do seu culto. Certamente, ouviu a leitura e subscreveu a carta para atender a súplica do seu copeiro, o judeu Neemias, mais tarde nomeado governador da Judéia, região minúscula, decaída, população pequena, sem qualquer importância social, política ou econômica para a Pérsia e para o mundo antigo. O território da Palestina, pelo qual tanto brigam israelenses e árabes, não é maior do que o território do Estado de Alagoas (Brasil). A Judéia ocupava uma terça parte desse território e a sua população pode ser comparada, em números, à população do município de Itatiaia – RJ. Daí, que os pomposos termos da carta beiravam ao ridículo, desproporcionais à insignificância da terra e do povo judeu naquela quadra da história.

A denúncia de fraudes praticadas por sacerdotes e doutores nas “sagradas” escrituras é bem antiga. Os III e IV livros de Esdras, além de outros, foram extirpados da Bíblia. O mesmo ocorreu com o NT, quando alguns livros (Judas Tadeu, Tomé, Felipe, Madalena) foram expurgados pelos doutores da Igreja para garantir a versão mais conveniente aos interesses do clero. A crença sobrepõe-se à verdade histórica. As seleções e interpolações feitas nas escrituras desde o século IV (301/400) não eram de conhecimento público. Difundia-se a versão que interessava ao comando religioso. Os textos que discrepavam dessa versão eram afastados como apócrifos ou profanos. Disto resulta a cláusula de reserva aos sacerdotes e doutores da igreja no que tange ao conhecimento e interpretação das escrituras. Sob o pretexto de bem zelar pela vida espiritual dos devotos, a classe sacerdotal, na verdade, está a zelar pela manutenção do seu poder e da sua riqueza. A tutela da igreja sobre o povo ficou abalada a partir do iluminismo, da liberdade de pensamento e crença (século XVII). No mundo atual, o conhecimento se torna acessível ao público, graças aos meios de comunicação, divulgação e vulgarização, tais como: imprensa, telégrafo, telefone, rádio, televisão, fac-símile, rede mundial de computadores; graças, também, à multiplicação dos centros de formação (escolas, institutos, universidades) e do intercâmbio por osmose decorrente do convívio social.

Ageu.

Este livro foi redigido por algum discípulo do profeta Ageu. O ministério desse profeta aconteceu em Jerusalém, à época da reconstrução do templo (520 a.C.). Compõe-se de quatro oráculos. No primeiro, o profeta censura os judeus que moram em vivendas confortáveis enquanto o templo está em ruínas. O governador de Judá (Zorobabel) e o Sumo Sacerdote (Josué) ficaram sensibilizados com o oráculo, reuniram o povo e se puseram a trabalhar na construção da Casa do Senhor. O segundo oráculo incentiva essas autoridades e o povo a continuarem a obra e lhes promete esplendor e paz. No terceiro oráculo o deus Javé promete derramar bênçãos após o lançamento das pedras de fundação do templo. O quarto oráculo é sobre a eleição divina de Zorobabel precedida dessa promessa de Javé: Abalarei o céu e a terra, derrubarei o trono de todos os reis e aniquilarei o poder das nações, destruirei os carros e suas equipagens; cavalos e cavaleiros cairão e matar-se-ão a golpes de espada.

Zacarias.

Este profeta é contemporâneo de Ageu. Recebe os oráculos de um Anjo do Senhor. Exorta o povo a reconstruir o templo e prega uma reforma moral. Trata Zorobabel como o eleito do Senhor, o gérmen messiânico. Descreve o reino do messias, cheio de paz, a ruína dos inimigos de Judá e a conversão das nações. Fala das suas visões, incluindo a libertação de Sião e o retorno de Jerusalém como residência da divindade. Na segunda parte do livro há previsões airosas para os judeus e oráculo sobre o pastor e a libertação de Jerusalém.

Baruc.

O personagem principal, profeta judeu Baruc, é homônimo do secretário (Baruc) do profeta Jeremias. O livro foi escrito e lido para os judeus que permaneciam na Babilônia, sob o governo de Nabucodonosor II. Os ouvintes se comoveram com o precário estado de Jerusalém, juntaram dinheiro de acordo com as posses de cada um, e enviaram a ajuda ao sacerdote que pontificava na Judéia. O livro cita os pecados do povo desde que deixou o Egito e contém súplicas ao Senhor. Refere-se à sabedoria, de origem divina, como a única via que conduz à salvação. Há uma série de pronunciamentos do profeta com o objetivo de consolar os judeus. Conclui afirmando que é o próprio deus que conduz Israel, pleno de júbilo no esplendor de sua majestade, pela sua justiça e misericórdia.