domingo, 28 de março de 2010

POESIAS

Manhã de domingo de sol reto./ A grande igreja sem estilo / decorada por dentro por um batismo de Cristo / feito por um pintor ingênuo / que quis ser clássico e foi primitivista./ Missa internacional / com gentes de todas as raças / ouvindo o padre alemão rezar em latim./ A gente nem tem vontade de olhar o crucifixo desolado / nem de rezar / porque tem lá dentro tanta menina bonita / que não reza também / e fica sapeando a gente com meiguice / Só os polacos de camisa nova por ser domingo / que vieram com as famílias de carroça lá das colônias / rezam fervorosamente / enquanto nos seus quintais / os chupins malvados e alegres / comem todo o centeio / cantando glórias pro sol de domingo. (“Minha terra” – Ponta Grossa/PR – Brasil Pinheiro Machado).

O brasileiro nortista que chegava / dizia que aquilo não era Brasil / que aquilo era uma aldeia russa/ (...) / Que não podia ser Brasil onde houvesse geada até o meio dia / onde em vez de caboclo meio bronze mulato / andassem polacos fazendo berganhas de porco e plantando mandioca. (Idem)

O polaquinho / o russinho / o alemãozinho / o italianinho/ Nascido ali / traduzia o pedido do viajante pro pai e do pai pro viajante / numa língua igualzinha à do caboclo de cor de bronze amulatado / sem regra de gramática portuguesa, graças a Deus! (Idem).

Vou-me embora pra Pasárgada / lá sou amigo do rei / lá tenho a mulher que eu quero / na cama que escolherei / vou-me embora pra Pasárgada. / Vou-me embora pra Pasárgada / aqui eu não sou feliz / lá a existência é uma aventura / de tal modo inconseqüente / que Joana a Louca de Espanha / rainha e falsa demente / vem a ser contraparente / da nora que nunca tive / e como farei ginástica / andarei de bicicleta / montarei em burro brabo / subirei no pau de sebo / tomarei banhos de mar! / e quando estiver cansado / deito na beira do rio / mando chamar a mãe d´agua / pra me contar as histórias / que no tempo de eu menino / Rosa vinha me contar / vou-me embora pra Pasárgada / em Pasárgada tem tudo / é outra civilização / tem um processo seguro / de impedir a concepção / tem telefone automático / tem alcalóide à vontade / tem prostitutas bonitas / para a gente namorar / e quando eu estiver mais triste / mas triste de não ter jeito / quando de noite me der / vontade de me matar / - lá sou amigo do rei - / terei a mulher que eu quero na cama que escolherei / Vou-me embora pra Pasárgada. (“Vou-me embora pra Pasárgada” – Manuel Bandeira).

Ontem à noite eu procurei ver se aprendia como é que se fazia uma balada Antes d´ ir pro meu hotel / É que este coração já se cansou de viver só e quer então morar contigo no Esplanada / Eu qu´ria poder encher este papel de versos lindos é tão distinto ser menestrel / No futuro as gerações que passariam diriam é o hotel do menestrel / Pra me inspirar abro a janela como um jornal / vou fazer a balada do Esplanada e ficar sendo o menestrel do meu hotel / Mas não há poesia num hotel mesmo sendo `Splanada ou Grand-Hotel / Há poesia na dor na flor no beija-flor no elevador / Quem sabe se algum dia traria o elevador até aqui o teu amor. (“Balada do Esplanada” – Oswald de Andrade).

Minha terra tem palmares / onde gorjeia o mar / os passarinhos daqui / não cantam como os de lá / Minha terra tem mais rosas / e quase que mais amores / minha terra tem mai ouro / minha terra tem mais terra / Ouro terra amor e rosas / eu quero tudo de lá / não permita Deus que eu morra / sem que volte para lá. / Não permita Deus que eu morra / sem que volte pra São Paulo / sem que veja a Rua 15 / e o progresso de São Paulo. (“Canto do regresso à Pátria” – Oswald de Andrade).

Não crês porque não vês. É a dúvida secreta / a eterna que te enleia / - a sombra pode ver o corpo que a projeta / mas nunca a luz que a cria. (“Sobre a dúvida” – Guilherme de Almeida).

Mas o tronco da árvore nova foi tronco também de escravos quimbundos / foi crucifixo de Cristos coitados que vieram – cruz! Credo! – cheirando a moxinga nos fundos / dos navios pretos que vieram mazombos descadeirados e catingudos / sem tarimba nem tanga fazendo banzé muamba e mandinga corcundas trombudos / chipanzés mecânicos treparam na cruz com rezas trejeito e benzeduras / de corpos lambidos por lambadas de fogo regaram de lágrimas sangue e suor as terras fecundas mas duras / e a terra deu tudo: deu tronco de escravos deu oiro aos senhores deu prata aos feitores / e os amos gritaram de gula e a terra gritou de piedade e os pretos gritaram de dores / fugiram ao bodum das donzelas e zonzos e fulos meteram-se em fundos mocambos escuros quilombos / e foram achados por capitães-do-mato e voltaram com calombos e cruzes nos ombros / mucamas em mulambos fizeram calungas e quimbembeques para as sinhazinhas e para os sinhôs / com candongas deram o “Sãos Cristo” a toda raça mandona de Iaiás e de Ioiôs / moleques crioulas cantaram lunduns bateram batuques pretas-minas cozeram quitutes, cuscuz / dançaram no samba pularam fogueiras como zumbis sonâmbulos funâmbulos nus / de maromba e tição nas mãos adoçadas acostumadas a dar cafuné / depois desceram coxeando roxas encostas com trouxas canastras e o amo em bangüê. (“Santa Cruz!” – Guilherme de Almeida).

quinta-feira, 25 de março de 2010

AMOR4

Quarta parte.

Relação supõe bilateralidade: o eu e o tu. Possível a exceção: relacionamento unilateral do eu consigo mesmo. Nesse caso, a pessoa cuida do seu bem-estar, da sua aparência, busca satisfação sexual no onanismo, cultiva bons sentimentos e pensamentos: “mens sana in corpore sano” consoante lema da antiga Roma. A pessoa revela amor próprio quando tenta se elevar espiritualmente mediante orações, rituais e exercícios espirituais. A exacerbada paixão pela pátria, pela religião, por doutrinas e instituições, conduz ao fanatismo. O indivíduo fanático não se intimida com ameaças nem com o poderio adverso; não se importa de morrer, desde que possa aniquilar os que com ele não comungam sentimentos e pensamentos. Na segunda guerra mundial, ficaram famosos os camicases, pilotos japoneses que faziam seus aviões colidirem com o alvo inimigo. Na atualidade, homens e mulheres se transformam em bombas na defesa da sua crença religiosa, da sua ideologia política, do território do seu país, da sua identidade e soberania nacional.

O magnetismo do amor associa os seres humanos. O indivíduo sente-se atraído: pela beleza, harmonia e elegância das formas; por pessoas bonitas, perfumadas, bem cuidadas e bem vestidas; por animais de tal ou qual raça; por flores e plantas comuns ou exóticas; por paisagens, quadros, estátuas, arquiteturas, textos filosóficos, religiosos e místicos. Padrões morais também atraem os seres humanos que se unem na defesa de valores como justiça, verdade, bondade, santidade. Entre outros fins, os seres humanos associam-se para: elaborar leis e estabelecer o direito visando a uma convivência ordeira e pacífica na sociedade; cultivar a inteligência, estudar fenômenos naturais e culturais; levantar balizas para a retidão de conduta de modo a se reconhecerem como pessoas dignas; exercer atividades místicas e religiosas para se ligarem a Deus.

O relaxamento moral enfraquece o amor; o enfraquecimento do amor acarreta o relaxamento dos princípios morais. Imoderação, corrupção dos costumes, mentalidade mercantil nas instituições públicas, religiosas e místicas são sinais do relaxamento ético. Aos tipos de conduta considerados nocivos, a sociedade reage formulando normas penais. A indústria da pornografia e da perversão sexual, aliada ao tráfico de drogas, de mulheres e crianças, constitui mercado que rende bilhões de dólares aos seus exploradores e se difunde pela circulação de fotografias e gravações audiovisuais. A sociedade organiza e utiliza o aparelho policial e judiciário do Estado para combater essas atividades tipificadas como criminosas; além disso, promove campanhas educativas pelos meios de comunicação. Autoridades públicas e setores privados servem-se do erário como se fosse cofre particular; desprovidos do senso de moralidade, os agentes do governo utilizam o cargo para obter vantagens ilícitas, prejudicar adversários e conquistar favores sexuais de homens e mulheres adultos, adolescentes e crianças.

O ideário filosófico, a visão de mundo, o ritual patriótico, religioso ou místico e seu simbolismo, atraem e associam pessoas. Chamam filosofia ao amor à sabedoria; justiça ao amor à igualdade; teose ao amor a Deus. Atraída pelas coisas do espírito, a pessoa associa-se a outras em instituições onde são cultivadas doutrinas e crenças, às vezes, sem preocupação com explicações racionais. O amor à razão tende a dominar todos os assuntos e amortece a fé. Esta se rebela contra aquela. Blaise Pascal destacou a influência da inteligência emocional na conduta humana ao afirmar as razões do coração ignoradas pela inteligência racional. Por veredas emocionais próprias, o amor conduz à sabedoria. Os místicos utilizam a sabedoria do coração; dão-lhe prioridade ante o conhecimento exclusivamente racional. A imaginação produz o saber; a razão o formaliza e o cristaliza.

A arte fala do amor que aspira a eternidade, como a uma vida capturada na imobilidade da morte. Talvez tenha sido esse paradoxo que levou o poeta brasileiro, Vinicius de Moraes, a ironizar: “o amor é eterno enquanto dura”. Falava do amor como afeição do homem pela mulher e vice-versa. Às vezes, o discurso adquire extensão não cogitada pelo emissor. Da ironia contida na frase do poeta brasileiro capta-se ensinamento valioso.

No sentido cósmico, o amor é eterno, como vida, força afetiva universal vibrando no seio de Deus, genetriz e motor do universo. A teoria dos físicos contemporâneos concebe o universo composto de três tipos de matéria: o tipo de menor extensão, com estrutura atômica conhecida em escala microscópica (núcleo atômico) e macroscópica (galáxias); o tipo de média extensão, composto de matéria escura desconhecida, que ocupa os vazios existentes no espaço interno e externo das galáxias; o tipo de maior extensão, espécie de plasma inefável, substância tênue de estrutura desconhecida, ao que parece já em nível de onda; não estaria, pois, ao lado dos outros dois tipos e sim os envolvendo. Em termos científicos, afigura-se a hipótese de esse tipo de maior extensão sustentar os outros dois; em termos místicos, esse plasma pode ser comparado à alma universal. Stephen Hawking, expoente da Física contemporânea, informa: da observação do universo pelos astrônomos e astrofísicos verifica-se que o espaço continua, continua, continua. Apesar disso, o citado físico entende que há limite nessa expansão; formula a hipótese de o universo ser uma esfera com todos os bilhões de galáxias no seu interior afastando-se umas das outras até o momento da contração; a partir desse ponto, todas as galáxias concentrar-se-ão em uma só; a galáxia única contrair-se-á em uma só estrela, que se contrairá a um só átomo e chegará ao ponto zero. Supondo confirmada essa hipótese, caberá à ciência explicar o que existe mais além da superfície externa da esfera cósmica em sua máxima extensão.

Expressando-se na existência humana individual, o amor dura fração da eternidade; os sentimentos humanos têm o seu tempo de duração. Como o tempo é a fração da eternidade capturada pela inteligência humana, a existência individual e os sentimentos duram essa fração. No curso da existência a relação amorosa entre seres humanos sofre desgaste e pode chegar ao ponto zero. No caso de parceria para existência em comum e satisfação sexual, quando o desgaste chega ao ponto máximo, os parceiros se matam ou separam-se. Perdidas as ilusões, buscam novas parcerias ou preferem aventuras esporádicas e solidão regular. Motivados pela educação que receberam, por crença religiosa que professam, por circunstâncias políticas, sociais e econômicas que os cercam, alguns casais preferem manter a parceria apesar do desgaste. Como pedras, ex-parceiros rolam pela estrada da vida sem jamais se erigir em pedra angular; outros, de tanto rolar se tornam pedras polidas; esses caminhantes têm por companhia a esperança – doce ilusão que renasce no mais vivido e sofrido coração.

Após uma taça de poesia, seguir-se-á o tema FELICIDADE.

segunda-feira, 22 de março de 2010

AMOR3

Terceira parte.

Da combinação do componente sexual com o querer possessivo na relação entre seres humanos pode resultar tragédia. Entram em jogo forças obscuras e devastadoras.
- Se tu não fores minha, não serás de mais ninguém.
- Se não pudermos nos amar, juntos desceremos à sepultura.
A desilusão e a frustração levam à loucura, ao homicídio, ao suicídio. A força afetiva da vida inverte o pólo: de integradora passa a destruidora. O ódio – essa inversão do amor – e a vontade de matar tomam conta do agente. A desesperança ante a frustração desperta a vontade de morrer. O ciúme – esse indesejável companheiro do amor – leva a pessoa ao desespero e à infelicidade. A atração física resiste à disciplina da razão; o apaixonado arrosta todos e arrasta tudo num vendaval: pais, parentes, amigos, autoridades seculares e religiosas, leis morais, jurídicas e canônicas. Shakespeare focalizou bem esse ângulo da paixão no romance Romeu e Julieta.

Natural, o zelo pela pessoa amada. O perigo está no exagero, na imoderação, que torna o zelo doentio, com a pulsão da morte. Para Sigmund Freud, essa pulsão é um conjunto de forças que tende a reconduzir cada ser vivo aos seus estados anteriores até o ponto zero, quando chega ao estado de matéria inanimada. As divindades do amor (Eros) e da morte (Tanatos) integram o processo. A evolução das formas vivas opera-se graças à sexualidade e à morte: criação e extinção incessantes, num movimento perpétuo em que o destino individual de cada ser vivo pouco importa do ponto de vista da evolução das espécies. O indivíduo é importante na transmissão genética, como suporte da mutação a ser transmitida. Sob esse enfoque, o amor funciona como arapuca biológica montada pela natureza.

Laços de família, de amizade, de associação, decorrem da força afetiva da vida. Esposos, pais e filhos se estimam e se mantêm unidos no lar. Vizinhos, colegas de escola e de profissão, professores e alunos, fornecedores e consumidores, governantes e governados, todos atraídos por objetivos comuns, relacionam-se em função dessa lei natural do amor.

Nós nos contemos diante de estranhos, atentamos bem para descobrir o meio favorável de agradá-los e de lhes ser úteis. Com os amigos, porém, excedemo-nos imoderados, descansamos em sua afeição, permitimo-nos caprichos; as paixões exasperam-se indômitas e, assim, magoamos logo aqueles que mais ternamente amamos. (“Máximas” – Goethe).

Ao contemplar as estrelas imaginando um paraíso celeste, um mundo de amor e paz em galáxia distante, o ser humano poderá estar, na verdade, nostálgico do mundo intra-uterino que foi substituído pelo espaço social da família e da comunidade. O túnel ou portal que imagina existir na passagem para outra dimensão pode ser a genética lembrança da travessia do ventre materno para o mundo exterior, registrada no subconsciente. O sonho e o desejo de um mundo melhor certamente têm sua origem na decepção do indivíduo com o mundo em que vive, com o modo pelo qual a humanidade se organizou no planeta e que lhe fecha as portas ao sucesso e à felicidade. Pessoas felizes, de bem com a vida, adaptadas integralmente ao modus vivendi na Terra, satisfeitas com os seus bens e os seus amores, ou com eles envolvidas inteiramente, não contemplam estrelas. A essa contemplação dedicam-se poetas, poetisas, sonhadores; santos, místicos e artistas mais sensíveis falam com as estrelas.

A força afetiva, atrativa e magnética da vida, manifesta-se entre os seres humanos como afinidade, simpatia, amizade, caridade, solidariedade, compaixão, devoção, veneração. A manifestação em tela pode ocorrer na forma de proteção à família, às crianças, aos idosos, aos deficientes físicos e mentais, ao meio ambiente. A afeição recai tanto sobre o poder, a riqueza, a fama, o saber, como também sobre Deus, honradez, bondade, verdade, justiça, modalidade afetiva unilateral e incondicional que não exige reciprocidade e lastreia as virtudes.

No século XX, homens e mulheres ocidentais se libertaram de tabus, de regras ditadas pelo preconceito. O relacionamento sexual readquiriu naturalidade; a prática pelo prazer independente da reprodução, sem medo dos anátemas religiosos. A expressão fazer amor entrou no vocabulário popular para significar o atendimento ao apetite carnal sem complicações éticas, jurídicas ou religiosas. As diferentes técnicas de controle da natalidade contribuíram para essa libertação: relacionamento sem o perigo da gravidez. Além disso, o parceiro pode ser do mesmo sexo, como era na Grécia e Roma antigas. Grupos religiosos judeus, cristãos, muçulmanos, não toleram essa liberação dos costumes.

No mútuo relacionamento, há homens e mulheres que exigem uma dose de ternura e de branda atenção além do prazer físico. Até os profissionais da prática sexual se recusam a manter relações com pessoas violentas, agressivas, salvo quando se trata de perversão combinada. Ciúme e violência assombram o amor entre seres humanos. Em tempo de guerra, desde eras prístinas até o presente século, os invasores forçam relações sexuais com mulheres da cidade conquistada. Longe de casa, o guerreiro busca satisfazer o apetite sexual contra a vontade da mulher que encontra no caminho. Em tempo de paz, homem e mulher se satisfazem com parceiro da sua escolha, num relacionamento de mútuo consenso. O encanto pessoal, a alegria, a cortesia, estão entre os fatores atraentes e sedutores.

Em tempo de paz também há casos sem consentimento: mediante violência ou grave ameaça, o agente constrange mulher à conjunção carnal ou a com ele praticar atos libidinosos. O homem assediar a mulher e vice-versa decorre do magnetismo gerado pelo princípio vital e faz parte da sedução. O assédio adentra o terreno da ilicitude quando o agente insiste na perseguição apesar de o paciente resistir e se mostrar importunado ou constrangido. Há casos de consentimento viciado, como acontece com as crianças quando adultos delas se servem para satisfazer seus instintos. Na primeira década do século XXI tornaram-se públicos inúmeros casos de pedofilia praticada por sacerdotes da igreja católica na América e na Europa.

sábado, 20 de março de 2010

AMOR2

Segunda parte.

No processo natural de formação e extinção das estrelas e de nascimento e morte dos seres vivos verifica-se o movimento de integração e desintegração. Excluídos fatores acidentais ou artificiais, a desintegração dos corpos no reino mineral é demorada, enquanto nos reinos vegetal e animal ocorre em menor tempo. Daí, a característica de longa duração dos minerais (quase infinita, em escala humana) e de curta duração dos seres vivos. A partir de determinado momento da existência do vegetal e do animal, o amor começa a enfraquecer e os elementos das respectivas estruturas a perder coesão.

O germinar de uma semente, o florescimento do broto, o desabrochar da flor, a produção de novas sementes, constituem atividade amorosa no reino vegetal. A força atrativa do amor aproxima os animais, macho e fêmea, para acasalamento. Animais da mesma espécie se atraem, formam comunidades e se deslocam em bando na busca de alimento e abrigo. As abelhas e as formigas ilustram essa organização natural, que inclui a construção do abrigo e a distribuição de tarefas entre os membros do grupo. Animais de espécie diferente se repelem, apesar das exceções conhecidas: fêmeas alimentando filhotes de outra espécie, cães e gatos convivendo harmoniosamente. A regra, porém, é a mãe alimentar e cuidar dos seus próprios filhotes até a idade em que adquirem autonomia; cães perseguem gatos e gatos caçam ratos.

Os animais racionais estão submetidos às mesmas leis dos animais irracionais, tanto no que tange à estrutura física e às funções orgânicas, como no que se refere às suas mútuas relações no tempo e no espaço. A força afetiva da vida provoca as mesmas apetências nos animais racionais e nos irracionais. A diferença está na diversificação do objeto dessas apetências. Enquanto alguns irracionais são herbívoros e outros carnívoros, o ser humano é as duas coisas: na sua dieta nutricional entram vegetais e animais. A carne humana também entra no cardápio dos irracionais e dos racionais. Canibalismo foi constatado em tribos selvagens, inclusive o canibalismo ritualístico: comer a carne do inimigo valente para dele receber a coragem. À diferença do irracional, o animal racional prepara o alimento de vários modos: cru, cozido, assado, com ou sem tempero. Além disso, fabrica alimentos e bebidas.

O amor exagerado ao alimento caracteriza a gula, com ou sem requinte. Pessoas como os chefs, gourmets, enólogos, apuram o paladar e fazem arte e profissão do preparo e da avaliação da comida e da bebida. Além da água, o ser humano consome outros tipos de bebida, com ou sem álcool: refresco, refrigerante, cerveja, vinho, aguardente, uísque, vodca. A produção de comida e de bebida constitui uma indústria que movimenta bilhões de dólares. Os seres humanos buscam a variedade em restaurantes. Ainda que haja mesas disponíveis a maior distância, as pessoas que chegam ao restaurante geralmente buscam as mesas próximas às de quem lá se encontra; obedecem inconscientemente ao instinto associativo, à força atrativa da vida. O mesmo acontece em outras situações, em locais acessíveis ao público: loja, banca de vendedor ambulante, estádio de futebol, praia, estação do trem, aeroporto. Essa força atrativa pode gerar promiscuidade. Segundo a visão de mundo que permite aos membros de uma comunidade usufruir intimamente o mesmo ambiente e as mesmas coisas ao mesmo tempo, onde homens e mulheres se relacionam livremente sem exclusividade, há promiscuidade voluntária. Ocasionalmente, por força das circunstâncias, quando pessoas se vêem na contingência de compartilhar o mesmo espaço e das mesmas instalações, como acontece nos aeroportos quando há suspensão dos vôos por muito tempo, ocorre a promiscuidade involuntária; a pessoa reage buscando isolamento.

Os animais irracionais têm tipos limitados de abrigos obedecendo ao seu determinismo. Nos animais racionais, maior é a variedade: marquises, pontes, viadutos, cavernas, casas, edifícios, palácios, segundo a situação social e a disponibilidade financeira dos indivíduos e grupos. Além dos abrigos físicos, há os abrigos institucionais: no lar, o indivíduo protege a sua intimidade e privacidade; na comunidade, ele se protege da solidão e do desamparo; na escola, ele se protege da ignorância; no hospital, ele se protege da doença; na empresa, ele se protege da pobreza; na embaixada estrangeira, ele se protege da perseguição política em seu país; no tribunal, ele se protege da injustiça; na ordem jurídica do Estado ele busca a garantia da sua liberdade e dos seus bens; na igreja, o amparo de Deus.

No ser humano, a força afetiva da vida gera o desejo, a inclinação para coisas que causam prazer. O desejo, aglutinador de apetências, faz o ser humano procurar fora de si mesmo o poder, a fama, a riqueza, o saber, a felicidade. O amor próprio reflete o desejo do eu de se manter e conservar, de ter vida interior e dignidade, de cuidar do corpo e da alma personalizada. O alvo do desejo pode ser o outro para satisfação sexual. Nesse nível de relacionamento situa-se o conceito de amor expendido por Jean-Paul Sartre: desejo de possuir o outro. Ainda que esse desejo tenha o componente intencional de subjugar vontade alheia, a sua origem reside na força afetiva da vida. O componente intencional é acréscimo que diferencia o animal racional do irracional: envolve a relação sexual com a ética, o direito e a religião. O livre e despreocupado relacionamento no mundo da natureza torna-se um pesadelo de responsabilidades e anátemas no mundo da cultura.

quinta-feira, 18 de março de 2010

AMOR

Primeira parte.

Os cientistas do século XX e primeira década do século XXI não chegaram a um definitivo acordo sobre a origem do universo. Atribuem-na a uma grande explosão de energia concentrada. Dessa explosão inicial surgiram em escala microscópica e macroscópica: a matéria, o tempo, o espaço e o movimento. A vingar essa teoria, é lícito supor, até onde permite o entendimento humano, que a grande explosão foi precedida de um processo de concentração de energia.

O problema da ciência, pois, consiste em explicar a fonte dessa energia, o processo da sua concentração até o ponto de explodir e como isso aconteceu sem que houvesse tempo, espaço e movimento. Concentrar energia supõe dinamismo e quem diz dinamismo, diz movimento. Não pode haver movimento se não houver espaço. O movimento no espaço demanda tempo. Pode-se aventar a hipótese de ser a concentração o estado inicial, sem qualquer processo antecedente. Aplicar-se-ia ou inventar-se-ia, então, algum outro termo, pois concentrar significa trazer para o centro, o que exige movimento, espaço e tempo.

Para alguns cientistas, essa questão encontra limite em Deus. A fonte primordial daquela energia é Deus, de cujo inteligente poder tudo se originou. A mente divina concentrou-se na sua própria energia e a fez explodir. A concentração, pois, não teria sido da energia e sim da força do pensamento divino. Outros cientistas preferem continuar a busca de explicação científica fora da metafísica: a origem divina é muito cômoda e depõe contra a capacidade humana de encontrar a verdade final. A teoria definitiva sobre o universo e a unificação das forças fundamentais da natureza perseguida pelos cientistas contemporâneos, como Stephen Hawking (O Universo em uma Casca de Noz) e Brian Greene (O Universo Elegante), talvez seja elaborada neste século XXI, através de equações e soluções matemáticas a partir da mecânica quântica.

Na seara mística, chega-se à unificação das forças da natureza por outro método. Toma-se por axiomática a existência de Deus, que se manifesta como vida, luz e amor. Parte-se do postulado de que Deus é a fonte da vida (alma essencial) que leva em si a luz (inteligência essencial) e o amor (força afetiva essencial). A vida, energia fundamental inteligente e amorosa, deu origem ao universo. Em si mesmo e para si mesmo, independentemente de tempo e espaço, após concentrar o pensamento sobre a sua própria energia, Deus emitiu o som fundamental, a palavra sagrada, o verbo divino do qual surgiu o mundo. Para os místicos orientais, o som mágico e divino foi OM, som da explosão inicial que aparelhos científicos procuram captar nos céus do universo.

Admite-se a possibilidade de o universo não ter começo nem fim justamente por vibrar em vida, luz e amor no seio de Deus. Em termos humanos, essa possibilidade é apreendida como teísmo essencial e panteísmo existencial: transcendência no ser e imanência no existir. Os limites temporais e espaciais do ser humano levam-no a imaginar que tudo deve ter um começo e um fim, inclusive o universo; que a expansão atual atingirá um limite a partir do qual o universo se contrairá até o ponto máximo e tornará a explodir: sístole e diástole eternas. Ainda que se admita um começo e um fim do universo, alfa e ômega, a grande explosão inicial terá sido uma explosão de vida, luz e amor.

Amor, invencível amor, tu que subjugas os mais poderosos; tu, que repousas nas faces mimosas das virgens; tu que reinas, tanto na vastidão dos mares, como na humilde cabana do pastor; nem os deuses imortais, nem os homens de vida transitória podem fugir a teus golpes; e quem for por ti ferido, perde o uso da razão! Tu arrastas, muita vez, o justo à prática da injustiça, e o virtuoso, ao crime; tu semeias a discórdia entre as famílias... Tudo cede à sedução de uma mulher formosa, de uma noiva ansiosamente desejada; tu, amor, te equiparas, no poder, às leis supremas do universo, porque Vênus zomba de nós! (“Antígona” – Sófocles).

A noção comum de amor é a de sentimento humano: afeição a pessoas e coisas; paixão atrativa entre pessoas de sexo oposto ou do mesmo sexo; desejo de possuir pessoas e coisas; ternura, brandura, carinho. Os pais são o primeiro amor dos filhos, condimentado com o complexo de Édipo e Electra. O segundo amor é o de um irmão pelo outro, acompanhado de rivalidade, como simbolizado por Abel e Caim na bíblia hebraica. Outros amores surgem por amigos, professores, artistas, namorados, cônjuges; amores vividos e amores platônicos na infância, na adolescência e na maturidade. Alvos do amor também são: a casa, o jardim, a boneca, a bicicleta, o automóvel, a profissão, a obra de arte, o livro, o cão, o pássaro no viveiro, o peixinho no aquário. Esses amores a pessoas, animais, coisas, deuses e santos são acompanhados de maior ou menor devoção. No seu grau mais agudo, chegam à veneração.

No sentido cósmico, amor significa a força afetiva da vida que permeia o universo. Assim como a inteligência, o amor é inerente à vida. Essa força afetiva atrai as partículas – elétrons, prótons, nêutrons – formando átomos; atrai átomos formando moléculas; atrai moléculas formando a matéria. O amor responde pela atração e pela coesão das partículas no átomo, das moléculas na matéria bruta, das células nos tecidos, dos órgãos no corpo. A gravitação e o magnetismo são expressões dessa força afetiva da vida chamada amor. Em nível microscópico há duas forças nucleares que expressam o amor: a que se convencionou chamar de forte, que mantém prótons e nêutrons unidos no interior do núcleo atômico e a que se convencionou chamar de fraca, que responde pela desintegração radioativa. Quando o amor enfraquece, a matéria se desintegra até o seu estado inicial de pura energia; as partículas retornam à sua liberdade anárquica para depois serem reunidas novamente pelo moto-contínuo da vida.

terça-feira, 16 de março de 2010

POESIAS

Bendito o que, na terra, o fogo fez e o teto / e o que uniu a charrua ao boi paciente e amigo / e o que encontrou a enxada, e o que, do chá abjeto / fez, aos beijos do sol, o ouro brotar do trigo / e o que o ferro forjou, e o piedoso arquiteto / que ideou, depois do berço e do lar, o jazigo/ e o que os fios urdiu, e o que achou o alfabeto / e o que deu uma esmola ao primeiro mendigo / e o que soltou ao mar a quilha, e ao vento o pano / e o que inventou o canto e o que criou a lira / e o que domou o raio, e o que alçou o aeroplano / mas bendito, entre os mais, o que, no dó profundo / descobriu a esperança, a divina mentira / dando ao homem o dom de suportar o mundo! (“Benedicite!” – Olavo Bilac).

Este, que um deus cruel arremessou à vida / marcando-o com o sinal da sua maldição / - Este desabrochou como a erva má, nascida / apenas para aos pés ser calcada no chão. / De motejo em motejo arrasta a alma ferida... / Sem constância no amor, dentro do coração / sente, crespa, crescer a selva retorcida / dos pensamentos maus, filhos da solidão. / Longos dias sem sol! Noites de eterno luto! / Alma cega, perdida à toa no caminho! / Rôto casco de nau, desprezado no mar! / E, árvore, acabará sem nunca dar um fruto / e, homem, há de morrer como viveu: sozinho! / Sem ar! Sem luz! Sem Deus! Sem fé! Sem pão! Sem lar! (“Só” – idem).

Só a leve esperança, em toda a vida / disfarça a pena de viver, mais nada / nem é mais a existência, resumida / que uma grande esperança malograda. / O eterno sonho da alma desterrada / sonho que a traz ansiosa e embevecida/ é uma hora feliz, sempre adiada / e que não chega nunca em toda a vida./ Essa felicidade que supomos / árvore milagrosa que sonhamos / toda arreada de dourados pomos / existe, sim: mas nós não a alcançamos / porque está sempre apenas onde a pomos / e nunca a pomos onde nós estamos. (“Velho tema” – Vicente de Carvalho).

Ó cisnes brancos, cisnes brancos / por que viestes, se era tão tarde? / O sol não beija mais os flancos / da montanha onde morre a tarde./ Ó cisnes brancos, dolorida / minha alma sente dores novas. / Cheguei à terra prometida: / é um deserto cheio de covas. / Voai para outras risonhas plagas / cisnes brancos! Sêde felizes.../ Deixai-me com as minhas chagas / e só com as minhas cicatrizes. /.../ (“O cisnes brancos” – Affonso Guimaraens).

O teu nome senhora, é a estrela da alva / que entre alfombras de nuvens irradia: / salmo de amor, canto de alívio, e salva / de palmas a saudar a luz do dia. / Pela primeira vez, quando a veste alva / a mão do sacerdote me vestia / ouvi-o: e na hora batismal, oh! Salva / a alma que o santo nome repetia. / Foram-se os anos... e sonho que me segue / a doçura infinita dos teus olhos / que me dão luzes para que eu não cegue: / Doce clarão de estrelas em fins da tarde / que há de encontrar-me trêmulo, de giolhos / com remorso de te adorar tão tarde. (“O teu nome senhora” – idem)

Quando Ismália enlouqueceu / pôs-se na torre a sonhar / Viu uma lua no céu / viu outra lua no mar. / No sonho em que se perdeu / banhou-se toda em luar / queria subir ao céu / queria descer ao mar / e, no desvairo seu / na torre pôs-se a cantar / estava perto do céu / estava longe do mar / e como um anjo pendeu / as asas para voar / queria a lua do céu / queria a lua do mar. / As asas que Deus lhe deu / ruflaram de par em par / sua alma subiu ao céu / seu corpo desceu ao mar. (“Ismália” – idem).

Quem foi que viu a minha dor chorando?! / Saio. Minha alma sai agoniada./ Andam monstros sombrios pela estrada / e pela estrada, entre estes monstros, ando! / Não trago sobre a túnica fingida / as insígnias medonhas do infeliz / como os falsos mendigos de Paris / na atra rua de Santa Margarida. / O quadro de aflições que me consomem / o próprio Pedro Américo não pinta / Para pintá-lo, era preciso a tinta / feitas de todos os tormentos do homem! / ... / Bati nas pedras dum tormento rude / e a minha mágoa de hoje é tão intensa / que eu penso que a alegria é uma doença / e que a tristeza é minha única saúde! / ... / Vou enterrar agora a harpa boêmia / na atra e assombrosa solidão feroz / onde não cheguem o eco duma voz / e o grito desvairado da blasfêmia! / ... / Seja esta minha queixa derradeira / cantada sobre o túmulo de Orfeu / seja este, enfim, o último canto meu / por esta grande noite brasileira! / Melancolia! Estende-me a tua asa! / És a árvore em que devo reclinar-me / se algum dia o prazer vier procurar-me / dize a este monstro que eu fugi de casa! (“Queixas noturnas” – Augusto dos Anjos).

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo! / O amor na humanidade é uma mentira. / É. E é por isto que na minha lira / de amores fúteis poucas vezes falo. / .../ Pois é mister que, para o amor sagrado / o mundo fique imaterializado / - Alavanca desviada do seu fulcro - / e haja só amizade verdadeira / duma caveira para outra caveira / do meu sepulcro para o seu sepulcro?! (“Idealismo” – idem).

Agora, sim! Vamos morrer reunidos / tamarindo de minha desventura / tu, com o envelhecimento da nervura / eu, com o envelhecimento dos tecidos!/ Ah! Esta noite é a noite dos vencidos! / E a podridão, meu velho! E essa futura / ultra-fatalidade de ossatura / a que nos acharemos reduzidos! / Não morrerão, porém, tuas sementes! / E assim, para o futuro, em diferentes / florestas, vales, selvas, glebas, trilhos / na multiplicidade dos teus ramos / pelo muito que em vida nos amamos / depois da morte, inda teremos filhos! (“Vozes da morte” – idem).

domingo, 14 de março de 2010

LUZ5

Quinta parte.

Distinguem-se no ser humano: a inteligência racional, ativada na parte superior do cérebro; a inteligência emocional, ativada na parte média; a inteligência instintiva, ativada na base do cérebro. Para conhecer a si mesmo e ao mundo, o ser humano utiliza esses três níveis da inteligência. Em ocasiões de perigo, a inteligência instintiva indica rumos, desempenha papel defensivo relevante. Por intermédio da inteligência emocional a pessoa tem acesso ao mundo espiritual, apreende o sentido de uma obra de arte, percebe a oculta intenção do interlocutor, tem uma lúcida percepção da fonte dos sentimentos próprios e alheios. A inteligência racional mostra-se adequada ao trabalho científico e filosófico, ao equacionamento de problemas mundanos, à disciplina da conduta individual e coletiva no campo social, político e econômico. Essas funções da inteligência podem atuar em conjunto. Assim, nos jogos, pode-se tipificá-la como inteligência lúdica.

O cérebro é o órgão produtor e emissor da luz intelectual. As idéias são concebidas com os dados fornecidos pelos sentidos e depositados na memória. Nessa operação o cérebro gera energia eletromagnética que se propaga em ondas. Essa energia também produz calor, aquecendo a cabeça, mormente quando o indivíduo está concentrado na solução de um problema. As ondas neurais podem ser captadas por um cérebro receptor, desde que esteja em sintonia com o emissor. Experiências parapsicológicas realizadas na antiga URSS e nos EUA, para fins militares, mostraram que idéias e imagens podem ser transmitidas intencionalmente de cérebro a cérebro sem utilização de aparelho. A transmissão de idéias e imagens provocada, voluntária, ocorre também mediante experimentos místicos. A transmissão espontânea, involuntária, é comum entre pessoas que convivem por muito tempo, como cônjuges, pais e filhos ou colegas de trabalho. Mostra-se correta, pois, a analogia entre esse fenômeno mental e o fenômeno da emissão e recepção de ondas de rádio e televisão.

Remetem-se à filosofia e ao misticismo as questões sobre a permanência das ondas neurais no espaço depois de cessada a emissão, bem como, sobre a existência de idéias e imagens fora do cérebro, produzidas e localizadas no mundo espiritual. Depois de cessada a fonte emissora, a força gravitacional mantém no espaço as ondas cerebrais. Forma-se uma aura ou uma auréola em torno do planeta como se fora um tipo de memória onde estariam arquivadas as idéias e a história da humanidade. Em certas circunstâncias, geralmente depois de refletir ou meditar sobre algum assunto, o indivíduo apreende uma idéia ou imagem inesperada, como um foco de luz que se acende. Platão crê no mundo espiritual, do qual o mundo material é a sombra; naquele mundo, as idéias existem originalmente como arquétipos. Os seres humanos têm acesso a essa memória cósmica, espacial e/ou ideal, desde que devidamente sintonizados. Desse modo, obtêm conhecimento. Eureca! Exclama Arquimedes, no século III a.C, ao entrar na banheira e notar o deslocamento da água provocado por seu corpo; acabara de descobrir a lei do volume dos líquidos. Newton, no século XVII, descobrira a lei da gravitação universal ao receber na cabeça, segundo a lenda, maçã caída da árvore sob a qual descansava.

A filosofia e o misticismo se debruçam, também, sobre a questão do agente pensante, se é o cérebro ou se é a alma personalizada. A ciência e a filosofia materialista respondem que é o cérebro. Os místicos e a filosofia idealista respondem que é a personalidade anímica. O cérebro é o órgão físico processador do pensamento, mas quem pensa é a personalidade. As idéias são produzidas pela inteligência e a inteligência é função da alma universal e da alma personalizada. Aquietando o cérebro e entrando em contato direto com a memória cósmica é possível obter conhecimento

Quando opera para colocar ordem nas idéias a inteligência recebe o nome de razão; quando opera para produzir idéias e imagens, a inteligência recebe o nome de imaginação. Razão e imaginação parece forma operacional da inteligência exclusiva do ser humano. Há probabilidade – não há certeza – da existência de seres racionais e imaginativos em outros pontos do universo. Quanto aos seres desencarnados que pairam no mundo espiritual – tomando-se como certa a existência desse mundo e desses seres – a citada forma operacional é dispensável, posto o acesso direto ao conhecimento sem os entraves da matéria. O terreno metafísico, envolto em permanente neblina, impede a visão racional; nele se penetra com a lanterna da fé e da intuição. A razão opera com os dados trazidos pelos sentidos. O silogismo de autoria de Aristóteles, citado nos manuais de lógica, serve de exemplo: todo homem é mortal (axioma fundado na experiência); Sócrates é homem (verificação sensível, pois “Sócrates” pode ser o nome de um animal de estimação); logo, Sócrates é mortal (inferência racional). De proposições evidentes por si mesmas denominadas axiomas a razão deduz novas proposições denominadas teoremas.

Algumas proposições consideradas axiomáticas são colocadas fora de discussão, tais como: existência de Deus, imanência da vida no universo, bipolaridade da energia fundamental do universo, mortalidade dos seres vivos, racionalidade dos humanos. Os céticos duvidam da capacidade da inteligência humana de ir além da aparência e chegar à essência das coisas. Inobstante, a partir das proposições axiomáticas e do testemunho dos sentidos o ser humano elabora teorias e doutrinas a fim de orientar e disciplinar a conduta humana, explicar e compreender o mundo natural, cultural e espiritual. Nessa tarefa há desacordos. O debate enseja luz. Perplexos, os debatedores descobrem que em certos assuntos que estimulam a curiosidade, a mente humana é incapaz de chegar à verdade definitiva e monolítica.

A pretensão à verdade monolítica aduba o totalitarismo no mundo político e o fanatismo no campo religioso e místico. A verdade de cada um há de ser guardada com carinho, porém a mente deve se abrir a novas possibilidades. A substituição da verdade antiga pela nova nem sempre é imediata; geralmente, há um período de resistência até que os espíritos se acomodem. A mente inquiridora prossegue na busca de maior luz.

Após uma taça de poesia, o próximo tema será AMOR.