sábado, 23 de março de 2013

JESUS, OS APELIDOS.



No estágio atual do conhecimento humano, a crítica racional revela o caráter fantasioso e apologético das narrativas bíblicas, tanto as do antigo como as do novo testamento. A vida e a doutrina de Jesus narradas nos evangelhos serviram de alicerce à civilização ocidental cristã. Daí a importância de examiná-las em cotejo com a natureza humana e a realidade histórica. Essa cautela afastará mitos e espertezas que entrevaram a maioria dos cristãos e produziram uma cultura estribada na falsidade e na hipocrisia. Deformada moralmente, essa cultura beneficiou grupos religiosos, políticos e econômicos, aprofundou desigualdades sociais, trouxe miséria e sofrimento a grande parcela da humanidade, consoante testemunho da história medieval e moderna.

Alguns pontos polêmicos permanecem vivos. Jesus era o seu nome de batismo (Joshua). Se fosse o messias hebreu, o nome teria de ser Emanuel de acordo com a profecia do antigo testamento. O anjo que apareceu a José e Maria mudou o nome para Jesus (Mt 1: 21/23; Lc 31). Da narrativa de Lucas deduz-se que o anjo Gabriel deflorou Maria. Ela engravidou, pariu Jesus, consagrou-o a Deus (tornou-o nazareno) e o encaminhou ao monastério do Monte Carmelo. Isto certamente melhorou as relações entre Maria e seu marido José. Este parecia não se sentir feliz com aquele bastardo em seu lar a lembrá-lo do defloramento de Maria por outro homem que se dizia anjo.

Ao nome de Jesus foi agregado o apelido nazareno sem relação alguma com o torrão natal, pois naquele tempo não havia cidade ou aldeia com o nome de Nazaré segundo constatou Harvey Spencer Lewis (La Vida Mística de Jesús. San José, Califórnia, Gran Logia Suprema de Amorc, 1967, pág. 48, 114, 132). Posteriormente à época de Jesus, batizaram uma aldeia com o nome Nazaré para encobrir o fato de ele ter pertencido a uma seita mística. Interessava passar aos fiéis a idéia de que todo o conhecimento de Jesus vinha diretamente de Deus e não dos homens. Jesus freqüentava as seitas nazarita e essênia cuja doutrina adotara. Daí o apelido nazareno. Além disto, entre os hebreus esse apelido era dado ao filho primogênito quando a família o colocava ao serviço de Deus, como aconteceu com Samuel e Sansão, juízes hebreus, ambos nazarenos, nenhum deles nascido em aldeia ou cidade denominada Nazaré. Subordinada às leis da Palestina (romanas e judias) Maria seguiu o costume e colocou Jesus no monastério.

Outro apelido agregado ao nome de Jesus foi o de cristo (= ungido). Tal era o apelido de místicos ungidos com óleos, sagrados, purificados, que alcançavam iluminação espiritual. O nascimento de Jesus bipartiu o tempo histórico em antes de Cristo (a.C.) e depois de Cristo (d.C.). Os seus seguidores foram denominados cristãos, espalharam-se pelo mundo, organizaram igrejas e se distribuíram em ortodoxos e heterodoxos, católicos, protestantes e espíritas. De acordo com o pensamento de Cristo, a quem padecesse pobreza, fome e tristeza na Terra, haveria riqueza, fartura e alegria no Céu; haveria juízo final: os bons entram na morada divina e os maus queimam no inferno; cada qual será medido pela mesma medida com que mede os outros.
Cristo recomendava as seguintes condutas: (i) amar ao inimigo, fazer bem a quem nos odiar, abençoar aos que nos maldizem, orar aos que nos injuriam; (ii) a quem nos ferir numa face, oferecer a outra; a quem nos tirar a capa, deixar que também leve a túnica; dar ou emprestar a quem nos pedir, sem almejar retorno; se alguém tirar o que é nosso, não reclamar; (iii) fazer às pessoas o que queremos que elas nos façam; (iv) ser misericordioso; não julgar para não ser julgado; não condenar para não ser condenado; perdoar para ser perdoado.
Os seguidores dessas recomendações formariam uma comunidade de santos. Até hoje, nenhuma comunidade cristã as seguiu à risca. A doutrina é bela, mas impraticável em sua plenitude. O pólo demoníaco da natureza humana é o grande e poderoso óbice. Nem Jesus a praticou inteiramente como se vê dos episódios de violência no templo, luxúria, menosprezo à mãe e aos irmãos, destempero verbal contra opositores.

Jesus também recebia tratamento de rabi (= mestre). Assim o chamavam os discípulos e aqueles que ouviam suas preleções. Ele demonstrava conhecimento da lei mosaica, da lei romana e do mundo material e espiritual. Ensinava em lugares abertos e fechados; ao pé da montanha e à beira do lago; nas casas de discípulos e de simpatizantes; nas sinagogas e no templo de Jerusalém. Travava debates com os sacerdotes e escribas judeus. Estes perceberam que a religião judia corria o risco de perecer diante da nova doutrina. Ficaram preocupados quando aumentou a parcela do povo de Jerusalém que aderiu aos novos ensinamentos. Acusaram Jesus de blasfêmia e o condenaram à morte. Jesus estava com mais de 40 anos – e não 33 como se difundiu – quando tramaram a sua morte. Está lá, no evangelho: Os judeus lhe disseram: Não tens ainda cinqüenta anos e viste Abraão! (João 8: 57). Se Jesus estivesse na faixa dos 30 anos, eles teriam dito: não tens ainda quarenta anos e viste Abraão!  Os judeus que o questionavam e censuravam nesta ocasião eram fariseus, componentes da elite intelectual e religiosa de Jerusalém, bem informados sobre Jesus, seu grupo e seus ensinamentos (João 8: 12/59).    

O povo da Palestina considerava Jesus um profeta. Desde Elias em 875 a.C. até Malaquias em 450 a.C. quase vinte profetas se destacaram. Qualificava-se profeta a pessoa carismática a quem se dava o crédito de visões do futuro, de falar em nome de Deus e de expressar a vontade de Deus. Daí, a autoridade moral dos profetas sobre o povo hebreu e seus governantes. No sermão da montanha, Jesus referiu-se aos maus tratos de que eram vítimas os profetas. Na sinagoga da cidade em que viviam seus pais, ele reclamou da desconfiança do povo em relação à sua pessoa e disse com amargor que nenhum profeta é bem aceito em sua pátria. Quando se excediam nas admoestações, os profetas eram ameaçados e punidos pelo povo ou pelos governantes. Isto aconteceu inclusive com Jesus e João Baptista. A fim de atrair adeptos às suas doutrinas, mudar costumes e crenças, os dois se excederam na agressividade contra judeus e autoridades judias. A conseqüência foi drástica: prisão e morte.

sábado, 16 de março de 2013

JESUS, O FEIO.


Há poucas referências sobre a aparência de Jesus. Sabe-se que ele usava barba e cabelos compridos, vestia túnica branca e andava de sandálias, porque este era o figurino dos essênios. Há dúvida quanto à compleição física. Desconhece-se a fisionomia, a cor dos olhos, dos cabelos e da barba. Alguns lhe atribuem nariz adunco típico dos judeus. Acontece que Jesus e seu grupo não eram judeus e sim galileus arianos (apenas Judas era da raça judia semita). Os judeus desprezavam-nos por serem gentios (estrangeiros) e não seguirem a doutrina judia. Como lembra Harvey Spencer Lewis, os galileus eram ridicularizados pelos judeus: da Galiléia nada de bom pode sair (La Vida Mística de Jesús. San José, Califórnia, Gran Logia Suprema de Amorc, 1967, pág. 178). Os judeus perguntavam ironicamente: É acaso da Galiléia que há de vir o Cristo? Não diz a escritura: o Cristo há de vir da família de Davi e da aldeia de Belém onde vivia Davi? (Jo 7: 41/42). Contemporâneos de Jesus, aqueles judeus sabiam que ele não nascera em Belém e nem descendia de Davi. O próprio Jesus se excluiu da nação judia ao discutir com eles: Bem sei que sois a raça de Abraão, mas quereis matar-me porque a minha palavra não penetra em vós (Jo 8: 37). O local do nascimento e a linhagem dos pais eram relevantes para a legitimidade dinástica e a qualificação de Jesus como o messias referido na bíblia (antigo testamento). Em seus evangelhos, Marcos e João silenciaram sobre isto, sintonizados com o protesto dos judeus e com a conduta de Jesus.

Além da hebraica, havia outras etnias na Palestina. A variedade étnica sempre foi uma característica daquele território cujo tamanho lembra o território do estado brasileiro das Alagoas. Quando o pequeno e insignificante grupo de hebreus guiado por Abraão lá chegou havia inúmeros povos habitando a região com seus próprios costumes e crenças (como se cada município do estado das Alagoas fosse habitado por um povo diferente). As relações entre esses povos nem sempre foram amistosas. No curso dos séculos, aquele grupo cresceu, tornou-se uma nação e se constituiu reino. Depois de Salomão, o reino bipartiu-se: Judá (duas tribos do povo hebreu) ficou ao sul da Palestina (Judéia, capital Jerusalém) e Israel (dez tribos do povo hebreu) ficou ao norte (Samária e Galiléia). Após a expulsão das dez tribos, o norte foi povoado por migrantes do império assírio. No século II a.C. havia judeus naquela região, mas foram removidos para a Judéia com apoio de Judas Macabeo. Destarte, na época de Jesus, a Galiléia “dos gentios” era habitada pelos descendentes dos referidos migrantes e outras etnias.

Os evangelhos colocam os judeus em posição oposta à de Jesus e seu grupo. Deixam claras: (i) a separação entre judeus e galileus; (ii) a diferença de origem e de doutrina. Nos Atos dos Apóstolos (1: 19) lê-se: Tornou-se este fato conhecido aos habitantes de Jerusalém, de modo que aquele campo foi chamado, na língua deles, Hacéldama, isto é, Campo de Sangue. Aqui, Pedro distingue o modo de falar dos judeus do modo de falar dos galileus. Os dois grupos estavam submetidos às mesmas leis romanas e judias do período em que a Palestina estava sob domínio estrangeiro (Roma). 

No século I d.C. (1-100) os judeus se dividiam politicamente em dois blocos: um favorável à paz com os romanos; outro favorável à guerra de libertação. Neste segundo bloco destacavam-se os zelotes (zelavam pela liberdade da pátria). Quanto à religião, dividiam-se em dois ramos: fariseus e saduceus. Na Palestina havia seitas sem fidelidade à religião hebréia, como a nazarita e a essênia. Estas duas se reuniam no monastério do Monte Carmelo, segundo H. Spencer Lewis (obra citada, pág. 107/108). Algumas seitas e parcela do povo palestino discordavam do pagamento de tributo a Roma.     



Josefo (37-101 d.C.) historiador judeu, na coleção de textos de sua autoria tece elogios a Jesus sem tocar na aparência física e insinua que ele era mais do que homem (divino) porque foi autor de feitos extraordinários (Antigüedades Judías. Madri, Akal/clásica, 1997, tomo II, livro XVIII, p. 1089, parágrafo 63). No torvelinho daquele século um judeu ou um romano jamais faria tal elogio. Os evangelhos começavam a ser escritos. É possível que algum apóstolo tenha servido de fonte a Josefo. Todavia, o mais provável é aquele encômio de evidente coloração cristã ter sido interpolado pela igreja no século IV (301-400) para reforçar a crença na historicidade e no poder divino de Jesus.
 

A conduta enganadora de Josefo enfraquece a credibilidade dos seus escritos. Na Galiléia, aos 30 anos de idade, Josefo comandou tropas judias na revolta palestina contra os romanos (anos 66/70). Na série “Guerra dos Judeus” de sua autoria, composta de sete livros (Curitiba, Juruá, 2012) ele conta que se escondeu em uma cisterna com 40 soldados (livro III, pág. 61/70). Descoberto o esconderijo, os emissários dos generais romanos Vespasiano (futuro imperador de Roma) e Tito (filho de Vespasiano) prometeram poupar a vida dos prisioneiros caso se entregassem. Os soldados preferiram morrer a se entregar. Favorável à proposta dos romanos, Josefo discorre sobre o caráter insensato e pecaminoso do suicídio. Os soldados não se convenceram, insistiram no suicídio coletivo, chamaram Josefo de traidor e covarde e avançaram para matá-lo. Josefo recuou, concordou com os soldados e determinou que a execução fosse por sorteio: o primeiro sorteado seria decapitado pelo segundo, o segundo pelo terceiro sorteado, o terceiro pelo quarto e nesta seqüência até o final. O último tiraria a própria vida. Assim fizeram. Josefo e outro ficaram por último, desistiram do suicídio e se entregaram aos romanos. Josefo caiu nas graças de Vespasiano e Tito, assessorou-os na vitória sobre os judeus e na destruição do templo (ano 70). Trocou o nome judeu (Yossef ben Matitahu ha-Cohen) por nome latino (Tito Flavius Josephus), obteve cidadania romana e serviu aos imperadores romanos.

Celso, filósofo romano, no livro “A Palavra Verdadeira”, escrito no século II d.C. (101-200) informa que Jesus era um homem feio e de baixa estatura. Este dado contraria a tese de que Jesus é uma lenda; que Jesus nunca existiu. Celso afirma que o judaísmo e o cristianismo são caudatários da filosofia grega e romana; que não há originalidade nas doutrinas judaica e cristã; que ambas são cópias de outras religiões; que a circuncisão foi copiada dos egípcios; que Jesus nasceu do adultério de Maria e atribuir-lhe natureza divina é um absurdo; que Jesus escolheu marinheiros e um coletor de impostos para divulgar idéias perversas; que Jesus os ensinou a mendigar e a roubar; que os seus seguidores o abandonaram quando Pilatos o prendeu e o condenou à morte.

Orígenes, teólogo cristão, no livro “Contra Celso”, escrito no século III (201-300) contestou as assertivas do filósofo romano, mas silenciou sobre a aparência de Jesus. Orígenes demonstrou conhecer o livro de Celso ao fazer as citações e respectivas críticas. Depois da contestação, o livro de Celso desapareceu. O sumiço é atribuído à igreja católica. Os textos eram manuscritos e tinham como suporte tabuas de madeira cobertas de cera e rolos de papiro ou pergaminho. Cópias eram raras e o acesso restrito. O grosso da população não sabia ler e escrever. Os copistas do rei, do sacerdócio ou do proprietário copiavam cartas e documentos contábeis entre outros.

A difusão de textos só aumentou a partir do século XV (1401-1500) quando Gutenberg inventou a técnica de impressão com tipos móveis (tipografia). Apesar desta invenção e do crescimento demográfico, o acesso ao livro continuou privilégio da minoria porque a maioria dos europeus era pobre e analfabeta. No século XX (1901-2000) aumentou o número de letrados na Europa e na América, os preços baixaram e maior parcela da população teve acesso a livros, jornais e revistas.

A imagem de Jesus em pinturas, esculturas, cartazes, é a de homem europeu, bonito, feições suaves e gestos afeminados. A elegância e a beleza física do pregador ajudam a tornar palatável a sua mensagem. Perfil diferente se extrai da bíblia (novo testamento): homem temperamental que destrata os seus opositores e não titubeia em usar a força física. Em Curitiba, meados do século XX, dizia-se que “todo baixinho é invocado”, para significar arreliento. Jesus (baixinho, feio e briguento) foi preso pelos soldados judeus, julgado e condenado à morte – não por Pilatos – e sim pelo Sinédrio, tribunal judaico formado por sacerdotes, escribas e anciãos. Pilatos queria soltar o prisioneiro, mas diante da ameaça dos judeus de denunciá-lo ao imperador romano por proteger um subversivo que pretendia ser rei, ele declara a inocência de Jesus e lava as mãos (Mt 16: 59/66 + 27: 20/24; Mc 14: 53/64; Lc 22: 52; Jo 18: 12).

quarta-feira, 13 de março de 2013

PAPA



Quando anunciou a intenção de renunciar ao cargo, o que se efetivou em 28/02/2013, o papa Bento XVI referiu-se a dissensões internas na igreja. Ao abdicar do trono de São Pedro, referiu-se às nuvens no céu do Vaticano. 
As dissensões na comunidade cristã sempre existiram, antes e depois da morte de Jesus, conforme se vê de passagens dos evangelhos e dos atos dos apóstolos. Havia ciumeiras, desavenças e disputas pelo poder entre eles. Ao perceber essa conduta dos apóstolos, Jesus lhes deu um mandamento especial: “amai-vos uns aos outros como eu vos amo” (Jo 15: 12).

Esquecidos do mandamento, os sucessores digladiam-se e praticam delitos; dividem-se em ortodoxos e heterodoxos, católicos e protestantes, pastores e administradores; cultivam a hipocrisia, o homossexualismo, a pedofilia, a corrupção; organizam a igreja de forma mundana com apego ao dinheiro, ao luxo e à política; disputam hegemonia e mercado.
No seio da igreja católica o pólo demoníaco da natureza humana revelou-se mais forte do que a doutrina, do que os juramentos, do que a batina dos padres e a púrpura dos cardeais.

sábado, 9 de março de 2013

FRASES IRREFLETIDAS



1) Vá chafurdar no lixo como você sempre faz.
Autor: Joaquim Barbosa, ministro do Supremo Tribunal Federal.

No início do mês de março/2013, ao sair de uma reunião do Conselho Nacional de Justiça, o ministro Joaquim Barbosa, ao ser interpelado por um jornalista, mandou-o chafurdar no lixo e o chamou de palhaço. Do que consta da lista da Associação Nacional dos Magistrados Estaduais na rede de computadores e do jornal ali mencionado, percebe-se que o ministro já tinha esse jornalista na mira, na conta de alguém que falta à verdade e distorce os fatos.

Chafurdar significa enlamear-se, sujar-se, tornar-se imundo. O verbo é empregado geralmente para indicar o revolver dos porcos na lama do quintal ou no chiqueiro. A atitude do ministro foi aprovada por alguns magistrados e censurada por outros que se pronunciaram na citada lista. Dos magistrados exige-se decoro, cuja falta enseja punição consoante lei complementar 35/1979. Segundo essa lei, aos membros dos tribunais ordinários e superiores não se aplicam penas de advertência e censura. Por faltas disciplinares, eles estão sujeitos às penas de remoção e aposentadoria compulsórias, disponibilidade e demissão.   

Lição da experiência: no jornalismo não há compromisso com a verdade; falta boa educação e respeito à privacidade alheia; sobra abuso no exercício da profissão. Considerada o quarto poder, a imprensa dele abusa e atua segundo seus próprios interesses econômicos e políticos; não há imparcialidade, isenção de ânimo, amor à verdade e espírito de justiça. A ânsia por sensacionalismo sobrepõe-se a qualquer escrúpulo. Certa vez, entrevistando o presidente Collor, o jornalista perguntou se ele era corrupto. Essa pergunta retrata bem a falta de bom caráter desse tipo de jornalista. Ele quis exibir coragem e atrevimento aos seus colegas de profissão e aos seus chefes na redação. Formulou pergunta idiota e injuriosa. Jamais o entrevistado admitiria ser corrupto ou criminoso. A intenção do jornalista não era a de informar o público e sim a de promover a si próprio.     

2) Os mortos governam os vivos.
Autor: Luiz Fux – ministro do Supremo Tribunal Federal.

Em sessão do Supremo Tribunal Federal (6-7/03/2013) ouviu-se do ministro a frase acima. Citou-a para se por contra a cristalização de princípios e regras e justificar a mudança de normas constitucionais e legais elaboradas por gerações passadas. Segundo o ministro, cada geração tem o direito de elaborar suas próprias leis. Assim também pensam os tiranos.

No Brasil, paraíso dos estelionatários públicos e privados, a frase serve aos espertalhões que pretendem mudar as normas em benefício próprio. O ex-presidente Fernando Henrique debochava das cláusulas pétreas e dos juristas que as defendiam. Ele, Luiz Inácio e Dilma seguem a vocação autocrática dos governantes brasileiros: afastam regras legítimas para atender às suas idiossincrasias, aos seus planos pessoais e aos interesses da canalha incrustada nos labirintos do poder público. Conquistam maioria no Legislativo para obter emendas à Constituição e leis que amparem os seus projetos e safadezas. Colocam na suprema corte ministros dispostos a defender cerebrinamente a juridicidade de normas espúrias.

A frase em tela é de efeito meramente retórico sem amparo na razão e nos fatos. Os vivos são governados por leis da natureza, por leis humanas e por pessoas vivas. As almas dos mortos pertencem a outro mundo. Os seus corpos se decompõem em terra ou cinzas, ou servem de alimento a antropófagos e a animais irracionais. Chávez já não governa os venezuelanos; nem Getúlio, os brasileiros.

Há idéias e crenças que permanecem válidas através dos séculos. Princípios morais, jurídicos e religiosos que emanaram da milenar experiência dos povos e que integram os valores de determinada civilização servem de balizas ao poder político atual. O Código Civil brasileiro de 2002 contém preceitos com mais de dois mil anos de existência oriundos do direito romano. A Constituição brasileira de 1988 contém alguns princípios e regras fundamentais vigentes há oitocentos anos na Inglaterra, outros gerados nas revoluções americana e francesa do século XVIII (1701-1800) e outros no pensamento socialista do século XIX (1801-1900) que se integraram aos valores da civilização ocidental e continuam válidos até hoje (2013). Por mais de duzentos anos gerações se sucedem nos EUA sob a égide da mesma Constituição. Cada nova geração a recebe, a mantém e zela por sua eficácia. Preserva a sua herança cultural e valoriza a sua identidade como nação. Mudam-se normas em face de exigências sociais e econômicas sem perder a sintonia com os princípios e as normas fundamentais.

sábado, 2 de março de 2013

ENCONTRO NA PRAÇA



Olavo, meu camarada! Como vai essa força?

Ora, ora, se não é o Arquibaldo!

Sou eu mesmo. O que faz você aqui nesta praça, em manhã de sol, todo enternado, engravatado e ensapatado? Noto que você carrega sofisticada valise de couro. Será que aquele adolescente tímido do curso colegial abraçou profissão que exige espírito de luta?

Ô Arquibaldo, você não perdeu a maneira jocosa de se expressar e aquele jeito extrovertido que a turma do colégio admirava. Pois é. Adivinhou. Sou advogado. Estou de roupa de trabalho porque meu escritório fica ali naquele prédio. Deixo meu carro no estacionamento deste outro lado da praça.

O que você me conta, Olavo, está tudo bem?

Sim, está tudo bem. Enfrento dificuldades normais no exercício profissional e na consolidação da família. Chegam os filhos e o sossego bate asas. Sou pai de dois: o rapaz formado em direito e a moça em pedagogia. Moro na Barra da Tijuca. Marieta, minha esposa, formou-se em psicologia e montou consultório na Zona Sul. Além disto, atua como assistente dos juízes em varas de família. Continuo a torcer pelo Flamengo. Mantenho-me longe dos partidos, mas acompanho o desempenho dos políticos eleitos. Da crise econômica mundial de 2008, por exemplo, acho que o governo brasileiro saiu-se bem. Já no quesito honestidade não se pode dizer o mesmo. Na democracia impera a lei elaborada pelos representantes do povo. Quando a casa dos representantes vira covil de ladrões e vagabundos, o império da lei torna-se um risco para a democracia e para a justiça. Os juizes têm de buscar escoras nas vigas mestras do Direito para escapar da involuntária cumplicidade com as safadezas dos legisladores. Creio que a postura enérgica do supremo tribunal na ação penal do “mensalão”, por exemplo, não intimidará os corruptos. O mal é congênito. Mas, Arquibaldo, fale-me de você.

Tentei engenharia, mas desisti. Prestei concurso, ingressei no serviço público, fiz carreira e me aposentei com proventos insuficientes para uma vida cômoda. Continuo a trabalhar como corretor de imóveis para reforçar a renda mensal. Por duas vezes casei e me separei. Moro sozinho no Leme. Cansei das rondas noturnas pelos bares de Copacabana, Leblon e Gávea. Para mim, a boemia perdeu a graça. À Lapa, eu só vou para acompanhar algum amigo em visita ao Rio. Quase não vou ao teatro. Meus atores preferidos morreram e restam poucas atrizes do meu agrado. Cinemas de que eu tanto gostava fecharam as portas. Não há mais glamour. Salas insossas nos shoppings. Poucos filmes de boa qualidade. Ainda resta a pipoca. Assisto a alguns programas na televisão. Durmo cedo e acordo cedo. Tomo o café da manhã na padaria ao lado do edifício onde moro. Pão quentinho que derrete a manteiga. Na xícara, fumegando, um estimulante café. Não troco esse café nem pelo sortido café do Sheraton. Há delícias que só a simplicidade propicia. Do primeiro casamento, tenho um filho que se formou em medicina; do segundo, duas filhas: uma formada em odontologia e outra em educação física. O meu time do coração continua a ser o Fluminense. Lembra da algazarra que eu fazia no pátio do colégio quando o tricolor vencia? O inspetor de alunos acabava com a festa. Ele era vascaíno. Fui militante na política partidária e tirei bom proveito disto. Para mim, obtive cargos em comissão e gratificações que engordavam a renda. Para meus filhos, consegui boas colocações enquanto eles cursavam a faculdade. Ontem eu tentava vender apartamento para um cliente da imobiliária quando ele mencionou a proximidade da data do fim do mundo. Dei a mínima para aquela bobagem. O mundo acaba para quem morre.

Pois eu, enquanto aguardava o fim do mundo participei de uma rodada de chope com os amigos na hora do almoço. À noite, em casa, a família se reuniu em jantar festivo organizado por Marieta. A crença no fim do mundo, Arquibaldo, é armadilha do intelecto. Vida e morte, começo e fim, são idéias fincadas na experiência humana. Os seres vivos nascem e morrem. Estrelas nascem e morrem. Civilizações emergem, ascendem e declinam. Fácil pensar então – ainda mais com apoio em escrituras religiosas – que o cosmos também teve começo e terá fim. No meu entender, fim terá a vida em nosso planeta quando o sol queimar todo o seu combustível, o que levará milhões de anos. 

Estou com você, Olavo. Não descarto a extinção acidental da vida em extensão planetária por cataclismo decorrente do choque com algum corpo celeste de enorme dimensão, ou por hecatombe nuclear provocada pela doidice das lideranças mundiais. As verdades científicas são sempre provisórias. A inteligência humana passa por altos e baixos. A mediocridade ocupa o espaço maior na comunidade humana. Veja alguns exemplos domésticos: Academia Brasileira de Letras, nos últimos cinqüenta anos tornou-se abrigo de mentecaptos. No ensino, a decadência é notória. Raros são os estabelecimentos em que o ensino é de boa qualidade. Profissionais de formação acadêmica cometem erros crassos com graves prejuízos aos clientes, à sociedade e ao Estado. A presidente da República deu uma paulada no vernáculo ao exigir tratamento de Presidenta, além do embaraço ao se expressar sem muletas. 

A conversa está boa, mas o tempo voa. Gostou da rima? Preciso ir ao escritório elaborar petições e me preparar para uma audiência vespertina. Vamos nos encontrar mais vezes de agenda marcada e não ao acaso. Não vamos dar chance à saudade. Dá cá um abraço.

Saudade, Olavo, é bom e nostálgico sentimento provocado pela recordação das experiências registradas em nossa memória e que deixaram marcas em nosso coração. Gosto de curtir as doces lembranças e não só o momento atual. Agora, sigo para o apartamento do meu filho no Leblon, coloco traje de banho e vou à praia porque está no meu horário. Vá lá o abraço.

Traje de banho? Horário de praia? O que é isso, Arquibaldo? Você quer me impressionar ou me provocar inveja?

Nem uma coisa, nem outra. O traje de banho compõe-se de sunga e sandália. Horário de praia é o período da manhã que eu escolhi para caminhar na areia e tomar banho de mar. Nesse horário a praia é freqüentada por mulheres bonitas e de corpos torneados em academia. Quando elas mergulham, os traseiros roliços e firmes brilham ao sol antes de sumirem na água. Colírio para os olhos. Isto me basta, pois além de senil, estou um bagaço. 

Sentindo a fofa areia da praia sob os pés, Arquibaldo pensava enquanto caminhava: será que Olavo acreditou em tudo o que eu disse? A troca de endereços e telefones foi para valer? Sabemos que não. “Apareça”, “me liga”, expressões convencionais que se esgotam em si mesmas. Passam os anos e não aparecemos, nem ligamos.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

FUTEBOL



Seleção inglesa x seleção brasileira (2 x 0). Os ingleses bem entrosados mostraram um futebol eficiente. Até o momento, mostram-se preparados para a copa de 2014. Os brasileiros estão bem individualmente. Necessitam melhorar o conjunto. O treinador convocou jogadores experientes e novatos, todos bons e em forma. Entre os experientes, Ronaldo Gaúcho perdeu um pênalti. Demérito para o batedor; mérito para o goleiro. O batedor tem a obrigação de converter a penalidade em gol diante da enorme vantagem de que dispõe: tiro livre (sem barreira) a pequena distância com enorme gol à sua frente. O goleiro não tem obrigação de defender diante da evidente desvantagem decorrente da punição; se defender, aleluia! Artilheiros como Zico, Romário, Neymar, perderam cobranças de penalidade, o que não lhes retirou a qualificação de bons jogadores. Agora mesmo, no campeonato português, na partida contra o Rio Ave, o artilheiro do Porto cobrou penalidade com a “cavadinha” e o goleiro defendeu. O batedor reabilitou-se na mesma partida ao cobrar de modo simples uma segunda penalidade. Certa vez, o argentino Palácio deixou de converter três penalidades distintas no mesmo jogo.

A presença de Parreira na comissão técnica é mau agouro. Com a sua displicência ele enterrou a seleção de 2006. O elenco daquela seleção era muito bom: Cafu, Juninho Pernambucano, KK, Mauro Silva, Roberto Carlos, Robinho, Ronaldo Gaúcho, Ronaldo Nazário, Zé Roberto, entre outros. Todos confiavam na conquista da copa. A concentração da equipe virou festa. Desvario. Resultado: ficou nas oitavas-de-final. Há jogadores briosos que merecem respeito. Desgostosos com a derrota e com aquele clima carnavalesco, Juninho Pernambucano, Mauro Silva e Zé Roberto decidiram não mais participar da seleção brasileira. Ausência sentida em 2010. Seria bom se voltassem à seleção para a copa de 2014, agora sob o comando de Luis Felipe Scolari. A questão da idade é preocupação de jornalistas brasileiros repetitivos, medíocres, desatualizados com a medicina. Ao treinador mais importa saber se o jogador está em forma do ponto de vista físico, técnico e psicológico e situado entre os melhores da atualidade. Em caso positivo, estudar o modo de bem aproveitá-lo na seleção brasileira.  

Campeonato paulista. 23/02/2013. Bragantino x Corinthians (2 x 2). O Bragantino jogou bem. Lembrou o tempo em que o jovem Luxemburgo era o treinador. Grande partida do Pato; atuou como nos seus primeiros jogos na categoria profissional. Por que ele não jogava tão bem na Europa? Aconteceu o mesmo com Robinho que ambicionava o título de melhor jogador do mundo e cuja estrela perdeu o brilho em céus europeus. Talvez o mesmo aconteça com Lucas, cuja ambição é a mesma de Robinho. Já as estrelas de Careca, Falcão e Romário brilharam naquele firmamento sem a preocupação de ganhar aquele título. Inibição de uns, desenvoltura de outros? Bem possível. O fato negativo pode ter diversas causas: (i) falta de adaptação ao clima europeu, ao futebol europeu, aos costumes europeus; (ii) política dos treinadores; (iii) indiferença da torcida local; (iv) saudade do paparico da imprensa, dos amigos, parentes e torcedores.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

PASSARINHADA



1951. Alto da Rua Itupava, periferia de Curitiba, onde as casas eram de madeira e havia chácaras de imigrantes e descendentes. Plantavam verduras, legumes, pés de laranja, pêra, jabuticaba; criavam gado leiteiro, porcos, galinhas. Havia cavalos atrelados a carroças de rodas de madeira com aros de ferro, sem molejo, tábua servindo de banco. Nós, minoria, de baixa estatura, pele morena, cabelos e olhos escuros, contrastávamos com aquela gente alta, pele clara, cabelos louros ou castanhos claros, olhos azuis ou verdes. Olhávamo-nos com mútua curiosidade. Ao falar, eles erravam na concordância e na pronúncia. No alvorecer do dia e da adolescência eu saía com a minha cetra para caçar passarinhos. No bornal, a munição: pequenas pelotas de barro feitas por mim e secadas ao sol. No regresso, eu depenava os dois passarinhos que caçara e minha mãe os temperava e fritava, mais para nutrir o meu orgulho de caçador do que para alimentar o corpo. O diminuto volume da carne não mexia o ponteiro da mais sensível balança. Pesava mais a satisfação moral de comer a caça.

2013. Campos e morros de Penedo, distrito de Itatiaia/RJ. Ao raiar do dia os passarinhos começam a cantar aqui no quintal de casa e nas cercanias. Suspendo a música da meditação. Escuto-os. Entôo sons vocálicos, cada qual no tom adequado para acompanhá-los. Penso: provavelmente, os místicos orientais se inspiraram no canto dos pássaros quando inventaram os mantras. O meu diabinho interior questiona: por que os passarinhos cantam? Podiam apenas voar, beber, comer e reproduzir. Respondo: é da natureza deles; cantam de alegria. O diabinho pondera: mas o canto pode ser de tristeza. Os poetas cantam as desilusões e as experiências que os fizeram sofrer. Respondo: sim, mas os poetas são homens e não passarinhos. O diabinho opina (aliás, era essa a sua intenção desde o início): da minha parte, acho que os passarinhos cantam o hino à vida. O canto os fortalece e os identifica; cada espécie, o seu gorjeio. Aborrecido por ver minha verdade questionada e minha vaidade ferida não lhe dei resposta. Liguei o aparelho de som. Música suave. Voltei a meditar.

As andorinhas costumam enfileirar-se nos quatro fios da rede elétrica que passa em frente e ao lado da minha casa. Por um longo tempo ali ficam quietas ou a bicar embaixo das asas; às vezes, uma ou outra muda de posição. Há ocasiões em que não passam de uma dezena, param pouco e logo vão embora. Hoje contei mais de 100. Uma festa! Veio um pardal e se empoleirou no topo do poste com pose de dono do pedaço. Ouço um canto alto, forte e melodioso. Não é do pardal, nem da andorinha. Localizo o cantor: um passarinho, inho, inho, do tamanho do mindinho. Fico admirado: como este pequerrucho pode cantar desse jeito alto e vigoroso? Assemelha-se à espécie de passarinho que no Paraná, ainda crianças, nós chamávamos de corruíra. Ele parece gostar da audiência. Faz trejeitos, olha-me de soslaio, finge que não me vê estufa o peito e capricha no agudo. Aceito o desafio. Finjo também que não o vejo, fico no pátio e não arredo o pé enquanto ele não decola. O bem-te-vi também canta alto e forte, mas é um gigante comparado com o tamanho deste passarinho. Quando um canta outros respondem e a cantoria parece orquestrada por maestro. Ouvem-se cantos vindos de mais distante, tanto das corruíras (vou chamá-los assim) como dos bem-te-vis, sabiás, pintassilgos e outras espécies de passarinho. Cria-se autêntica e natural sinfonia.