terça-feira, 13 de julho de 2010

VIAGEM

DIÁRIO DE VIAGEM I

Aeroporto Tom Jobim. 19,25. Horário de Brasília. Rio de Janeiro, 24 de junho de 2010.
Jussara e eu nos apresentamos para o check-in. Graças à minha idade e à lei brasileira, tivemos prioridade. Passamos pela inspeção policial sem qualquer óbice. Embarcamos na aeronave da Ibéria. 10 horas de viagem tranqüila.

Aeroporto de Barajas. 10,15. Horário europeu. Madri, 25 de junho de 2010.
Passaportes examinados com muita simpatia. Nossa bagagem de mão sequer foi inspecionada. Seguindo o conselho do nosso filho Rafael, utilizamos duas malas pequenas (50 x 40 x 30) exclusivamente, uma para mim e outra para Jussara. Desse modo, não foi necessário usar o bagageiro inferior do avião e ficar aguardando malas na chegada. Rafael lá estava a nos esperar. Acenou. Trocamos saudosos abraços. Tomamos o trem interno que nos levou até a saída do aeroporto. Alugamos o taxi que nos deixou no hotel Hight Tech Clíper Gran Via, centro de Madri. Rafael reservara quartos para nós em hotéis de Madri, Oslo e Paris. Instalamo-nos, tomamos banho, mudamos de roupa e saímos a passear pela cidade. Largas e asfaltadas avenidas nas artérias principais. Estreitas ruas secundárias pavimentadas com pedras. Praças espaçosas com piso de pedras e cimento, monumentos a reis, heróis e episódios históricos. Em algumas praças ajardinadas e arborizadas as pessoas sentam ou deitam sobre a grama. Arquitetura antiga e moderna. Edifícios residenciais de poucos andares, estilo ibérico, exibem sacadas floridas. Movimento intenso de pessoas nas ruas, bares e restaurantes. A crise econômica não transparece. Atmosfera leve e amigável. De um modo geral, pessoas simples, educadas e atenciosas com os turistas. Temperatura moderada apesar do verão. Noite segundo o relógio até por volta das 22,00 horas quando, então, começa a noite segundo a natureza e escurece. Assistimos ao jogo de futebol Brasil x Portugal. Conhecemos a escola em que Rafael cursou o mestrado em publicidade. Em sua casa, ele nos mostrou o diploma. Eu e Jussara ficamos contentes. Rafael mora perto dessa escola, no segundo andar de um edifício de três andares, sem elevador, escada com estrutura metálica e degraus de madeira. Divide o apartamento com outras pessoas (três quartos privativos e, em comum: sala, cozinha, banheiro e área de serviço). Aluguel rateado. Nessa rua fazem ponto duas ou três prostitutas sem que os moradores se incomodem. As prostitutas mais novas circulam logo acima, em uma das principais artérias de Madri denominada Gran Via. Rafael nos levou ao Restaurante Botin, fundado em 1725, o mais antigo do mundo, segundo os espanhóis. Acolhedor, no pequeno e bem aproveitado espaço, ocupamos mesa na parte superior. Refeição deliciosa. Aliás, come-se muito bem não só em Madri, como também em Toledo e Barcelona. Variamos de restaurantes sem repetir um só. Compramos bons e bonitos óculos de sol durante o nosso passeio. Aproveitamos o conforto do trem de alta velocidade e visitamos a histórica Toledo (26/06/2010). Ali fotografamos versos de Cervantes gravados em louça branca e letras azuis, moldura cimentada no muro defronte ao portal de entrada: “Qué tengo de despedirme / de ver al Tajo dorado? / Qué há de quedar mi ganado / y yo triste he de partirme? / Qué estos árboles sombrios / y estos anchos verdes prados / no serán ya más mirados / de los tristes ojos mios?”. De novo em Madri, tomamos o trem de alta velocidade para Barcelona, no litoral do Mar Mediterrâneo e caminhamos à margem das suas praias (27/06/2010). Tiramos fotografias da igreja projetada por Gaudi, famoso arquiteto catalão. Em cada uma dessas cidades nós almoçávamos nos locais que nos agradavam. Voltávamos no mesmo dia e jantávamos em Madri. Compras estavam fora de cogitação, embora, por curiosidade, olhássemos as vitrines. Nosso objetivo era passear, conhecer as cidades, observar as pessoas. Lazer sem objetivo cultural específico e sem correria por atrações turísticas. Em Madri, cobrimos algumas distâncias de trem metropolitano. Isto permitiu proveitosa circulação.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

FUTEBOL

HORA DA VERDADE II
O mau agouro vingou. A passagem prévia por Brasília impregnou a seleção brasileira da vibração negativa do presidente Luiz Inácio. O desconforto do técnico e dos jogadores notado na ocasião espelhava, provavelmente, o temor aos maus fluídos presidenciais. Verificada tal hipótese no plano dos fatos, a seleção venceu obstáculos exotéricos, mas sucumbiu na arena esotérica. A comissão técnica desempenhou bem a sua função. O treinador mostrou-se competente no seu ofício. Dedicou-se com afinco à seleção brasileira durante os últimos quatro anos. Enfrentou a súcia da mídia esportiva que o detratava. Respondeu bravamente as críticas infundadas e até ofensivas que lhe foram dirigidas por jornalistas e outras pessoas.
A dissolução da comissão técnica não se deve à derrota da seleção brasileira e sim ao encerramento da sua participação na copa, consoante política da Confederação Brasileira de Futebol - CBF, também adotada em outros países. Não houve demissão punitiva alguma. Nada impede que membros da comissão técnica dissolvida participem da nova comissão para a próxima copa. No Brasil, o presidente da CBF escolhe o técnico e este os jogadores visando ao êxito nas competições e não apenas aos interesses dos patrocinadores e da imprensa.
O ex-técnico acertou: (1) na convocação dos jogadores, em geral; (2) no trabalho e na disciplina da equipe; (3) no modo sério e proveitoso de dirigir a seleção; (4) na proteção à privacidade dos treinos e da concentração; (5) na reação às atitudes pejorativas de jornalistas mequetrefes. O ex-técnico errou: (1) ao convocar KK fora de forma e não convocar Ronaldo Gaúcho que recuperara a forma; (2) no jogo contra a Holanda (i) ao deixar de substituir Felipe Melo a tempo de evitar a previsível expulsão (ii) ao demorar para substituir Luis Fabiano (iii) ao manter KK em campo apesar da má atuação desse jogador em todos os jogos.
Durante as partidas, os jogadores brasileiros se esforçaram. Como sempre, o mais esforçado foi Robinho, embora estranhamente nervoso. Elano, Juan, Lúcio e Maicon destacaram-se pela técnica e eficiência. Os demais atuaram em nível ordinário. Na sua última partida, a seleção brasileira dominou a holandesa no primeiro tempo e foi por ela dominada no segundo. A seleção holandesa voltou com novo esquema de jogo e derrotou os brasileiros. Vitória tática do técnico holandês, roborada pela bactéria urucubaciae lulaensis que infectou a comitiva brasileira em Brasília. Seleções melhores do que a brasileira se apresentaram não só nesta de 2010, como também em outras copas. Em compensação, a seleção brasileira apresentou-se melhor do que as outras nas copas de 1950, 1958, 1962, 1970 e 1982 (embora sem vencer as de 1950 e 1982). Em 1994 e 2002, a seleção canarinho venceu, mas não convenceu.
Salvo alguma raridade, semelhante a Djalma Santos, a próxima equipe provavelmente será de jogadores que em 2014 terão idade máxima igual ou inferior a 35 anos. A CBF é uma organização profissional de caráter privado que projeta as atividades da seleção. Haverá de reduzir o peso da intervenção dos patrocinadores, inobstante a indiscutível importância do lado financeiro. Evitar-se-ão episódios prejudiciais à seleção brasileira, como o de KK e Ronaldo Gaucho na copa de 2010 e outros ocorridos na copa de 2006. A seleção encarna a nação brasileira na área esportiva. O sacrifício dos valores nacionais em prol de interesses econômicos privados tipifica violação a princípios éticos e jurídicos. O técnico a ser escolhido certamente executará o projeto elaborado pela CBF.

Em todas as partidas da copa houve falhas individuais no controle da bola, nos passes, cruzamentos e finalizações, cujo excesso não pode ser atribuído exclusivamente à deficiência técnica dos jogadores. A bola adotada pela FIFA (jabulani) contribuiu para o excesso de erros. O que era piada aconteceu de fato: a bola atrapalhou os jogadores. Cristiano Ronaldo, Fernando Torres, KK, Messi, Rooney, jogadores endeusados pela imprensa cativa, atuaram em nível ordinário. Já os holandeses Robben e Sneijder, os alemães Schweinsteiger e Özil, os espanhóis Villa e Iniesta, os uruguaios Forlán e Suarez, atuaram acima da média, embora distante da genialidade.
A lógica prevaleceu. As seleções que melhor se apresentaram em campo chegaram ao fim do certame: Alemanha, Espanha, Holanda e Uruguai. Em dramáticos finais de partidas, a seleção holandesa venceu a uruguaia e a seleção espanhola venceu a alemã. Holanda e Espanha enfrentar-se-ão na partida final desta copa do mundo de futebol. Alemanha e Uruguai disputarão o terceiro lugar. Japão e Gana representaram bem a Ásia e a África, considerada a ausência de conquista de copas no histórico das suas equipes. No curso desta copa (2010) se viu rostos pintados com as bandeiras dos diversos países, cujas expressões de alegria, às vezes, não se repetiam após as partidas. Os vencidos prostravam-se e vertiam lágrimas. Os vencedores sorriam e trocavam beijos e abraços efusivamente. Aleluia! Vivas ao esporte e à fraternidade universal!

domingo, 20 de junho de 2010

FUTEBOL

JOGOS DA COPA
A primeira rodada desta copa do mundo de futebol encerrou-se em 16/06/2010. No mesmo dia, iniciou-se a segunda rodada. Distribuídas em 8 grupos (A/H), jogam as seleções de países americanos (Argentina, Brasil, Chile, EUA, Honduras, México, Paraguai, Uruguai) europeus (Alemanha, Dinamarca, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, França, Grécia, Holanda, Inglaterra, Itália, Portugal, Sérvia, Suíça) africanos (África do Sul, Argélia, Camarões, Costa do Marfim, Gana, Nigéria) asiáticos (Coréia do Norte, Coréia do Sul, Japão) e da Oceania (Austrália, Nova Zelândia). Os hinos emocionam, mas não levam os jogadores às lágrimas. O atacante norte-coreano foi exceção. Mesmo de país comunista, asiático também chora. Robinho e KK não choraram, mas colocaram a mão direita sobre o coração. Depois que voltou do exílio, em cerimônia cívica no Aterro do Flamengo, Leonel Brizola, já governador, ficou com os olhos marejados ao ouvir o hino nacional. Os militares ao seu lado ficaram impassíveis.
O som infernal das cornetas denominadas vuvuzelas obriga-nos a reduzir, ao mínimo, o som do aparelho de TV. Perde-se, com isso, a tranqüila e bem humorada narração de Milton Leite e a comedida análise de Maurício Noriega. O citado narrador não se intromete na seara do analista, salvo para provocar o comentário. Faz o seu trabalho sem colocar a sua opinião antes ou acima da opinião do analista. Nele, o ranço radiofônico é bem menor do que em outros narradores falastrões e gritalhões esquecidos de que o telespectador não é cego nem surdo. A narração da dinâmica do jogo há de ser moderada, pois as imagens dispensam tagarelice. Às vezes, lances fora do campo de visão do telespectador não são mencionados pelos narradores.
Emerson, jogador da festiva e decepcionante seleção brasileira de futebol de 2006 afirma, em programa de televisão, que não há seleção fraca nos jogos da copa do mundo. Assiste-lhe razão. Equipe fraca não se classifica. Ademais, falta de tradição no futebol não se confunde com fraqueza. Vários motivos de caráter individual e coletivo levam equipes a se apresentar mal. Há estilos e estratégias diferentes. A deficiência nos passes e nas finalizações tem sido geral. Até o momento, o favoritismo referido por analistas não se confirmou. As seleções da Espanha, Portugal, França, Alemanha e Inglaterra sofrem reveses. Para encobrir seus erros de análise e prognóstico, os analistas invocam o cansaço dos jogadores decorrente de outras competições e qualificam de zebra o resultado desfavorável a uma seleção tradicional. Entretanto, os jogos revelam certo nivelamento entre as equipes nesta fase. Provavelmente, na fase seguinte (oitavas de final) as diferenças aparecerão com maior nitidez.
A corpulência dos jogadores africanos, acentuada pelo uniforme colante, chamou a atenção geral. O modo de jogar corresponde a esse volume muscular: dureza ao se defender e firmeza ao atacar. As equipes da Ásia amarela exibem espírito guerreiro. As artes marciais integram a cultura daquela região (China, Coréia, Japão). Esse espírito permeia o futebol apresentado pelas respectivas seleções; os jogadores são velozes, disciplinados, esforçados, obedecem rigorosamente o esquema tático e a orientação dos treinadores, oferecem desmedida resistência aos adversários, armam bloqueios de difícil transposição. A tática do bloqueio também é empregada por seleções dos demais continentes diante de adversários portadores de histórico de vencedores. Cabe a esses adversários romper o bloqueio, o que exige paciência, persistência, habilidade e criatividade. A Suíça empregou essa tática com sucesso contra a Espanha. Os norte-coreanos não tiveram o mesmo êxito contra o Brasil.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

FUTEBOL

DINHEIRO E FUTEBOL.
Sócrates, médico, excelente jogador da seleção brasileira de 1982, marcou presença na festa de abertura da copa do mundo de futebol de 2010. Comentou o caráter mercadológico do evento. De fato, as copas servem de vitrine para promoção de produtos e pessoas (técnicos, jogadores, dirigentes, comunicadores). O amor à camisa empalideceu, mais em nível de clube e menos em nível de seleção. Diante da evidência dos fatos no mundo do futebol, inegável que o amor ao dinheiro superou o amor ao clube. A atitude dos torcedores de atirar moedas no campo de futebol ou de acenar com cédulas quando os jogadores mostram falta de empenho durante o jogo indica a noção que o povo tem do aspecto mercantil do esporte.
Inventado e praticado pelos ingleses, o futebol foi trazido da Inglaterra para o Brasil por um brasileiro cujo pai era inglês. Inicialmente, era esporte de uma elite branca. No Paraná, havia elencos só de brancos (por isso mesmo, o Coritiba FC era apelidado de “coxa-branca”). Negros buscaram meios de clarear a pele para jogar em algum clube. No Fluminense, clube do Rio de Janeiro, os jogadores de pele escura usavam pó de arroz. Com o passar do tempo, a perícia individual superou o preconceito. Nos clubes, a necessidade de vitórias e títulos nivelou as epidermes. A partir dos anos 70, visando a obter um rico patrimônio, os brancos da classe média brasileira voltam a se interessar pela prática do esporte como profissionais.
Praticado na várzea pelos pobres (brancos, negros, mulatos), o futebol exigia apenas uma bola e dois paus fincados em lados opostos de um campo a guisa de traves do gol. O travessão era uma linha imaginária entre os dois paus acima da cabeça do goleiro. As discussões eram inevitáveis quando bola alta entrava no gol. Cara ou coroa: um time tirava a camisa e outro não; sem camisas versus com camisas. Em nível popular e âmbito nacional, o brasileiro tinha sua música, dança e festa: samba, chorinho, maxixe, carnaval. Faltava um esporte. O futebol preencheu essa lacuna. Massificou-se. Clubes foram criados, estádios construídos, torneios organizados com o comparecimento do público e ingressos cobrados. Jogadores da várzea ingressaram nos clubes. O esporte profissionalizou-se: jogadores contratados e remunerados. Os clubes criaram a categoria juvenil com o propósito de preparar os jovens para jogar no time principal. As mulheres aderiram ao esporte. Neste século XXI, a brasileira Marta consagrou-se como a melhor jogadora de futebol feminino do mundo.
Empresas industriais, comerciais, prestadoras de serviços, incluíram o futebol nos seus interesses. Marcas de produtos, nomes de empresas, logotipos, são exibidos nos estádios, nos bonés e nos uniformes dos jogadores e da comissão técnica. Para exibir marcas e modelos, jogadores penduram chuteiras no pescoço e beijam bolas. Clubes disputam a compra de jogadores. Os preços sobem a alturas estratosféricas. Desse mercado mundial participam jogadores, técnicos, entidades desportivas, veículos de comunicação social, empresas públicas e privadas. Os jogadores ambicionam ingressar nos clubes ricos da Europa, ganhar altos salários, rendas da propaganda e do patrocínio, além das mordomias. Não há lugar para amor à camisa. A fidelidade saiu de moda. Diante do encolhimento da várzea no Brasil, da valorização dos jogadores e do crescimento do mercado, os clubes criaram também a categoria infantil. Proliferam escolas de futebol particulares fundadas e dirigidas por ex-jogadores. Instrutor de uma dessas escolas afirma na TV: os jovens querem se dedicar ao futebol pelo dinheiro.

domingo, 13 de junho de 2010

FUTEBOL

DANÇA E FUTEBOL
A celebração da copa do mundo de futebol contou com a presença de artistas, bandas de música e jogadores no dia 10 de junho de 2010. A nota de maior encanto foi dada pela cantora colombiana Shakira. Pouco se ouviu a voz; mais se ouviu o som dos instrumentos musicais e de percussão. Viu-se o lindo rosto da cantora em expressão convidativa e o seu corpo escultural a se contorcer sensualmente na mistura de danças africana e oriental.
O povo sul-africano mostra-se muito alegre por seu país sediar a copa do mundo. Parece que tanto a vitória da sua seleção como a de seleções de outros países africanos importa pouco. Há sul-africanos que torcem por seleções de países europeus e americanos e admiram jogadores brasileiros. O povo está feliz pela divulgação mundial do seu país, da sua cultura, da sua história, dos seus costumes. As pessoas pronunciam com freqüência e entusiasmo o nome de Nelson Mandela, herói nacional.
A veneração tem justo motivo. Do ponto de vista político e social, Nelson Mandela e Mohandas Karamchand Gandhi foram as duas maiores personalidades do século XX. Ambos fazem parte de um tipo nobre e raro da espécie humana, que poucas vezes se manifesta na história. Esse tipo muito se aproxima do avatar referido na doutrina bramânica. No mesmo século, Hitler e Stalin foram as duas maiores expressões da face demoníaca do ser humano, considerada a extensão mundial do sofrimento gerado por suas decisões e atitudes.
Por ocasião da posse na presidência da África do Sul, Nelson Mandela, de modo natural e espontâneo, movimentou o corpo em gestos de dança tribal. Exibiu um traço característico do negro africano: a ginga do corpo, a dança comemorativa própria da cultura desse povo manifestada nas ruas e nos estádios. Em documentários sobre a África negra é perceptível essa característica. Os negros e mulatos brasileiros herdaram-na. Caboclos brasileiros também herdaram a expressão corporal dos silvícolas. Todavia, enquanto na dança africana há maior flexibilidade do corpo, na dança indígena há maior rigidez. A ginga própria do jogador brasileiro tem ascendência africana. Já o brasileiro descendente de imigrantes europeus e asiáticos não tem o mesmo gingado.
Após estudarem a formação e as táticas da seleção brasileira, os adversários montam esquemas com o propósito de embaraçá-la. Para desmontar tais esquemas, os jogadores brasileiros valem-se da ginga, criatividade e versatilidade. Essas qualidades distribuem-se em porções diferentes entre os jogadores, pois nem todos têm o mesmo talento e a mesma percepção. A equipe deve estar bem sintonizada para tirar proveito coletivo dessas qualidades. Com os esquemas montados pelos adversários o jogo tende a ficar robotizado. Percebendo isto, o técnico certamente advertirá os seus pupilos e indicará o modo de contornar a automação. Em última instância, o talento individual resolverá o problema.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

FUTEBOL

HORA DA VERDADE
Seleções de países de todos os continentes exibir-se-ão nos estádios da África do Sul a partir de 11.06.2010, durante a copa do mundo de futebol. O público internacional terá oportunidade de ver os melhores jogadores do mundo em atividade. Com os seus próprios olhos, o público escolherá a melhor seleção e o melhor jogador. Formar-se-á opinião pública diretamente, sem manobras de bastidores ou propaganda em favor de seleções e jogadores com patrocínios milionários. Apontar o melhor entre os melhores é tarefa difícil. Ficarão fora da avaliação do público os bons jogadores das seleções eliminadas na primeira fase da competição e os que dela foram excluídos por falta de condições físicas, morais e/ou psicológicas.
A escolha anual do melhor jogador do mundo pela FIFA é suspeita e inadequada. Os seus dirigentes agradam gregos e troianos a fim de obter votos e se perpetuarem no comando internacional do esporte. A organização mundial movimenta milhões de dólares. Os atuais dirigentes quebraram a hegemonia dos negros e mestiços entre os melhores do mundo e produziram a onda branca. A FIFA passou a escolher só jogadores brancos de clubes europeus: Zidane, KK, Cristiano Ronaldo e Messi. Cada um aguardou a vez e todos ficaram felizes. Na escolha, prevaleceram os critérios subjetivos e os interesses objetivos. Além dos ganhos como jogador e garoto propaganda, o escolhido rende milhões de euros ao clube.
A escolha adequada do melhor jogador há de ser feita de 4 em 4 anos, por ocasião dos jogos da copa do mundo de futebol. Dentre aqueles que mostrarem desempenho e nível técnico excelentes durante as partidas há de sair o melhor do mundo. Na opinião de argentinos e brasileiros a copa de 2010 será de Messi. Convém aguardar os jogos e conferir com os próprios olhos se o jogador corresponderá às expectativas, pois haverá mais elementos de comparação na plêiade dos bons jogadores das diversas nações.
Em 2006, antes do início dos jogos, a seleção brasileira e os jogadores KK, Robinho, Ronaldo, Ronaldo Gaúcho foram colocados nos cornos da lua. Entretanto, durante os jogos, constatou-se que: (i) a seleção estava sem liderança e sem energia, o técnico passeando de um lado para outro com as mãos nos bolsos; (ii) o desempenho desses jogadores foi sofrível; (iii) o melhor jogador da seleção brasileira foi Zé Roberto; (iv) o melhor jogador da copa foi Zidane, apesar da censurável conduta contra a equipe da Itália. Quando a partida já estava no segundo tempo da prorrogação, Zidane reagiu à provocação com uma cabeçada no peito do adversário (Masterazzi) e foi expulso. A seleção francesa empatou com a italiana, mas saiu derrotada na decisão por pênaltis.
Diante dos sucessos históricos, tende-se a prognosticar vitórias de equipes da Europa e da América do Sul. Tradição influi no palpite, mas não determina o resultado. Vence a equipe bem preparada sob o aspecto coletivo, técnico e psicológico, com ou sem tradição. Seleções africanas e asiáticas podem obter boa classificação. As quatro seleções melhor classificadas serão premiadas. Os jogadores brasileiros confiam na sua própria experiência e capacidade; não se intimidarão diante dos adversários. Sem medo, sem arrogância, sem esmorecer até o minuto final, bem entrosada e fazendo muitos gols, a seleção brasileira saberá respeitar todas as equipes na medida certa.

domingo, 6 de junho de 2010

FUTEBOL

O TÉCNICO E A IMPRENSA
Há técnicos de futebol que graças à facilidade de expressão gostam de se relacionar com a imprensa enquanto outros, por timidez, impaciência e/ou dificuldade de expressão dela se esquivam. Os técnicos concedem entrevistas coletivas por dever de ofício. Das entrevistas isoladas pode resultar ganho extra ao entrevistado. O despreparo profissional, a vaidade ou compulsão leva alguns entrevistadores a se sobreporem aos entrevistados e a desvirtuarem a entrevista com suas próprias versões e impressões.
A informação sobre os exteriores e os bastidores do esporte interessa a um grande público. O papel da imprensa é veicular essa informação. A imprensa inclui jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão (“mass media”) e atua nos setores informativo, instrutivo e recreativo com programas, textos, sons e imagens. Versa técnica, arte, ciência, religião, misticismo. Contribui para a formação do universo mental dos povos.
No interesse público, a imprensa promove debates e as mais variadas campanhas: combate às doenças, defesa do meio ambiente, assistência às vítimas de catástrofes, prevenção de acidentes, alfabetização, paz, fraternidade. O serviço de rádio e televisão pode ser prestado por empresas particulares mediante concessão do poder público, o que implica limitações administrativas. Nas democracias autoritárias da América Latina, o comunicador pode ser afastado das suas funções quando insiste na crítica desfavorável aos governantes. Se prestigiar o atrevimento do seu comunicador, a empresa emissora arrisca-se a perder a concessão.
Ativada por seres humanos, a imprensa reflete as virtudes e os vícios dos seus agentes e atua para o bem e para o mal. No futebol, constante é a pressão da imprensa para impor táticas e formações de equipe aos técnicos. Há críticas destrutivas e ofensivas quando o técnico não segue as diretrizes sugeridas pelos agentes da imprensa. Ciosos dos seus próprios direitos, tais agentes não respeitam direitos alheios, inclusive os relativos à intimidade. Exemplo recente: com máquinas fotográficas e filmadoras, repórteres perscrutavam quartos do hotel em que os jogadores se hospedaram na África do Sul (copa de futebol de 2010). Ciosos do seu trabalho, os repórteres não respeitam o trabalho alheio: afrontam decisões da comissão técnica da seleção de futebol e pretendem interferir no método de trabalho adotado.
Na “Era Dunga” desmontou-se o circo em torno da seleção brasileira. A decisão da comissão técnica de treinar sem a presença da imprensa e do público evita que os jogadores se distraiam e percam a concentração no trabalho. Os jogadores necessitam de um ambiente tranqüilo para buscar entrosamento e bem assimilar as táticas. No ensaio há paradas, repetições e mudanças. Nos jogos amistosos, o público que se impacienta com as interrupções no treino, pode ver a seleção em atividade contínua no campo, além de conversar com os jogadores e obter autógrafos nos salões do hotel e nas ruas da cidade. Para atender a imprensa, há local e horário reservados com diferentes jogadores, o que revela cuidadosa e racional organização.
A imprensa perdeu a neutralidade quando as finanças assumiram importância vital. Paris, 11 de julho de 1848. No derradeiro número do jornal “Povo Constituinte” que abrira falência, Lamenais escreve: “Hoje é preciso ouro, muito ouro para exercer o direito de falar. Nós não somos ricos. Silêncio aos pobres!”. A imprensa moderna é uma indústria capaz de distorcer fatos e forjar situações de acordo com os propósitos dos seus donos, dos seus agentes ou dos seus anunciantes. Orientadora de condutas e formadora de opinião, a imprensa exerce pressão tanto sobre o governo como sobre o povo. No regime autocrático, ela atua com as rédeas curtas do governo; no regime democrático, com as rédeas soltas. A democracia, solidária à informação, permite o contraditório. O governo serve-se da imprensa para buscar aprovação do povo à sua política, sondar a opinião pública e se informar sobre as necessidades da nação. Exercendo o seu poder de persuasão, a imprensa atua a favor ou contra o governo, constrói e destrói reputações, apóia e combate candidaturas. No século XVIII (1701-1800), Edmund Burke, membro do parlamento inglês, mencionando os três poderes do Estado (legislativo, executivo e judiciário) afirmava: a imprensa é o quarto poder.