terça-feira, 7 de abril de 2015

FILOSOFIA XV - 38



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

Na opinião de Herbert Marcuse, a superação da sociedade capitalista pela socialista é uma tendência histórica efetiva. No capitalismo, a realidade da família burguesa está condicionada pelo caráter da economia de mercado. Na segunda guerra mundial, a teoria burguesa se fundamenta inteiramente na frente comum contra o liberalismo e o marxismo; quem indica essa postura teórica é o adversário; a teoria mesma não possui terreno próprio do qual seria reconhecida a totalidade dos fenômenos sociais. Todos os conceitos fundamentais da teoria burguesa são contrariedades: (1) contra o materialismo histórico é criada a concepção orgânica da história; (2) contra o idealismo liberal é oposto o realismo heróico; (3) contra a teoria racionalista opõe-se a filosofia existencialista; (4) contra o Estado racional defende o Estado totalitário encabeçado por um chefe poderoso. Sem conteúdo material e racional, a autoridade se torna meramente formal. Esse formalismo é o véu diáfano que revela mais do que encobre a constelação de força factual.

O conceito de elites sociais exposto por Georges Sorel em “O Futuro Socialista dos Sindicatos”, publicado em 1898, serviu tanto à vanguarda proletária do leninismo como às elites dirigentes do fascismo. A acefalia do socialismo se transforma na teoria das elites revolucionárias: a revolução social gera novas autoridades sociais que surgem organicamente da vida social e chamam a si a direção disciplinadora no processo de produção. Essa é uma elite de mérito moral que consiste em grupos que desfrutam hegemonia moral, possuem sentimento correto de tradição e cuidam do futuro de modo racional. O conceito de elite formulado por Vilfredo Pareto se encontra em conexão com uma teoria nacional positiva da sociedade que constrói o equilíbrio social, a estabilidade de dominação em particular, a partir fundamentalmente de elementos irracionais, a saber: do funcionamento de determinados mecanismos psíquicos e de suas derivações {romantismo político}. A sociedade se compõe de uma camada inferior caracterizada pela massa popular e outra superior caracterizada pela elite governamental e não governamental. As duas camadas convivem com a liberdade do movimento da burguesia em ascensão, a ideologia do êxito, a possibilidade de ascensão individual para todos a partir de qualquer posição social.

Na segunda metade do século XX, houve certa imobilização da dialética da negatividade. Formas novas de um capitalismo maduro impõem a tarefa de desenvolver um conceito de dialética a elas adaptado. A dialética materialista permanece no campo da razão idealista, na positividade, na medida em que não destrua a concepção de progresso segundo a qual o futuro já está enraizado no seio do existente. Há dois conceitos dialéticos essenciais: (1) a negação da negação como desenvolvimento imanente de um todo social antagônico (superação); (2) o todo como fonte na qual cada elemento singular encontra o seu valor e a sua verdade.

O sistema global do capitalismo hodierno e maduro absorveu no seu interior o potencial revolucionário. A solidariedade atenua a competição, a repressão, a brutalidade, a vulgaridade e contribui para a paz como situação duradoura. A nova sociedade surge quando os valores e objetivos da velha se transformam em necessidades. O poder do negativo surge fora da totalidade repressiva representada pela sociedade antagônica a partir de forças e movimentos que ainda não estão manietados pela produtividade agressiva e repressiva da chamada “sociedade da abundância”. A recusa de participar, o nojo diante de toda prosperidade, o impulso de protesto, tipificam uma oposição débil, se desorganizada.            

Karl Raimund Popper (1902 a 1994), nascido em Viena no seio de uma rica família judia, doutor em filosofia, professor universitário, emigrou para a Nova Zelândia em 1937, em decorrência da ameaça nazista. Em 1946, mudou-se para a Inglaterra onde passou o resto da vida. Ainda na Áustria, filiou-se ao partido comunista. Discordou dos métodos dos companheiros e abandonou a causa. Refutou o marxismo e a psicanálise considerando-os superstição intelectual. Migrou para o liberalismo clássico. Contra o empirismo clássico, denominou sua filosofia de “racionalismo crítico”, mais próxima do positivismo e mais distante da metafísica. Dedicou-se à filosofia da ciência. Considerou inadequado o método indutivo para a pesquisa científica. Considerou mais adequado o método hipotético dedutivo, que consiste em conjecturas teóricas audaciosas que os cientistas tentariam refutar através de experimentos. A ciência progrediria por “falsificação”, ou seja, as teorias refutadas pelos testes experimentais seriam eliminadas.

A teoria científica é conjetural e provisória; mantém o seu vigor enquanto não é contrariada pelos fatos e a sua falsidade não ficar demonstrada. A consistência lógica e a conformidade com os fatos alicerçam a teoria científica. Nenhuma teoria científica tem garantia de imutabilidade e eternidade. A verdade é inalcançável e dela só podemos nos aproximar mediante tentativas. Os tolerantes têm o direito de não tolerar os intolerantes. Entre outros livros, Karl escreveu: “A Sociedade Aberta e os seus Inimigos”, “A Lógica da Pesquisa Científica”, “O Racionalismo Crítico na Política”, “Sociedade Aberta, Universo Aberto”, “A Miséria do Historicismo”. O título deste último livro é uma alusão ao livro “A Miséria da Filosofia”, de Marx e ao livro “Filosofia de Miséria”, de Proudhon. Nele Karl defende a tese de que a crença no destino histórico é pura superstição e de que não há como prever, com os recursos do método científico ou de qualquer outro método racional, o caminho da história humana, porque este é fortemente influenciado pelo crescer do conhecimento humano. Não é possível predizer através de recurso a métodos racionais ou científicos, a expansão futura do nosso conhecimento científico; logo, é impossível prever o futuro curso da história humana.

Isto significa que devemos rejeitar a possibilidade de uma História teorética, isto é, de uma ciência social histórica em termos correspondentes aos de uma Física teorética. Não pode haver teoria científica do desenvolvimento histórico a servir de base para a predição histórica. O interesse da História repousa nos eventos reais, singulares ou específicos e não em leis ou generalizações. O objetivo fundamental dos métodos historicistas está, portanto, mal colocado e o historicismo aniquila-se. A miséria do historicismo é uma pobreza da imaginação. Sob certas condições, certos desenvolvimentos virão a ocorrer, porém impossível afigura-se predizer desenvolvimentos históricos na medida em que estes possam ver-se influenciados pela expansão do conhecimento humano. Não há como antecipar hoje o que só saberemos amanhã.

Na opinião de Karl, historicismo é uma forma de abordar as ciências sociais a estas atribuindo o objetivo principal de fazer predição histórica, cujo objetivo seria atingido pela descoberta dos ritmos ou padrões, das leis ou das tendências, subjacentes à evolução da história. Nas ciências sociais há ampla e complexa interação entre o sujeito observador e o objeto observado. A predição pode influir no acontecimento previsto no sentido de causá-lo ou de evitá-lo. De acordo com os historicistas, as ciências que lidam com seres vivos, entre elas a Sociologia, devem proceder segundo o prisma holístico e não de maneira atomística. Todo grupo social, por menor que seja, tem a sua própria história e o seu próprio espírito, não sendo explicável somente em termos de mera junção dos seus elementos. O princípio da liderança nos acontecimentos históricos atribui demasiada importância às ações e decisões dos chefes como Alexandre, Napoleão e outros. Igual importância tem as ações e decisões dos incontáveis desconhecidos que, por exemplo, incendiaram Moscou e inventaram o método partisan de lutar. Não foi uma decisão e sim a necessidade que levou o exército russo a abandonar Moscou (Karl cita Tolstoi). Aí se configura a lógica da situação. O método próprio das ciências sociais em oposição ao método das ciências naturais, baseia-se na penetrante compreensão intuitiva dos fenômenos sociais.

domingo, 5 de abril de 2015

FILOSOFIA XV - 37



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

Na teoria crítica de Max Horkheimer, o aspecto social da ciência tem relevância. [Do ponto de vista filosófico, criticar significa examinar os pressupostos de alguma coisa segundo critérios de valor (natureza axiológica da crítica)]. A ciência não deve ser pragmática e sim favorável à reflexão autônoma. A verificação prática de uma idéia e a sua verdade são coisas distintas. A teoria crítica visa a descobrir o conteúdo da práxis histórica. Os fatos sensíveis são pré-formados socialmente pelo caráter histórico do objeto cognoscido e do sujeito cognoscente. O positivismo se caracteriza por supor um tipo de razão subjetiva, formal e instrumental, cujo único critério de verdade é o seu valor operacional, ou seja, o seu papel na dominação do homem e da natureza [ou seja, a sua utilidade como diriam Sócrates e os pragmáticos]. A existência social atua como determinante da consciência. A teoria crítica diagnostica uma situação a ser superada sem anunciar uma visão de mundo. Max propõe aos homens que protestem contra a aceitação resignada da ordem totalitária. As relações entre os seres humanos, bem como, as relações entre os humanos e a natureza devem ser configuradas de maneira diversa da que se instaura na dominação. Entre as obras de Max contam-se: “Dialética do Esclarecimento” (em parceria com Adorno); “Materialismo, Metafísica e Moral”; “Crítica da Razão Instrumental”, “Teoria Tradicional e Teoria Crítica”.        

Herbert Marcuse (1898 a 1979), filósofo alemão, professor e conferencista radicado nos EUA desde 1934 para escapar do nazismo. Filiava-se à Escola de Frankfurt, que combina a crítica marxista do capitalismo com os novos conhecimentos oriundos da psicologia e da economia. Foi um dos “novos filósofos” da década de 1960 e esteve na moda principalmente nos meios da juventude universitária contestadora do status quo nos países capitalistas ocidentais. A “nova esquerda” se considerava independente em relação aos partidos comunistas e à orientação da União Soviética. No seu livro “Eros e a Civilização”, Herbert ensaiou uma síntese com as idéias de Freud e de Marx: o inconsciente erótico sofre a repressão do consciente racional (1955). Da mesma forma, a massa revolucionária estava oprimida política e economicamente pela burguesia. A massa ansiava por se libertar dessa opressão. Este anseio acontece tanto na sociedade capitalista como na sociedade comunista, porque os dois tipos são repressores. Herbert desenvolve essa tese nos seus livros “O Marxismo Soviético” e “O Homem Unidimensional”, publicados em 1958 e 1964, respectivamente. Em outro livro de larga repercussão intitulado “Idéias Sobre uma Teoria Crítica da Sociedade”, ele reúne ensaios de diferentes épocas: novas fontes para a fundamentação do materialismo histórico (1932), estudo sobre a autoridade e a família (1936) e sobre o conceito de negação na dialética (1966).

A crítica da economia política há de ser tomada como expressão científica de uma problemática que apreende toda a essência humana. O trabalho exteriorizado na economia burguesa implica alienação do homem, desvalorização da vida, distorção e perda da realidade humana. Além de produzir bens, o trabalho produz a si mesmo e ao trabalhador como mercadoria. O trabalhador se torna mercadoria tanto mais barata quanto mais mercadoria produz. No conceito de trabalho deve se conter uma relação humana e não uma relação econômica. No trabalho se realiza a universalidade tipicamente humana. O trabalho é a verdadeira expressão da liberdade humana.

[O trabalho pode ser o caminho da servidão. A vadiagem pode ser a expressão da liberdade humana. O dono do capital tem o direito de vadiar muitas horas todos os dias durante a semana e muitas semanas durante o ano. O empregado tem o direito de trabalhar muitas horas todos os dias com breve descanso semanal, sendo-lhe reservado poucos dias durante o ano para vadiar. A liberdade virá quando empregador e empregado tiverem o direito de vadiar em igual extensão].

O sentido do trabalho, diz Herbert, consiste em propiciar ao homem a propriedade de bens e torna-los o universo da sua auto-realização e da sua auto-afirmação. A propriedade privada é uma forma falsa de ter bens. O retorno do homem à sua propriedade verdadeira é o retorno à sua essência social. O homem se reconhece como ser social exatamente em seus bens e no trabalho que existe neles. O relacionamento do homem com o objeto do seu trabalho implica relacionamento com outros homens.

Somente a prática resolve as contradições teóricas. O humanismo levado às últimas conseqüências difere do idealismo e do materialismo. O homem é interiormente livre (autônomo) e exteriormente determinado pela autoridade terrena (heterônomo). A reprodução de toda a sociedade só é possível em meio a uma crise permanente. O homem se encontra colocado em um sistema de ordem terrena que não corresponde de modo algum às doutrinas fundamentais da cristandade. Toda interpretação metafísica da ordem terrena traz consigo a tendência à formalização. Herbert cita Calvino: “Não foi o amor ou a justiça divina e sim a majestade divina que atuou na criação do mundo e, desse modo, os desejos e impulsos, as esperanças e queixas dos homens devem orientar-se não pelo amor nem pela justiça e sim pela obediência incondicional e o culto humilde”. Em conexão com a doutrina protestante da Reforma, ocorre uma reorganização programática da família e considerável fortalecimento da autoridade do pater famílias cada vez mais planificada e artificialmente criada. As características que a ordem social vindoura apresentará exigirão reavaliar os valores humanos a partir da infância. Honrar, temer e venerar em lugar de amar se torna o elemento decisivo na relação entre pai e filho.

Herbert critica os conceitos de liberdade e autoridade formulados por Kant e Hegel, ambos encarando a sociedade como ordem universal de coação para a garantia da propriedade privada. A família tem na propriedade não somente sua realidade exterior como também a existência da sua personalidade substancial. A existência social dos homens é construída como ordem autoritária de dominação. A hereditariedade é um dos elementos mais eficazes à vinculação da família à ordem social que a protege. Por trás da camada de abertura conceptual ética e organicista sempre se percebe a irracionalidade pura da autoridade do Estado: uma autoridade que só pode exigir obediência, mas não pode mais fundamenta-la. O direito regula uma organização social que se baseia nos alicerces de defesa da pessoa, dos bens e da família. A família é o ponto central da existência humana, o elo entre a vida individual e a vida em comunidade. A produção material inscreve-se no reino da necessidade. O desenvolvimento das potencialidades humanas está acima desse reino e caracteriza uma liberdade superior. A estrutura material condiciona a superestrutura política e cultural da sociedade e das formas de consciência que lhe correspondem.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

FILOSOFIA XV - 36



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

Jacques Maritain seleciona três grandes choques intelectuais que abalaram a confiança do homem em si mesmo: (I) O darwinismo do qual derivou uma ética materialista da luta pela vida. No entanto, simultânea à evolução biológica, há uma descontinuidade metafísica entre o universo animal e o universo humano gerada pela presença do espírito no homem que uma vez reconhecida revela a face moral da humanidade. (II) O marxismo do qual derivou uma ética materialista pela submissão das regras e dos procedimentos morais à estrutura econômica da sociedade. Todavia, se o homem tomar consciência da interdependência dos valores morais e econômicos, chegará a uma ética espiritualista. (III) A psicanálise que revelou a forte influência da libido e do inconsciente no comportamento humano. Com isto, a liberdade cede lugar ao determinismo da natureza em prejuízo do universo da moralidade. Todavia, se no universo de instintos, tendências e impulsos inconscientes forem inseridas a razão e a liberdade, resultará uma ética mais consciente da situação concreta do homem, uma equilibrada relação entre o consciente e o inconsciente. Introduzir-se-á outro tipo de inconsciente além do natural, a saber: o inconsciente espiritual que é a fonte viva da atividade consciente e das obras da razão.

[O método experimental das ciências físicas foi aplicado na Psicologia e fatores externos foram considerados no estudo do psiquismo humano. Com as pesquisas de Pavlov e suas observações sobre os reflexos condicionados desenvolve-se a psicologia do comportamento (behaviorismo). A incursão de Jung na metafísica e no misticismo oriental inaugurou sua divergência com Freud e gerou a psicologia analítica, a crença no inconsciente coletivo e na comunicação entre a mente humana e a mente divina].

A condição humana é a do corpo ligado a uma alma no universo da matéria que faz o homem sonhar com uma idade de ouro. Para os crentes no primitivo estado de inocência e no pecado original a idade de ouro situa-se no início da história após o que o homem decaiu por sua própria culpa. Para os que não comungam dessa crença judia e cristã, a idade de ouro situa-se no fim da história e o homem a ela chegará por seu libertador esforço graças à ciência e às mudanças sociais. Segundo a doutrina cristã, a condição humana será transfigurada de modo sobrenatural após a morte (reencarnação impossível). A recusa à condição humana situa-se no plano moral e não no plano físico. Tal recusa pertence ao mundo do sonho, mas o homem nutre-se de sonhos cujas raízes estão na sua psicologia individual e determinam sua atitude fundamental na vida.         

O desenvolvimento histórico da filosofia alemã pode ser visto em etapas. A primeira etapa seria de Kant e Hegel; a segunda, de Marx e Engels; a terceira, de Nietzsche; a quarta, de Heidegger, Husserl e Hartmann. A quinta, da Escola de Frankfurt, nome informalmente atribuído ao círculo formado durante a República de Weimar (1919/1933) por Max Horkheimer, Theodor Adorno, Herbert Marcuse, Friedrich Pollock, Eric Fromm, Otto Kirchheimer e Leo Löwenthal. A Escola teve seguidores como Albrecht Wellimer, Alfred Schmidt, Axel Honneth, Franz Neumann, Jürgen Harbemas e Oskar Negt.

Max Horkheimer (1895 a 1973), professor alemão, filósofo, sociólogo, nascido no seio de rica família judia (o pai era dono de fábrica de tecidos), doutorou-se em Filosofia (1922). Deixou-se influenciar pelas duas críticas de Kant e pelo pensamento de Schopenhauer. Juntamente com Marcuse, Adorno e Friedrich Pollock (sociólogo e economista alemão), Max fundou o Instituto para Pesquisas Sociais (IPS), anexo à Universidade de Frankfurt, que se dedica à pesquisa interdisciplinar: filosofia, sociologia, psicologia, política, economia. Este círculo de estudiosos ficou conhecido como Escola de Frankfurt. O IPS publicava periodicamente a Revista de Pesquisa Social, com textos dos seus membros e de outros colaboradores. Os componentes do IPS eram majoritariamente judeus marxistas. Com a queda da República de Weimar e com a ascensão do III Reich, o governo nazista fechou o IPS. Os seus membros debandaram para outros países. O IPS mudou-se para Nova Iorque (Universidade de Colúmbia), sob a direção de Horkheimer e Marcuse. Depois da guerra, o IPS retornou à Alemanha e retomou suas atividades regularmente até a presente data. Marcuse permaneceu nos EUA e seu pensamento influiu na formação da mocidade estudantil e no movimento social de maio de 1968 em França.

As revoluções russa (comunista), italiana (fascista) e alemã (nazista) mudaram o panorama social e político da Europa na primeira metade do século XX. Essas revoluções podem ser consideradas a fronteira entre a Idade Moderna e a Idade Contemporânea na história da civilização ocidental. O advento da teoria psicanalítica de Freud e o pragmatismo norte-americano aliados a tais mudanças, levaram os filósofos marxistas a um exame crítico do qual resultou o afastamento do marxismo ortodoxo, substituído por um marxismo ocidental no plano prático e teórico. A Escola de Frankfurt era receptiva ao pensamento dos filósofos e cientistas anteriores e posteriores à sua fundação. Daí resultou uma teoria social interdisciplinar e neomarxista. Esse novo pensamento constitui a Teoria Crítica da Sociedade, conjunto de idéias baseadas no criticismo de Kant, no socialismo de Marx, na teoria sociológica de Weber e na teoria psicanalítica de Freud, voltado para a cultura ocidental contemporânea. O centro da crítica está no poder, nas relações de dominação do modelo liberal e capitalista, do qual a cultura de massa é uma das expressões. Por isto mesmo, Adorno afirmou que se trata, na verdade, de uma indústria cultural que mantém os mecanismos de dominação de uma classe (elite capitalista) sobre outra (massa trabalhadora). A proposta da Escola é a de liberar os indivíduos desses mecanismos e devolver-lhes a liberdade em uma autêntica democracia. A Escola negava a vocação dos operários para a revolução social.    

Max vê a razão instrumental como criadora de mitos perigosos. Advoga um marxismo heterodoxo e um humanismo individualista. As categorias do marxismo não são definitivas e sim indicações para ulteriores investigações cujos resultados retroagem sobre elas próprias. Ele opõe à teoria tradicional a teoria crítica. No sistema dedutivo de René Descartes – que integra a teoria tradicional – as proposições de certo campo devem estar ligadas de tal modo que a maioria delas deriva de poucas. Estas poucas proposições constituem os princípios gerais e entre elas e as demais proposições decorrentes não pode haver contradição. Disto resulta um sistema matemático de signos. Os sistemas assim construídos (no modelo cartesiano) são operacionais, têm vasta aplicabilidade. Essa teoria tradicional não se ocupa da gênese social dos problemas que investiga, das situações reais em que a ciência é usada e do escopo dessa utilização. A razão abstrata dessa teoria é criadora de mitos em que se assenta o cientificismo.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

FILOSOFIA XV - 35



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

Jacques Maritain cita Platão: “A felicidade consiste na contemplação direta das idéias, das formas separadas; a alma, libertada do corpo, contempla o bem supremo; a partir da moral superior (celeste) os homens elaboram a sua moral (terrena); moral é a arte de se preparar para a felicidade que mora no outro mundo (das idéias, das formas). [A doutrina budista segue essa mesma linha]. O propósito da vida humana está naquele outro mundo. A alma busca a contemplação do sol espiritual. Deus é o sol que ilumina e aquece. “Deus não é o ser supremo porque ele é o criador do ser”. O bem vale por si mesmo. A boa conduta vale porque é boa e não porque está referida a um bem supremo; vale por si mesma e não porque é útil ou porque é um meio para chegar a um fim virtuoso. Prestar assistência aos necessitados, dizer a verdade, ser franco e leal, são condutas valiosas por si mesmas e considera-las valiosas implica juízo de valor imediato. Moralmente, o valor prevalece sobre o fim. Bem = valor + fim. De acordo com Platão, as virtudes cardeais são quatro: 1) sabedoria prática ou prudência; 2) força ou coragem; 3) justiça; 4) temperança.

Jacques cita Aristóteles: “A felicidade deve ser usufruída aqui na Terra ao final da vida de cada um, após longa experiência e reflexão. Felicidade e bem são conceitos diferentes. A vida política absorve a vida individual [vida política é a vida na “polis”, vida social]. O bem de todos deve ser perseguido. Os destinatários da felicidade são os poucos homens ricos, livres, contemplativos, com suas emoções sob controle, sem perturbação ou preocupação de ordem material”.

Jacques cita Epicuro: “O prazer é o bem maior”. As necessidades devem ser reduzidas ao mínimo. A ausência de desejos contribui para a felicidade, que deve ser a do homem concreto. O homem concreto e feliz é o que desfruta o prazer intelectual e espiritual.

O misticismo hindu persegue a libertação e a salvação do “eu” mediante um esforço ascético da natureza humana para, através da abolição de todo pensamento particular, libertar-se da ilusão do mundo físico e da sua causalidade. O objetivo é chegar ao vazio total e, assim, de modo intuitivo, experimentar a existência profunda do “eu interior”. Mediante técnicas e com suas próprias forças empregadas contra a sua natureza, o místico hindu busca transcender a condição humana (sofrimento, dor). O cristão admite essa condição humana e a transcende pela graça de deus sem contrariar a sua natureza. Embora o sofrimento eleve a alma, o cristão não o deseja para o próximo. O trabalho da razão, o fermento do evangelho, o progresso da ciência e a justiça social, amenizam o sofrimento e fazem a humanidade se aperfeiçoar.

Obediência à lei do Estado decorre da lei natural que conduz o homem ao estado social. O que a lei natural deixa indeterminado, à razão humana compete determinar. A obediência é um determinismo natural do homem. Válida é a resistência à lei do Estado quando injusta, ou seja, quando a lei do Estado ofende a lei natural que dá o sentido do justo. Reconhecer a dignidade humana na sociedade é um imperativo do bem. A lei humana muda de Estado para Estado e de época para época. A lei natural é imutável, perene, válida universalmente.

Jacques cita Hegel. Na dialética hegeliana, desaparece a distinção entre o fenômeno e a “coisa em si”. Tudo é pensamento. A realidade é o pensamento em movimento. O ente de razão contém o ente real. A Lógica é a ciência do real enquanto o produz (tese x antítese = síntese). O real é o vir-a-ser que obedece a duas leis fundamentais: (1) a lei da interação universal; (2) a lei da mudança. Os seres exercem uns sobre os outros uma causalidade recíproca. Aquilo que muda torna-se outro, sob novo aspecto. As duas leis mencionadas permitem acesso ao saber “a priori” do real. O vir-a-ser do real torna-se um vir-a-ser lógico. “Toda posição é uma negação”. Todo conceito tem a sua própria contradição. “Toda negação é uma posição”. Toda contradição envolve aquilo que ela contradiz. A idéia deixa de ser o que é e passa a ser outra coisa; nasce e morre para transformar-se; a semente morre para frutificar, pois, nela se contém o novo ser. Liberdade = espontaneidade, como necessidade natural + autonomia, como exigência racional. Espontaneidade = ausência de coação. Autonomia = poder de escolha. A felicidade é uma necessidade da natureza humana. A vontade visa a felicidade sem qualquer coação. O ser humano tem liberdade para querer o necessário. No pensamento de Hegel, o Estado é a máxima expressão da humana liberdade na Terra, ponto de encontro entre a subjetividade particular aparente e a subjetividade integral e concreta. Obedecer ao Estado é obedecer a si mesmo. O Estado é a consciência do todo. Nele reside a moralidade. Não importa se a regra de direito é justa ou injusta, desde que ditada pelo Estado; o que importa é cumprir o dever de obediência. A consciência do todo é superior à consciência individual. O Estado é a encarnação do espírito na dialética do vir-a-ser. Entre um tipo e outro de liberdade (espontaneidade e autonomia) há movimento evolutivo. Autonomia é fase superior que ultrapassa a espontaneidade. No todo (Estado), o homem se realiza como pessoa. Quando o indivíduo se universaliza e a sua vontade se confunde com a vontade geral, ele adquire a personalidade superior, torna-se parte do todo, sacrificando a sua individualidade.

Por que devo obedecer à regra de direito e à autoridade do Estado? Jacques faz a pergunta e dá as respostas prováveis: (1) porque todos obedecem; sigo o comportamento geral {lei do rebanho ou da imitação}; (2) porque os pais, os mais velhos, os professores, as autoridades e as leis do Estado me ensinaram a obedecer {determinismo cultural}; (3) porque sinto que devo obedecer {lei psicológica}; (4) porque penso que a obediência é necessária, que a regra e o comando são necessários à coexistência e à convivência entre os seres humanos {lei do bom senso}; (5) porque tenho a certeza de que sem ordem a vida em comum seria impossível {lei da razão necessária e final}.

Na sociedade, entre os indivíduos há vínculos decorrentes das relações de justiça e de amizade cívica. Jacques cita Hegel: “O bem comum é o bem próprio do Estado”. Acrescenta: “Bem comum é o bem do Estado (todo) que se redistribui aos indivíduos (partes)”. Jacques cita o apóstolo Paulo: “Devemos obediência à lei de deus, libertas christiana”. Para Hegel, devemos obediência à lei do Estado. A visão hegeliana supõe a Terra como centro do universo e palco do drama do espírito, da evolução em direção a deus mediante a dialética da história. Retire-se tal centro e nada sobrará dessa dialética.

segunda-feira, 30 de março de 2015

FUTEBOL



No jogo amistoso contra a seleção da França, em Paris (26/03/2015), a seleção brasileira de futebol masculino apresentou deficiência no ataque apesar de ter vencido (3 x 1). Começou perdendo e terminou vencendo o jogo, o que foi bom para aumentar a confiança dos jogadores no seu potencial e na sua capacidade de recuperação. O primeiro gol da seleção brasileira contou com o esforço de Oscar e uma pitada de sorte. O segundo gol resultou de boa jogada dos brasileiros e da proveitosa finalização de Neymar. O terceiro gol resultou de cobrança de escanteio com oportuno e eficaz cabeceio de Luis Gustavo.

Durante a partida foi possível notar a insistência do ataque pela esquerda onde se posicionava o jogador Neymar. A ala direita ficou sem função a maior parte do tempo. Capenga desse jeito, a seleção facilita o trabalho da defesa adversária. Necessário escalar um bom atacante que saiba atuar eficientemente na ala direita e confundir a defesa adversária. Desse modo, a seleção atacará tanto pela direita como pela esquerda por diferentes e bons jogadores. A equipe adversária terá de distribuir os seus defensores e, assim, abrir espaço para a penetração dos atacantes brasileiros. A seleção carece de inteligência e liderança no setor de armação. Notou-se, também, a falta de um centroavante do tipo Luis Fabiano, que saiba movimentar-se fora e dentro da área adversária, driblar, prestar assistência, aproveitar oportunidades e fazer gols. 

No jogo amistoso contra a seleção do Chile, em Londres (29/03/2015), a seleção brasileira apresentou deficiências em todos os setores, o que é compreensível, pois o treinador testava jogadores que ainda não haviam atuado. Em jogo preparatório de campeonato internacional, o comportamento do jogador estreante não é o mesmo do treino ou do clube em que atua. O entrosamento entre os jogadores fixos e os jogadores estreantes demanda tempo; uma só partida é insuficiente para tal desiderato. A seleção chilena aproveitou-se da situação e esteve melhor durante a partida. Apesar disto, coube à seleção brasileira a magra e sofrida vitória decorrente da trama bem urdida pelo setor direito do ataque (1 x 0).  

O fato de Robinho ficar no banco explica-se: ele já foi testado. Os novos é que precisam do teste. O importante é participar de todos os treinos e manter conexão em campo com os demais convocados, pois ele poderá ser decisivo na Copa América a ser disputada no Chile no meio do ano (inverno). A seleção chilena é forte candidata ao título ao lado da seleção argentina. A comissão técnica da seleção brasileira repete erros do passado ao desprezar bons jogadores, veteranos ainda em forma, tais como: KK, Lucas, Luis Fabiano, Ronaldinho Gaúcho. Resolvidos o problema físico e o problema familiar, KK voltou a apresentar o seu bom futebol. Esses jogadores ainda podem atuar na Copa América (2015). A Copa do Mundo está longe e até lá novos talentos podem surgir e se firmar (2018).

Embora esforçados, alguns convocados e estreantes estão aquém da eficiência e do talento dos jogadores acima citados. Assim como a seleção brasileira anterior, a de 2015 parece corpo sem alma. As jogadas coletivas parecem robóticas. Os jogadores parecem células desprendidas do organismo e conectadas ao acaso. Falta aquele clima de união espiritual – autêntica e não artificial – bem evidenciado em outras seleções brasileiras, como as de 1970, 1982, 1994.  

Manter no ataque apenas o jogador Neymar é pouco. Como estrela de primeira grandeza, esse jogador recebe marcação implacável, situação agravada por sua fama de cai-cai. Na copa mundial de 2014, a sua atuação foi discreta. A continuar na mesma toada, a seleção brasileira obterá novamente um suado quarto lugar, se tanto. Convém não se iludir com a série de oito vitórias nos jogos amistosos da fase preparatória que terminou neste domingo. Como dizia mestre Didi: treino é treino, jogo é jogo. Durante os jogos da Copa América, veremos outra realidade. Assim como a brasileira, as demais seleções também farão seus ajustes. Todas entrarão em campo dispostas a vencer. Na eventualidade de alguma equipe se reconhecer tecnicamente inferior, buscará, pelo menos, o empate, sem perder a esperança no tropeço da equipe que se apresentar como superior.

Espera-se que, desta vez, o interesse financeiro de empresários e patrocinadores na convocação de jogadores não suplante o interesse esportivo no bom desempenho da seleção brasileira e que o trabalho nefasto dos cartolas não se repita.

sábado, 28 de março de 2015

FILOSOFIA XV - 34



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

Na opinião marxista de Antonio Gramsci, a classe dominante cria no povo o sentimento de solidariedade com os interesses dela e o faz “em nome da pátria” ou de um suposto “destino nacional”. O poder hegemônico da classe dominante combina coerção e consenso. A prévia direção intelectual e moral do povo é requisito para a conquista do poder hegemônico. Os intelectuais (extrato de pessoas especializadas na elaboração conceitual e filosófica) são necessários à organização do proletariado.

No mundo modero, o Príncipe – de Maquiavel – é um ente coletivo produto do desenvolvimento histórico, a saber: o partido político. Trata-se de uma célula onde se concentram as sementes da vontade coletiva que almeja a se tornar universal e total. O partido é o organizador de uma reforma intelectual e moral que se manifesta com um programa de reforma econômica. [Ao escrever isto na primeira metade do século XX, Antonio tinha em mente o partido comunista e o combate ao governo fascista italiano. No mundo contemporâneo, alguns partidos visam a manter o status quo e outros a modificá-lo. Em países como o Brasil, os partidos abrigam quadrilhas de bandidos, gente desonesta que disputa o poder para dele se beneficiar. Partidos são organizados tão somente para atender às ambições pessoais dos seus dirigentes sem preocupações morais. Os partidos menores buscam alianças visando a obter benefícios financeiros. Quanto às reformas, os partidos defendem apenas aquelas que os favorecem]. 

A sociedade civil e a sociedade política são os dois componentes do Estado ocidental. O “homo sapiens” e o “homo faber” são inseparáveis, assim como a função intelectual é inseparável da práxis (ação teleológica) e a sociedade civil inseparável da sociedade política, embora a primeira seja o reino do consenso e a segunda o reino da coerção. O intelectual orgânico é gerado pela classe a que pertence; o intelectual inorgânico é extraclasse (literato, filósofo, artista).

A realidade é histórica. [A história é criada pelo homem mediante processo mental seletivo ao registrar e narrar atos e fatos ocorridos no tempo e no espaço]. A ação política revolucionária (práxis) é uma catarse (purificação) que indica a passagem do momento meramente econômico (egoísta + passional) para o momento ético-político significativo da superior elaboração da estrutura em superestrutura na consciência humana, transição do objetivo para o subjetivo, da necessidade para a liberdade. O processo catártico coincide com a cadeia das sínteses que resultam do desenvolvimento dialético.

Jacques Maritain (1892 a 1973), filósofo francês de orientação católica, professor, embaixador francês no Vaticano, nasceu em Paris e faleceu em Toulouse (França). Escritor prolífico, Jacques tratou de vários temas: moral, política, educação, metafísica, teologia, epistemologia. Entre as suas obras estão “Elementos de Filosofia”, “Humanismo Integral” e “A Filosofia Moral”. Nesta última ele faz um exame crítico e histórico dos grandes sistemas de filosofia sob o prisma da moral (Sócrates, Platão, Aristóteles, Epicuro, Kant, Hegel, Marx, Comte, Kierkegaard, Dewey, Sartre). Explica a estreita relação entre a filosofia moral, a etnologia e a teologia, embora disciplinas distintas. Jacques privilegia o aspecto doutrinário em detrimento do histórico de modo a salientar a moral católica. Ele transitou de Spinoza, em sua juventude como estudante de filosofia na Sorbonne, para Bérgson e estacionou em Tomás de Aquino.

Jacques aceitou o batismo na religião católica apostólica romana e a orientação de frades dominicanos. A sua esposa Raíssa, judia russa, também se converteu ao catolicismo. Jacques e Raíssa formaram um casal feliz e harmônico desde a universidade em que estudaram. Celebraram pacto de amor na sua romântica juventude: se dentro de breve tempo não encontrassem um sentido para a vida os dois se suicidariam. O sentido buscado lhes foi indicado primeiro por um poeta, depois, por um filósofo e finalmente por um sacerdote católico. O casal foi separado por morte natural: ela, para a sepultura; ele, para o claustro.

Jacques manteve-se fiel à escolástica. Na opinião dele, a política devia receber o sopro da espiritualidade. Os valores morais deviam preponderar. A democracia não se limita a uma forma de governo; há de ser uma forma de vida nutrida pelos valores éticos e religiosos. Pessoa e indivíduo são conceitos distintos. A pessoa deve ser o valor fundamental da sociedade. Os direitos humanos são essenciais. Ao tratar o secular e o espiritual como esferas distintas, Jacques tomou por bússola a distinção feita por Jesus: “daí a César o que é de César e a deus o que é de deus”. O secular tem o seu próprio modo de ser. O direito natural lhe serve de guia. Em 1947, Jacques levou a sua teoria dos direitos centrada na pessoa humana para a Declaração Universal dos Direitos do Homem, promulgada pela ONU em 1948, da qual foi um dos redatores. A democracia cristã assentou suas bases nos ensinamentos de Jacques. [O político paulista Franco Montoro do partido da democracia cristã, fundou o Instituto Jacques Maritain em 1992].

Jacques resume: no século V a.C. identificamos no pensamento dos sofistas a paixão do êxito. No século IV a.C. identificamos no pensamento de Sócrates a paixão da verdade, a obediência à lei ainda que nos custe a vida. No mesmo século, identificamos no pensamento de Platão a paixão do justo, a realidade e supremacia do mundo ideal.

Moral é a arte de ser feliz. Seguindo as regras morais vive-se bem. A felicidade é o bem supremo da vida e consiste no bom procedimento e êxito no agir. Com Sócrates, a idéia de bem se liberta do particularismo dos instintos e dos sentidos para ganhar autonomia intelectual. A partir daí, a idéia de bem deslumbrou o espírito humano. A idéia de fim é correlata à idéia de bem, ambas vinculadas ao agir humano. O fim supremo do agir humano é a felicidade. A conduta deve ser orientada a esse fim. Nisto consiste a arte de bem viver. “A felicidade e a boa conduta são uma só e mesma coisa”. Felicidade é ter alma boa. Riqueza e boa saúde não significam ser feliz. Um espírito liberto de perturbações, dedicado aos belos conhecimentos e à verdade, que saiba pensar, é o que torna alguém feliz. No sentido socrático, virtude é conhecer bem e pensar bem. Praticamos o mal porque desconhecemos o bem. Caímos no erro porque não pensamos corretamente. No sentido amplo, virtude é o poder ou excelência própria ou característica de uma pessoa ou de uma coisa, na sua manifestação essencial. Exemplos: virtude do artista, virtude do filósofo, virtude do imã, virtude da música. 

O conhecimento pode ser especulativo quando paira no plano das idéias, ou prático quando se refere ao comportamento animal ou à conduta humana. O objeto desse conhecimento é o mundo natural e o mundo cultural. O conteúdo do conhecimento é a representação que o ser humano tem do seu objeto. Para nos permitir o discernimento daquilo que o nosso comportamento deve ser ou não ser na realidade concreta, a que princípio de determinação vai esse conhecimento apegar-se? Qual o critério do que é bom e virtuoso? A resposta a essas indagações, dada por Sócrates, é a de que não há outro critério a não ser o da “utilidade”. O cálculo da utilidade preside a conduta humana. No plano terreno, triunfa o utilitarismo. Os homens não esperaram pelos moralistas para possuir regras morais. As normas e valores da vida moral integram uma moralidade tradicional, difusa, existente e historicamente reinante no meio social. Na sua vida comum, o feirante poderá ter conduta moral calcada naquela experiência comum mais firme do que a doutrina dos educadores e reformadores.

quinta-feira, 26 de março de 2015

FILOSOFIA XV - 33



EUROPA (1900 a 2014). Continuação.

Johannes Hessen cita Descartes (cogito ergo sum) e Maine (volo ergo sum) para afirmar que o homem possui uma certeza imediata da existência do próprio “eu”. O racionalismo e o idealismo não podem ser afirmados ou negados mediante procedimentos puramente racionais. O método racional é insuficiente. Necessário um caminho irracional: o volitivo. O homem é um ser de vontade e de ação. Nas resistências que sofre ao seu querer e desejar o homem vive a realidade de um modo imediato. A certeza do cogito parte dos processos do pensamento. A certeza do volo parte dos processos da vontade. Johannes cita Aristóteles: os objetos do conhecimento já estão preparados, têm uma essência determinada e são reproduzidos pela consciência que reflete a ordem objetiva das coisas; o conhecimento é função receptiva e passiva. Johannes cita Kant: os objetos do conhecimento são produzidos pela consciência criadora da ordem objetiva das coisas; o conhecimento é função produtiva e ativa. Como ser de vontade e de ação, o homem está submetido à antítese do “eu” e do “não-eu”, do sujeito e do objeto, o que torna impossível superar o dualismo. Johannes cita Lotze: “a realidade abre-se como uma flor em nosso espírito”. A fonte comum do ideal e do real, do pensamento (cogitatio) e do ser (extensio), reside na divindade, origem comum do sujeito e do objeto.

Conhecer significa apreender espiritualmente um objeto. Esta apreensão se faz de modo mediato pelo discurso (movimento da mente de uma idéia a outra) ou de modo imediato pela intuição sensível e espiritual. O ser espiritual do homem compõe-se de três forças fundamentais: o pensamento, o sentimento e a vontade, o que permite distinguir três tipos de intuição: a racional, a emocional e a volitiva. Todo objeto compõe-se de três elementos: essência, existência e valor, todos suscetíveis de apreensão intuitiva (racional, o primeiro; volitiva, o segundo; emocional, o terceiro). Há juízos de valor obtidos tanto mediante o discurso racional como mediante a intuição. Os valores estéticos só podem ser apreendidos emocional e intuitivamente. Os juízos morais de valor supõem uma norma ética aplicável à conduta. A verdadeira qualidade valiosa de sentimentos como justiça, temperança, pureza, só pode ser experimentada e vivida imediatamente e conhecida intuitivamente. A vivência e a intuição também representam um papel preponderante na esfera religiosa. Deus não é objeto da metafísica e sim da religião. A ausência de contradição no pensamento é um critério de verdade válido na esfera das ciências ideais ou formais. Na esfera das ciências reais o critério de verdade consiste na certeza provocada pela realidade imediata do objeto (evidência sensível x evidência racional). “O que garante a validade dos princípios não é a vivência matizada da evidência, mas sim a íntima intuição da fecundidade sistemática dos mesmos”.

Johannes expõe a sua teoria das categorias (“teoria especial do conhecimento”) ao discutir a essência das categorias como substância e causalidade e tece considerações sobre a e o saber. As categorias são conceitos fundamentais do conhecimento, segundo Aristóteles, ou puras determinações do pensamento, segundo Kant. O primeiro assim discrimina as categorias: substância, quantidade, qualidade, relação, lugar, tempo, posição, estado, ação e paixão. As categorias podem ser do pensamento reflexivo e do pensamento especulativo (Hartmann) ou categorias reflexivas e categorias constitutivas (Windelband). Relação de inerência e de subsistência, a substancialidade é um produto do pensamento que intervém na experiência. A causalidade é um nexo real entre as coisas. O princípio da causalidade é um pressuposto necessário a todo conhecimento científico da realidade. Esse princípio tem o valor epistemológico de um pressuposto. O conhecimento humano não se limita ao mundo fenomênico, eis que avança até a esfera metafísica para chegar a uma visão filosófica do universo. Tal qual a filosofia, a religião também dá uma interpretação do sentido do universo. A religião é uma esfera de valor completamente autônoma, assenta-se sobre as suas próprias bases e não se confunde com a filosofia e nem com a ciência.

Martin Heidegger (1889 a 1976), professor, filósofo alemão, foi um dos expoentes do existencialismo e discípulo do mestre da fenomenologia (Husserl). Martin foi acusado de servir ao governo e à ideologia nazista no período de 1930 a 1940. A sua filosofia vem exposta no livro “O Ser e o Tempo”, publicado em 1927. Ele considerava o conceito ser como o tema principal da filosofia e que, por isto mesmo, devia ser revisitado. Nos seus estudos filosóficos, a metafísica e a epistemologia cederam lugar para a análise dos diversos aspectos da existência humana. O mais importante é a presença (o “estar aí”). O “nada” tem algo positivo. A raiz do passado está no futuro. Para compreender a história vivida é necessário saber a idéia que os homens daquela época tinham em relação ao futuro. Passado e futuro estão ligados por uma comum e intrínseca origem. O seu jogo de tensões recíprocas cria o que é próprio do tempo, o tempo autêntico.    

Antonio Gramsci (1891 a 1937), italiano nascido na ilha Sardenha, no seio de família pobre e numerosa, filósofo marxista, jornalista, militante revolucionário, cursou Literatura na Universidade de Turim, onde as fábricas Fiat e Lancia ofereciam emprego. Trabalhou para manter os estudos. Na juventude, Antonio participou de conselhos operários considerados ponto de partida para a instauração do socialismo no Estado. Escrevia textos políticos e sociais em jornais de esquerda, como o “Avanti”. Fundou o jornal “L´Ordine Nuovo” (1919) e colaborou na fundação do Partido Comunista Italiano por divergência com o Partido Socialista Italiano (1921). Na Rússia, a serviço do partido, conheceu Giulia Schucht, jovem violinista, com quem se casou e teve dois filhos (1922). Submisso a Stalin e à direção do partido soviético, Antonio foi incumbido de unir os partidos de esquerda na Itália e combater o fascismo. Organizou o jornal oficial do partido: “L´Unitá”. Foi eleito deputado (1924). Em decorrência da sua militância política, Antonio foi preso pela polícia fascista (1926). Obteve liberdade condicional em 1934 por motivo de saúde cujo bom estado nunca mais recuperou.

No período da prisão, Antonio escreveu “Cadernos do Cárcere”, expondo a sua compreensão do marxismo diferente da ortodoxia. Entendia ser a economia um fator de menor importância nas mudanças sociais. A consciência humana é independente e intervém na realidade material para construí-la e modifica-la. A consciência, pois, não é mero reflexo do mundo material como querem os ortodoxos. A luta entre os agentes do capital e os agentes do trabalho se trava no campo das idéias e condiciona a disputa pelo poder na sociedade. Cada classe busca a hegemonia ao fazer prevalecer a sua visão de mundo no Estado. Burguesia e proletariado disputam o domínio intelectual e político.

Antonio estimula os revolucionários marxistas a se esforçarem para conquistar o controle das instituições culturais através das quais poderão disseminar as idéias socialistas. O fator econômico é secundário. O poder da classe dominante no modo de produção capitalista não advém do controle do aparelho do Estado, que pode mudar de mãos mediante uso de maior força. O poder advém da hegemonia cultural sobre a classe dominada. Assim, a classe dominante exerce o controle: (1) do sistema educacional; (2) da instituição religiosa; (3) dos meios de comunicação.