segunda-feira, 11 de agosto de 2014

FILOSOFIA XIII - 14



EUROPA (1600 a 1800). Continuação.

A teoria econômica foi outro ingrediente intelectual da revolução francesa. O controle público da indústria e do comércio tornou-se alvo da contestação de alguns pensadores no século XVIII. Combatiam a política mercantilista. Suas armas eram as idéias do Iluminismo, em especial a da mecânica universal governada por leis inflexíveis. Segundo essa corrente a produção e a distribuição de bens submetiam-se a leis irresistíveis como as da Física e da Astronomia. A teoria econômica era a contraparte da teoria política. Ambas tinham o mesmo propósito de reduzir os poderes do governo a um mínimo compatível com a segurança social e individual e de preservar a maior porção de liberdade possível ao indivíduo para que pudesse manifestar as suas potencialidades. A nova teoria considerava sagrada a propriedade privada e sustentava que: (1) todo homem tem o direito de fazer o que bem entender com aquilo que é seu; (2) a pobreza resulta da preguiça e da incompetência e ensina os pobres a respeitar os seus superiores e a agradecer à providência divina pelas bênçãos que recebem; (3) as atividades sórdidas e ignóbeis da comunidade devem ser desempenhadas pelos pobres; (4) aos ricos e remediados cabem as funções mais elevadas. 

A primeira corrente do pensamento econômico a combater o mercantilismo foi a fisiocrata {assim chamada em virtude da sua base naturalista}. Os empreendimentos naturais como agricultura, piscicultura e mineração importam mais do que o comércio. Principais expoentes dessa doutrina: Quesnay, Mirabeau (pai), Dupont, Turgot. De acordo com estes pensadores, a natureza é a verdadeira produtora da riqueza. O governo deve se abster de intervir nos negócios e não deve embaraçar a ação das leis econômicas naturais. O lema era: laissez faire, laissez passer, le monde va de lui-même. Os fisiocratas envolveram em um manto sagrado a liberdade de contratar, de produzir e de ter (propriedade privada).

Adam Smith, inglês, filósofo, professor, apóstolo do capitalismo, aceita parcialmente a doutrina fisiocrata, mas não se filia ao grupo (1723 a 1790). Publica o notável “Inquérito sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações” que lhe deu fama imorredoura (1776). Ele estudou de modo pioneiro as forças que atuam na economia de um país. Para Smith, a verdadeira fonte da riqueza é o trabalho. Ele tratou da divisão do trabalho na sociedade. Segundo Smith, a produção de bens aumenta se a fabricação for decomposta em estágios cada qual realizado por operário especializado. Este princípio foi aplicado em larga escala na indústria moderna. [A robotização do operário na fábrica foi retratada com humor e realismo em filme estrelado por Charles Chaplin na primeira metade do século XX]. Alguma interferência do Estado é necessária no campo da saúde pública, da educação, da justiça, dos empreendimentos para os quais a iniciativa privada não tem interesse ou não tem recursos, muito embora deva prevalecer a liberdade como regra. A doutrina de Smith vigorou nos séculos XVIII e XIX como se fora sagrada e influiu na revolução francesa ao fortalecer a burguesia com os seus argumentos contrários ao mercantilismo.

Os campônios franceses do século XVIII estavam em situação melhor do que os seus congêneres de outros países do continente europeu. A miséria localizava-se em alguns bairros de Paris. O rigoroso inverno de 1788 e 1789 irritou e desesperou a camada pobre e miserável da população parisiense que se rebelou. A burguesia composta de banqueiros, comerciantes, industriais, advogados, médicos, excluída dos privilégios e das decisões políticas, também se revoltou. A pretensão dessa burguesia ao poder político em paridade com o seu poder econômico fomentou a revolução. A camada social abastada sentia-se fortalecida e capacitada para manter a si própria e defender os seus interesses com recursos próprios. A política mercantilista do rei e os regulamentos do mercantilismo tornaram-se inconvenientes. O Terceiro Estado os considerou opressivos. Esse órgão composto de burgueses, de artesãos, de operários e de camponeses integrava outro mais extenso: os Estados Gerais constituídos da nobreza, do clero e dos comuns (povo). No seio desse órgão mais extenso houve discórdia: nobreza e clero de um lado e povo (comuns) de outro. A intervenção do rei e a concessão de monopólios a companhias protegidas foram consideradas prejudiciais aos interesses da burguesia que ansiava por um regime favorável às suas pretensões. Depois de 1614, os Estados Gerais não foram mais convocados pelos monarcas. O Estado era o rei. A vontade do rei era soberana, incontrastável. Direitos naturais do homem não eram reconhecidos. Prisões se efetuavam sem o devido processo jurídico. Liberdade de pensamento só enquanto não contrariasse o monarca. Felizmente, Luiz XV e Luiz XVI não se importavam com a expressão do pensamento, o que possibilitou a expansão das idéias de Voltaire e de Rousseau. [No século XX, Stalin dizia ressabiado: “mais temo as idéias do que as armas”].

Ineficiência, desperdício, suborno, superposição de funções, excesso de funcionários, conflito de atribuições entre departamentos, falta de orçamento e de escrituração, confusão entre renda do rei e renda do Estado, gastos palacianos excessivos, arrecadação feita ao acaso por corporações particulares que arrancavam do povo tudo que podiam acima da cota fixada pelo rei, leis diferentes em cada província francesa; tudo isto contribuiu para o descontentamento do povo (burgueses + artesãos + operários + camponeses) e para dar impulso à revolução. Guerras desastrosas em que se lançou a França no século XVIII cevaram a animosidade da classe média contra o governo. Derrota na guerra dos sete anos sob Luiz XV e a intervenção na guerra da independência americana sob Luiz XVI arruinaram as finanças da França. O estado de miséria de parcela do povo alimentou a rebeldia. Atribui-se à rainha Maria Antonieta a recomendação para o povo comer bolo (ou brioches) à falta de pão. Interessava aos conspiradores forjar a imagem de uma rainha alienada e insensível. Houve profusão de panfletos e comentários difamatórios. O fato de Maria Antonieta ser austríaca e católica favorecia a oposição e as injúrias. A guilhotina desceu sobre o pescoço dessa viúva de 37 anos de idade e mãe de três filhos pequenos.

Os burgueses e os campônios insurgiam-se também contra os privilégios do clero e da nobreza. O clero dividia-se em duas partes: o superior (cardeais, arcebispos, bispos e abades) e o inferior (padres). Os componentes do clero superior cuidavam menos dos assuntos religiosos e muito mais das suas propriedades e rendas. Corruptos, despóticos, depravados, manchavam os princípios éticos da igreja e dilapidavam os recursos da nação. A nobreza bipartia-se em nobreza de espada (títulos antigos e tradicionais) e nobreza de roupa (títulos novos oriundos de compra). Esta segunda nobreza compunha-se de pessoas ricas, algumas de superior inteligência como Montesquieu, Mirabeau e Lafayette. A classe privilegiada correspondia à nobreza de espada que monopolizava as principais posições do governo. Intendentes cuidavam das propriedades enquanto os nobres proprietários viviam em Versalhes. Apoiado em lei medieval, o clero não pagava tributos. Os nobres obtinham isenções do rei. Os artesãos e os operários não tinham o que ser taxado. A sobrecarga ficava para a burguesia e para os camponeses. Sobrevivências feudais sacrificavam os camponeses. Seus campos eram pisoteados pelos cavalos dos nobres na época de caça. Parte da produção agrícola destinava-se ao nobre proprietário da terra.

sábado, 9 de agosto de 2014

FILOSOFIA XIII - 13



EUROPA (1600 a 1800). Continuação.

Na França, houve gradual evolução da política a partir do século XIII. Assim como no mundo da natureza, as mudanças na sociedade também podem resultar de um processo lento e às vezes imperceptível semelhante a um movimento subterrâneo. Tal processo vem mencionado pelo brasileiro Sílvio Romero (século XIX): “Tudo tinha adormecido à sombra do manto do príncipe feliz que havia acabado com o caudilhismo nas províncias da América do Sul e preparado a engrenagem da peça política de centralização mais coesa que já uma vez houve na história de um grande país. De repente, por um movimento subterrâneo que vinha de longe, a instabilidade de todas as coisas se mostrou e o sofisma do império apareceu em toda a sua nudez”. (Transcrito por Alfredo Bosi em sua História Concisa da Literatura Brasileira). Em seu livro O Futuro do Capitalismo, Lester C. Thurow também se refere ao movimento subterrâneo comparando-o ao movimento das placas tectônicas.

Felipe Augusto, Luiz IX e Felipe IV contrataram soldados, substituíram obrigações feudais por tributação nacional, administraram justiça por seus próprios juizes e afastaram os senhores feudais dessa função judicante. Na regulamentação dos negócios eclesiásticos os monarcas restringiram a autoridade do papa. Os senhores feudais perderam poder e foram reduzidos a cortesãos, cujos títulos e prestígio dependiam do monarca. A senda do absolutismo francês interrompe-se brevemente no século XVI quando o país enfrentou uma questão externa (guerra com a Espanha) e outra interna {batalha entre católicos e huguenotes (apelido dado aos protestantes)}. Nobres aproveitaram-se da situação e contestaram a sucessão no trono. Embora fosse líder dos huguenotes, Henrique IV diz que “Paris vale uma missa”, converte-se ao catolicismo e restabelece a paz (1593). Cinco anos depois, ele promulga o Édito de Nantes garantindo a liberdade de consciência e direitos políticos a todos os protestantes (1598). Esse rei encoraja o comércio e a indústria, promove reformas econômicas e aniquila o poder da nobreza. Morre assassinado (1610). O sucessor, Luiz XIII, confiou o governo do reino ao cardeal Richelieu. O cardeal eliminou as limitações à autoridade do rei, estabeleceu a meta de colocar a França no posto de nação mais poderosa do mundo e criou o sistema de administração local por agentes do rei de modo a centralizar o governo da Coroa e extirpar traços sobreviventes da autoridade feudal. Sob o governo dos três últimos representantes da dinastia Bourbon a França atinge o auge do absolutismo, a começar por Luiz XIV (1643 a 1715), cognominado o “Rei Sol” e autor da célebre frase “l´état c´est moi”. [Não há certeza de que assim tenha sido pronunciada, mas esta era a sua concepção de poder político]. Ele consolidou o poder nacional reduzindo os nobres a parasitas da corte e revogou o Édito de Nantes (1684). Restaurada a hegemonia católica, súditos franceses buscaram abrigo em países protestantes. Os sucessores de Luiz XIV também afirmaram governar por direito divino.

A revolução política caracterizou-se pela independência e pelo fortalecimento de Estados nacionais com governos monárquicos absolutos que substituíram o regime feudal e o império secular e religioso (católico). A reforma religiosa protestante incidiu no mesmo erro que combatera: rigor exagerado. Os filósofos do iluminismo buscaram uma base racionalista ou psicológica para a conduta humana (séculos XVII e XVIII). Anthony Ashley Cooper, Terceiro Conde de Shaftesbury (1671 a 1713) {alguns nobres preenchiam o ócio pensando e escrevendo} afirmava que o homem é dotado naturalmente de um senso de decência que o capacita a distinguir o certo do errado; que essa capacidade independe da noção de deus ou de vida extraterrena; que a moralidade independe de sanções sobrenaturais e se amplia à medida que aumenta a capacidade racional do indivíduo; que a virtude é o equivalente da harmonia, da proporção e do bom gosto. Segundo Hume e Smith, a moralidade é determinada em grande parte pela simpatia recíproca. Mediante educação adequada o indivíduo percebe que o seu interesse próprio consiste em não prejudicar o outro. O resultado dessa educação será a menor necessidade de repressão. Segundo Goethe “o homem de ação não tem consciência; só tem consciência aquele que contempla.”. Certamente, o poeta alemão referia-se à consciência moral, posto ser a consciência orgânica atributo cognitivo de todo ser vivo.

No período de 1400 a 1800 houve mais batalhas do que paz na Europa. Os déspotas se guerreavam. A maioria dos conflitos teve caráter religioso conexo ao político. A partir de 1600 preponderou o motivo político: as nações mais fortes pretendiam a supremacia e a disputavam. Acrescentava-se o motivo econômico: a cobiça dos grupos comerciais. Povos e territórios eram como peões em tabuleiro de xadrez jogado por governos mais fortes. A maior contenda do século XVII se deu entre a dinastia francesa dos Bourbon e a dinastia austríaca dos Habsburgo. Esta última incluiu nos seus domínios a Hungria e a Boêmia. O líder da família Habsburgo ostentava as dignidades remanescentes do Santo Império Romano. A ambição dessa dinastia aliada ao triunfo da reforma católica incluía o domínio sobre a Europa Central, o que provocou a reação dos países setentrionais (Dinamarca e Suécia). Com a morte de Gustavo Adolfo, rei da Suécia, em 1632, a França, que o apoiava, assume a direção da guerra. Além de religiosa, a disputa passou a ser dinástica: Habsburgo x Bourbon. Após a vitória da França, a paz se restabelece em 1648 pelo tratado de Westfália. À França, coube o território da Alsácia e três bispados. A Suécia ganhou territórios situados na Alemanha. A Holanda obteve independência. Aos príncipes alemães foi reconhecida soberania em seus respectivos reinos, o que reduziu o Santo Império Romano a uma ficção. Luiz XIV, ao assumir pessoalmente a direção política da França, em decorrência da morte do seu ministro Mazarino (sucessor de Richelieu), resolveu reorganizar as fronteiras da França junto das quais havia possessões inimigas. Áustria, Brandenburgo, Espanha e Holanda se aliaram para evitar que as províncias belgas caíssem sob o domínio da França. Esta aliança denominada Liga de Augsburgo recebeu o apoio da Inglaterra na guerra que eclodiu (1688 a 1697).

Luiz XIV pediu a paz ante o poderio inimigo. Três anos depois, a França volta à guerra motivada pela sucessão no trono espanhol. Luiz XIV entendia que o herdeiro do trono era o seu neto. A Áustria discordou, aliou-se com a Inglaterra, Holanda e Brandenburgo e iniciou a guerra que só terminou com o Tratado de Utrecht (1702 a 1714). O neto de Luiz XIV assumiu o trono espanhol com o compromisso de a Espanha jamais se aliar à França. Pelo Tratado, a França perdeu Nova Escócia e Terra Nova para a Inglaterra e Gibraltar para a Espanha. Aos Habsburgo couberam Milão e Nápoles que eram províncias belgas. O abade de Saint-Pierre (1658 a 1743) apresentou projeto para criação de uma Liga das Nações com poderes para combater aqueles que violassem a paz internacional. 200 anos depois o projeto tornou-se realidade com o Tratado de Versalhes celebrado em 1919. Os conflitos anteriores entre Inglaterra e França e a disputa pela supremacia comercial e pelo domínio do continente americano culminou com a chamada “guerra dos sete anos” (1756 a 1763). França, Espanha, Áustria e Rússia se uniram contra Inglaterra e Prússia em confrontos na Europa, na América e na Índia. Inglaterra e Prússia venceram. Na França, a derrota abriu caminho para a revolução de 1789. Na Prússia, sob o governo dos Hohenzollern, a vitória proporcionou aumento do território e o status de potência européia. A vitória deu à Inglaterra o status de rainha dos mares e aumentou o seu prestigio internacional.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

FILOSOFIA XIII - 12



EUROPA (1600 a 1800). Continuação.

O fortalecimento dos reis com os impérios coloniais e a política mercantilista que facilitaram a formação de exércitos permanentes e bem equipados tirou as cores e o encantamento do altar pontifical e do trono imperial. À margem do imperador, os reis receberam apoio de banqueiros, mercadores e manufatureiros que ainda não tinham condições de defender seus negócios com recursos próprios. Por outro lado, a revolução protestante quebrou a unidade da igreja cristã, aboliu a suserania do papa sobre os governantes seculares, incitou o nacionalismo e encorajou os reis da Europa Setentrional a estenderem sua autoridade sobre os negócios civis e religiosos. O terreno ficou bem adubado para o absolutismo dos reis nos séculos XVI a XVIII, encorajado por fatores econômicos e sociais e animado pelas idéias de um grupo de juristas e filósofos. A discórdia e a confusão reinantes em França (potência européia da época) alimentaram a idéia de ordem defendida por esse grupo de pensadores como o bem supremo da sociedade. Esses doutrinadores afirmavam que o rei governava por direito divino e devia ser obedecido cegamente; que na defesa do bem comum o rei não estava submetido a regras de moralidade. Maquiavel antecipara essas idéias e os pensadores deste período insistiram na sua adoção pelos governantes dos grandes Estados nacionais, embora alguns atenuassem o rigor absolutista fazendo uma distinção entre governo absoluto (respeita as leis fundamentais do reino) e governo arbitrário (sem freios jurídicos e morais). Havia defensores: (1) do direito de resistência ao soberano arbitrário; (2) da ilicitude criminosa de qualquer resistência, ainda que o soberano fosse arbitrário; (3) da licitude da resistência quando o soberano ordenasse contra deus. Conflito de idéias é comum entre os doutrinadores.   

Na Inglaterra, Henrique VII, que subiu ao trono em 1485, quando terminou a guerra das duas rosas, dá início à dinastia Tudor. A classe dos comuns estava insatisfeita com a anarquia gerada por essa guerra no seio da classe dos nobres. Regozijaram-se com a fundação da monarquia. Essa dinastia aproveitou-se disso para: (1) orientar a consciência dos súditos {o monarca torna-se chefe da igreja anglicana}; (2) submeter os súditos, à vontade soberana do rei. Os mais célebres monarcas dessa dinastia foram Henrique VIII (1509 a 1547) e Elizabeth (1558 a 1603). Jaime VI, da Escócia, sucede sua prima Elizabeth no trono inglês com o nome de Jaime I e inaugura a dinastia Stuart. Com amparo na doutrina, esse rei defende o direito divino de governar e o faz de modo arbitrário provocando descontentamento. Os barões invocavam as garantias expressas na Magna Carta. Carlos I, ao suceder o pai no trono, herda aquele descontentamento popular (1625). Ante a recusa do Parlamento de liberar mais verbas para as despesas da guerra com a França, esse monarca toma empréstimos compulsoriamente dos súditos, obriga-os a aquartelar soldados em suas casas, prende pessoas sem o devido processo jurídico. O Parlamento reage e obriga o rei a prover petição de direitos (bill of rights) pela qual se declarava a ilegalidade: (1) de tributos não votados pelo Parlamento; (2) do aquartelamento de soldados em casas particulares; (3) da prisão de qualquer pessoa sem o devido processo jurídico; (4) da instauração de lei marcial em tempo de paz (1628). O monarca inglês insiste nas arbitrariedades e abusa do poder de tributar. Na chefia da igreja anglicana, ele desagrada aos calvinistas ingleses e escoceses. O Parlamento reage e declara sem efeito a tributação naval baixada sem o seu consentimento, extingue os tribunais de exceção, prende os principais auxiliares do rei, proíbe o monarca de dissolver o Parlamento, exige a convocação das sessões parlamentares de três em três anos pelo menos. Em represália, o rei invade a Câmara dos Comuns e expulsa os parlamentares. Irrompe o conflito. Ambos os lados reúnem tropas e iniciam a guerra civil (1642 a 1649). O rei tem o apoio de alguns nobres, latifundiários, católicos e anglicanos. O Parlamento tem apoio dos pequenos proprietários de terra, dos comerciantes, manufatureiros, puritanos e presbiterianos. O rei é derrotado. No Parlamento há dissensão sobre os poderes do monarca e a tolerância religiosa. O rei aproveita-se da discórdia parlamentar e recomeça a guerra (1648). Novamente sai derrotado. Oliver Cromwell comanda as forças do Parlamento. Afastados os presbiterianos da Câmara dos Comuns, os parlamentares restantes acabaram com a monarquia e instauraram a república. Redefiniram o crime de traição nele incluindo os agravos praticados pelo monarca. Instalou-se uma Alta Corte de Justiça que julgou e condenou o monarca. Carlos foi decapitado (1649). Aboliu-se a Câmara dos Lordes. A Inglaterra torna-se uma república oligárquica.

A revolução puritana remodelou o sistema político inglês que recebe a denominação de Commonwealth (comunidade governada pelo povo). A função que era do rei foi exercida por um Conselho de Estado composto de 41 membros. Apoiado pelo exército, Cromwell dominou o Parlamento e o Conselho de Estado. Alegando abuso dos legisladores, Cromwell os dispersa e instaura a ditadura (1653). A nova Constituição denominada Instrumento de Governo foi escrita pelos oficiais do exército. Cromwell recebe o título de Lorde Protetor. O seu cargo ficou hereditário. Cromwell afirma que a sua autoridade emana de deus. Tanto o Commonwealth como o Protetorado não tiveram o apoio e a simpatia de grande parte da nação inglesa. Com a morte de Cromwell em 1658, sucede-lhe o filho Ricardo, que não se sustentou no governo. O Parlamento convida Carlos II para assumir o trono da Inglaterra (1660 a 1685). O novo rei jurou respeitar o Parlamento, a Magna Carta e a Petição de Direitos. Iniciou a restauração e foi sucedido pelo irmão católico Jaime II, que ameaça o governo protestante (1688 a 1689). Em oposição a isto, um grupo de políticos oferece o trono inglês ao monarca holandês Guilherme de Orange e a sua esposa Maria, filha mais velha de Jaime II. O holandês aceitou o convite e entrou em Londres com seu exército sem disparar um único tiro. Jaime refugia-se na França. O Parlamento declara vago o trono e entrega a coroa aos novos soberanos. O Parlamento expede lei protegendo a si próprio e aos ingleses contra a intromissão da Coroa; concede liberdade religiosa aos cristãos, exceto aos católicos e unitaristas. O Bill of Rights ganha status de lei (1689). O triunfo do Parlamento colocou fim tanto à república como à monarquia absoluta na Inglaterra. A teoria do direito divino dos reis é rejeitada definitivamente. Guilherme e Maria recebem os seus poderes do Parlamento e não de deus. O Parlamento promulga o Act of Settlement, que lhe dá autoridade para determinar quem será o rei (1701). Em disposição transitória, o Parlamento declara que após a morte de Ana, filha mais moça de Maria, a coroa caberá a Sofia de Hanover ou a qualquer dos seus herdeiros que fosse protestante {a casa de Hanover assumiu o trono e nele permanece até hoje}. A revolução puritana serviu de paradigma para as revoluções americana e francesa do século XVIII. A derrota do absolutismo na Inglaterra inspirou outros povos a lhe seguir o exemplo. Pensadores como Voltaire, Jefferson e Paine, defenderam a idéia de governo limitado. Parte do Bill of Rights foi incorporada pela declaração de direitos francesa e pelas primeiras dez emendas da Constituição estadunidense.          

domingo, 3 de agosto de 2014

MÁSCARA



Amiga residente em Campinas-SP, envia pela rede de computadores artigo intitulado “A Máscara do Gigante”, de autoria do escritor peruano Mario Vargas Llosa, publicado no jornal “O Estado de São Paulo”, edição de 27/07/2014. O autor cita “a mítica seleção brasileira, famosa seleção canarinho” da sua juventude, fala em decadência do futebol, lança a culpa sobre o governo de Luiz Inácio Lula da Silva por criar ficção e semear políticas mercantilistas e catastróficas, censura a parceria entre os setores público e privado, os gastos com a Copa do Mundo e a corrupção geral. Afirma, ainda, que a reeleição de Dilma Rousseff levará o povo à ruína e que Fernando Henrique Cardoso organizou as finanças e assentou as bases de uma verdadeira democracia e genuína economia de mercado.

O Brasil é gigante, mas não mascarado. Imenso território, população de 200 milhões, colossal e dispendiosa organização civil e militar, receita e despesa fabulosas, riquezas naturais, economia entre as 10 maiores do planeta. Máscara esconde rosto de indivíduo e não de nação. Na república brasileira há transparência, fronteiras abertas aos amigos, zelo pelos direitos humanos, asilo político, emprego aos imigrantes (inclusive peruanos), aversão ao terrorismo. Oposta ao mito, a política governamental é programa efetivo de princípios e metas. O orçamento é minucioso, aprovado pelos representantes do povo, cuja execução o Tribunal de Contas fiscaliza. Opostos às miragens, os serviços e obras do governo são realidades concretas, deficientes em alguns setores, satisfatórios em outros. A corrupção é universal. A desonestidade não tem cor nem pátria. No Brasil, os vícios são crônicos. As novas gerações se mostram dispostas a combatê-los como indica a rebelião da juventude paulista em junho de 2013 [35 mil pessoas nas ruas, barricadas de fogo, coquetéis Molotov, paus, pedras, balas de borracha, gás lacrimogêneo, tanque com canhão de água, corpo a corpo, correria, prisões].   
 
As seleções brasileiras de futebol de 1950 a 1970 que deslumbraram o escritor em sua juventude existem apenas na recordação. A de 2014, que o decepcionou, também não mais existe. Há várias seleções e não apenas uma única e eterna. Algumas se eternizam no coração do aficionado. Os quadros se renovam e nem sempre mantêm o mesmo padrão de eficiência e beleza. Nem por isto se deve taxar de apagado – como faz o escritor peruano – o rendimento de uma seleção que se classificou em quarto lugar na copa mundial. Ao golear a seleção brasileira, a alemã não aniquilou ficção alguma. O bom futebol brasileiro não é uma ficção e sim uma realidade expressa nos estádios e evidenciada na contratação de treinadores e jogadores brasileiros por clubes estrangeiros. Llosa valeu-se do episódio esportivo como pedra de toque do que tinha em mira: a política governamental. Ele faz da mencionada derrota o aríete para arrombar os assuntos internos do Brasil. Trata-se de artigo encomendado a peso de ouro nesta época de eleição a fim de prestigiar os partidos da oposição e denegrir os da situação. Não custa lembrar: o escritor profissional obtém a sua renda dos textos que escreve.

Do artigo em tela emana sentimento comum a cidadãos de países da América do Sul, misto de hostilidade e inveja camuflado por uma capa de hipocrisia. Com o propósito de aumentar a força persuasiva do texto, o jornal paulista que o publicou informa que o autor recebeu o prêmio Nobel de literatura. O jornal aposta na obtusidade dos leitores. A entrega desse prêmio ocorre em circunstâncias estranhas à obra do escritor. Assemelha-se à FIFA, que concedeu a Messi o prêmio de melhor jogador da copa de 2014 preterindo jogadores cuja atuação foi muito superior à do argentino. Assemelha-se também à Academia Brasileira de Letras que admite gente abstrusa no sodalício por critérios estranhos ao valor da produção literária do candidato. Não se afasta a hipótese da compra e venda dos votos se considerada a sede argentaria que caracteriza a nossa época. O texto de Llosa é capcioso. Ser literato premiado não significa ser honesto, bom caráter, bom marido, bom pai, bom cidadão, nem que a sua opinião fora do campo literário seja mais valiosa do que a opinião do homem comum ou dos cultores da arte, da ciência, da filosofia. Ele talvez entenda de politicagem. Disputou a presidência do Peru e perdeu para Alberto Fujimori (1990). O eleitor peruano não se impressionou com a postura aristocrática e pernóstica de Llosa.

Ao contrário do que diz o açodado escritor, a democracia brasileira não é obra de Fernando Henrique Cardoso, acadêmico aristocrático, oportunista, fauno e velhaco. A democracia resultou da resistência de brasileiros ao regime autocrático durante 20 anos (1967 a 1987). A democracia se consolidou com a reunião da Assembléia Nacional Constituinte e a vigência da nova Constituição. Ao comparar o governo Cardoso com os governos Silva e Rousseff, o escritor peruano mostra desconhecer a política brasileira. O governo Cardoso foi o mais corrupto e antipatriótico da história do Brasil. Vendeu o patrimônio estratégico da nação para lucrar com as gordas comissões pagas pelos adquirentes. No final desse governo a inflação era de 12%. No final do governo Silva o índice estava bem mais baixo. A estabilidade da economia e da moeda foi obra do governo Franco e não do governo Cardoso. Fernando Henrique, o bon vivant, apenas se aproveitou da política do antecessor a quem traiu obtendo a reeleição para si de forma indecorosa quando o seu mandato ainda estava em curso. Ao contrário do que afirma o literato peruano, a política econômica do governo Silva foi vitoriosa e admirada pelas grandes nações. O governo Silva enfrentou de maneira competente e exemplar a grave crise mundial de 2008. Houve melhoria nas camadas pobre e média da população sem prejuízo da democracia e da economia de mercado. Llosa não esclarece o que entende por “genuína” economia de mercado, mas pelo que se depreende do artigo, ele é favorável ao capitalismo selvagem e contrário às garantias dos trabalhadores. Em tom ad terrorem ele qualifica de “muito alarmantes” as cifras sobre o futuro do Brasil e profetiza: “este ano a economia crescerá apenas 1,5%”. Alarmante seria abaixo de zero! Assim mesmo, o juízo de valor dependeria do exame da conjuntura nacional e internacional. Numa retórica vazia, sem base em dados confiáveis, Llosa insinua falsidade nas estatísticas do IBGE.

Mario Vargas Llosa, escritor culturalmente colonizado, usa argumento terrorista ao afirmar levianamente que a reeleição de Dilma Rousseff será a ruína do povo brasileiro. Mensagem de terror igual a que foi utilizada pelo PSDB contra Luiz Inácio na disputa pela presidência da república. Na primeira vez, o terror venceu: Fernando Henrique foi eleito. Na segunda vez, o terror perdeu: Serra não foi eleito. O ostracismo foi o destino da atriz que fazia a tétrica e enganosa propaganda de Serra. Llosa pretende desmoralizar o atual governo, prestigiar o amigo Fernando e cabalar votos para o candidato do seu feitio almofadinha e presunçoso. Ele e Fernando têm em comum a pátria amada (França) e a vaidade transbordante. Llosa vive mais em Paris do que em Lima. No opúsculo “A Civilização do Espetáculo” de sua autoria, ele requenta teses de McLuhan e plagia obras como “A Sociedade do Espetáculo” de Guy Debord e “No Castelo de Barba Azul” de George Steiner. [Herbert Marshall McLuhan, canadense, professor, filósofo, teórico da comunicação, cunhou a expressão “aldeia global” e a frase “o meio é a mensagem”]. No citado opúsculo, Llosa critica a liberdade sexual e o islamismo, lamenta a extensão da cultura às massas, desconsidera a cultura popular e expõe o seu reducionista conceito de cultura como refinamento artístico e literário, com hierarquia de valores, princípios e regras, ofício da elite intelectual.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

FILOSOFIA XIII - 11



EUROPA (1600 a 1800). Continuação.

A expansão comercial da Inglaterra e a abundância de matéria-prima e de mercadorias oriundas do seu império colonial contribuíram para a revolução industrial e para dar os contornos da civilização ocidental moderna: democracia, nacionalismo e industrialização (1760 a 1914). Empresários e investidores privados impulsionados pelo propósito de produzir barato e vender caro, pelo crescimento econômico e pela perspectiva de um mercado mundial, geraram um sistema mecanizado de fábricas que não só atendia à demanda existente como também criava novo mercado e estimulava maior demanda. Esse fato econômico foi denominado “revolução industrial”. Suprida a procura interna, exporta-se o excedente. O mercado externo ficou maior do que o doméstico. Leito tradicional da revolução industrial, a pioneira indústria algodoeira foi criada em função do comércio colonial e se desenvolveu com o trabalho escravo nas plantações das colônias. Não se falava em “revolução industrial” enquanto o sistema fabril atendia apenas ao mercado existente como, por exemplo, a produção de artigos de metal para consumo doméstico (alfinetes, facas, tesouras). A “revolução” se caracterizou quando o volume de produção se tornou muito grande a custo decrescente gerando maior quantidade de consumidores. {A produção de automóveis, por exemplo, fomentou a massiva procura quando a aquisição ficou acessível à classe média. O mesmo se diga do cigarro e de outros produtos}.

A revolução francesa colocou fim ao que restara do feudalismo. No que tange à geografia política, essa revolução foi o termo final da Idade Média e o termo inicial da Idade Moderna e mudou a fisionomia política e ideológica do mundo tal qual a “revolução industrial” britânica mudou a fisionomia econômica. A queda do mercantilismo propiciou a ascensão do novo capitalismo e do individualismo econômico. A classe média urbana teve acesso ao poder político. Com a revolução industrial a partir de 1760 a vida moderna na Europa se torna essencialmente urbana. Há novas profissões, melhor padrão de vida, aumento da população e do consumo de bens, imperialismo, novas teorias econômicas, políticas e científicas, novos costumes, sofreguidão pelo progresso e por explicação racional dos fenômenos naturais e dos fatos sociais. A revolução industrial também produziu miséria e descontentamento no seio dos trabalhadores pobres, dos pequenos comerciantes, da pequena burguesia, protagonistas da revolução social (1848). Essas mudanças no mundo da cultura (sociais, políticas, econômicas) recebem o nome genérico de revoluções por analogia não só com o movimento dos astros como também com o revolver da terra para o lavradio: o humo social é revolvido para o plantio dos novos conhecimentos, técnicas e costumes.  

Um surto de orgias especulativas ocorreu nos séculos XVII e XVIII e atingiu o auge com a falência de duas sociedades por ações: Companhia dos Mares do Sul e Companhia do Mississipi (1720). Ambas prometiam elevados rendimentos nas suas atividades comerciais na América do Sul e nas ilhas do Pacífico (a primeira) e na colonização da Louisiana (a segunda). Na ânsia de ganhar muito, os investidores compraram o máximo de ações que lhes foi possível. O valor das ações dessas companhias subiu dezenas de vezes em pouco tempo. Os acionistas tardaram a perceber que as possibilidades econômicas dessas companhias tinham sido exageradas. As ações perderam o valor rapidamente causando a ruína dos investidores. O colapso na economia suspendeu, por algum tempo, o fervor especulativo. A cobiça por ganhos especulativos logo recomeçou. Nos séculos XIX a XXI, a orgia de inversões de capital com fim especulativo ocorreu periodicamente, assim como as conseqüentes crises econômicas e financeiras que abalaram o mundo.

Da revolução na economia resultou a ascensão da burguesia ao poder econômico e ao poder político. Os hábitos, usos e costumes da Europa expandiram-se por todos os continentes. No século XVII, a burguesia se torna a classe econômica dominante em quase todos os países da Europa Ocidental: banqueiros, comerciantes, proprietários de navios, empresários da indústria e seus principais acionistas. No século XIX, a burguesia alcança a supremacia política na Europa. A escravatura que cessara por volta do ano 1000 retorna com todo o vigor no século XVI. Negros são importados da África para o trabalho nas colônias européias da América. A escravatura passou a integrar o regime colonial por mais de 200 anos. A revolução comercial preparou o caminho da revolução industrial ao criar uma classe de capitalistas que ansiava por aplicar o excedente dos seus ganhos em atividade lucrativa. O poderoso estímulo às manufaturas decorrente do mercantilismo, o colossal aumento de produtos oriundos do império colonial muitos dos quais exigindo manufatura antes do consumo, fizeram surgir novas indústrias livres do sistema corporativo. A tecelagem se mecanizou. Melhoramentos técnicos como a roda de fiar, a máquina de fazer meias e o método de purificar metais aumentaram a produção de bens. 

A alta dos preços e o aumento da população urbana fizeram com que a agricultura se tornasse um negócio rendoso. O pastoreio é substituído pelo cultivo da terra. A Peste Negra e a migração dos homens do campo para a cidade reduziram a população rural valorizando a mão-de-obra do camponês e a sua produção. Os progressos na agricultura se deram também com o desbravar de novas terras de cultivo pelo sistema de trabalho livre e de empreendimento individual. As Cruzadas e a Guerra dos 100 anos solaparam a estrutura da sociedade medieval. Isto permitiu a modernização da agricultura. Estes fatos ocasionaram uma revolução agrícola. A redução de habitantes no campo forçou os senhores a arrendar suas terras cultiváveis. A prática converteu o senhorio em proprietários comuns, nos moldes modernos. Lotearam o sistema feudal de campo aberto com faixas selecionadas e distribuídas entre os servos da gleba. O trabalho cooperativo foi substituído pelo trabalho individual dos lavradores. As partes não cultiváveis onde os camponeses pastoreavam suas manadas e recolhiam lenha em regime comunitário foram cercadas para uso exclusivo dos senhores. Direitos de arrendamento também foram perdidos pelos lavradores. O resultado desse isolamento de terras foi o empobrecimento dos camponeses que recorreram a empregos no campo e na cidade. Os proprietários destinaram as suas terras ao pasto de carneiros tendo em vista o alto preço da lã. O isolamento com cercas começou no século XVII e foi até o século XIX. Além do aspecto econômico, isto atendia a aspiração de ascensão social dos proprietários que, na qualidade de senhores agrários, pretendiam alçar-se à aristocracia. O isolamento completou a transformação da agricultura inglesa em empresa capitalista.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

FILOSOFIA XIII - 10



EUROPA (1600 a 1800). Continuação.

Os movimentos inspirados em idéias e sentimentos profanos e religiosos foram lastreados no comportamento da economia medieval. Esta se desenvolvia em favor da comunidade, sem objetivo de lucro, com pequeno acréscimo no justo preço como remuneração do mercador. Daí, o caráter estático dessa economia. As cidades italianas que mantinham o monopólio do comércio no Mediterrâneo cobravam caro pelos produtos vindos do Oriente (sedas, perfumes, especiarias, tapeçarias). Os mercadores espanhóis e portugueses procuraram descobrir novas rotas para o Oriente fora da área dominada pelos italianos. A utilização da bússola e do astrolábio trouxe maior segurança aos navegantes para se aventurarem no alto mar. Desde o século XII, nos ambientes cultos, sabia-se da esfericidade da Terra. Somente o vulgo ainda acreditava que a Terra era plana e que depois da linha do horizonte havia o abismo. Espanhóis e portugueses incluíam nas suas viagens o objetivo da catequese religiosa. Com o comércio internacional gerado pelas novas rotas, a economia se dinamiza e o lucro é liberado. Esse fato é conhecido como “revolução comercial” (1401 a 1500). Essa revolução lançou os fundamentos do capitalismo moderno. Ganhar dinheiro tornou-se um fim em si mesmo e acumular fortuna, um ideal aceito e almejado. A razão – e não a fé religiosa – domina a economia. O planejamento é sua técnica. O mundo profano é a pátria do dinheiro e do trabalho útil. A atividade econômica rompeu os vínculos de subordinação com a igreja e a moral. Indiferente ao pecado, o lucro é o principal e legítimo objetivo do negociante. A ambição de ganho condenada como turpitudo por Tomás de Aquino, agora é vista como vocação e mérito do homem de negócios. A busca e a posse de metais preciosos, o aumento dos preços, a jogatina no mundo dos negócios, a riqueza pessoal como válido propósito da vida, tudo isto passou a integrar o novo capitalismo.

O lucrativo comércio com o Oriente e a disputa entre Portugal e Espanha por riqueza e pelo domínio do novo mundo descoberto pelas viagens marítimas despertou outras nações para a navegação (França, Inglaterra, Holanda). Apesar de a América ter sido descoberta pelos povos da Escandinávia por volta do ano 1000, coube ao genovês Cristóvão Colombo a descoberta em nome dos reis da Espanha para fins de domínio territorial, exploração econômica e catequese (1492). O pioneirismo da navegação oceânica organizada coube aos portugueses nos meados do século XV. Logo foram seguidos pelos espanhóis, ingleses, franceses e holandeses, fundadores de colônias nos continentes americano, africano e asiático. Os metais preciosos oriundos do tesouro dos Incas, dos Astecas e das minas do México, da Bolívia e do Peru, aumentaram as reservas nos cofres europeus. Toda aquela região americana estava sob o domínio espanhol. As relações entre colônia e metrópole ajudaram na construção do capitalismo europeu. A acumulação de riqueza para inversão futura com o propósito de lucro é característica do capitalismo que atinge a maturidade no século XIX (1801 a 1900).

A revolução comercial inclui o sistema bancário. O empréstimo de dinheiro como atividade comercial acontece na Europa no século XIV (1301 a 1400). Começa com algumas casas comerciais em cidades italianas. Depois, o governo também se dedica à atividade bancária, como na Suécia (1656) e na Inglaterra (1694). As casas comerciais italianas introduzem na circulação econômica as letras de câmbio e o cheque. Isto facilitou as trocas nacionais e internacionais. A mineração, a fundição e a tecelagem se despregam do sistema corporativo quando o capitalista se torna proprietário das ferramentas e das máquinas. Os operários são contratados e recebem salários. Assistência social e garantia trabalhista não existem. Na indústria de tecelagem adota-se o sistema doméstico de produção capitalista. Os mercadores associam-se para monopolizar certa atividade comercial em alguma parte do mundo, sem personalidade jurídica. Submetem-se a riscos comuns e comprometem parte dos seus recursos. Contribuem para a manutenção de docas, armazéns e para a defesa contra quem pretendesse quebrar o monopólio. A associação era disciplinada mediante regras acatadas por todos os membros. A sociedade por ações sucedeu esse tipo de companhia. Algumas dessas companhias tinham patentes. O governo lhes concedia o monopólio comercial e o privilégio de exercer autoridade sobre a população colonial. Graças ao privilégio, a Companhia Inglesa das Índias Orientais governou a Índia como se fosse um Estado particular até 1784.

Outra característica da revolução comercial foi uma eficiente economia monetária. Dificilmente moedas eram aceitas fora da cidade em que circulavam. A partir de 1300, o ducado (Veneza) e o florim (Florença) começaram a circular e ser aceito em toda a Itália e na Europa Setentrional. A experiência frutificou. O comércio e a indústria exigiam sistemas monetários estáveis e uniformes para se desenvolver. Os Estados mais importantes adotaram padrão de dinheiro para ser usado nas transações. A Inglaterra iniciou a cunhagem uniforme durante o reinado de Elizabeth. Na França, o procedimento da cunhagem completou-se na época de Napoleão. A revolução comercial inclui o mercantilismo, modelo de economia em que o governo intervém para estimular a prosperidade nacional e aumentar o tesouro do Estado (erário). Os mercadores apoiaram os reis e obtiveram vantagens. A monarquia absoluta atendia aos interesses dos mercadores associados aos empreendimentos do rei.

O mercantilismo apoiou-se na idéia de a prosperidade da nação ser determinada pela quantidade de metais preciosos existentes dentro dos seus domínios e à sua disposição. Essa doutrina foi inspirada na prosperidade e no poder da Espanha, cuja fortuna parecia resultar da abundância de metais preciosos oriundos das colônias americanas. O Estado que não tivesse metais preciosos obrigava-se a incentivar a produção industrial e exportar mais do que importar mercadorias. Desse modo, acumulava a prata e o ouro resultantes da balança comercial favorável. O mercantilismo implicou nacionalismo, protecionismo e imperialismo. Para ser forte a nação devia depender o menos possível das mercadorias estrangeiras. O governo devia controlar os salários, as horas de trabalho, os preços e a qualidade dos produtos, bem como, incentivar o crescimento da população. Os pobres deviam servir como operários e soldados. A caridade ou o espírito de justiça estavam ausentes da relação entre as camadas alta, média e baixa da sociedade. As colônias forneciam matéria-prima e consumiam os produtos vindos da metrópole. O Estado ganhava mais do que os mercadores.  Os atos de navegação de 1651 e 1660, expedidos pelo governo britânico, tinham por objetivo garantir o monopólio do transporte de produtos da colônia para a metrópole e que certos produtos, como o tabaco e o açúcar, viessem diretamente para os portos da Inglaterra onde seriam pagas as taxas alfandegárias. O espírito dessas leis era o de que as colônias serviam para enriquecer a metrópole. A França, sob Luiz XIV, conheceu e aplicou amplamente o mercantilismo (1643 a 1715). O grande maestro da economia dessa época foi o ministro Jean-Baptiste Colbert. Sendo o Estado francês a encarnação do absolutismo, a tarefa de Colbert ficou facilitada. O mercantilismo foi a expressão econômica lógica do absolutismo político.    

domingo, 27 de julho de 2014

SELEÇÃO



Depois da derrota da seleção brasileira na Copa de 2014, entidades esportivas, jogadores, treinadores, torcedores, jornalistas, bradam por mudanças imediatas no futebol brasileiro. Essas mudanças podem ser de dois tipos: estrutural e funcional. 

A mudança estrutural é a mais urgente. Inegável e insofismável o interesse nacional na organização da seleção brasileira de futebol. Entre os objetivos fundamentais da república brasileira está o de promover o bem de todos. O bem cultural entra nessa pluralidade, incluído na ordem social. O futebol é um bem cultural da nação brasileira. A sua transferência da esfera privada para a esfera pública ampara-se nos dispositivos constitucionais que estabelecem como dever do Estado a democratização do acesso aos bens culturais e o fomento às práticas desportivas. O novo dispositivo a ser introduzido na Constituição com base nesses preceitos dará tratamento específico à seleção ante o seu alto valor para a cultura popular. A seleção refletirá a vontade do povo e não a caprichosa e autocrática vontade do presidente da Confederação Brasileira de Futebol - CBF. Emenda à Constituição Federal poderá introduzir o artigo 217-A, criando um órgão estatal de composição mista: pessoas indicadas pela Câmara dos Deputados, pelo Ministério dos Esportes, pela CBF e por associações de árbitros, jogadores e jornalistas. Esse órgão colegiado, autônomo e representativo terá a exclusiva competência de organizar e administrar a seleção. Por representar o Brasil de modo significativo no cenário mundial a seleção não deve mais ficar na esfera privada. O novo órgão propiciará benéfico distanciamento dos interesses econômicos privados. A seleção livrar-se-á das idiossincrasias dos dirigentes da CBF. A formação do elenco dependerá menos da simpatia ou antipatia de tais dirigentes em relação aos jogadores. Simpático ou não, lobo ou cordeiro, o atleta selecionado deve estar em forma, exercer bem a sua função em campo e manter os laços de solidariedade e urbanidade com os membros da equipe.

A mudança funcional ocorre normalmente quando a seleção brasileira sai perdedora em copas do mundo. Mudam o treinador, a comissão técnica e jogadores. Assim foi no passado e assim acontece no presente. Convenhamos: há mérito em obter o lugar no torneio mundial com 32 seleções de nível médio e superior. Nas 20 edições da copa do mundo as seleções brasileiras perderam 15, fato que os torcedores sepultaram no fundo da memória (com exceção da derrota sofrida em 1950). Os torcedores gostam de recordar somente as 5 vitórias das quais apenas duas foram consecutivas (1958 e 1962). O novo treinador (Dunga) é tão bom quanto os antecessores e outros treinadores em atividade. Convocar jogadores jovens e veteranos desde que todos estejam em plena forma física, técnica e psicológica foi iniciativa sensata. Ele provou sua qualificação ao dirigir a seleção de 2010. Imaturos, Ganso e Neymar não foram convocados naquela ocasião. Posteriormente, verificou-se o acerto da exclusão. Na partida final do torneio mundial de clubes os dois já entraram derrotados do ponto de vista psicológico (18.12.2011). Suplicando as bênçãos do ídolo Messi, eles dobraram a espinha frente aos catalães. Ganharam um “chocolate” (4x0). Este não é o perfil de jogador adequado para uma seleção que outrora não se intimidava diante de adversários fortes ou de estrelas estrangeiras. O treinador Scolari também não convocou Ganso para integrar a seleção de 2014. Convocado, Neymar teve um desempenho discreto. O treinador Scolari porta bom currículo. Ao ser escolhido para dirigir a seleção ele foi aplaudido e incensado pela imprensa, a mesma que agora lhe aponta o dedo acusador. O atual treinador (Dunga) tem justo motivo para se manter reservado diante dessa imprensa volúvel e leviana.

A preocupação maior desse jornalismo chinfrim não é com a seleção e sim com a audiência das suas emissoras e com a venda dos jornais e revistas. Para satisfazer seus interesses esse jornalismo rompe com os limites da ética e do direito. Com petulância e desfaçatez os jornalistas dessa laia invadem a privacidade alheia, buscam saber a cor da cueca do jogador ou da calcinha da namorada, distorcem o que foi dito nas entrevistas e reportagens, perturbam o trabalho da equipe esportiva tomando-lhe o tempo e pretendendo impor-lhe diretrizes. O atual treinador é contra a badalação que desassossega o grupo. Tal qual Leonel Brizola, gaúcho como ele, Dunga não se deixa seduzir pela luz dos holofotes, não se conduz pela conversa e nem se intimida com a agressividade e a pressão desses jornalistas. Tampouco se impressiona com jornalista do tipo folgado e gozador que se vale do deboche como armadura para esconder frouxidão e covardia. Por tudo isto, a ala carnavalesca da imprensa não gosta do treinador Dunga e não perde ocasião para fustigá-lo. Jornalistas mequetrefes aproveitam-se da profissão para excretar ódio e veneno pela boca. Manipulam consultas ao povo para provar falsamente a rejeição do treinador e indispô-lo com a opinião pública. Contra a evidência dos fatos, essa malta de difamadores esforça-se para desqualificar o bom trabalho desse treinador. Patrulhamento indecoroso. Jornalismo da pior espécie.

Dentre os poucos esquemas táticos existentes, cada treinador escolhe o da sua preferência. Há esquemas ofensivos, há esquemas defensivos e há esquemas que conciliam os extremos. Os brasileiros imitam os estrangeiros no coletivo. Os estrangeiros tentam imitar os brasileiros no individual. Fundada no caráter coletivo do futebol, a robotização aprimorou a técnica do conjunto e reduziu o espaço da criatividade individual e do improviso. A seleção holandesa de 1974 foi o primeiro modelo. Depois, veio o modelo espanhol (2010) e, agora, o alemão (2014). Apesar do longo preparo, a seleção germânica penou para vencer a platina. O sofrido gol da vitória, único da partida, só aconteceu no final da prorrogação.

No que tange à disciplina em campo, as mudanças mais urgentes estão na regra do impedimento e na punição da violência. Só o impedimento passivo conhecido como “banheira” deve permanecer como infração. A maliciosa esperteza viola o dever de lealdade. A nova regra ou a interpretação da regra atual deve considerar legal a invasão do espaço desprotegido quando: (1) ocorre na seqüência da jogada a partir do espaço protegido; (2) for subseqüente à cobrança de falta ou de escanteio; (3) a defesa se afasta para deixar o adversário sozinho no momento do lançamento da bola. Diante desta mudança a defesa omissa não será mais beneficiada, a malandragem em campo não terá sucesso, as jogadas bonitas não mais serão interrompidas porque o atacante está com a ponta da chuteira no espaço desprotegido, a arbitragem exibirá a face mais séria e pedagógica do esporte e muitos equívocos prejudiciais ao espetáculo e ao resultado do jogo serão evitados. Cotovelada dolosa ou culposa no rosto do adversário deve ser punida com expulsão sem margem de tolerância. O jogador profissional deve ter habilidade suficiente para evitar que seu cotovelo, seu braço ou sua mão atinjam o rosto do adversário ainda que “sem querer”. A presunção de ingenuidade e inocência do agressor é incompatível com o nível profissional e com a realidade.  

Houve sensível melhora no rendimento das equipes em todo o mundo desde que se adotou, ainda no século XX, o planejamento tático, a análise dos jogos filmados, o ensaio das jogadas, a disciplina coletiva, a formação de jogadores a partir das categorias de base (infantil e juvenil). Aos jogadores são destinadas camisas, chuteiras e caneleiras de material e modelo especiais para maior conforto. Os jogadores de seleção e dos melhores clubes são assistidos por médicos, psicólogos, nutricionistas, massagistas e professores de educação física. Eles têm à sua disposição alimentação balanceada, aparelhos de ginástica de última geração tecnológica, acomodações higiênicas e confortáveis. O aprimoramento técnico deles exige disciplina, esforço, dedicação, repetição de movimentos à exaustão. Condicionam-se reflexos. A união da capacidade técnica com o talento faz um excelente jogador. Técnica se adquire. Talento é inato, mas inútil se não for cultivado.